terça-feira, junho 02, 2020

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732


Em memória bem viva de José Paulo Goulart de Bettencourt



Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde e, novamente, com um muito especial abraço de força e de confiança no futuro aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão, que estão agora a atravessar uma fase complicada da epidemia.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 1 de junho de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

António Baptista Coelho


Continuando a apresentar e comentar reflexões de projectistas e estudiosos sobre aspetos considerados estruturantes nas opções de organização dos espaços domésticos, ficamos em seguida com Amos Rapoport e, depois, com Christopher Alexander, entre opiniões de outros autores, privilegiando-se uma perspetiva que tenta aprofundar a grande diversidade de soluções potencialmente disponibilizadas, que integram uma verdadeira dimensão de adaptabilidade habitacional, e que, assim, propiciam uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.

Habitação e modos de vida

Amos Rapoport evidencia três factores a ter em conta naquela que ele considera dever ser uma aproximação muito cuidadosa e funcionalmente “aberta” a uma solução doméstica que sirva, o melhor possível, determinados modos de vida familiares: (1)
A negrito/bold evidenciam-se as indicações de Rapoport e de outros autores.
·        o afastamento cultural existente e a "capacidade de comunicação" que possa ser criada entre habitante e projectista [capacidade esta que parece ser potenciada através da acção de certos promotores como é evidentemente o caso das cooperativas de habitação, que desde sempre consideraram a participação dos, e a boa informação aos, futuros habitantes como um processo essencial no acesso à habitação];
·        a significativa variedade de subculturas que estão, actualmente, em mutação rápida (designadamente, por desenraizamento cultural e imigração para as grandes cidades) [e aqui poderemos acrescentar que actualmente vivemos um período em que essa grande diversidade de modos e desejos de habitar ficou e ficará extremamente evidenciada];
·        e a existência, em cada grupo sociocultural, de muitos níveis de aculturação e mesmo de mutação sociocultural.

Diversidade no habitar – diversas soluções domésticas e de vizinhança

É ainda Rapoport que evidencia o que considera ser a principal medida de adequação entre habitação e família, ou entre habitação e características socioculturais, que é, para aquele estudioso, a oferta de uma ampla capacidade de escolha ao futuro morador, seja do tipo específico de habitação, seja do tipo geral de solução habitacional.
E se a escolha do tipo geral de habitação, designadamente, entre soluções uni e multifamiliares é bastante difícil, essencialmente por razões financeiras e de localização, então o “universo” das soluções multifamiliares poderia e deveria obviar a esta falta de diversidade de oferta, disponibilizando um amplo leque de formas de habitar com variedade de caraterísticas específicas e de relacionamento com o exterior; o que infelizmente não acontece.
Trata-se, portanto, de uma espécie de capacidade de adaptação prévia, por possibilidade de escolha e aqui importa comentar que o mercado, infelizmente, nem disponibiliza, habitualmente, variedade de soluções habitacionais de vizinhança e de formas de associação em edifícios, nem mesmo variedade de soluções domésticas, o que seria muito mais simples.
Mas, não! O mercado, por regra, oferece o mesmo “produto” do 1º ao 7º andar. Há excepções, começa a haver excepções, mas por ora elas pouco ultrapassam a barreira da produção dita de luxo, ou então da promoção de interesse social, quando bem qualificada e informada.

 

Habitação adaptável

Há que evidenciar aqui que as matérias da adaptabilidade doméstica são de extrema importância no sentido de uma maior apropriação da casa pelos seus habitantes e de favorecimento de soluções domésticas mais duráveis e adequáveis em termos de natural conversão funcional e de ambiente doméstico geral – por exemplo, uma casa que se transforme com facilidade de uma solução com um assinalável peso de áreas de quartos, para uma outra marcada por uma expressiva sequência de áreas de estar.
A adaptabilidade doméstica foi aprofundada, ainda não há muitos anos, num livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9), e importa aqui referir que ela é fundamental:
  •  quer no sentido de se proporcionar aos moradores uma expressiva capacidade de apropriação do seu espaço doméstico;
  •  quer no sentido de se compatibilizar a organização da habitação e dos seus aspectos específicos de ordem construtiva, funcional (relações entre espaços), dimensional, ocupacional (capacidade de acolhimento de mobiliário) e ambiental (localização, dimensão e características de abertura de vãos exteriores).



Fig. 01: livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9).

Habitação apropriável e habitação natural e agradavelmente mutante

A primeira perspectiva, acima referida, evidencia a importância que tem o potencial de capacidade de apropriação de uma habitação por parte de quem a habita. Trata-se, naturalmente, de um aspecto de enorme importância para o desenvolvimento da adequação habitacional e de um sentimento de verdadeira satisfação com o habitar, e tem expressão directa na possibilidade que a casa deve oferecer para o desenrolar de uma importante dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos:
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário, mais frequentes, simples e passivas (simples mudanças nas disposições de conjuntos de mobiliário e outros elementos de composição e decoração);
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos.
Um exemplo extremo deste tipo de solução é dado por Sven Thiberg (Sven Thiberg, Ed., "Housing Research and Design in Sweden", p. 139), quando se refere ao compartimento tradicional da casa japonesa, que muda, funcionalmente, através de mudanças de peças de mobiliário muito simples; e,  mesmo na nossa cultura, bastará recuarmos à Idade Média para encontrarmos soluções semelhantes.

E há que sublinhar que a referida dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos obriga a uma organização e a um dimensionamento muito cuidados dos espaços domésticos e a uma espaciosidade razoável porque seja ou claramente acima dos mínimos regulamentares, ou próxima de tais mínimos mas compensada por uma excelente solução de organização e configuração domésticas – um excelente projecto de Arquitectura, portanto.




Fig. 02: o atual espaço de trabalho do autor destas linhas, que resultou do aproveitamento de uma velha mesa de jogo, arrumada num canto de um compartimento razoavelmente espaçoso e bem localizado na contiguidade de uma varanda; a relativa exiguidade do espaço é em boa parte compensada pela sua excelente localização em termos de conforto ambiental (luz natural, ventilação natural, boa orientação solar a Sul, contiguidade com o exterior privado.
Neste “recanto” doméstico é possível conciliar um razoável leque de atividades de trabalho e de lazer (ex., leitura e audição de música), criando-se condições adequadas para a privacidade e um membro da família e para as suas necessidades de relativo isolamento (trabalho, lazer); condições estas que podem ser replicadas em outros compartimentos da habitação para outros membros do agregado, com excelentes resultados em termos de adequação ao trabalho individual e a gostos específicos de vivência doméstica e, reservando-se, assim, naturalmente, os espaços domésticos mais sociabilizantes para o convívio doméstico.
E tudo isto mediante pequenos, mas muito judiciosos, incrementos às áreas e, muito especialmente, às dimensões domésticas consideradas mínimas, excelentes previsões em termos das diversas dimensões do conforto ambiental doméstico e, naturalmente, um excelente projecto de Arquitectura, que estrutura e organiza a habitação de um modo claramente e “passivamente” adaptável a essas diversas apropriações e atividades.
O projecto de Arquitectura deste edifício multifamiliar é dos anos de 1960, com autoria dos arquitectos Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo.

 Junção e subdividão de compartimentos

A segunda perspectiva, acima referida, as conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos, tem tem idênticas influências na capacidade de apropriação e de identidade que a habitação deve oferecer e liga-se:
·         Quer à evolução da família que aí resida (crescimento e decrescimento);
·         Quer à mudança nas necessidades e nos gostos domésticos; por exemplo, à medida que a família original envelhece e cresce haverá mais necessidade de mais espaço de circulação e de desafogo funcional e, eventualmente, um maior gosto numa especialização de zonas de estar.
·         E esta perspectiva de junção e subdividão de compartimentos é servida:
·         quer por simples aspetos de pormenorização, extremamente fáceis de prever, como é o caso da distribuição estratégica de tomadas de telecomunicações ao longo da casa, proporcionando variadas utilizações e versáteis mudanças de usos dos mesmos compartimentos;
·         quer por aspectos estruturantes na organização da habitação, mas que podem proporcionar uma sua riquíssima versatilidade de uso, como é caso de uma parte do espaço doméstico poder ser usado como espaço total ou relativamente autónomo, desde que disponha, ou possa vir a dispor, sem obras significativas, de acesso próprio e de instalações mínimas de cozinha e sanitárias.(2)
  

Adaptabilidade doméstica e adequação a modos de vida

A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida, caracterizando diversos tipos de agregados familiares e, até, diversas apropriações funcionais específicas, é, cada vez mais, um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, pois assim se podem servir melhor um leque crescente de modos de vida e de usos da habitação, que decorre, tal como sintetizei num anterior livro editado pela livraria do LNEC (“Do bairro e da vizinhança à habitação” – ITA 2):
  • de uma diversidade de horários de trabalho;
  • da ausência, frequente, dos habitantes no seu domicílio, durante os dias úteis;
  • de um nível gradualmente mais elevado de acesso à cultura e à informação;
  • da mobilidade dos agregados implicada por uma tendência, provavelmente crescente, de mobilidade nos postos de trabalho;
  • da recuperação do uso da casa, também, como sítio de trabalho(s);
  • do crescente uso da casa como sítio privilegiado de exercício de actividades de lazer e de “segundas actividades”, tendencialmente cada vez mais numerosas, temporalmente cada vez mais prolongadas e frequentemente bastantes exigentes em termos de condições específicas de concretização;
  • e da tendência fortemente crescente de existência de modos de vida e de tipos de agregados familiares socioculturalmente diferenciados, e aos quais é essencial proporcionar respostas domésticas expressivamente adequadas, seja diretamente, seja através de fáceis condições de conversão – construtivamente simples e baratas e bem adequadas nos respetivos aspetos de manutenção.
Naturalmente que todo este tipo de previsões, quando associado a habitações destinadas a grupos sociais com reduzidas e médias condições económicas não pode implicar uma inflação de espaços específicos e uma exagerada previsão dimensional, sendo, portanto, vital que a habitação incorpore excelentes condições de adaptabilidade passiva e de convertibilidade; condições estas que devem merecer uma especial atenção em termos de segurança estrutural do edifício sempre que estejam associadas à ligação entre compartimentos, sendo muito recomendável uma evidenciada marcação e informação dos elementos construtivos que não podem ser intervencionados.

Notas:
(1) Amos Rapoport, "Housing Ecology", p. 149.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 637.


Uma primeira versão, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 472 da Infohabitar, em 17 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 732

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).



segunda-feira, junho 01, 2020

Em memória bem viva de José Paulo Goulart de Bettencourt



É com grande tristeza que se regista, aqui na Infohabitar, o falecimento do Arquitecto José Paulo Teixeira Goulart de Bettencourt, na passada sexta-feira dia 29 de Maio de 2020.

O Arq.º Paulo Bettencourt partiu apenas com 62 anos e é membro fundador do Grupo Habitar – Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (APPQH) – hoje GHabitar - APPQH, com o número 32, inscrito em Dezembro de 2003.
É alguém essencial no início da atividade do Grupo Habitar, sempre com a sua enorme humanidade, simpatia e capacidade de dinamização, tendo sido um dos principais promotores da primeira “Visita Alargada” do GHabitar, que aconteceu, a partir da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, em 12 e 13 de Outubro de 2007, com visitas acompanhadas e comentadas à Citânia de Sanfins – no âmbito do tema “O Habitar e a História: entre o habitar de hoje e as primeiras soluções de habitar” – e à “Rota do Românico”; dois dias verdadeiramente extraordinários, tanto em convivência como no raro diálogo entre variadas disciplinas, e que ficaram muito bem marcados na memória de quem teve a oportunidade única de os viver.
Entre muitas outras atividades e iniciativas o Arq.º Paulo Bettencourt desenhou o edifício da Câmara Municipal de Paços de Ferreira e as piscinas municipais entre outros marcantes edifícios no Concelho, onde trabalhava há 30 anos, atualmente como chefe de Divisão de Planeamento e Gestão Urbanística.
Verdadeiro humanista, José Paulo Goulart de Bettencourt, sempre estendeu os seus interesses por outras áreas, entre as quais se destacam a música, a agricultura - na sua quinta na freguesia de Frazão - e a defesa do património, sendo presidente da Associação Patrium, Associação de Defesa do Património Material e Imaterial de Paços de Ferreira.
O Arquitecto José Paulo Goulart de Bettencourt está e estará sempre bem vivo na nossa memória.
A GHabitar – APPQH, e os seus Corpos Sociais prestam homenagem ao Arquitecto José Paulo Goulart de Bettencourt e aqui registam os sentidos sentimentos à sua família,
Pela GHabitar-APPQH
António Baptista Coelho
Presidente da direção

terça-feira, maio 26, 2020

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731


Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 731

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)


Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar e estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde, e com um muito especial abraço de força, de confiança no futuro e de saudade aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 25 de maio de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


 PS: e, já agora, atentem que já ultrapassámos as 1.200.000 consultas - page-views

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731


Mais do que tudo o que, em seguida, se aponte sobre as matérias associáveis à organização doméstica e à sua influência numa expressiva satisfação dos habitantes, na fruição doméstica há aspetos ligados ao que podemos considerar como referidos à diversidade na organização dos espaços domésticos que importa sublinhar por se considerarem determinantes num tal resultado.

Organização espacial habitacional e qualidade arquitetónica

O primeiro aspeto é que a qualidade da organização espacial e da pormenorização se ligue, intimamente, a uma adequada ideia de habitar e de viver a casa, por outras palavras é fundamental que a função siga a forma, não perdendo, naturalmente, eficácia, porque nós habitantes vivemos as casas, intensa e profundamente e, portanto, a forma interior das casas tem de ser algo fortemente coerente e equilibrado; matéria que importa vir a desenvolver posteriormente.
Para já, no entanto, interessa apontar que o próprio sentido de diversificação de usos e apropriações domésticas pode e deve estar “embebido” na organização global da habitação; e tal objetivo é razoavelmente simples de considerar, se visualizarmos espaços de vivência doméstica rigidamente estruturadores de determinadas formas de habitar, porque dimensionalmente “estritos”/mínimos e super-hierarquizados: considerando-se, naturalmente, que habitações formal e funcionalmente diversificadas serão caracterizadas pela antítese de tais “qualidades”.

Adaptabilidade habitacional passiva

Um outro aspeto a ter em conta, quando se visa a diversificação básica do espaço doméstico habitacional, é a enorme importância que tem a adaptabilidade passiva numa habitação, uma condição que lhe permite satisfazer um significativo leque de funções nos mesmos espaços e, tão importante como isso, um amplo leque de ocupações específicas por mobiliário em cada espaço.
Esta adaptabilidade passiva, que é motor de uma apropriação extremamente ativa, baseia-se em condições que estão associadas, quer a uma organização e/ou estruturação doméstica significativamente neutral, embora bem afirmada, quer a condições de espaciosidade e de dimensionamento cuidadas; e tanto mais cuidadas quanto menor for a quantidade de espaço que esteja disponível – o que obriga a um grande cuidado por exemplo quando tratamos de habitação de interesse social; e não tenhamos quaisquer dúvidas de que, muitas vezes, alguns, poucos centímetros suplementares, desde que judiciosamente planeados, podem dinamizar exponencialmente o potencial de adaptabilidade de um dado espaço doméstico, enquanto o sentido de abertura de uma porta e a relação entre vão e a parede contígua podem ser, igualmente, motivos de maximização de uma adaptabilidade natural.

Funcionalidade habitacional

Outro aspeto tem a ver com a maximização das condições funcionais associadas a instalações e equipamentos, à capacidade de arrumação e a uma grande facilidade de execução das tarefas domésticas mais intensas e mais exigentes, como é o caso da preparação de refeições, do tratamento de roupas e da limpeza doméstica.
Realmente é hoje em dia fundamental que todo este leque de condições seja garantido de uma forma maximizada e não há desculpa para que isso não aconteça pois todas essas funções estão já exaustivamente estudadas e existem documentos claros que as elucidam.
De certa forma trata-se de “concentrar” e de super-funcionalizar todas as tarefas domésticas relativamente obrigatórias; mas atenção, que não podemos deixar de as tratar como expressivamente realizadas em ambiente doméstico confortável, potencialmente bem apropriadas e claramente submetidas a um sentido global “de casa”; e, alternativamente, até, “embebidas” de modo a que nos possamos delas esquecer, se assim o quisermos.
Mas não tenhamos dúvida de que se quisermos ter habitações potencialmente adaptáveis a múltiplos gostos e formas de habitar, há que servir muito bem o respetivo funcionamento doméstico em tudo aquilo que, afinal, é comum a todas as formas de habitar; caso contrário as exigências funcionais irão, frequentemente, “transbordar” e invadir, gradualmente, toda a habitação, deixando muito pouco espaço e poucas condições para a podermos marcar com os nossos sonhos e com as nossas opções em termos de modos de vida.

Acessibilidade habitacional

Ainda outro aspeto desta reflexão sobre como potencial a diversidade organizacional doméstica, decorre em boa parte das considerações que acabaram de ser apontadas e tem a ver com a disponibilização de condições globais de acessibilidade no interior da habitação, tema este sobre o qual há também já muito dos elementos de apoio técnico necessários; e, afinal, a funcionalidade essencial para pessoas com dificuldade na movimentação é sempre uma funcionalidade acrescida para aqueles que não têm tais limitações, uma matéria frequentemente esquecida quando se trada deste assunto.
E só quem nunca habitou espaços domésticos bem qualificados por acessibilidades alternativas do exterior ao interior doméstico e até no próprio interior doméstico poderá duvidar do interesse desta consideração; o potencial em termos de diversidade de acessos atribui a uma habitação uma qualidade especial, quase uma dimensão especial, bem distinta de acessibilidades únicas e rigidamente hierarquizadas.

Importância da organização habitacional

Salienta-se, ainda, que os primeiros dois aspetos, que foram apontados neste artigo, englobam, claramente, os últimos, pois é, afinal, de uma organização espacial bem estruturada e adaptável que pode resultar uma casa adequada, e sobre isto basta dizer que há muitas casas realmente adequadas que cumprem essas duas primeiras condições e não as últimas.
Afinal, e tal como se tem apontado, a função não é tudo, acaba mesmo por ser muito pouco, designadamente, quando estamos em presença de uma boa Arquitetura habitacional, mas se pudermos respeitar um cuidadoso leque de objetivos funcionais é, naturalmente, preferível,  e será mesmo essencial quando se trate de uma habitação nova.
E, já agora, e a propósito, quando estamos em presença de uma “velha” habitação, arquitectonicamente positiva e organizacional e funcionalmente bem marcada – por vezes verdadeiramente “única” a este nível – toda esta reflexão deve ser bem matizada pela essencial oferta de um modo bem próprio de habitar, que pode ser proporcionado e verdadeiramente habilitado, apenas, por aquele espaço doméstico e não por outro; e é interessante constatar que, muitas vezes, é a partir deste ponto de partida primeiro formal e só depois funcional e muito próprio que resultam modos de habitar privados e familiares diversificados, ricos e “únicos”.


Fig. 01: considerar a “Habitação” como espaço distinto e sempre (re)imaginável, logo diversificado e diversificável em múltiplas dimensões de apropriação.

Habitação como espaço distinto e imaginável


Lembrando um dos muitos essenciais pensamentos de de Christian Norberg-Schulz, sobre um habitar tão humano como arquitectónico, afinal, a casa não é um refúgio funcional, um "não lugar" uniforme, mas exige um espaço distinto e [verdadeiramente] uma cena que se possa imaginar. (1)
Evidentemente que uma tal capacidade de imaginação está na base da diversidade habitacional, quer como base de habilitação para essa capacidade de sonhar, no sentido de construir pequenos mundos imaginados, quer como resultado final enriquecedor e fio condutor para a continuidade de tais sonhos.
E esse espaço "distinto e imaginável", portanto, base de algum sonho de como se deseja habitar, tem já uma longa história a registar, pois já passaram mais de 10.000 anos dsde o início de uma sua construção mais premeditada em termos de espaços e ambientes comésticos, e sobre estes tantos anos de evolução, que como em tantas outras áreas tiveram uma enorme dinâmica no passado Século XX , podemos citar uma síntese de Claude Lamure, que aponta ter acontecido uma diferenciação progressiva do espaço, e uma evolução genérica de um único compartimento multifuncional até ambientes muito compartimentados e funcionalmente especializados, ou mesmo espacializados (podemos nós comentar). (2)
E não é possível deixar de comentar que tal evolução é, em si própria, um verdadeiro fluxo de diversificação habitacional; sendo que de uma estafada cartilha (uni)funcional – podemos ainda considerar – poderemos agora avançar para uma expressiva e relativa microfuncionalização e para uma cuidada mas bem assumida diversificação plurifuncional doméstica.

Da unidade à diferenciação do espaço habitacional

Será, portanto, desta base funcional, de um espaço doméstico único, amplo e indiferenciado, onde aconteciam todas as funções e outras matérias domésticas nas pequenas casas de terra de Çatal Huiuk, na actual Turquia, há cerca de 10.000 anos, que fomos evoluindo, consoante as nossas culturas, as nossas paisagens de habitar e os nossos meios financeiros e outros, até à enorme casa altamente diferenciada nos mais diversos tipos de compartimentos e outros espaços domésticos e para-domésticos, tecnológicos e “inteligentes”, que se diz terem integrado uma grande casa que Bill Gates desenvolveu para seu uso pessoal, há já alguns anos.
Mas esta evolução traz-nos, hoje, também a redescoberta de um certo novo sentido de amplo espaço pouco diferenciado ou muito comunicante que carateriza, por exemplo, a recente corrente dos lofts habitacionais, que acabam, afinal, por recriar o tal espaço único, mas agora com uma enorme amplitude de volume de ar interior e com todas as mais recentes tecnologias.
E o evidente “segredo” será tentar tais qualidades de grande diversificação e multiplicação formal e funcional doméstica em espaços dimensionalmente delimitados;  não tenhamos quaisquer dúvidas de que tal passo só é possível através de uma grande, de uma excelente arquitectura habitacional!

Influência da habitação no habitante

Esta é uma matéria à qual iremos tentar voltar e aprofundar, um dia, porque ela o merece, mas a ideia desta referência, da influência direta e indireta da casa sobre o seu habitante – nesta entrada temática às matérias dos aspectos domésticos que poderão ser mais indutores de verdadeira diversificação, adequação e satisfação residencial, tem a ver com a ideia, que defendemos, de a organização doméstica, ou o caráter da organização doméstica e, naturalmente, depois, a sua própria espacialização, constituírem matéria crucial:
. quer numa forte adequação a modos de vida;
. quer na construção de uma caraterização residencial e doméstica expressivamente influenciadora – determinante nessa influência que se julga que a casca do caracol tem sobre o caracol humano (lembrando-se uma noção lançada por Amália Rodriques ao referir-se à sua casa).
E neste jogo de relações a ideia, que se julga poder ficar como base de sequenciais reflexões, é que os aspetos funcionais têm a sua importância, mas há muito mais para lá, ou ao lado, dos aspetos estritamente funcionais; e  por isto se dá, aqui, algum desenvolvimento a estas matérias.

Organização doméstica: opções básicas

Claude Lamure oferece-nos algumas linhas de reflexão nesta perspectiva de preocupações com uma organização doméstica verdadeiramente satisfatória e consequentemente diversificada e/ou diversificadora, e diz-nos que: (3)
. "podemos distinguir, frequentemente, espaços que agrupam diversos compartimentos e que se diferenciam de formas várias" (ex., várias funções, características mais conviviais ou mais íntimas, etc.);
. que "inversamente, num mesmo compartimento, diversos espaços ou cantos/recantos podem ser caraterizados por diversos critérios: apropriação por este ou aquele membro da família, tipo de actividade, ou de decoração".
. e que, "mais globalmente, as zonas bem diferenciáveis são aquelas que são acústica e visualmente isoláveis".
Ora temos, assim, um caminho que parece ser agradavelmente simples e coerente numa estruturação de espaços domésticos: zonas mais, ou menos, conviviais ou “sociais”, possibilidade de desenvolver subespaços caracterizados, dentro de outros espaços maiores, e eleição dos isolamentos visual e acústico como elementos fundamentais na criação de diferentes zonas domésticas.
Seguindo-se, assim, um filão organizativo muito mais de conforto ambiental, do que “simplesmente” funcional; e poderemos, até, incluir a funcionalidade num alargado e adequado sentido de conforto.


 Fig. 02: as opções de organização de uma habitação jogam-se em múltiplos aspetos dimensionais, relacionais, de conforto ambiental e de funcionalidades; e as opções de organização de uma habitação têm de ser, também, opções formais de criação de determinados “ambientes” domésticos.

Várias opiniões sobre as opções de organização da habitação

A ideia que fica é que, sinteticamente, estará, talvez, quase tudo nessa reflexão de Lamure.
No entanto, nestas matérias tão sensíveis, que muito têm a ver com os aspetos específicos de cada intervenção e de cada ideia de habitar a cidade, a vizinhança e o edifícios, haverá muito a ganhar com a integração de outras reflexões de outros projectistas e estudiosos nestas matérias e por isso, a seguir, se integram e comentam, com grande brevidade, algumas outras ideias sobre a organização dos mundos domésticos, numa ordem que tenta dar relevo aos aspetos julgados mais importantes no objetivo de aproximação a uma casa que possa ajudar a uma vida doméstica mais adequada, porque diversificada, agradável e estimulante.

Da casa que estrutura formas de habitar à casa adaptável

E, assim, se evidencia a questão básica de uma ideia de casa que é gerada por quem a projecta e que pode entrar em conflito, e frequentemente entra, com a ideia de casa do próprio habitante, e neste balanço entre ideias de casa, e na opinião de Harald Deilmann (4), quem projecta pode seguir duas vias distintas:
. ou comunica ao habitante as suas ideias de "habitabilidade" de uma forma positiva e convincente, clarificando o interesse de certas soluções, eventualmente, menos frequentes e salientando a mais-valia de uma solução mais caracterizada e plena de identidade;
. ou avança numa estratégia de adaptabilidade doméstica dos espaços previstos a um amplo leque de modos de vida e de usos da habitação, adaptabilidade esta que pode jogar quer numa ideia de neutralidade organizativa (espaços com condições dimensionais e de acessibilidade adequadas a diversos usos), quer em soluções ativas de ligação e de separação entre diversos espaços, quer, naturalmente, numa aliança entre estes dois tipos de soluções.

Opções domésticas e adequação aos modos de vida

E nesta matéria da adaptabilidade doméstica Claude Lamure, interpretando vários trabalhos franceses e, nomeadamente, os sempre incontornáveis estudos de Chombart de Lauwe sobre a adaptabilidade das habitações aos modos de vida, propõe um conjunto de possibilidades que as habitações, podem/devem oferecer às famílias ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 43 e 44): (5)
(i) de arranjo e apropriação de um espaço que seja suficiente;
(ii) de independência de grupos humanos no interior das habitações;
(iii) de uma graduação da privacidade no interior de cada alojamento;
(iv) de repouso e descontracção;
(v) de separação operacional das funções;
(vi) de atenuação das limitações materiais;
(vii) de prestígio (social);
(viii) de adaptabilidade da estrutura do fogo e dos seus arranjos às estruturas familiares;
(ix) e de relações sociais exteriores.

Em próximas edições desta série apresentaremos e comentaremos outras reflexões de outros projectistas e estudiosos nestas matérias, sobre aspetos considerados estruturantes nas opções de organização dos espaços domésticos, numa perspetiva que tenta aprofundar a grande diversidade de soluções que se oferecem e que propiciam uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.

Notas:
(1) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 105.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 106.
(3) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 105.
(4) Harald Deilmann; J. Kirschenmann; H. Pfeiffer, "The Dw elling / Dwelling-types, Building-types", p. 32.
(5) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 43 e 44.


Uma primeira versão, bastante menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 471 da Infohabitar, em 9 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 731

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, maio 19, 2020

Sobre a temática das novas formas de habitar – Infohabitar # 730


Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.



Infohabitar, Ano XVI, n.º 730

 

Sobre a temática das novas formas de habitar – Infohabitar # 730

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde,
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 18 de maio de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar

- e relativamente a esta data, permitam-me lembrar, com saudade, a memória do meu pai, grande amigo e primeiro professor de Arquitectura, António Baptista Coelho, que hoje faria anos -


Sobre a temática das novas formas de habitar – Infohabitar # 730


Organização da habitação

A organização e a caracterização de um espaço doméstico pode seguir determinados “hábitos” de funcionalidade doméstica, e aqui tanto há hábitos que decorreram da evolução da vivência doméstica ao longo de alguns milénios, como outros que, praticamente, acabaram de nascer pois podemos dizer que foram, de certo modo, “inventados”  em finais do séc. XIX e, designadamente, no séc. XX.
Podemos ainda considerar nesta matéria, dos “hábitos” de funcionalidade doméstica, que estes deveriam poder depender e decorrer bastante mais das formas de habitar características de cada família e, consequentemente, de cada grupo sociocultural, do que, por regra, é proporcionado, tendo-se em conta a organização funcional, tão frequentemente, rígida e “uniformizadora” que está expressivamente inscrita na estruturação e na formalização do espaço construído de cada habitação e, designadamente, na sua organização de gradações de privacidade e nos respetivos conteúdos funcionais “inscritos” no dimensionamento e no equipamento de cada compartimento.
Alternativamente, a organização e a caracterização de um espaço doméstico pode passar por uma verdadeira reinvenção bem fundamentada das respectivas funções, ambientes, associações espaciais e simbólicas e condições específicas de desenvolvimento de diversos espaços de actividade e de cena, numa perspetiva de aplicação discutida do que podemos designar, aqui, como “Grandes Opções Domésticas” - matéria que abordaremos, especificamente, em vários artigos desta série editorial.
E também alternativamente a organização e a caracterização de um espaço doméstico pode passar por uma sua sábia estruturação em termos de hierarquias de privacidade/acessibilidade e de aspetos básicos de dimensionamento mínimo/razoável, que privilegiem a maximização da adaptabilidade e das capacidades de apropriação e de conversão (espaciais e funcionais) domésticas.

Cidade e habitação

Essa possibilidade, desejavelmente, muito ampla de diversidade de apropriação e de conversão/adequação no interior doméstico é, realmente, a base do enorme interesse de que se pode, ainda, vir a revestir o acto de habitar, um interesse potenciado, hoje em dia pela noção de que é a habitação que faz cidade adequada, condição essencial no nosso século das cidades e das mega-cidades frequente e criticamente caóticas; e daí se retira a crítica oportunidade que têm e terão, por exemplo, as exposições habitacionais e os amplos fóruns de discussão sobre estas matérias.
Realmente o podermos ter e sentir, constantemente, um adequado sítio doméstico, permite-nos poder estar habilitados e positivamente preparados para a “exploração” e o uso mais intenso e prolongado dos espaços de vizinhança de proximidade e, consequentemente, dos espaços mais citadinos; atuando, assim, a nossa habitação como um “porto seguro”, bem identitário e apropriado, sempre disponível e acolhedor no princípio e no fim das nossa deambulações urbanas – de certo modo proporcionando-nos uma interessante e igualmente satisfatória dupla vida em duas ou mesmo três dimensões que, desejavelmente, deveriam, ser tão estimulantes como diversas: o mundo doméstico; a envolvente vicinal do mundo doméstico e espaço preparatório do mundo urbano; e o mundo urbano.
Referindo-nos especificamente à defendida clara abertura de perspectivas e de liberdade na organização e nos conteúdos domésticos importa salientar que boa parte, se não a totalidade, dos regulamentos que enquadram, por vezes de forma que se julga ser excessivamente rígida, a concepção do espaço doméstico privativo nasceram devido a justas e vitais preocupações ligadas à higiene, à saúde, à segurança e à defesa dos habitantes relativamente à sua frequente exploração económica através do seu alojamento em condições dimensional e ambientalmente patológicas; condições estas que muito se ligam aos respetivos quadros urbanos.
E assim se evidencia, mais uma vez, a ligação íntima e bissequencial, que une os espaços domésticos, vicinais e urbanos; afinal, todos eles essenciais espaços de habitar.

Regulamentação da habitação – novos caminhos

Ora, hoje em dia, é possível proteger os habitantes de boa parte, ou mesmo da totalidade, dessas negativas condições urbanísticas e de habitar através de outras medidas técnicas, construtivas e normativas que não aquelas que definem uniformemente e quase “milimetricamente” a organização doméstica, compartimento a compartimento e espaço a espaço.
E todos sabemos que as diversas instalações que servem o habitar, incluindo as sanitárias, conheceram enormes avanços nos últimos 100 anos, assim como as estratégias de ventilação, as prescrições relativas a condições de higiene e saúde associadas aos acabamentos e, naturalmente, todo o enorme compêndio de novas soluções construtivas e de pormenorização; e portanto o que aqui se defende é que para garantir as apropriadas e necessárias condições de higiene e de saúde no habitar doméstico não é hoje necessário seguir, como regra única, prescrições justificadas por condições por vezes até já relativamente ultrapassadas, por proporcionarem, em alguns casos, soluções espaciais e técnicas alternativas e eventualmente mais adequadas à crescente diversidade de modos e desejos de habitar casa, cidade e paisagem.



Fig. 01: apontamento de espaço doméstico baseado, livremente, em situações reais. Pretende-se, aqui, focar o sentido de “porto seguro” que nos pode e deve ser trazido pelas memórias e mesmo pelas possíveis visualizações da aproximação e dos vãos exteriores dos nossos espaços domésticos; afinal, os contactos com mundos domésticos que sejam verdadeiramente satisfatórios e desejados deveriam ser claramente dignificadores e evidenciadores dessas condições e, evidentemente, nunca reduzidos a meras relações funcionais de acessibilidade.


Novos modos e desejos de habitar e velhas soluções recuperadas

Mas, para além desta perspetiva, talvez seja chegada a altura, numa altura de tantas inovações e possibilidades tecnológicas em termos de climatização, ventilação, isolamentos e instalações, de poder começar a reequacionar as próprias opções básicas de organização doméstica; ou, pelo menos, é bem a altura de acabar com modelos quase-únicos e de começar a disponibilizar uma verdadeira e atraente diversidade de grandes opções domésticas.
E a título de exemplos, que se julgam simples e atraentes, aponta-se a reinterpretação da ideia de “hall” doméstico, no sentido de espaço de entrada e de eventual reunião mais ampla, ou, alternativamente de desenvolvimento de um verdadeiro espaço de “descompressão” e transição ambiental entre exterior comum ou público e interior mais privado; e uma ideia/função que depois se pode desdobrar numa pequena saleta – o velho “parlour” – e numa cozinha e zona de refeições, cuja duplicidade funcional possa ser, eventualmente, graduada conforme a dimensão da habitação e até a ocasião de vivência – mais formal ou mais familiar/informal.
E entenda-se que este exemplo é, isso mesmo, apenas um exemplo, embora fundado numa tradição de viver doméstico que passou de um único espaço de habitar, ou de dois espaços sendo um privado do casal e outro comum aos restantes habitantes da casa, para uma especialização e respectiva espacialização fundada essencialmente nos aspectos da privacidade dos quartos e da função social – e eventualmente convivial – do receber (um receber que implica convívio), isto ainda na alta idade média e referido às grandes casas, para, depois, se desenvolver uma funcionalização de todas as habitações, incluindo as mais pequenas.
E o que se quer deixar aqui apontado é que, atualmente, talvez seja a altura de retomar algum desse “caos” equilibrado em termos de funções domésticas. Um “caos” que habilite adaptabilidade e apropriação individual e em grupo e que seja servido e tornado possível por uma excelente estruturação e controlo do conforto e da saúde ambiental domésticas.
Importa, no entanto, sublinhar que tais novos caminhos não podem seguir o mau exemplo do anterior funcionalismo organizativo, rigidamente hierarquizado e de “modelo único”, mas sim têm de ser aplicados adequada e cuidadosamente em relação e ao serviço dos tais novos modos e desejos de habitar, ou de formas específicas de viver a habitação; e quem projeta tem de ter a capacidade de julgar da adequação ou inadequação destes caminhos, considerando as caraterísticas dos moradores conhecidos ou prováveis.
É, ainda, interessante refletir sobre o interesse humano e doméstico da cuidada e relativa recuperação de “velhas” soluções de espaços e microespaços do habitar, seja em termos dos seus expressivos conteúdos funcionais e ambientais mais conviviais (ex., em termos da associação entre trabalho doméstico e convívio informal) ou de maior privacidade e recolhimento e/ou funcionalidade (ex., espaços de trabalho profissional em ambiente doméstico), seja no que se refere aos seus respetivos contornos e elementos formais e funcionais (ex., renovados elementos de mobiliário com variadas valências e  não apenas os “estafados” e “mínimos” elementos correntes de mobiliário).

Funções habitacionais renovadas e novos espaços habitacionais


Centrando-nos, agora, na referida e, naturalmente, sempre relativa reinvenção das funções, dos ambientes, das associações e dos espaços de exercício do habitar doméstico, há que sublinhar que esta ideia se liga:
·        quer a uma nova espacialização e funcionalização de determinados compartimentos, transformando, por exemplo, a cozinha num amplo espaço multifuncional e convivial, e a sala-comum num pequeno complexo de diversas áreas de actividade distintas e potencialmente “privatizadas” (ex., cadeirão de leitura bem localizado e com equipamentos de apoio), embora unificáveis numa grande área “comum” de convívio doméstico;
·        quer a uma estratégia de sistemática conversão de muitas outras áreas ou microáreas domésticas em espaços estimulantemente inovadores, porque concretizam a associação de funções e de ideias diversificadas; por exemplo, uma semi-cave que se transforma numa sala familiar, de trabalho e para dormir de convidados e um lavabo social que é tratado muito mais como um espaço de recepção e representativo, do que como uma vulgar e pequena casa de banho e, já agora, também em espaço de apoio a uma razoável “descontaminação” quando se chega a casa.
O que se acabou de apontar tem a ver, por um lado, com a ideia que se tem apontado, nestes textos, sobre a função não ser tudo, quando abordamos o habitat humano, e revelar ser mesmo bastante pouco; uma ideia que se julga ser bastante adequada seja na própria cidade e nos seus bairros, seja nas vizinhanças residenciais e urbanas, seja nos edifícios habitacionais e, finalmente, e naturalmente, de forma destacada, nos interiores domésticos.





Fig. 02: apontamento de Braga na proximidade do Arco da Porta Nova, um espaço urbano vivo, bem pedonalizado, diverso e multifuncional. E, a propósito, parece ser oportuno referir que para ser realmente estimulante e atraente o espaço urbano tem de ter e evidenciar espaços “quase domésticos” na sua expressiva e múltipla capacidade de uso pela pessoa a pé e, naturalmente, pela sua assinalável escala humana.  

Funcionalismo no habitar – passado criticável e realidade a alterar

Lembremos, novamente, como o funcionalismo fez e faz sofrer os habitantes das cidades, tentando “impingir-lhes” tipos de organização e conteúdos funcionais por vezes aberrantes, porque tão distintos das misturas funcionais diversificadas que são as mais humanas e que se ligam aos núcleos e novelos funcionais diversificados, que são os verdadeiros motores e caracterizadores de cidades vivas e estimulantes.
E se tal aconteceu à escala da cidade, com tantos aberrantes porque excessivos e pouco naturais zonamentos, o que dizer da escala do edificado, abandonada à fúria especulativa do “pronto-a-habitar”, feito “à medida” de famílias-tipo cada vez mais inexistentes e sempre “à medida” de uma indústria da construção habitacional, que, naturalmente, preferiu um produto mobiliário estandardizado; num processo uniformizador que, por exemplo, nos oferece o famoso leque tipológico do T0 ao T5, com eventuais e pouco frequentes soluções intermédias, marcado pela omnipresente zona íntima e por uma estruturação funcional rigidamente hierarquizada e repetida.
Habitações que deixaram de ser verdadeiramente caraterizadas, pela sua dimensão e pelos seus “partidos” de estruturação e ambientais, para se reduzirem a uma espécie de “centopeias” domésticas, cujas cabeças são, por regra, iguais ou muito semelhantes e que, depois, se prolongam por uma sequência de quartos mais ou menos alongada.

Habitar e inovação – habitar e adequação

Tal realidade, marcada verdadeiramente pela consideração da habitação e do habitar como verdadeiros produtos de consumo, foi apenas “combatida” em opções, mais ou menos, experimentalistas e/ou de extremo bom-senso e grande qualidade arquitetónica, associadas, frequentemente, a intervenções de habitação de interesse social e, por vezes (pontualmente), a habitação para grupos sociais mais favorecidos e/ou em habitações feitas realmente à medida dos seus futuros habitantes e por excelentes e bem informados e formados Arquitectos.
Ações estas de criação de estimulantes espaços habitacionais que privilegiam o desenvolvimento de um mundo familiar e pessoal que deve e pode ser uma realidade feita para servir e estimular as necessidades e os sonhos de habitar, bem como a mutação dos mesmos ao longo dos anos -  e esta capacidade de quase contínua (re)conversão formal e funcional da habitação ao longo dos decénios, servindo a mesma ou diversas famílias, constitui um extraordinário suplemento físico, de apropriação e de alma aos respetivos habitantes, que deveria ser muito mais interiorizado e considerado; e quando não existe traduz-se, afinal, por vezes, na transformação da habitação numa espécie de “para-camisa de forças” doméstica.  
E essa recriação de estimulantes espaços habitacionais que privilegiem o desenvolvimento e a mutação de variados mundos familiares e pessoais é possível, frequentemente, através de soluções, que por vezes parecem tão simples, como fusões e separações de espaços e de estruturas de circulação, caraterizações ambientais marcantes, designadamente em termos de sentido/”adn” doméstico, e de inovadoras integrações de instalações que potenciem essa mesma capacidade de mutação e adequação; uma simplicidade que, evidentemente, só é possível com boa Arquitectura.
Afinal e tal como escreveu Christian Norberg-Schulz, a casa não é e não pode ser um refúgio funcional, um "não lugar" uniforme, mas exige um espaço distinto e uma cena que se possa imaginar (1).

Notas:
(1) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 105.

 


Uma primeira versão, bastante menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 470 da Infohabitar, em 3 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 730

Sobre a temática das novas formas de habitar – Infohabitar # 730


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).