quarta-feira, junho 29, 2022

Segurança na habitação para idosos (versão de trabalho) – Infohabitar # 821

Ligação direta (clicar no link seguinte) para: listagem interativa de 800 Artigos, edição de janeiro de 2022 com links revistos em junho de 2022 - 38 temas e mais de 100 autores:

https://drive.google.com/file/d/10pE2v330_tyapyPw4vUVZFCQ15RYUqF4/view?usp=sharing


Segurança na habitação para idosos (versão de trabalho) – Infohabitar # 821 

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 821

Edição: quarta-feira, 29 de junho de 2022


Artigo XI da série editorial da Infohabitar “PHAI3C – Programa de Habitação Adaptável e Intergeracional através de uma Cooperativa a Custo Controlado”



Caros leitores da Infohabitar,


Com o presente artigo damos continuidade à série editorial da Infohabitar especificamente dedicada a uma abordagem dos amplos, sensíveis e urgentes aspetos associados às necessidades, aos gostos e às potencialidades sociais e urbanas de uma reflexão prática sobre os espaços residenciais dedicados a pessoas idosas e fragilizadas, desejavelmente integrados em quadros intergeracionais, ativamente urbanos e dinamizados e convivializados pelas cooperativas que estão, desde há dezenas de anos, dedicadas à promoção de habitação de interesse social com expressiva qualidade e frequentemente associada a um amplo leque de variadas e vitais atividades vicinais e urbanas – as Cooperativas associadas à Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

Lembra-se, como sempre, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com).

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores,     


Lisboa, em 29 de junho de 2022

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Nota introdutória à temática do Programa de Habitação Adaptável Intergeracional – Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C)

Considerando-se o atual quadro demográfico e habitacional muito crítico, no que se refere ao crescimento do número das pessoas idosas e muito idosas, a viverem sozinhas e com frequentes necessidades de apoio, a actual diversificação dos modos de vida e dos desejos habitacionais, e a quase-ausência de oferta habitacional e urbana adequada a tais necessidades e desejos, foi ponderada o que se julga ser a oportunidade do estudo e da caracterização de um Programa de Habitação Adaptável Intergeracional (PHAI), adequado a tais necessidades e a uma proposta residencial naturalmente convivial, eficazmente gerida e participada e financeiramente sustentável, resultando daqui a proposta de uma Cooperativa a Custos Controlados (3C).

O PHAI3C visa o estudo e a proposta de soluções urbanas e residenciais vocacionadas para a convivência intergeracional, adaptáveis a diversos modos de vida, adequadas para pessoas com eventuais fragilidade físicas e mentais, mas sem qualquer tipo de estigma institucional e de idadismo, funcionalmente mistas e com presença urbana estimulante. O PHAI3C irá procurar identificar e caracterizar tipos de soluções adequadas e sensíveis a uma integração habitacional e intergeracional dos mais frágeis num quadro urbano claramente positivo e em soluções edificadas que possam dar resposta, também, a outras novas e urgentes necessidades habitacionais (ex., jovens e pessoas sós), num quadro residencial marcado por uma gestão participada e eficaz, pela convivialidade espontânea e social e financeiramente sustentável.

Trata-se, tal como se aponta no título do artigo, de uma “versão de trabalho” e, portanto, a um artigo cujos conteúdos poderão ainda ser substancialmente revistos até se atingir uma versão estabilizada da temática referida no título; no entanto, em virtude da metodologia usada, que se considera bastante sólida, marcada pelo recurso a abundantes referências de fontes, devidamente apontadas e sistematicamente comentadas no sentido da respetiva aplicação ao PHAI3C, e tendo-se em conta a utilidade de se poder colocar à discussão os muitos aspetos registados no sentido da sua possível aplicação prática no PHAI3C, considerou-se ser interessante a divulgação desta temática/problemática nesta fase de “versão de trabalho”, que, no entanto, foi já razoavelmente clarificada – como exemplo do posterior tratamento para passagem a uma versão mais estável teremos, provavelmente, referências bibliográficas mais reduzidas e boa parte delas em português, assim como comentários mais desenvolvidos; mas mesmo este desenvolvimento irá sendo influenciado pelo(s) caminho(s) concreto(s) tomado(s) pelos diversos temas e artigos que integram, desde já, a estrutura pensada para o designado documento-base do PHAI3C, que surgirá, em boa parte, da ligação razoavelmente sequencial entre os diversos temas abordados em variados artigos.

Ainda um outro aspeto que se sublinha marcar, desde o início, o teor do referido documento-base do PHAI3C (a partir do qual serão gerados vários documentos específicos: mais de enquadramento e mais práticos) é o sentido teórico-prático que privilegia uma abordagem mais integrada e exemplificada da temática global da habitação intergeracional adaptável e cooperativa, apontando-se exemplos e ideias concretas logo desde as partes mais de enquadramento da abordagem da temática como as que se desenvolvem neste artigo.

Notas introdutórias ao novo e presente conjunto de artigos sobre habitação integeracional

O presente artigo inclui-se numa série editorial dedicada a uma reflexão temática exploratória, que integra a fase preliminar e “de trabalho”, dedicada à preparação e estruturação de um amplo processo de investigação teórico-prático, intitulado Programa de Habitação Aadaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C); programa/estudo este que está a ser desenvolvido, pelo autor destes artigos, no Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e que integra o Programa de Investigação e Inovação (P2I) do LNEC, sublinhando-se que as opiniões expressas nestes artigos são, apenas, dos seus autores – o autor dos artigos e promotor do PHAI3C e os numerosos autores citados no texto.

Neste sentido salienta-se o papel visado para o presente artigo e para aqueles que o precederam e os que lhe darão continuidade, no sentido de se proporcionar uma divulgação que possa resultar numa desejável e construtiva discussão alargada sobre as muito urgentes e exigentes matérias da habitação mais adequada para idosos e pessoas fragilizadas, visando-se, não apenas as suas necessidades e gostos específicos, mas também o papel e a valia que têm numa sociedade ativa e integrada.

Nesta perspetiva e tendo-se em conta a fase preliminar e de trabalho da referida investigação, salienta-se que a forma e a extensão do texto que é apresentado no artigo reflete uma assumida apresentação comentada, minimamente estruturada, de opiniões e resultados de múltiplas pesquisas, de muitos autores, escolhidos pela sua perspetiva temática focada e por corresponderem a estudos razoavelmente recentes; forma esta que fica patente no significativo número de citações – salientadas em itálico –, algumas delas longas e incluídas na língua original.

Julga-se que não se poderia atuar de forma diversa quando se pretende, como é o caso, chegar, cuidadosamente, a resultados teórico-práticos funcionais e aplicáveis na prática, e não apenas a uma reflexão pessoal sobre uma matéria bem complexa como é a habitação intergeracional adaptável desenvolvida por uma cooperativa a custos controlados e em parte dedicada a pessoas fragilizadas.8


Segurança na habitação para idosos (versão de trabalho) – Infohabitar # 821 

António Baptista Coelho


Resumo

Neste artigo, dedicado à temática da garantia de condições globais de segurança em soluções residenciais especialmente adequadas para idosos e pessoas fragilizadas, mas marcadas por um essencial quadro intergeracional, participativo e bem integrado em termos sociais, urbanos e arquitetónicos, abordam-se, sequencialmente, as seguintes matérias: (1) aspetos globais de segurança numa habitação adequada a idosos, assunto este estruturado, em termos de níveis físicos, nas temáticas da segurança na vizinhança e da segurança na habitação ; (2) questões considerada fundamentais da segurança residencial ligada à crítica ocorrência de acidentes domésticos ; (3) e, finalmente, uma atenção específica ao muito grave problema das quedas na habitação para fragilizados.

Introdução

Subtemáticas do presente item :

(1) Segurança, habitação e idosos

(2) Acidentes domésticos

(3) O grave problema das quedas na habitação para fragilizados

Avança-se, em seguida, neste item, para algumas considerações, bastante gerais, sobre as questões de segurança acrescida que deverão estar adequadamente embebidas nas intervenções habitacionais onde se espere um número significativo de pessoas idosas e fragilizadas.

Sublinha-se que este item não está muito desenvolvido pois considera-se que no âmbito de uma habitação intergeracional, como é o caso do PHAI3C, não fará muito sentido avançar, em termos de segurança, para lá de um cuidado sistemático com os aspetos correntes de segurança no uso e contra intrusões, dedicando-se, no entanto, atenção específica aos diversos aspetos de ergonomia e acessibilidade que facilitam a vida a todos os habitantes e muito especialmente aos idosos, mais uma atenção muito específica à prevenção das quedase de acidentes domésticos diversos, seja por caraterísticas dos pavimentos, seja por manobra de elementos, seja por ausência de apoios.

Importa ainda referir, globalmente, sobre esta matéria da segurança em espaços residenciais usados por idosos e fragilizados, que é essencial que as condições exigíveis e recomendadas nas diversas áreas da segurança habitacional sejam respeitadas e mesmo ultrapassadas em termos de exigências mais rigorosas do que quando aplicadas a espaços habitacionais ditos correntes ; complementarmente a esta condição importará, também, que as referidas exigências, que poderemos definir como de segurança especial, por estarmos em presença de habitantes , frequentemente, condicionados nas suas condições de mobilidade e de perceção, sejam devidamente embebidas nas respetivas soluções físicas e pormenorizadas no sentido de terem uma mínima ou mesmo nula visibilidade específica, pois de outro modo estaremos sempre a contribuir para uma estigatização de espaços que desejavelmente devem ser sentidos e usados como quaisquer outros ambientes residenciais intergeracionais. Neste tipo de cuidados importa considerar especificamente os aspetos de segurança: contra riscos de incêndio ; contra quedas de níveis elevados e em superfícies ; nas ações correntes no uso dos espaços e equipamentos ; rodoviária ; contra envenenamentos acidentais ; e contra intrusões.

1. Segurança, habitação e idosos

Antes de avançar com alguma sistematização numa relação entre segurança e habitação especialmente dedicada a idosos e fragilizados, importa salientar que boa parte das respetivas condições de segurança no uso normal dependem da existência de um sentido de segurança, de acompanhamento natural e de convívio espontâneo, condições estas que tanto têm a ver com aspetos de conceção física como com aspetos de gestão local ; sendo que a insegurança, nestes e noutros casos, estará sempre associada ao isolamento, à solidão, à ausência de convívio natural e a uma reduzida ou nula participação no meio onde se habita.

(i) Mais segurança na vizinhança

Dito isto vamos, em seguida, utilizar o livro de Bill Randall, editado por diversas importantes entidades e intitulado Safe as houses (1) , para uma pequena viagem comentada sobre aspetos que devem marcar uma segurança doméstica especialmente cuidada no sentido do bem-estar de pessoas idosas e fragilizadas.

Importa existir uma adequada segurança pública nos espaços exteriores residenciais de vizinhança de proximidade, condição esta que, no sentido específico do PHAI3C é considerada matéria « vital ».

A título de comentários gerais nesta temática, considerados com importância para a estruturação do PHAI3C, juntam-se, em seguida, excertos do documento, acima apontado, devidamente referidos à respetiva página. (negrito nosso) 

There may be a fine line between anti-social behaviour and disputes between neighbours over relatively minor inconveniences, although these may, if persistent, become antisocial behaviour. 

As this report shows, housing organisations working in the EU use the law as a last resort to deal with anti-social behaviour, preferring to prevent or deal with problems by:

. Good design and planning of housing and estates.

. Good housing management.

. Prevention and intervention, particularly with young people.

. Working in partnership with the police, local authorities and other organisations.

. Working with local communities.

. Security measures. (pg. 2)

Secured by Design is a UK police initiative to encourage architects, planners and builders to adopt crime prevention measures to create safe and secure housing developments by reducing the opportunity for crime and antisocial behaviour …

The main principles of Secured by Design are:

1 Local communities should be involved in the planning and design process to help foster community spirit and a sense of shared ownership and responsibility.

2 Investment in a well-integrated and coordinated approach to design and project planning will pay dividends through resolution of potentially conflicting interests.

3 Seek the best available advice from the earliest stages of a project.

4 Provision of high-quality landscape settings for housing developments can help create a sense of place and strengthen community identity.

5 Well-designed public spaces that are responsive to community needs will tend to be well used and will offer fewer opportunities for crime.

6 Long-term maintenance and management arrangements must be considered at an early stage, with ownership, responsibility and resources clearly identified.

7 Public and semi-private areas should be readily visible from nearby buildings or from well-used rights of way.

8 Natural surveillance should be strongly encouraged. Care is needed to ensure that privacy is not infringed.

9 Parking should be provided close to and visible from residents’ homes.

10 Superfluous and unduly secluded access points and routes should be avoided.

11 Access at the rear of buildings should be controlled by lockable gates.

12 Roads to groups of buildings should be designed to create a sense of identity, privacy and shared ownership.

13 Footpaths and cycleways should be provided, only if they are likely to be well used.

14 Footpaths and cycleway design is as important as building design. Where possible, they should be at least 3 metres wide with a 2-metre wide verge on either side and landscaped to avoid creating narrow and threatening corridors.

15 Planting should be designed to avoid hiding places. Thorny shrubs can help to deter intruders.

16 Good visibility should be maintained from either end and along footpaths and cycleways. Avoid sharp changes in direction.

17 Footpaths and cycleways should not be routed at the rear of buildings. If this is unavoidable, a substantial buffer should be planted between a secure boundary fence and the footpath, with planting designed to discourage intruders.

18Where housing developments are next to canals or rivers with a towpath or footpath access, the buildings should face both ways, overlooking the water as well as the street.

19 Footpaths and cycleways should be well-lit in built-up areas, except where the route passes through woodland or an ecologically sensitive area. In this case an alternative and well-lit route should be made available.

20 Alternative routes to important destinations may be beneficial. However, a balance has to be struck between the advantages of greater choice and the disadvantages of providing additional means of escape or of encouraging inappropriate movement of people.

21 In urban areas, open space, footpaths and cycleways should be overlooked from buildings or traffic routes. Buildings should preferably face onto these areas, provided always that acceptable security for rear elevations can still be ensured.

22 Property boundaries next to public open space need to be secure, particularly those at the side and rear. Windows should not provide easy access from public land. Substantial buffer planting on the outside of the fence line will help to discourage intruders.

23 Improved lighting can reduce fear of crime and the incidence of crime.

24 Different lighting sources need to be considered for different environments. The character of the local environment (pg. 7)

…based on the findings in this report

1 Architects, planners and developers should consider security as a key issue in the design of new homes and estates and the improvement of existing developments. …

2 Social housing providers should employ modern technology – CCTV, door entry systems etc – to ‘target harden’ their estates.

3 Good housing management is a powerful antidote to anti-social behavior…

4 The French concierge system has travelled well across Europe and is particularly valuable in providing security and good management in blocks of flats.

5 Tenant incentive schemes can reduce the cost to housing providers of dealing with anti-social behaviour.

6 Adequate community facilities must be provided on all new housing estates and should be part of the regeneration of older schemes.

… (pg. 25)

Apenas se comenta aqui, com brevidade, que tudo isto se aplica em promoções habitacionais correntes, mas será, evidentemente, especialmente oportuno quando existe um número significativo de habitantes idosos e fragilizados.

(ii) Mais segurança na habitação

A outra face da moeda da segurança habitacional e designadamente de conjuntos com habitantes idosos e fragilizados, é a própria segurança física proporcionada pelos espaços do edifício habitacional, com um natural destaque para os espaços privados, que serão os mais intensa e longamente usados.

Extensos e excelentes estudos foram já desenvolvidos sobre esta matéria, voltando a sublinhar-se que aqui o que está em jogo é « apenas » uma exigência com a segurança mais apertada ou exigente do que aquela regulamentarmente aplicável na habitação em geral ; e neste sentido iremos, em seguida, apontar e comentar, com brevidade, apenas alguns títulos de um óptimo estudo sobre esta temática, realizado em Westmead,Clemson e intitulado The Westmead Home Safety Assessment Short Form (2)  , este documento é considerado de grande importância para consultas eventuais e por isso integra o arquivo/bibliografia de consulta.

Trata-se de uma « ficha » sobre segurança doméstica, registando-se que, no sentido específico do PHAI3C, é evidente a sua utilidade em termos de aplicação prática. 

Em termos do essencial critério ligado à prevenção de quedas, matéria à qual voltaremos já de seguida, este documento recomenda um « módulo de treino », disponível em www.fallspreventiononlineworkshops.com.au , que pode ser descarregado sem custos desde que para uso pessoal.

Outros temas tratados no documento The Westmead Home Safety Assessment Short Form :

  • Exterior : portões, caminhos, degraus, rampas, corrimãos, gelo, relvados/terreno, portas, abertura portas, iluminação noturna. 

  • Interior: iluminação, limpeza, chegar a sítios altos. 

  • Apoios a deslocações.

  • Acessos internos : pavimentos e revestimentos de pavimentos, carpetes e revestimentos domesmo tipo, espaciosidade/desafogo, portas, escadas e elevadores, degraus, corrimãos. 

  • Espaço na habitação : mobiliário, luminárias .

  • Sentar : diversos aspetos (ex.,desde muito baixo a muito mole a instável e/ou com mau acesso) .

  • Quarto: cama, guarda fatos, cortinas e colchas, iluminação , telefone, cómoda .

  • Calçado. 

  • Mascotes.

  • Casa de banho : localização, acabamento superficial, sítio do duche, banho e chuveiro superior .

  • Zona de WC : localização, acabamento de pavimento, WC, barras de apoio.

  • Cozinha : equipamento.

  • Gestão dos medicamentos. 

  • Sistemas de emergência e de comunicação.


  • 2. Acidentes domésticos

No quadro de uma segurança habitacional especialmente dedicada ao bem-estar de idosos e fragilizados as matérias associadas aos acidentes domésticos e, especificamente, às quedas registam, infelizmente, ocorrências frequentes e por vezes críticas.

Nesta perspetiva o tratamento desta temática obriga a estudos teórico-práticos específicos e muito exigentes, que de certa forma ultrapassam o âmbito mais genérico do presente estudo e que, aliás se encontram já razoavelmente cobertos em termos de bibliografia especializada.

Em seguida faz-se, primeiro, um pequeno exercício esquemático de transposição, sublinha-se, muito informal de tópicos de um estudo prático realizado pela Century21 com coordenação técnica da APSI - Associação para a Promoção da Segurança Infantil -, procurando-se, apenas, algumas pistas de aplicação aos idosos e fragilizados de recomendações especificamente elaboradas para as crianças. (3)

Os tópicos foram mantidos, ao máximo, na sua organização original.

  • Prefira candeeiros de tecto ou fixos na parede em vez de os ter em cima de mesas. 

  • Todos os móveis, prateleiras, estantes deverão ser estáveis ou fixos à parede para não tombarem …

  • Evite mesas com tampos soltos, de vidro ou com cantos pontiagudos.

  • Não deixe fios de candeeiros ou de aparelhos eléctricos pendurados pois podem tombar ...

  • Evite também toalhas compridas nas mesas.

  • As portas envidraçadas deverão ter vidro que não estilhace.

  • Cozinha: tenha um extintor e uma manta abafa fogos.

  • Reorganize o espaço de arrumação nos armários para não guardar produtos tóxicos nos armários de baixo.

  • Casa de banho: Coloque um tapete ou faixas antiderrapantes na banheira para evitar quedas; Nunca instale o esquentador na casa de banho; Não use aparelhos eléctricos dentro da casa de banho (secadores, máquina de barbear,...); se utilizar um aquecedor coloque-o o mais alto possível e fixo à parede.

  • Zona das Máquinas: Nunca deixe o ferro de engomar com o fio pendurado e use uma tábua de passar estável…

  • Escadas interiores: Todas as escadas devem ter um corrimão e ser bem iluminadas, sem projectar sombras; O piso não deve ser escorregadio.

  • As janelas colocadas a menos de 130 cm do chão devem ser protegidas com fechos e limitadores de abertura (abertura máxima de 10 cm), de fácil manipulação por um adulto.

  • Verifique as guardas das varandas: não devem ser escaláveis, devem ter uma altura mínima de 110 cm e aberturas inferiores a 10 cm.

  • Jardim: Sinalize claramente (com cores viva ou materiais contrastantes) todas as escadas, degraus e desníveis bruscos; Verifique as condições de manutenção dos equipamentos e pisos …; verifique a estabilidade, a existência de peças ou parafusos soltos, arestas cortantes, etc…; As ferramentas para jardinagem e bricolage (corta-relva, ancinhos, berbequim, martelo) devem estar guardadas …

  • Escadas e Rampas: Todas as escadas devem ter corrimão; os corrimãos, guardas e balaustradas devem obedecer aos requisitos …; O piso das escadas e rampas não deve ser escorregadio; As rampas, e a parte mais alta das guardas, também devem ter corrimão; É necessária uma boa iluminação em todas as escadas, degraus e rampas.

  • Garagem: Em garagens comuns assegure a existência duma boa iluminação e locais para atravessamento de peões; É importante uma boa ventilação para evitar a acumulação de gases; Atenção a manobras de estacionamento…

  • Electricidade: Todas as tomadas devem ter ligação à terra e alvéolos protegidos; Não sobrecarregue as fichas triplas nem as extensões; Verifique periodicamente se as tomadas não estão partidas e os fios de pequenos electrodomésticos, candeeiros ou extensões, descarnados ou mal isolados; Desligue a corrente antes de mudar lâmpadas; Nunca deixe aparelhos eléctricos em “stand by” durante a noite ou quando sai de casa, podem dar origem a um incêndio; Não utilize aparelhos eléctricos junto de zonas com água (lava-loiça, banheira); Não mexa em aparelhos eléctricos ou interruptores com as mãos húmidas.

  • Medicamentos e Produtos Tóxicos: (…)

  • Emergências: Prepare-se para uma situação de incêndio: Instale detectores de fumo com alarme …

Como se julga evidente é realmente simples uma transposição genérica dos aspetos de segurança doméstica de crianças para idêntica segurança de pessoas idosas e fragilizadas, embora se sublinhe que o exercício, acima, não abrange todos os aspetos a considerar neste caso, tal como se poderá constatar até com a consulta dos tópicos apontados relativamente ao estudo anteriormente referido.

Relembra-se, ainda, que esta é matéria que tem de ser tratada específica e especializadamente, por ser extremamente exigente, crítica e obrigatoriamente pormenorizada ; apontando-se a título de exemplo, que a acessibilidade de pessoas muito condicionadas em termos físicos e de perceção pode ser muito prejudicada, até por muito pequenas mudanças de nível nos pavimentos e por padrões visuais com forma e cores específicas nesses mesmos pavimentos.


3. O grave problema das quedas na habitação para fragilizados

Mesmo tendo em conta o que acabou de ser referido, em termos da necessidade de uma abordagem especializada da segurança doméstica, mas conhecendo-se a importância extremamente crítica das quedas no quadro global do número de acidentes domésticos graves e tendo-se presente a crítica subida do número de quedas à medida que se envelhece, aborda-se, em seguida, de forma global esta última matéria.

Neste sentido, citam-se e comentam-se aspetos considerados especialmente importantes nesta matéria, constantes de um recente estudo do York Health Economic Consortium e da Public Health England, intitulado A Return on Investment Tool for the Assessment of Falls Prevention Programmes for Older People Living in the Community  (4) . (negrito nosso)

O referido estudo incide sobre as quedas domésticas, abordando seja a importância dos aspetos físicos pormenorizados, seja os aspetos de preparação e formação considerados importantes para reduzir o risco de quedas em idosos, julgando-se constituir matéria muito importante no âmbito do PHAI3C.

Aspetos de preparação e formação :

The Otago programme is a home based exercise programme in which participants are encouraged to perform exercises 3 times a week at home and also walk indoors and outdoors at a moderate pace. Otago is recommended for at least one year and participants receive support from trained staff through home visits and follow up telephone calls.

 The Falls Management Exercise programme is a community based group programme delivered by a postural stability instructor. The programme consists of weekly classes lasting between 45 and 75 minutes with additional home exercises lasting at least 6 months

Tai Chi or Tai Ji Quan (Tai Chi henceforth) exercises combine deep breathing and relaxation with flowing movements. It can be performed either in a community based group or at home on a regular basis.

Home assessment and modification (HAM) is a service in which relevant professionals risk assess a person’s usual residence to identify environmental hazards and carries out actions to reduce these. Typical environmental hazards are loose mats, poor lighting and no handrails. (pg. 11)

Análise e modificação doméstica (Home Assessment and Modification, HAM) :

With HAM the estimated number of falls which require a hospital admission over 2 years is 485 compared with 632 for usual care. The total number of serious falls is estimated at 97 for HAM, compared with 126 for usual care, a reduction of 147.

The impact of HAM on the overall costs are presented …Overall, the financial savings exceed costs by £2.17 for every £1 invested. (pg. 46)

The findings from this analysis indicate that all 4 interventions can be considered cost-effective when compared with usual care in an English setting.

In terms of return on investment, one out of 4 interventions (HAM) produced a positive financial return with the remaining 3 interventions (Otago, FaME and Tai Chi) falling just short of generating positive financial returns (£0.95, £0.99 and £0.85 per £1 for Otago, FaME and Tai Chi respectively). It should be noted that it is expected that only a small proportion of these financial returns will be due to cash releasing savings. For example, if the number of nursing home admissions following a fall are reduced then NHS commissioners could save an estimated £113 per week per person for nursing costs. (pg.48)

Nestas matérias e agora mais nos aspetos « físicos » de adequação doméstica a idosos e fragilizados aponta-se, primeiro, o importante estudo de Judy A. Stevens e Elizabeth Burns, intitulado A CDC Compendium of Effective Fall Interventions: What Works for Community-Dwelling Older Adults. (5)

E registam-se, citam-se e comentam-se, em seguida, diversos aspetos específicos desta mesma matéria da adequação física e funcional doméstica a idosos e fragilizados, constantes do estudo do The Regional Office for Europe of the World Health Organization intitulado  What are the main risk factors for falls amongst older people and what are the most effective interventions to prevent these falls? (6) (negrito nosso)

Sublinha-se que estes cuidados múltiplos relativos ao risco de quedas são considerados essenciais no âmbito dos espaços privados, comuns e de uso público de intervenções do PHAI3C, mas de forma bem “embebida” e portanto nada evidenciada.

(nota : retiraram-se das seguintes citações os números de referência às respetivas notas específicas do texto original) 

Fatores de risco

  • Living alone: it may imply greater functional ability, but injuries and outcomes can be worse, especially if the person cannot rise from the floor. Living alone has been shown to be a risk factor for falls, although part of this effect appears to be related to certain types of housing older people may occupy.  (pg. 7)

  • Sedentary behaviour: fallers tend to be less active and may inadvertently cause further atrophy of muscle around an unstable joint through disuse. Those cutting back on normal activities because of a health problem in the 14 days previous to fall are at increased risk. Those who are inactive fall more than those who are moderately active or very active, but do so in safe environments. However, muscle function is so strongly associated with physical activity that it is hard to demonstrate that physical activity and loss of function have unique contributions. 

  • Psychological status - fear of falling: Up to 70% of recent fallers and up to 40% of those not reporting recent falls acknowledge fear of falling. Reduced physical and functional activity is associated with fear and anxiety about falling. Up to 50% of people who are fearful of falling restrict or eliminate social and physical activities because of that fear. Strong relationships have been found between fear and poor postural performance, slower walking speed and muscle weakness, poor self-rated health and decreased quality of life. 

  • Fear of falling predicts falls at one-year follow-up, and vice-versa. Women with a history of stroke are at risk of falls and fear of falling. Taking four or more medications also independently predicts fear. However, many older people do not adequately appreciate their risk status.

  • Nutritional deficiencies: a low body mass index suggesting malnutrition is associated with increased risk. Vitamin D deficiency is particularly common in older people in residential care facilities and may lead to abnormal gait, muscle weakness, osteomalacia and osteoporosis

  • Impaired cognition: cognitive deficit is clearly associated with increased risk, even at a relatively modest level (short of florid dementia). For example, five or more errors on a short mental status questionnaire … (pg. 8)

  • Visual impairments: visual acuity, contrast sensitivity, visual field, cataract, glaucoma and macular degeneration all contribute to risk of falls as do bifocal or multifocal lenses. Multifocal glasses impair depth perception and edge-contrast sensitivity at critical distances for detecting obstacles in the environment. Older people may benefit from wearing non-multifocal glasses when negotiating stairs and in unfamiliar settings outside the home.

  • Foot problems: bunions, toe deformities, ulcers, deformed nails and general pain in walking increase balance difficulties and risk of falls. Footwear is also important. 

Extrinsic risk factors The size of the impact environmental factors have on the risk of falling among older people is uncertain. Some studies have reported that between 30% and 50% of falls among community dwelling older people are due to environmental causes and others that 20% of falls are due to major external factors (those that would cause any healthy adult to fall). Older people often have problems slipping or tripping, lacking good balance or righting mechanisms for preventing the fall. 

Riscos extrínsecos:

  • environmental hazards (poor lighting, slippery floors, uneven surfaces, etc.) 

  • footwear and clothing

  • inappropriate walking aids or assistive devices . (pg. 9)

Prevenção de quedas

Feder’s  review concluded that: 

  • Multifactorial interventions, including exercise, education and home modification should be a priority. 

  • Targeted exercise for the over 80s should be offered.

  • Home assessment without referral and direct intervention is ineffective.

  • Economic evaluation of the effectiveness of multifactorial interventions needs to be conducted. 

The central conclusions from the Cochrane Collaboration’s systematic review on fall prevention are that: 

  • Protection against falling may be maximized by interventions targeting multiple risk factors in individual patients.

  • Health care providers should consider health screening of at-risk older people, followed by targeted interventions for deficit areas.

  • Home based exercise, Tai Chi, home hazard management and modification for those with a history of falls, withdrawal of psychotropic medication and multifactorial programs are all likely to be effective in preventing falls. These are associated with pooled relative risks of 0.34 to 0.80. 

Group-based exercise, nutritional supplementation, pharmacological therapy, home hazard modification for those with no history of falls, and fall prevention in institutional settings are of unknown effectiveness... 

The evidence for home environment modifications alone remains poor.

There is now considerable evidence that exercise is effective as part of a multi-faceted fall prevention intervention. The evidence for exercise-only interventions is not so clear, with some trials showing little or no effect on fall risks despite improvements in known risk factors such as strength. Interventions with balance training at the core of the exercise programme are most effective across a wide range of ages, including people with mild to major functional limitations. (pg. 11)

 Algumas conclusões (negrito nosso)

  • Alone, vision checks and modification and home assessment and modification will not prevent falls; they must be part of multifactorial interventions. 

  • Assistive devices alone will not prevent falls.

  • Alternative strategies to restraints (lower bed, mats on floor, safe-transfer and exercise training, alarm devices, etc.) have proved beneficial.

  • Bed alarms appear promising, but identification bracelets do not appear effective at reducing falls in the hospital environment.

  • Individually tailored home-based exercise programmes administered by qualified personnel reduce falls in women over 80 living in the community, are cost effective at reducing both falls and injurious falls, and the effect is sustainable over 2 years.

  • Balance training, such as Tai Chi, can reduce falls in people with mild strength or balance deficits. 

  • Group exercise is the most important part of a multifactorial community-based programme considering exercise, vision and home hazards.

  • Successful exercise programmes have consistently been longer than 10 weeks duration. Exercise needs to be specific (dynamic balance, strength, endurance and gait training), progressive and sustained to have continuing benefit.

  • Strategies for coping on the floor after a fall can be practised safely in a group environment . (pg. 13)

São de grande importância estas conclusões relativas a aspetos capazes de reduzir a incidência de quedas na vida diária dos idosos e fica aqui bem evidenciada a importância de uma adequada arquitetura de interiores, associada a instalações específicas de apoio em situações de emergência e a uma gestão local eficaz, sensível e bem informada.

Avaliação dos riscos domésticos 

  • Reviews have reached contradictory conclusions regarding the evidence for the effectiveness of home hazard assessments. 

  • Home assessment and modification as part of a multifactorial programme can reduce falls in frail older people with a history of falls. 

  • Assessment and modification of the home on its own, although feasible and widely implemented, appears ineffective in reducing falls or fall injuries amongst older people. (pg. 14)


Notas bibliográficas:

(1) Randall, Bill; CECODHAS – Safe as houses. Brighton: the Joseph Rowntree Foundation (JRF); CECODHAS, the European Liaison Committee for Social Housing, The Building and Social Housing Foundation (BSHF), s.d.

(2) Clemson – The Westmead Home Safety Assessment Short Form. Westmead: Clemson, 2015.

(3) Century21 . Manual de Segurança em Casa – pg 7 a 27.

(4) York Health Economic Consortium; Public Health England – A Return on Investment Tool for the Assessment of Falls Prevention Programmes for Older People Living in the Community. Londres: York Health Economic Consortium; Public Health England, 2018.

(5) Stevens, Judy A.; Burns, Elizabeth – A CDC Compendium of Effective Fall Interventions: What Works for Community-Dwelling Older Adults. Atlanta: MPH Division of Unintentional Injury Prevention National Center for Injury Prevention and Control Centers for Disease Control and Prevention, 2015

(6) The Regional Office for Europe of the World Health Organization – What are the main risk factors for falls amongst older people and what are the most effective interventions to prevent these falls? Copenhaga: World Health Organization, 2004. Copenhagen, WHO Regional Office for Europe (Health Evidence Network report; http://www.euro.who.int/document/E82552.pdf, accessed 5 April 2004



Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações. 

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Segurança na habitação para idosos (versão de trabalho) – Infohabitar # 821 

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 821

Edição: quarta-feira, 29 de junho de 2022

Artigo XI da série editorial da Infohabitar “PHAI3C – Programa de Habitação Adaptável e Intergeracional através de uma Cooperativa a Custo Controlado”

Infohabitar – a revista da GHabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa


abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt


Revista da GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).