segunda-feira, dezembro 11, 2017

Dos quartos aos pequenos apartamentos - Infohabitar 622

 Infohabitar, Ano XIII, n.º 622
Dos quartos aos pequenos apartamentos: um novo artigo e links para cinco artigos sobre o tema
por António Baptista Coelho

Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre uma ampla temática que parte dos quartos domésticos e que vai aos grandes quartos autónomos e aos pequenos apartamentos, integráveis em edifícios com espaços e serviços comuns; para além deste artigo são também disponibilizados links para cinco artigos sobre o mesmo tema. 

Em setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições semanais regulares e considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Lembra-se que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já divulgámos, a maior parte dos artigos desta série editorial (editados talvez ao longo de dois anos) não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista - o Blogger.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

Registam-se, em seguida, os artigos já disponibilizados na Infohabitar sobre a temática dos “dos quartos  e do pequenos apartamentos privados” (basta clicar sobre o título para aceder ao respectivo texto):


Dos quartos aos pequenos apartamentos

(novo artigo)

 A eterna escolha entre mínimos e “máximos” de espaciosidade

As temáticas associadas e associáveis à matéria geral dos quartos domésticos são muito amplas, sensíveis e significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim desenvolver, de seguida, uma reflexão geral e informal sobre o tema.
E uma tal reflexão inicia-se, simplesmente, com a ideia geral da caracterização própria e relacional entre quarto mínimo e quarto máximo (esta última uma ideia pouco usada, mas que se julga interessante) e podemos, desde já, apontar que sobre o “quarto mínimo” muito se reflectiu, designadamente, em termos de áreas mínimas, e já menos em termos de dimensões mínimas – que correspondem a matéria essencial – e também muito pouco em termos de áreas e dimensões recomendáveis, que é matéria essencial, designadamente, para a boa adaptabilidade e para a boa apropriação dos espaços de quarto; havendo apenas e sistematicamente, a ideia de se ligar a “tipologia” de quarto mínimo a uma definição da sua ocupação – por uma duas pessoas e pouco mais – e numa perspectiva sempre limitada de se considerar o quarto individual com cama individual e o quarto de casal com cama de casal.
Relativamente à, pouco frequente, ideia de “quarto máximo”, podemos visar a noção ou a “figura” do pequeno apartamento em um único espaço principal marcado por com continuidades visuais caracterizadoras, ainda que, eventualmente, parcialmente repartido em subespaços; e aqui facilmente poderemos imaginar uma unidade do tipo “T0”, que pode ter uma pequena bancada de cozinha, uma boa casa de banho e um conjunto de diversos subespaços razoavelmente caracterizados. E continuando a avançar nesta ideia pode-se considerar como sendo, de certa forma, facultativa/opcional a maior ou menor autonomia desta unidade (pequeno apartamento espacialmente compacto): (i) numa habitação (que ela própria pode ser funcional e ambientalmente muito diversificada), (ii) ou, directamente, num edifício multifamiliar, que pode ter, ou não, espaços, equipamentos e serviços comuns bem desenvolvidos.  
Já poderemos considerar que a capacidade e diversidade de agregação do “quarto mínimo” é, claramente, mais limitada, dirigindo-se, designadamente, para quadros de habitação também mínima, e para situações específicas em que quartos razoavelmente mínimos se agregam, quer em unidades habitacionais especializadas e, por exemplo, dedicadas a pequenos grupos de pessoas idosas ou de jovens, quer em equipamentos específicos e especializados, como hospitais e prisões – estas são matérias bem distintas, mas ambas extremamente especializadas.
E julga-se valer a pena desenvolver este perfil de reflexão, pois no caso da unidade de quarto maximizada ela pode constituir um elemento extremamente maleável na geração de novas tipologias edificadas e funcionalmente mistas (habitação e equipamentos), enquanto no caso da unidade de quarto minimizada ela pode ser um caminho interessante para a disponibilização de um expressivo “maior número” de espaços realmente individualizados, privatizados e bem apropriáveis, integrados em soluções de equipamentos que, de outro modo, continuariam a apostar em quartos para duas, três e até mais pessoas, situação esta que parece poder ser adequada em casos excepcionais , mas não por regra, pois anula muitas das adequadas condições de direito à privacidade pessoal e de adequada apropriação espacial e ambiental.


O quarto como espaço mínimo

Globalmente julga-se que mesmo uma pequena “cela” individual (uma cela que pode ser de um monge ou de um recluso, por exemplo), desde que extremamente bem projectada e pormenorizada (espaço, pormenor, ergonomia, conforto ambiental, relações espaciais, cor, mobiliário, “carácter”, etc.), e desde que integrada num “complexo” que disponha de adequados espaços, equipamentos e serviços comuns  – e aqui a referência a “adequação” é muito específica e poderá ser muito especializada e exigente em aspectos bem distintos dos aspectos da agradabilidade doméstica, aqui abordados, como acontecerá no caso de um estabelecimento prisional (mas nem por isso há que pôr de lado a referida condição do “bom projecto” dos respectivos espaços de cela e comuns) –, será, sempre, mais humana para uma pessoa isolada, do que a “convivência” forçada em espaços, relativamente, maiores, mas partilhados; onde ou ninguém pode exprimir a sua individualidade, ou alguém irá fazê-lo e assim acabar por sobrepor-se à individualidade dos outros.

Haverá, sem dúvida, situações que recomendam a outra opção de partilha do espaço de quarto, quando seja recomendável em termos de bem-estar e de saúde, ou mesmo quando preferida pelos habitantes/utentes – mas aqui há que cuidar bem de como se apura uma tal preferência, que tem de ser expressa de forma bem livre de influências.

Mas atenção que, tal como acontece na concepção de espaços ditos mínimos em habitação de interesse social, este caminho da concepção do quarto mínimo está só ao alcance de um projecto de arquitectura de muito elevada qualidade e que, designadamente, em casos específicos (ex., quartos hospitalares, quartos para idosos, quartos para pessoas com demência, celas prisionais, etc.) deverá articular-se com a participação de diversos especialistas; afinal, uma exigência que não se limita à matéria da concepção de espaços “mínimos”, mas que adquire vital relevância em espaços mínimos.

E há, sempre, que ter cuidado com uma opção por espaços mínimos, havendo que incluir na “opção pelo mínimo”, o valor de tal opção no conjunto da respectiva operação, e sempre que tal avaliação não seja relevante será sempre preferível trabalhar acima dos mínimos espaciais, e designadamente quando o espaço “a mais” não está associado a uma mais significativa disponibilização de instalações e de equipamentos; isto, é, quando o espaço a mais é, apenas, um pouco mais de chão, tecto e paredes simples – e esta é uma noção que interessa aprofundar em futuros artigos e que decorre, seja de uma reflexão lógica sobre o assunto, seja de testemunhos de promotores de habitação de interesse social, que o afirmaram claramente.

E quando a opção for por espaços mínimos há que a tratar “especificamente” e há que a “suavizar” e pormenorizar nessa mesma perspectiva de “pequeno espaço”, isto é: (i) assumi-la em termos de caracterização da solução, de uma forma, sempre que possível, bem distinta do desenvolvimento de um “quarto clássico”, mas minúsculo e até, eventualmente, com esse pequeno dimensionamento visual e negativamente reforçado por um grande pé-direito (altura de paredes); (ii) tratá-la de modo muito benéfico no que se refere a aspectos de conforto ambiental, com um especial destaque para a relação visual com o exterior (vistas agradáveis e estimulantes e bem visíveis do interior, até em posições sentadas e/ou deitadas), para adequadas condições (exposição e controlo) da luz natural e da insolação e para excelentes condições de isolamento sonoro (e pensando ao contrário é só imaginar as péssimas condições oferecidas por um quarto minúsculo, “sem” vistas, frio e ruidoso); (iii), se possível, pormenorizá-la “apaixonadamente” e seguindo um pouco a tipologia de microarquitectura de interiores, “superergonómica”, usada, por exemplo, em iates e autocaravanas.

Mas importa aqui sublinhar que o que acabou de ser apontado para uma adequada geração de quartos mínimos tem uma aplicabilidade genérica para qualquer quarto mínimo, mas uma aplicabilidade específica para exercícios bem dirigidos para a procura de espaços de quartos/espaços pessoais mínimos e extremamente bem adequados em termos de ergonomia e caracterização; o que corresponde a mais uma matéria a desenvolver em outros textos e que é, aliás, matéria muito querida de grandes nomes da Arquitectura e da Filosofia, designadamente, quando se dedicam à concepção dos espaços por vezes designados como pequenos abrigos e “cabanas”.


O quarto como espaço “máximo” ou pequena mas agradável habitação

Acabámos de abordar, sumariamente, os quartos como espaços mínimos e vamos agora seguir um mesmo caminho no que se refere a considerar os quartos como espaços “maximizados”, constituindo verdadeiras pequenas habitações.

E, desde já, se volta a lembrar que esta é uma reflexão, que se deseja útil, mas que se deverá articular com muitas outras reflexões sobre o assunto, que vale bem um adequado aprofundamento, seja pela importância fulcral que, para todos nós, sempre teve e terá a boa concepção dos nossos quartos privados – e atente-se que, mesmo aqui, se está a evitar usar a designação, considerada limitativa, de “quartos de dormir” –, seja porque há novas e renovadas funções a considerar nos nossos quartos privados, seja porque há todo um “novo” leque tipológico a considerar no desenvolvimento de quartos privados, seja considerando aspectos de vital especialização (ex., de hospital), seja considerando o (res)surgimento de um interessante e amplo leque de tipologias em que os quartos privados podem/devem ser, também, praticamente, pequenas habitações, ou pequenas células habitacionais, mais ou menos, autonomizadas relativamente a um edifício em que se integram e que poderá dispor de um também amplo leque de espaços, equipamentos e serviços comuns e até, eventualmente, de acesso/uso público.

Importa, ainda, sublinhar que será, naturalmente, muito benéfico, para não dizer mesmo obrigatório, que não existam, por regra e considerando as situações especializadas à parte, fronteiras rígidas entre intervenções que integrem células habitacionais privadas mínimas e outras maximizadas, sendo, claramente, muito desejável que se desenvolvam soluções mistas a este nível, e que, designadamente, tratem as suas células mínimas de forma muito adequada em termos dos seus conteúdos espaço funcionais e ambientais específicos e que não façam transparecer essa condição “mínima” para além da respectiva porta de entrada.

E aqui se avança para o desenvolvimento de conjuntos edificados que integrem uma expressiva mistura de quartos e pequenos apartamentos privados com variadas dimensões, e que proporcionam, assim, a sua ocupação por pessoas com uma expressiva diversidade de recursos financeiros, numa “mixagem” sociocultural que tem os seus riscos e exigências de gestão, mas que parece ser caminho essencial a seguir, designadamente, em estruturas habitacionais que integrem pessoas idosas – e já agora importa referir que uma tal “mixagem” raramente foi feita, entre nós, ao nível da contiguidade entre edifícios habitacionais para diversos grupos socioculturais.

E faz-se, ainda, uma referência para a importância que assume a referida mistura  de quartos e pequenos apartamentos privados com variadas dimensões, que são dirigidos para pessoas com diversidade de recursos financeiros e que, devido a essa expressiva diversidade dimensional poderão mobilar e equipar os seus espaços privados de forma adequada e compatível com os seus meios, evitando-se negativas situações de espaços deixados praticamente vazios de mobiliário por evidente ausência de meios do habitante.

Dito isto, que é, talvez, o mais importante, podemos considerar que uma pequena célula residencial ambientalmente “compacta”, tal como tem vindo aqui a ser abordada, e que seja razoável ou mesmo maximizadamente tratada em termos dos seus conteúdos espaço funcionais e ambientais específicos, poderá ter como características, designadamente:

(i) uma adequada espaciosidade, privacidade, multifuncionalidade e capacidade de apropriação da zona ou quarto mais dedicado ao dormir/repousar ;

(ii) uma adequada espaciosidade, capacidade convivial, multifuncionalidade e capacidade de apropriação da zona mais dedicada ao estar;

(iii) capacidade específica para o desempenho de uma dada actividade especializada, que possa ser relativa ou totalmente isolada;

(iv) capacidade para receber visitantes em pernoita (que pode ser razoavelmente mínima em termos de condições específicas);

(v) razoável capacidade e autonomização/isolamento para preparação de refeições; (vi) boas capacidade e agradabilidade nos espaços integráveis na casa de banho;

(vii) possibilidade de estar em pequeno espaço exterior privado e com relativa ou total privacidade;

(viii) e razoável capacidade de recepção, representativa e protegendo a privacidade dos restantes espaços privados. Globalmente um programa habitacional “compacto”, mas “maximizado”, deste tipo pode corresponder, num limite máximo, a uma pequena tipologia T2 ou mesmo "T2,5", mas pode haver integrações espaço funcionais diversas que “comprimam” a solução sem aspectos negativos significativos.

Importa, ainda, referir que, naturalmente, uma unidade habitacional, mesmo baseada num grande quarto (com múltiplas zonas) ou numa pequena habitação “compactada”, mas com diversos compartimentos, se quisermos que ela seja bem integrável em conjuntos residenciais com espaços e serviços comuns, não deverá ser espacialmente excessiva, até porque se pretende, como se referiu, que exista uma adequada integração entre unidades com diversos dimensionamentos e porque será desejável a presença de um número razoável de “condóminos” ou vizinhos.

E neste sentido poderemos avançar que a referida maximização espacial deverá, em princípio, respeitar uma espaciosidade designável como razoável, isto é, claramente acima dos mínimos, com expressiva capacidade de adaptação e usos múltiplos e com grande capacidade a nível da circulação interna, mas não caracterizada pelo uso do espaço “a mais”, globalmente justificável apenas como “espaço representativo”; e julga-se que entrar nesta dimensão das unidades quartos/mini-habitações marcadas por este espaço representativo far-nos-ia passar para uma outro quadro de reflexão, que neste momento não nos interessa.

Mas atenção que, seja nas unidades “mínimas”, seja nas “maximizadas”, a matéria da circulação interna e da multifuncionalidade no uso dos espaços e nas tarefas domésticas deve ser especificamente cuidada, considerando que as pessoas à medida que envelhecem habitam melhor com suplementos dimensionais e funcionais.


Complemento da caracterização das pequenas unidades habitacionais autonomizáveis

Esta reflexão deveria iniciar outro texto específico, mas o que importa, desde já, salientar é que uma pequena unidade habitacional “compacta”, autonomizável e agregável numa unidade com forte potencial de usos comuns – do grande quarto ao  apartamento compacto com poucos quartos – deve caracterizar-se não só pela funcionalidade, mas também por adequadas e exigentes capacidades no que se refere à boa apropriação e à agradabilidade doméstica proporcionadas; de certa forma produzindo-se como que pequenas unidades habitacionais mas com uma muito expressiva capacidade de vivência doméstica, privada e própria de cada um ou de cada casal – quase que numa “compactação” ou intensificação estratégicas do ambiente e das funcionalidades proporcionadas numa habitação maior e significativamente isolada.

Não será fácil assegurar este tipo de condições, com certeza que não, mas parece ser esse o caminho certo e tudo que seja contrário a tal caminho deve ser claramente evitado e negado; e apenas para dar alguns exemplos, podem-se apontar situações de equipamentos residenciais que agregam pequenas unidades habitacionais e serviços comuns e globalmente caracterizados por: mobiliário repetido, “frio” e mal desenhado; ausência de um arranjo de arquitectura de interiores completo e adequado, e incluindo os espaços comuns; espaços comuns com carácter “hospitalar”, frio e “nu” (sem adequada integração de elementos de arranjo também nas paredes).

Exemplos de bons caminhos nestas matérias associadas ao desenvolvimento de pequenas unidades habitacionais autonomizáveis e agregáveis numa unidade com forte potencial de usos comuns também se apontam: específico e muito cuidadoso tratamento dos espaços de acesso às unidades privadas; aconselhamento e apoio na decoração dos espaços privados, visando-se a criação de ambientes agradavelmente “domésticos”; disponibilização de recantos e espaços para integração de mobiliário da pessoa/família; cuidadosa estratégia de iluminação natural e artificial; etc., etc.

De certa forma poderemos sintetizar que estas unidades habitacionais autonomizáveis para além de expressivamente funcionais têm de ser expressivamente “bem habitáveis” e agradáveis de viver, equilibrando com estas últimas características os aspectos de funcionalidade especializada que poderão ter (ex., no apoio a condicionados na mobilidade e na percepção), e os aspectos de expressiva ou relativa redução e concentração espacial que, habitualmente, também terão; mas conceber tudo isto, sublinha-se, exige um excelente programa e um excelente projecto de Arquitectura residencial e urbana, deve “beber” em muitos casos de referência actualmente já disponíveis, tratando-se de um processo que não está, directamente, limitado por questões financeiras, pois a diferença entre um bom e um mau projecto reflecte-se numa operação basicamente viável ou inviável, e uma operação que deve ser considerada, seja em termos da sua dimensão estritamente económica, seja em termos da sua potencial relevância humana e social, e neste sentido e desde já se recomenda um caminho organizacional que passe por uma vertente cooperativa e/ou associativa, com expressiva sensibilidade social de proximidade, embora, naturalmente, associada a uma componente “empresarial” que assegure adequada continuidade e vitalidade à iniciativa.

Antes de concluir este subtema relativo à caracterização das pequenas unidades habitacionais autonomizáveis deixa-se uma pequena reflexão para futuro, uma reflexão que se dirige, basicamente, para um amplo quadro de soluções habitacionais e urbanas que se podem distribuir entre dois “conceitos limite”, que definem um amplo leque de soluções: das casas/quartos aos recantos/casas.

As casas/quartos são aqueles espaços que acima abordámos, casas/habitações apenas relativamente espaçosas, e onde uma pessoa só ou um casal pode “dominar”, facilmente, boa parte do respectivo espaço, mas onde será possível o isolamento ou o trabalho específico em subespaços específicos; enquanto os recantos/casas serão os grandes quartos multifuncionais ou, até e no limite, verdadeiros subespaços onde conseguimos concentrar e expressar boa parte da nossa vida e identidade; depois, depois ficará à conta da imaginação e da racionalidade projectuais a capacidade para se gerarem soluções que possam “casar” estas individualidades (da pessoa ou do casal, e perdoem esta liberdade) com uma agradável e funcional convivência, no verdadeiro sentido do termo (vivência em comum), no quadro de conjuntos de edifícios e espaços de uso comum ou público verdadeiramente adequados e estimulantes.

Sobre a variedade das unidades habitacionais autonomizáveis e agregáveis

Lembremos, agora e para concluir, que se começou com uma reflexão sobre “simples” quartos e se acabou com ideias sobre habitações; e assim se revela um novo “jogo da glória” – novo, porque distinto do “jogo da glória” urbano que, desejavelmente, nos deve levar, com naturalidade e motivação, da nossa vizinhança, ao pé de casa, ao centro da cidade e vice-versa –, um “jogo da glória” interior, privado e comum, que nos deve apoiar e fazer viver, com satisfação, entre o nosso espaço pessoal e o espaço de convivência do nosso agregado familiar, ou outro agregado social em que habitemos, numa perspectiva que, potencialmente, conjugada com um amplo leque de espaços, equipamentos e serviços comuns e/ou de uso público, constitui, provavelmente, a principal unidade agregadora de um enorme e tão pouco explorado leque tipológico residencial.

e a estas matérias voltaremos; mas, salienta-se que, tal como já se apontou, logo no início da edição, na lista de cinco artigos acima disponibilizada encontrarão, desde já, outros conjuntos de reflexões.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 622
Dos quartos  aos pequenos apartamentos privados: um novo artigo e links para cinco artigos sobre o tema
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Espaços domésticos privados - Infohabitar 621 e Projeto KnowRISK

Infohabitar, Ano XIII, n.º 621 e Projeto KnowRISK

Sobre os espaços domésticos privados e pessoais: novo artigo e link para um velho artigos sobre o tema

por António Baptista Coelho


E (antes da nossa edição habitual) uma divulgação importante, de evento a realizar, em breve no LNEC:

Caros colegas,

No próximo mês de dezembro, de 11-12 de dez., terá lugar a Conferência

Final do projeto KnowRISK.

O KnowRISK — Know your city, reduce seismic risk through non-structural elements  —  é um projeto europeu orientado para a divulgação científica sobre risco e proteção sísmica não-estrutural. Este projeto assenta num consórcio de investigação composto por instituições de Portugal (IST e LNEC), Itália (INGV) e Islândia (EERC).

O evento inica-se no dia 11 (como poderão ver no site),  e o dia 12 será no LNEC onde ocorrerá uma Mesa Redonda destinada a fazer um balanço da intervenção KnowRISK e discutir o papel das escolas enquanto plataforma para a comunicação de risco.

Paralelamente, haverá uma pequena exposição, destinada a apresentar os
materiais utilizados ou feitos pelos alunos durante a intervenção nos
três países do consórcio knowrisk. Esta exposição será um pretexto para uma conversa entre a equipa KnowRISK e todos aqueles que se juntarem a nós, em
torno das questões de risco sísmico e medidas protetivas.

Convidamos todos a marcarem presença no dia 12 de dezembro.
(Auditório)!

Envia- se a ligação ao site da Conferência
(https://risklisbon.wixsite.com/knowrisk) onde é possível
conhecer com maior detalhe o que vai acontecer. 



Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre a estimulante temática dos espaços domésticos privados e pessoais e um link para uma “velho” artigo sobre o mesmo tema e que assegura uma introdução ao desenvolvimento, posterior, da matéria, de acordo com as diversas tipologias específicas desses espaços domésticos (ex, quartos, espaços para tranbalho, etc.). 

Em setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições semanais regulares e considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, o título interactivo do artigo da série “Habitar e Viver Melhor”, que aborda a temática dos espaços domésticos privados, e junta-se um novo artigo com reflexões sobre esta matéria. Em próximos artigos iremos aprofundar, tipo de espaço a tipo de espaço, as diversas subtipologias dos espaços domésticos mais privados e personalizados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já divulgámos, a maior parte dos artigos desta série editorial (editados talvez ao longo de dois anos) não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista - o Blogger.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.



Regista-se, em seguida, o artigo já disponibilizado na Infohabitar sobre a temática dos “espaços domésticos privados e pessoais” (basta clicar sobre o título para aceder ao respectivo texto):

- Espaços domésticos privados


Espaços domésticos privados e pessoais

(novo artigo)
As temáticas associadas e associáveis à matéria geral dos espaços domésticos privados e pessoais são extremamente amplas e tão sensíveis como significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim desenvolver, de seguida, uma reflexão geral e informal sobre o tema, aproveitando a oportunidade de o fazer antes de passar a uma viagem sobre o leque tipológico em que eles se disseminam, e tentar deixar algumas reflexões e ideias como pistas para posteriores incursões teórico-práticas; sendo que se procura que tudo isto seja feito numa perspectiva de inovação sustentada no tratamento da temática.

Tendo dito isto, importa, agora, clarificar o que se pode entender por “espaços domésticos privados e pessoais”, uma caracterização mais espacial/ambiental do que tipológica, e que se refere a todos aqueles espaços domésticos – especificamente compartimentados ou espacial/ambientalmente definidos (podem ser apenas parcialmente definidos – que têm tendencialmente um uso/apropriação privilegiando uma pessoa, um pequeno conjunto de pessoas (ex., irmãos), ou um casal, estando, assim, definidos, um pouco por contraste relativamente aos espaços domésticos com características tendencialmente ao serviço de todo o agregado familiar e conviviais, no sentido de poderem integrar reuniões mais alargadas, e ainda aqueles espaços que funcionalmente servem todo o agregado familiar, como será o caso das circulações e espaços de entrada na habitação, das arrumações gerais domésticas e das casas de banho de serviço comum.

Naturalmente que uma tal definição pode ser sempre discutível e pode ser encarada de forma limitada, quando queremos imbuir no espaço doméstico um sentido de expressiva adaptabilidade, concretizado em zonas que possam, eventualmente, mudar, radicalmente, de atribuição funcional ao longo do tempo (ex., quarto de dormir que se transforma em sala e sala que se converte em grande quarto de dormir e trabalhar).
No entanto uma expressiva caracterização de privacidade visual e ambiental, relativa ou quase total autonomização e capacidade de apropriação e identidade deve sempre marcar os espaços domésticos mais ligados a um uso pessoal exclusivo ou por um muito pequeno grupo de habitantes (ex., casal).    

São, designadamente, os seguintes os diversos tipos de espaços domésticos pessoais e personalizáveis de que aqui “falaremos”, caso a caso, em próximas edições:
 - Quartos
- Espaço de lazer/trabalho
- Pequenos escritórios e espaços de trabalho profissional em casa
- Outros espaços privativos e diferenciados
- Recantos vários
- Alcovas em espaços domésticos comuns

E desde já se regista que esta lista não é fixa, pois à medida que iremos mergulhando na matéria a potencial diversidade e dinâmica desta tipologia de espaços privados e desejavelmente personalizáveis será, espera-se, ampliada e reconvertida.

Talvez que a principal função doméstica exercida no espaço privado seja o sono, o repouso e actividades associadas, ligado a quartos que incluam camas e ou sofás/camas, uma condição que faz desde logo relevar a questão dimensional geral deste espaço, no qual a cama não deve integra-se de forma excessivamente ocupadora do espaço; caso contrário o quarto vai resumir-se a uma função de alcova, mas não dispondo das relações que, tradicionalmente, as alcovas proporcionam com espaços domésticos contíguos, sendo portanto uma espécie de alcova com eventuais caracterizações excessiva e negativamente encerradas e até, por vezes, ambientalmente negativas, se o volume de ar for reduzido e existir deficiente ventilação.

Numa outra perspectiva, embora ainda na faceta do conforto ambiental, é importante que os espaços domésticos mais privados sejam espaços caracterizadamente sossegados – relativamente isolados ou bem isoláveis do ruído exterior e doméstico – e dispondo de adequados elementos de controlo das respectivas condições de conforto ambiental, e designadamente da luz natural, proporcionando-se adequadas condições para o solo e o repouso sempre que estas sejam desejadas; são, portanto, os espaços domésticos mais sensíveis em termos de conforto ambiental global e nesta sensibilidade deverá entrar a questão da sua orientação preferencial relativamente ao movimento aparente do Sol, sendo que, habitualmente, a orientação a Nascente poderá proporcionar uma agradável harmonização com os ciclos naturais do homem em termos de despertar e adormecer. 

Um outro aspecto que é determinante no desenvolvimento dos espaços domésticos expressivamente privados e ligados a uma pessoa ou a um casal, é a sua capacidade para poder ser fortemente apropriado por quem directamente o habita, uma qualidade que tem a ver com diversas variáveis entre as quais se destacam; a espaciosidade suplementar depois de instalada(s) a(s) cama(s) e tendo-se, razoavelmente, em conta o “sobredimensionamento” que hoje caracteriza algumas camas; a disponibilidade e a funcionalidade de espaços e equipamentos de arrumação, em elementos de mobiliário específicos e/ou em roupeiros embutidos; a disponibilidade de adequados e amplos panos de parede para encostar mobiliário e para pendurar quadros e espelhos; e a possibilidade de se desenvolverem outras pequenas áreas funcionais complementares ou enriquecedoras do espaço, como espaço de toucador e/ou de escrivaninha e sítio para pequeno sofá, bem situados na proximidade de janela; e naturalmente a relação deste espaço com uma casa de banho privativa ou próxima – sendo ainda possível desenvolver outras enriquecedoras relações entre um espaço privativo basicamente centrado nas funções dormir, descansar, lazer e as micro-funções ligadas ao banho.

Naturalmente que tais possibilidades dependem muito da espaciosidade básica do espaço privativo/quarto em questão, mas há aqui dois aspectos que importa salientar: sendo um deles que é sempre desejável aliar outras micro-funções, realmente possíveis, à habitual função-base do dormir/descansar, e isto ainda que tais possibilidades sejam razoavelmente muito delimitadas (ex., uma pequena escrivaninha servindo também como apoio de cabeceira à cama), pois a multifuncionalidade enriquece o conteúdo e a imagem dos quartos; e que é interessante e talvez desejável que tenhamos em conta as metodologias de concepção dos bons quartos de hotel, quando pensamos nos quartos domésticos – sem dúvida que muito com eles aprenderemos, designadamente, nesta criação de micro-zonas funcionais adequadas, atrentes e mutuamente bem ligadas.

Hoje em dia considerar um quarto como espaço de lazer/trabalho em condições expressivas de privacidade é condição essencial que importa assegurar pois, cada vez mais, muito trabalho pode ser realizado à distância, mas devendo, sempre, associar-se a condições, pelo menos mínimas, de suporte do mesmo, seja em termos funcionais, seja em termos de resguardo da privacidade e de adequado conforto ambiental (ex., isolamento sonoro, iluminação natural, conforto higrotérmico, vistas agradáveis sobre o exterior). E, naturalmente, que tais condições também servem o lazer doméstico.
E deverá existir, sempre, um suplemento espacial que proporcione um “suplemento de convívio potencial”, sendo muito pouco agradável e “doméstico”, que, por exemplo, no quarto de um dado jovem não seja possível a recepção, ainda que em condições apenas mínimas e claramente informais, de outros dois ou três jovens.

Uma outra tendência que já não é nova, mas que parece avolumar-se, é o desenvolvimento de pequenos escritórios e outros espaços de trabalho profissional em casa, numa tendência que a vulgarização das videoconferências e dos apoios tecnológicos baratos e vários ao trabalho doméstico (ex., máquinas de impressão, scanner e fotocópia e mecanismos de autenticação de assinaturas) vai tornando mais efectiva; sendo realmente já possível para muitas profissões e metodologias de trabalho por objectivos que o tempo de trabalho individual possa ser realizado em casa.
Mas para tal há que proporcionar condições adequadas, que se sintetizam em três vertentes gerais: (i) adequada e estimulante espaciosidade e capacidade para integrar mobiliário e equipamento; (ii) muito adequadas e estimulantes condições de conforto ambiental e de relação com o exterior, pois podemos estar, aqui, a abordar períodos de trabalho muito alongados ; e (iii) estratégicas capacidades para um funcionamento do espaço de trabalho de uma forma razoável ou totalmente autonomizada relativamente ao restante espaço doméstico – condição esta que está dependente da recepção corrente de pessoas estranhas ao agregado familiar (ex., clientes), e que pode ser matizada por estruturações gerais da habitação caracterizadamente adaptáveis a diversos tipos de ocupação espaço-funcional.

Naturalmente que este último tipo de espaços domésticos poderá existir de modo totalmente integrado com outras funções privadas, como o caso do dormir e do repouso pessoal, caso as condições dimensionais e ambientais do compartimento assim o proporcionem (ex., grande quarto com boas janelas) e, desejavelmente, através de um cuidado específico com o respectivo mobiliário e equipamento.   


Estivemos, aqui, dedicados a espaços específicos destinados a uma actividade de estudo e/ou trabalho com algumas exigências em termos espaciais e funcionais, mas no campo de uma adequada concepção doméstica importa considerar e assegurar que muitas das principais actividades domésticas, que são, globalmente, adstritas a um dado compartimento bem definido, serão melhor realizada, quando de certa forma repartidas ou disseminadas por conjuntos de sub-espaços que podem ter exiggências específicas de espaço, funcionalidade, conforto e ergonomia, caso se pretenda que estes sub-espaços sejam bem e intensamente usados e as suas sub-actividades possam aí ser estimulantemente desempenhadas.

E para além de tais sub-espaços mais correntes, haverá todo um leque de passatempos cujo exercício pode depender de espaços de apoio específicos, que não se compadeçam de uma integração limitada a uma zona de um dado móvel, mas sim a um dado móvel e eventuais outros equipamentos, agradavelmente integrados naquele espaço e/ou naquele recanto e/ou naquela passagem espaçosa; e tudo isto faz uma habitação mais apropriável, estimulante e realmente doméstica.

E, já agora, comenta-se que entre estes passatempos haverá alguns, tão diversos e interessantes, como é o caso da bibliofilia, da aquarofilia e da filatelia, que podem mesmo vir a assegurar um lugar de destaque num dado compartimento e mesmo numa dada habitação e para tal há que disponibilizar, sabiamente, espaços gerais, “espaços entre”, relações espaciais, paredes desafogadas, e dimensões estrategicamente desafogadas. E naturalmente que há espaços que têm de ter condições funcionais específicas, ainda que bem delimitadas, como é o caso de uma prática oficinal intensa (ex., marcenaria ou metalomecânica).

Finalmente, nesta pequena viagem global pela matéria dos espaços domésticos privados e pessoais importa dar verdadeiro relevo a uma categoria que poderemos designar como “recantos vários”, uma tipologia espacial que muito se liga, que à prática de inúmeras actividades domésticas, quer à fundamental marcação de um dado espaço como mais ligado a uma dada pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas (ex., um casal); e sendo esta, como tantas outras aqui referidas, muito associável a um adequado projecto de Arquitectura, pois um dado recanto tem de ser adequadamente projectado e não pode surgir como algo “a mais” ou “forçado”, aqui se deixa, apenas, a nota de que um recanto estimulante pode ser um nicho de cima a baixo para um móvel, ou pode ser o espaço no “interior” de uma bay-window, ou pode ser quase simulado com uma pequena gola de parede, sendo evidenciado cromaticamente; sublinhando-se, assim, a infindável diversidade de mais este elemento de arquitectura doméstica, mais um daqueles que fazem de uma habitação um espaço único e que vale a pena e não mais uma “unidade” igual a milhares de outras.

Naturalmente que talvez o principal dos recantos seja aquele que designamos como “alcova” e que era tradicionalmente uma zona de dormir/descansar, desenvolvida na contiguidade de espaços maiores e conviviais; uma tradição muito antiga e, julga-se, muito praticada, diversamente, em várias sociedades e designadamente naquelas em que havia de assegurar adequadas condições de conforto ambiental, devido a críticas condições climáticas.

A tipologia da alcova é muito diversificada, podendo praticamente reduzir-se a um grande móvel/cama, ou desenvolver-se em recantos que integram sofás e sofás/camas, e foi descartada nas revisões higienistas do século XIX e nos regulamentos racionalistas do século XX, naturalmente, por se considerar que este tipo de soluções estava muito ligada a excessos de ocupação doméstica e a negativas condições se privacidade e salubridade. Hoje em dia talvez seja de rever a utilização da tipologia da alcova, mais no sentido de se proporcionar o seu uso no encontro a desejos e modos de vida doméstica específicos.

Como já, em parte se apontou, várias questões são fundamentais e devem ser adequadamente tratadas quando se pensa sobre a concepção de espaços domésticos mais privados e apropriáveis e nesta perspectiva importa aprofundar melhor, designadamente, os seguintes aspectos: a questão essencial da espaciosidade e da ergonomia de tais espaços, com relevo para as suas condições consideradas “mínimas”; a questão da relação com o exterior privado, nas quais importa atribuir um relevo muito especial ao projecto de pormenor de vãos exteriores com adequada aparência, adequada caracterização ambiental (isolamento/controlo) e adequadas vistas e linhas de vista sobre o exterior; a questão do convívio potencial que deve marcar mesmo estes espaços basicamente privados/sossegados; e a questão da existência de uma casa de banho privativa ou da sua estratégica proximidade e da sua adequada caracterização.

Um outro aspecto bem interessante e associado a estas matérias das relações visuais e da presença dos vãos exteriores que servem espaços domésticos mais privados e pessoais, tem a ver com a respectiva visualização exterior, que pode e deve integrar uma imagem de edifíco multifamiliar que se caracterize, na sua presença pública, por uma diversidade de "pequenas imagens" que suscitem a identificação dos habitantes com as suas habitações e espaços privados que as compõem, através de uma judiciosa variação das fachadas; procura-se, assim, seja uma animação e uma atratividade melhoradas dessas fachadas, seja um certo sentido de que um multifamiliar, tal como a própria designação indica, é um conjunto ou agregação de “células unifamiliares” e que estas mesmas correspondema agregação, entre outros (mais comuns) de espaços basicamente privados e bem apropriados.

Finalmente, aponta-se, aqui, apenas de forma muito geral, um caminho de reflexão sobre os espaços domésticos privados, que, só ele, corresponde a um rumo de urgente investigação: trata-se da ligação entre a caracterização dimensional, ambiental, funcional e pormenorizada, em termos de Arquitectura, de espaços domésticos privados e pessoais, do tipo quarto multifuncional e/ou pequeno apartamento T0 ou no máximo T2 (mas pequeno), mas sempre com apoio a cozinha relativamente limitado, e a respectiva integração em edifícios com um leque significativo de espaços e equipamentos comuns.

Esta é matéria específica que importa continuar a desenvolver em sede/artigos próprio(s), mas desde já se avança que ela terá sempre muito a ganhar com uma reflexão cruzada com o que se vai passando em novos e renovados estabelecimentos do tipo hoteleiro, em que se vão “manejando” múltiplas valências quantitativas e qualitativas, bem para lá de uma simples abordagem espaço-funcional – e apenas a título de exemplo regista-se uma nova “corrente” hoteleira em que os quartos, para lá de uma classificação de base como de casal ou duplos, são classificados como “pequeno”, “médio”, “XL” e “XXL”, sendo que cada um deles tem um leque de sub-ambientes e de microfuncionalidades especificamente associado.

A título sequencial e suplementar e numa perspectiva de “ponte” temática com a matéria, acima referida, de espaços privados, caracterizados por grandes quartos multifuncionais ou pequenos apartamentos com funcionalidades domésticas mínimas, porque associados em edifícios com leques variados de espaços, equipamentos e serviços comuns – matéria esta que será tratada no próximo novo artigo da Infohabitar – é interessante considerar que um adequado e maximizado desenvolvimento de espaços privados e apropriados no quadro de uma habitação corrente – embora tendencialmente bem desenvolvida – é uma qualidade que muito enriquece em termos funcionais e caracterizadores essa habitação (enquanto, necessariamente, quartos mínimos e mal caracterizados a empobrecem); de certa forma colando-se, positivamente, uma outra dimensão, muito privada, à dimensão doméstica e de grupo que caracteriza essa habitação (enriquecendo-se esta conjugação de leitura/vivência de ambientes e dimensões). De certa forma, e num sentido inverso, o excelente desenvolvimento de um leque (o mais possível amplo) de conjuntos de espaços privados, em micro-zonas funcionais de grandes quartos ou pequenos apartamentos, integrados em edifícios com valências comuns, enriquece tais soluções em termos globais, pois atribui-lhes, realmente, conteúdos domésticos bem vitalizados e viáveis – ao contrário de “soluções” que “encaixam” quartos quase mínimos e sem espaço para privacidade e apropriação, servidos por corredores apenas funcionais, que levam a espaços comuns, mas tantas vezes sem carácter e sem um ambiente atraente e envolvente/afectivo.

e a estas matérias relativas ao amplo leque de espaços domésticos privados, voltaremos (mas, tal como já se apontou, nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um conjunto interessante de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 621
Sobre os espaços domésticos privados e pessoais: um novo artigo e lembrar um velho artigo
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, novembro 27, 2017

Espaços comuns no edifício multifamiliar - Infohabitar 620

Infohabitar, Ano XIII, n.º 620

Espaços comuns no edifício multifamiliar: novo artigo e links para outros 4 artigos sobre o tema

por António Baptista Coelho

Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre a  temática dos espaços comuns em edifícios multifamiliares e links para outros quatro artigos sobre o mesmo tema. 

Fig-01: ao fundo edifício em Olivais Norte, Lisboa, projecto de Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo; um caso de referência na Arquitectura residencial portuguesa e um exemplo de protagonismo arquitectónio dos espaços comuns do edifício - neste caso galarias exteriores e torres verticais de acessos.

No início de setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, logo à segunda-feira. Considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, os títulos interactivos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam as temáticas dos espaços comuns em edifícios multifamiliares, e junta-se um novo artigo com reflexões sobre estas matérias. Em próximos artigos iremos continuar a disponibilizar reflexões sobre os diversos tipos de espaços habitacionais e domésticos, mais comuns, ou mais privados e personalizados.
Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os quatro (4) artigos disponibilizados sobre a temática dos “Espaços comuns no edifício multifamiliar” (basta clicar sobre cada um para aceder ao respectivo texto):

- Espaços comuns habitacionais conviviais (e associativos)

- Inovação nos espaços comuns habitacionais (I)

- (Urgente) inovação nos espaços comuns habitacionais (II)

- Garagens comuns habitacionais


Inovar nos espaços comuns dos edifícios multifamiliares

(novo artigo)

As temáticas associadas e associáveis à matéria geral da habitação e, designadamente, ligadas à matéria específica dos “espaços comuns nos edifícios multifamiliares” são extremamente amplas e tão sensíveis como significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim abordar, a propósito, alguns tópicos considerados talvez mais relevantes e/ou oportunos, hoje em dia, e deixar algumas reflexões e ideias como pistas para posteriores incursões teórico-práticas.

Algo de essencial quando se aborda a natureza e o potencial funcional e vivencial dos espaços comuns em multifamiliares, e talvez matéria bastante esquecida ou nem sequer reconhecida, tem a ver com o papel tão diversificado como protagonista destes espaços – entradas interiores, exteriores e de transição interior/exterior, galerias interiores e exteriores, corredores, patins, etc. – na “construção” da tipologia do edifício multifamiliar e na sua específica caracterização.

E esta matéria por si só levar-nos-ia bem longe, designadamente, quando se considera ser mais do que a altura para desenvolvermos uma tão afirmada como “revolucionária” (re)invenção tipológica no multifamiliar, largando de vez a “ditadura” funcionalista que nos apresentou, praticamente, um muito reduzido leque tipológico (ex., esquerdo/direito, distribuição por galerias interiores ou exteriores e pouco mais, como bem sabemos) e avançando, decididamente numa ampla diversificação tipológica directamente associada a várias vertentes “modificadoras”, ligadas a uma ampla diversidade projectual de soluções:

- de acesso comum;

- de acesso privado;

- mistas, com acessos comuns e privados;

- do tipo esquerdo/direito (essencialmente, através de alterações dimensionais e de configuração geral);

- de acessos por galerias exteriores e/ou exteriores;

- de acessos mistos, do tipo esquerdo/direito e por galerias exteriores e/ou exteriores;

- que integram edifícios de transição entre o uni e o multifamiliar;

- que integram e articulam edifícios multifamiliares e edifícios de transição entre o uni e o multifamiliar;

- que integram conjuntos específicos de habitações (ex., pequenos apartamentos T0 e T1);

- que integram conjuntos relativamente diversificados de tipos de habitações;

- que integram diversos espaços de actividades comuns;

- que integram diversos equipamentos colectivos que servem os habitantes dos respectivos edifícios e outros da respectiva vizinhança;

- que integram conjuntos habitacionais e urbanos com expressiva presença ao nível da(s) respectivas vizinhança(s) próxima(s).

Não tenhamos dúvidas de que, se quisermos avançar numa concepção dos espaços comuns do edifício que seja devidamente adequada a cada uma destas tipologias de soluções e a agregações, cuidadosamente diversificadas, de algumas destas tipologias, esses espaços comuns devem reflectir o melhor possível a respectiva natureza da intervenção em termos espaço-funcionais e de adequada caracterização arquitectónica, incluindo aspectos de arquitectura e imagem urbanas; e sendo o trabalho tão cuidadoso como criativo os resultados serão, sem dúvida, frequentemente, tão inovadores como extremamente estimulantes para quem habitar tais soluções.

Fig-02: ao fundo edifício em Olivais Norte, Lisboa, projecto de Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo; um caso de referência na Arquitectura residencial portuguesa e um exemplo de protagonismo arquitectónio dos espaços comuns do edifício - neste caso galarias exteriores e torres verticais de acessos.

E podemos, ainda, avançar que nos melhores projectos, naqueles considerados “de referência”, tais aspectos foram devidamente considerados e, mais do que isso, bem usados na caracterização do “partido” próprio e “único” de cada uma dessas intervenções; numa atitude bem distinta da doentia repetição de soluções praticamente iguais, interior e exteriormente. E assim se procurará desenvolver, nos sítios mais diversos e potencialmente suscitadores de soluções únicas, soluções de espaços comuns estimulantes e valorizadoras de cada um desses sítios e da dinâmica de vida dos respectivos moradores.

Apenas para dar alguns exemplos deste sentido de reflexão, exemplos pouco “ponderados/estruturados” no sentido de serem casos reais que nos vieram à memória com grande naturalidade enquanto escrevemos estas palavras, podemos referir:

- Um caso no Norte da Alemanha em que entre dois blocos habitacionais alongados, com acessos por pequenas galerias/varandas muito humanizada, existe um amplo espaço comum com tecto envidraçado e múltiplo pé direito, usado para muitas actividades dominantemente de lazer, repouso e convívio “contido” (em pequenos grupos).

- Vários casos europeus em que a “massa” dos quarteirões habitacionais é sensivelmente desagregada e humanizada numa orgânica mistura de soluções habitacionais com acessos comuns e outras com acessos privatizados ao espaço público.

- Vários casos europeus e norte-americanos em que as galerias exteriores de acesso às habitações se desenvolvem em termos quase de pequenas ruas elevadas; havendo soluções em que o acesso a estes espaços continua a ser restrito aos habitantes de um dado conjunto edificado, e outras soluções em que o acesso é tornado basicamente público, embora sempre pedonal.

- Um caso parisiense em que em grandes edifícios multifamiliares em altura, o acesso às respectivas habitações se faz através de grandes varandas privativas, simulando-se, assim, o carácter da habitação unifamiliar, mas no quadro de um grande multifamiliar; e em que, naturalmente, os respectivos espaços comuns verticais também se caracterizam por estratégicas e estimulantes relações com o exterior.

- Casos portugueses de habitação cooperativa, realizados nos últimos três decénios, em que a principal unidade edificada não é o edifício, mas sim o quarteirão, sendo que a acessibilidade dos habitantes se faz, em parte, directamente, entre o respectivo miolo do quarteirão, definido como espaço de uso público pedonal, e as habitações térreas contíguas.

- Ainda outros casos portugueses de habitação económica realizada nos anos 60 do século passado, em que existe um sábio manejar da concepção dimensional e formal de galerias exteriores, estrategicamente conjugadas com acessos verticais, por vezes do tipo esquerdo/direito, conseguindo-se soluções extremamente interessantes na fusão entre funcionalidade e “imagibilidade”; por vezes atribuindo-se até um certo sentido agradavelmente lúdico à organização dos respectivos acessos.

- E ainda outros casos nacionais de habitação de promoção municipal, privada e cooperativa em que acontece uma estimulante concepção de espaços interiores de acesso (patins, átrios e galerias/corredores), bem dimensionados, estrategicamente pontuados pela luz natural e agradavelmente apropriáveis pelos respectivos moradores.

E, caros leitores, praticamente todos estes casos se integram nos principais parâmetros básicos que podem e devem marcar uma construção de habitação que seja racional e económica, pois, por exemplo, os principais volumes são caracterizados por forte regularidade geral formal e não existem sinuosidades construtivas significativas.

A título de um pequeno desabafo dá vontade de dizer que o limite de tais soluções estará na imaginação razoavelmente regrada de quem as concebe; só que por vezes a regulamentação acaba por ser um relativo obstáculo ao respectivo desenvolvimento.

E neste sentido convidam-se os leitores à consulta dos artigos sobre espaços exteriores privados que são facultados acima e que abordam as seguintes matérias.

Uma das matérias e que é essencial na estruturação geral e na concepção pormenorizada dos espaços comuns de edifícios multifamiliares é o claro e geral respeito e a expressiva salvaguarda da privacidade dos espaços domésticos interiores, bem como a cuidadosa consideração da privacidade dos espaços domésticos exteriores; e esta redacção respeita situações onde, por escolha projectual e programática, se aceita que em zonas domésticas exteriores, essencialmente afectas a usos privados, haja expressiva abertura visual, quando não até eventual interpenetração espacial relativamente aos respectivos espaços comuns de circulação. E sintetizando, a regra deve ser a expressiva salvaguarda da privacidade doméstica, exceptuando-se situações específicas em que se aceitam condições diversas. 

Outro aspecto a considerar na concepção dos espaços comuns de edifícios multifamiliares é que o eventual estímulo às relações conviviais entre vizinhos, deve ser sempre submetido à referida regra de respeito pela privacidade doméstica e pelo sossego doméstico (outra importante forma de privacidade), sendo que poderá ser promovido em situações cuidadosas e sempre privilegiando condições de convívio relativamente circunscrito; podendo haver, no entanto, um potencial de convívio alargado e eventual (ex., no interior de um quarteirão), mas que, neste caso, deverá ser sempre condominialmente bem condicionado e regrado , pois nunca faria sentido que os moradores fossem “obrigados” a suportar situações de convívio incomodativo e frequentes.

Um outro aspecto que já foi, acima, aflorado refere-se à expressão que pode ter a estrutura de acessos e de espaços comuns na imagem pública dos respectivos edifícios e mesmo das respectivas vizinhanças de proximidade. E não se trata aqui de defender qualquer “obrigatoriedade” conceptual, mas sim de sublinhar o importante papel que tais elementos podem e devem ter numa positiva e afirmada caracterização local; numa opção bem distinta de paisagens urbanas idênticas, descaracterizadas e a “perder de vista”.

Relativamente ao amplo leque de “espaços comuns” possíveis num dado edifício multifamiliar o limite estará, tal como se procurou apontar, na imaginação e na capacidade de cada projectista, nos objectivos estipulados para a respectiva intervenção residencial e no orçamento que esteja previsto para a mesma intervenção, embora este último aspecto não seja determinante numa estratégia de adequada diversificação dos espaços comuns, tal como se defendeu acima.

E, finalmente, abordam-se as garagens comuns como elementos que são, cada vez mais, protagonistas na vivência diária dos edifícios multifamiliares, mas que, incrivelmente, continuam, por regra, a ser tratadas apenas como elementos funcionais – e mesmo nesta matéria muitas vezes caracterizadas por péssima funcionalidade nas manobras. E não será altura de se encarar a concepção das garagens comuns com a dignidade que merecem espaços tão intensamente usados? Fica a questão, que é razoavelmente desenvolvida no artigo acima apontado.

e a estas matérias relativas aos “espaços comuns no edifício multifamiliar”, voltaremos (mas, tal como já se apontou, nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um conjunto interessante de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 620
Espaços comuns no edifício multifamiliar: 4 artigos sobre o tema e um novo artigo
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.