domingo, setembro 21, 2008

Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado - Infohabitar 215




Fig. 01: Cartaz do Congresso

Entre 29 de Setembro e 4 de Outubro de 2008, em Aveiro, no Workshop e no Congresso ligados ao tema "Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado" serão discutidas as fundamentais e tão actuais relações entre a Arquitectura e as matérias da sustentabilidade.
Trata-se de um conjunto de iniciativas que se inicia com um Workshop, naturalmente, mais dedicado a pessoas muito ligadas às matérias da Arquitectura, que se desenvolverá entre 29 de Setembro e 3 de Outubro, culminando, depois, com o Congresso “Arquitectura Sustentável – Futuro com[ ]passado”, nos dias 3 e 4 de Outubro, onde se irão apresentar e discutir diversas facetas dessa relação entre Arquitectura e sustentabilidade, de uma forma que interessa, naturalmente, aos arquitectos, mas igualmente a um amplo leque de técnicos e de responsáveis pelo nosso habitat.

Trata-se de uma organização conjunta do NAAV - Núcleo de Arquitectos de Aveiro da Ordem dos Arquitectos e do GH - Grupo Habitar, Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, com o apoio institucional da Universidade de Aveiro, com o patrocínio da CIN, e outros importantes apoios que são devidamente divulgados.


Fig. 02: NAAV e GH

Procuraremos com este congresso alcançar o maior número possível de arquitectos, estudantes de arquitectura, engenheiros e outros técnicos. Uma das principais ideias deste congresso é discutir, de uma forma ampla, aprofundada e sob diversos pontos de vista temáticos, a relação que existe, ou que poderá/deverá existir, entre o fazer Arquitectura e a aplicação de princípios de sustentabilidade, uma relação que tem estado, frequentemente, um pouco afastada dos diversos fóruns que têm sido realizados sobre este último tema.

Esta temática ficará longe de se esgotar nos dos dias de trabalhos deste Congresso, mas assim se contribuirá para o que se julga ser uma muito necessária, porque pouco frequente, discussão conjunta das matérias da Arquitectura e da Sustentabilidade, numa perspectiva técnica e social adequadamente alargada, que se julga ser, portanto, muito útil a um amplo leque de técnicos e de responsáveis pelo habitar e pelo ordenamento do território, para além dos arquitectos.

Refere-se que este conjunto de eventos conta com a participação intensa e alargada de membros do Grupo Habitar (GH) e de técnicos, investigadores e projectistas membros ou amigos do GH.

E salienta-se o excelente formato desta organização, que decorre de uma acção conjunta do NAAV da AO e do GH (uma associação profissional e uma associação técnica e científica), mas logo com o vital apoio directo da Universidade de Aveiro e de uma empresa, a CIN; contando, ainda com um amplo conjunto de apoios de conteúdo e de divulgação, em que numa primeira linha se referem o CentroHabitat, o Diário de Aveiro e a TVI, que cooperam, activamente, no próprio desenrolar dos trabalhos.

Não se resiste ao sublinhar da grande diversidade e qualidade das intervenções, da responsabilidade de especialistas e técnicos mais da teoria, ou mais da prática, mais da construção ou mais das áreas da investigação e onde se procurou associar essas perspectivas a outras ligadas, por exemplo, às responsabilidades da comunicação social, e assim é possível encontrar referências como: FEUP, GH; FAUTL, UFP, UA, FAU-Brasília, UTAD, NAAV, LNEC, OASRN, IST, Aveiro Domus, DAU-ISCTE e FAUP; ao lado de participantes ligados à TVI e ao Expresso.

É, mais uma vez, a concretização de um dos objectivos fundamentais do Grupo Habitar: tratar questões fundamentais da sociedade – neste caso o fazer Arquitectura com preocupações e objectivos de sustentabilidade – numa perspectiva que tenta associar a necessária faceta técnica e profissional com os respectivos aspectos sociais e culturais e, neste caso, tendo em consideração as particularidades da formação e da prática arquitectónica.

a Direcção do Grupo Habitar
António Baptista Coelho
Defensor de Castro

Fig. 03: Folheto de divulgação do Congresso

Em seguida divulgam-se os programas do Workshop e do Congresso, bem como as actividades associadas e refere-se a todos aqueles que pretendam inscrever-se a opção simplificada de acederem ao blog do Congresso, o
http://futuro-com-passado.blogspot.com/


fazendo aí a respectiva inscrição,

ou, alternativamente a possibilidade de enviarem um mail para a organização do Congresso, futuro.com.passado@gmail.com
contendo os seguintes elementos devidamente preenchidos:
Nome:
Curso/profissão:
Entidade:
Telefone:
e-mail:
morada:
nº contribuinte:
designar o evento (Workshop e Congresso ou só Congresso) em que se pretende inscrever:

Congresso, custo de inscrição: 20€
Wrkshop (inclui acesso ao congresso), custo de inscrição: 50€

Anexar comprovativo de pagamento:
Transferência Bancaria: 0033 0000 45324160831 05

Ou referir pagamento da inscrição no dia do evento, inscrição que, neste caso, ficará, naturalmente, condicionada à capacidade da sala onde decorrerá o Congresso.

Requisitos para o workshop: Computador portátil
Prestamos também informações sobre alojamento.
Para mais informações contacte:
E-mail geral: futuro.com.passado@gmail.com

Contactos:
E-mail geral: futuro.com.passado@gmail.com
Arq.Bruno Marques (organização) Telm: 919495051
Inês de Carvalho (colaboradora NAAV) Telm: 933167746
Arq. António Baptista Coelho Telm: 914631004
CongressoArquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado

Aveiro – 3 e 4 de Outubro de 2008
Auditório da Reitoria da Universidade de Aveiro

Organização conjunta do NAAV – Núcleo de Arquitectos de Aveiro da Ordem dos Arquitectos e do Grupo Habitar– Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional.

http://www.naav-arquitectura.blogspot.com/
http://infohabitar.blogspot.com/

Patrocinador: CIN
Parceira Institucional: Universidade de Aveiro

Parceiros: CentroHabitat

Apoio à divulgação: Diário de Aveiro; TVI


Actividades paralelas:
Pré-congresso:

Workshop sobre arquitectura sustentável
5 Grupos de trabalho, de segunda-feira (29/09/2008) a quinta-feira (02/10/2008), com apresentação de propostas no último dia do Congresso.


Tutores convidados:
Arq. José Gigante
Eng. Humberto Varum
Arq.ª Laura Costa
Arq. Miguel Veríssimo
Arq. Nadir Bonaccorso

Visita Guiada ao Campus Universitário de Aveiro
Palestra e visita guiada com o Arq. Gonçalo Byrne e o Arq. Nuno Portas
Segunda-feira dia 29/09; Palestra integrada no workshop a ter lugar no Auditório da Reitoria.

Integradas no congresso:

Festa de Arquitectura do NAAV: Sexta-feira dia 3 de Outubro, à noite, na Sede do NAAV: Festa de Arquitectura - After hours


Exposições:
- Exposição da casa do Futuro (Aveiro Domus), maquetas e painéis;

- Exposição das propostas do workshop;

- Exposição do Patrocinador - CIN.



CongressoArquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado

Programa

1º Dia, Sexta, 3 de Outubro 2008
Intervenções e outras fases dos trabalhos: hora (duração)


Recepção e entrega de pastas: 9.00h (30min.)

Sessão de abertura do Congresso: 9.30h (15min.)

Mesa constituída por:
Prof.ª Maria helena Nazaré (Reitora da Universidade de Aveiro/UA) (a convidar)
Arq.ª Teresa Novais (Presidente da Ordem dos Arquitectos, Secção Regional Norte/OA-SRN)
Arq. A. Baptista Coelho (Presidente Grupo Habitar/GH)
Arq. Ricardo Vieira de Melo (Presidente do Núcleo de Arquitectos de Aveiro/NAAV)
Arq. Bruno Marques (NAAV e Direcção do GH)


Sessão A
Moderação – Arq. F. Brandão Alves (FEUP)

Arq. Mário Varela Gomes (FCSH- UTL): 9.45h (45min.)
Habitar no Gharb (séculos XII-XIII). Antecedentes e consequentes

Arq. António Baptista Coelho (GH e LNEC): 10.30h (30min).
Os outros aspectos da sustentabilidade: da satisfação residencial à qualidade arquitectónica

Café: 11.00h (30min.)

Arq. Luís Pinto de Faria (U.F.P): 11.30h (30min.)
Eco Arquitectura

Arq.ª Maria Fernandes: 12.00h (30min.)
Arquitectura em terra.

Debate: 12.30h (20min.)

Almoço: 13.00h (90min.)


Sessão BModeração – Dr. Júlio Magalhães (TVI)

Eng. Humberto Varum (U.A.): 14.30h (20min.)
Caracterização das construções existentes en adobe na região de Aveiro.

Arq. Márcio Buson (F.A.U. Univ. Brasilia): 14.50h (20 min.)
Blocos de Terra Compactada produzidos com o KRAFTTERRA (solo + sacos de cimento reciclados).

Arq.ª Laura Costa (U.T.A.D.): 15.10h (30min.)
Contributos para um urbanismo mais sustentável – coberturas ajardinadas.

Café: 15.40h (20min.)

Arq. Bruno Marques (NAAV e GH): 16.00h (30min.)
O contributo do desenho urbano para uma arquitectura bioclimática

Arq.ª Isabel Plácido e Arq.ª Sara Eloy (L.N.E.C.) : 16.30h (30min.)
A contribuição das novas tecnologias (TIC) na sustentabilidade da habitação.

Debate: 17.00h (20min.)


Congresso
Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado

Programa

2º Dia, Sábado, 4 de Outubro 2008

Intervenções e outras fases dos trabalhos: hora (duração)


Sessão CModeração – Arq. Miguel Nery (O.A.S.R.N.)

Eng. Manuel Duarte Pinheiro (I.S.T.): 9.30h (30min.)
Certificação ambiental da construção sustentável – Sistema Líder A.

Arq. Nadir Bonaccorso: 10.00h (30min.)
Projectar com princípios sustentáveis.

Café: 10.30h (30min.)

Arq. Carlos Coelho: 11.00h (30min.)
O primeiro empreendimento cooperativo de construção sustentável em Portugal – na Ponte da Pedra.

Eng. Jorge Alves (AveiroDomus): 11.30h (30min.)
InovaDomus-Futuro do Habitat– Aveiro.

Debate: 12.00h (20 min.)

Apresentação das propostas do workshop: 12.20h (40min.)

Almoço: 13.00h (90min.)

Sessão DModeração – Dr. Valdemar Cruz (Expresso)

Apresentação das propostas do workshop: 14.30h (30min.)

Arq.ª Paula Cadima (FAUTL): 15.00h (30min.)

Arq. Fausto Simões: 15.30h (60min.)
Princípios e práticas de projecto para uma arquitectura sustentável

Café: 16.30h (30min.)

Arq. José Luís Saldanha (DAU/ISCTE): 17.00h (30min.)
Relações entre espaço urbano e espaço rural baseado numa visão alargada do conceito de território.

Arq. Manuel Correia Fernandes (FAUP): 17.30h (30min.)
Perspectiva crítica/positiva da sustentabilidade e do projecto de Arquitectura.

Debate: 18.00h (20min.)

Sessão de encerramento do Congresso: 18.20h (10min.)

Editado por José Baptista Coelho em 21 Setembro 2008

domingo, setembro 14, 2008

Dois amigos: Defensor e Vicente - Infohabitar 214

 - Infohabitar 214


Algumas palavras sobre a HCC, sobre o INH, sobre o Prémio INH e sobre dois amigos: o Defensor de Castro e o Hermano Vicente

Um texto de muitos, e muito ilustrado, cujo relator foi o António Baptista Coelho






(1)

Há cerca de vinte anos atrás conheci duas pessoas, que, ao longo do tempo, se foram tornando verdadeiros amigos. Conheci estas pessoas na sequência de ter entrado para o Núcleo de Arquitectura do LNEC, quase recém-saído das Belas Artes, embora sabendo já bastante bem o que era um projecto e uma obra, pois desde os 18 anos um pai arquitecto, e um grande amigo, me formou nestas matérias.



(2)

Mas falemos dessas duas pessoas, estava-se, então numa altura marcada, de certa forma, pelo início de uma aplicação sedimentada e continuada das Recomendações Técnicas para Habitação Social (RTHS), um documento que enquadrou a nova “habitação social” portuguesa, bem chamada e com adequada novidade, de “habitação a custos controlados”, e diria eu significando, verdadeiramente, habitação com qualidade e custos controlados.
AS pessoas a que me refiro são os engenheiros Defensor de Castro e Hermano Vicente, dois técnicos e especialistas nas áreas da habitação e do fazer cidade com habitação, aos quais muito se deve e que, recentemente, passaram a uma outra etapa das suas vidas profissionais.



(3)

Mas voltemos, novamente, cerca de vinte anos atrás:
Por essa altura assistia-se a um alento renovado na dinamização da promoção de habitação de interesse social, um alento conjugado com preocupações específicas no sentido, como se referiu, de uma qualidade ampla e, designadamente, de cuidados exigentes relativos a aspectos de conforto ambiental no interior das habitações e ao combate à tendência, ainda persistente, de se achar que o habitar era da soleira para dentro e pouco teria a ver com espaços exteriores residenciais devidamente cuidados; estávamos, assim, em pleno combate contra a patologia das humidades, das pontes térmicas, das fissurações e dos espaços públicos com acabamento e equipamento sem data prevista.



(4)

Eu tinha entrado, na altura, para o LNEC e uma das primeiras tarefas para as quais solicitaram a minha contribuição foi exactamente ajudar a montar o conteúdo técnico dessas RTHS.

E sublinhe-se “ajudar a montar”, pois quem as criou foi uma parceria de, já na altura, bons amigos e excelentes técnicos, repartidos entre o LNEC e o então recém-criado Instituto Nacional de Habitação (INH), e os nomes que aqui importa referir, com um antecipado pedido de desculpas por algum esquecimento, e sem qualquer ordem específica, são, pelo INH e IGAPHE, o Eng. Hermano Vicente e Arq. Vasco Folha, mais a Arq.ª Conceição Redol e o Arq. Elias Gonçalves, enquanto que pelo LNEC, o Arq. António Reis Cabrita e os engenheiros Vasconcelos Paiva, Teixeira Trigo, João Appleton e Cavaleiro e Silva.



(5)

Não é a altura nem o local para se fazer uma qualquer síntese da excelente acção do INH, mas regista-se, a título de super-síntese, que a decisão da sua criação foi tomada em 1984, no âmbito do governo de coligação do Bloco Central (coligação entre o Partido Socialista e o Partido Social Democrata) e a respectiva Comissão Instaladora, sob a presidência do Dr. Raúl da Silva Pereira, um especialista desde há muito ligado à temática da habitação de interesse social, tomou posse no dia 28 de Junho de 1984.



(6)

E o INH, logo nos primeiros dois anos de actividade, contratou financiamentos para um número muito significativo de fogos a realizar por todo o país e promovidos por municípios, cooperativas de habitação e empresas privadas (em Contratos de Desenvolvimento de Habitação), numa perspectiva de actividade que contribuiu para a redução das graves carências habitacionais, então sentidas, e, consequentemente, para a melhoria das condições sociais e políticas no Portugal do período subsequente à Revolução de 25 de Abril de 1974.



(7)

Ao INH coube, entre outros objectivos normativos, técnicos e de apoio ao estudo e à divulgação das temáticas habitacionais, o importante papel de financiamento e enquadramento técnico da habitação, antes, frequentemente, designada como “habitação económica” e “habitação social” e que hoje se designa por Habitação de Custos Controlados (HCC). E, desde já, se sublinha que no desenvolvimento de todos estes objectivos, muitos dos quais visados em cooperação com colegas do LNEC, sempre se destacou a acção dos engenheiros Defensor de Castro e Hermano Vicente, um a partir da Delegação no Porto do INH e outro a partir da sede em Lisboa.



(8)
O INH transformou-se e metamorfoseou-se em Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) em meados de 2007, teve, portanto, uma excelente vida de 23 anos – não ultrapassou os 25 anos de outra excelente instituição incontornável da habitação de interesse social portuguesa, as Habitações Económicas da Federação das Caixas de Previdência – e deseja-se ao, ainda, novo IHRU um futuro pleno de êxitos.



(9)

Mas é em alturas de passagem de testemunhos, que convém ir fazendo esses mesmos testemunhos, pois um verdadeiro conhecimento decorre da sequencial e constante acumulação, estruturação e ponderação de ideias e experiências com sinal positivo, só assim se pode ir construindo um sólido corpo disciplinar sobre o habitar, através da gradual interiorização de bons exemplos de actuação e de boas práticas concretas, pois, afinal, pouco ou nada se faz com tábuas rasas e ausência de registos e análises.



(10)

E é por isto que hoje se faz aqui um registo mínimo da importância da acção que teve o INH e, bem no âmago de tal acção, se faz aqui também um registo mínimo do que foi a excelente actividade dos bons amigos Defensor de Castro e Hermano Vicente.



(11)

E não seria possível concluir este registo sintético sem uma menção específica à importância que o Vicente e o Defensor tiveram no lançamento, na sedimentação e na dinamização do Prémio INH ao longo das suas 18 edições.



(12)

O Prémio do Instituto Nacional de Habitação (Prémio INH), que teve uma primeira edição, que se pode considerar experimental, em 1989, proporcionou, depois, ao longo das 18 edições já decorridas, até Julho de 2006, uma aproximação anual sistemática entre promotores, projectistas e construtores de cerca de 600 conjuntos habitacionais, disseminados por todo o País, e os membros dos respectivos e amplos júris de avaliação, que integraram representantes de diversas associações e entidades (AAP/OA, OE, APAP, ANMP, FENACHE; AECOPS, ANEOP, AICCOPN e LNEC), além de especialistas do próprio INH.



(13)

Tal aproximação, entre promotores, projectistas e construtores, concretizada em inúmeras sessões de debate realizadas em cada local e na sequência da visita aos espaços exteriores e domésticos de cada conjunto, numa opção que se considera de enorme interesse por assegurar um verdadeiro conhecimento de cada intervenção, fez parte da metodologia do Prémio, que desde sempre quis ser uma ferramenta de melhoria da qualidade habitacional, até porque as acções de debate local tanto produziam análises positivas como análises negativas, fundamentadas e multidisciplinares das diversas intervenções visitadas.



(14)

Assegurou-se, assim, um objectivo central de análise local e participada em que sempre se abordou, de forma integrada, os aspectos de qualidade da promoção, da qualidade arquitectónica e da qualidade construtiva dos conjuntos residenciais, tentando, também, considerar a satisfação dos respectivos moradores.



(15)

E sendo assim há que sublinhar que a actividade desenvolvida no âmbito do Prémio configurou, na prática, um verdadeiro observatório da habitação de interesse social realizada em Portugal, pois assegurou uma oportunidade única e anualmente renovada, ao longo de 18 anos, de conhecer a mais recente fase da habitação apoiada pelo Estado em Portugal, por visita directa e discutida a cerca de um terço de toda a promoção realizada.



(16)

Esta breve referência ao Prémio INH justifica-se neste texto, porque, tal como se referiu acima, o Vicente e o Defensor, juntamente com o Vasco Folha e o Rogério Pampulha, e com mais meia dúzia de jurados mais frequentes, foram elementos fundamentais da vida e do sentido formativo e informativo que o Prémio foi assumindo.



(17)

Este texto não será muito mais longo, mas importa salientar que tudo o que se disse relativamente à acção do Vicente e do Defensor pouco é considerando a importância fundamental que eles tiveram na dinamização de tantos conjuntos residenciais em todo o País e num constante apoio, sem horas marcadas, sem vacilação e cheio de dinamismo a tantas e tantas ideias e iniciativas cooperativas, municipais e empresariais. Uma presença, sempre pautada pelo estrito rigor técnico, mas que foi fundamental, designadamente, naquelas alturas em que se percebe bem quem são os verdadeiros amigos.



(18)
E, portanto, e tal como escreveu outro grande amigo e protagonista de todas estas excelentes aventuras, o Guilherme Vilaverde: há que sublinhar que “defensores e vicentes não há muitos”, e por isso muitos amigos estiveram com eles no passado dia 27 de Junho de 2008, na Fábrica Leonesa, em Leça do Balio, Matosinhos, para os homenagear e, essencialmente, para lhes dar um grande, forte e fraterno abraço de amizade e de presença activa numa altura em que ambos se aposentaram do IHRU – antes INH, e em que iniciam outras actividades, que se deseja sejam igualmente plenas de êxito e de presenças fraternas.



(19)

E por isso também se escreveu este pequeno texto, ilustrado por algumas das muitas imagens que foram possíveis nessa noite de 27 de Junho, e que iremos, sempre, renovar com amizade e vontade firme de todos continuarmos a cooperar com o objectivo de mais e melhor habitar.




(20)

Aos amigos Hermano Vicente e Defensor de Castro, também pilares fundamentais da actividade do Grupo Habitar, o GH e o seu Presidente querem aqui deixar registado um enorme abraço,

Lisboa 12 de Julho de 2008, editado no Infohabitar em 14 de Setembro de 2008
António Baptista Coelho

domingo, setembro 07, 2008

Cidades da viagem e do estar: o caso de Barcelona I - Infohabitar 213

 - Infohabitar 213
Artigo de António Baptista Coelho

Cidades da viagem e do estar: o caso de Barcelona I 


Quando viajamos procuramos, sempre, um certo sentido da mudança embora temperado com aspectos de calma e de bem-estar, muitas vezes associados a sentimentos associados a espaços e ambientes com os quais temos afinidade, seja porque já os conhecemos, seja porque conhecemos e apreciamos espaços com aquele tipo de características.

Viajar pode e deve ser uma espécie de saborear novidades, novidades disseminadas por muitos sítios da uma cidade, por muitos novos tons, ou melhor, misturas de tons, por cheiros novos, por uma nova luz do céu e por novas palavras; mas talvez para que tais novidades possam ter a melhor oportunidade de serem por nós entendidas, talvez que o viajar por essas novidades possa ser agradavelmente equilibrado por um estar em sítios que nos sejam razoavelmente “familiares”, por determinadas configurações e ambientes, e onde possamos gozar com calma e amigabilidade seja estes mesmos remansos de calma, seja as novidades que ali estão tão perto.

E aqui é fundamental sublinhar, desde já, que Barcelona é daquelas cidades extensamente equipada com tais espaços-armadilha, que nos fazem parar, primeiro para olhar, depois para olhar melhor, e, finalmente, para arranjar mais uma nova e boa desculpa de ficarmos ali, naquele sítio específico, mais um pouco, não só pelos espaços que naquele sítio se cruzam e se ligam, mas também pela vida e pelas vidas cujos cruzamentos e ligações ali também se sentem.


Fig. 01: perto da Ribeira, Barcelona


A vida de nós todos é em boa parte feita de um acumular, gradual, de memórias e a memória dos sítios é uma qualidade que nos vais marcando, gradualmente, a nossa forma de viver, pois ao viajarmos dessa maneira, com um sentido duplo de descoberta e de habitar pontualmente os novos sítios, vamos enriquecendo a nossa experiência de vida, e vamos dando forma ao nosso catálogo de soluções de viver a cidade e as suas vizinhanças. E neste acumular de experiências conseguimos, além de viver mais intensamente o tempo da viagem, construir um juízo mais adequado da própria realidade que habitamos no dia-a-dia.

Mas para tal é necessário viajar, habitando, ainda que viajando muito mais do que habitando, pois dificilmente conseguimos ir até uma nova cidade e aí estar o tempo suficiente e de seguida para nos sentirmos verdadeiramente seus habitantes.

Nestas matérias há cidades que são “muito de viajar”, são, realmente, mais do lado do viajar, do novo, da mudança, e da surpresa; enquanto outras cidades são, parece, mais do lado do ficar, do dia-a-dia, das rotinas a que nos ligamos com gosto.

Esta parece ser uma realidade e não criticando, excessivamente, as cidades que são muito do lado da viagem, da passagem, e dos turismos do constante movimento, não tenho dúvida de que sempre gostei mais e que cada vez mais gosto daquelas cidades que têm o condão de casar o viajar com o ficar, seja porque parece serem habitadas por habitantes que parecem ser fanáticos do estar e do viver intensamente a sua cidade, seja porque os seus espaços os espaços urbanos que as configuram parecem ter sido formados com o objectivo de fazerem as pessoas que neles passam, parar, olhar, ficar um pouco, andar um pouco, voltar e, enfim: ir ficando, e ir ficando até com o risco real de, sendo até turista, assumidamente, “de passagem”, não chegar a ver nem metade do que tinha pensado ver, e então haverá que se pensar em se voltar, em voltar para ficar mais um pouco.


Fig. 02: ruas de passear e “ficar”, em Barcelona.


O nosso tempo tem sido, cada vez mais, o tempo da viagem, mas a ideia que parece começar a sedimentar-se é que há cada vez mais dois grupos de viajantes: os que viajam como quem vai coleccionando vistas e aliás as vai registando em imagens, mais até do que no próprio sentimento, numa espécie de ver através da objectiva; e os que tentam ir viajando como quem habita os sítios dessas viagens.

Barcelona tem espaço para os dois tipos de viajantes, embora se sinta um frenesim urbano em determinadas zonas que torna difícil um estar com um mínimo de calma; e aqui é interessante lembrarmos, por exemplo, a nossa Lisboa e o nosso Porto e entendermos como é tão possível viajar habitando estas excelentes cidades, uma perspectiva que parece ter sido ainda pouco explorada entre nós, mas que é de grande oportunidade, num caminho de turismo de qualidade, e se estende a outras nossas grandes cidades.

Convençamo-nos que é excelente viajar, “ficando” um pouco, ficando porque se viaja com calma, com sentido de ver e de estar, realmente, nos sítios visitados, ficando porque se escolhe uma determinada cidade porque antecipamos nela poder viver espaços que nos agradam, que têm a ver com aspectos que marcam aquilo que sentimos e o que nos caracteriza.

Nesta opção por viajar ficando voltámos a Barcelona, ou fomos a sério a Barcelona, pois a primeira vez tinha sido de passagem, descer as Ramblas e pouco mais.


Fig. 03: nas Ramblas


E já nessa altura descer as Ramblas, na única tarde que então tivemos disponível, foi também uma opção de viajar ficando, pois tivemos como cicerone várias descrições de Montálban, através do seu detective Pepe Carvalho, e duas especialmente marcantes: uma delas do rematar das Ramblas na margem do mar e outra do atravessar do mercado da Boqueria; afinal, uma opção que tudo tem a ver com o tentar sentir como batia o coração daquela cidade, e ouvimo-lo um pouco, baixo, baixo, mas forte.

Desta vez habitámos Barcelona alguns – infelizmente muito poucos – dias e nela sentimo-nos a viajar e a ficar, e a seguir darei alguns exemplos desta nossa assumida duplicidade.

Viajar um pouco, mas “fugindo” das Ramblas e do seu furor citadino, mas habitando um poucochinho a Praça Real, um espaço fantástico de escala.


Fig. 04: a Praça Real


Viajar um pouco na por vezes absurda confusão das pontes e centros comerciais ribeirinhos – absurda mas tão cheia de vida – , mas deslumbrados depois com a incrível escala humana e a amigabilidade da Barceloneta, uma pequena e vivíssima cidade junto à praia e junto à grande cidade.


Fig. 05: uma rua de Barceloneta


Viajar nos extensos núcleos urbanos e comerciais da Cidade Velha, mas onde fomos descobrindo, um pouco por todo o lado, partes marcadas pela cor, pela forma e pela vida das cidades de província, mas sem nunca se deixar de ouvir, mas agradavelmente abafada, a torrente das avenidas, uma outra forma de viajar, ficando por trás dessas avenidas, descobrindo bairros que podem ser os escolhidos para voltar, outras vezes, como é o caso da Ribeira e de Santa Catarina, se quisermos sentir, ainda assim, a cidade velha, como uma cidade-formigueiro, perfurada por ruas estreitíssimas e pequenas praças muito humanas, e no meio de tanta velha construção, de repente, uma árvore.


Fig. 06: na zona de Santa Catarina


E, ainda, a viagem e o estar na simbiose que só os bairros da arte conseguem proporcionar, como é o caso do Raval, onde é evidente o pulsar da cidade e a força e juventude das dimensões artísticas ou culturais num sentido mais verdadeiro.

A ideia que ficou foi a de uma verdadeira cidade feita de camadas concêntricas, diversificadas e ligadas pelos mais diversos caminhos e meios, e há o sentido de se ter feito uma pequena descoberta, como se tivéssemos encontrado uma porta secreta, e uma passagem que ali estará para um conjunto, apenas parcialmente revelado, de caminhos, pois ainda há os jardins, e ainda há as praias e a montanha, ali ao lado, e ainda há as Barcelonas mais novas – da arte nova às novas arquitecturas –, e tudo parece estar bem vivo e não só devido às pessoas da viagem – pois embora haja muitas pessoas da viagem também se continua a sentir a força das pessoas que habitam a cidade e, interessantemente, parece já haver, claramente, muitos “convertidos”, que terão chegado como viajantes e que se tornaram habitantes.


Fig. 07: uma praça de Barceloneta


Barcelona “vê-se”, tem muito para ver, mais de passagem ou mais longamente, mas tem, claramente, muito para viver e saborear, e talvez esse seja um dos segredos desta cidade, ela poder ser um pouco uma “cidade da viagem”, mas nunca deixando de ser uma cidade do estar e do habitar, e talvez possa ser mais verdadeiramente uma “cidade da viagem” por ser uma cidade com uma cultura tão viva e caracterizada e tão embebida num ambiente urbano profundamente atraente e valioso.

Nota do autor: este texto deve muito – inclusive algumas frases completas – a um outro texto, mais curto, realizado sobre o mesmo tema, intitulado “Viajar e ficar, em Barcelona” e assinado em pareceria com a Isabel Romana.

Casais de Baixo, Azambuja, 3 de Setembro de 2008-09-02
Editado no Infohabitar por José Baptista Coelho, 7 de Setembro de 2008.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Escala humana e bom-habitar – O bom-habitar IV - Infohabitar 212

 - Infohabitar 212

Escala humana e bom-habitar – O bom-habitar IV, sobre uma matéria das mais importantes; a fundamental e ampla questão da escala


Artigo de António Baptista Coelho


Ainda na continuidade de alguns acontecimentos, muito negativos, que marcaram a vivência de bairros de realojamento, ou “sociais” da periferia lisboeta, voltamos a este tema do bom-habitar, numa perspectiva que é, provavelmente, uma das mais estruturantes das matérias associadas ao bom-habitar e à satisfação residencial: a escala humana.

Ainda não há muito tempo, numa prova pública no LNEC, não houve oportunidade de se responder, devidamente, a uma questão sobre o que se pode considerar como sendo a natureza da escala humana residencial e urbana e, naturalmente, sobre a importância que se atribui à mesma matéria, designadamente, no que se refere a aspectos de satisfação residencial. Não será neste artigo que tal se fará, de forma sistemática, mas serão aqui apontadas algumas reflexões práticas e parciais sobre o assunto; que é, talvez, um dos principais assuntos do bem-fazer Arquitectura, e daí a presença, quase sistemática, do tema em tantas “memórias descritivas” associadas, designadamente, a edifícios de habitação.

Não é, portanto, nossa ideia abordar, profundamente, o tema da importância da escala humana residencial no que se refere a uma satisfação que seja alavanca de uma vida mais profícua e feliz, mas apenas desenvolver o tema de uma forma genérica e informal, aproveitando, aqui, já em seguida, uma simples ideia de sequência de espaços urbanos: uma espécie de “jogo da glória”, que neste caso vai da cidade ao interior doméstico (e que, depois, voltará, sempre, um pouco da casa à cidade, através das vistas que se têm das janelas).



Fig. 01: o sítio, entre as adequadas situações de apoio à identidade e às boas-vindas e o frequente sentido de ausência de relações de identidade ou mesmo de agressividade ambiental e funcional – uma rua do Porto.

Quando chegamos ao sítio onde moramos podemos ter a ideia de estar próximos de um objectivo específico e caracterizado, ao qual nos ligamos por laços de identidade e de aspectos ambientais, formais e funcionais, que são, desejavelmente, positivos, ou então, consideramos o sítio onde moramos como “mais uma rua”, “mais uma zona”, igual a tantas outras e, como tantas outras, com inúmeros problemas e defeitos formais e funcionais.

Não será um cuidado específico de escala, de pormenorização em aspectos funcionais e formais, que fará a diferença entre um sítio caracterizado e outro descaracterizado; não é apenas devido a esses aspectos que nos ligamos ou desligamos de um dado sítio urbano e residencial; mas uma adequada escala de tratamento bem referenciada à escala humana caracterizando um bairro ou um pequeno bairro terá sempre a ver com um cuidadoso projecto geral, muito sensível à sua respectiva e ampla integração e a tudo aquilo que existia, antes, na zona, e, igualmente, muito sensível a uma variação pormenorizada com os diversos sítios específicos que, conjuntamente, constituem a identidade da zona e que, particularmente, se diferenciam nos mais diversos sub-espaços, seja por razões funcionais, seja por razões formais, seja por coerentes e consistentes misturas diversificadas de diversas formas e diversas funções.

Se há um aspecto que caracterize a escala humana a este nível amplo do “sítio” e do “pequeno bairro”, talvez que a coerente e consistente diversidade de características formais e funcionais, seja esse aspecto; enquanto, no reverso da medalha, teremos sítios marcados pela monotonia formal e funcional, como tratando-se de “soldados” urbanos gémeos, impessoais, não-humanos, uns ao lado dos outros, criando uma confusão geral sem referências de orientação, e uma confusão que é frequentemente agudizada por verdadeiras falhas funcionais e pela ausência de qualquer tipo significativo de cuidados formais.

Talvez que a imagem que possamos usar para ilustrar esta desagradável realidade que marca tantas das nossas periferias urbanas seja a de uma situação marcada por um espaço edificado sem verdadeira presença, porque sem qualquer identidade e onde as referências amplas – formais e funcionais – aos utentes humanos não são sérias, resultando, apenas e exclusivamente, de acasos extremamente pontuais, quando poderiam e deveriam estar disseminadas estrategicamente por todos os locais que marcam, ou que deveriam marcar, em cada sítio, as suas relações com a continuidade urbana.

Teremos, assim, um sítio que poderá variar entre uma extrema amigabilidade e uma atraente identidade e situações de total anonimato e, tantas vezes, de clara agressividade ambiental e funcional; e é, realmente, grave a possibilidade, tantas vezes real, de se viver, de se habitar – “marcar” o sítio onde se vive –, sem qualquer possibilidade de se exercer uma tal marcação afectiva e com muito reduzidas condições de funcionalidade urbana e residencial. Porque não tenhamos ilusões: quem não quer e quem não sabe prover os sítios com uma adequada caracterização de escala formal e funcional, referenciada às dimensões, aos usos e à própria natureza humana, também não quererá nem saberá projectar os sítios residenciais e urbanos com uma adequada e ampla funcionalidade e com um adequada e ampla caracterização arquitectónica; trata-se, afinal e sempre, no princípio e no fim destas questões, de uma matéria ligada à cultura e nunca serão muitos os projectistas capazes de fazer verdadeira cidade com verdadeiras vizinhanças residenciais e urbanas.

E é ainda importante sublinhar que a estrita funcionalidade urbana, aquela “simples” funcionalidade ligada, por exemplo, ao comprar pão fresco e um jornal diário, e ao poder sair daquele sítio com relativa facilidade e um máximo de autonomia (ex., em transportes públicos adequados), é, muito provavelmente, muito mais sensível e complexa de assegurar do que parece em primeiras “leituras”; e, infelizmente, ainda se entende esta matéria de uma forma muito parcial e culturalmente muito pouco fundamentada.



Fig. 02: a vizinhança, a vizinhança que é “nossa”, a vizinhança onde nos sentimos, já, em casa, mas onde ainda nos sentimos, estrategicamente, um pouco, na cidade – uma vizinhança de Alvalade, Lisboa (proj. Arq. Faria da Costa).

A seguir entramos na vizinhança de proximidade, e aqui então teremos, talvez, o sítio que deveria ser o local ideal para a marcação de uma “escala humana” que, mais do que uma referência à dimensão e aos usos humanos, fosse uma expressão da presença e da identidade de um determinado grupo de humanos, grupo este que se prolongasse, depois, naturalmente, por grupos mais delimitados e reduzidos até se chegar quase à contiguidade da presença de cada pessoa, na sua forma física e na natureza dos seus gostos e desejos mais íntimos –isto já praticamente ao nível dos recantos domésticos e dos seus eventuais e parcelares reflexos públicos.

Voltaremos, aqui, a esta matéria, que é a matéria da qual se fizeram alguns dos melhores espaços de habitar casas e cidades, mas importa sublinhar que é em pedaços de ruas, travessas, pequenas praças e pracetas, quarteirões e outros afirmados conjuntos de edifícios agregadores de fogos, que se faz, por um lado, a síntese de proximidade de uma cidade mais humana, mais sensível, mais fisicamente próxima do homem e mais ambientalmente próxima dos seus usos, enquanto, por outro lado, se faz a síntese mais urbana dos aglomerados de habitações e espaços domésticos, atribuindo-se um importância estratégica à relação entre habitação e cidade, e construindo-se, assim, “passo a passo”, “pedaço a pedaço”, uma cidade que no âmago é assim feita de uma habitação com uma dupla identidade, ligada ao seu habitante e à sua cidade.

E assim se entende a natureza e a importância dessa escala humana a este nível da vizinhança de proximidade, pois é na capacidade que a cidade pode e deve ter de se “reduzir”, sem se apagar, até quase à porta da habitação de cada um, e, igualmente, na capacidade que a habitação pode e deve ter de se “ampliar”, sem se exceder, até quase à “porta”da cidade, é nesta dualidade “entre cidade e casa”, que tem de estar uma forte, agradável, envolvente e equilibradamente caracterizada vizinhança, e é aqui que a escala humana, física e sensível, tem e deve ter a sua mais forte presença.

Como? A resposta em termos de casos concretos comentados ficará para outros textos e outros artigos; mas é essencial ter a noção de que, no reverso da medalha, teremos, frequentemente, o anonimato e a massificação a irem até quase à porta das habitações; teremos e temos, infelizmente, tantas vezes, a tal “mancha de óleo” urbana, poluidora e tão desgraçadamente negativa, que marca tantos sítios como iguais a tantos outros sítios e como tão sem qualquer interesse, e sem qualquer interesse para qualquer um de nós e sem qualquer interesse para qualquer sítio, numa crítica negação dos fundamentais aspectos da identidade e do simples e natural estímulo sensorial.



Fig. 03: o edifício, o edifício que, mais do que uma realidade efectiva, poderá ser uma condição de marcação de identidades, de expressão de integrações particulares e paisagísticas – um pormenor de edifício em Telheiras, Lisboa (proj. coord. Arq. Duarte Nuno Simões).


Em seguida entramos no edifício e, ao entrar, a escala humana marca a nossa passagem e os espaços de limiar de uma forma determinante.

Mas se considerarmos uma desejável sequência de espaços e de ambientes é importante que uma tal marcação não faça esquecer a presença da vizinhança e, mais em fundo, mesmo, a própria presença (matizada) da tal idade feita de proximidades e de alguns eixos estruturantes.

E é numa tal sequência de espaços e de ambientes que sobressai, novamente, um importante elemento comum, o homem e a sua escala humana, física e ambiental, física e sensorial, física e, mesmo, simbólica; e é, provavelmente esta continuidade que irá ser, ainda, fundamental motivo de expressão na relação da vizinhança com cada habitação.

Voltaremos, noutros textos, ao edifício na sua interessante e possível expressão de uma escala humana que não pode negar ainda uma certa escala urbana de vizinhanças constituintes de partes coesas de cidade, mas, desde já se aponta que no arquitectar de edifícios com identidade e boa expressão formal e funcional o marcar da escala humana sempre foi e sempre será algo de fundamental; só que muitas vezes ou não se sabe desta necessidade ou, sabendo-o, não se sabe concretizar tal necessidade em aspectos edificados.

E uma outra realidade é fundamental nesta abordagem da escala humana ao nível do edifício, é que é possível e é, por vezes, extremamente interessante, proporcionar relações quase directas entre uma vizinhança urbana e a presença das habitações, quase “saltando a presença do edifício”, e esta possibilidade tem também muito a ver com a importância da escala humana, que está tão evidente em escadas, portas de habitações, conjuntos de janelas e mesmo “alas” domésticas.



Fig. 04: e a habitação; o mundo da escala humana – um vão doméstico caracterizado.

E neste “jogo da glória” do habitar, marcado pela escala humana, chegamos, assim, à própria habitação e aqui pouco avançamos, para já, pois iremos tratar o mundo doméstico e a escala humana num outro próximo texto, mas ideia é que, aqui, podemos e devemos ter acesso a um outro mundo pessoal e familiar, muito amplo, em termos de potencialidades de uso e de apropriação, mas que um tal mundo tem de ter, em si próprio, uma constante solução “de reverso”, de reflexo activo das escalas comuns do edifício e essencialmente das escalas públicas da vizinhança, protectora e caracterizadora, e da fundamental continuidade urbana; isto para que o mundo privado de cada um possa ser vivido numa rica relação de contiguidades e de proximidades, abertas à vizinhança/cidade e todas elas positivamente trespassadas pela escala humana.

Ficamos por aqui, e, mais uma vez, se desafiam os leitores a enviar - à redacção do Infohabitar (abc@lnec.pt ou abc.infohabitar@gmail.com ) - textos sobre estas matérias; neste caso sobre a escala humana nos espaços residenciais e urbanos, onde exponham algumas ideias sobre como configurar soluções de bom-habitar à escala humana.

Casais de Baixo, Azambuja, 30 de Agosto de 2008.
Editado por José Baptista Coelho, em 1 de Setembro de 2008.