quinta-feira, janeiro 25, 2007

Requalificar e habitar uma cidade amigável (I), Coimbra 11 Janeiro 2007 – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 123

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Requalificar e habitar uma cidade amigável


A 10ª Visita Técnica e a 8ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, sobre o tema “requalificar e habitar uma cidade amigável” – foi uma organização conjunta do Gabinete para o Centro Histórico da Câmara Municipal de Coimbra (GCH) e do Grupo Habitar (GH) e decorreu a 11 de Janeiro de 2007 em Coimbra. Este artigo faz a reportagem e uma síntese informal do que foram esses já memoráveis eventos, que tiveram lugar, com grande e animada participação.

E com tal objectivo é interessante referir, desde já, os reflexos noticiosos que esta iniciativa teve em diversos jornais diários (e atentar no leque temático dos respectivos títulos): Jornal de Notícias, com o artigo, de Nelson Morais, ”Reabilitação atrai mais proprietários”; O Primeiro de Janeiro com o artigo “Habitar centro histórico da cidade”, Diário de Notícias com o artigo, de Paula Carmo, “Visita ao centro histórico de Coimbra passa ao lado das «demolições»”; Diário de Coimbra com o artigo, de Paulo Cardantas, “Centro Histórico mostra-se ao país – Câmara e Grupo Habitar organizaram visita técnica para ver o que está a ser feito”; e Diário As Beiras com o artigo, de António Alves, “«Habitar» no Centro Histórico”.


Fig. 01
Logo pela manhã os trabalhos iniciaram-se com a recepção dos participantes pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Dr. Carlos Encarnação, no salão nobre do edifício dos Paços do Concelho.
Nesta recepção, que integrou, plenamente, os trabalhos do dia, o Dr. Carlos Encarnação sublinhou a complexidade global, a grande amplitude territorial, a diversidade e a riqueza cultural actual e potencial do processo de reabilitação urbana e habitacional que tem vindo a ser desenvolvido em Coimbra e aproveitou a oportunidade de lançamento do novo site da CM de Coimbra, nesse mesmo dia 11 de Janeiro, para o usar e fazendo-o sintetizar as características do trabalho desenvolvido e caracterizar a evolução do mesmo processo, ao mesmo tempo que evidenciou estar desta forma todo este trabalho ao alcance de todos aqueles que o queiram conhecer em profundidade, de uma forma transparente e dinâmica ou interactiva.


Fig. 02

Entre as diversas notas sublinhadas pelo autarca um destaque para o objectivo de “voltar a habitar o centro de Coimbra”, assim como para o objectivo, associado, de desenvolver acções de reabilitação habitacional com controlo de custos.

Considera-se um aspecto importante a reter a grande dimensão da área de intervenção com 545 hectares e abrangendo mesmo as duas margens do Mondego – Freguesias de Almedina, S, Bartolomeu, Santa Cruz e Sé Nova, na margem direita e Santa Clara, na margem esquerda – uma característica que tem como consequências a referida complexidade e mesmo morosidade (inicial) da intervenção, mas que é também factor de grande riqueza futura considerando-se as diversificações e encadeamentos de usos e de cenários urbanos e naturais que serão disponibilizados com as obras concluídas e visando-se especificamente o uso pedonal e em transportes públicos do conjunto da zona.

Fig. 03

Outro aspecto a reter é a associação de diferentes processos de intervenção, iniciados com o acorrer às situações de maior gravidade, numa acção intensa e complexa, que muitas vezes tem reduzida visibilidade pública, e aliando-se, de forma genérica, uma intervenção na Alta de Coimbra onde foi possível a sensibilização dos proprietários para a reabilitação dos seus edifícios, designadamente, através de parcerias público privados, e incluindo, por exemplo, processos de permuta entre acções de reabilitação e a cedência de unidades reabilitadas – uma metodologia que parece estar a ser muito bem acolhida pela população, até com algum entusiasmo, tal como foi mesmo testemunhado, à tarde, no decurso da Sessão Técnica –, com uma outra intervenção na Baixa da cidade onde se está a revelar muito mais eficaz a adopção de uma Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU), que dinamiza as intervenções em grandes unidades/quarteirões, ultrapassando-se, assim, os frequentes e por vezes muito complexos atrasos que são consequência de uma negociação caso/casa a caso/casa e associando-se esta melhoria do processo à introdução de outros objectivos urbanísticos estruturantes, designadamente, ligados às acessibilidades em transportes públicos (ex., caso da Metro Mondego).

Fig. 04

E nestas matérias importa sublinhar que é bem sabido, e é já mesmo lição de experiências portuguesas, que a reabilitação e especificamente a crucial vitalização dos centros históricos depende, directamente, da sua urgente e qualificada irrigação por eficazes transportes públicos, uma eficácia que se liga a serem meios de transporte confortáveis, amigos do ambiente e parceiros dos usos pedonais. Em Coimbra os pequenos autocarros eléctricos Pantufinhas, vitalizadores da Alta, são o exemplo bem “vivo” da validade de tais afirmações, mas podemos, também, ir à Baixa de Lisboa e imaginar como ela estaria hoje em dia sem as duas “bocas” do metro do Chiado.

Antes de se iniciar a visita o Presidente da Direcção do Grupo Habitar testemunhou, publicamente, os devidos agradecimentos por uma exemplar parceria ao Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Dr. Carlos Encarnação e ao Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da CMC na pessoa do seu Director, Eng. Sidónio Simões.
A Direcção do Grupo Habitar salientou, também, a essencial participação: da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica, na pessoa do seu Presidente Guilherme Vilaverde; do Arq. Rui Loza, da Sociedade de reabilitação Urbana do Porto; do Instituto Nacional de Habitação, na pessoa do Eng. Defensor de Castro, Director da Delegação no Porto do INH; do Eng. Celestino Flórido Quaresma, Presidente do Conselho Directivo da OE – Região Centro; e do Eng. António Coelho de Abreu.

10ª Visita Técnica do Grupo Habitar: Coimbra, manhã de 11 de Janeiro de 2007

Seguiu-se a programada visita ao Centro Histórico de Coimbra (Baixa e Alta da cidade), enquadrada por técnicos de História da Arte e de Arquitectura do GCH e no decurso da qual foram referidas, especificamente, obras de requalificação a nível monumental, habitacional e de acessibilidades e obras no âmbito dos programas URBCOM e PRAUD.


Fig. 05

A própria estrutura da visita foi baseada na acção de reabilitação e revitalização do Centro Histórico, pois foi realizada em Pantufinhas, até à Sé Velha, seguindo-se depois um significativo percurso pedonal. Sobre os Pantufinhas cita-se parte de um artigo de Sidónio Simões: “a implementação, em 2003, de um circuito de transportes urbanos com dois mini-autocarros que circulam em simultâneo, percorrendo a chamada “Linha do Centro Histórico” acrescentou, antes de mais, conforto a quem tem de recorrer à Baixa e à Alta com frequência.


Fig. 06

O “Pantufinhas”, nome dado ao autocarro, não poluente, é pequeno o que significa que se movimenta com destreza nas ruas mais exíguas (tem capacidade para transportar cerca de 20 passageiros), é silencioso pelo que foi dotado de um sinal sonoro para avisar os invisuais da sua passagem. Não tem paragens pré-definidas (entra-se e sai-se onde se quiser, basta indicá-lo ao motorista) e é gratuito para os residentes da Alta.” (parte do texto do artigo de Sidónio Simões, intitulado “A mobilidade no Centro Histórico – o caso de Coimbra”, editado em 12 de Outubro de 2006 no Infohabitar).


Fig. 07

Fig. 08

O percurso a pé foi o seguinte: Pátio da Inquisição, Praça 8 de Maio, Largo da Sé Velha, Rua Fernandes Tomás, Beco das Cruzes, Rua Joaquim António de Aguiar, Coimbra Editora, Praça do Comércio, Travessa da Rua Velha, Rua Eduardo Coelho, Largo do Poço, Rua do Corvo, Praça 8 de Maio e, finalmente, os participantes foram transportados em autocarro até ao Jardim da Sereia, no qual foram apresentadas as respectivas obras de requalificação.


Fig. 09

Fig. 10

8ª Sessão Técnica do Grupo Habitar: Coimbra, tarde de 11 de Janeiro de 2007

Após o almoço, que decorreu nas cantinas universitárias da Casa Municipal da Cultura de Coimbra, foi na respectiva Sala de Conferências que decorreu a 8ª Sessão Técnica do GH, da qual é feito, em seguida, um muito sintético e informal relato de conteúdos.


A sessão foi iniciada com uma pequena intervenção de enquadramento pelo Eng. Sidónio Simões, Director do GCH, seguindo-se uma também pequena intervenção do Presidente da Direcção do GH, na qual foi sublinhada a importância, a actualidade e as potencialidades da aplicação e do desenvolvimento do conceito de “construir no construído”.

Seguiu-se a intervenção do Arq. Rui Loza, intitulada “Lições da experiência na requalificação do Centro Histórico do Porto”, da qual se salientam, informalmente e de forma “telegráfica”, as seguintes notas e ideias (numa reinterpretação sempre apenas aproximada do que foi realmente dito):


Fig. 11
  • Há que ler a cidade como um problema de espaço(s) e de tempo(s), não seremos os últimos a tocar num dado edifício e num dado espaço e não fomos os primeiros – não há reabilitação urbana feita em mandatos autárquicos, mas isto não quer dizer que não seja urgente.
  • A cidade é diversidade, é feita de mudança; a cidade adapta-se, ou tem de se adaptar, e a adaptação da cidade faz-se às necessidades do nosso tempo e incide em espaços públicos e em espaços edificados.
  • Há que considerar a herança dos diferentes séculos, há que entender que dentro do centro histórico cada território é um território, mas a cidade habitada não é um “fóssil”, é algo de vivo e muito complexo – “mais complexo do que a cidade talvez só o corpo humano.”
  • “Não basta estar vivo, há que estar saudável, e é fácil fazer mal.” E, assim, tal como, quando doentes, não entregamos o nosso corpo a pessoas menos qualificadas, “não se pode entregar a cidade a «feiticeiros e a aprendizes» ”, pois, por vezes não é preciso amputar e amputa-se e outras seria preciso fazê-lo e não se faz; e pode-se “matar” a cidade seja numa perspectiva essancialmente de rentabilidade, seja numa de cidade museu/restauro.
  • Qualquer cidade é, e tem de respeitar, a sua especificidade, que se liga ao seu ambiente específico, ao seu sítio, às suas zonas, à sua população; e a cidade ganha quando tais especificidades são consideradas, mas perde quando tal não acontece; há, por exemplo, uma rua do Centro Histórico do Porto, que é uma rua da Baixa do Porto.


Fig. 12
  • A reabilitação quer dar respostas a situações graves de insalubridade, de falta de condições de habitabilidade e de críticas situações de sobrelotação, que se desenvolveram nos centros históricos e que, elas próprias, estiveram na origem dos movimentos higienistas e mesmo do próprio movimento moderno na arquitectura urbana. Depois foi por vezes o acaso que ditou que certas intenções renovadoras não tenham deturpado, ainda mais, os nossos centros históricos, embora este acaso tenha mantido muita gente a viver sem condições de habitabilidade.
  • Quando se reabilita um espaço urbano, habitualmente, não cabem lá os que lá estavam (em graves condições de insalubridade) e há que introduzir, para além de melhorias de habitabilidade doméstica, condições de acessibilidade e de estacionamento automóvel, o que só é possível de considerar quarteirão a quarteirão e não edifício a edifício.
  • Na reabilitação há que promover economias de circulações verticais, integração de elevadores e determinados tipos de áreas habitacionais e há que o fazer de uma forma harmonizada com a actividade comercial térrea, que, habitualmente, ocupa a frente de cada edifício; e tudo isto é também habitualmente impossível se considerado edifício a edifício.
  • Quanto ao modelo talvez no futuro seja possível desenvolver uma solução intermédia entre o velho e inviável processo em que se comprava, pagava as obras e se realojavam os habitantes com rendas sociais, e o actual processo que se caracteriza por ser em grande parte privatizado.
Em seguida foi feita a apresentação do tema “Requalificação e completação do conjunto residencial da Bouça, de Siza Vieira, o contexto e o processo”, por Guilherme Vilaverde, Presidente da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), da qual também se salientam, informalmente e de forma “telegráfica”, as seguintes notas e ideias (numa reinterpretação sempre apenas aproximada do que foi realmente dito):


Fig. 13
  • Foi lembrada a situação de inacabamento construtivo e projectual do conjunto da Bouça – as casas tinham sido ocupadas inacabadas e faltava construir boa parte dos blocos habitacionais, assim como os respectivos equipamentos, estacionamentos e espaços públicos.
  • Foi também lembrado o próprio peso político do processo, que sempre constou, em termos de intenção de reabilitação e de completação, ao longo de 25 anos, da agenda política de muitos candidatos autárquicos; um peso, aliás, ainda incrementado, e tornado de grande sensibilidade, por se tratar de um ícone da arquitectura habitacional portuguesa do século XX.
  • Estava-se, assim, em presença de um processo de elevadíssima complexidade e no qual, o seu primeiro passo consistiu em incutir-se confiança nos diversos intervenientes, relativamente a tratar-se de um processo marcado pela eficácia e pela sustentabilidade aos mais diversos níveis.
  • Pretendia-se assim que sem meios financeiros próprios (dos residentes e dos promotores directos) se pudesse colocar de pé um processo de reabilitação, de humanização e de conclusão do conjunto da Bouça e fazê-lo, numa perspectiva de controlo de custos e de qualidade, e no total respeito do projecto original de Siza Vieira e naturalmente com a participação activa deste projectista.
  • A promoção cooperativa avançou com a criação de uma cooperativa específica, a “Águas Férreas”, criada a partir da união de esforços das cooperativas Ceta (do Aldoar) e As Sete Bicas (de Matosinhos) e da preexistente Associação de Moradores da Bouça; criando-se assim o que foi uma verdadeira solução integral, que teve o apoio do Instituto Nacional de Habitação e que assegurou as facetas: técnica e patrimonial, institucional, financeira, social e de gestão.


Fig. 14
  • Foi um processo de elevada complexidade pois abrangeu aspectos tão diversos e exigentes como os seguintes: legalização e reabilitação dos edifícios preexistentes (reabilitação precedida pelo cuidadoso levantamento da patologia construtiva existente); intervenção e resolução no/do quadro social preexistente, marcado por situações muito difíceis; desenvolvimento da reabilitação profunda (ex., introdução de isolamentos térmicos) e da nova construção num estaleiro habitado – alguns fogos vagos serviram de “volante” de alojamento temporário; construção de 72 novos fogos, da garagem comum, dos equipamentos e dos espaços públicos; assegurar um seguro decenal que cobre tanto as obras novas, como as de reabilitação; e, finalmente, monitorização do condomínio (em curso).
  • No final de quatro anos de desenvolvimento do processo, e sempre com o fundamental apoio autárquico e do INH, foi lançada a ”primeira pedra” do empreendimento, em Abril de 2004; em 20 de Dezembro de 2005 foi aberto o “andar modelo”; e em 25 de Abril de 2006 inaugurado o novo/velho conjunto da Bouça.
  • A ideia que ficou é estar-se em presença de um processo com excelentes capacidade de vir a ser replicado, em termos da sua natureza geral cooperativa, que se liga à sua pormenorização técnica e social; e uma replicação que parece ter excelentes perspectivas tanto na reabilitação de centros históricos, como na requalificação e reabilitação de conjuntos e “bairros” de habitação de interesse social.


Fig. 15

Finalmente foram concluídos os trabalhos do dia, não antes de ter havido lugar a um animado debate do qual, entre outros aspectos, ficou a ideia de que a reabilitação não pode esperar pelo planeamento, um planeamento e uma regulamentação que muitas vezes são pensados mais numa perspectiva da construção nova e menos na da reabilitação urbana; ficou igualmente a noção de que é importante “desenhar uma visão daquilo que se pretende em termos da reabilitação” e aplicar programas funcionais (ex., tipologias habitacionais) com alguma flexibilidade, e não apostar num planeamento determinista, pois este até pode ser catastrófico, e que para aplicar uma tal visão é fundamental que exista uma “equipa de gestão lá dentro” (lá dentro do problema seja como se passa no GCH de Coimbra, seja como se passou na parceria entre moradores e cooperativas na Bouça).


Fig. 16

Ficou ainda praticamente decidido que se irá replicar esta visita/sessão sobre “requalificar e habitar uma cidade amigável”, no Porto, com o desejável apoio do INH e da SRU da Câmara Municipal do Porto, sendo que então o GCH da CM de Coimbra irá transmitir o seu processo de actuação e as suas reflexões, e a visita será feita ás obras da SRU da CM do Porto.

Passavam já das 18 horas e o debate teve de ser interrompido pois muita gente ainda ia para longe e trata-se de temas que, mais do que se esgotarem, sempre se vão, gradualmente, enriquecendo; e ficou assim lançado o desafio para uma próxima continuação da visita e da discussão do Grupo Habitar, sobre a requalificação e o habitar/vitalização de uma cidade amigável e humanizada, provavelmente no Porto e, depois, quem sabe noutras cidades.

Lisboa, Encarnação/Olivais-Norte, 25 de Janeiro de 2007


Câmara Municipal de Coimbra – Gabinete para o Centro Histórico - Arco de Almedina, n.º 14 – 3000-422 Coimbra
mailto:centro_histórico@cm-coimbra.pt

quinta-feira, janeiro 18, 2007

ESTRATÉGIAS DE FLEXIBILIDADE NA ARQUITECTURA DOMÉSTICA HOLANDESA: da conversão à multifuncionalidade – artigo de Rita Abreu (1) e Teresa Heitor (2) - Infohabitar 122

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ESTRATÉGIAS DE FLEXIBILIDADE NA ARQUITECTURA DOMÉSTICA HOLANDESA: da conversão à multifuncionalidade

Palavras-chave: Flexibilidade; Habitação colectiva; Estratégia; Elemento arquitectónico; Estratégia auxiliar

(1) Arquitecta, Mestre em Construção pelo Instituto Superior Técnico; e-mail:ritaabreu@hotmail.com

(2) Arquitecta, Doutorada em Engenharia do Território, Professora Associada do Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção (ICIST); e-mail: teresa@civil.ist.utl.pt – Av. Rovisco Pais, 1049-001 Lisboa, Portugal.

Resumo
O artigo aborda o conceito de flexibilidade no quadro da habitação colectiva, i.e., a capacidade de adaptação do espaço doméstico aos usos praticados pelos moradores, de modo a responder ao longo do tempo com eficácia e em condições de segurança física, às suas necessidades e expectativas. Utilizando como campo de investigação a experiência holandesa no desenvolvimento e aplicação de estratégias de flexibilidade no projecto de habitação colectiva e com recurso à avaliação pós-ocupação (APO) procura-se identificar: 1) os agentes incentivadores e condicionantes da flexibilidade; 2) princípios de boas práticas de projecto para a habitação flexível.

AbstractThe article describes the concept of housing flexibility, i.e., the domestic space ability to change and adapt to users' needs over time. The aim is: 1) to identify flexibility inductors and conditioners; 2) producing high-quality design in this area. The approach is based on the Dutch experience of flexible housing and POE evaluation studies.
Key words: Flexibility; collective housing; strategy; architectural element; auxiliary strategy

INTRODUÇÃO
A actual diversidade de hábitos e modos de vida da população urbana e a resultante pluralidade de necessidades e de preferências face ao espaço doméstico, conjuntamente com as rápidas alterações e instabilidade do modelo social contemporâneo, questionam os processos convencionais de produção de habitação em série e justificam a exploração de modelos alternativos.

Com efeito, às formas de promoção de habitação pede-se cada vez mais que sejam projectos de futuro - social, económica e ambientalmente duráveis - para contextos sócio-culturais cada vez menos previsíveis. É por isso essencial pensar a habitação como um sistema aberto à mudança, logo mais adaptável a uma maior diversidade sócio-cultural, mais durável e mais rentável. Ao procurar dotar o espaço da habitação de capacidade adaptativa à mudança, está-se a proporcionar uma habitação ajustada a um maior número de pessoas e ao mesmo tempo a contribuir para optimizar os recursos envolvidos, facultando-lhe um valor acrescido. A introdução de estratégias de flexibilidade na arquitectura doméstica colectiva pode constituir uma resposta a esta situação, tanto em termos de diversidade de oferta como de redução dos custos associados à sua produção e gestão.
A experiência holandesa reflecte o investimento continuado em metodologias de projecto inovadoras e em processos construtivos flexíveis com recurso a sistemas pré-fabricados e modulares na concepção de espaços domésticos com capacidade de adaptação no tempo, bem como a intervenção directa do poder público ao nível do financiamento, das normativas de construção e da promoção e divulgação de iniciativas relativas a aplicação de estratégias de flexibilidade no projecto de habitação colectiva.

A influência estatal está patente tanto nas políticas de financiamento para a construção de habitação a baixos custos como ao nível da publicação de instrumentos normativos reguladores da qualidade urbana e arquitectónica dos empreendimentos com ênfase no desenvolvimento e aplicação do conceito de flexibilidade na construção. Os promotores imobiliários assumem um papel determinante no estímulo de estratégias de flexibilidade na habitação colectiva. Existe um conjunto de empresas (de construção e de promoção imobiliária) empenhadas em desenvolver conceitos habitacionais direccionados para os consumidores e que proporcionam uma maior possibilidade de escolha, seja ao nível das tipologias como dos materiais de acabamentos (exteriores e interiores).

Ao nível das metodologias de projecto e das tecnologias de construção flexível, destacam-se os trabalhos desenvolvidos pelo grupo SAR (1972, 1976) coordenado por Habraken, e pelo grupo Open Building Simulation Model (OB) coordenado por Van Eldonk, Boasson e Fassbinder (1989, 1990, 1992), por Hertzberger (1962), e por Leupen (2002).
O SAR desenvolveu métodos para simplificar o projecto de arquitectura e facilitar as decisões de todas as partes envolvidas no processo construtivo incluindo os futuros ocupantes que participavam na configuração interior dos seus fogos. Defendia também a necessidade de maior envolvimento da indústria no processo da construção. Para o efeito desenvolveu um método de projecto que serviria de base para os projectos de habitação, onde foram explorados os conceitos de: suporte e infill, grelha modular, zona, margem e a geração de variantes; concentrou-se na possibilidade de desenvolver produtos, especialmente a estandardização de sistemas infill e desenvolveu uma metodologia para apoio ao projecto da envolvente urbana.

No final da década de 70 o grupo OB redirecciona a sua atenção para os processos construtivos indutores de flexibilidade. Os conceitos base referem a estratificação das competências, i.e. a sistematização dos vários componentes do edifício de modo a que não haja sobreposição de responsabilidades. Esta simplificação do processo construtivo vai facilitar tanto a sua execução, como futuras alterações, manutenção e administração. Outro conceito referido é a capacidade do projecto dar resposta a várias possibilidades viáveis, através da elaboração de cenários. Isto significa que o projecto é deixado em aberto (como um tecido dinâmico) e que compete ao espaço físico a capacidade de acomodar alterações e variações na sua função ao longo do tempo. A actividade de investigação do movimento OB cessa em 1999 por se considerar que as ideias básicas já se encontrarem suficientemente assimiladas.

Este artigo, tendo como base a experiência holandesa, visa identificar os principais agentes indutores de flexibilidade e de resistência à mudança presentes no projecto de habitação colectiva nas fases de produção e ocupação. A investigação, desenvolvida no âmbito da dissertação de mestrado em Construção do Instituto Superior Técnico (Abreu, 2005) centrou-se na experiência Holandesa e envolveu: 1) a análise do papel da iniciativa pública e privada na promoção de estratégias de flexibilidade; 2) o levantamento e caracterização de um conjunto de 24 projectos onde estas estratégias foram aplicadas. O levantamento foi complementado pela Avaliação Pós-Ocupação de 4 estudos de caso escolhidos entre os exemplos seleccionados na fase anterior. O artigo está estruturado em três partes. Na primeira define-se o conceito de flexibilidade espacial e caracterizam-se as diferentes estratégias que permitem a sua aplicação em projectos de habitação colectiva. Na segunda abordam-se as estratégias de flexibilidade na habitação colectiva holandesa e descreve-se a experiência de APO desenvolvida. Identificam-se os diferentes intervenientes no processo de planeamento / construção / ocupação e analisam-se as estratégias e os procedimentos adoptados. Na terceira parte referem-se as conclusões.

1. A FLEXIBILIDADE ESPACIAL NA ARQUITECTURA DOMÉSTICA


O conceito de flexibilidade do espaço doméstico, pode ser entendido como a capacidade do espaço físico se adaptar ao processo dinâmico do habitar, i.e. uma condição inerente à própria forma arquitectónica. Implícito neste conceito está o entendimento de que o uso do espaço doméstico é um processo variável e dinâmico. Variável porque os usos praticados estão relacionados com os estilos de vida dos moradores i.e., com os seus valores, níveis culturais e singularidades, e portanto, não são universais. Dinâmico porque os usos acompanham a evolução da sociedade e como tal não se mantém fixos no tempo.

Este conceito tem vindo a ser interpretado de forma variada, por vários autores, associado a diferentes modos de adaptação do espaço arquitectónico. Tendo presente as dificuldades inerentes à própria viabilização do conceito de flexibilidade quando aplicado no quadro da produção de habitação colectiva, considera-se que a condição adaptativa do espaço físico da habitação resulta da aplicação de estratégias projectuais, tanto ao nível da organização espacial, como dos processos construtivos, sendo possível identificar cinco tipos distintos de estratégias de flexibilidade: 1) Conversão (por alteração na configuração espacial do fogo); 2) Polivalência – (sem alteração na configuração espacial do fogo) ; 3) Expansão (por alteração dos limites do fogo, seja no sentido vertical ou horizontal, com aumento da área); 4) Multifuncionalidade (por adaptação do espaço a várias usos (habitação, comércio, escritórios), podendo ocorrer ou não alterações na configuração espacial; 5) Diversidade (pela variedade tipológica conjugada num edifício).

1.1. OS ELEMENTOS ARQUITECTÓNICOS NAS ESTRATÉGIAS DE FLEXIBILIDADE

As estratégias de flexibilidade espacial estão directamente relacionadas com a evolução dos processos construtivos e em particular, com o grau de subordinação estabelecido entre as diferentes “camadas” (layers) que constituem um edifício. O conceito de camada, inicialmente proposto por Duffy (1990) e posteriormente desenvolvido por Brand (1994) parte do princípio que o edificio é constituído por diferentes elementos que podem ser desagregados por níveis de durabilidade, designadamente: Site (terreno); Structure (estrutura); Skin (fachada/pele); Services (instalações); Space plan (interior) e Stuff (mobiliário). De acordo com Brand (1994) é a autonomia construtiva entre as várias camadas que constitui a condição essencial para prolongar a vida funcional de um edifício e permitir o desempenho de estratégias de flexibilidade. É a condição de independência estabelecida entre estas camadas que vai permitir que estas possam ser alvo de renovação, remoção ou reconstrução sem interferir com as restantes partes do edifício, ou com os sistemas de renovação mais lenta.

Para além da importância da dissociação das camadas construtivas na elaboração de edifícios flexíveis, Leupen (2002) enfatiza também o papel dos vários elementos arquitectónicos na fase de projecto e propõe um novo processo de projectar a flexibilidade, que considera o permanente, e não os elementos alteráveis, como ponto de partida. O permanente (componente durável) é definido como o frame dentro do qual se processam as alterações. Este é específico e possui as características que determinam uma arquitectura de longa duração. O espaço dentro do frame não é específico no seu uso, logo é flexível.
Leupen assume que um edifício é composto por vários elementos - estrutura, pele, cenário, instalações e acessos - que podem exercer a função de frame, dependendo das suas características e do papel que desempenham. Os elementos considerados frame são aqueles onde em princípio não serão feitas alterações mas que vão permitir a mudança nos outros elementos.

Fig. 01: Diferença entre as camadas construtivas de Brand e os elementos de Leupen e esquema do frame e do espaço genérico. LEUPEN, B. (2002)

A partir da categorização proposta por Brand e Leupen, distinguem-se seis “elementos arquitectónicos”, a serem considerados nas estratégias de flexibilidade: 1) Envolvente – Localização e tipo de inserção urbana; 2) Estrutura – Fundações e elementos estruturais; 3) Invólucro exterior – Superfícies exteriores – fachadas e coberturas; 4) Serviços – Redes técnicas de águas e esgotos, electricidade, gás, AVAC (aquecimento, ventilação, ar condicionado), TV, telefone e Internet e respectivos equipamentos; 5) Acessos/circulação – Escadas, corredores, elevadores, galerias; 6) Configuração espacial – Elementos do interior (paredes, tectos, pavimentos, portas, etc.)

1.2. ESTRATÉGIAS AUXILIARES

As estratégias de flexibilidade reflectem-se na concepção dos diferentes elementos arquitectónicos, sendo na fase de projecto desenvolvidas estratégias auxiliares referentes aos elementos considerados. A flexibilidade resulta da totalidade ou da conjugação parcial de estratégias auxiliares de projecto relativas aos vários elementos arquitectónicos. Quando utilizadas de forma isolada, as estratégias auxiliares não são geradoras de flexibilidade.

A importância da envolvente na flexibilidade está relacionada com as estratégias de expansão e de multifuncionalidade. No primeiro caso, o aumento do volume construído, seja na vertical ou na horizontal, tem sempre implicações urbanas. A estratégia auxiliar mais recorrente é dotar o edifício de um volume que à partida é inferior às dimensões máximas admissíveis, seja em relação à sua cércea ou à sua área de implantação máxima (previsão de zonas residuais para futura ocupação).

No segundo caso, a multiplicidade funcional está relacionada com os planos de ocupação do solo (Planos directores Municipais, entre outros). Estes, não são necessariamente um entrave ao desenvolvimento de áreas multifuncionais, se expressarem parâmetros que indiquem aquilo que não é desejável em vez de limitarem as possibilidades.

A concepção estrutural (dimensionamento e sistema utilizado) é essencial em relação a todos os tipos de estratégias de flexibilidade. As estratégias estruturais mais utilizadas são: configuração regular da estrutura; utilização de grandes vãos estruturais; concepção de modo a não criar obstáculos – estrutura associada à fachada, acessos e serviços ou aos limites das unidades habitacionais; criação de vazios nas paredes do túnel, para possibilitar futuras expansões ou conversões; inexistência de elementos estruturais entre unidades habitacionais; sobredimensionamento da estrutura relativamente às sobrecargas.

A concepção do invólucro exterior está directamente relacionada com as estratégias de conversão, de expansão ou com a multifuncionalidade. Ao possibilitar a alteração da configuração espacial do fogo (conversão), a fachada e nomeadamente a composição dos vãos, deve permitir essa ocorrência. A estratégia auxiliar mais utilizada é a composição de métrica regular, ou irregular, que pelo seu dimensionamento não põe em causa futuras configurações espaciais.

A concepção das redes técnicas (água e esgotos, gás, luz, electricidade, telefone, TV, Internet) dos equipamentos (ar condicionado, caldeiras, etc.) e dos serviços (cozinha e instalações sanitárias) é de grande relevância em todas as estratégias de flexibilidade, uma vez que estes são ainda, na maior parte dos casos, os elementos fixos do espaço.

As estratégias auxiliares mais utilizadas em relação aos serviços são: agrupamento dos serviços em blocos ou bandas; instalação estratégica de redes em pavimentos, tectos ou paredes de fácil acesso e possibilidade de alteração, ou numa área que não interfira com as possíveis alterações; localização estratégica de condutas verticais; ausência de redes técnicas nas paredes ou elementos que podem ser alterados.

A concepção da circulação e dos acessos é essencial em soluções de expansão e de conversão, e em muitos casos está associada aos serviços. As principais estratégias auxiliares são: localização concentrada dos acessos/circulação; criação de acessos múltiplos e/ou de circulações alternativas; previsão de acessos a uma futura expansão; previsão da possibilidade de vir a ser instalado um elevador; concepção do espaço de circulação como elemento “rótula” (espaço de distribuição para os possíveis futuros compartimentos).

A configuração espacial do interior do edifício tem de prever possíveis alterações no sentido de criar um sistema aberto à modificação. As suas possibilidades podem ser limitadas ou não. As estratégias auxiliares de projecto relativas a este elemento arquitectónico estão essencialmente relacionadas com situações de conversão e de polivalência, e incidem sobre os seguintes aspectos: utilização de elementos divisórios independentes da estrutura; utilização de elementos amovíveis; configuração espacial ambígua; configuração espacial livre (open floor plan).

Na concepção espacial são também de extrema importância os sistemas ou materiais utilizados, uma vez que podem pôr em risco o sucesso da estratégia. É essencial considerar o modo de ligação entre as paredes e os pavimentos ou tectos de forma a permitir a fácil alteração da compartimentação. Os sistemas mais adequados são as paredes divisórias leves, constituídas por elementos modulares pré-fabricados ou não. Os tectos falsos e os pavimentos elevados, pertencentes a este grupo são de grande importância em relação à integração das redes técnicas e sua futura alteração.

Seja qual for a estratégia adoptada, ou conjunto de estratégias, a flexibilidade nunca é ilimitada, pode é possuir uma amplitude mais ou menos abrangente. Para a sua definição os projectistas devem prever possíveis “cenários” a que o projecto terá de responder. Estes cenários são elaborados tendo em conta o ciclo de vida da estrutura, requisitos para abranger outras funções que não apenas a inicial, e em relação a cada função determinar quais os parâmetros a obedecerem. No caso específico das funções domésticas devem ser definidas as necessidades do(s) ocupante(s) formalizadas em vários cenários, que dizem respeito às diferentes necessidades dos ciclos de vida familiares, dependendo do seu tamanho, educação, ocupação, estatuto económico, etc.

2. A EXPERIÊNCIA HOLANDESA


A análise da experiência holandesa foi feita com base em estudos de caso seleccionados através de um inquérito preliminar a 30 escritórios de arquitectura envolvidos em projectos de habitação colectiva. Com este questionário procurou-se identificar quais os arquitectos interessados no tema da flexibilidade na habitação, aqueles que o exploravam no seu trabalho e quais as estratégias seguidas.

Foi também elaborada uma pesquisa bibliográfica de modo a fazer uma selecção de vários projectos de habitação colectiva construídos na Holanda, durante o século XX, em que tivessem havido preocupações no âmbito da flexibilidade, para contextualizar os exemplos escolhidos.

Os projectos de habitação flexível analisados procuram dar resposta a um conjunto de requisitos, consequentes do contexto holandês como a possibilidade de escolha mais abrangente por parte dos futuros residentes quer ao nível dos materiais ou da configuração do fogo em função das suas necessidades e possibilidades económicas do momento e o maior aproveitamento espacial de tipologias de reduzida área útil. Para dar resposta a estes requisitos são utilizadas estratégias de Conversão, Polivalência, Expansão, Multifuncionalidade e Diversidade, podendo ser também utilizada a sua combinação.

Os projectos apresentam uma organização espacial que faz a distinção entre os elementos fixos e os flexíveis, no sentido de estes últimos estarem “abertos” à modificação. É clara também a tendência para o agrupamento dos serviços e dos acessos nas várias estratégias.

Dada a importância que os vários elementos arquitectónicos revelam, em relação às diferentes estratégias de flexibilidade em estudo, propõe-se uma nova hierarquia baseada na sua relevância como elemento arquitectónico na fase de projecto (estratégia auxiliar). Assim, evidenciam-se os elementos: estrutura, serviços e acessos/circulação, como fundamentais no desenvolvimento de estratégias auxiliares de projecto tendo como objectivo a flexibilidade, e que por isso requerem um maior cuidado na sua concepção. Esta hierarquia não está portanto relacionada com a vida útil das várias camadas, sugerida por Brand.

Por outro lado, observa-se que as estratégias de flexibilidade que não implicam alterações: a polivalência e a diversidade, são aquelas que reflectem uma menor ocorrência de estratégias auxiliares nos elementos arquitectónicos. Constata-se também a importância dos sistemas construtivos utilizados no desempenho das estratégias de flexibilidade, uma vez que são estes os agentes que vão permitir a flexibilidade dos elementos arquitectónicos: invólucro exterior, serviços e configuração espacial.

As estratégias auxiliares de projecto que se referem apenas à configuração dos elementos arquitectónicos (excepto no caso da circulação), prevêem apenas a sua eventual alteração não os tornando contudo os elementos flexíveis. Por exemplo: uma parede pode ser projectada pensando-se na eventualidade de vir a ser removida, mas se for construída segundo métodos tradicionais a sua remoção implica a demolição. Logo como elemento não é flexível.

2.1. A AVALIAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO: PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS


Os estudos de caso foram identificados num universo de 24 tipologias e referem-se a 4 projectos de habitação colectiva em que foram exploradas estratégias de flexibilidade (nos estudos de caso a estratégia é sempre a conversão). A selecção dos casos esteve relacionada com a importância do conceito de flexibilidade no contexto do projecto e com a relevância que este tema assume no trabalho dos respectivos projectistas.

A data de construção não foi determinante na selecção dos estudos de caso uma vez que as alterações ou escolhas feitas pelos primeiros moradores foram consideradas de igual importância às realizadas ao longo do tempo, pelos mesmos ou por outros, que não os primeiros. Para não prejudicar os resultados da análise, considerou-se que os edifícios deviam evidenciar processos construtivos actuais e encontrar-se em bom estado de conservação.

À partida considerou-se relevante seleccionar um estudo de caso relativo a um projecto Open Building (Estudo de caso 1 – EC1), pela importância que este movimento assumiu no contexto da flexibilidade na habitação colectiva. Foi também dada relevância à confrontação deste estudo de caso com outros exemplos de flexibilidade que possibilitam a alteração da compartimentação interior mas de forma mais controlada. O Estudo de caso 4 (EC4), embora construído muito recentemente, possibilitou conhecer a opinião de residentes que tiveram influência na compartimentação interior do fogo. Acrescem a estes aspectos outras razões de natureza operacional, nomeadamente a facilidade de obtenção de elementos de projecto e de acesso aos residentes, permitindo obter informação directa sobre o uso da habitação.

Após uma pré-selecção de projectos que seriam apropriados para uma APO foi feita uma entrevista aos projectistas destes edifícios. Pretendeu-se conhecer o processo do projecto desde a sua concepção até à sua finalização, identificar os vários intervenientes e qual ou quais foram determinantes para o desenvolvimento de uma tipologia flexível e ainda os problemas encontrados para a sua realização.

Feita a escolha definitiva de 4 estudos de caso foram contactadas as entidades promotoras para conhecer a sua opinião em relação ao conceito de flexibilidade utilizado e aos resultados atingidos.

A metodologia utilizada para a caracterização dos estudos de caso foi estabelecida de modo a abranger as várias fases de desenvolvimento do projecto: planeamento/concepção; construção e ocupação. A informação foi recolhida a partir de fontes documentais (projectos e processos de obra), entrevistas com os agentes promotores e com os técnicos projectistas, inquéritos a residentes e observações directas (visitas/inspecções técnicas).

Ao nível da fase de Planeamento/concepção a análise teve como objectivo caracterizar a) a entidade promotora e o programa fornecido ao projectista; b) a entidade projectista e as suas opções e tendências em termos de prática profissional; c) o edifício: inserção urbana, nº de pisos; invólucro exterior; organização espacial ao nível dos espaços comuns e de circulação; organização distributiva; estrutura; redes e infra-estruturas; tecnologias construtivas; materiais de construção; d) os fogos: tipologias de habitação; organização espacial; tipo de serviços de infra-estruturas; materiais de construção; e) os aspectos inovadores; f) as opções do projectista; d) a regulamentação.

Esta tarefa foi desenvolvida com base em informação de arquivo: documentação bibliográfica; documentação fotográfica; documentação escrita e desenhada dos projectos de arquitectura; fontes vivas – recolha de depoimentos e entrevistas aos diferentes intervenientes no processo de planeamento/concepção – arquitecto e promotor; inquéritos aos arquitectos.

A análise da fase de construção teve como objectivo caracterizar as alterações (no caso de terem ocorrido) ao projecto de arquitectura, durante a fase da construção, tanto ao nível do edifício como dos fogos. Esta tarefa foi desenvolvida com base em documentação escrita e desenhada dos projectos de arquitectura; fontes vivas – recolha de depoimentos e entrevistas ao diferentes intervenientes no processo de construção – arquitecto e promotor.

A análise da fase de ocupação visou a identificação das alterações efectuadas pelos residentes e a caracterização da forma como estes adaptaram o fogo (projecto-base) ao seu modo de vida, de modo a avaliar as condições de flexibilidade presentes nas tipologias em estudo. Para o efeito foram feitos inquéritos e entrevistas aos residentes, complementados por levantamentos (observações directas). Os inquéritos e as entrevistas foram pré-estruturados de modo a focar aspectos vários relacionados com o agregado familiar, o tempo de utilização e tipos de ocupação e actividades desenvolvidas; alterações protagonizadas.

Nos inquéritos realizados aos residentes foi utilizada uma ficha base distribuída aos moradores e posteriormente recolhida. Sempre que possível as perguntas foram concebidas para uma resposta fechada. As perguntas de opinião foram subdivididas em resposta fechada (sim ou não) e aberta (justificação do sim ou não), nas de apreciação a pergunta foi o mais específica possível (aspecto mais positivo, aspecto mais negativo e o que lhe falta no fogo) mas achou-se apropriado o uso de resposta aberta para não condicionar de forma alguma a opinião dos residentes. Em situações pontuais foi preenchida em colaboração directa com o inquiridor o que facilitou a observação directa da habitação.

Foi desenvolvido um sistema de tratamento de informação de modo a permitir arquivar e tratar todos os dados recolhidos. Este sistema contemplou informação escrita e iconográfica (desenhos, fotografias, etc.). Para a análise da organização espacial dos fogos e das alterações efectuadas pelos residentes, seguiu-se a metodologia proposta por Heitor et alt (2003). Para o efeito procedeu-se à descrição da estrutura configuracional das plantas (inicial e alterada), com base na caracterização sintáctica (transformação gráfica das plantas em mapas convexos e correspondentes grafos); seguidamente foi feita a caracterização da organização espacial das funções domésticas a partir da identificação e localização espacial dos diferentes sectores funcionais: privado (zona de dormir, estudar, higiene pessoal: quartos e instalações sanitárias); social (zona de estar, comer, receber visitas); serviço (zona de preparar refeições, tratamento de roupas, despensa, etc.); circulação. Por último procedeu-se à comparação entre a situação inicial e a alterada.

2.2. ESTUDOS DE CASO
Os estudos de caso foram construídos num período compreendido entre 1982 e 2003, apresentam diferentes dimensões, configurações e tipologias de habitação. Todos adoptam a estratégia de flexibilidade “conversão”, relacionada com a capacidade da alteração da compartimentação interior em fase de pós-ocupação. Nos Estudos de caso 1 e 4 (EC1 e EC4) essa estratégia foi alargada à fase de construção, isto é, foi considerada a possibilidade de escolha da compartimentação inicial do fogo e de alguns materiais de acabamento (apenas no EC4).

Os Estudos de caso 1, 2 e 3 (EC1, EC2 e EC3) pertencem ao sector de renda social e o Estudo de caso 4 (EC4) ao sector privado.

Estudo de caso 1: conjunto habitacional, da autoria de Frans Van Der Werf, situado em Lunetten – Utrecht – e concluído em Agosto de 1982 e integrado no movimento OB. Perfaz um total de 431 habitações com diferentes tipologias e dimensões. As plantas base são apenas definidas pelos limites exteriores do fogo e pela conduta central de onde derivam as várias redes técnicas e instalações.

Estudo de caso 2: 12 edifícios de habitação colectiva (84 fogos) projectados por Liesbeth Van Der Pol, situado em Twiske West, na periferia norte de Amesterdão, e concluído em 1993. Cada edifício, de forma circular, é constituído por 7 fogos que se desenvolvem em três pisos desfasados, com áreas equivalentes e que podem ser subdivididos, ou não, em dois espaços autónomos.

Estudo de caso 3: fracção de um bloco de apartamentos, constituída por 23 fogos, situado na Pieter Vlamingstraat, em Amesterdão Este, projectado por Liesbeth Van Der Pol e concluído em 1992. A tipologia escolhida caracteriza-se pela existência de um hall central com o qual todos os espaços comunicam. Neste projecto foi utilizada uma estrutura em pórtico ligeiramente rodada que indica a posição da possível subdivisão do fogo em compartimentos mais pequenos. Foi também utilizada uma estratégia de flexibilidade, característica dos anos pós-guerra na Holanda: o “bay-space”. Trata-se de um compartimento situado na zona oposta à área de circulação colectiva que pode ser anexado a um dos apartamentos adjacentes (nota: esta solução é análoga à tipologia dos edifícios gaioleiros em Lisboa em que havia uma segunda entrada, no hall comum do prédio, que dava acesso directo ao denominado “quarto de aluguer”).

Estudo de caso 4: edifício de tipologia em bloco situado em Lelystad, projectado pelo escritório de arquitectura “DKV” e concluído em 2003. O edifício é composto por 9 andares com dois fogos por piso, perfazendo um total de 18 unidades.

Estudo de caso 1 – Frans Van Der Werf, Conjunto habitacional Lunetten, 1982. Plantas das várias possibilidades de compartimentação interior e vista exterior de um dos edifícios.

Fig. 02: Estudo de caso 1


Estudo de caso 2 – Liesbeth Van Der Pol, Conjunto habitacional Twiske West, 1993. Vista do conjunto e plantas dos vários pisos de cada edifício.


Fig. 03: Estudo de caso 2


Estudo de caso 3 - Liesbeth Van Der Pol, Edifício de habitação na Pieter Vlamingstraat, 1992. Planta do piso tipo e vista exterior do edifício.

Estudo de caso 4 – DKV, Edifício de habitação em Kop van Havendiep, 2003. Vista exterior do edifício e planta do piso tipo.


Fig: 04: Estudos de caso 3 e 4


2.3. RESULTADOS DA AVALIAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO


A flexibilidade das tipologias em análise é comprovada pela opinião positiva dos residentes em relação à capacidade de adaptação do espaço da habitação aos usos e às alterações do agregado familiar e confirmada pela variedade observada na compartimentação interior dos fogos e na organização espacial das funções domésticas.

A APO demonstrou a relevância dada ao desenvolvimento de tipologias flexíveis na habitação por parte dos residentes. É no entanto de assinalar, que é dada maior importância a este parâmetro quando se trata da possibilidade de escolha prévia da compartimentação interior, de modo a permitir uma boa adaptabilidade da habitação a agregados familiares de dimensões variadas, com diferentes modos de vida e sobretudo com requisitos estéticos muito diversificados.

A Conversão foi a estratégia de flexibilidade considerada mais adequada, segundo a óptica dos residentes, para proporcionar a adaptação do fogo às necessidades diárias e às alterações do agregado familiar.

Pela observação do quadro síntese, das situações observadas na compartimentação espacial dos fogos e na organização das funções domésticas, conclui-se que o EC1 é considerado o mais flexível, por ser aquele que mais liberdade oferece aos residentes. No entanto, é de assinalar que a versatilidade das tipologias de EC1, no que diz respeito à distribuição espacial do fogo, dá-se ao nível de pormenor, uma vez que os sectores funcionais (social, privado e serviços) se encontram basicamente nas mesmas áreas. Esta característica está também patente no EC4. Estas tipologias são, por isso, aquelas em que os residentes podem expressar mais facilmente a sua individualidade e gosto pessoal, embora não ofereçam uma grande variedade na organização espacial dos sectores funcionais.


Fig. 05: Quadro síntese do tipo de flexibilidade observado nos estudos de caso

Nos restantes estudos de caso (EC2 e EC3), factores como as dimensões dos espaços, a orientação do fogo ou a sua configuração, sugerem a organização espacial das funções domésticas, embora não condicionem outro tipo de utilização. O EC2 é aquele em que se observa mais variedade na organização espacial dos sectores funcionais. A estratégia de Conversão é limitada mas proporciona bastante diversidade – 8 variações na compartimentação interior e uma amplitude de 3 a 6 divisões. O EC3, que apresenta o mesmo tipo de flexibilidade, é menos versátil, possibilita apenas 4 variações na compartimentação interior com uma amplitude de 1 a 4 divisões.

A flexibilidade destas tipologias (EC2 e EC3) é mais limitativa em relação ao gosto pessoal dos residentes mas tem como vantagem um conjunto de possibilidades para a compartimentação interior que implicam alterações reduzidas.

Conclui-se que a Conversão pode limitar uma apropriação mais personalizada do espaço doméstico, apresentar várias amplitudes de desempenho e implicar alterações de maior ou menor envergadura. Por estas razões, o seu grau de flexibilidade deve ser medido em relação à: 1) amplitude das possibilidades de compartimentação interior; 2) amplitude de possibilidades de organização espacial dos sectores funcionais; 3) facilidade com que se operam as alterações, como consequência do sistema construtivo utilizado.

A combinação destes três parâmetros proporciona um maior grau de flexibilidade, no entanto, dependendo da situação em estudo, a estratégia pode explorar apenas um ou dois dos pontos acima mencionados.

Nos estudos de caso seleccionados, através da análise das suas tipologias base, observou-se que o seu desempenho incidiu nos seguintes pontos: flexibilidade nas possibilidades da configuração espacial: EC1 e EC4; flexibilidade nas possibilidades de organização espacial dos sectores funcionais: EC2 e EC1; flexibilidade em relação à facilidade das alterações: EC1 e EC3.

2.4. INCENTIVADORES E CONDICIONANTES DA FLEXIBILIDADE


Em todos os casos, o principal incentivador para o desenvolvimento de uma estratégia de flexibilidade na habitação foi o arquitecto, embora em EC1 o papel governamental tenha sido essencial.

Em EC1 e 3 as estratégias foram limitadas. No primeiro caso por factores construtivos e no segundo por factores económicos. Em EC2 e 4, factores relacionados com o modo como ocorreu a ocupação dos fogos, no primeiro caso, e factores económicos, no segundo caso, levaram a que ainda não tenha sido explorada toda a potencialidade da tipologia.

Alterações – Acabamentos/Compartimentação: A maioria das alterações ocorreu ao nível dos acabamentos e da compartimentação interior. A análise demonstra a vontade de os residentes modificarem o fogo de acordo com o seu gosto e de efectivamente necessitarem de alterá-lo de modo a adaptar-se à evolução do agregado familiar.

Espaço – área útil: Evidencia-se a importância da área útil do fogo tanto como factor de satisfação em relação à habitação, como justificação da sua boa adaptabilidade. As estratégias de flexibilidade utilizadas foram limitadas pela reduzida área útil do fogo, dada a impossibilidade da sua expansão. Conclui-se por isso ser necessário aliar áreas razoáveis à Conversão ou a sua conjugação com a estratégia de Polivalência ou Expansão. Nestes exemplos transparece também a necessidade de dotar as habitações de espaços de arrumação.

Acessibilidade: É relevante a importância dada à mobilidade condicionada no Estudo de caso 4, uma vez que a população inquirida se encontra numa faixa etária entre os 42 e os 67 anos, e por isso mais sensível a este aspecto. Desta forma, a flexibilidade não deve ser vista apenas ao nível da Conversão, Polivalência, Expansão, Multifuncionalidade e Diversidade, mas também no sentido específico de prever o envelhecimento da população e de assim, proporcionar que, sem grandes alterações, a habitação continue a servir as necessidades dos residentes mais idosos. Deve-se por isso evitar criar barreiras arquitectónicas, tais como desníveis entre os espaços, e ter em conta as dimensões das instalações sanitárias e das zonas de circulação de modo a permitir a sua utilização por pessoas com mobilidade condicionada.

Construção: A utilização de sistemas flexíveis de pouca qualidade (Estudo de caso 1) é um factor de insatisfação dos residentes em relação ao fogo e contribui para uma maior necessidade de realizar alterações. Neste sentido os sistemas de compartimentação interior deviam permitir tanto a sua fácil aplicação, como ter um melhor desempenho, no sentido de superar problemas relativos à sua fragilidade, mau isolamento acústico ou maus acabamentos, uma vez que estes factores condicionam as estratégias de flexibilidade.

Factores económicos: A complexidade construtiva, traduzida em custos elevados, é a causa fundamental para a não realização de algumas alterações que iriam melhorar a qualidade de vida dos residentes. Assim, pode-se concluir que as estratégias de flexibilidade de conversão condicionada (Estudos de caso 2 e 3), em que a alteração da compartimentação se limita à construção ou remoção de uma parede, são mais aconselháveis para os sectores de habitação social, uma vez que implicam custos menos elevados nas alterações.

Circulação interior: Em EC2, 3 e 4, em que foram desenvolvidas estratégias de conversão limitadas, revela-se fundamental o papel da circulação interior do fogo como um elemento rótula que permite o acesso aos possíveis compartimentos.

3. CONCLUSÃO

O estudo desenvolvido permitiu identificar vários factores que influenciam, condicionando ou estimulando, a implementação de estratégias flexíveis no projecto de habitação colectiva, sendo que as condicionantes à implementação de estratégias flexíveis encontram-se fundamentalmente ao nível da regulamentação e dos interesses económicos dos promotores que acabam por optar pelas soluções mais económicas.

Ao nível do poder político - financiamento e regulamentação: a intervenção directa das entidades públicas, ao nível do financiamento, das normas de construção e da divulgação das iniciativas, constitui uma condição fundamental de estímulo. Sem o financiamento público i.e., subsídios para projectos flexíveis/experimentais, torna-se difícil o desenvolvimento e a aplicação de tais estratégias, uma vez que a valorização de factores de ordem económica em detrimento de aspectos funcionais põe em causa a aplicação do conceito de flexibilidade e a participação dos utilizadores no processo de concepção da habitação.

Do mesmo modo, sem a adaptação da regulamentação não é possível o desenvolvimento de projectos flexíveis. Actualmente a regulamentação holandesa garante parâmetros mínimos de habitabilidade mas não estimula a criação de tipologias/conceitos inovadores. O papel das entidades governamentais na divulgação da inovação tecnológica/construtiva relacionada com este tema, através de concursos públicos ou de outras iniciativas, é outro dos factores que pode potenciar a aplicação do conceito de flexibilidade.

Ao nível dos projectistas: são estes os principais incentivadores da aplicação do conceito de flexibilidade, sendo que na maior parte dos casos é da sua a iniciativa a implementação de estratégias auxiliares de projecto que a desenvolvem.

Ao nível do promotores: as estratégias de flexibilidade propostas não chegam a ser implementadas ou são apenas parcialmente, quer devido à falta de aceitação por parte dos promotores, dado o seu carácter demasiado inovador, ou por exigirem um investimento inicial mais elevado (mesmo que venha a ser recuperado mais tarde). Na prática, os promotores tendem a optar pela solução mais económica e que frequentemente apresenta níveis reduzidos de flexibilidade. Por exemplo, o custo mais elevado que um edifício multifuncional implica é, na maior parte dos casos, a razão determinante para a preferência por soluções monofuncionais. Contudo, por parte dos utilizadores/consumidores observa-se uma crescente procura por modelos que incorporem estratégias de flexibilidade. Por estas razões, verifica-se uma tendência para os promotores, em particular aqueles que se encontram ligados ao mercado de arrendamento, apostarem em soluções que ofereçam maior grau de flexibilidade.

Ao nível da indústria da construção: é patente a insatisfação dos arquitectos em relação à indústria da construção e ressalta a necessidade de haver um maior desenvolvimento de sistemas flexíveis diversificados e de boa qualidade, nomeadamente de paredes divisórias interiores e para o transporte de redes técnicas (seja através de tectos falsos, pavimento elevados ou calhas). Uma vez que a sua má qualidade e a sua inter-dependência diminui a potencialidade das estratégias de flexibilidade.

REFERÊNCIAS

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quinta-feira, janeiro 11, 2007

Sobre a humanização do habitar e o cooperativismo – uma primeira “conversa escrita” entre António Novais e António Baptista Coelho - Infohabitar 121

 - Infohabitar 121

Fig. 1: Beja, Cooperativa de Habitação Económica Lar Para Todos, 1986, projecto coordenado pelo Arq. Raúl Hestnes Ferreira.

Nota explicativa:

Nesta edição apresenta-se mais uma iniciativa do Grupo Habitar e do Infohabitar, que passa pela edição periódica, mas sem intervalos predefinidos, de “pares” e outros conjuntos de sequências de cartas com o título que melhor reflicta o conteúdo da respectiva troca e discussão de ideias; e até pode ser que por exemplo este importante primeiro tema da relação existente e potencial entre um habitar de forma mais humana e a cooperação habitacional nos leve longe: quem sabe!

Edita-se, assim, em seguida uma “conversa escrita”, que se inicia com uma carta, que decorreu naturalmente de uma conversa anterior, da qual a carta tenta fazer o possível relato, e uma carta que informalmente aborda, neste caso, variados temas na área da humanização do habitar e do cooperativismo, e uma carta que levanta ideias e propõe caminhos de discussão; e naturalmente a esta primeira carta segue-se a carta de resposta, que igualmente avança ideias e coloca questões para uma outra terceira carta que está para chegar.

O tema escolhido para esta primeira troca de “palavras escritas” foi o do novelo de aspectos que integram as matérias da humanização do habitar e da sua já existente e potencial relação com o cooperativismo habitacional, um tema que foi tema real de uma última conversa entre nós e que assim agora se abre a todos os leitores do Infohabitar, registando-se que se trata de uma “conversa escrita” entre duas pessoas que têm vivido de forma intensa as questões do habitar e designadamente o que o habitar pode dar para além do tecto e de um fundamental, mas não suficiente, conjunto de funções domésticas.

Apenas mais duas notas importantes:

A primeira é acentuar a natureza inteiramente informal e ao “correr da pena” ou do “bater do teclado” que têm e querem sempre vir a ter estas “conversas escritas”; considera-se ser esta uma opção fundamental nesta pequena aventura, que tem, naturalmente, reflexos numa discorrer de opiniões e de ideias apresentadas de forma um pouco fragmentada, pois essa é a essência de uma conversa, mas uma essência que pode eventualmente traduzir-se numa motivadora e natural agregação de ideias e, deseja-se, numa motivadora dinamização de outras pessoas para esta e para outras “conversas escritas”.

E a segunda nota, que já acabou de ser apontada, é, portanto, a vontade real de poder chamar outras pessoas para esta e para outras “conversas”, com os efeitos enriquecedores que essas pessoas trarão, sem qualquer dúvida, à discussão dos assuntos em consideração; e bastará o respectivo envio à edição do Infohabitar (para
abc@lnec.pt ou abc.infohabitar@gmail.com ).

Uma iniciativa deste tipo implica, naturalmente, uma sintética identificação dos perfis dos autores, e assim regista-se que António Baptista Coelho é investigador do LNEC e Vice-presidente da Nova Habitação Cooperativa (NHC) e António Novais é fundador e Vice-presidente da cooperativa As Sete Bicas. Há, no entanto, que sublinhar que os temas em desenvolvimento o serão, mais em resultado das nossas observações e vivências das realidades do habitar de hoje e menos em consequência das nossas actividades específicas e funções enquanto cooperativistas habitacionais.

Os autores, em 8 de Janeiro de 2007

(as imagens são apenas globalmente ilustrativas e seguem uma ordem cronológica)

Fig. 2: conjunto da Nova Habitação Cooperativa (NHC), na Estrada da Circunvalação, Lisboa, 1995, projecto coordenado pelos arquitectos Rui Pedro Cabrita e Miguel Ângelo Silva.

Caro Baptista Coelho,

Como que continuando a nossa conversa de há dias, agora sob a forma escrita (o que é um tanto mais complicado e demorado), os nossos temas andaram à volta dos meios que tornassem, por um lado, a relação entre os cooperadores com as cooperativas (sejam elas de que ramo forem) mais confiáveis, e das cooperativas em relação aos cooperadores com a oferta, tanto quanto possível, de condições favoráveis e atractivas e dentro das expectativas concretizáveis no que toca aos produtos que colocam ao dispor dos seus associados.

Falando do nosso universo (as cooperativas de habitação) a pergunta que se imporia seria a seguinte: Correspondem as cooperativas, com os produtos que colocam à disposição dos seus cooperadores, ao modelo de utilização e de vivência (proximidade e interacção com a sua vizinhança), que permitam aos cooperadores a desejada integração em ambientes, que sendo novos, não façam àqueles sentirem-se deslocados ou “encasulados”, mas que, antes, facilitem o contacto e o são relacionamento inter-vizinhos?

É sabido que as habitações que hoje se produzem, seja no mercado livre, seja no do mundo cooperativo, obedecem, mais ou menos, a um mesmo padrão construtivo: cozinha mais ou menos minúscula, quartos, sala comum e arrumos. É sabido também que, particularmente nos casais com vida profissional activa, as refeições normais são, tendencialmente, tomadas na cozinha, por questões de mobilidade, de economia de tempo, de tradição, etc.. E será que as habitações (neste caso as cozinhas) dão resposta, pela sua configuração e área, a estas necessidades?

As classes mais débeis economicamente encontravam, até um passado recente, solução para os seus problemas de habitação naquilo a que no Porto se designa por “ilhas”; aglomerados de minúsculas casas construídas em superfície. Nesses aglomerados, havia, muitas vezes, espaço para os canteiros, ou vasos, onde proliferavam mil tipos de plantas e flores, ou para a miudagem conviver em ambiente de brincadeira e de jogos colectivos, hábitos que hoje se vão perdendo, com grande pesar por parte de todos quantos neles então participaram e deles muitos ensinamentos tiraram. Sobrava também o tempo para que os vizinhos, ao se cruzarem nos espaços comuns, parassem para dois dedos de conversa;

Mas a que se devem então os protestos de muitos dos moradores dessas “ilhas”, ou mais recentemente dos moradores de alguns bairros em demolição quando são confrontados com a imposição de se realojarem em novas habitações com índices de conforto e de habitabilidade bem melhores que as de onde provêm? Não será, também porque se confrontam com a consciência de que vão perder, para sempre, aquele ambiente intimista e de solidariedade que viviam nos antigos espaços das suas habitações, ou recantos onde crianças e adultos pudessem ter contacto com a terra, como o faziam naqueles anteriores espaços? Lembremo-nos, de novo, dos jogos que a criançada fazia desenhando-os ou construindo-os com terra, ou do efeito retemperador e de prazer com que muitos adultos se sentiriam se tivessem, por perto, um canteiro onde pudessem amanhar a terra e contemplar o crescimento das suas plantas. Lembremo-nos ainda dos pátios alfacinhas e do efeito intimista e solidário que os mesmos provocavam nos “vizinhos” (haveria que recuperar também este termo, no sentido que o mesmo significava então).

Felizmente que o tipo de habitação que a esmagadora maioria das Cooperativas produz para o alojamento dos seus cooperadores, vai no sentido de responder positivamente a algumas das realidades e constrangimentos acima apontados, através da inclusão, nos seus edificados, de equipamentos sociais e espaços lúdicos e de convívio para todos os grupos etários. Felizmente que muitas das Cooperativas alimentam ainda actividades lúdicas ou desportivas, para benefício dos seus membros.

Com estas acções desenvolvidas pelas Cooperativas de Habitação (construção de habitações dentro de critérios cada vez mais rigorosos e onde se incluem os equipamentos sociais) a interrogação que se põe é se estará tudo feito no que seja o âmbito desta área do cooperativismo e no que sejam as aspirações e determinações dos seus dirigentes. Avanço a resposta: Não!
--- x ---

Suspendo aqui a minha parte da “conversa”, que nos comprometemos passar a ter com regularidade sobre estes temas, ligados à nossa “costela” do cooperativismo.

Com os assuntos acima abordados, mais não pretendi que não fosse tentar encontrar um fio para o arranque desta “missão”.

Saúdo-o com cordialidade.

António Novais
06.12.30
Fig. 3: MCH Algarve, Faro, CUPH – Urbanização Janelas de Faro I, projecto coordenado pelos arquitectos Jennifer Silva Pereira e Rogério Paulo Inácio, 2005.

Caro António Novais,

Continuando a nossa conversa, e com algum método seguindo o correr das suas palavras e das ideias que discutimos há pouco mais de um mês – um método que espero poder e podermos baralhar, positivamente, em próximas destas conversas, apetece sublinhar que a habitação não é ou não deveria ser apenas uma “caixa” onde se exercem diversas “funções” habitacionais, funções estas actualmente já muito escalpelizadas.

E a habitação não é uma “caixa” – ou a “gaveta” onde se arrumam pessoas, numa bem adequada ideia da Doutora Isabel Guerra – não só porque a habitação é muito mais do que uma “caixa” definidora de um dado mundo doméstico, sempre o foi, pois nela sempre muito mais se passou do que apenas funções – basta lembrarmo-nos das emoções –, mas também porque a habitação, que esteve na base da aglomeração de casas e da cidade, não pode de forma alguma esquecer-se das razões de coesão e de vivência comum, que estiveram na base da construção citadina. E, se o esquecer, provavelmente inicia aí o princípio do fim da sua razão de existir em termos de unidade específica; e aqui há também funções, mas também emoções.

Explorando um pouco mais esta matéria dá vontade de comentar que, provavelmente, há cerca de 10.000 anos se começou a passar da casa isolada para a “cidade” por razões de protecção mútua, de desenvolvimento económico e cultural e muito provavelmente também por razões de desenvolvimento gregário e associativo, e também de convívio em grupo, enquanto hoje em dia parece ser a reclusão doméstica e talvez mesmo o aprofundar do individualismo, por um lado, e a estratégica reclusão consumista, por outro, que ameaça a vitalidade do espaço público, que constitui afinal a própria matéria-base da cidade.

E voltando, outra vez, um pouco atrás, também uma caixa apenas “habitável” não corresponde ao sentido de protecção, de envolvência e de identidade e de relação com o corpo e o espírito que pode estar presente até no mais pobre abrigo.

Sobre o problema das habitações-tipo feitas para famílias-tipo, dá vontade de dizer que, em boa parte elas só serão as mais adequadas absolutamente por acaso, pois como se sabe não há pessoas-tipo, nunca houve e cada vez menos há, seja considerando a grande diversidade de culturas que cada vez em maior número integram a nossa grande casa europeia, seja porque o viver de forma específica é, cada vez mais e ainda bem, a vontade de muitos.

Naturalmente que um edifício multifamiliar ou um agregado de edifícios unifamiliares só poderá responder com fidelidade a cada conjunto de necessidades e de desejos familiares a muito custo, mas há diversos aspectos em que se pode actuar numa contínua aproximação à satisfação de quem habita: um dos aspectos é o diálogo construtivo e funcional com quem vai habitar e com quem vai projectar, sempre que tal diálogo seja possível; outro aspecto é conhecer o melhor possível o maior número possível de soluções residenciais e urbanas, pois não vale a pena repetir erros e há inúmeras soluções que podem responder a inúmeras solicitações; outro aspecto liga-se à aplicação de cuidados de projecto especificamente dirigidos para se aumentar a adaptabilidade de uma dada solução doméstica genérica, e esta é uma matéria que nem é especialmente complexa e permite uma riquíssima reinterpretação da casa por um razoável leque de formas e desejos de habitar, trata-se sim de uma matéria em que tudo isto é apenas possível com um bom projecto de arquitectura.

Portanto a resposta que dá vontade de dar à questão levantada sobre se as habitações actuais tendem a dar resposta às necessidades actuais, a resposta que se julga mais acertada é que, por regra, não! E pensa-se apenas nas necessidades funcionais, sobre as outras então só excepcionalmente as novas habitações lhes dão resposta; e aqui fica uma pergunta: será que é desejável e possível seguir, como regra, por este caminho de tentar dar resposta também a outras necessidades domésticas que não as apenas funcionais?

Ao entrar-se nesta matéria de outras necessidades habitacionais para além das funcionais, tendo presente, naturalmente, que há ainda necessidades funcionais por cumprir, mas não é por isso que se deve parar a reflexão sobre estas matérias, portanto neste aprofundamento dos rumos e das dimensões da satisfação residencial, há que fazer duas coisas fundamentais: olhar a rua e a cidade e sair de casa, e poder ter vontade de sair de casa; e poder depois olhar e lembrar a nossa casa de fora e ter vontade de a ela voltar e de nela receber os amigos que devem poder vir pela rua com agrado.

E aqui parece centrar-se a matéria que se levanta quando se pensa na insatisfação de certas pessoas quando confrontadas com ter de sair de um sítio de habitar com pouco conforto, mas com elevado potencial de apropriação, convivialidade e relações directas que são aquelas que em boa parte dinamizam a ajuda mútua, para irem habitar novas habitações, por vezes, com elevados níveis de conforto e de habitabilidade, portanto com elevados parâmetros qualitativos funcionais, mas, frequentemente, com reduzidos parâmetros qualitativos ligados a aspectos de identidade, apropriação, convivialidade e mesmo sentido de afinidade e de amigabilidade.

Fazer casas “amigas” de quem nelas mora, para além de serem “amigas” do ambiente, e fazer cidades “amigas” dos seus habitantes. Nestas matérias há muito que fazer pois sabe-se que muito aqui terá a ver com a escala e, tal como refere no seu texto, com a relação com o solo e com a possibilidade de usar a rua e os espaços de transição entre casa e rua com alguma liberdade e mesmo com alguma alegria – e nada disto trata de aspectos subjectivos ou inexistentes, são aspectos difíceis de medir, pois claro, mas que eles existem não haja dúvida. E talvez sobre esta matéria valha a pena prolongarmos um pouco o nosso diálogo em futuros textos, se assim considerar oportuno.

Mas seria importante ter também a sua opinião como habitante e como dirigente de uma grande cooperativa de habitação sobre uma outra faceta desta última temática, é que parece que, por vezes, o principal problema nem é uma pouco eficaz interpretação ou reinterpretação de tais “valores” pouco mensuráveis, mas que enriquecem o sentido do habitar a casa e a cidade, o pior parecem ser aqueles inúmeros casos em que fica evidente no projecto a quase total ausência de preocupações com tal natureza.

Com certeza que é difícil projectar ambientes residenciais intimistas e potenciadores de solidariedade, ou pelo menos de convívio, mas as cooperativas têm conseguido fazer alguns, não é verdade? E não será que vale a pena um tal cuidado e um tal trabalho aprofundado? E não será que muita desta matéria tem suporte directo numa cuidadosa aplicação de determinadas soluções tipológicas, feitas de edifícios e de espaços entre edifícios, ambos criteriosa e fundamentadamente desenhados? Mais um tema que fica em aberto.

E não será que nos últimos anos tem havido algum abrandamento neste tipo de preocupações práticas, designadamente, também nas próprias cooperativas? E não será que é cada vez mais urgente retomar uma tal linha de habitar humanizado e solidário, ainda que naturalmente apoiando os habitantes de hoje, e portanto sensível aos novos hábitos domésticos e urbanos? E que linhas deverão ser privilegiadas para se ir cumprindo um tal sentido de evolução da promoção habitacional e designadamente da promoção habitacional cooperativa?

A resposta que dá no seu texto a esta matéria é que acha que não, que acha que nem tudo está feito na área do cooperativismo habitacional no que se liga a estas matérias de uma ponderada, mas afirmada humanização e dinamização social e convivial da nossa promoção habitacional. Mas como avançar? E como avançar de forma eficaz numa sociedade que cada vez mais está, como diz, encasulada?

E não será também vital para as cidades deste nosso novo século das cidades que na pequena escala das suas vizinhanças algo se comece a passar de forma diferente, isto é, de forma mais humana e convivial?

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Termino então por aqui, para já, esta minha parte da “conversa” que nos comprometemos passar a ter com regularidade sobre estes temas, ligados à nossa “costela” do cooperativismo, por sua vez bem ligada à nossa outra costela de habitantes deste século das cidades que estamos a viver pela primeira vez.

Reconheço que fui um pouco longo, o que tentarei corrigir na próxima “conversa escrita”, na sequência da recepção das suas e, eventualmente, de outras ideias que aguardo com expectativa.

Saúdo-o com cordialidade.

António Baptista Coelho
2007.01.05
Fig. 4: Conjunto Habitacional da Bouça, Porto, Cooperativa Águas Férreas – cooperativas Ceta e As Sete Bicas e Associação de Moradores da Bouça –, 2006, projecto coordenado pelo Arq. Siza Vieira, uma acção de reabilitação e de completação (72 novos fogos) da obra que tinha sido parcialmente concluída em 1979; fotografia disponibilizada pelos promotores.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Cidades humanizadas e sustentáveis: alguns caminhos de aprofundamento - artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 120

 - Infohabitar 120

(palavras chave: sustentabilidade, cidade, habitar, habitação, cidades sustentáveis, cidades humanizadas, integração, peão, verde urbano, vitalização, humanização, construir no construído, exemplos, valor cultural)

Nota inicial: As figuras, numeradas de 1 a 8, que são usadas numa ilustração genérica e “paralela” deste artigo referem-se, cronologicamente, a três conjuntos residenciais de Habitação a Custo Controlado (habitação apoiada pelo Estado, financiada pelo Instituto Nacional de Habitação, futuramente Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana/IHRU), onde se aplicaram soluções de projecto e tecnológicas de aproveitamento passivo da energia solar, e a um recente conjunto residencial promovido no âmbito do Estatuto Fiscal Cooperativo (habitação também apoiada pelo Estado, financiada pelo INH), conjunto este que se caracteriza por ser uma solução pioneira em Portugal no âmbito da aplicação conjugada de diversos aspectos de sustentabilidade ambiental e urbana. Desta ilustração, caracterizadamente genérica e “paralela”, fica a ideia que fazer habitação ambientalmente mais sustentável é algo compatível com a promoção de habitação de interesse social.

A sustentabilidade no habitar da cidade não é apenas ambiental e económica, é também fundamentalmente social, urbana e cultural, pois:

  • também se joga no que sinteticamente se pode definir como o aprofundar do conhecimento e da aplicação dos aspectos ligados à humanização do habitar;
  • também se joga na substituição de espaços degradados por renovadas partes de cidade bem habitadas e vivas;
  • também se joga no privilegiar funcional do peão, um privilegiar que pode e deve ser feito de tantas maneiras cruciais, desde o fazer ou refazer de uma praceta pedonal vitalizada e vitalizadora ao cuidadoso programar das passagens de peões, que, infelizmente, tantas vezes parecem ter sido marcadas sem qualquer lógica (pedonal), e à adequada e clarificada programação de redes de transportes públicos confortáveis – que são a outra face do assegurar uma positiva “revolução” pedonal, ela própria essencial no redescobrir de maneiras mais sustentáveis de ver e viver a cidade;
  • também se joga numa adequada e bem evidenciada integração paisagística geral, bem como numa afirmada e adequada integração do verde urbano, utilizando-se todas as suas potenciais dimensões formais e funcionais, mas naturalmente atendendo-se com especial cuidado à presença das árvores;
  • e também se joga no aplicar e no evidenciar de uma afirmada qualidade de um desenho de arquitectura, urbanisticamente coeso, atraente e depurado, pontuado por equipamentos úteis e, por exemplo, evidenciado e elevado pela integração da arte.

Fig. 0: pequena praça urbana na Ericeira

Apontam-se, assim, em seguida, o que se pode definir, em poucas palavras, como linhas humanas e urbanas da sustentabilidade, pretendendo-se, ainda, contribuir para um certo “arrumar da casa” nas muitas matérias actualmente associadas à temática da sustentabilidade urbana e residencial, matérias que não serão aqui tratadas de forma muito objectiva, mas sim, essencialmente na sua natureza geral, tal como compete a um primeiro artigo no Infohabitar sobre o quadro gerar desta matéria, apontando-se, assim, as seguintes oito grandes linhas de aprofundamento:

(i) Procurar dar um razoável rumo de resposta que vá, desde já informando a faceta urbana da sustentabilidade, isto para ajudar a construir um sentido unitário na sua fundamental abordagem, evitando-se avançar isolada e deficientemente, apenas, na sustentabilidade do edificado.

(ii) Na sequência desta reflexão, mais prática, e antes de passar ao prometido e fundamental enquadramento genérico, ter a coragem de começar a levantar dúvidas e ir propondo ideias práticas, que sejam consideradas válidas e provadas e, portanto, desejavelmente aplicáveis sempre que possível; pois assim “perde-se” menos tempo.

(iii) Reflectir sobre o fazer novo e sobre a opção de requalificação e preenchimento; o fundamental conceito do “construir no construído,” como é abordado no excelente livro de Francisco de Gracia, com o mesmo título; e este é um aspecto que, como se verá, tem implicações fortes no próprio conteúdo global do conceito de sustentabilidade.

(iv) Procurar considerar e divulgar a ideia de sustentabilidade de uma forma completa, nos seus conteúdos fundamentais e designadamente também naqueles aspectos que podem ser, até, menos evidentes, mas que são também estruturadores.

(v) Ter a coragem de começar a estabilizar ideias fortes e integradoras, começar a passar das listas gerais para as hierarquias estruturadas e para os “novelos” de objectivos que, caso a caso, e conforme as características das situações concretas, possam e devam ser privilegiados.

(vi) Assumir a vital importância dos exemplos e divulgá-los, comentá-los, visitá-los, reflectir sobre eles, “copiá-los”, completá-los, discuti-los e utilizá-los.

(vii) Aprender com os especialistas e procurar integrar o melhor possível os seus ensinamentos.

(viii) E finalmente e de forma urgente e crucial começar a favorecer, sob todas as formas possíveis, cidades amigas/humanizadas, culturalmente valiosas e vivas.
E assim, em seguida, fazem-se alguns comentários genéricos relativamente a cada uma destas oito linhas do que pode ser uma abordagem razoavelmente completa e cuidadosa da tão actual e vital preocupação de sustentabilidade urbana e habitacional.

Figuras 1 e 2: Vila do Conde, Alto da Pega, C. M. de Vila do Conde, 16 fogos, promovidos pela Câmara Municipal de Vila do Conde em 1995, com projecto coordenado pelos arquitectos Alexandre Tombazis, Chaves de Almeida e Fernando Neves; este projecto obteve o 1.º Prémio no Concurso Internacional “PLEA 88 – Passive and Low Energy Architecture – Bloco de Habitação Social,” patrocinado, entre outras instituições, pelo INH e que decorreu em Julho de 1988. A esta intervenção específica foi atribuída uma Menção do Júri do Prémio INH em 1996.

(i) Sobre a urgente faceta urbana da sustentabilidade


Como julgo ter referido o Prof. Oliveira Fernandes num muito recente encontro no LNEC (Encontro Nacional sobre Qualidade e Inovação na Construção, QIC2006), as cidades não são, por natureza, sustentáveis, designadamente, em termos ambientais. Mas se quisermos avançar nesta matéria há que tentar tudo fazer para se reduzirem as influências ambientalmente negativas das cidades e para o fazer há que começar a fazer “diferente” em todas as intervenções, designadamente, nos seguintes aspectos (listagem “dinâmica”): estruturar o novo espaço urbano tendo em conta a geometria da insolação em edifícios e espaços públicos; ter em conta o conforto acústico e a protecção acústica; maximizar a permeabilidade dos espaços exteriores relativamente à água das chuvas; desenvolver o aproveitamento local maximizado do ciclo da água; considerar um verdadeiro e positivo verde urbano; fomentar os usos pedonais funcionais e recreativos; apoiar o uso de bicicletas; dinamizar o convívio vicinal; estimular o uso de transportes públicos; considerar as características de composição e de reutilização dos materiais usados nos espaços exteriores, favorecendo aqueles que sejam mais amigos do ambiente.

E é fundamental que nesta linha de desenvolvimento se privilegie o espaço urbano, até porque há matérias que fazem muito mais sentido, ou apenas fazem sentido, quando trabalhadas conjuntamente (em edifícios e exteriores), o caso do ciclo da água e o caso dos resíduos sólidos são exemplos desta situação.

E quando se coloca, como é fundamental, o espaço urbano numa primeira linha há que privilegiar um verdadeiro protagonismo formal e funcional do espaço público e da imagem urbana, e um protagonismo também direccionado para a dinamização do recreio, do lazer e do desporto no exterior público e para o indefectível favorecimento do convívio vicinal e urbano; convívios estes cada vez mais cruciais numa sociedade que tende a viver entre um autista isolamento doméstico e individual e um massificado e estereotipado consumo de espaços colectivos, ditos com uso “público”, como é o caso dos “centros comerciais”.



Figura 2

(ii) Sobre algumas dúvidas e ideias práticas cruciais e oportunas


Esta temática tem toda a ligação com a primeira e terá com certeza outros aprofundamentos por especialistas nas diversas matérias. No entanto, e desde já, há aspectos que fazem ou não fazem sentido e conforme tal suceda se deverá actuar e com urgência.

Um destes aspectos, provavelmente um aspecto determinante, tem a ver com a importância do desenvolvimento do verde urbano e designadamente da plantação de árvores como factor de redução do CO2 , para além de constituírem elementos benéficos na fixação de poeiras e outros elementos ambientalmente negativos em suspensão na atmosfera, para além de serem elementos atenuadores da propagação do ruído e para além de serem elementos humanizadores e caracterizadores em ternos de uma relação íntima entre cidade e natureza. Não é aqui que se irá desenvolver esta matéria específica, porque é tema sensível e vital e porque vários autores já o fizeram – por exemplo, Al Gore, no âmbito do seu filme, recentemente exibido, “An Inconvenient Truth”, refere que uma árvore consome, em média, ao longo da sua vida, uma tonelada de CO2.

O que aqui se aponta é que se está provado o grande interesse da arborização urbana não se entende a razão de uma tal medida não avançar e com carácter de urgência. E, provavelmente, a melhor resposta nesta matéria estará na aplicação de espécies arbóreas muito duradouras, pouco exigentes em manutenção e que suportem bem a poluição urbana, e plantá-las, nas nossas cidades, rapidamente e em força, tal como está a ser feito, hoje em dia, e com certeza não por acaso, em grandes cidades americanas e japonesas intensamente poluídas (ex., favorecendo-se, neste caso, as árvores da espécie Ginkgo Biloba – Nogueira-do-Japão, espécie com grande longevidade e tolerância à poluição).

Mas muitos outros aspectos carecem de esclarecimento e de acção consequente, tais como, por exemplo, a eficácia real, no que se refere à permeabilidade pluvial, de diversas soluções de revestimento do espaço exterior público e os respectivos custos de execução, e, ao nível do edificado, a viabilidade da aplicação dos painéis fotovoltaicos – ainda há muito pouco tempo foi divulgada uma imagem de habitação de interesse social em Itália com grandes painéis deste tipo. Importa nestas e noutras matérias esclarecer cabalmente sobre o custo-benefício de um amplo leque de soluções, para que se possa daí partir para uma sua aplicação bem fundamentada, acabando-se de vez com um excesso de opiniões tantas vezes contraditórias.

Precisamos, urgentemente, que nos transmitam ideias concretas sobre estas e outras matérias nesta área, que nos digam se é viável, em termos de custo-benefício, aplicar certas tecnologias. De certa forma há que disponibilizar dados sobre o interesse ambiental e a sustentabilidade económica da aplicação de um leque, que até nem é muito amplo, de soluções urbanísticas, paisagísticas e tecnológicas/construtivas.


Figuras 3 e 4: Vila Nova de Famalicão, Gondifelos, 32 fogos promovidos em 1996 pela C.M. de V. N. de Famalicão, com projecto coordenado pelos arquitectos José Gigante e João Álvaro Rocha. Trata-se de uma solução que se caracteriza, em termos tecnológicos e construtivos, e na organização e distribuição de cada habitação, por aspectos de aproveitamento passivo da energia solar, e que corresponde à solução que obteve o 3.º Prémio no Concurso Internacional “PLEA 88 – Passive and Low Energy Architecture – Bloco de Habitação Social,” patrocinado, entre outras instituições, pelo INH e que decorreu em Julho de 1988. A esta intervenção específica foi atribuído o Prémio INH municipal de 1997.


(iii) Sobre a grande importância do conceito de “construir no construído”



Esta ideia de “construir no construído” constitui, em si mesma, uma base fundamental de sustentabilidade urbana, física e social, pois trata de se privilegiar a intervenção seja na reabilitação de determinadas parcelas da cidade, tornando-as novamente úteis e atenuando-se a expansão da cidade sobre o meio natural, mas também se refere ao importante aspecto de se privilegiar o preenchimento, a colmatação e o cerzir do espaço urbano preexistente.

O “construir no construído” tende a anular os espaços residuais e marginais, a rentabilizar as infraestruras já instaladas, a avançar na anulação de zonas social e por vezes ambientalmente problemáticas, e, associa-se, naturalmente, devido à sua própria natureza, que favorece intervenções com escala relativamente reduzida, ao privilegiar das intervenções pequenas e expressivamente humanizadas, aspectos estes que se consideram, hoje em dia, estruturantes das urgentes intervenções citadinas caracterizadamente humanizadas e humanizadoras.

O “construir no construído” tende a favorecer as pequenas intervenções, bem integradas nas suas envolventes, bem estruturadas, que acolhem, frequentemente e de forma positiva, afirmadas referências à escala humana; uma faceta da integração que tende assim a aliar aspectos físicos de pequena escala e/ou de uma escala bem confinada e tratada a aspectos sociais também de pequena escala, eles próprios com prolongamentos naturais para condições de dinamização do carácter local e de uma potencial convivialidade vicinal.

E, afinal, o “construir no construído” tem a ver com a atenção que importa dirigir para com a pequena escala, para com uma pormenorização cuidada da imagem urbana, uma pormenorização que responda positivamente àquilo que os nossos olhos querem encontrar nas sequências de vizinhanças de proximidade que constituem a cidade.


Figura 4.


(iv) Sobre uma ideia verdadeiramente mais completa de sustentabilidade


Este item, como os anteriores, pode levar-nos longe, não neste artigo: noutros. No entanto este mesmo item será eventualmente daqueles que mais longe e mais fundo nos poderão levar na discussão das matérias da sustentabilidade urbana e residencial. E aqui usa-se novamente a recente conferência de Oliveira Fernandes no QUIC 2006, quando ele define as seguintes facetas da sustentabilidade: ambiental, económica e social. E embora aqui apenas se pretenda levantar a questão deste leque de preocupações a exigir numa sustentabilidade mais completa e eficaz, apetece dizer que a sustentabilidade na área ambiental tem sido aprofundada em termos de aspectos a desenvolver, enquanto a sustentabilidade económica da cidade e das suas diversas partes tem ainda muito a aprofundar, situação que se repete com a sustentabilidade social e funcional urbana – sabe-se que é fundamental haver miscibilidade social e funcional em cada bairro e em cada unidade citadina, mas do saber ao fazer, como regra, há ainda uma grande distância.

E não seria possível concluir esta primeira pequena viagem sobre esta sustentabilidade multifacetada sem lembrar a importância de uma verdadeira sustentabilidade cultural numa cidade viva e humanizada, uma matéria que tem muitos reflexos em todas as outras facetas, atrás referidas, designadamente, na nossa “velha”, mas tão atraente e estimulante Europa.

E sublinha-se que o arquitecto e urbanista Carlos Coelho, numa recente intervenção no colóquio Sustentabilidade e Território, que teve lugar na Câmara Municipal de Matosinhos, por ocasião da inauguração do primeiro conjunto residencial cooperativo sustentável na Ponte da Pedra – Matosinhos, referiu, especificamente, no “seu” leque de objectivos de sustentabilidade urbana e residencial esta faceta cultural, que, na prática, se revelará, rapidamente, com importância idêntica às das outras facetas ambientais, económicas e sociais; e é importante que, desde já, se assuma a sustentabilidade com este leque amplo e completo de desenvolvimento, até também porque o património cultural é já hoje e será, cada vez mais, um dos principais recursos da Europa.


Figuras 5 e 6: Vila Nova de Famalicão, Covelo, 16 fogos promovidos em 2004 pela C.M. de V. N. de Famalicão, com projecto coordenado pelo arquitecto José Maria Ferreira Dias. Trata-se de uma solução que obteve o 2.º Prémio no Concurso Internacional “PLEA 88 – Passive and Low Energy Architecture – Bloco de Habitação Social,” patrocinado, entre outras instituições, pelo INH e que decorreu em Julho de 1988.

(v) Sobre a fundamental estabilização de ideias fortes e integradoras


Ainda no QIC2006, o Prof. Oliveira Fernandes sublinhou, que a sustentabilidade implica uma visão integrada. A ideia que fica é que a própria sustentabilidade corresponderá a uma tendência fundamental em termos de integração: ambiental, funcional, paisagística, social e cultural. Hoje em dia ainda estamos numa fase de proliferação de grandes listagens de aspectos a considerar para a melhoria da sustentabilidade urbana e residencial e provavelmente assim continuaremos mais algum tempo.

No entanto começa a ser urgente definir prioridades, objectivos e opções fundamentais numa linha que favoreça o desenvolvimento de projectos assim direccionados, e em tudo isto é crucial ter em conta que cada sítio é um sítio e que, muito provavelmente, a sua respectiva e adequada capacidade de caracterização específica (ex., funcional e visual) constitui um elemento muito importante da sua sustentabilidade económica, ambiental, social e cultural, numa perspectiva de grande integração de soluções urbanas e residenciais e numa outra importante perspectiva de crucial identificação de cada sítio na sua cidade; as partes de cidade “placebo” ou “franchising”, ou anónimas e uniformes, também não são nem serão sustentáveis neste século das cidades.


Figura 6.

(vi) Sobre a vital importância dos exemplos


Nesta nossa velha sociedade humana e nesta nova sociedade mega-urbana, cada vez mais globalizada, pouco se inventa realmente “de novo”, e estão disponíveis os meios de partilha global da informação, é apenas preciso, por exemplo, não ter problemas em seguir linhas já iniciadas, desde que consideradas adequadas para o principal fim em vista, que é contribuir para se fazer cidade mais sustentável com habitação mais sustentável.

Nada resulta melhor em termos de apoio à concepção e à promoção do que a visita a obras feitas e do que o diálogo com os seus responsáveis e com quem lá vive para se poderem entender vantagens e desvantagens das soluções aí desenvolvidas – e esta é uma faceta de abordagem da temática que deverá ter um enfoque específico, mas que deverá, igualmente, acompanhar e ilustrar as anteriores facetas, mais substanciais em termos temáticos.

E sublinhe-se que o trabalhar com exemplos é também uma forma sustentada de avançar no conhecimento das matérias, pois ir pelos exemplos é mergulhar na prática, é aprofundar tudo aquilo que estabelece pontes entre o projecto e a satisfação de utentes e moradores; pontes estas que podem ser inesperadas ou até incómodas, mas que são sempre pertinentes e muito úteis em intervenções subsequentes.


Figuras 7 e 8: conjunto cooperativo promovido pela Norbiceta (cooperativas Nortecoope, As Sete Bicas e Ceta), na Ponte da Pedra, Matosinhos, em 2006, projectado pelo Arq. António Carlos Coelho, financiado pelo INH no âmbito do Estatuto Fiscal Cooperativo, e integrado no Programa Europeu Sustainable Housing in Europe (SHE) – inclui diversos aspectos de sustentabilidade ambiental e urbana.

(vii) Sobre a sabedoria de saber aprender com os especialistas e de procurar integrar os seus ensinamentos


Importa ter a noção que se fizeram aqui “considerações”, que, portanto, aqui se desenvolveram, com cuidado, algumas reflexões comentadas, de certa forma preliminares ou um pouco globais, embora sempre faceadas com o conhecimento da experiência, numa abordagem que mesmo aqui, no Infohabitar, poderá ser prolongada por outros números desta revista/blog, reflectindo-se então, depois, de uma forma mais pormenorizada, e num essencial respeito para com as respectivas especializações técnicas, sobre muitos dos aspectos aqui e agora apenas aflorados.

E o que aqui, assim, se perspectiva é o potencial e sequencial tratamento destes aspectos em outros artigos do Infohabitar, que eventualmente possam vir a integrar esta série temática sobre a sustentabilidade urbana e residencial, bem como poder abrir esta revista/blog a intervenções mais especializadas, sobre as quais, naturalmente, serão depois exercidos os fundamentais esforços integradores e clarificadores.


Figura 8.

(viii) Sobre as cidades amigas, habitadas, humanizadas e vitalizadas, as únicas potencialmente redentoras deste século das cidades

E, finalmente, considera-se este como um pequeno e “informal” parágrafo que quer apenas abrir a atenção para um grande e crucial tema, pois ao falar-se das grandes linhas da sustentabilidade urbana e residencial não faria qualquer sentido deixar de referir ser fundamental que tudo o que se faça, nas nossas cidades “centrais” desabitadas e nos nossos subúrbios descaracterizados, se integre numa linha obrigatória e exigente de contribuição para a respectiva vitalização e humanização, considerando-se que neste último aspecto tem lugar cativo uma verdadeira qualidade cultural que possa ir devolvendo a cidade a uma estima pública activa e convivial – uma ideia em boa parte defendida, em publicações do LNEC, já há alguns anos, pela Arqª Maria da Luz Valente Pereira. Afinal, pouco ganharemos em ter novas partes da cidade, por exemplo, energeticamente eficientes se elas forem culturalmente empobrecedoras e socialmente desvitalizadas; e não esqueçamos que vivemos, cada vez mais, o século das grandes cidades e nas grandes cidades tais problemas assumem uma importância determinante.

Relativamente ao problema muito específico e muito sensível e complexo da insegurança urbana ele fica para uma outra abordagem, mas desde já se defende que ele só poderá vir a ser relativamente solucionado com cidades e partes de cidade amigáveis, porque bem habitadas, humanizadas e socialmente diversificadas e vitalizadas, as únicas potencialmente redentoras deste século das cidades; actuar directamente sobre a insegurança urbana ajuda, naturalmente, mas não tem eficácia adequada numa perspectiva de futuro; há sim que actuar sobre a coesão física e social da cidade, sobre a respectiva gestão local de proximidade e, paralelamente, sobre uma segurança pública de comunidade.

Naturalmente, todos estes oito grandes rumos de aspectos se integram uns com os outros, mas são aqui apontados caso a caso, porque se considera fundamental que numa altura em que, finalmente, começam a ser considerados objectivos de sustentabilidade ambiental, estes não sejam considerados “avulso”, ou de maneira desintegrada e pouco coerente, esquecendo-nos que a sustentabilidade verdadeira tem de ter uma perspectiva urbana geral o mais possível completa e bem radicada culturalmente e em cada “sítio” específico.

Para concluir importa sublinhar que este amplo leque de aspectos está associado seja à urgente produção de ideias fortes sobre a sustentabilidade ao nível urbano (itens i e ii), seja a um caminho essencial no aprofundar do que se deve entender por sustentabilidade urbana e residencial (itens iii a v), seja, finalmente, à consideração dos aspectos de eficácia técnica em todo este processo (itens vi e vii) e de caracterização e afectividade na construção das novas e renovadas soluções habitacionais, que terão de ser, em grande parte, responsáveis pelas cidades humanizadas e vitalizadas do século XXI, o tal das cidades (item viii).

Lisboa e Encarnação/Olivais-Norte, 4 de Janeiro de 2007

António Baptista Coelho
arquitecto (ESBAL), doutor em Arquitectura (FAUP), investigador do LNEC, Presidente do Grupo Habitar, Vice-presidente da Nova Habitação Cooperativa