quinta-feira, agosto 30, 2007

Humanização e densificação urbana – texto de António Baptista Coelho - Infohabitar 155

  - Infohabitar 155


Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana: a propósito de alguns casos destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007



Fig. 01: Vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela SGAL em cooperação com a Câmara Municipal de Lisboa, com projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta.

Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.



Fig. 02: Vista geral do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovido pela Imopro, em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira – com projecto e coordenação da arquitecta Carla Baptista e do arquitecto Freddy Ferreira César.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais que foram editados no Infohabitar ao longo de Agosto de 2007 e que são rematados com o presente artigo:

. Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.



Fig. 03: Vista do conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes, em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores, com projecto coordenado pelos arquitectos Miguel Rocha e Miguel Saraiva.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados nas passadas semanas e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

(iii) A importância da integração urbana e paisagística.

(iv) Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.


Fig. 04: Vista do conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro, com projecto e coordenação do arquitecto Delfim Sobreiro.


Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007

Nota: as soluções aqui apresentadas mereceram diversos destaques no PRÉMIO INH/IHRU 2007.




Fig. 05: Uma vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa

Alta de Lisboa, Lisboa, 47 fogos


Conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL S.A. em cooperação com a Câmara Municipal de Lisboa, construído pela empresa Teodoro Gomes Alho, S.A., com projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos, Lda e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta.

Neste conjunto acima de tudo e em primeira linha destacam-se dois aspectos, que, aliás, interagem na criação de um efeito global muito positivo, são estes aspectos:

. uma exemplar integração topográfica, que marca toda a intervenção e que em cada zona responde ao desnível com soluções específicas ao nível do espaço exterior e das soluções edificadas;

. e uma excelente relação de integração funcional e de imagens entre tipologias unifamiliares em bandas densas e blocos multifamiliares recintando espaços exteriores pedonais.



Fig. 06: Uma vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa


Fig. 07: Uma vista do conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa

Mas para além destes aspectos há ainda que referir alguns outros, entre os quais se destacam:

. a estimulante diversificação tipológica dos edifícios unifamiliares, todos eles bem marcados por uma forte integração topográfica e pelo pleno aproveitamento de pequenos espaços exteriores privativos, estrategicamente recatados das vistas públicas;

. o interessante e vitalizador entremear das bandas unifamiliares por passagens pedonais e por pequenas pracetas de lazer exemplarmente ajardinadas;

. a rara ligação entre tipologias uni e multifamiliares construindo um verdadeiro quarteirão interiormente pedonalizado;

. a excelente integração, no miolo deste quarteirão, de um importante equipamento residencial para pessoas com deficiência;

. a imagem assumidamente urbana e atraente deste quarteirão, que, de certo modo, antecipa e marca o que será a futura imagem urbana da zona;

. e, finalmente, o cuidado que foi aplicado em todos os pequenos espaços de remate e de finalização de ruas e de passagens, dando-se-lhes a importância urbana que lhes é realmente devida, pois são espaços muito perto do nosso olhar.




Fig. 08: Uma vista do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira.

Amparo, Funchal, 271 fogos


Conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro, S.A. em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira –, construídos pela empresa Sótrabalho, S.A., e com projecto e coordenação da arquitecta Carla Baptista e do arquitecto Freddy Ferreira César.

É necessário e urgente aprendermos a fazer bem e numa maior escala urbana aquilo que já conseguimos fazer, frequentemente, ao nível do edifício de habitação fisicamente bem integrado e humanizado.

Tal necessidade não nega a fundamental importância do desenvolvimento de pequenas intervenções citadinas com reduzidos números de fogos, mas liga-se à necessidade de se poder intervir, de forma claramente requalificadora, em acções cuja importância lhes atribua funções de referência local e processual.


Fig. 09: Uma vista do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira.

A intervenção no sítio do Amparo, no Funchal, tem estas características, mas, além delas, é ainda o resultado de um processo conceptual correcto e “natural” com o qual se conseguiu harmonizar um número significativo de fogos e uma assinalável massa de construção:

. seja a uma topografia complexa;

. seja a uma envolvente ainda marcada pela pequena escala;

. seja a importantes preexistências;

. seja à sempre presente e exuberante vegetação madeirense, que aqui tem honras de verdadeira aliada do edificado.


Fig. 10: Uma vista do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira.

E para além de tudo isto:

. fez-se arquitectura urbana com desenhos de vãos e de portadas, graficamente expressivos;

. aplicou-se, com fundamentada inovação, uma tipologia de galerias exteriores que se constitui numa verdadeira oferta à cidade e à paisagem;

. reduziram-se, com aparente simplicidade, problemas ambientais de proximidade a vias rodoviárias;

. introduziu-se um verde urbano em múltiplas e ricas formas, tirando-se partido da sua riqueza básica;

. "embebeu-se" o equipamento no habitar;

. criaram-se atraentes e motivadoras sequências pedonais;

. e, acima de tudo, vitalizou-se a habitação com equipamentos conviviais, nos sítios certos de esquinas, passagens e transparências.



Fig. 11: O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores.

Relva, Ponta Delgada, 21 fogos


O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes, S.A. em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores, construídos pela empresa Sanibetão, S.A., e com projecto coordenado pelo arquitecto Miguel Rocha e pelo arquitecto Miguel Saraiva.

O pequeno conjunto habitacional na Relva, Ponta Delgada, tem uma qualidade sóbria mas emotiva, que resulta de um interessante equilíbrio entre:

. o excelente controlo da escala edificada bem marcada pela dimensão e usos humanos;

. a bem doseada diversificação de uma imagem urbana assumidamente contínua;

. e uma evidenciada conjugação de distintas tipologias, quase que numa positiva recriação de um pequeno pedaço de cidade.



Fig. 12: O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores.



Fig. 13: O conjunto de 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes em cooperação com a Secretaria Regional de Habitação dos Açores.

Para além disto, que não é pouco, pois imagina-se facilmente o que muitos fariam face ao objectivo de realizar um pequeno número de edifícios unifamiliares em bandas, evidencia-se nesta solução:

. uma excelente integração topográfica, que é “casada” com a rentabilização da luz natural no interior doméstico;

. e uma interessante relação entre espaços privativos fechados e abertos, uma relação que proporciona uma positiva integração do estacionamento automóvel e o desenvolvimento de vários tipos de usos exteriores no interior dos lotes.

Finalmente evidencia-se uma solução que alia o unifamiliar a uma forte continuidade urbana e a uma rara marcação da escala humana, aliás uma escala que marca todo o miolo interior doméstico.




Fig. 14: O conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro.

Vila Praia de Âncora, Caminha, 36 fogos


O conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro, Lda. e construídos pela empresa Aurélio Martins Sobreiro & Filhos, S.A., com projecto e coordenação do arquitecto Delfim Sobreiro.

Simplicidade e racionalidade construtiva e arquitectónica, continuidade urbana e definição de uma vizinhança de proximidade (ainda que não inteiramente aproveitada por ausência da intervenção municipal), desenvolvimento de uma solução tipológica edificada pouco frequente e muito estimulante e criação de espaços domésticos envolventes e acolhedores, são estes alguns dos principais aspectos deste conjunto habitacional em Vila Praia de Âncora.


Fig. 15: O conjunto de 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro.

Há, no entanto, quatro aspectos que são merecedores de um destaque especial:

. um deles é a forte aliança que está bem evidenciada entre qualidade e racionalidade construtiva e qualidade arquitectónica, o que é um importante caminho a seguir;

. o outro é a atraente e estruturante imagem urbana, que se constitui num elemento positivo de referência no local de implantação e que é bem pontuada pela escala humana;

. outro aspecto é a solução de pequena galeria interior de distribuição, bem larga e bem iluminada zenitalmente, que configura um verdadeiro e estimulante espaço de transição entre a rua e a habitação e que conforme subimos vai sendo estimulantemente diferente, devido à variação nas condições de luz natural;

. e finalmente, no interior doméstico há aspectos de pormenorização bem conseguidos, seja em termos de durabilidade, seja em termos de imagem doméstica, como é o caso da parede em tijolo aparente.



Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH


Sete aspectos projectuais merecem uma referência especial no remate da apresentação destes que se destacaram no PRÉMIO INH/IHRU 2007 e aqui abordados genericamente, embora numa perspectiva razoavelmente marcada pelo tema da relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana:

(i) O primeiro aspecto põe em relevo a ligação que existe entre estas matérias da escala humana e da densificação e o assunto da integração urbana e paisagística, referido no último artigo; bastará uma pequena observação das soluções, aqui apresentadas, das moradias na Alta de Lisboa e do conjunto na Relva para se ter a noção da relação estreita entre integração paisagística e escala humana; e bastará voltar a observar o grande quarteirão no Amparo e mesmo o pequeno quarteirão em Vila Praia de Âncora para se ter bem presente o enorme potencial de relação entre integração urbana e paisagística e densificação.

(ii) O segundo aspecto vai recuperar as matérias associadas ao desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, também especificamente abordadas num outro artigo desta série, e aponta as relações estreitas que se podem desenvolver entre esta criação de vizinhanças e o favorecimento da densificação, e aqui também se evidenciam os conjuntos na Alta de Lisboa – designadamente na sua parte de quarteirão misto (constituído por edifícios uni e multifamiliares) –, e naturalmente o grande quarteirão no Amparo, num caso e noutro marcados por expressivas intenções de incentivo a relações de vizinhança marcadas pela espontaneidade.

(iii) O terceiro aspecto refere-se, especificamente, ao grande interesse que há no desenvolvimento de relações directas entre escala humana e elementos arquitectónicos, relações estas ainda mais interessantes quando se trata de intervenções residenciais. É, naturalmente, um velho e bom tema de arquitectura, mas é sempre com um gosto muito especial que se visitam soluções tão directamente relacionadas com as dimensões humanas como é o caso das dinâmicas frentes de moradias na Alta de Lisboa e como fica tão expressivamente evidenciado, embora com uma grande gentileza – o que é também factor de humanização – nas frentes das moradias na Relva.

E ainda sobre esta matéria da humanização há que salientar a excelente preocupação que na Alta de Lisboa houve com um verde público protagonista e também cheio de escala, não foi por se tratar de moradias que se esqueceu esse verde, e há que sublinhar o enorme cuidado na pormenorização de diferentes soluções de moradia, no pequeno conjunto da Relva, e todas tão bem “casadas” com o terreno e tão intérpretes da dimensão e dos próprios gestos do homem.

(iv) O quarto aspecto é difícil de explicar em poucas palavras porque se refere a uma aposta, plenamente ganha, de fazer um elevado número de fogos, concentrando esse grande número de fogos num espaço urbano muito contido e com grande escala física, e associando a este perigoso desafio a ideia de marcar, fortemente, esta intervenção com a escala humana, naturalmente, não só porque se tratava de arquitectura para os homens habitarem, mas porque assim se iria provavelmente obter uma apreciável suavização da percepção que se teria dessa concentração e dessa grande escala física. Naturalmente que se fala aqui do excelente conjunto do Amparo e julga-se, que tal como foi dito que se trata de uma aposta plenamente ganha, e aliás houve todos os cuidados preparatórios para um tal resultado, cuidados estes que também jogaram com a integração e com o verdadeiro desenho urbano, aquele que tem já apontamentos de arte urbana.

(v) O quinto aspecto, que é também difícil de sintetizar, sublinha a atenção que há que dirigir para a verdadeira conjugação e interacção entre habitação e outras actividades citadinas, e isto tem tudo a ver com as matérias da densificação e da escala humana. A cidade densificada de que se gosta e que se vive com prazer é a cidade das actividades que não são só o habitar, especificamente, a cidade na qual se vai a uma loja e a um café, naturalmente, quando se sai ou antes de entrar em casa, onde vivem famílias e pessoas sós, novos e velhos. Se retiramos a uma cidade densificada boa parte dos conteúdos funcionais que fazem parte do habitar a cidade, mas que não são, especificamente, habitação, ficamos com os famosos dormitórios citadinos e então, então, vamos sentir muito negativamente o peso da densidade.



Fig. 16: Uma vista do conjunto do quarteirão uni e multifamiliar, integrando equipamento residencial, na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL em cooperação com a Câmara Municipal de Lisboa

E sobre estas matérias, que importa estudar, os exemplos aqui disponíveis do quarteirão na Alta de Lisboa, que integra, de forma perfeita, um equipamento residencial para deficientes, e do grande quarteirão no Amparo, Funchal, que para além de outros diversos equipamentos, está tão agradavelmente vitalizado por inúmeros pequenos “cafés” com esplanadas, que estão, aliás já cheios de vida, são verdadeiros casos de referência, que reafirmam que habitar não pode, não deve ser apenas “da porta para dentro”, pois se o for não se está a habitar a cidade e quando não se habita a cidade, criam-se problemas de desintegração social e não se contribui para a verdadeira riqueza social e cultural da vida citadina, e assim se terá um habitar incompleto e que não poderá satisfazer os seus habitantes.



Fig. 17: Uma das inúmeras pequenas esplanadas do conjunto de 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro em cooperação com o IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira. O habitar tal como deve ser, estendendo-se, bem vivo, para fora da soleira da porta de casa.

(vi) O sexto aspecto é rápido na sua referência e tem a ver com a relação estreita e muito eficaz que pode e deve ser estabelecida entre aspectos de humanização, densificação e escala humana e as fundamentais preocupações de dignidade e atractividade da imagem urbana e aqui estes conjuntos na Alta de Lisboa, no Amparo, na Relva e em Vila Praia de Âncora são todos bons exemplos desta opção, que, como é sabido, é fundamental em termos de integração social e urbana.

(vii) E, finalmente, o sétimo e último aspecto é tão importante como rápido de apontar aqui, trata-se da necessidade urgente que há de se aprender ou reaprender a fazer habitação urbana densificada e qualificada, designadamente por uma forte humanização, e esta é uma matéria que tem tanto a ver com a hoje crucial reabilitação e regeneração urbana – em acções de reconversão e preenchimento – como com o estudo e o ensaio cuidados de novas e velhas soluções tipológicas de edifícios, fogos e equipamentos urbanos. Mas atenção ao risco de se procurar a densificação como um fim em si mesma, tal seria um erro bem grave, assim como outro erro seria considerar a densificação pouco compatível com aspectos humanizadores, como são a escala humana e a integração de verde urbano, tal não é verdade tal como se prova com as imagens do Amparo.

ABC, Casais de Baixo, Azambuja, 29 de Agosto de 2007
As fotografias são de António Baptista Coelho, excepto as imagens de Vila Praia de Âncora, que são do Arq. José Clemente Ricon.

Edição:
Encarnação-Olivais Norte, por José Baptista Coelho, 30 de Agosto de 2007.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Notas sobre a integração urbana e paisagística – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 154

  - Infohabitar 154

A importância da integração urbana e paisagística: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007



Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.




Fig. 01: Vista do conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos promovidos pelo Município de Portalegre com o projecto do Atelier de Arquitectura Carlos Gonçalves.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais a editar ao longo de Agosto de 2007:

.Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.


Fig. 02: Uma vista de um dos 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez, com projecto coordenado pelo arquitecto Carlos Machado.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados nas passadas semanas e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

(iii) A importância da integração urbana e paisagística.

E, finalmente, aponta-se o tema a editar na próxima semana:

(iv) Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.



A importância da integração urbana e paisagística: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007

Nota: as soluções aqui apresentadas mereceram diversos destaques no PRÉMIO INH/IHRU 2007.


Fig. 03: Um aspecto representativo da dignidade urbana que marca o conjunto no Outeiro da Forca, promoção da C. M. de Portalegre.

Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos


Conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos promovidos pelo Município de Portalegre e construídos pela empresa José Coutinho, S.A., com o projecto do Atelier de Arquitectura Carlos Gonçalves, Lda.


O conjunto promovido pela CM de Portalegre caracteriza-se por uma dupla qualidade geral:

. uma qualidade urbana, através da criação de uma verdadeira e já vitalizada vizinhança de proximidade pedonal;

. e uma qualidade edificada, mediante a criação de uma solução de edifício em que seja nos espaços comuns, seja nos espaços domésticos, temos a oportunidade de percorrer e viver sequências estimulantes em termos de formas, cor e luz natural.


Fig. 04: O alongado, atraente e vitalizado miolo pedonal de vizinhança do conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre.


O alongado miolo pedonal de vizinhança, que serve um muito equilibrado número de cerca de 50 fogos, encontra-se bem vitalizado, seja pelas entradas dos edifícios, seja por equipamentos bem abertos para o contínuo pedonal e já em pleno funcionamento.


Fig. 05: As entradas dos edifícios podendo observar-se os espaços vazios que proporcionam excelentes condições de luz natural nos patins comuns e nas cozinhas.


No edifício há que salientar as soluções positivamente imaginativas que caracterizam os pequenos espaços comuns como expressivamente domésticos, plenos de alegria, de capacidade de apropriação e de envolventes matizes de cor e de luz natural.

Finalmente no interior doméstico destaques para os corredores muito mobiláveis e para as cozinhas plenas de luz natural – janelas em duas paredes exteriores – , que são verdadeiras pequenas salas de família.


Fig. 06: Os corredores muito mobiláveis.


Fig. 07: As cozinhas plenas de luz natural, que são verdadeiras pequenas salas de família.

O que se destaca talvez mais nesta solução é a rara e muito positiva sequência que se cria entre um exterior de quarteirão assumidamente público, um interior de quarteirão protegido e pedonalizado, marcado pela vizinhança de proximidade e bem vitalizado por equipamentos já activos, um interior de edifício cujos acessos têm estimulantes sequências espaciais, que se prolongam por variações de formas, de cor e de luz natural, que assumidamente dão presença forte e agradável a este pequeno mundo comum, e , finalmente, um espaço doméstico confortável e funcional.


Fig. 8: Um dos pequenos núcleos de um total de 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez.

Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, Arcos de Valdevez



12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez, construídos pela empresa Sociedade de Construções do Bico, Lda, sendo o projecto e a coordenação do arquitecto Carlos Machado.

Nestes pequenos núcleos de realojamento em Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo município de Arcos de Valdevez, destaca-se a sensibilidade de se ter desenvolvido uma acção de integração paisagística, naturalmente, associada a uma forte adequação tipológica ao modo de vida, essencialmente rural, das famílias para as quais foram feitas as habitações.


Fig. 9: Micro-núcleos de realojamento em Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo município de Arcos de Valdevez, numa sensível aproximação ao habitar rural, que também serve, naturalmente, a integração paisagística.

A ideia aqui cumprida é que sempre que assim é desejado se deve proporcionar que as famílias carentes de habitação possam habitar, em condições adequadas, os locais onde antes viviam em más condições. Um objectivo que é também de primeira linha relativamente à fundamental integração social dessas famílias.

Um outro aspecto também associado a estas importantes matérias da adequação tipológica tem a ver com uma solução de casa que joga numa forte complementaridade e continuidade entre espaços domésticos exteriores, interiores e de transição, o que fica bem evidenciado na sequência entre cozinha, alpendre de cozinha, quintal privado e telheiro de serviço neste mesmo quintal.


Fig. 10: Uma solução de casa que joga numa forte complementaridade e continuidade entre espaços domésticos exteriores, interiores e de transição.

Ainda nestas matérias de adequação humana da solução doméstica há que sublinhar o desenvolvimento térreo do fogo, sem desníveis, facilitando a vida diária de pessoas idosas, e o excelente desenvolvimento da grande cozinha de convívio.


Fig. 11: As excelentes cozinhas conviviais de Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô; e na sua contiguidade há espaçosos alpendres multifuncionais.

Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH

Cinco aspectos merecem um destaque especial no remate da apresentação destes dois conjuntos municipais, destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007 e aqui abordados genericamente, embora numa perspectiva razoavelmente marcada pelo tema da integração urbana e paisagística:

(i) O primeiro aspecto põe em relevo a ligação que existe entre este assunto fortemente arquitectónico da integração urbana e paisagística e as matérias associadas ao desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, e à excelente possibilidade de se fazerem casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos muitos seus habitantes; matérias estas sumariamente apontadas na parte final do último artigo desta série.

(ii) O segundo aspecto refere-se à importância que tem o desenvolvimento de uma relação estreita/íntima, funcional e caracterizadamente coerente entre as soluções gerais de ocupação/integração topográfica, urbana e paisagística e as soluções gerais domésticas adoptadas; dá vontade de dizer que é desta apenas aparente “complexificação” que nascem, frequentemente, valores projectuais especiais e muito positivos.

(iii) O terceiro aspecto reduz-se a poucas palavras e tem a ver com a fundamental expressão da escala humana; pois é ela que acaba por ser, frequentemente, um importante agente de elementos de integração urbana e/ou paisagística. E é interessante apreciar-se os modos distintos mas igualmente efectivos com que se expressa a escala humana nos dois conjuntos que aqui foram apresentados.

(iv) O quarto aspecto reduz-se também a poucas palavras e refere-se ao continuar a privilegiar intervenções com pequenos números de fogos e naturalmente com números equilibrados de fogos e com misturas equilibradas e sustentáveis de fogos e de equipamentos vivos; a bem conhecida “pequena escala” geral.

(v) E, finalmente, o quinto aspecto, também muito ligado a todos os outros aqui apontados, e especialmente ao dessa “pequena escala”, que é o reafirmar da importância da dignidade residencial e urbana que tem de marcar as intervenções, uma dignidade crucial seja na desejada integração social, seja nos objectivos de integração urbana e paisagística aqui especificamente visados.

As fotografias são de António Baptista Coelho, excepto as imagens das habitações de Arcos de Valdevez, que são do Arq. José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 23 de Agosto de 2007
Editado por José Baptista Coelho, 23 de Agosto de 2007.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 153

  - Infohabitar 153


Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007


Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.



Fig. 01: Vista geral do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira, promovidos pela cooperativa Habipaços, com projecto coordenado pelo . arquitecto Paulo Bettencourt.
Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais a editar ao longo de Agosto de 2007:
  • Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.
  • Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.
  • E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.
Fig. 02: Vista geral do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora, promovidos pela cooperativa CHC, com projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados na passada semana e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

E apontam-se os dois temas a editar nas duas próximas e semanas:

(iii); a importância da integração urbana e paisagística;

(iv) e, finalmente, a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007

As soluções hoje apresentadas e que mereceram destaque no PRÉMIO INH/IHRU 2007, são



Habipaços, Freamunde, Paços de Ferreira, 32 fogos


Conjunto em Talhô, Paços de Ferreira, 32 fogos promovidos pela cooperativa Habipaços, C.R.L., com apoio da C. M. de Paços de Ferreira, construção da empresa Manuel Roriz de Oliveira, S.A., e projecto e coordenação do arquitecto Paulo Bettencourt.



Fig. 03: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira.
O conjunto da Cooperativa Habipaços caracteriza-se por dois aspectos fundamentais:
  • uma grande unidade entre edifícios e espaços exteriores polarizadores, seja dos acessos aos fogos, seja de remate e enquadramento na envolvente do local de intervenção;
  • e uma assinalável funcionalidade na organização pedonal e de veículos dos residentes, estruturando-se, assim, uma vizinhança de proximidade que é, aliás, também marcada por uma imagem de grande dignidade.
Fig. 04: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira.


Fig. 05: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira; as vistas a partir do átrio sobre a vizinhança.

Ao nível do interior do edificado salienta-se a rara e sempre muito positiva solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores, bem como o cuidado que foi aplicado na iluminação natural dos diversos compartimentos dos fogos.

Há ainda dois aspectos processuais que importa sublinhar nesta intervenção de HCC e que são:
  • a colaboração activa entre município, projectista, cooperativa promotora e construtor;
  • e estarmos em presença de uma colaboração que resultou no desenvolvimento de uma intervenção que é claramente marcada pela racionalidade, sobriedade, dignidade e qualidade construtiva.
Fig. 06: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira; uma vista a partir do interior do edifício.


CHC, Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos


Conjunto na Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos promovidos pela cooperativa CHC, C.R.L. numa parceria com a C. M. de Évora, construção da empresa Algomape, Lda, e com o projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.



Fig. 07: A vizinhança de proximidade do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora.

Trata-se de um conjunto em que se assinala a excelente aliança entre uma activa presença urbana e uma interessante solução residencial funcionalmente diversificada.

Há duas faces neste conjunto:
  • uma mais urbana e que integra uma pequena galeria comercial;
  • e outra mais residencial e marcada por uma pequena praceta agradavelmente arborizada.
Fig. 08: A grande contenção dos espaços comuns do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora; todo o espaço útil é maximizado no interior dos fogos.

As soluções dos fogos são marcadas por uma forte economia espacial nos espaços comuns, para depois se investir o mais possível nas habitações, aliás, marcadas, alternativamente:
  • seja por claro aspectos de racionalidade espacial e de distribuição de funções, com destaque para uma ampla cozinha com varanda de serviço;
  • seja pela cuidadosa inovação na definição de uma zona de varanda/pátio que polariza vãos da cozinha, da sala e da zona de quartos, criando-se um interessante e fresco espaço de transição entre o interior doméstico e a rua, bem aproveitável para diversos usos.

Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH


Três aspectos merecem um destaque especial no remate da apresentação destes dois conjuntos cooperativos, destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007:

(i) O primeiro aspecto é processual e refere-se às evidentes sinergias conseguidas pela associação entre cooperativas de habitação e municípios, através do aproveitamento da capacidade específica da promoção cooperativa, quer na dinamização global das promoções habitacionais de verdadeiro interesse social, quer, especificamente, no contacto com os habitantes e na crucial gestão de continuidade e de proximidade, Desta forma é possível a municípios pouco “equipados” em termos técnicos ou com reduzida prática na promoção habitacional, o desenvolvimento de uma parceria eficaz com cooperativas com provas dadas nesses domínios, assegurando-se, como se referiu, não apenas a concretização de um conjunto habitacional e urbano com qualidade arquitectónica, mas também a gestão continuada e sustentada do mesmo conjunto, e uma gestão que poderá associar soluções de arrendamento de interesse social.

(ii) O segundo aspecto tem a ver com a sempre renovada importância do desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, uma intenção fundamental e desde sempre muito ligada aos objectivos habitacionais cooperativos de proporcionar para além de uma casa, uma potencialidade de convívio e de alguma solidariedade através da formalização de uma tal configuração de vizinhança. Realmente, também se habita a rua ou a praceta que é a nossa, e que de certa forma faz uma agradável transição entre o mundo doméstico, de cada um e de cada família, e o mundo mais urbano e animado que também desejamos; e é interessante evidenciar que é neste nível de vizinhança de proximidade que se devem desfazer e anular, totalmente, todos e quaisquer resquícios que ainda sobrevivam em termos de discriminação por imagens habitualmente mais ligadas a habitação considerada “de baixo custo” ou “social”. Não faz qualquer sentido para as pessoas que habitam em, e que são vizinhos de, conjuntos de habitação de interesse social terem a noção de que as suas habitações ou as habitações vizinhas têm um qualquer estatuto “menorizado” relativamente às habitações envolventes; o respectivo custo e as respectivas áreas poderão ser menores, mas a sua imagem tem de ter toda a dignidade que a cidade exige, e só assim se irá fazendo integração física e social.

(iii) Finalmente, o terceiro aspecto, que apenas aqui se aponta, muito na globalidade, tem a ver com a possibilidade e a necessidade de se fazerem casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos muitos seus habitantes; uma intenção que, afirma-se, pouco tem a ver com mais área e acabamentos mais luxuosos, mas sim, que se liga com mais arquitectura, mas informada e mais sensível, uma arquitectura que trate os espaços do edifício com verdadeiro pormenor, concentrando, racionalizando e “poupando” onde seja possível assim fazer, mas que verdadeiramente crie pequenos mundos domésticos, adaptáveis e ricos. E é interessante poder visitar casas muito racionalizadas e espacialmente contidas (por exemplo em condições mínimas nas escadas comuns), mas onde junto ao elevador é possível olhar o pequeno jardim de vizinhança, onde na sala há lugar para um recanto de trabalho, onde na cozinha há sítio para uma pequena mesa, e onde foi possível criar uma pequena varanda multifuncional. Está realmente “na hora” de se re-equacionarem funcionalidades e caracterizações domésticas.


As imagens da Cooperativa Habipaços são do Arq. José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 16 de Agosto de 2007
Editado por José Baptista Coelho, 17 de Agosto de 2007.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 152

  - Infohabitar 152

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007



Depois de se ter editado, aqui no Infohabitar, há poucas semanas, a acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia própria que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, inicia-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso um pouco mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais que agora se inicia:

. Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, quase na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados.




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Fig. 01: a nova Bouça.

Desde já se aponta que nas próximas semanas e na sequência deste artigo serão editados textos sobre outras temáticas, e designadamente sobre:

(i) a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana;

(ii) a importância da integração urbana e paisagística;

(iii) e sobre o interesse do desenvolvimento de vizinhanças e mundos domésticos bem pormenorizados.

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007


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Fig. 2: a Ponte da Pedra, o primeiro conjunto cooperativo de habitação sustentável em Portugal.

No que se refere à promoção cooperativa no âmbito do Estatuto Fiscal Cooperativo, e porque se considera não ser possível ou desejável comparar uma complexa e exemplar acção de reabilitação urbana e da edificação de um conjunto com provado interesse cultural, urbano e residencial, com uma acção bem qualificada, também complexa e pioneira de associação ao habitar de tecnologias ligadas ao hoje fundamental objectivo de sustentabilidade ambiental; repete-se, porque se considera praticamente impossível tal comparação e porque em qualquer dos casos o resultado urbano, habitacional, construtivo e arquitectónico, é muito claramente positivo e de referência para próximas promoções, julga-se ser de total justiça o destaque de dois conjuntos que se salientaram, exactamente, nestes aspectos de reabilitação urbana e habitacional e de sustentabilidade ambiental.


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Fig. 3: o conjunto da Chevis em Abraveses, uma excelente vizinhança de proximidade.

Num natural e fundamental alargamento do âmbito de uma adequada sustentabilidade também se faz um destaque especial a uma solução de vizinhança urbana e residencial que alia características de soluções multi e unifamiliares num desenho forte e positivamente marcado pela escala humana, De certa forma entramos aqui um pouco no que também deve ser um objectivo sempre presente, e que está de facto e desde sempre muito presente na promoção cooperativa, que se pode designar como “sustentabilidade social”.

E desde já se sublinha que um tal relevo dado à reabilitação e à sustentabilidade ambiental e social também evidencia o que poderá vir a resultar da ampliação das competências do actual IHRU - Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana –, relativamente às atribuições e aos excelentes caminhos seguidos pelo seu directo antecessor o INH.


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Fig. 4: a Bouça.

Bairro da Bouça, Porto


72 fogos promovidos pela cooperativa Águas Férreas, C.R.L., construídos pela empresa FDO – Construções, S.A., com o projecto e a coordenação do arquitecto Álvaro Siza Vieira e do arquitecto António Madureira.

O futuro das cidades está em acções onde, como neste caso, se faz a reabilitação e a completação de pequenas partes da cidade, que assim são devolvidas à estima pública e à reforçada estima dos próprios habitantes.

Acções estas às quais, como é o caso, podem ser associadas melhorias profundas em termos do conforto ambiental preexistente (ex., conforto térmico), em termos de funcionalidade global (ex., estacionamento colectivo) e mesmo na melhoria estruturante dos espaços exteriores do conjunto relativamente ao papel que para eles se deseja, e que é realmente, duplo, ao serviço das diversas vizinhanças locais e ao serviço de todos aqueles que ao usarem a cidade usam também os caminhos e as pracetas deste pequeno bairro. Só assim se faz realmente cidade com habitação.
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Fig. 5: Bouça.

É difícil resumir o que se pensa sobre esta intervenção em poucas palavras, mas registam-se sinteticamente algumas ideias:
(i) garantia de eficácia de uma acção de reabilitação e de preenchimento urbano com elevada complexidade e com as pessoas a morarem no local; harmonização de situações sociais preexistentes muito diversas, e muitas delas com elevada sensibilidade;
(ii) assumir e levar a bom termo a reabilitação e o acabamento de um bem conhecido projecto habitacional e urbano, considerado de elevada qualidade arquitectónica e verdadeiro testemunho de um período marcante da nossa história da habitação dita social;
(iii) associar a esta acção algumas novas valências específicas do pequeno bairro e outras que decorrem da sua proximidade a novas infraestruturas da cidade; não esquecer importantes aspectos de humanização como as árvores de arruamento e os grandes enfiamentos de sardinheiras que marcam as fachadas;
(iv) e fazer tudo isto com os moradores que lá estavam, para além da introdução de novas famílias, durante um período de obra racionalizado e no respeito dos custos da habitação com apoio do Estado.
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Fig. 6: Bouça.

Para concluir é ainda necessário registar um outro aspecto de grande valia neste conjunto, que é ser ele exemplo construído e vivo do que tem de ser a regra no fazer e refazer a cidade de hoje, que é o construir no construído, em pequenos complementos, bem integrados, atraentes e apropriáveis, onde se disponibilizem tipologias diversificadas, que permitam às pessoas a escolha de como viver.
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Fig. 7: Bouça.

E é de grande importância esta disponibilização de formas diversas de habitar a casa e a cidade, afastando-se o fantasma do modelo único de habitar e desenvolvendo-se tipologias que prolonguem o exterior público, mas também o exterior caracterizadamente comum e potencialmente convivial; tipologias criadoras de pequenas e orgânicas partes de cidade, bem acabadas e afectuosas (tema este a desenvolver) e tipologias verdadeiramente criadoras de verdadeiros pequenos mundos privados e domésticos (e também a este tema se voltará num próximo artigo); e para tudo isto é fundamental o bom desenho de arquitectura, aquele que pode, de facto, ajudar a dar mais felicidade às pessoas.
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Fig. 8: a Ponte da Pedra.

Ponte da Pedra, Matosinhos


101 fogos promovidos pela NORBICETA, U.C.H., construídos pela empresa J. Gomes, S.A., com projecto coordenado pelo arquitecto António Carlos de Oliveira Coelho.

O futuro das cidades está também em acções onde, como neste caso, se faz uma transformação profunda de partes de território que estavam, anteriormente, marcadas pela poluição física e visual e por serem verdadeiras barreiras à desejada continuidade do tecido urbano.

Aqui, na Ponte da Pedra, depois da demolição de uma grande indústria poluente, um conjunto de cooperativas de habitação (Nortecoop, Sete Bicas e Ceta) promoveu um concurso de ideias, que visou desenvolver nesta parcela de território uma intervenção com muitos dos aspectos que caracterizam uma cidade viva, designadamente:

(i) recompor e intensificar a continuidade urbana;
(ii) privilegiar a relação com a malha urbana preexistente;
(iii) definir e acentuar vizinhanças de proximidade bem configuradas;
(iv) integrar verde urbano protagonista e elementos de equipamento e de arte urbana protagonistas.
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Fig. 9: a Ponte da Pedra.

Estes aspectos de sustentabilidade urbana marcam a globalidade das duas fases desta intervenção na Ponte da Pedra, mas na sua segunda e última fase esta promoção introduziu também aspectos de sustentabilidade ambiental, no âmbito do projecto internacional da Comissão Europeia intitulado Sustainable Housing in Europe (SHE), que se integra no 5º Programa Quadro “Investigação e Desenvolvimento”, no programa "Energia, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável”.

O Projecto SHE apoia a demonstração da viabilidade da produção de habitação sustentável na promoção residencial corrente, bem como a sua associação à participação dos habitantes ao longo do desenvolvimento do processo, condição esta que, como bem sabemos, está bem ligada à promoção cooperativa.

Na Ponte da Pedra aplicaram-se inovações, designadamente, nas seguintes matérias:
(i) construção mais amiga do ambiente no que se refere à gestão dos resíduos produzidos e à escolha dos materiais;
(ii) conforto térmico acrescido e claramente acima do exigido em termos regulamentares;
(iii) reformulação do ciclo de água e poupança de água potável; aquecimento de água com painéis solares;
(iv) melhoria das condições de conforto acústico; e melhoria das condições de ventilação doméstica.

E refere-se estar em curso a monitorização das potenciais poupanças obtidas com estas novas soluções.
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Fig. 10: a Ponte da Pedra.

No exterior urbano é evidente uma ampla preocupação seja com a integração do verde urbano, seja com a presença física da água, que é excelente factor de amenização ambiental, seja com a introdução de arte urbana, numa excelente reaplicação da velha aliança entre arquitectura e arte citadina.

Finalmente há que sublinhar que tudo isto se fez , durante um período de obra racionalizado – a Norbiceta foi o primeiro conjunto acabado no âmbito do Projecto SHE – e dentro de custos que estão dentro dos limites da habitação com apoio do Estado.
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Fig. 11: Abraveses.

Abraveses, Viseu


12 fogos promovidos pela cooperativa Chevis, C.R.L., construídos pela empresa Abrantina, S.A., com o projecto coordenado pelo arquitecto Francisco Simões.

A cidade também se faz e cada vez mais se deverá fazer de pequenos conjuntos como este, em que se evidenciam aspectos de boa integração urbana, escala humana, desenho racionalizado e atraente, associação entre as vantagens de uma reforçada agregação de fogos e a satisfação do desejo da vida numa tipologia unifamiliar, e capacidade de apropriação pelos moradores.

Tal como foi referido na visita do Júri tratou-se de criar na horizontal uma afirmada associação de fogos, possibilitando-se que depois os moradores desenvolvam equipamentos e acabamentos específicos, em cada fogo.
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Fig. 12: Abraveses.

Sublinha-se ainda o interesse que tem a aqui bem aparente procura de diversificação tipológica, associada seja a uma forma urbana pública com presença sóbria mas estimulante, seja à agregação de um módulo habitacional simples e claro, mas que gera um conjunto agradavelmente orgânico, seja ao desenvolvimento de espaços exteriores comuns côncavos e potencialmente geradores de relações de vizinhança e de convívio.

Trata-se de uma solução de habitar que alia, verdadeiramente, um sentido urbano complementar, positivo e vitalizador, a uma imagem forte de escala humana, a uma perspectiva de adequado aproveitamento de um espaço urbano antes sobrante e a uma agradável, apropriável e espacialmente ampla solução de mundo doméstico.


Na semana que vem falaremos de escalas, de densidades e de imagens urbanas, também não esquecendo a escala humana.


Nota importante: as imagens da Bouça são do Arqº José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 8 de Agosto de 2007.
Editado por José Baptista Coelho, 9 de Agosto de 2007.

quinta-feira, agosto 02, 2007

A PENSAR EM LEIRIA – artigo de Fausto Simões - Infohabitar 151

  - Infohabitar 151

Nota prévia (editada em 2007/0907):
Na sequência da edição deste seu artigo o colega Fausto Simões enviou à edição do Infohabitar um pequeno e interessante texto sobre zonas pedonais, texto feito na sequência da sua leitura do artigo "Cidade do peão ou do automóvel I"; naturalmente, a edição agradece mais esta colaboração e anexa-a na sequência do referido artigo, que está facilmente acessível ma margem do Infohabitar - foi editado há poucas semanas.
É sempre com um gosto muito especial que acolhemos, aqui no Infohabitar, um novo cooperador nesta estimulante aventura de ir enriquecendo uma revista na www, que, ao longo de pouco mais de dois anos de edição semanal, proporciona já cerca de 150 artigos em diferentes temáticas, referidos a mais de 1500 páginas ilustradas. Artigos estes que são directamente acessíveis a partir do simples clicar no respectivo catálogo interactivo, catálogos este que foi muito recentemente actualizado e que se encontra facilmente no início da margem direita da nossa revista.

Esta semana temos, assim, a satisfação de editar um texto do Arq.º Fausto Simões, um colega que já participou activamente com o Grupo Habitar e o então Instituto Nacional de Habitação – hoje Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana – , no início de 2007, na 9ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, em Lisboa, onde se abordou a “regulamentação térmica e a sustentabilidade na construção nova e na reabilitação da habitação com controlo de qualidade e custos”, tendo então o colega Fausto Simões apresentado uma interessante perspectiva da arquitectura e do urbanismo de proximidade na introdução das preocupações de conforto ambiental e de sustentabilidade em intervenções habitacionais e urbanas.

Hoje, aqui no nosso Infohabitar, Fausto Simões fala-nos, um pouco, sobre Leiria, e também sobre as perspectivas mais sensíveis e oportunas nas vitais e muito urgentes acções de reabilitação urbana.

António Baptista Coelho (coordenador da edição do Infohabitar)



A PENSAR EM LEIRIA

Fausto Simões


A pedonalização da Rua Fulton em Fresno, na Califórnia (US), foi projectada nos anos sessenta pelo arquitecto que concebeu o primeiro centro comercial climatizado (“shopping mall”): Victor Gruen.

Ele apresenta-a como exemplo do que se pode fazer para converter num oásis convivencial, a baixa congestionada pelo trânsito motorizado, sem pôr em causa a automobilização da cidade.

Não mais do que um eixo de peões, isolado do resto da cidade por um mar de carros estacionados à sua volta, cintados por um anel rodoviário.

Foi aliás o esquema drástico a que chegou o Relatório Buchanan, produzido nos mesmos anos sessenta e que visava defender, contra a invasão do automóvel, a vida nos centros urbanos do Reino Unido.

Quarenta anos depois. O que aconteceu?

Aconteceu que no ano passado (2006), foi lançada a discussão pública sobre a reanimação da Rua Fulton! Correm imagens de uma rua devolvida ao peão mas deserta, sobretudo durante a noite. Ganha adeptos a reintrodução do trânsito motorizado para a reanimar.




Fig. 1: A Rua Fulton, segundo V. Gruen: fonte, Gruen, V. The Heart of Our Cities. Thames and Hudson, 1965.




Fig. 2: A Rua Fulton hoje: fonte, autoria Joe Moore , originalmente editado em http://www.fresnofamous.com/node/6456.

Figuras 1 e 2: A Rua Fulton, do projecto à realidade actual

Mas será solução? Será que ela é um deserto porque foi pedonalizada?

A explicação para mim mais convincente e mais importante para Leiria é esta que encontrei num blog (http://www.fresnofamous.com/node/6456): A Rua Fulton pedonalizada, significativamente designada por Fulton Mall, lutava contra a decadência do centro de Fresno, incapaz de concorrer com os centros comerciais “suburbanos”. Remava contra a maré, seguindo afinal o modelo "shopping mall" de Victor Gruen... Ele que remava contra o estilo de vida suburbana dos US!

E eu pergunto. Numa cidade que graças ao automóvel se dispersa por uma vasta região "suburbana", não será inevitável a emergência de centros de serviços no meio das vastas áreas residenciais, os quais concorrem vantajosamente com o centro urbano?

Centros comerciais na sociedade de “consumo conspícuo” no dizer fundamentado do sociólogo Thorstein Veblen, mas que poderão também aproveitar centros urbanos de aglomerados existentes, o que talvez seja pouco frequente nos US e mais comum na Europa.

Mas, qual a sustentabilidade social e ambiental deste sistema autodependente, em que se vai de carro comprar um pacote de manteiga, canalizado numa custosa rede rodoviária e apoiado em recursos fósseis exógenos cada vez menos abundantes e baratos: petróleo e gás natural?

A solução salvífica dos "supercarros" teima em não descolar! E será ela mesmo a solução?

A esta luz, afiguram-se mais sustentáveis os centros urbanos europeus progressivamente pedonalizados, com espaços públicos plenos de urbanidade , hoje convidativos e vibrantes como o de Copenhaga.

Porque Copenhaga é uma cidade que aposta na multimodalidade dos transportes, numa rede hierarquizada que prioriza o peão e a bicicleta sem excluir radicalmente o automóvel, quer nas áreas centrais quer nas residenciais: as “Woonerfs” na Flandres e "Homezones" no UK, à escala do homem e não da máquina. Iniciativas dos cidadãos apoiadas pela administração pública.

É bem visível um esforço nesse sentido, em “cidades globais” deliberadamente policêntricas como Londres, mas em que persiste bem vivo o seu centro principal.

Deve-se dizer que era isso que o Relatório Buchanan pretendia alcançar com o seu princípio das "áreas ambientais" servidas por uma rede rodoviária, hierarquizada em vias
de distribuição e de acesso. Mas não o conseguiu, a meu ver, precisamente pela
sua excessiva submissão ao primado do veículo particular.

Como parecem provar fracassos como os de Fresno!

Leiria deveria por os olhos nas cidades da Europa como Copenhaga. Os cidadãos têm que se mobilizar, não no sentido de aumentar a velocidade e a utilização do automóvel, mas no de converter Leiria numa cidade atrativa em que dê gosto viver, capaz de concorrer favoravelmente no campeonato das “cidades médias” europeias.

Enquanto é tempo. É, em última instância, uma questão de sobrevivência.

Fontes das imagens;
Fig. 1 – a Rua Fulton segundo V. Gruen: Gruen, V. The Heart of Our Cities. Thames and Hudson, 1965;
Fig. 2 – a Rua Fulton hoje: segundo http://www.fresnofamous.com/node/6456

Edição no Infohabitar por José Baptista Coelho: Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 2 de Agosto de 2007.