terça-feira, janeiro 29, 2019

Os usos pedonais devem estruturar uma cidade bem habitada - Infohabitar 672

Infohabitar, Ano XV, n.º 672
Os usos pedonais podem e devem estruturar uma cidade bem habitada - Infohabitar 672
por António Baptista Coelho (texto e imagem)


Poder viver um espaço urbano com vagar 

Assim como na nossa vida pessoal a calma e a ponderação são essenciais para podermos ir vivendo em harmonia com os outros e de acordo com os nossos projectos de vida, bem ao contrário de um percurso pessoal marcado pela “correria” e apenas por objectivos de curto prazo e tantas vezes insignificantes, assim como um simples almoço pausado e bem acompanhado nos dá alento e nos enriquece a meio da nossa jornada diária, bem ao contrário de um lanche apressado, em pé e solitário, que apenas nos fornece a energia física para essa jornada, esquecendo as outras energias que são, pelo menos, igualmente importantes; a vivência de um espaço urbano com vagar e atenção proporciona tudo mais para além da simples experiência funcional de uma deslocação entre dois quaisquer sítios da cidade.
Globalmente, a diferença está entre experiências simplesmente funcionais, superficiais e até quase “maquinais” e vivências verdadeiramente humanas, calorosas, eventualmente compartilhadas e sempre enriquecedoras em termos do que nos é dado ver, viver e experimentar no âmbito de sensações, memórias e renovadas e estimulantes informações. E o homem não, realmente, uma máquina, é um ser humano que, para além de se alimentar em termos de aspectos associados à sua sobrevivência física estrita, desde há muito – talvez desde há cerca de 1000.000 anos – se “alimenta” de convivência e partilha, histórias e conversas, ambientes estimulantes e arte, e, consequentemente, no espaço urbano, se “alimenta” de muito mais do que os simples – embora tantas vezes mal previstos – aspectos funcionais.
E para que tal condição se possa cumprir, o homem urbano – e atente-se aqui nesta expressão – precisa de poder usar e gozar os seus espaços urbanos com vagar, devendo, naturalmente, poder também poder usar a cidade de modo funcional, ninguém o nega, evidentemente; mas usar a cidade deve ser possível, simultaneamente, com pressa e com vagar, “correndo” apressado entre duas paragens de transportes públicos ou flanando lentamente pelos passeios bordejados de montras de lojas; e mesmo na opção apressada é bem possível e desejável que o homem urbano possa gozar de essenciais momentos de acalmia e relativo sossego – por exemplo, em transportes públicos confortáveis e onde até pode haver uma agradável música de ambiente (e tudo existe aqui em Portugal, embora muito pontualmente).

Fig. 01: a possibilidade de viver a cidade com vagar está intimamente ligada aos usos pedonais

A possibilidade de viver a cidade com vagar está intimamente ligada aos usos pedonais

Esta oportunidade de se usar a cidade com vagar deve marcar todo o espaço urbano, desde as suas vizinhanças residenciais aos seus centros mais animados, naturalmente, através de sequências de percursos bem estruturados e equipados e mediante soluções em cada caso adequadas e estimulantes, seja marcadas por ambientes residenciais mais intimistas e mesmo quase domésticos, seja por continuidades de espaços públicos bem animados, polarizadores e representativos.
Esta possibilidade de viver a cidade com vagar está intimamente ligada aos usos pedonais, ao homem a pé, mais ou menos apressado, parando momentaneamente para se orientar, trocando algumas palavras casuais, apreciando um dado enquadramento urbano, sentando-se alguns minutos para descansar um pouco ou apreciar uma dada vista, circulando entre montras, motivado pelo simples e excelente prazer de ir vendo as novidades e que motiva o uso dos fundamentais espaços de transição entre interior e exterior também tão caracterizadores do espaço urbano (pisos térreos fortemente marcados por montras, entradas amplas de lojas, espaços côncavos e protegidos que desmultiplicam montras, esplanadas protegidas, etc.).
E os usos pedonais, garantes desse rico e vital potencial do uso da cidade com vagar, não podem ser considerados como um “dado adquirido”, como algo que sempre aconteceu e acontecerá, mesmo sem condições adequadas para tal: têm de ser devidamente apoiados, motivados e mesmo defendidos relativamente a outros tráfegos, com natural destaque para os motorizados “clássicos” (automóveis e motorizadas), mas considerando, também, os novos tráfegos alternativos, referidos, aqui, essencialmente à circulação de bicicletas e, bem recentemente, de trotinetas.

Circulação pedonal e outros tipos de circulação (novos e velhos tráfegos)

Que ninguém aqui veja uma posição contra qualquer tipo de “novo tráfego”, inovador em termos da flexibilidade (e velocidade) permitida nas deslocações unipessoais e naturalmente amigo do ambiente; pois bem-vindos eles são e serão, por essas razões e pela diversidade de alternativas de circulação assim proporcionadas, pois esta posição refere-se, apenas, a:
- Uma defesa da tal essencial possibilidade do uso da cidade (espaço urbano e peri-urbano) com vagar e portanto a pé, uma possibilidade que deveria ser expressiva e objectivamente apoiada, designadamente, por medidas concretas de melhoria das respectivas condições de acessibilidade, agradabilidade e segurança ampla nos percursos, continuidade dos percursos e respectivas articulações com os transportes públicos, tratamento paisagístico global e pormenorizado dos percursos, muito adequada e estratégica integração de equipamentos de apoio à circulação e à estadia nos cenários diurno e nocturno e expressiva divulgação dos recursos e dos percursos pedonais funcionais e temáticos que vão sendo adequadamente estruturados e melhorados; medidas estas que deveriam merecer, pelo menos, tanto cuidado, tanta importância e tanta divulgação como acontece com as actualmente tão mediáticas vias para ciclistas.
E há que sublinhar que não é realmente um dado adquirido que os generalizados “passeios” funcionem bem e em continuidade, sendo que é, frequentemente, um facto que para uma boa activação de adequados e estimulantes percursos pedonais (longos, “cadenciados”, apoiados, paisagisticamente ricos, etc.) nem serão necessários grandes investimentos, é, sim, necessário, uma extrema sensibilidade no levantamento das condições existentes, estratégica intervenção “curativa” na resolução das descontinuidades inseguras e infuncionais e uma adequada acção de divulgação destes percursos.  
- E a uma, hoje bem oportuna, defesa de uma movimentação pedonal urbana diversificada, estimulante e livre, face aos tráfegos tradicionalmente inimigos do peão, mas também, actualmente, face aos novos tráfegos alternativos e ambientalmente positivos de ciclistas e utentes de trotinetas, pois não parece fazer muito sentido que o peão (urbano e peri-urbano), que não teve, ainda, direito a planos efectivos e continuados de melhoria das suas condições de uso funcional e com vagar da cidade – tal como acabou de ser apontado e defendido – tenha agora de conviver no que era o seu “santuário” protector das zonas de passeio, com esses novos tráfegos e, designadamente, com o seu exercício pouco ou nada regulado, que o deveria ser, julga-se, quando tais tráfegos, estando claramente integrados nos passeios, deveriam estar submetidos a prioridade pedonal; e assistindo-se, até, a complexas e, julga-se, discutíveis situações de passagens pedonais subsequentes – uma de “passadeira” através vias de circulação automóvel e logo seguida de outra a atravessar uma faixa para bicicletas.

Os usos pedonais podem e devem estruturar para uma cidade bem habitada

Aqui chegados, nesta opinião/reflexão sobre a importância de se poder ter uma adequada e estimulante circulação pedonal urbana, importa sublinhar que é, neste sentido, que se julga que os usos pedonais podem e devem estruturar uma cidade bem habitada, desde as suas vizinhanças mais residenciais aos seus pólos mais animados, e que não faz qualquer sentido continuarmos a quase esquecer esta importância, até porque, muito provavelmente, haverá sempre ganhos numa adequada e continuada integração de tráfegos (“clássicos” e “novos”).
E termina-se esta reflexão, que poderá ter continuidade em outros artigos sobre esta temática, com a ideia de que a  as actividades associadas à movimentação e à permanência pedonal, nas suas vertentes mais funcionais e fluidas ou mais de lazer e marcadas pelo vagar e pelo deambular, podem e  devem caracterizar muito positivamente uma expressiva continuidade urbana, ao serviço dos seus habitantes e visitantes, desempenhando, ainda, uma função quase de acalmia e de bálsamo na vivência diária e eventual desses espaços; proporcionando opções expressivamente funcionais e de circulação, mas também outras expressivamente de lazer e de permanência, retirando-se, assim, uma forte mais-valia dos nossos espaços urbanos.
Falta, no entanto, fazer aqui uma referência destacada e oportuna à necessidade e oportunidade, já concretizada em outros países da Europa, de se avançar, nestas matérias, de forma integrada, também através de um novo “Código da Rua”, que venha, finalmente, acompanhar o velho “Código da Estrada”. 

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 672
- Infohabitar 672

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

terça-feira, janeiro 22, 2019

Os muitos sítios de uma boa habitação II, sobre os corredores - Infohabitar 671

Infohabitar, Ano XV, n.º 671Os muitos sítios de uma boa habitação II,  sobre os corredores - Infohabitar 671Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

por António Baptista Coelho (texto e imagem)

(texto introdutório)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Fig. 01: valorizar os corredores domésticos

Sobre os corredores domésticos: uma reflexão de enquadramento

No presente artigo abordam-se, global e particularmente, os corredores domésticos, aqueles espaços tantas vezes desprezados e remetidos a uma mera função de ligação e circulação entre os outros espaços domésticos, naturalmente, mais protagonistas.
Há que recordar que os corredores foram, em boa parte e no maior número de situações, uma tardia invenção no mundo doméstico, pois, por regra, ou não existiam, porque os espaços de vida da família eram muito restritos, frequentemente, a um ou dois compartimentos multifuncionais, ou, em casas abastadas, por regra, a circulação fazia-se, frequentemente, de forma directa entre compartimentos contíguos, criando-se verdadeiras sequências de espaços/compartimentos, que iriam sendo ligados ou separados (pelo abrir e fechar de portas), consoante as necessidades e os objectivos domésticos mais privados ou mais conviviais.
Naturalmente que neste último caso, por vezes, os corredores já existiam, com uma função, talvez, essencialmente, de serviço e de apoio às principais actividades que decorriam nessas sequências de compartimentos contíguos e interligados.
Depois, talvez possamos considerar que, com o funcionalismo e a necessidade de se proporcionarem adequadas condições de sanidade na habitação, os corredores domésticos acabam por se tornar as ferramentas físicas da ligação entre as diversas funções e actividades domésticas, assumindo-se, assim, basicamente como espaços de circulação, separação e mesmo de hierarquização nas bem conhecidas e “funcionais” zonas de privacidade doméstica, que foram marcando, cada vez mais rigidamente as habitações  do Século XX.
E aqui importa considerar, ainda, dois outros aspectos: sendo o primeiro que as “obrigações” funcionais (de estruturação e hierarquização) domésticas exigidas em “letra de lei” pelos regulamentos da edificação que então surgiram (com os tais objectivos de melhor sanidade e habitabilidade), se foram, tornando, com o tempo, verdadeiros espartilhos na concepção doméstica, designadamente, quando assumidos por projectistas sem capacidade imaginativa e base cultural e bem recebidos pela própria indústria da construção ; e sendo o segundo aspecto, que tais “espartilhos” funcionais, de espaciosidade e de inter-relação espacial, quando reinterpretados por grandes projectistas “funcionalistas” resultaram, frequentemente, em excelentes soluções domésticas, mas como este foi sempre um caso excepcional, no caso corrente as soluções domésticas que nos foram sendo oferecidas, caracterizaram-se, por regra, por uma triste monotonia e pobreza espacial e funcional.
E nesta pobreza os monótonos e tantas vezes monofuncionais corredores foram, frequentemente, protagonistas de tais soluções, tornando a circulação como que talvez a função doméstica mais evidenciada, muitas vezes até com alargamentos estratégicos em “halls” de entrada e de zonas íntimas, cujo interesse doméstico se resumia, muitas vezes à circulação e à amostragem de algumas peças de mobiliário e decorativas.
E lembremos que uma tal situação, muito aplicada especificamente aos corredores domésticos se prende, não só com a referida estruturação hierarquicamente rígida dos diversos espaços, mas também com um dimensionamento próprio e regulamentar “mínimo”, que ao ser assumido pela indústria da construção e por muitos projectistas como regra, vai produzir corredores que, de facto, apenas têm espaço disponível para a circulação e não para esta função e para outras, como a disposição de mobiliário funcional e mesmo para o estar casual ou para actividades pontuais de estudo e trabalho não doméstico na habitação.

Introdução a algumas ideias sobre os corredores domésticos

A reflexão que acabou de ser feita abrirá, então, espaço a possíveis propostas domésticas distintas daquelas a que fizemos referência – marcadas por rígidas hierarquias funcionais e/ou até “roubadas” em parte do seu espaço habitável por longos corredores quase apenas de circulação.
E apontam-se então, aqui, em seguida, algumas ideias de relacionamento mais directo entre diversos espaços domésticos, eles próprios com uma margem razoável de multifuncionalidade, e ideias de um maior protagonismo estruturante e multifuncional dos próprios corredores domésticos, através, designadamente, do recurso a diversificadas soluções, como aquelas que em seguida se apontam e comentam com brevidade.  

Corredores mais úteis e agradáveis

Um aspecto a ter em conta, talvez em primeira linha de preocupações, nesta matéria é que os corredores domésticos sejam, tendencialmente, o mais curtos possível – condição esta óbvia mas que não estará na mente de quem por vezes projecta verdadeiros meandros domésticos, extremamente perdulários em termos de área habitacional – sendo, simultaneamente, o mais úteis possível – condição esta que poderá ter variadas respostas, sendo a mais óbvia o proporcionar acesso funcional a adequadas e extensas arrumações domésticas.
Outro aspecto bem importante é que os corredores não sejam aquele “espaço escuro”, por vezes, até difícil de usar por crianças pequenas, e para tal e não sendo fácil proporcionar-lhes vãos directos sobre o exterior, poderemos prever instalações/soluções que façam infiltrar luz natural, ainda que pontual ou, de preferência, ritmicamente; e uma solução tradicional e ainda excelente é a existência de portas envidraçadas, transparentes ou translúcidas, e/ou de bandeiras transparentes sobre as portas interiores – bandeiras estas que poderão também permitir condições constantes de ventilação natural (aos corredores e à própria habitação, em termos de ventilação cruzada).  

Fig. 02: corredores mobilados e corredores-galerias

Corredores mobilados e corredores-galerias

Os corredores mobilados e os corredores-galerias (de arte), podem ser elementos estruturantes e agradavelmente caracterizadores na organização da habitação e na sua essencial apropriação pelos respectivos moradores.
Esta opção por corredores mobilados e/ou por corredores-galerias, leva a que estes espaços  deixem de ser zonas "escuras" e "inúteis" para passarem a ser aspectos verdadeiramente caracterizadores da habitação, estimulando mesmo a sua vida interna e a identidade e amor próprio dos respectivos habitantes, pois trata-se de espaços intensamente marcados pela apropriação do seu espaço doméstico e pelas escolhas e gostos próprios em termos de elementos de decoração aí integrados e/ou "expostos".
Naturalmente que há que cuidar de um adequado dimensionamento da largura dos corredores e das peças de mobília aí integradas, de modo a que a circulação possa continuar a desenvolver-se de forma adequada, embora talvez mais naturalmente a um ritmo mais cadenciado e doméstico, o que parece ser positivo; e este tipo de solução pode. naturalmente, evoluir, havendo “pontualmente” espaço para a recriação de pequenos subespaços espaços domésticos atribuíveis a variadas actividades.
Importa ainda referir que ao apontarmos a ideia da recriação de corredores domésticos como pequenas “galerias de arte”, estamos a visar, de forma mais geral, um gradual preenchimento das respectivas paredes com módulos de arte diversificados e/ou com cartazes ou outros tipos de elementos de design de comunicação, pouco ou nada dispendiosos.

Corredores-saletas

Os corredores-saletas são espaços do interior/âmago doméstico que "crescem" da opção limitada função de circulação mais integração/exposição de mobiliário e elementos de decoração e apropriação espacial, para zonas com eventuais funções estruturadoras da vida da habitação e de evidenciação da identidade e dos gostos e formas de vida dos seus habitantes.
Estão neste caso compartimentos, habitualmente, alongados que, além de serem espaços de circulação, servem, por exemplo, como zonas de trabalho e estudo, espaço de biblioteca e videoteca, espaço de aquariofilia, e local de estruturação e exibição de variados tipos de colecções.
Estes corredores-saletas ganharão muito, naturalmente, com um mínimo de condições de conforto ambiental, em termos de luz e ventilação naturais, e com um máximo de adequada pormenorização, marcada pela sobriedade de modo a não colidir em termos visuais (ex., contraste excessivo) e funcionais (ex, espaço habitual e aparentemente desarrumado) com os referidos usos.
De certa forma este corredores-saletas podem definir-se como não corredores, sendo compartimentos entre compartimentos e que proporcionam o acesso directo entre eles.

Dos corredores estruturantes à quase ausência de corredores

Conclui-se, para já, esta reflexão comentada sobre os corredores e, naturalmente, sobre a circulação doméstica, com algumas, poucas, observações sobre duas situações-limite, que podem marcar (positiva ou negativamente) habitações: pela existência de um corredor estruturante da vida doméstica; ou pela quase inexistência de corredores na habitação.
Um corredor estruturante pode marcar muito positivamente toda a estrutura, visualidade e capacidade de uso de uma habitação, habitualmente, por uma sua posição próxima de um eixo de simetria que atravessa boa parte do fogo, por um seu adequado dimensionamento e utilidade (tal como acima se apontou) e por cuidados específicos com as suas condições de conforto ambiental, com relevo para a luz natural (também como foi acima apontado). Desta forma e habitualmente a habitação assim estruturada poderá ganhar, entre outros aspectos, um apreciável potencial de adaptabilidade e de versatilidade na afectação dos compartimentos servidos por este tipo de corredor, assim como ganha numa sua afirmada caracterização.
Nos antípodas das soluções domésticas, uma habitação pode ser caracterizada pela quase inexistência de corredores, definindo-se um espaço vivencial que tende a ser expressivamente caracterizado pela adaptabilidade de afectações funcionais e pela convivialidade doméstica, sendo essencial nesta situação, entre outros cuidados, que os espaços designados de “circulação obrigatória” nos compartimentos não atravessem e, em boa parte, inutilizem zonas funcionais, criando (conformando), portanto, esses percursos de circulação, espaços e “cantos” úteis, versáteis e agradáveis. E muito mais haverá a dizer sobre este tipo de soluções, que foram bastante utilizadas por grandes arquitectos do século XX, produzindo espaços domésticos expressivamente unificados, que muito ganham com cuidadosas condições de conforto ambiental, arquitectonicamente utilizadas e valorizadas (ex., janelas junto ao tecto) e com uma afirmada e estratégica relação com um exterior estimulante.
Não sendo, talvez, essencial referi-lo, porque parece ser óbvio, mas porque se trata de matéria muito sensível na organização e caracterização de boas soluções domésticas, estas soluções que acabaram de ser referidas – marcadas por corredores estruturantes ou pela sua ausência – só estão, verdadeiramente, ao alcance de excelentes processos de concepção arquitectónica, resultando, habitualmente, muito mal quando aplicados de forma pouco cuidada, pouco fundamentada e mal imaginada.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 671
Os muitos sítios de uma boa habitação II,  sobre os corredores - Infohabitar 671
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

terça-feira, janeiro 15, 2019

Os muitos sítios de uma boa habitação I - Infohabitar 670

Infohabitar, Ano XV, n.º 670

Os muitos sítios de uma boa habitação I - Infohabitar 670

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Nota importante: retoma-se, com este artigo, a publicação da Série editorial “Habitar e Viver Melhor”, cujo último artigo foi publicado, aqui na Infohabitar,  em maio de 2018.

Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico):

Sítios de conviver/estar, cozinhar e tomar refeições

Uma cozinha ampla e convidativa, porque com muita luz natural e bem localizada/acessível a partir de fora da habitação pode constituir um excelente espaço focal doméstico, muito apto para inúmeras actividades, desde a preparação de refeições tanto numa perspectiva funcional como noutra convivial, ao tomar de refeições informais ou mesmo formais, até, por exemplo, o acompanhamento de crianças em trabalhos escolares e no seu recreio, até à prática de passa-tempos específicos que, por exemplo, exijam boa luz, bancadas de trabalho funcionais e fácil limpeza; e, naturalmente, este “novelo” de actividades pode e deve incluir a possibilidade do estar/lazer acompanhando, ou não, aquelas outras actividades.
Uma outra óptima alternativa ao sítio de TV e cinema em casa é, també, este "sítio de cozinhar e conviver", um espaço que corresponde a uma cozinha de família, ou mesmo a uma sala de família, informal, e onde se integre um desafogado espaço para cozinhar e para refeições, neste último caso, além de um espaço específico de estar/lazer.
E, consequentemente, podemos estar a “libertar” a sala-comum, essencialmente, para actividades ligadas ao estar e ao lazer e recreio domésticos, eventualmente, menos informais; podendo, no entanto, existir sempre uma opção alternativa para refeições mais formais e com numerosos convivas nesse espaço – por exemplo, através de mobiliário escamoteável  (dobrável, extensível, etc.).

Fig. 01: Os muitos sítios, possíveis e desejáveis num boa habitação.

Sítios de repousar/estar
Sobre o interesse da previsão de sítios específicos para repousar, apenas se aponta não fazer qualquer sentido aquela já velha e gasta previsão exclusiva de quartos com camas, de um lado, e salas com sofás do outro, estando estes sofás virados para a televisão: e mais nada.
Sempre que possível o quarto deve oferecer condições de repouso e leitura numa cadeira confortável, e na sala e mesmo na cozinha deve ser possível "estar/lazeirar", assim como em varandas e outros exteriores privados.
E outros espaços da habitação serão propícios a sítios/recantos de repouso, lazer, leitura, etc.
Naturalmente que o espaço doméstico tem custos e, portanto, limites, mas, por vezes, é muito menos questão de espaço a mais, mas essencialmente de um bom projecto/previsão de variadas formas de ocupação; e um sofá não tem de ser um enorme elemento de mobília; e pode bastar uma boa cadeira de descanso.
Afinal um bom “estar” doméstico contrapontua e complementa, muito positivamente, uma boa estrutura de circulação doméstica; e uma habitação é, evidente e naturalmente, um espaço de estar, de estadia, de permanência.
Naturalmente que bons sítios de repousar e estar exigem adequados e diversos cuidados de conforto ambiental, talvez com um enfoque especial nas condições de iluminação natural e/ou artificial.

Sítios de conversar

Os sítios de conversar, estar e conviver fazem muito por uma boa habitação
Sobre os sítios conversar, estar e conviver é realmente fundamental que toda a habitação seja estruturada com esse objectivo convivial, seja na entrada, seja do lado de fora da entrada, seja nos espaços de refeições, seja na zona de estar e nos quartos, seja nos espaços exteriores privativos, seja nas zonas de passagem; e este objectivo é verdadeiramente estruturante de uma habitação que, positivamente, nos “rodeie” e ampare e tem a ver com o desenvolvimento de adequadas condições dimensionais, ambientais e relacionais, bem equilibradas e que, portanto, tanto podem e devem marcar pequenos estúdios como grandes apartamentos.
Sítios com escadas
Os sítios com escadas são lugares naturalmente estimulantes e sendo-o devem ser aproveitados, ao máximo, na sua relação com os outros espaços domésticos e através da sua pormenorização específica, tornando-os simbólicos e evidenciados, mas procurando sempre não quebrar relações de privacidade.

Sótãos habitados

Os sótãos habitados/habitáveis são lugares naturalmente estimulantes e misteriosos, sendo fundamental que a sua acessibilidade e as suas condições de isolamento térmico e ventilação sejam bem previstas de modo a que possam ter uma utilidade maximizada.
Caves habitadas
As caves habitadas/habitáveis são também lugares naturalmente estimulantes e misteriosos, sendo fundamental que a sua acessibilidade e as suas condições de isolamento térmico e ventilação sejam bem previstas de modo a que possam ter uma utilidade maximizada.
Sítios com banheiras
O desenvolvimento de sítios com banheiras corresponde, basicamente, à recuperação de uma tipologia de verdadeira "casa de banho", que naturalmente será marcada pela banheira e que poderá optar pela separação da zona de sanita em espaço próprio, ganhando-se numa ambiente de "sala de banhos", polarizada pela banheira e quase obrigatoriamente dispondo de luz e ventilação naturais, condições que permitirão a existência de plantas, que completarão um agradável ambiente.
E a banheira poderá ainda “emigrar”, da casa de banho, para outras zonas domésticas, aliás, num percurso de sentido inverso ao que fez ao longo da história do espaço doméstico, pois há muitos anos os banhos eram tomados nos quartos ou mesmo nas salas junto das lareiras.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 670
Os muitos sítios de uma boa habitação I - Infohabitar 670
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

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terça-feira, janeiro 01, 2019

Desejos de um excelente novo 2019










Neste início de 2109 desejamos muita Saúde e de Felicidade, neste Novo Ano, a todos os leitores da Infohabitar, aos membros da GHabitar e a todos aqueles que deram vida às quatro edições do CIHEL já realizadas.

Com Respeito e Amizade,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar
Direcção da GHabitar 
Coordenação do CIHEL




(na imagem: o centro do bairro modernista Olivais Norte em Lisboa/ a não perder)