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terça-feira, janeiro 07, 2020

Oportunidade, utilidade e exigências do Programa de Habitação Adaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C) - Infohabitar 714

Ligação direta (clicar) para:  700 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - Infohabitar 705 (36 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XVI, n.º 714

Reflexões sobre a oportunidade, a utilidade e as exigências do Programa de Habitação Adaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C); Texto de trabalho – Infohabitar 714

Numa fase ainda inicial do desenvolvimento do estudo relativo ao Programa de Habitação Adaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C), mas já marcada pela consulta de um número muito significativo de documentos e livros associados ás respetivas temáticas, pareceu útil, designadamente no que se refere a uma essencial e estratégica ponte que se pretende reafirmar e alargar entre uma pesquisa mais teórica e uma vertente mais prática, desenvolver algumas listagens sobre os aspetos que parecem configurar a oportunidade e a utilidade do Programa e algumas das exigências do mesmo em termos da sua desejada viabilidade.
São tais listagens mais à frente apresentadas, depois de alguns breves parágrafos de apresentação geral e de consideração relativa à evolução prática do estudo, solicitando-se a compreensão do leitor para o carácter “de trabalho” e de apoio à reflexão, que foi adoptado no texto.
(i) Apresentação geral do PHAI3C
Considerando-se o atual quadro demográfico e habitacional muito crítico, no que se refere ao crescimento do número das pessoas idosas e muito idosas, a viverem sozinhas e com frequentes necessidades de apoio, a actual diversificação dos modos de vida e dos desejos habitacionais, e a quase-ausência de oferta habitacional e urbana adequada a tais necessidades e desejos, foi ponderada o que se julga ser a oportunidade do estudo e da caracterização de um Programa de Habitação Adaptável Intergeracional (PHAI), adequado a tais necessidades e a uma proposta residencial naturalmente convivial, eficazmente gerida e participada e financeiramente sustentável, resultando daqui a proposta de uma Cooperativa a Custos Controlados (3C). O PHAI3C, também por vezes designado no texto como “o Programa”, visa o estudo e a proposta de soluções urbanas e residenciais vocacionadas para a convivência intergeracional, adaptáveis a diversos modos de vida, adequadas para pessoas com eventuais fragilidade físicas e mentais, mas sem qualquer tipo de estigma institucional e de idadismo, funcionalmente mistas e com presença urbana estimulante.
O estudo do PHAI3C irá procurar identificar e caracterizar tipos de soluções adequadas e sensíveis a uma integração habitacional e intergeracional dos mais frágeis num quadro urbano claramente positivo e em soluções edificadas que possam dar resposta, também, a outras novas e urgentes necessidades  habitacionais (ex., jovens e pessoas sós), num quadro residencial marcado por uma gestão participada e eficaz, pela convivialidade espontânea e social e financeiramente sustentável.
O desenvolvimento do PHAI3C não visa de uma “habitação assistida” para pessoas fragilizadas, mas a realidade crítica de uma população cada vez mais idosa e a importância de se (re)criarem quadros habitacionais que melhorem as nossas condições de saúde/bem-estar, comunidade e segurança, ao serviço de todos e com natural destaque para os mais idosos, mas num quadro adaptável, intergeracional e participado.
O estudo do PHAI3C irá privilegiar uma ampla abordagem arquitectónica e habitacional, teórico-prática, espacial/funcional, qualitativa, sensível aos habitantes e urbanisticamente positiva.

(ii) (sobre a) Oportunidade, necessidade e vantagens do PHAI3C (referido, por vezes, como “programa” nos itens seguintes)

. O PHAI3C pode constituir-se numa resposta habitacional adequada ao quadro demográfico e habitacional atual e em breve muito crítico, marcado pelo elevado crescimento do número de pessoas idosas e muito idosas, de pessoas a viverem sozinhas e de pessoas com necessidades em termos de socialização e de apoios diversos.
. O Programa pode assegurar uma resposta muito oportuna à impossibilidade da oferta “oficial” de apoios residenciais e de apoio pessoal a idosos do tipo dos que estão atualmente disponíveis, considerando-se o bem próximo e exponencial aumento da procura.
. O Programa configura uma nova resposta a novos e emergentes grupos de população sénior, que exigem condições residenciais e urbanas diversificadas e muito bem integradas, bem distintas da grande maioria das ofertas residenciais e de apoio pessoal atualmente existentes para esse grupo etário.
. O PHAI3C pode apoiar na disponibilização de uma nova e adequada resposta habitacional, dirigida, designadamente, a um grande grupo sociocultural de idosos, localizado entre os mais desfavorecidos  e a população com elevados rendimentos; grupo este que actualmente não dispõe de ofertas residenciais e de apoio pessoal financeiramente adequadas.
. O Programa baseia-se nas provadas e diversificadas vantagens de quadros residenciais intergeracionais em termos de uma oferta habitacional e de equipamentos urbanos sem barreiras etárias, mas especialmente dirigida para o crescente grupo de cidadãos que habitam sozinhos ou em pequenos agregados familiares.
. O PHAI3C pretende constituir uma resposta positiva à actual e bem próxima grande diversificação dos modos de vida e dos desejos habitacionais e à quase-ausência de oferta habitacional e urbana adequada a tais necessidades e desejos.
. O Programa considera e baseia-se na oportunidade estratégica de uma agregação vitalizadora entre habitação e equipamentos locais em falta; seja numa perspetiva de dinamização e requalificação das respetivas vizinhanças, seja tendo-se em conta o interesse, atualmente bem provado, da conjugação entre a convivência local entre mais idosos, jovens e crianças.
. O PHAI3C também se fundamenta na contribuição que intervenções como estas terão para uma estratégia mais global de integração social cuidadosamente programada em intervenções urbanas com pequena escala; escala esta que decorre da provável exigência de um número relativamente reduzido de unidades habitacionais em cada Programa.
. O PHAI3C quer aproveitar ao máximo o potencial de expressiva harmonização entre as características de uma gestão cooperativa bem participada pelos futuros moradores, que cubra todas as fases do Programa (programação inicial, obra, arranque da ocupação e gestão corrente) e os objetivos fundamentais do PHAI3C (pessoais, de comunidade e urbanos); e aqui lembra-se o importante historial da FENACHE na promoção e na gestão local participada de habitação de interesse social.
. O Programa baseia-se na vertente estratégica de um habitar caracterizadamente convivial e socializador que pode e deve ser proporcionado, mas sempre de modo claramente opcional, pelas respetivas intervenções; opção esta que é rara numa sociedade actual, marcada pelo individualismo global e pela crítica solidão que incide expressiva, mas não exclusivamente, nos mais idosos – e esta evidente ausência de fronteira etária na solidão urbana constitui, também, uma das justificações do perfil intergeracional do PHAI3C.
. O PHAI3C baseia-se numa estimulante exigência de adaptabilidade e plena identidade urbana e residencial que tem de caracterizar cada uma das suas intervenções, tornando-a “única” e bem adequada ao seu sítio específico – mais urbano ou mais rural; sempre com identidade específica; e podendo mesmo assumir aspetos caracterizadores bem marcantes (ex., ligação com espaços naturalizados, tipologia específica dos espaços comuns, inovação nos espaços domésticos, etc.).
. O Programa deverá ser marcado pela exigência de elevada qualidade arquitetónica, condição esta que resultará numa evidente valorização das imagens e funções urbanas dos respetivos locais de implantação; esta exigência de elevada qualidade arquitetónica decorre da complexidade ou sensibilidade que marcam o programa funcional e formal das intervenções do PHAI3C e que se refere a uma qualidade arquitetónica que contempla forma e função, mas também e muito diretamente a satisfação dos seus moradores e utentes.
. As intervenções no âmbito do PHAI3C serão dinamizadoras e vitalizadoras dos respectivos espaços de implantação, através da integração de intervenções funcionalmente mistas, que introduzirão valências urbanas ausentes nesses locais e com um nível de vivência mínima garantido (pelos próprios residentes e outros utentes).
. As intervenções no âmbito do PHAI3C são potencialmente caracterizadas por uma interessante mistura de oferta de emprego muito qualificado (ex., enfermagem) e pouco qualificado (ex., apoios domésticos e de serviços diversificados); serão portanto intervenções variadamente estimulantes para a dinâmica da vida local.
. Tendo-se em conta as conclusões de numerosos e recentes estudos, as intervenções no âmbito do PHAI3C, ao serem caracterizadas por uma afirmada integração entre oferta habitacional mais adequada para os mais idosos e serviços de apoio diversificados para a mesma faixa etária podem, muito provavelmente, induzir mais qualidade de vida e bem-estar para estes habitantes e, consequentemente, menores despesas com a saúde.
. Tendo-se em conta as conclusões de numerosos e recentes estudos, as intervenções no âmbito do PHAI3C, ao serem caracterizadas por uma afirmada integração entre oferta habitacional mais adequada para os mais idosos, serviços de apoio diversificados para a mesma faixa etária e uma vivência diária intergeracional podem, muito provavelmente, induzir mais qualidade de vida, bem-estar e integração social para estes habitantes e, consequentemente, menores despesas associadas aos cuidados de segurança social.
. As intervenções intergeracionais no âmbito do PHAI3C podem ainda ser caracterizadas por uma interessante e oportuna estratégia activa de intervenção dos mais jovens no apoio sociocultural aos mais idosos, recebendo benefícios habitacionais como compensação dessa atividade; sublinha-se o interesse desta opção, por exemplo no âmbito da previsão de habitação para estudantes, mas salienta-se que importa ter em conta e respeitar o perfil mais assistencial ou mais residencial de cada intervenção do Programa. 
. Em resposta a uma estratégia, que é apontada em inúmeros e recentes estudos, e que defende o apoio aos mais idosos desenvolvido nas suas próprias habitações (adequadamente adaptadas), considera-se que as intervenções do Programa podem constituir-se em pólos estratégicos locais para serviços de apoio doméstico diversificado – desde apoio corrente ao dia-a-dia a apoios especializados de bem-estar e saúde; mas sempre numa estratégia de total autonomização entre o espaço residencial e esses pólos de prestação de serviços.
. Tendo-se em conta, designadamente, uma “segunda fase da vida” em que haverá, em princípio, mais tempo e disponibilidade mental para todo um amplo leque de atividades de lazer e de novas aprendizagens, parece ser muito positiva a existência de condições de base que facilitem e estimulem uma tão dinâmica como voluntária participação dos moradores das intervenções do PHAI3C; neste sentido uma adequada/dinâmica informação e gestão locais, baseada numa estratégia participativa e agilizadora de ações constituirá, sempre, uma mais-valia para um dia-a-dia mais rico e estimulante – e as cooperativas da FENACHE estão bem habilitadas como facilitadoras de uma tal dinâmica pois têm uma tradição de várias dezenas de anos de promoção habitacional e de outras atividades complementares (ex., cultura, desporto, convívio, apoio a idosos e crianças) e dentro de um quadro bem limitado de recursos.   
. As intervenções no âmbito do PHAI3C, ao caracterizarem-se por uma adequada e humanizada escala física e social poderão assumir-se como novas introduções habitacionais bem disseminadas e dissemináveis e, consequentemente, tendendo a poderem proporcionar habitação na vizinhança de familiares, o que constituirá mais uma condição de dinamização do Programa.
. As intervenções do Programa, ao caracterizarem-se por uma adequada e humanizada escala física e social poderão assumir-se, também, como ações de preenchimento urbano estratégico, numa perspetiva que associa a melhoria da continuidade urbana aos outros aspetos já referidos de dinamização local.
. Finalmente, mas evidentemente não por último, as intervenções no âmbito do PHAI3C, seja na sua perspetiva de apoio a novas formas de habitar, seja na sua perspetiva de dinamização da cooperação dos respetivos moradores em torno de um projeto de vida expressivamente participado, poderão assumir, por opção voluntária dos respetivos grupos de moradores, uma forma associativa atualmente designada como “Cohousing”, que corresponderá a um reforço da importância dos respetivos espaços comuns e compartilhados, eventualmente associado a um reforço de diversos aspetos da respetiva vivência comum da intervenção.
Considerou-se, assim, a oportunidade, a necessidade e as vantagens de um Programa de Habitação Adaptável Intergeracional (PHAI), adequado a tais condições e a uma proposta residencial naturalmente convivial, eficazmente gerida e participada e financeiramente sustentável, resultando daqui a proposta de uma Cooperativa a Custos Controlados (3C).
Comentário sobre a listagem apresentada: os itens encontram-se numa ordem que corresponde, em grande parte, à sua elaboração original, não tendo havido uma preocupação de os estruturar, por exemplo, por possível importância; há, no entanto, alguma contiguidade entre matérias razoavelmente relacionadas; e considera-se ser esta uma listagem dinâmica e de trabalho.

(iii) (em termos de) Exigências fundamentais para o êxito e a sustentabilidade do PHAI3C (listagem provisória e com itens ainda pouco desenvolvidos)

. Caracterizar-se por uma localização estratégica em termos de acessibilidades urbanas em transportes públicos e em veículo privado.
. Caracterizar-se por uma localização urbana estratégica em termos de continuidades pedonais estimulantes e, desejavelmente, de relacionamento com “espaços verdes”.
. Integrar-se numa oferta habitacional com qualidade e custos controlados.
. Integrar o leque de oferta habitacional de interesse social e, portanto, merecendo apoios públicos.
. Caracterizar-se por espaços privados e comuns com áreas e dimensões controladas.
. Integrar de forma estratégica e nada evidenciada condições para apoio à vida diária de habitantes condicionados na mobilidade e/ou na percepção.
. Adequação a diferentes formas de promoção, designadamente: pública, privada e cooperativa. Sublinha-se, no entanto, que a vertente de participação/cooperação é essencial em todo o processo.
. Caracterizar-se por clara viabilidade, simplicidade e economia de processos em termos de gestão condominial.
. Caracterizar-se por um claro valor imobiliário; respeitando-se, no entanto e, naturalmente a respetiva natureza de habitação a custos controlados e com apoios públicos.
. Caracterizar-se por expressiva e total autonomização entre parcelas habitacionais privadas e comuns e parcelas de equipamentos com uso público.
. Caracterizar-se por um máximo de independência entre o uso habitacional e o leque de serviços potencialmente prestados.
. Possuir uma imagem urbana marcada por expressiva atratividade, dignidade e identidade (“única”).
. Caracterizar-se por adequadas e amplas condições de segurança.
. Caracterizar-se por adequadas e expressivas condições de conforto ambiental (iluminação natural e artificial, higrotermia, ventilação, acústica).
. Aplicar um sistema continuado/periódico de avaliação pós-ocupação, visando a satisfação dos habitantes.
. Aproveitar, ao máximo, as valências da gestão cooperativa e participada, desde a ante à pós-ocupação.
. Caracterizar-se por uma adequada e ampla sustentabilidade social – designadamente em termos de intergeracionalidade e convivialidade e ambiental – designadamente em termos dos diversos aspectos ligados à temática, mas com especial enfoque numa construção que influencie positivamente o bem-estar e a saúde.  
Comentário sobre a listagem apresentada: os itens encontram-se numa ordem que corresponde, em grande parte, à sua elaboração original, não tendo havido uma preocupação de os estruturar, por exemplo, por possível importância; há, no entanto, alguma contiguidade entre matérias razoavelmente relacionadas; e considera-se ser esta uma listagem dinâmica e de trabalho.

(iv) Lembra-se a base justificativa da designação “Programa de Habitação Adaptável Intergeracional – Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C)”

. “Programa”, porque se trata de uma proposta/ideia adequadamente planeada, estruturada, organizada; “Habitacional”, porque é este o principal conteúdo funcional que é proposto e programado, mas considerando uma definição de habitação com sentido amplo;
. “Adaptável”, porque adequado a uma grande diversidade de necessidades e desejos habitacionais e humanos e à sua evolução no tempo;
. “Intergeracional”, porque dirigido para habitantes de diversos grupos etários, visando-se um grupo de condóminos socialmente diversificado e estimulante e a inexistência das actualmente habituais condições de segregação etária;
. “Cooperativa”, porque se considera que esta solução social e organizativa tem todas as possibilidades de responder, muito positivamente, seja às necessárias condições de estruturação e participação continuadas
. “Custo (e qualidade) Controlado(s), porque se considera que esta solução deve poder proporcionar uma resposta habitacional integrada a pessoas com um amplo leque de recursos financeiros.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 714

Reflexões sobre a oportunidade, a utilidade e as exigências do Programa de Habitação Adaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C); Texto de trabalho – Infohabitar 714

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, em Lisboa


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, janeiro 15, 2019

670 - Os muitos sítios de uma boa habitação I - Infohabitar 670

Infohabitar, Ano XV, n.º 670

Os muitos sítios de uma boa habitação I - Infohabitar 670

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Nota importante: retoma-se, com este artigo, a publicação da Série editorial “Habitar e Viver Melhor”, cujo último artigo foi publicado, aqui na Infohabitar,  em maio de 2018.

Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico):

Sítios de conviver/estar, cozinhar e tomar refeições

Uma cozinha ampla e convidativa, porque com muita luz natural e bem localizada/acessível a partir de fora da habitação pode constituir um excelente espaço focal doméstico, muito apto para inúmeras actividades, desde a preparação de refeições tanto numa perspectiva funcional como noutra convivial, ao tomar de refeições informais ou mesmo formais, até, por exemplo, o acompanhamento de crianças em trabalhos escolares e no seu recreio, até à prática de passa-tempos específicos que, por exemplo, exijam boa luz, bancadas de trabalho funcionais e fácil limpeza; e, naturalmente, este “novelo” de actividades pode e deve incluir a possibilidade do estar/lazer acompanhando, ou não, aquelas outras actividades.
Uma outra óptima alternativa ao sítio de TV e cinema em casa é, també, este "sítio de cozinhar e conviver", um espaço que corresponde a uma cozinha de família, ou mesmo a uma sala de família, informal, e onde se integre um desafogado espaço para cozinhar e para refeições, neste último caso, além de um espaço específico de estar/lazer.
E, consequentemente, podemos estar a “libertar” a sala-comum, essencialmente, para actividades ligadas ao estar e ao lazer e recreio domésticos, eventualmente, menos informais; podendo, no entanto, existir sempre uma opção alternativa para refeições mais formais e com numerosos convivas nesse espaço – por exemplo, através de mobiliário escamoteável  (dobrável, extensível, etc.).


Fig. 01: Os muitos sítios, possíveis e desejáveis num boa habitação.

Sítios de repousar/estar
Sobre o interesse da previsão de sítios específicos para repousar, apenas se aponta não fazer qualquer sentido aquela já velha e gasta previsão exclusiva de quartos com camas, de um lado, e salas com sofás do outro, estando estes sofás virados para a televisão: e mais nada.
Sempre que possível o quarto deve oferecer condições de repouso e leitura numa cadeira confortável, e na sala e mesmo na cozinha deve ser possível "estar/lazeirar", assim como em varandas e outros exteriores privados.
E outros espaços da habitação serão propícios a sítios/recantos de repouso, lazer, leitura, etc.
Naturalmente que o espaço doméstico tem custos e, portanto, limites, mas, por vezes, é muito menos questão de espaço a mais, mas essencialmente de um bom projecto/previsão de variadas formas de ocupação; e um sofá não tem de ser um enorme elemento de mobília; e pode bastar uma boa cadeira de descanso.
Afinal um bom “estar” doméstico contrapontua e complementa, muito positivamente, uma boa estrutura de circulação doméstica; e uma habitação é, evidente e naturalmente, um espaço de estar, de estadia, de permanência.
Naturalmente que bons sítios de repousar e estar exigem adequados e diversos cuidados de conforto ambiental, talvez com um enfoque especial nas condições de iluminação natural e/ou artificial.

Sítios de conversar

Os sítios de conversar, estar e conviver fazem muito por uma boa habitação
Sobre os sítios conversar, estar e conviver é realmente fundamental que toda a habitação seja estruturada com esse objectivo convivial, seja na entrada, seja do lado de fora da entrada, seja nos espaços de refeições, seja na zona de estar e nos quartos, seja nos espaços exteriores privativos, seja nas zonas de passagem; e este objectivo é verdadeiramente estruturante de uma habitação que, positivamente, nos “rodeie” e ampare e tem a ver com o desenvolvimento de adequadas condições dimensionais, ambientais e relacionais, bem equilibradas e que, portanto, tanto podem e devem marcar pequenos estúdios como grandes apartamentos.
Sítios com escadas
Os sítios com escadas são lugares naturalmente estimulantes e sendo-o devem ser aproveitados, ao máximo, na sua relação com os outros espaços domésticos e através da sua pormenorização específica, tornando-os simbólicos e evidenciados, mas procurando sempre não quebrar relações de privacidade.

Sótãos habitados

Os sótãos habitados/habitáveis são lugares naturalmente estimulantes e misteriosos, sendo fundamental que a sua acessibilidade e as suas condições de isolamento térmico e ventilação sejam bem previstas de modo a que possam ter uma utilidade maximizada.
Caves habitadas
As caves habitadas/habitáveis são também lugares naturalmente estimulantes e misteriosos, sendo fundamental que a sua acessibilidade e as suas condições de isolamento térmico e ventilação sejam bem previstas de modo a que possam ter uma utilidade maximizada.
Sítios com banheiras
O desenvolvimento de sítios com banheiras corresponde, basicamente, à recuperação de uma tipologia de verdadeira "casa de banho", que naturalmente será marcada pela banheira e que poderá optar pela separação da zona de sanita em espaço próprio, ganhando-se numa ambiente de "sala de banhos", polarizada pela banheira e quase obrigatoriamente dispondo de luz e ventilação naturais, condições que permitirão a existência de plantas, que completarão um agradável ambiente.
E a banheira poderá ainda “emigrar”, da casa de banho, para outras zonas domésticas, aliás, num percurso de sentido inverso ao que fez ao longo da história do espaço doméstico, pois há muitos anos os banhos eram tomados nos quartos ou mesmo nas salas junto das lareiras.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 670
Os muitos sítios de uma boa habitação I - Infohabitar 670
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


domingo, fevereiro 22, 2015

521 - A sala-comum: problemas, potencialidades e inovações - Infohabitar 521


Infohabitar, Ano XI, n.º 521

(nota: imagens removidas devido a problemas editoriais alheios à edição da Infohabitar)

Continuamos a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns. Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e continuamos na sala-comum.

A sala-comum: problemas, potencialidades e inovações

Artigo LXX da Série habitar e viver melhor

 António Baptista Coelho


Fig. 01: Sala espacialmente estimulante em termos de sub-espaços e relações com outras zonas domésticas  de uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 21 24, Arquitetura: Mario Campi, Arne Jönsson, Jan Telving.

Sala-comum: problemas correntes

Os mais frequentes problemas nas zonas de estar ligam-se com a exiguidade espacial, seja global, seja por existência de dimensões muito reduzidas, levando à dificuldade de instalação e de vivência de diversas atividades (por exemplo, refeições, estar, ler, ver TV, trabalhar).

Este problema pode originar que a sala-comum acabe por se reduzir a uma zona de estar, ou a uma zona de refeições ou, frequentemente, a uma zona muito pouco útil porque atravancada por muito mobiliário.

Uma solução eficaz para este problema pode ser dada pela contiguidade entre a sala-comum e um quarto, condição esta que proporciona a eventual criação de uma sala maior ou a manutenção da referida compartimentação.

Os problemas são mais frequentes em habitações com maior número de habitantes porque as soluções habitacionais tendem a não se caracterizar por uma relação adequada entre mais quartos e um suplemento de área significativo na sala-comum e na cozinha.

Os referidos problemas de exiguidade espacial na sala de estar ou comum decorrem, quer de possíveis condições de reduzido desafogo espacial, quer pelo uso de mobiliário excessivamente dimensionado, não tendo as pessoas, habitualmente, a noção do espaço necessário para a respetiva instalação e para que possa ser usado de uma forma agradável. – este é um problema genérico mas que afeta especialmente salas e zonas de refeições, que são os espaços mais divulgados nos meios de comunicação e onde a maioria das pessoas tenta investir de uma forma expressiva.


Sala-comum: questões levantadas (dimensionais e outras)

As questões levantadas são de ordem mais geral ou de maior pormenor.

Em termos gerais é possível refletir sobre a eventual inexistência de uma sala-comum “corrente”, que poderá ser substituída por um espaço amplo de estar, refeições e cozinha, caracterizado por uma forte fusão entre estas funções, embora, conforme a opção de projeto, possa haver uma dominância formal de alguma(s) delas. Ainda globalmente a sala-comum pode ser substituída por um compartimento multifuncional do tipo "grande quarto", que os habitantes poderão  usar na medida das suas necessidades e desejos, devendo, neste caso, haver uma ampla cozinha convivial.

Em termos particularizados destaca-se a frequente dificuldade de instalar um adequado espaço de estar, com sofás e mesas de apoio, bem como a também frequente dificuldade de articular este espaço com as necessidades funcionais colocadas pelo uso da TV, situação esta ainda tornada mais complexa, quer pelo crescimento dimensional dos monitores de TV, quer pela sua articulação com outros elementos protagonistas numa sala-comum, como é o caso de uma lareira ou de um outro dispositivo com idênticas funções e conotações simbólicas de centralidade e de reunião.

O remédio para tais questões está essencialmente na aplicação de dimensões relativamente desafogadas, capazes de aceitarem diversas configurações de conjuntos de mobiliário e de equipamento.

E haverá ainda que considerar a integração de um local para instalação de uma aparelhagem de som e, por exemplo, de apoio ao estudo e ao trabalho profissional em casa, funções estas que poderão ser eventualmente integradas, numa zona reduzida, considerando-se a actual miniaturização das referidas aparelhagens e a constatação de que o ouvir música e o trabalhar são funções que provavelmente terão de acontecer em alternativa ao ver/ouvir TV, designadamente, quando as condições de espaciosidade da sala-comum não permitirem uma maior convivência de atividades através da distância entre as mesmas.

Finalmente, há que sublinhar que a sala-comum deve ser, mais do que um espaço de convívio e atividade doméstica diversificada, um espaço de receção de amigos e eventualmente de outras pessoas relativamente às quais se possa até fazer alguma cerimónia, e um espaço de suporte de atividades culturais e de aprofundamento do mundo pessoal de cada habitante, por exemplo, através da criação de boas condições para a leitura, para a audição de música e para a prática de passatempos diversos, que podem ir dos jogos de vídeo aos jogos de cartas.



Fig. 02: Sala espacial e funcionalmente inovadora  de uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 21 24, Arquitetura: Mario Campi, Arne Jönsson, Jan Telving.


Sala-comum: novidades, dúvidas e tendências (ex., trabalho em casa; idosos, etc.)

Tudo o que atrás se referiu leva à consideração da sala-comum como um espaço doméstico que deve ser concebido com um elevado grau de exigência, e considerando uma expressiva adaptabilidade, aspetos estes que nada têm a ver com o tipo de atenção estereotipada que leva a produzir salas-comuns que suportam, e mal, apenas uma exígua zona de estar e uma reduzida zona de refeições ditas formais. E não se imagine que o que não se pode fazer na sala-comum se fará nos quartos, porque é fundamental oferecer condições para estar em grupo, “em companhia”, desempenhando as mesmas ou diversas atividades. 

E as tendências para salas-comuns parecem ser de crescente multifuncionalidade e de afirmada caracterização formal e simbólica deste espaço como verdadeira montra familiar e pessoal. E se na casa viver apenas uma única pessoa, então a sala acaba por ser um seu cartão de identidade.

O estar doméstico constitui, hoje em dia, provavelmente, em conjunto com o cenário da cozinha, um par de aspetos domésticos profundamente valorizados pela sociedade. E considerando esta perspetiva tanto se definem condições de caracterização destes espaços como verdadeiras "montras" para visitas, e pouco úteis no dia-a-dia, como estes espaços são intensamente usados como verdadeiros núcleos do habitar diário.

Para o espaço de estar e considerando estas possibilidades e também a grande diversidade e a potencial simultaneidade dos usos aí frequentes, a principal “receita” parece ser espaço suficiente, dimensões adaptáveis e uma estratégica separação do resto da habitação de forma a que se reduzam os potencias conflitos por geração de ruídos e por falta de privacidade e de autonomiza do uso da casa pelos seus diversos habitantes, isoladamente e em grupos.


Fig. 03: Sala espacial e cromaticamente estimulante de uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 25 26, Arquitetura: Gor¨sn Mansson, Marianne Dahlbäck.


Notas:

(1) Sven Thiberg (Sven Thiberg, Ed., "Housing Research and Design in Sweden", p. 195) defende que uma sala basicamente com uma planta quadrada e dimensionada de acordo com uma dimensão base, mínima, de largura de cerca de 4.30/4.50m permite um arranjo flexível de zonas de estar, embora não permitindo a integração, no seu interior, de uma zona de refeições. Relativamente a este assunto e tal como referi num estudo anterior, é importante proporcionar uma grande variedade de possibilidades de integração na zona de estar de diversos tipos e grupos de elementos de mobiliário, porque diversos estudos têm já revelado uma forte discrepância entre os modelos de mobiliário previstos pelos projectistas e a realidade desenvolvida pelos ocupantes.

Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XI, n.º 521
Artigo LXX da Série habitar e viver melhor

A sala-comum: problemas, potencialidades e inovações

Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


domingo, novembro 23, 2014

510 - Circulações domésticas espaços de vida - I - Infohabitar 510

Infohabitar, Ano X, n.º 510

Artigo LXIV da Série habitar e viver melhor

   Circulações domésticas como espaços de vida - I

António Baptista Coelho

Continuando a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns, vamos, agora, falar com algum detalhe sobre os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam.

Primeiro viajaremos pelos espaços domésticos comuns, isto é aqueles que são usados por todos os habitantes de uma dada casa ou apartamento numa base geral de uso partilhado e de alguma comunidade; depois iremos até aos espaços domésticos privativos, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou muito ligado ao casal. São os seguintes os espaços domésticos comuns a abordar, sequencialmente, em artigos desta série: vestíbulo de entrada, lavabo, corredor e zonas de passagem, sala ou zona de estar, cozinha, áreas de serviço para arrumações, verdadeiras pequenas áreas de serviço - lavandaria e rouparia, zona de refeições ou sala de jantar, casa de banho, varanda e outras zonas exteriores privadas elevadas como pátios e pequenos quintais, virtualidades domésticas do estacionamento em garagem.

No presente artigo serão abordados diversos aspetos a ter em conta no projeto de espaços de circulação domésticos bem habitados; este artigo inicia uma temática que será concluída na próxima semana.

(Nota geral: porque boa parte dos textos que servem de base a esta série editorial estão elaborados desde há algum tempo, eles não cumprem as regras do Acordo  Ortográfico).

 

Índice dos dois artigos sobre Circulações domésticas como espaços de vida (I e II); a bold as matérias tratadas na presente semana.

·         Os espaços de circulação e as várias dimensões domésticas.

·         Associações interessantes dos espaços de circulação com outras áreas domésticas.

·         Hábitos interessantes nos espaços de circulação domésticos

·         Aspectos motivadores ligados aos espaços de circulação domésticos.

·         Problemas correntes nos espaços de circulação domésticos.
·         Questões e ideias levantadas (dimensionais e outras) nos espaços de circulação domésticos.


Fig. 1

Os espaços de circulação e as várias dimensões domésticas

Um dos aspectos que continua a ser estruturador de uma boa solução doméstica é que ela se caracteriza por uma economia ponderada de circulações, conseguida através da mínima extensão e do aproveitamento máximo das circulações por corredor (por exemplo por dupla utilidade para circulação e para arrumações em roupeiros) e também mediante a mínima extensão e posicionamento estratégico das eventuais zonas de circulação obrigatória através de compartimentos mais sociais (por exemplo, quartos com acessos através de salas e cozinhas).

Numa sociedade em que todos temos muito mais para fazer do que andar a perder tempo e energia a usar habitações mal organizadas e considerando que tais habitações se caracterizam, como é evidente, por um esforço acrescido na sua manutenção e limpeza, não faz realmente sentido, também a este nível de uma essencial e maximizada funcionalidade doméstica, que tenhamos casas mal distribuídas e perdulárias em circulações extensas e pouco úteis; e nestas matérias Claude Lamure (1) chegou à conclusão que, geralmente, se pode reduzir para cerca de metade a extensão dos percursos relativamente a soluções domésticas com organizações mal concebidas, poupando-se significativamente no esforço físico e, especificamente, nos cuidados de manutenção e limpeza, uma redução que está também associada à supressão dos desníveis interiores.

E há que sublinhar que estes aspectos têm muito interesse quando se visa uma habitação direccionada especificamente para habitantes mais idosos e com pouco tempo, ou mesmo com pouca vocação e disponibilidade, para a lide da casa, um grupo sociocultural cada vez mais importante na sociedade urbana.


Outra matéria apontada por Lamure é que habitações em dois pisos são muito negativas nestes aspectos de crescimento de áreas de circulação e de esforço no uso da habitação, mas julgo que esta escolha deverá ser destacada do juízo anterior, pois habitar em dois pisos também terá as suas vantagens noutros aspectos (por exemplo, na privacidade no interior doméstico) e é possível, naturalmente, organizar funcional e racionalmente habitações em dois pisos.

Mas voltando à ideia atrás expressa de uma clara negação a circulações mal organizadas, importa sublinhar que se está a negar essa má organização, essa má concepção e não o interesse de circulações com significativo desenvolvimento, desde que bem estruturadas e associadas a outras actividades domésticas, pois um razoável desenvolvimento destas circulações também pode ser factor de adaptabilidade no uso dos diversos compartimentos e de negação daquilo que por vezes se considera ser uma organização doméstica excessivamente hierarquizada e funcionalmente rígida.

Numa primeira conclusão sobre estas matérias da circulação doméstica há que sublinhar que ela tem de ser estritamente funcional e racionalizada, ainda que uma tal condição esteja associada a uma expressão afirmada de uma dada estrutura de organização da habitação, ou a uma expressiva importância que seja dada exactamente a essas áreas de circulação, um pouco como sendo uma habitação que vive toda ela de um grande coração de circulação, que será, por exemplo, também de estar e de outros usos nobres (por exemplo, uma grande biblioteca); e afinal Alexander defende que o fluxo através dos compartimentos é tão importante como os próprios compartimentos, influenciando tanto a convivialidade doméstica, como o uso de cada espaço da casa. (2)


Fig. 2

Associações interessantes dos espaços de circulação com outras áreas domésticas

Tal como apontei num estudo editado no LNEC (“Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA 2, 1998), apontei que entre as características mais desejáveis nos espaços para circulação, comunicação e separação se salientam as seguintes: permitir a circulação funcional das pessoas entre todos os espaços e compartimentos da casa, protegendo os espaços mais privados e recebendo algum mobiliário (funcional e de aparato); permitir diversos tipos de ocupação (por exemplo, corredor que para além de ser uma zona de passagem é, também, um agradável espaço mobilado e decorado e uma zona de utilização de roupeiros e arrumações); serem de fácil limpeza e terem ventilação e luz natural ainda que indirectas (através de envidraçados e aberturas em portas e "bandeiras" interiores).
A agregação da circulação, do receber e da sala de estar é, frequentemente, uma solução muito mal usada, porque não há uma protecção visual da sala, que fica devassada e "trespassada" por espaços de circulação, inúteis para qualquer outra função, e importa considerar que tanta circulação não será muito adequada a uma sala mais formal, embora seja, talvez, admissível numa sala de família.
E tal como apontei no referido estudo (ITA 2), há todo o interesse em atribuir a utilidade máxima às zonas de circulação do tipo corredor, desenvolvendo roupeiros ao longo delas e estimulando o seu uso como verdadeiras "antecâmaras" das zonas mais privadas (podem ser até pequenos "halls" de quartos).

Finalmente, não são de esquecer as potencialidades dos corredores como excelentes espaços informais de brincadeira para as crianças e, de uma forma mais elaborada e sujeita a cuidados específicos, de integração de recantos de trabalho individuais; sobre esta última possibilidade lembremos que, por exemplo, durante a noite e desde que havendo adequados cuidados de dimensionamento, isolamento acústico e visual e climatização, os corredores poderão proporcionar uma nova dimensão no uso da casa.


Hábitos interessantes nos espaços de circulação domésticos

Relativamente aos velhos hábitos no uso da casa importa lembrar que o corredor foi uma invenção não muito antiga, pois na casa popular, e no limite, havia um único grande compartimento, enquanto na casa nobre ou burguesa se passava, habitualmente, de compartimento para compartimento, na zona principal da casa, havendo, eventualmente, corredores nas respectivas zonas de serviço. E quem sabe talvez se possa recuperar parte desta estrutura organizativa em algumas renovadas organizações domésticas.

Notas:
(1) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 194.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 560 e 561.

Notas editoriais:
·       (i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
·       (ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


INFOHABITAR Ano X, nº 510
Artigo LXIV da Série habitar e viver melhor

   Circulações domésticas: espaços de vida - I

Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.