segunda-feira, outubro 31, 2011

A integração e a arquitectura do habitar - Infohabitar 367

Infohabitar, Ano VII, n.º 367

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: A integração e a arquitectura do habitar

Artigo de António Baptista Coelho


Nota prévia à presente edição:

Retomando uma série editorial cujo último “capítulo”, sobre a domesticidade e a qualidade arquitectónica residencial foi editado, há apenas uma semana, com o n.º 366 deste Infohabitar, publicam-se agora algumas reflexões sobre a matéria da INTEGRAÇÃO arquitectónica residencial, uma matéria sempre essencial quando se debate a cidade, o habitar e a habitação.

Índice

Introdução geral

1. Uma arquitectura do habitar bem integrada

2. Reflexão geral sobre a natureza da integração arquitectónica residencial

3. Aspectos estruturadores da integração

4. A integração da natureza no meio urbano ( e vice versa)

5. A integração, como ferramenta de diversidade urbana

6. Estratégias de integração urbana e residencial e de densificação

7. A integração residencial, urbana e paisagística: um mundo de relações que é matéria-base da concepção arquitectónica

8. A integração: dos espaços públicos aos espaços edificados

a) Espaços públicos integrados e integradores

b) Vizinhanças de proximidade integradas e integradoras dos seus edifícios

c) Espaços edificados e/ou espaços de relação e de integração

d) Espaços edificados integrados e integradores

e) A integração nas habitações

9. Carácter e importância específica da integração

10. Notas de reflexão sobre a integração arquitectónica residencial


Introdução geral

Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão 17 ou 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e, provavelmente, outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).

Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que foi, até agora, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados), mas que se pretende que, nesta ponta final da edição da série, mantenha um máximo de continuidade (dentro da normal periodicidade semanal do Infohabitar):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução

A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.
Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º 341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 348 e 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar (final de Maio e início de Junho de 2011).

Infohabitar n.º 364 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado - 9 de Outubro de 2011.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 365 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção – 16 de Outubro de 2011.

Infohabitar n.º 366 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: A domesticidade e a arquitectura do habitar – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.

(o presente artigo) Infohabitar n.º 367 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: A integração e a arquitectura do habitar – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.

Infohabitar n.º 368 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: reflexões finais.

Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.

Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, e que se tem feito nesta série editorial às matérias da qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.

Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais. Esta abordagem foi editada pela Livraria do LNEC no livro "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2 (fig. 02)


Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php

Habitação e Arquitectura XVI:
Uma arquitectura do habitar bem integrada

1. Uma arquitectura do habitar bem integrada
Com a reflexão, que se segue, dirigida para o papel da integração na qualificação arquitectónica residencial, encerra-se este estudo das várias facetas que se consideram mais significativas nessa qualificação e numa perspectiva que associa matérias consideradas mais objectivas e outras conhecidas como menos objectivas, embora aqui deva considerar-se que há várias maneiras de se poder avaliar tal objectividade.

A integração arquitectónica é, globalmente, uma das qualidades mais manejadas no âmbito da concepção de edifícios e espaços urbanos, e, é, provavelmente, aquela mais frequentemente evocada nas memórias descritivas e justificativas dos projectos de arquitectura, que são as peças mais frequentemente escritas por arquitectos; uma condição que, embora atribua, directamente, à integração arquitectónica residencial, uma importância inequívoca no processo de projecto, não corresponderá a uma expressiva, provada e sistemática preocupação dos projectistas na harmonização e no bom diálogo entre as suas intervenções e os respectivos quadros urbanos e paisagísticos; caso contrário não teríamos, como infelizmente temos, actualmente, tantas das nossas paisagens urbanas e naturais destruídas ou muito danificadas; feridas por anomalias mais ou menos complexas/difíceis de recuperar, mais ou menos extensas e mais ou menos críticas.

Nestas matérias lembra-se Robert Venturi, autor do bem conhecida “complexidade e contradição/ambiguidade em arquitectura”, quando ele defende que “o arquitecto é responsável pela paisagem, que pode embelezar subtilmente ou estropiar, porque a nossa visão abarca os conjuntos, sendo essa a causa de que a introdução de qualquer novo edifício transforma o carácter dos restantes elementos da cena.” (1)

E, de certa forma, complementarmente, Marguerite Yourcenar escreve, nas suas “Memórias de Adriano”, que “construir é colaborar com a terra; é pôr numa paisagem uma marca humana que a modificará para sempre; é contribuir também para essa lenta transformação que é a vida das cidades. Quantos cuidados para encontrar a situação exacta de uma ponte ou de uma fonte, para dar a uma estrada na montanha a curva ao mesmo tempo mais económica e mais pura...” (2)

Trata-se de uma excelente e sintética definição de integração arquitectónica, que, quando referida ao habitar, tem a ver com o bom diálogo das soluções residenciais com os respectivos espaços urbanos e naturais de acolhimento – um diálogo de que deve resultar um efeito final que favoreça o sítio e a sua envolvente. Mas a integração, no sentido de algo “íntegro”, refere-se também ao desenvolvimento de conjuntos residenciais completos em todos os seus elementos desejáveis, visual e funcionalmente coerentes, expressando uma unidade natural e positivamente caracterizadora.

E, por vezes, o projecto “não é mais” que um elemento de valorização da união de condições naturais e urbanas preexistentes, o que é, provavelmente, extraordinário, e que fica claro nas palavras de Gonçalo Ribeiro Telles sobre o jardim que fez para Sophia de Mello Breyner Andresen. Diz Ribeiro Telles (2004): “Quando procurei inventar um jardim para a Sophia, deparei com um lugar onde a força telúrica das colinas e do estuário e a beleza da paisagem se interligavam de tal maneira que o Jardim não é mais do que o elo, no sítio próprio, onde se consubstancia tal aliança.” (3)

Será, à partida, esta perspectiva de integração, “passiva” no bom sentido deste termo, que devemos procurar quando intervimos para introduzir nova habitação ou para melhorar condições habitacionais preexistentes, uma perspectiva que não afasta, no entanto, acções efectivas e marcantes em termos construtivos.

Uma boa integração própria e no sítio de implantação é um aspecto básico da qualidade arquitectónica de um dado conjunto residencial, constituindo-se num importante atributo que ultrapassa o âmbito de uma qualidade “de aspecto” pois tem e terá, sempre, entre outras, fundamentais implicações funcionais, espaciais, de durabilidade, de acessibilidade e de agradabilidade ou conforto; e só assim a integração se torna matéria “redonda”, em termos de uma composição íntegra e bem integrada.


Fig. 03

2. Reflexão geral sobre a natureza da integração arquitectónica residencial
A integração arquitectónica e residencial tem, assim, a ver com a condição de um dado espaço e/ou elemento do habitar estar total e adequadamente composto, integrado por todos os necessários e habituais elementos e relações que constituem a respectiva totalidade; isto é: o seu contexto habitualmente considerado como completo e adequado.

Mas a adequada reunião num todo composto e completo tem de ser mais do que a simples e maquinal adição das suas partes constituintes, pois é este “motivo” da integração um dos mais importantes temas de caracterização de uma intervenção arquitectónica e urbana; e sendo-o, claramente se prova que não se pode esgotar numa simples listagem, ainda que exaustiva e cuidadosa, tem que haver mais capacidade ou potencial de integração para além dos óbvios aspectos de adequação física/paisagística e sociocultural, ou então estes aspectos obrigam a um desenvolvimento muito sensível e complexo, o que acaba por ser um pouco a mesma coisa.

Tudo isto se liga à ideia de que estar integrado é fazer parte de uma totalidade que é reunião de um grupo de elementos, cada qual, por si só, significante, mas que também retira significado e função do seu papel na constituição e no funcionamento do todo; mas estar integrado, pensando-se já aqui no habitar e no espaço urbano, para além de querer dizer harmonização no conjunto de que se faz parte, também significa cooperação activa no estabelecimento e no posterior desenvolvimento de um dado contexto o mais possível equilibrado em termos formais e funcionais.

E sublinha-se que todos os elementos de uma dada unidade contribuem para a conclusão e harmonização ambiental e funcional desse todo, embora existam elementos "chave" fundamentais para esse equilíbrio, alguns deles até convenientemente evidenciados, e outros que, embora também fundamentais para a constituição e estabilidade da totalidade, têm reduzida expressão ou são, até, praticamente "invisíveis".

Nesta perspectiva de imaterialidade da integração, Gonçalo Byrne (4) salientou que “não deixa de ser o negativo o grande integrador, o meio que não existindo/existindo é o sítio das relações de integração e separação. A arquitectura nos últimos vinte ou trinta anos encerrou-se demasiado na noção do objecto, aproximou-se muito do sentido do design objectual, mas ela é também o espaço de relação entre os objectos; é o artifício, o projecto do vazio.”

E logo de seguida Byrne referiu que: “As nossas escolas de arquitectura continuam quase a não falar de paisagem, os arquitectos ficam sem perceber o que é, na cidade contemporânea, a paisagem em termos de arquitectura, e não de natureza”; e que “O primeiro acto da arquitectura da paisagem é modelar o terreno ou entendê-lo como um acto modelado. Esta noção da paisagem é fundamental, e o novo planeamento, para além de todas as noções de fluxos, de tráfegos, de infraestruturas de transportes, de serviços, de fixação de actividades, deveria incorporar a noção de paisagem ao nível dos grandes planos estratégicos e dos projectos.”

Será talvez esta a principal fundação da ideia de integração arquitectónica urbana e residencial, a possibilidade de se contribuir para uma boa paisagem, enquanto talvez o principal objectivo possa ser a melhoria do quadro preexistente das intervenções e neste quadro qualificar, positivamente, cada intervenção, caracterizando-a em termos de um seu conteúdo funcional e formal que dignifique os seus habitantes e também os seus sítios de implantação, numa perspectiva sintetizada, por exemplo, pelo arquitecto norte-americano Paul Rudolph, quando se referiu a um conjunto de apartamentos cuja imagem evocava uma aldeia adossada a uma colina: “espero que estas unidades pareçam casas no céu, e não caixotes num armário;” (5) e a integração é a grande responsável por esta, tantas vezes, subtil diferença de resultados, entre casas e caixotes.



Fig. 04

3. Aspectos estruturadores da integração
Sobre a boa implantação, a tal feita, de certa forma, invisivelmente “no vazio” e mediante ferramentas, em boa parte, imateriais há aspectos que podem ser considerados “leis” fundamentais e entre estes salienta-se uma pormenorizada afirmação do paisagista Michael Laurie, que aponta que “a planificação da obra pode ser entendida como o compromisso entre a adaptação do sítio para acolher o programa e a adaptação deste mesmo programa em função do sítio, podendo-se considerar um e outro como dois sistemas de forças: um o sítio de implantação, que luta por se expressar por si próprio e manifestar a sua singularidade; e o outro, o programa de necessidades, que também se caracteriza por um processo genérico que tende para a sua própria conformação... O sítio de implantação e o programa devem combinar-se e manipular-se de tal forma que produzam atributos/qualidades que separadamente não proporcionariam.” (6)

A integração, numa perspectiva arquitectónica urbana e residencial apresenta quatro grandes facetas fundamentais e relativamente distintas, embora necessariamente conjugadas:

Uma integração de âmbito global: desenvolvida através de cuidadosas relações entre formas e elementos fundamentais e mediante processos de relacionamento mútuo, que sejam viáveis em termos formais e de uso.

Uma integração local, física e paisagística, que decorre de: uma adequada estruturação e organização; de relações directas e sistemáticas com as condições de conforto ambiental que são induzidas, pela respectiva solução, nos seus edifícios e espaços exteriores; do respeito e utilização das preexistências físicas e de vistas; e da consideração efectiva de condições que propiciem a continuidade e a evolução urbana

Uma integração urbana que respeite e favoreça, sistematicamente, a continuidade urbana activa, designadamente, em termos de uma continuidade de preenchimento e de um sistemático combate a rupturas e a barreiras, melhorando-se as sequências urbanas.

Uma integração social (gémea da continuidade urbana): respeitar heterogeneidade; e uma estratégia de mistura social em certos níveis físicos e/ou em espaços de limiar e de transição, conjugada com a relativa homogeneidade sociocultural noutros níveis.

Na presente reflexão dedicamo-nos, essencialmente, aos aspectos mais “físicos” ou sociais, mas com expressivas relações físicas, da integração arquitectónica e residencial. E, neste sentido, e embora a matéria tenha sido já atrás abordada em termos dos potenciais que o habitar deve oferecer, designadamente, em termos de convivialidade e de apropriação, cabe aqui salientar que num estudo de Robert Stern, sobre a arquitectura norte-americana, se aponta que “o agrupamento de grandes números de famílias empobrecidas exacerba os problemas sociais e reduz as oportunidades das verdadeiras soluções positivas e de futuro, agora sabemos que proporcionar habitações seguras, sólidas e higiénicas não é suficiente”. (7)

Há, portanto, aqui, aspectos de integração social e sociocultural, com claras ligações físicas, que abarcam:

(i) desde “simples” matérias associadas, designadamente, à introdução, em cada local, de números equilibrados (portanto, não excessivos) de pessoas e famílias com o mesmo tipo de carências, procurando-se, assim, replicar, na medida do possível, condições urbanas e sociais idênticas às que se encontram nas povoações estabilizadas – e m que pessoas com diferentes meios habitam, frequentemente, lado a lado, não havendo uma relação directa e evidenciada entre a imagem da habitação e a pertença social (pelo menos nos grupos sociais intermédios e menos favorecidos);

(ii) até matérias mais complexas e sensíveis que têm a ver com as afinidades e com as rejeições entre certos modos de viver e certas soluções físicas de habitar (habitação, edifício e vizinhança); uma matéria que desde há muito que faz correr tinta, pois há quem defenda relações directas entre essas matérias, e quem as negue com alguma radicalidade; e sobre este assunto dá vontade de lembrar aquele tipo de comentário de Galileu (sobre a Terra) e que sublinha que “no entanto ela move-se”, aqui referido, evidentemente, à influência directa que certas más soluções de habitar (mal integradas e mal desenhadas) têm em usos menos bons dos seus habitantes, assim como, e pelo contrário, a excelente influência que tem, nos próprios percursos pessoais e familiares dos habitantes, uma boa solução urbana, bem integrada, socialmente integrada e integradora de certos hábitos e gostos de habitar (assim como tendencialmente dificultadora de outros hábitos, socialmente negativos, designadamente, em termos de uma convivência mais ampla e multicultural).

E, naturalmente, que estes últimos aspectos não negam a importância clara de uma adequada gestão local, de proximidade e também integradora de vários aspectos sociais (habitação, assistência, etc.), que tem de encontrar na solução física uma base eficaz de aplicação.



Fig. 05

4. A integração da natureza no meio urbano ( e vice versa)
Nestas matérias da integração sobressai, naturalmente, a conjugação entre “cidade”/espaço urbano e natureza, sendo que, por se considerar o perfil relativamente circunscrito deste estudo, dirigido para o enquadramento de conjuntos urbanos e habitacionais, nos interessará, aqui, mais, a questão da integração do verde no meio urbano e as suas diversas e importantes virtualidades; a relação urbano-rural, numa perspectiva mais ampla e abrangente, terá de ficar para outros desenvolvimentos.

Sobre o verde urbano importa ter presente que ele ajuda a uniformizar alguns aspectos de uma paisagem comum, concretizando envolventes acolhedoras e representativas da diversidade da natureza e do próprio mundo. Para além deste aspecto suavizador e humanizador o verde urbano também é habitualmente associado ao lazer, situação/solução que é também muito útil na suavização dos múltiplos aspectos menos humanos da sociedade actual.

Provavelmente a identidade fortíssima que caracteriza cada elemento natural como único (presença marcante de uma natureza rica e sempre diferente e renovada) e, paralelamente, o agradável contraste entre esse elemento natural, ali humanizado, e a racionalidade da edificação citadina (fila de árvores ao longo das ruas, trepadeira sobre muro, vasos de plantas em janelas, etc.), produzem efeitos finais que muito contribuem para dar sentido e carácter aos lugares, verdadeiramente humanizando-os, ao mesmo tempo que se contribui para condições de estímulo e surpresa nos percursos e na paisagem urbana.

E nestas matérias ligadas a um cuidado acentuar de percepções e de sentimentos em espaços, frequentemente, pouco extensos, ganha relevo o conhecimento aprofundado, por exemplo, do “jardim paisagista inglês”, um conceito desenvolvido no início do século XVIII, que reinventou a nostalgia do paraíso perdido, concentrando e “miniaturizando” muitas das principais visões da natureza, tais como colinas, ribeiros, prados, pequenos bosques, clareiras e florestas, criando-se, tal como é indicado por Adrian Buttlar (1993) (8), visões pitorescas e poéticas de uma natureza que se pode percorrer, “logo ali”, com relativa facilidade e muito agrado. E nesta matéria do agrado que se tem com uma natureza positivamente “encenada e concentrada”, basta lembrarmos os fortes sentimentos que dirigimos, por exemplo, para certos jardins citadinos, verdadeiros palcos de quadros de natureza, como é o caso, por exemplo, dos jardins Gulbenkian e Garcia da Horta, em Lisboa e do Jardim de Serralves, no Porto.

O verde urbano é de difícil desenvolvimento (poluição, manutenção, vandalismo), mas é muito importante pois proporciona múltiplos aspectos de conforto/bem-estar, saúde e agradabilidade cultural: humidade/frescura, sombreamento eficaz, oxigénio, absorção/retenção do pó e da poluição atmosférica, amortecimento da poluição acústica e mesmo, há que dizê-lo, camuflagem da infelizmente, também, muito frequente poluição visual, e, finalmente, de apoio à formação das crianças e de agrado físico, psicológico e cultural pela possibilidade e facilidade do contacto com o meio natural.

E o verde urbano é inventivo, seja nas suas formas mais correntes (ex. caldeiras multifuncionais para árvores e sebes vivas amenizadoras do ruído), seja em “novas” soluções de grelhagens para trepadeiras, coberturas de solo, jardinetas e floreiras marcando o edificado, pérgulas de cobertura de espaços pedonais e estacionamentos, ruas (re)alinhadas por árvores e arbustos, separação de domínios de privacidade, unificação de arquitecturas por árvores e arbustos, fachadas preenchidas por trepadeiras, varandas e terraços “verdes”, etc., etc. – e nesta matéria importa salientar que uma árvore adulta e com uma dimensão significativa pode fazer quase tanto para a melhoria microclimática urbana como cerca de 1 Ha de relva; e é bastante mais fácil e económico plantar uma árvore, sendo também muito mais compatível com as diversas linguagens arquitectónicas este tipo de integração.

Neste sentido poderemos avançar com medidas que dinamizem a introdução do verde urbano, por exemplo, tal como defende Carlos Balsas (9), pela “aplicação de «bónus» urbanísticos nas taxas de edificação para projectos que aumentem a área verde e a área permeável na cidade (nas mais variadas formas, desde que viáveis, ex. pavimentos não estanques, árvores de arruamento com dimensão inicial adequada e bem protegidas, «varandas verdes» etc.), uma maneira simples e eficaz de aumentar a qualidade de vida e a humanização em determinados espaços urbanos e habitados.” E esta perspectiva faz sublinhar a grande importância que tem e terá a dinamização da integração do verde urbano, sob as mais variadas formas, na cidade existentes e nas novas intervenções residenciais; uma importância que será ainda potenciada caso estas medidas sejam associadas às iniciativas de retenção/fixação do carbono – configurando-se, assim, uma matéria específica que poderá merecer desenvolvimento posterior.

5. A integração, como ferramenta de diversidade urbana
Hoje em dia, neste século das cidades, o coração da solução para um espaço urbano vivo e rico é que a cidade tem de se poder regenerar através da estratégica, afirmada e muito cuidada integração de espaços de habitar, que incluam habitação e "espaços de habitar complementares" conviviais e de transição/coesão, que são tanto residenciais como urbanos, uma integração que, por sua vez, depende em grande parte de uma apurada capacidade de pormenorização, desenhando-se plenamente cada sítio, pois, como defendem Moore, Allen e Lyndon (10), nos lugares habitados por pessoas todos os espaços têm que evidenciar pertencerem a alguém ou a algo; e o espaço tem de parecer habitado, como se pertencesse ou pudesse ser reclamado por grupos particulares de pessoas, ou resultar compreensível como parte de uma ordem coerente mais ampla, como a paisagem natural ou o tecido tradicional de uma cidade, ou um sistema totalmente novo de espaços urbanos.”

Outro autor a considerar, nestas matérias, é Tony Hiss (11), que se dedica ao aprofundamento da questão de como as cidades e os subúrbios podem ser conformados para serem verdadeiramente adequados para serem habitados com satisfação e em plenitude; aspecto fundamental, naturalmente, pois como defende Hiss “os lugares que habitamos afectam as pessoas que somos e que podemos vir a ser” e a “relação que estabelecemos com os sítios que conhecemos é uma relação íntima, uma espécie de continuidade com o que somos e pensamos”, e assim , conclui, que “o desenvolvimento urbano anárquico pode destruir tanto as nossas vidas quanto tem destruído as cidades e o mundo rural.” Conclusão esta extremamente significativa e que todos sentimos “na pele” ao visitarmos paisagens outrora belas e hoje destruídas.

A ideia básica de Hiss é que qualquer intervenção urbana e habitacional deve ser pensada de modo a reforçar o nosso desenvolvimento em plenitude como pessoas com diversas necessidades e perspectivas, mas também de modo a proteger o respectivo ambiente natural. E seria interessante aprofundar esta perspectiva considerando, por exemplo, a satisfação residencial, num intervalo temporal já significativo, de habitantes em soluções marcadas por uma assinalável integração paisagística, em paralelo com soluções claramente pouco qualificadas, a esse nível, em termos arquitectónicos.

A cuidada diversificação e reinvenção de espaços citadinos aparece assim como uma tendência actual e com perspectivas de tendencial reforço, em novas misturas citadinas e habitadas, que sejam compatíveis com a nova sociedade da informação e com as novas comunidades citadinas e de vizinhança, e que sejam benéficas para quem as habita e para quem delas seja vizinho.


Fig. 06

6. Estratégias de integração urbana e residencial e de densificação
A questão da existência de estratégias de integração urbana e residencial pode ser considerada numa perspectiva que evidencie que tais perspectivas de actuação serão, potencial e praticamente, tão numerosas como os respectivos contextos de integração. No entanto, encontramos, por vezes, testemunhos de projectistas muito qualificados e experientes, que são muito úteis pois salientam e sistematizam alguns dos aspectos fundamentais e/ou de primeira linha a serem tidos em conta na introdução positiva de um novo conjunto habitacional num dado quadro urbano e paisagístico e nas acções de reabilitação ou de regeneração de conjuntos preexistentes.

Foi o caso de uma sabedora síntese do Arq.º Donlyn Lyndon, que sublinha que uma boa solução local de arquitectura e imagem urbanas deve caracterizar-se, designadamente, pelos seguintes aspectos formais e funcionais (12), que aqui se referem e muito brevemente se comentam, salientando-se, desde já, que embora de aplicação genérica estes elementos visaram especificamente uma intervenção com importante conteúdo residencial:

A intervenção deve caracterizar-se por uma modéstia apropriada às respectivas dimensões e ao local do projecto; esta noção de modéstia é interessante e subtil, pois sublinha também matérias associáveis à dimensão social da intervenção e às suas opções formais.

A intervenção deve respeitar a vizinhança circundante; uma afirmação que é óbvia, mas que convém registar e assumir como regra de base, podendo-se, mesmo, juntar que a intervenção deve servir a vizinhança circundante, em termos sociais e funcionais.

A intervenção deve oferecer benefícios reais aos seus potenciais utentes, mais do que proporcionar uma polémica satisfação visual; nestas matérias podemo-nos centra apenas na primeira parte da afirmação e referir que, naturalmente, há que servir o melhor possível quem habita os fogos e as vizinhanças, e neste bom serviço há aspectos objectivos e outros julgados menos objectivos, mas que terão grande importância na satisfação dos habitantes – e assim se conclui pela importância da retroacção no projecto e na análise do habitar, num círculo virtuoso com sentido de constante melhoria nessa satisfação.

Aplicação de métodos construtivos simples, no sentido da garantia de uma excelente realização da obra, contribuindo para a dignificação pessoal dos seus utentes.

Constituir uma conscienciosa solução de aproveitamento das possibilidades existentes e não uma simplista repetição de elementos.

Corresponder a um claro ordenamento de edifícios e espaços urbanos – “um ordenamento urbano legível”, neste caso nas palavras de Gérard Bauer (13) –, articulando positivamente (não sobrepondo) esse ordenamento com outros aspectos essenciais, como os da aparência e legibilidade públicas.

Na caracterização que acabou de ser desenvolvida há já uma referência destacada à importância do aspecto ou da aparência pública, mas esta importância e a sua extrema sensibilidade exige uma atenção redobrada, pois ela joga-se, em grande parte, nos fundamentais espaços de transição urbana que são as fachadas e as vizinhanças de proximidades, afinal, uns e outros sítios estratégicos da arquitectura, espaços muitos ricos, pois são, simultaneamente, de separação e de ligação, de diferenciação e de transição.

E para se avançar desta forma não podemos ser excessivamente optimistas e confiar inteiramente na boa vontade, na racionalidade, na ponderação, na sensatez e na imparcialidade dos agentes envolvidos nas decisões sobre essas temáticas. Afinal e tal como é defendido por Bernard Aubert, e Martine Caillaud (2003) (14), é hoje prioritário o desenvolvimento e a aplicação de esquemas de coerência territoriais baseados no desenvolvimento de projectos urbanos que privilegiam a reestruturação do existente relativamente ao consumo de novos espaços; o tal “construir no construído”, de uma forma humanizada e culturalmente consistente, tão bem apontado por Francisco Gracia na sua excelente obra de 1992, “Construir en lo construido – la arquitectura como modificación.”

Uma outra linha de integração urbana e habitacional pode casar-se com a perspectiva da densificação estratégica, pois não tenhamos dúvidas de que uma afirmada integração urbana, é um caminho que tem de se basear numa cuidadosa pormenorização da obra nova ou de reabilitação e dos seus múltiplos diálogos, mais globais ou mais micro, com os elementos da respectiva envolvente; e quando se desenvolve um tal diálogo fino e diversificado, o espaço tem tendência a “crescer” e a enriquecer-se de pontos de vista e de potencialidades, por vezes, inesperadas, num sentido de concepção que pode, frequentemente, ganhar densidade com alguma naturalidade.

E podemos olhar no sentido inverso e afirmar que as soluções expressivamente densificadas – as tais que podem insuflar vida urbana, estrategicamente, em sítios-chave da cidade (chaves de posições e de relações múltiplas) – exigem um “grão” e uma qualidade de integração claramente melhorados, relativamente a situações de densidade corrente, jogando-se o êxito destas intervenções nos seus múltiplos pormenores que garantam adequadas e múltiplas condições de vida diária aos novos habitantes e aos vizinhos preexistentes, tendo-se em conta e melhorando-se, sempre que possível, aspectos de conforto ambiental, privacidade e sociabilidade, funcionalidade, apropriação e capacidade de atracção/caracterização do sítio de intervenção e da sua envolvente urbana e paisagística.

Não seria talvez necessário registar, mas fazemo-lo de qualquer modo, que esta via da conjugação entre densidade urbana e boa capacidade de integração das respectivas soluções arquitectónicas, é algo que exige uma excelente capacidade de projecto, caso contrário os riscos são muito graves para os moradores e para a imagem urbana local e da respectiva cidade; não parecem ser, portanto, áreas para “aprendizes de feiticeiros”.

O caminho da densificação do habitar é, assim, também um caminho de integração cuidadosa, de urbanidade, de excelente diversificação e, atenção, também o pode ser de intimidade e de apropriação (15), uma intimidade urbana que associe proximidade e demarcação territorial muito pormenorizadas, e que exige uma concepção arquitectónica altamente qualificada. E sobre estas matérias teríamos de aprofundar mais as matérias ligadas à densidade, que foram, durante muito tempo associadas (e bem) às questões do habitar insalubre, mas que hoje em dia podem ter linhas muito positivas de desenvolvimento, associadas, designadamente, à revitalização urbana estratégica a mesmo ao aprofundamento da humanização do habitar; e sobre estas matérias fiquemos com uma afirmação de Francesc Permiguel, que nos diz que o nível de densidade adequado é aquele que torna economicamente viáveis os serviços públicos, que estabelece relações sociais adequadas e que permite a independência e o isolamento desejáveis. (16)



Fig. 07

7. A integração residencial, urbana e paisagística: um mundo de relações que é matéria-base da concepção arquitectónica
A preocupação de integração de uma dada intervenção arquitectónica visa respeitar e, eventualmente, reflectir a identidade/carácter do respectivo local de implantação e, por vezes, participar, de forma positiva, nessa identidade e caracterização.

Pode/deve visar-se, assim, um espírito do lugar específico, bem humanizado, em harmonia com o sítio e ao serviço da comunidade. E temos praticamente tudo o devemos ter pois, desta forma, e através da (re)descoberta do espírito de cada lugar os seus habitantes muito ganharão em sentido de pertença e de responsabilidade e em sentido de lugar habitado, equilibradamente, privado e gregário.

Afinal, vale sempre bem a pena ter presente que, tal como defende Christian Norberg-Schulz no prefácio ao seu “Meaning in Western Architecture: (17)

“A arquitectura é um fenómeno concreto. Ela abarca paisagens e ocupações humanas, edifícios e conjugações caracterizadas. Portanto, uma realidade viva. Desde tempos remotos a arquitectura tem ajudado o homem a dar sentido e significado à sua existência. Com a ajuda da arquitectura ele conseguiu marcar uma posição no espaço e no tempo.

A arquitectura preocupa-se portanto com algo mais do que necessidades práticas e economia. Ela refere-se a conteúdos e significados existenciais.

Os conteúdos e significados existenciais resultam de fenómenos naturais, humanos e espirituais, e são experimentados como ordem e carácter. A arquitectura traduz estes significados através de formas espaciais.

As formas espaciais em arquitectura não são nem Euclidianas nem Einsteinianas. Em arquitectura as formas espaciais significam lugar, caminho e domínio, isto é, a estrutura concreta do ambiente humano.

Por isso a arquitectura não pode ser satisfatoriamente descrita através de conceitos geométricos e semiológicos. A arquitectura deveria ser entendida em termos de formas significantes. E como tal fazendo parte da história dos significados existenciais.

Hoje em dia o homem sente uma necessidade urgente de reconquistar a arquitectura como um fenómeno concreto...”

Numa relativa antítese da arquitectura do estrelato e numa perspectiva que encontra importantes autores como seus intransigentes defensores, a integração arquitectónica e designadamente a integração física, formal e paisagística é um conceito que tem estado, nos últimos anos, na primeira linha dos novos/renovados conceitos defendidos em arquitectura. Quando Yves Lyon (18) fala da arquitectura da cidade e dos territórios, e quando fala da atenção à vida e às suas exigências, e quando tantos outros falam da importância que devemos dirigir a essa vida dos homens e das cidades e ao respeito e “respirar/potenciar” dessas paisagens, provavelmente estamos todos a falar de integração num sentido lato, mas também especificamente da integração física.

Defende-se, assim, tal como defende Yves Lyon, “uma nova actividade de arquitecto feita da atenção para com os lugares” e que privilegie “não mais a criação de objectos isolados, mas sim a integração, a conjugação e o desenvolvimento de ligações entre sítios, entre pessoas e entre exigências e necessidades frequentemente antagonistas entre si.”



Fig. 08

8. A integração: dos espaços públicos aos espaços edificados

a) Espaços públicos integrados e integradores
Relativamente à integração nos espaços públicos colocam-se várias questões. Integração de quê? Quais os elementos fundamentais a integrar? Quais os conjuntos de exigências habitacionais a privilegiar nessa integração? Compondo-se, desejavelmente, que tipologias de vizinhança? Sendo este um aspecto que se considera ser de grande importância. Associando que tipologias edificadas preferenciais?

Estas e outras perguntas aguardam um necessário aprofundamento referido ao que ainda constitui um certo “quebra-cabeças”/”puzzle” no âmbito da estruturação de uma adequada constituição de espaços públicos urbanos residenciais, que não sejam nem “excessivos”, nem insuficientes; e aqui há que considerar uma perspectiva de tipologia integrada, associando, intimamente, edifícios e espaços “vazios” (massa edificada e ausência desta massa), num jogo de agregações que tudo tem a ver com a criação de vizinhanças.

Um outro aspecto fundamental a ter em conta na temática da integração arquitectónica ao nível dos espaços públicos é que, quando falamos de espaços públicos, temos de falar e de voltar a falar, cada vez mais, de ruas, e quando falamos de espaços público integradores (de cenários e actividades) e bem integrados na continuidade urbana e na desejável coesão de aglomerados de vizinhanças e de dispositivos de relação e de transição, então as virtudes da rua ainda ficam mais evidentes.

Sobre este assunto fiquemos com Jaime Lerner, quando este autarca e arquitecto nos diz que: “Até agora não se inventou nada melhor do que uma rua tradicional, que é a síntese de uma cidade onde todas as funções estão juntas: moradia, trabalho, lazer... Habitar a cidade e/ou a paisagem como forma última de habitar o mundo e de nos habitarmos, encontrando-nos e encontrando os sítios que, por serem verdadeiramente os nossos sítios, nos dão uma força e uma inspiração excelentes e fazê-lo individualmente, mas também em grupo, e com coesão; de certa forma através de um espaço em que cada um pode encontrar o seu mundo e também um mundo de muitos, que não é intruso do mundo individual, mas que, em vez disso, o enriquece. Costumo dizer que a cidade é o refúgio da solidariedade, é a nossa garantia e salvaguarda. Se cuidarmos bem das nossas cidades vamos ter uma salvaguarda boa. Como já aconteceu com o movimento a favor do ambiente, que começou em 1972 e fez mudar o mundo, eu diria que este é o momento da cidade.” (19)

E não tenhamos dúvidas de que o êxito ou o fracasso de novas intervenções e de acções de regeneração urbanas e residenciais, depende da capacidade de integração e mesmo de agregação dos respectivos espaços públicos ou de uso público, em termos das suas próprias actividades e da sua relação com os edifícios envolventes e próximos; e evidentemente não nos podemos esquecer que o entorno dos edifícios é também, em boa parte, o entorno dos espaços públicos urbanos.

b) Vizinhanças de proximidade integradas e integradoras dos seus edifícios
Muito do que se referiu sobre a importância da integração arquitectónica ao nível dos espaços públicos ou de uso público, tem aplicação directa quando consideramos o nível físico das vizinhanças urbanas, até porque o espaço público “por si só” tem pouca “validade” e, frequentemente, nenhuma sustentabilidade social e económica; isto porque o espaço público ou de uso público vive das relações, das transições, das proximidades vitalizadoras, das complementaridades entre interior e exterior e de uma perspectiva global que se radica ma ideia de que devemos habitar, realmente, o interior doméstico e o exterior público. E o exemplo, pela negativa, de que não podemos considerar o espaço público “solto” dos “seus” edifícios é dado pelos tantos casos em que se faz uma espécie de sementeira aleatória de edifícios num exterior indiferenciado e tantas vezes deixado inacabado ou mesmo ao abandono.

Retomando a reflexão sobre a rua, como elemento fundamental do espaço urbano, importa sublinhar que ele é, por excelência, uma espécie de "espaço comum e a mais vital instituição humana numa cidade”, escreveu-o Louis Kahn (20), que , logo em seguida, acrescenta: “As fachadas dos edifícios ao longo das ruas pertencem-lhes, são as paredes da rua, espaço sem tecto"; e esta é uma noção fundamental para se perspectivar a importância e a capacidade real da integração física ao nível urbano e designadamente na constituição de vizinhanças e continuidades de vizinhanças globalmente marcadas pelo sentido cívico e da relação com a cidade central, pois qualquer rua tem em si a proposta de um percurso que leva a um sítio específico; e aqui, também, encontramos mais um elo de integração, neste caso com “sinal” superior, embora relativamente “invisível” na proximidade das vizinhanças.

Aqui, nestes diversificados caldos de cultura urbana e residencial, que marcam as mais diversas proximidades de vizinhanças, estamos no mundo dos limiares e das transições, no mundo “entre”, no mundo da relação, que há quem diga ser o principal motivo da concepção arquitectónica.

É assim, aqui, na “pele” do edificado, que é também a “pele” do exterior urbano coerente, que muito se joga, designadamente em termos de aspecto ou aparência pública e nos ricos espaços de transição urbana que são as espessuras e os filtros das fachadas que envolvem e caracterizam as vizinhanças de proximidade; afinal numa diversidade de espaços interrelacionados que são as zonas estratégicas da arquitectura, pois, como defende Roderick Lawrence, "em arquitectura as relações entre os espaços são fundamentais e as zonas em que se dinamizam tais relações são riquíssimas pois são, simultaneamente, de separação e de ligação, de diferenciação e de transição, de interrupção e de continuidade, de limite e de limiar." (21) Mas é aqui salutar lembrar que se a solução não responde bem neste registo de relações, fusões e limiares activos, então a solução global falha, porque não é íntegra nem se integra no respectivo contexto.

Destas matérias decorre, ainda, segundo Lawrence, e no trabalho citado, a função essencial da fachada: "A fachada de um edifício é um elemento de transição entre dois mundos; ela exprime a passagem de um lugar público a outro mais privado e, talvez, de um espaço profano a um espaço sagrado. A fachada pode separar e reunir. Algumas são permeáveis, outras revelam muito pouco do que abrigam: «elles sont parfois coupure et parfois couture». A definição dos limites, fronteiras e barreiras é uma característica importante do espaço arquitectónico" (22). E quando se trata de integração residencial e urbana pode-se imaginar a riqueza de soluções tipológicas globais e de soluções-mistas, que decorrem e podem decorrer do desenvolvimento desta perspectiva específica; e se o “problema” for a necessidade de uma exigente e inspirada pormenorização, isso não será um problema, mas sim um trunfo que é um ganho para a cidade e para os respectivos habitantes.

Como síntese de toda esta matéria que é, repete-se, fundação privilegiada da (re)invenção tipológica residencial, por misturas variadas e estimulantes entre espaços públicos e de uso público e edifícios tipologicamente variados, salienta-se a importância de uma perspectiva de grande integração no apuramento e desenvolvimento das soluções muito coesas de: tipologia de vizinhança próxima; tipologia edificada; e capacidade de integração específica em diversos sítios ou situações. De certa forma, podemos afirmar que será de um adequado “jogo” de integração dos elementos componentes de uma dada solução urbana e residencial no conjunto dos elementos constituintes do respectivo quadro paisagístico preexistente, que poderá decorrer a positiva originalidade da respectiva solução tipológica; são esses e não outros dos dados desse jogo.

c) Espaços edificados e/ou espaços de relação e de integração
Passo a passo, no “descascar desta grande cebola” do habitar urbano, lá voltamos outra vez ao miolo (do) edificado, desta feita lembrando o que acabou de ser referido sobre a grande unidade que é desejável desse edificado como constituinte de vizinhanças e continuidades urbanas, numa perspectiva que tudo tem a ver com a referida e bem fundamentada (re)invenção tipológica; mas o edificado tem, naturalmente, uma natureza própria em termos de aspectos de integração e relação, uma natureza que decorre da sua básica autonomia de “edifício”, que “nasce” num dado lote e que é delimitado pelo respectivo traçado desse lote; mas no entanto mesmo esta “segura e clara” delimitação poderá ser posta em causa, em favor do aprofundamento do interesse da cidade habitada, tal como se aponta em seguida.

Afinal, e tal como tão bem sintetiza Jean-Charles Depaule (1985) (23), o nosso mundo urbano “mais do que um mundo de paredes é um mundo de limiares” ( e podemos juntar: limiares feitos de paredes e entre-paredes), e basta dizê-lo para entendermos a riqueza e a complexidade que desta forma se desenha em termos de capacidades e potencialidades de integração física; um verdadeiro reino privilegiado para a imaginação de quem projecta e naturalmente para a humanização do habitar. Mas cuidado, pois trata-se de um ambiente habitado e de uma cidade que se quer viva e bem perspectivada no futuro e não de uma “instalação” artística.

As fachadas podem separar e podem reunir, algumas são permeáveis, outras revelam muito pouco do que abrigam: “mais do que um mundo de paredes, um mundo de limiares,” como diz Jean-Charles Depaule (em "À Travers le Mur",1985) (24), e, podemos ainda juntar: um mundo de relações humanas.

Afinal, a definição de limites, barreiras e ligações/ou propostas de relações visuais e físicas é uma característica fundamental do desenho de arquitectura e é uma ferramenta essencial para a humanização e a residencialização dos espaços do habitar.

d) Espaços edificados integrados e integradores
Evidentemente, ao nos referirmos à qualidade da integração aplicada ao edifício residencial, temos de reflectir, um pouco, sobre esta matéria, no sentido de que cada edifício multifamiliar aqui é, também, uma espécie de grande quebra-cabeças/puzzle onde há que conjugar as unidades menores – fogos e espaços comuns de circulação. E esta é uma perspectiva que se inicia no bifamiliar até às grandes unidades caracterizadas por uma reforçada vivência comum.

O edifício multifamiliar, como “unidade”, tem um papel importante em termos da expressão evidenciada da sua presença íntegra, porque devidamente composta por diversos elementos uns mais materiais e outros mais imateriais, mas também em termos do seu potencial ou partido integrador dos respectivos fogos e espaços comuns. Nestas opções o resultado final andará entre situações extremas de grande unidade do todo com reduzida evidenciação da presença dos respectivos fogos e espaços e elementos de circulação ( e um exemplo expressivo deste partido é patente em muitos hotéis), ou de grande expressão orgânica e individualizada desses fogos e/ou desses espaços e elementos (um exemplo desta última opção é o conhecido “habitat de Montréal”).

Este amplo leque de opções em termos de expressão dos principais elementos constituintes de um edifício residencial multifamiliar encontra um termo mediano e globalmente muito adequado em soluções caracterizadas pela identificação fácil dos seus diversos fogos, com evidentes ganhos em termos de identidade e apropriação, e, simultaneamente, por uma expressão evidenciada e atraente da presença dos respectivos espaços comuns de acesso, que são assim tornados elementos agradavelmente explicativos e antecipadores da aproximação às habitações, mas também, em certos casos, verdadeiras extensões do espaço público contíguo, resultando, neste caso, numa relação muito estimulante e caracterizadora, embora indirecta, entre cada fogo e esse espaço público, o que resulta também em identidade e apropriação e numa “redução” do carácter do multifamiliar a uma espécie de agregação vertical de unidades “unifamiliares”.

Este tipo de reflexão pode e deve também ser feita partindo-se, agora, de agregações de unidades unifamiliares, num possível crescendo de agregação/unidade em que conjuntos de unifamiliares densificados (associados em banda contínua e costas com costas) e e/ou pequenos multifamiliares (por exemplo, bifamiliares com fogos sobrepostos), podem assumir uma forte unidade e presença urbana conjunta, a qual pode, mesmo, ter expressão ao nível de uma estrutura comum.

De certa forma tratamos aqui de uma virtualidade integradora complexa, mas potencialmente muito estimulante em termos de imagens urbanas e residenciais produzidas e respectivos reflexos em termos de graduações de densidades, todas marcadas por um sentido de densidade vitalizadora; embora faltem estudos que clarifiquem e apontem exemplos sobre as possíveis opções tipológicas, que devem associar edifícios habitacionais e espaços de vizinhança, numa perspectiva de tipologia residencial urbanisticamente integrada, que é necessário explorar e que terá, sem dúvida, grande potencial de aplicação em acções de regeneração e preenchimento urbano, cada vez mais necessárias.

Embora o jogo das densidades tenha de ser feito ao nível das vizinhanças e considerando as respectivas continuidades urbanas, acontece que tem de ser resolvido ao nível do edifício e da respectiva pormenorização, que, aliás, tem de ser especificamente direccionada para se tornar essa densidade aceitável e mesmo estimulante.

E é da capacidade agregadora ou integradora dos edifícios relativamente às suas partes constituintes – designadamente: fogos, circulações, pátios, saguões, vãos e protecções de vãos e elementos de ventilação – que podem resultar excelentes soluções edificadas em termos da sua capacidade de aceitação de densidades urbanisticamente vitalizadoras e visualmente atraentes.

Naturalmente que, tal como sucede em qualquer processo de projecto minimamente adequado e cuidadoso, terá de haver um ciclo de retroacção nas soluções pormenorizadas do edifício, relativamente às soluções globais do mesmo edifício e depois à respectiva vizinhança; ciclo este que será responsável por opções tipológica e urbanisticamente afinadas e residencialmente motivadoras.

e) A integração nas habitações
A integração arquitectónica ao nível doméstico pode ser considerada como a “mãe” de quase todas as opções e os caminhos de estruturação inicial e de (re)conversão dos respectivos espaços, instalações e equipamentos, pois, por exemplo, podemos integrar diversos espaços numa única unidade espacial e funcional, ou podemos desintegrar certas unidades existentes, reintegrando-as em outras unidades distintas; e por aí fora.

O mundo doméstico é, ainda, por natureza, um mundo integrado e integrador, marcado por espaços e elementos aglutinadores de atenção e de usos, servindo, assim, ao grupo familiar e circunscritamente convivial, mas também devendo proporcionar uma sua controlada desagregação em espaços e recantos individualmente apropriáveis.

Uma habitação deve ser, assim um espaço globalmente integrado/unificado, mas também, e agradavelmente, decomponível em outras pequenas unidades que sirvam partes do agregado familiar, pessoas, individualmente, e usos específicos e/ou ocasionais; devendo haver, assim, um potencial de relativa desintegração, que sirva a identidade e o carácter de cada um desses espaços mais elementares. E naturalmente que se seguirá ainda uma descida no grão da pormenorização doméstica, agora, mais ao serviço de acções muito específicas e especializadas, algumas das quais exigirão um adequado grau de estratégica desintegração, como será o caso de elementos cujo funcionamento possa afectar o bem-estar doméstico.

No mundo doméstico há, assim, que integrar de forma natural e espacialmente estimulante compartimentos, recantos e elementos funcionais, considerando, designadamente, para além do conhecido, embora sempre amplo e complexo, leque funcional “clássico”, as novas e renovadas tipologias domésticas ligadas, quer às múltiplas actividades de lazer hoje existentes (exemplo, cinema em casa), quer às exigências do trabalho profissional em casa e designadamente quando esta actividade obriga a receber pessoas estranhas ao agregado familiar, quer, mesmo, ao actual e afirmado afirmar/inventar de variadas formas de habitar com reflexos directos na organização e equipamento do espaço doméstico.

Em tudo isto e de modo a podermos encarar a enorme variedade de soluções domésticas com algum sentido de estruturação, visando-se, designadamente, o projecto de habitações integradas em edifícios multifamiliares, há modelos básicos tipológicos que estão desde há muito radicados na nossa forma de viver a habitação, sendo que o seu estudo é urgente no sentido de podermos daí retirar aspectos práticos de capacidade de adaptação a múltiplas formas de habitar e à mudança dos modos de habitar ao longo dos tempos.

Nesta perspectiva aponta-se, a título de exemplo muito significativo, a grande lição da casa-pátio; uma lição que é crucial pois esta é uma tipologia ambivalente, servindo o mundo doméstico e o mundo urbano, sendo portanto uma daquelas soluções tipológicas que fazem realmente cidade, para além de servirem uma grande variedade de formas de habitar domésticas; uma matéria de grande interesse histórico e actual (devido a aspectos de densificação e de intervenção em zonas urbanas e habitacionais informais), aliás reconhecido em vários estudos recentes.

Um desses estudos é de Martí Aris (25), que nos indica que, desde o Japão ao México, e desde, provavelmente, há mais de 10.000 anos até aos dias de hoje , o pátio tem sido a ideia-base de boa parte dos nossos mundos domésticos e, à escala urbana, dos nossos mundos públicos; e, nesta perspectiva, podemos reflectir que talvez não tenhamos sabido lidar com o pátio doméstico como devíamos, pois o pátio para além de proporcionar fortes relações com a habitação individual, mas também com as pequenas e estruturantes agregações vicinais, é um elemento de composição com uma grande força integradora capaz de associar, numa grande diversidade de soluções, o sentido do espaço urbano, o sentido do espaço mais privado e mesmo o próprio sentido de uma natureza “capturada”, mas efectiva e afectiva.

A importância das “estruturas” organizativas de fogos e de edifícios na expressão integradora do edifício residencial não se limita, evidentemente, à casa pátio, mais chã ou mais “aterraçada” e aqui apontada um pouco a título de exemplo, por ser uma das mais antigas tipologias domésticas “trabalhadas”, ela prolonga-se, por exemplo, por toda a grande família de edifícios com galerias e “ruas” elevadas, para não falar até dos grandes “quebra-cabeças” tridimensionais dos quais o “Habitat” de Montreal é o exemplo. Bastará comentar que, aqui, os únicos limites serão, como habitualmente, a imaginação e o orçamento disponíveis, bem como o bom senso de uma estreita adequação aos moradores prováveis e às situações físicas, urbanas e ambientais específicas; e não tenhamos dúvidas que podemos manejar densidades urbanas com tais tipos de soluções, enquanto actuamos quer em aspectos estimulantes de imagem urbana, quer em aspectos associados à apropriação de proximidades e espaços domésticos, numa mistura, ela própria, muito estimulante.

E assim será talvez possível associar , por exemplo, alta densidade, equilibrada sensação de recinto e de demarcação espacial, intimidade e recolhimento, ou desenvolver verdadeiras ruas elevadas que dão acesso a fogos duplex com apropriáveis pátios dianteiros, neste último caso numa estimulante evocação, equilibradamente dramática e humanizada, do unifamiliar num forte quadro de habitação colectiva densificada, tal como é apontado por Robert Stern (26), numa referência directa a um projecto de Davis Brody para Riverbend em Manhattan.



Fig. 09

9. Carácter e importância específica da integração
A integração, considerada em termos de qualidade arquitectónica, é pouco quantificável, sendo, no entanto, extremamente objectiva na sua respectiva possibilidade de análise e determinante para a qualificação arquitectónica de um dado núcleo urbano e residencial.

Coerência urbana e natural, equilíbrio de escalas edificadas, harmonia de espaços exteriores, adequada previsão de equipamentos e mobiliário urbano são, entre outros, aspectos claramente observáveis e que desde sempre integraram, pelo menos, as intenções de quem projecta, pontuando, quase sem excepção, as partes escritas dos projectos.

Mas fazer integração real e valorizadora de cada sítio de intervenção e do seu carácter é tarefa complexa que exige aprofundamento dos seus aspectos principais e mais operacionalizáveis. E a escala da própria intervenção, do edifício isolado ao grande bairro, é, aqui, um aspecto “chave”, considerando-se que, quanto maior mais difícil será, até porque haverá cada vez mais elementos a integrar mútua e sucessivamente, e este é um aspecto que salienta a relação entre a integração e a expressão d e uma certa e evidenciada/equilibrada escala humana.

Esta última relação é, frequentemente, motivo de criação de soluções que aliam a integração paisagística com a capacidade de atracção e o potencial de convivialidade, tal como refere Robert Stern, sobre o que foi feito no Sea Ranch (próximo de São Francisco), onde ficou evidente a capacidade de Charles Moore (mais Lyndon, Turnbull e Whitaker) no projecto de “uma imagem unificada” (tendo por base edifícios unifamiliares isolados “estilo cabana”); que “demonstra o desejo de muitos de prescindirem de algo em benefício da comunidade,” onde “se juntaram (e não se acumularam ou agruparam simplesmente) unidades de condomínio individual para formar um único edifício, suficientemente atrevido para se destacar na costa, ainda que com a precisa diversidade das suas partes componentes internas e externas para dar satisfação às genuínas necessidades de expressão e identificação de cada uma delas... o conjunto vive de uma forte ligação com um espaço exterior abrigado e aberto à paisagem... as unidades agrupam-se em torno a um pátio, mas os planos mais do que construir uma figura geométrica fechada, entrecortam-se para produzir torres que se projectam e têm uma complexidade episódica.” (27)

A integração constitui-se, assim, frequentemente, numa qualidade-chave na concepção do complexo de espaços exteriores, comuns, públicos ou de uso público, mas importa salientar que é de uma adequada implantação dos edifícios e até, por vezes, de certas soluções de integração dos fogos nos edifícios, que resulta boa parte do interesse da conjugação entre o edificado e os espaços públicos contíguos.

Outro aspecto a reter na integração refere-se às opções de congregação dos fogos que, tal como no exemplo que foi dado acima (Sea Ranch), geram soluções edificadas fortemente orgânicas e eventualmente respondendo a opções de projecto específicas: por exemplo, em variantes de acesso directo entre os fogos e o exterior comum ou público.

Serão, talvez, estes os temas que, com mais frequência, marcam a matéria da integração arquitectónica do habitar, em termos urbanos e paisagísticos, e que, portanto, constituem a sua principal natureza. Mas há, no entanto, uma matéria específica, a da integração da arte no espaço urbano e na componente pública ou comum do espaço edificado, que merece também uma atenção específica, embora particularizada, neste jogo de desejáveis integrações e caracterizações.

Do mundo doméstico, ao público, passando pelo comum, deveria haver sempre lugar para a introdução de arte; pois a experiência artística foi mesmo um dos sinais de humanidade que, cumulativamente, tem toda uma carga essencial de identidade e de potencial de apropriação.

A questão do custo de tal integração não se coloca pois é perfeitamente possível a realização de obras com meios financeiros equilibrados, porque caracterizadas por volumetrias racionais e simples e utilizando técnicas construtivas e de acabamento bem conhecidas e garantidas em termos de resultado final e durabilidade, como fica provado nas intervenções que marcam muitos edifícios de habitação de interesse social realizados entre 1960 e 1965 em Olivais Norte – Encarnação, Lisboa; mas atenção que fazer assim "simples", habitação com áreas interiores reduzidas, resultando em imagens finais urbanas muito positivas e numa satisfação dos habitantes que parece estar plenamente provada em meio século de vivência, não está ao alcance de uma concepção arquitectónica menos qualificada ou mesmo mediana, mas a aplicação de fundos públicos no apoio a este tipo de promoção habitacional deveria exigir, por regra, um projecto/obra excelente.

10. Notas de reflexão sobre a integração arquitectónica residencial
Em termos de reflexão geral apuram-se, para já, os seguintes aspectos.

Sobre a matéria da ligação entre integração, humanização e edificação, e com uma perspectiva de lançar ideias para posterior desenvolvimento, fazem-se, em seguida, quatro citações de “Da Organização do Espaço”, de Fernando Távora: (28)

“A cidade contemporânea atinge assim uma forma dominadora, uma escala visual cujo domínio o homem não pode controlar... E no seu crescimento incontrolado arrasa tudo, desde a paisagem natural até ao próprio homem que a cria” (p.35).

“Portugal é dotado de belíssimos sítios naturais e os nossos passados deixaram-nos excelentes lições quanto ao equilíbrio sítio-edifício, mas em face dos crimes que vemos cometerem-se aqui e ali contra a paisagem, não será difícil concluir que tal sentimento de equilíbrio abandonou os nossos contemporâneos pois que, de um modo quase geral, quando um edifício de hoje se instala num sítio, perdem-se um e outro por ausência de relações correctas entre ambos” (Távora, p.59).

“Projectar, planear, desenhar devem significar encontrar a forma justa, a forma correcta... projectar, planear, desenhar não deverão traduzir-se para o arquitecto na criação de formas vazias de sentido...” (Távora, p. 74).

Em termos dos desenvolvimentos considerados mais interessantes nestas matérias da integração urbana e residencial, salientam-se os seguintes temas de estudo.

Desde a cidade contemporânea, na sua dimensão e no seu tempo pouco controláveis, à ausência de estima por excelentes paisagens preexistentes, ao completo desrespeito por esses quadros paisagísticos e à ignorância sobre o que deve significar um bom projecto, ficamos com três temas vitais para reflexão.

Quais os factores que poderão ser considerados prioritários numa perspectiva de melhoria gradual das nossas paisagens urbanas e naturais e quais as ferramentas de projecto e práticas que poderão garantir resultados equilibradamente rápidos e duradouros?

Até que ponto é que as preocupações de integração devem aceitar a expressão da contemporaneidade? Uma questão que é ciclicamente recolocada nos mais diversos contextos.

E o que deverá corresponder, objectivamente, a uma preocupação de integração ou reintegração urbanística e/ou paisagística? Facetas de imagem urbana? Facetas essencialmente funcionais? Facetas historicamente baseadas? Facetas paisagística e/ou ambientalmente fundamentadas? Facetas socioculturalmente baseadas, privilegiando, modos de habitar específicos e/ou o melhor habitar? E ainda facetas relativas à dinamização da vida urbana, que é hoje em dia crucial? Naturalmente que a boa resposta é: misturas de todas estas facetas; mas é uma resposta que pouco ajuda na acção prática, pois há que decidir, previamente, e, depois, avaliar, posteriormente.

Finalmente e como comentário conclusivo, foi aqui aflorada a questão da reintegração urbanística, que parece ser, actualmente, um tema de primeira linha, seja nos centros desvitalizados das cidades e povoações, seja em periferias pouco ou nada estruturadas e ainda menos vivas. A reintegração urbanística é uma matéria urgente e sensível, que, afinal, joga com todos os elementos abordados na boa integração e de que aqui se falou, mas usando-os a posteriori , procurando cerzir, preencher, compatibilizar, suavizar, camuflar, religar, revitalizar e caracterizar, vizinhanças, conjuntos e edifícios relativamente isolados, que nuca estiveram realmente integrados em termos urbanos e paisagísticos, ou que se foram desintegrando ao longo do tempo. Mas esta é uma matéria que merece, naturalmente, atenção específica e aprofundada.

Notas bibliográficas

1 Robert Venturi, Complexidade e contradição/ambiguidade em arquitectura”, p.50.

2 Marguerite Yourcenar, “Memórias de Adriano”, Lisboa, Ulisseia, col. Clássicos da Literatura Contemporânea, trad. Maria Lamas, 2002 (1974), p. 101.

3 Gonçalo Ribeiro Telles, “O jardim de Sophia”, Público, Mil Folhas , 10 Julho 2004.

4 Inês Moreira dos Santos e Rui Barreiros Duarte (entrevistadores), “Estruturas de mudança - entrevista com Gonçalo Byrne”, Arquitectura e Vida, n.º 49, 2004, pp. 44 a 51.

5 Robert Stern, “Nuevos Caminos de la Arquitectura Norteamericana, Barcelona”, 1969 (1968), p.37.

6 Michael Laurie, “Introducción a la arquitectura del paisaje”, 1983 (1975), pp. 176 e 177.

7 Robert Stern, “Nuevos Caminos de la Arquitectura Norteamericana”, 1969 (1968), p.128, cita Paul Friedberg, citado por Mildred Schwerts em “Designing the Spaces in Between”, Architectural Review, Março, 1968.

8 Adrian Buttlar, “Jardines del Clasicismo y Romanticismo”, trad. Gil Aristu, Luis Año, 1993.

9 Carlos Balsas, “Chicago: um século de planeamento visionário – arte pública e ecologia”, Urbanismo, n.º 13, 2002, pp. 7 a12.

10 Charles Moore, Gerard Allen, Donlyn Lyndon, La casa: forma y diseño, p.258.

11 Tony Hiss, “The experience of place: a new way of looking at and dealing with our radically changing cities and countryside”, 1991.

12 Robert Stern citando Donlyn Lyndon, “Nuevos Caminos de la Arquitectura Norteamericana”, 1969.

13 Gerard Bauer, “Un Urbanisme pour les Maisons”, Paris, 1979.

14 Bernard Aubert e Martine Caillaud, "La Loi SRU en 90 questions", 2003.

15 Frederic Felix, “Lotissement dense: l’experience anglaise”, 2001; AAVV, “Habitat pluriel: densité, urbanité, intimité” , Paris, PUCA, Appel d’offres de recherche, 2005.

16 Francesc Peremiguel, et. al., “Habitat: innovació i projecte, necessitats, noves tecnologies, estrategies projectuels”, 2000, p.105.

17 Texto de Christian Norberg-Schulz, no Prefácio ao seu “Meaning in Western Architecture”, 1986.

18 Yves Lyon , arqº ligado à nova escola de arquitectura de Marne-la-Vallee, designada, bem a propósito, “da cidade e dos territórios.”

19 Rui Barreiros Duarte (entrevistador), “Acupunctura urbana – entrevista com Jaime Lerner”, Arquitectura e Vida, n.º 39, 2003, pp. 38 e 43.

20 Louis Kahn, "O que é a Arquitectura? (Harmony Between Man ans Architecture)", p. 125.

21 Roderick Lawrence, “L’Espace Domestique – Typologie et Vécu”, Cahiers Internationaux de Sociologie, Vol. LXXII, 1982.

22 Id. Ibid.

23 Jean-Charles Depaule, "À Travers le Mur", 1985. p 11.

24 Jean-Charles Depaule, "À Travers le Mur", Col. Alors, Centre de Création Industrielle, 1985, p.11.

25 Carles Martí Aris, “Patio e casa”, 1997.

26 Robert Stern, “Nuevos Caminos de la Arquitectura Norteamericana”, 1969 (1968), pp. 94 e 95.

27 Robert Stern, “Nuevos Caminos de la Arquitectura Norteamericana”, 1969 (1968), pp. 71 a 73.

28 Fernando Távora, “Da organização do espaço” , 1999 (1962).

Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


(iv) Para ser possível a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens - é usado o Photobucket; onde, devido ao grande número de imagens, se torna difícil registar as respectivas autorias. Desta forma salienta-se que, caso se pretenda usar essas imagens, se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as respectivas autorias são registadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor abc@lnec.pt


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


A integração e a arquitectura do habitar

Infohabitar, Ano VII, n.º 367, 30 de Outubro de 2011

domingo, outubro 23, 2011

A caracterização doméstica do habitar - Infohabitar 366

Infohabitar, Ano VII, n.º 366

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar

Artigo de António Baptista Coelho

Nota prévia à presente edição:

Retomando uma série editorial cujo último “capítulo”, sobre a importância da atractividade na qualidade arquitectónica residencial, editado, há apenas uma semana, com o n.º 365 deste Infohabitar, publicam-se agora algumas reflexões sobre a matéria da DOMESTICIDADE arquitectónica residencial, uma matéria sempre tão sensível, como estimulante e discutida, quando se debate o habitar e a habitação, numa dupla perspectiva de qualidade de “desenho” e de relação com a satisfação dos habitantes.

Índice

Introdução geral

1. A caracterização doméstica do habitar

2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial

3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário

4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade

5. Aspectos estruturadores da domesticidade

6. Ainda sobre a natureza da domesticidade

7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção

8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados

a) A domesticidade nos espaços públicos

b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios

c) A domesticidade nos espaços edificados

d) A domesticidade nas habitações

9. Carácter e importância específica da domesticidade

10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial

Introdução geral

Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão 17 ou 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e, provavelmente, outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).

Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que foi, até agora, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados), mas que se pretende que, nesta ponta final da edição da série, mantenha agora um máximo de continuidade (dentro da normal periodicidade semanal do Infohabitar):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução
A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.

Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º 341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 348 e 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar (final de Maio e início de Junho de 2011).

Infohabitar n.º 364 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado - 9 de Outubro de 2011.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 365 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção – 16 de Outubro de 2011.

(o presente artigo) Infohabitar n.º 366 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: A caracterização doméstica do habitar – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.

Infohabitar n.º XXX - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: reflexões finais.

Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.

Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC

http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, e que se tem feito nesta série editorial às matérias da qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.

Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais. Esta abordagem foi editada pela Livraria do LNEC no livro "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2 (fig. 02)


Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC

http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php

Habitação e Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar


Fig. 03

1. A caracterização doméstica do habitar

Tal como se considerou ao abordarem-se as matérias associadas à atractividade residencial, o que se refere a uma caracterização residencial expressiva, que também se pode sintetizar como “doméstica”, é uma qualificação parceira, ou, quando muito, alternativa/opcional da atractividade residencial, podendo mesmo corresponder a uma determinada opção de atractividade; mas pelo seu interesse específico e pelas questões que tem levantado, desde há muitos anos, considerou-se importante fazer aqui uma sua abordagem específica.

Mas convém delimitar e definir, minimamente, a temática doméstica que é aqui visada, considerando-se que, por exemplo, entre o âmbito bem identificável da “Casa Portuguesa” de Raul Lino, plena de beirados, vãos ornados e chaminés evidenciadas, entre outros pormenores considerados como radicados na tradição do que seria a arquitectura doméstica portuguesa e a radical ausência de imagens gerais, pormenores e signos de domesticidade, patente em muitas intervenções racionais e depuradas, houve e haverá múltiplos e estimulantes caminhos:

(i) uns mais orgânicos, na excelente tradição deste tipo de partido arquitectónico, que sempre vai sobrevivendo a outras linhas mais formais;

(ii) outros até muito influenciados por um equilibrado sentido vernáculo e verdadeiro, que decorre do enorme leque de elementos coligidos no fundamental estudo que deu origem à Arquitectura Popular Portuguesa;

(iii) e ainda outros em boa parte baseados numa atitude de estimulante simplicidade programática e de pormenorização, que acaba por expressar, com naturalidade, sítios de vivência e sítios de paisagem bem caracterizados, sendo, assim, veículos formais naturais destes conteúdos, neste caso, essencialmente, domésticos.

Estivemos aqui a referir os caminhos mais sólidos e julgados coerentes de expressão do sentido doméstico, pois há, como bem sabemos, uma linha que resulta de vários “guias de desenho urbano” ingleses e franceses e, mais recentemente, do designado “Novo Urbanismo”, e que nos USA, mas igualmente em várias localizações europeias e asiáticas, desenvolve conjuntos residenciais, alguns com grande dimensão, caracterizados por uma arquitectura expressivamente residencializada e tradicionalista, muitas vezes inspirada em verdadeiros cenários cinematográficos, e que, de certa forma, estiliza e reinterpreta formas de viver sonhadas e idealizadas, associando estes aspectos formais a verdadeiras cartilhas de gestão, baseadas na rigorosa manutenção desses “cenários” e mesmo numa relativa encenação da vida diária que aí acontece.

Salienta-se, ainda, que esta última pequena análise foi feita de uma forma moderadamente crítica, pois considera-se haver interesse em vários aspectos deste tipo de intervenções, no que se refere a uma humanização da escala formal e da vivência diária nessas zonas, por exemplo, predominantemente pedonais, isto desde que os espaços criados sejam caracterizadamente públicos e sem quaisquer delimitações e controlos condominiais; mas como não houve ainda a oportunidade de uma vivência real dessas soluções, não podemos aprofundar esta análise.

Naturalmente que devem ficar fora desta abordagem da domesticidade, como caminho de qualidade arquitectónica muito associável à satisfação dos respectivos habitantes, todas aquelas soluções mais ou menos negativamente “festivas” ou mesmo “carnavalescas”, de pífia e triste interpretação da arquitectura tradicional e doméstica. Que fique, portanto, aqui salientado que neste estudo estamos a encarar a expressão evidenciada da residencialidade no habitar, apenas nos casos em que tal caminho foi realizado com fundamentação, seriedade, sobriedade e sentido de integração física e social.

2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial

Tal como se apontou, já alguns anos, num estudo sobre estas matérias, a domesticidade ou a residencialidade assinalável de uma dada área habitacional ou de um dos seus elementos, significa que estão presentes e, eventualmente, evidenciadas características habitualmente associadas a espaços sedes de aprazível viver diário, relativas à protecção, ao conforto e à dignidade de espaços de residência e de cidadania.

Sobre a “razão de ser” e a actualidade prática de pensarmos nestes termos salienta-se a utilização que tem sido feita, desde talvez mais de 10 anos, deste conceito associado à caracterização doméstica, em operações de “residencialização” e requalificação de conjuntos franceses de “habitação social”. E há mesmo casos em que é referida a ideia de “domesticação” das “velhas” soluções pobremente racionalistas; e refere-se, aqui, a ideia de uma certa pobreza racionalista, porque a economia de meios e o sentido depurado em termos de materiais e pormenores pode ser extremamente rica na configuração de soluções urbanas e residenciais.

É claramente oportuno colocar-se a questão de ser, ou não ser, viável realizar espaços residenciais caracterizadamente “adomésticos”, sem quaisquer conotações residenciais, “amenizadas”, envolventes e transparecendo o respectivo conteúdo habitacional.

Será que basta aos espaços residenciais uma adequada capacidade de atractividade própria e de integração na respectiva envolvente paisagística (urbana ou ruralizada), considerando, isoladamente, os factores mais ligados ao aspecto? Sem qualquer “imagem” de se tratar de um local predominantemente usado como espaço de habitar, interior e exterior? E é importante ter presente esta dualidade interiorizada, bem conhecida, e pública/comum exterior do sentido doméstico, pois julga-se que ela pode ajudar a responder a esta possibilidade.

Esta questão remete-nos para ser, eventualmente, a domesticidade uma qualidade talvez de “opção suplementar”, mas importa aprofundar esta questão, designadamente dos pontos de vista de quem visita/observa (..e como..?) e de quem habita (...”e como” ?); e não podemos deixar de referir a evidente satisfação que é, frequentemente, proporcionada por conjuntos urbanos e residenciais expressivamente marcados por um “sentido” doméstico.

Um outro aspecto sensível a estudar, que aliás já foi aqui anotado, refere-se à capacidade de associação entre diversas linguagens de arquitectura, designadamente contemporâneas, e espaços expressivamente residencializados; uma constatação verdadeira que importa ter sistematicamente presente. E decorrendo desta perspectiva, quais serão os aspectos globais e caracterizadores que qualificam determinados cenários urbanos e determinadas soluções de pormenor, em simultaneidade, como expressivamente residenciais, urbanas, culturalmente consistentes e motivadores? E será que é eticamente legítimo avançar neste sentido? E não será que este caminho é apenas um entre vários percursos de concepção?

São questões para as quais aqui, neste estudo, não se encontrarão respostas cabais, apenas sugestões, ligadas à noção de que uma domesticidade equilibrada e de bom senso, pouco ou nada tem a ver com uma opção “obrigatória” por partidos formais negativamente tradicionalistas e/ou pitorescos, e tem sempre a ver com a disponibilização de ambientes de proximidade e privados amigáveis e estimulantes de um habitar que transborda, estimulantemente, de dentro da nossa habitação, para a vizinhança e depois mesmo para as ligações à cidade. É como que havendo um sentido doméstico e um sentido urbano, ambos influenciando, potencial e positivamente, as principais casas (extremas) do tal jogo da glória diário do habitar e da cidade; e quando uma destas “casas” é defeituosa há sempre problemas.


Fig. 04

3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário

Como a domesticidade arquitectónica e residencial é uma qualidade fluida e dinâmica ela ganha muito, em termos de definição e clarificação com a interpretação que dela fazem, com bastante frequência, os escritores e ficcionistas (tema este bem digno de posterior e específico desenvolvimento), citando-se, a propósito e já de seguida, um texto de Simenon, que se julga exemplar nesta perspectiva:

"À sua volta, a atmosfera era de uma frescura agradável, tanto mais que, apenas a dois metros, para além da fronteira de sombra e de sol, tudo parecia uma fornalha em que as moscas zumbiam ruidosamente... O lugar da casa que Maigret mais apreciava era aquele em que se encontravam: um lugar sem nome, uma espécie de pátio entre a cozinha e o jardim, parcialmente coberto e que, a pouco e pouco, tinham mobilado, até instalado um fogão e um bufete, para aí tomarem a maior parte das refeições estivais. Fazia lembrar um pátio espanhol, com o chão de tijoleira vermelha que dava à sombra uma tonalidade especial" (1).

Traçou-se aqui, em pinceladas largas, uma imagem escrita de um ambiente habitacional, que para além de o ser em termos “funcionais”, é também marcadamente doméstico, porque nos rodeia de referências a cenários, pormenores e sequências de espaços afectuosos e envolventes, que suscitam afinidade e apropriação, e que evidenciam protecção e ligações com as bases da vida, como a terra, o fogo, o vento, o Sol e a natureza.

Numa outra perspectiva, distinta desta talvez mais pessoal/individual e “perceptiva”, importa referir que a qualidade do que é doméstico deve possuir uma base fundamentalmente consensual, que seja capaz de estruturar fortemente e até de motivar tanto as diferentes construções interiorizadas dos espaços domésticos particulares, como a difícil construção comum, embora sempre pessoalmente interpretada, do espaço doméstico global do condomínio ou conjunto de residências, que é de todos os vizinhos e com o qual todos eles se devem poder identificar, pelo menos minimamente.

Referindo-se à descrição feita por Júlio Dinis da Casa da família Whitestone (em "Uma Família Inglesa") Marina de Almeida Ribeiro proporciona-nos uma ampla e metódica definição de domesticidade, que se julga ser adequada nessa perspectiva mais comum/ou de grupo também associada à domesticidade:

"Nesta casa, penetramos suavemente como a própria luz, e é lentamente que a vamos descobrindo. É um espaço de alegria e bem-estar e conhecê-la bem exige um ritual de disponibilidade, que não se compadece com pressas, nem com atrevimentos. Vamos vendo e observando o que nos vai sendo franqueado. Qualquer falta de gosto, de pudor, de confiança, poderia impedir ou retardar uma intimidade que desejamos estabelecer... Este espaço, cuidado por uma mulher...aquecido por fogões cuidadosamente acesos e rodeado de jardins, é aureolado pelo prestígio da fortuna e da cultura...” (2).

É um certo sentido agradável e “repousada”/seguramente formal que aqui se marca, um pouco como se “a casa” tivesse um carácter/alma que vive por si, com as suas regras e com as quais temos de contar, pois fazendo-o sabemos que iremos ter vários benefícios, imediatos e a prazo, pois somos/fomos acolhidos pela “casa”, que nos protege e apoia; uma perspectiva que também nos pode levar longe.

4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade

Witold Rybczinski, no seu importante estudo, intitulado, exactamente, "Domesticity" (3), faz-nos uma belíssima perspectiva do desenvolvimento desse conceito ao longo da nossa história (Ocidental e Europeia), considerando-o como elemento central perspectiva essa que, em seguida, se cita, globalmente, num longo texto, cuja citação é, em seguida, entrecortada por breves comentários:

"Casa é uma palavra do interior, de confortáveis lareiras e íntimos quartos, de cadeiras agradáveis e privacidade, de ambiente cálido e conforto. Mas não foi sempre assim. Antes do século dezoito à casa faltavam quase todos estes atributos. A casa do final da idade média, por exemplo uma casa burguesa, era espaçosa dentro dos padrões modernos, mas continha muitos habitantes. Era, em primeiro lugar, um local público... A casa tinha alguns, poucos, compartimentos amplos, que serviam muitas funções: dormir, comer, cozinhar, lazer, fazer negócios. O mobiliário era essencialmente utilitário e não decorativo, limitando-se a camas, mesas e bancos. Cadeiras reservavam-se para pessoas de posição...”

Rybczinski aponta matérias de grande pertinência no que se refere, por exemplo, numa primeira linha, ao papel convivial do espaço doméstico e das suas ligações com a vizinhança e com cidade – um papel que tem sido, quase sempre, esquecido quando não desprezado – e, também, no sublinhar da importância dos aspectos funcionais que devem ser devidamente apoiados pelo espaço doméstico.

“No século dezassete, com a crescente prosperidade e a melhoria das técnicas dos artífices, o mobiliário tornou-se mais variado e elaborado. As camas de casal chegaram a fazer lembrar pequenas casas e a ornamentação tornou-se comum... Durante o século dezoito a atmosfera doméstica mudou bastante. Com o crescimento da importância atribuída à família... As pessoas ligaram-se às suas casas, e devotaram-se mais à vida doméstica. Este novo sentimento precisou de uma nova palavra: domesticidade... Uma consciência crescente da família e de si próprio produziu uma vontade de privacidade, primeiro em relação ao exterior, depois relativamente aos criados e mais tarde, ainda, relativamente aos outros membros da família...”

O autor sublinha, aqui, o avolumar da importância do espaço habitado, relativamente ao qual se desenvolve, gradualmente, uma consciência que se liga ao sentido de privacidade e de identidade de cada família, com a especialização e o simbolismo que irão marcar peças de mobiliário e mesmo elementos de decoração do interior, sendo que, provavelmente, esta evolução na domesticidade irá, ela própria, influenciar a própria estruturação e composição espacial das habitações; isto também por haver peças de mobiliário extremamente volumosas e difíceis de mudar de local.

“As casas começaram a ser divididas em diversos compartimentos, alguns para o uso íntimo familiar, outros para funções sociais. Os corredores permitiram aos arquitectos desenvolverem casas de modo a que ninguém mais passasse através de compartimentos, mas ao lado deles. Diferentes compartimentos adquiriram usos permanentes - dormir, comer e conviver - e a mobília dentro desses espaços foi disposta em posições permanentes. Escadas de serviço e passagens mantinham os criados à distância. E mesmo no interior da família, o «layout» da casa proporcionava distinções - bibliotecas para os cavalheiros, «withdrawing rooms» para as senhoras e creches («nurseries») para as crianças...”

Rybczinski aponta depois a gradual e cada vez mais fina especialização doméstica, que teve lugar nas grandes casas e que, naturalmente, influenciou todas as outras sob diversas formas e com diversas intensidades, seno muito interessante lermos estas reflexões do autor também numa perspectiva de comentário a uma renovada prospectiva de organização da habitação e espaço de recreio e de trabalho dos dias de hoje.

“Os princípios do século vinte viram incríveis desenvolvimentos na maquinaria doméstica, que reduziram a necessidade do apoio por criados e tornaram a casa um espaço ainda mais privativo da família. Para além disso a introdução da luz eléctrica e do aquecimento central aumentaram imenso as condições de conforto ambiental no fogo, enquanto os telefones reduziram o isolamento e os gramofones e rádios enriqueceram os lazeres domésticos... Mas começou-se a olhar para fora das casas confortáveis. Para o cinema e para a praia, para o centro comercial, para os passeios de automóvel...”

Finalmente o autor aborda as grandes invenções maquinais domésticas, que afinal marcaram desde o início do Século XX à actualidade, sendo que há ainda trabalho a fazer em vários aspectos da integração doméstica desses elementos, assim como na racionalização funcional das tarefas domésticas obrigatórias.:

Mas temos, também nesta fase do relato de Rybczinski a importante referência, por um lado aos passos de gigante feitos nas formas de lazer doméstico e, por outro lado, na expansão do “habitar”, num sentido lato de vida no dia-a-dia, ao exterior da habitação; num equilíbrio ou desequilíbrio de “pólos” de atracção que tem marcado, sob diversas formas e em diversas alturas, o habitar a cidade, talvez nos últimos 100 anos: desde o tempo do “Passeio Público”, ao tempo do intervalo no Foyer do Cinema (tão ou mais importante do que o próprio filme), aos tempos da rua comercial viva, ao tempo do crescimento do trânsito privado de veículos, Centros Comerciais essencialmente rodoviários e excelentes condições de “cinema em casa”. E tudo isto tem a ver com o possível papel urbano e privado da domesticidade, que não existe na cidade rodoviária e existe naturalmente quando a família se reúne para ver um filme em casa ...

Rybczinski fala-nos, depois, do sentido vincadamente “não doméstico”, que marcou o racionalismo arquitectónico, de certa forma em contraste com a profusão formal das “artes decorativas” e das colecções de arte em equena escala (“doméstica”) que povoaram os cabinets londrinos, verdadeiros museus domésticos ...; e, assim, escreveu o autor:

“A atmosfera conscientemente «adoméstica» (indoméstica) da arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas, tal e qual como o que aconteceu com o mobiliário despojado e inconfortável que intencionalmente a acompanhava... O interesse renovado pelos interiores «Victorianos» representa um fascínio com a idade dourada da domesticidade. Não que esse tipo de vida doméstica possa alguma vez voltar, muita coisa mudou, e acima de tudo o papel da mulher em casa e na sociedade... mas a devoção à casa e à família parece continuar tão forte como era então. As delícias burguesas da domesticidade provaram ser surpreendentemente resilientes".

Será que é verdade que “a arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas”? Será que a arquitectura moderna e a sua componente de interiores despojados e minimalistas estava, de certa forma, em excessiva antecipação ao modo como a maioria das pessoas viviam? Ou será que houve diversas “arquitecturas modernas”, sendo que muitas delas aliaram as marcas da sua modernidade a uma caracterização residencial por vezes muito forte e envolvente, como aconteceu, por exemplo, com tantas soluções das escolas nórdicas e, designadamente, de Aalto?

E hoje em dia, já noutro século, como experimentamos a racionalidade e a austeridade de determinadas soluções? Como “habitamos”? Como “preenchemos” determinados espaços extremamente “crus” e austeros? E não será que entre espaço de recepção e enquadramento e os respectivos “recheios” se jogam situações bem distintas, sendo estes últimos muito mais adequados ao reflectir e expressar estas ideias de “domesticidade”? Desde que o espaço de base aceite, realmente, e facilite a sua própria, efectiva e diversificada apropriação, condição esta que por vezes não se verifica.

E é ainda interessante considerar que certas soluções domésticas marcada e genuinamente racionalistas, por exemplo aplicadas em Portugal na Encarnação - Olivais Norte, continuam a proporcionar, seja um expressivo potencial de adaptabilidade e de apropriação interior, seja um quadro/cenário global doméstico extremamente positivo para a integração das mais variadas soluções e opções de mobiliário e de “decoração”, produzindo-se, potencialmente, ambientes intensamente marcados pelo sentido de domesticidade.

E no que se refere a este último aspecto uma das explicações possíveis será a qualidade arquitectónica básica e pormenorizada desses espaços domésticos, que são extremamente racionalizados, mas não visualmente marcados por esta condição, e, também, a grande relação que esses projectos estabeleceram, então, com aspectos essenciais do conforto ambiental, designadamente, em termos de relação e transição interior/exterior, protecção da insolação e excelentes condições de iluminação natural.


Fig. 05

5. Aspectos estruturadores da domesticidade

De certa forma ao estarmos aqui a reflectir sobre a natureza da expressão da residencialidade, considerada esta expressão como uma possível qualidade arquitectónica, as matérias associadas à respectiva estruturação serão mais “fluidas” e, sem dúvida, mais geradoras de diversas opiniões e perspectivas de abordagem, do que noutras temáticas que têm vindo a ser aqui visadas. Por esta razão considera-se que a possível estruturação da domesticidade encontrará linhas de desenvolvimento nos variados aspectos já referidos, no entanto, e de forma prática, comentam-se, com brevidade, o que se julga serem quatro importantes aspectos ou facetas caracterizadoras, que podem ser usados como “motivos” de concepção na expressão evidenciada da residencialidade:

A primeira faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade está ligada e evidencia o que podemos definir como um expressivo “enraizamento”de um dado elemento ou espaço urbano e residencial: (i) em termos locais – servindo-nos de e servindo um local com expressivo carácter; (ii) em termos regionais, uma opção mais sensível e complexa, pois pode “cair” para aspectos de “regionalismo” pouco fundamentado, mas que tem sempre “boa moeda”, por exemplo, na utilização de materiais locais, soluções pormenorizadas locais e cores locai; e (iii) em termos culturais, numa opção ainda mais sensível e complexa, mas que podemos exemplificar aqui pela negativa, considerando que, por exemplo, um “chalé suíço”, por muito “doméstico” que seja será sempre um intruso em Portugal.

A segunda faceta aqui considerada refere-se ao desenvolvimento de uma forte base simbólica, através de formas e elementos com esse tipo de conotação, designadamente, ligada ao mundo doméstico real e histórico, e que podem ser relativamente singulares – como são, por exemplo, os casos de uma chaminé evidenciada (onde até, quem sabe, possamos quase entrar ou entrar mesmo) e de uma janela expressivamente marcada e contendo ela própria um certo sentido de espaço (lugar-janela) - ou serem bastante globais e aqui um óbvio exemplo é o de uma habitação unifamiliar com a forma geral directamente associada à ideia vernácula/infantil que fazemos de “uma casa”; mas há muitos mais exemplos destes tipos particulares ou globais de elementos e são exemplos que podem cobrir também o estender do habitar sobre o espaço público e a própria formalização de partes pormenorizadas da cidade.

A terceira faceta aqui considerada como potencialmente caracterizadora da domesticidade, é, como tinha de ser, essencialmente humana, tendo a ver com uma auto-caracterização humana efectiva, que é frequentemente servida por ambientes domésticos e vizinhanças residenciais muito tratadas, “povoadas”, marcadas e apropriadas, sendo que talvez o principal tema deste desenvolvimento seja um sentido “doméstico”, que se considera por natureza embebido ou associado a um enorme leque de objectos e elementos de mobiliário e decoração – o que configura mais um tema com grande potencialidade de desenvolvimento.

A quarta faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade é, naturalmente, sociocultural e decorre de todo um amplo leque de continuidades de relacionamentos humanos, físicos e paisagísticos: relações geracionais; relações aprofundadas e/ou dinamizadas entre pessoas, locais e ambientes; raízes socioculturais; aplicação de escalas adequadas e ligadas às “dimensões” humanas de corpo e de usos; e, por fim, o manejar de ambientes muito caracterizados e específicos, marcados por elementos fortes e/ou local e/ou regionalmente típicos/caracterizadores (por exemplo, grande árvore, bosque denso, grandes pedras, vista ampla, vista urbana íntima, enfiamento urbano estimulante, etc.).

Pode levantar-se a questão se muitos destes “motivos” não serão, tanto ou mais, elementos de atractividade do que de caracterização residencial? A ideia que tenho, por agora, é que realmente há conotações domésticas em muitos destes temas, que são bastante evidentes quando experimentamos as respectivas situações, embora sejam dificilmente recionalizáveis e portanto explicáveis ...



Fig. 06

6. Ainda sobre a natureza da domesticidade

Pegando nesta última questão, chegamos, novamente, ao tema da principal natureza da domesticidade, e nesta matéria Rybczynski (4) defende que ela corresponde “a um conjunto de emoções sentidas, e não a um único atributo. Ela está relacionada à família, à intimidade, à devoção ao lar, assim como a uma sensação da casa como incorporadora – e não somente contentora – desses sentimentos. Foi a atmosfera da domesticidade que permeou as pinturas de de Witte e de Vermeer. O interior não era só um ambiente para atividades domésticas – como sempre havia sido – mas os cômodos, os seus objetos, agora adquiriam vida própria... .... O verdor inglês, a cultura inglesa, o conforto inglês, vistos sob o sol claro, que não era opressivo.» O conforto não deveria ser dramático, mas calmante. Ele deveria parecer «natural», mas, como o jardim inglês ou a casa inglesa, era cuidadosamente arquitetado” (p.129).

Na mesma obra Rybczynski defende que o “conforto doméstico envolve toda uma gama de atributos – conveniência, eficiência, lazer, bem-estar, prazer, domesticidade, intimidade e privacidade –... Esta percepção envolve uma combinação de sensações – muitas subconscientes – não só físicas, mas também emocionais e intelectuais, o que torna o conforto difícil de se explicar e impossível de se medir. Mas isto não o torna menos real...”. (p. 236)

E o citado autor conclui que “precisamos redescobrir por nós mesmos o mistério do conforto, pois, sem ele, as nossas casas realmente serão máquinas em vez de lares”, e podemos aproveitar o actual tempo de mudança na própria natureza do nosso habitar interior – incluindo lazer e trabalho – e exterior – compatibilizando a cidade rodoviária e a pedonal – para irmos cuidadosamente reinventando as tipologias domésticas e edificadas (multifamiliar), contemplando nelas o que considerarmos ser de recuperar do “velho” sentido de ambiente doméstico.

7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção

Sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar, no entanto, uma riquíssima expressão urbana e ambiental, marcando os espaços públicos ou de uso público que preenchem núcleos residenciais de vizinhança próxima bem caracterizados; e não se trata aqui, novamente de um estímulo cénico e ambiental ao convívio na proximidade do habitar, mas tão somente de uma marcação da cidade habitada, da cidade onde começam os nossos pequenos mundos privados e onde apreciamos que estas nossas capas de identidade se misturem, com alguma ordem, com a identidade da parte da cidade ou bairro que habitamos. Nesta perspectiva alguns dos melhores exemplos portugueses, em termos desta evidenciação pública e natural de um conteúdo expressivamente residencial, são encontrados nos Bairros de Alvalade (respectivas “células sociais”) e Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa; sendo que, tal como chegou a referir Teotónio Pereira há vários pequenos “Alvalades” espalhados pelo País.

Esta possibilidade de uma cidade incluir espaços urbanos caracterizadamente domésticos é muito rica em termos das imagens que podem ser produzidas e dos seus contrastes com outros tipos de imagens urbanas mais comerciais, mais institucionais, mais naturais, etc. E trata-se, também, de mais uma maneira de negar uma uniformidade urbana descaracterizadora e nada emocionante. No entanto, e tal como se tem vindo a repetir, estamos a tratar com uma matéria muito sensível e que pode resvalar, rapidamente, para soluções negativamente marcadas por aspectos “gratuitamente” visuais e sem consistência humna, cultural e citadina; pelo que há que actuar de forma muito cuidadosa e com a participação de projectistas capazes de garantir sínteses equilibradas no que se refere a este tipo de intenções.

Ainda ao nível urbano e igualmente nesta perspectiva estrategicamente residencializadora importa sublinhar o importante papel do designado “verde urbano”, que pode e deve ser usado de forma tão intensa como devidamente ponderada no sentido de uma total harmonização com os partidos de concepção arquitectónica aplicados em cada local. E a referência a uma desejável “intensidade” na introdução do verde urbano justifica-se pois só assim ele pode ter presença activa e protagonista em termos visuais e ambientais, sendo que é infelizmente muito frequente uma sua introdução “envergonhada” e ridiculamente pontual, assim como também, por vezes, acontece uma sua introdução pouco adequada e fundamentada em termos de participação equilibrada nas respectivas imagens urbanas.

O uso adequado do verde urbano tem múltiplas vantagens para a saúde, para o ambiente do dia-a-dia, para a fixação de carbono e, tal como é aqui apontado, para uma forte expressão residencial das zonas urbanas onde é introduzido, e sem dúvida assume um papel efectivo, mas habitualmente secundário – ou, quem sabe, secundarizado –, na concepção arquitectónica residencial, podendo, eventualmente ter uma importância mais efectiva em casos específicos de tipologias menos massivas e mais tradicionais em termos de continuidade urbana; mas atenção tais caminhos obrigam a um adequado trabalho profissional de “arquitectura” paisagista no seu desenvolvimento e um trabalho realizado em grande conjugação com a concepção urbana global e pormenorizada de cada zona, caso contrário será evidente uma “manta de retalhos” conceptual muito pouco digna no seu efeito final.

Nestas matérias e sublinhando a importância do verde urbano como factor de expressão residencial evidenciada dos espaços públicos registam-se as actuais acções de requalificação, designadas de “residencialização”, das massivas operações de HLM francesas, operações estas dispendiosas, que exigem grande capacidade profissional e têm forte sensibilidade conceptual, mas onde fica bem evidente a forte e positiva influência da aplicação cuidada e completa de “verde” urbano na humanização de conjuntos residenciais, basicamente, sem continuidades urbanas e constituídos por edifícios altos e isolados; uma lição que pode ser replicada noutras situações do tipo, embora eventualmente menos graves, e existentes em Portugal.


Fig. 07

8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados

a) A domesticidade nos espaços públicos

A domesticidade no espaço citadino é factor de escala humana e condição contrária a uma massificação monótona e anónima que marca, infelizmente, sólida presença em muitos espaços públicos.

Para além deste importante papel a domesticidade pode ser responsável pelo desenvolvimento de agradáveis e vitalizadoras “ilhas” ou “oásis” residenciais em meios urbanos menos propícios para um viver calmo e gratificante; e nesta perspectiva a domesticidade pode ser uma qualidade estratégica nos espaços públicos de conjuntos residenciais integrados em zonas urbanas “centrais” e/ou muito animadas.

Em todos estes aspectos a domesticidade joga com elementos básicos de composição urbana, destacando-se o equilíbrio da escala edificada e da integração global e especificada (“leque” de diversos aspectos), a escala humana evidenciada, o verde urbano bem integrado, expressivo e estruturador (com a sua influência real e que pode e deve ser devidamente justificada) , e a ligação a naturais elementos simbólicos ou fortemente característicos de espaços habitados e acolhedores (ex. chaminés, beirados, etc.), evidenciados como caracterizadores das respectivas imagens urbanas.

Ainda sobre a relação entre o verde urbano e a domesticidade, podemos comentar e apontar, em seguida, e em termos de exemplos talvez significaticos: que ele suaviza globalmente os espaços edificados; que ele assegura “pontes” e relações de continuidade em sítios onde existiam hiatos entre edifícios e construções; que ele preenche espaços públicos antes criticamente vazios; que ele caracteriza e regista a relação da escala humana um pouco por todo o lado no espaço público, pois os principais troncos/bases das árvores e muitos arbustos têm aproximadamente a dimensão da altura de uma pessoa; que ele forra e reveste grandes superfícies que sem estas condições estariam “nuas” e agrestes em terra à vista; que ele diversifica o ambiente urbano com múltiplas imagens de pormenor (enorme diversidade de espécies com enorme diversidade formal) que serão muito adequadas a uma grande diversidade de gostos dos habitantes e assim positivamente apropriadas, numa perspectiva de amigabilidade das intervenções que é outra faceta da domesticidade; que ele é capaz de nos oferecer verdadeiras “casas” naturais cheias de sentido simbólico, através de pequenos bosques e túneis de vegetação; e, finalmente, que o verde será sempre associado à terra, à produção de alimentos e, assim, também ao sentido doméstico.

Importa ainda referir aqui que outros elementos naturais, e designadamente as rochas aparentes, a madeira, a areia e as superfícies aquáticas ou mesmo a simples presença de água, também participam na construção de espaços expressivamente marcados por um sentido residencial, de estadia, de calma, de apropriação e de protecção. Mas temos de sublinhar que em termos de custo-benefício há soluções mais, ou menos, viáveis, e provavelmente o verde urbano será ainda a ferramenta mais disponível, a não ser quando o contexto, ele próprio, proporcione outro tipos de elementos naturais e conotados com um certo sentido rústico ou vernáculo, muito associado à referida residencialização.

E ainda neste tipo de perspectiva há que sublinhar o interesse da aplicação de elementos em betão armado à cor natural e com marcas visíveis das respectivas cofragens, e, de forma geral, a estratégia de se mostrar a verdade dos materiais, que é também um caminho privilegiado de uma adequada expressão de residencialidade e de habitat humano, que tem forte potencial de aplicação nos espaços públicos e na envolvente dos edifícios.

b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios

No que se refere à expressão evidenciada da presença da habitação e dos múltiplos “contornos”, “cenários” e pormenores domésticos nas vizinhanças de proximidade há que salientar, desde já e naturalmente, que será aqui, neste nível físico, que será mais adequada e potencialmente preponderante a aplicação dos aspectos que acabaram de ser referidos para a domesticidade nos espaços públicos.

Mas no entanto e a este nível da vizinhança de proximidade das habitações, nestas ruas, ruelas e pracetas residenciais, expressiva ou dignamente domésticas, há um aspecto que marcará tanto esse sentido doméstico, como os elementos embebidos no espaço público: trata-se da diversidade de delimitações exteriores entre público e privado e de transparências de vãos domésticos sobre o exterior público.

Esta é mais uma daquelas matérias que, por si só, pode dar lugar a desenvolvimentos específicos e muito estimulantes, sendo uma perspectiva que, sublinha-se mais uma vez, praticamente nada tem a ver com as opções formais da respectiva concepção arquitectónica e urbana, sendo tão válida numa zona relativamente vernácula e tradicional, como numa zona modernista; dependendo naturalmente e sempre da respectiva qualidade arquitectónica.

Realmente a domesticidade é uma qualidade que impressiona e caracteriza uma vizinhança e mesmo um bairro: nos muros a média altura ou expressivamente altos, na sua constituição e aberturas neles praticadas; nas vedações naturais ou semi-naturais e nas respectivas vistas proporcionadas sobre os espaços exteriores privados; e na rica complexidade de conteúdos privados estrategicamente visíveis a partir dos caminhos públicos que servem as entradas “secretas” e alternativas das habitações térreas.

E a domesticidade ou expressiva caracterização residencial impressiona também nas vistas que são possíveis relativamente a varandas, terraços e vãos privativos, e onde é expressa a identidade e alguns conteúdos seleccionados dos respectivos espaços domésticos; sendo que há varandas e há vãos cujas “profundidades” e pormenorizações proporcionam elevados potenciais de apropriação e de expressão dos referidos elementos domésticos – pormenorizações essas nada complexas e que podem passar, seja por pequenos “poiais”, que aceitam alguns elementos decorativos e identificadores, seja por vãos que aceitem bem cortinas e até, eventualmente, pequenos espaços de transição e de relação entre essas cortinas e o vidro exterior, tal como acontecia nas velhas habitações com paredes espessas, que são espaços excepcionais para se evidenciar a domesticidade e para se criarem, simultaneamente, limiares de privacidade e pequenas “câmaras” de “descompressão” que ajudam ao próprio conforto ambiental.

E nesta envolvente directa do espaço privado interior, na pele do edificado, o verde urbano encontra um óptimo e diversificado pano de fundo, proporcionando-se um grande leque de soluções de fusão entre edifício e verde, desde os terraços e as coberturas, ajardinadas, às varandas transformadas em pequenos jardins, aos pátios semi-urbanos e semi-privados e marcados pelo verde (até pontualmente), às simples mas efectivas soluções com floreiras e mesmo com vasos de plantas nas fachadas. E em todos estes casos a carácter doméstico ai realçado.

E assim, sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar uma riquíssima expressão urbana e ambiental em núcleos residenciais de vizinhança próxima, que acabam por transparecer essa qualidade na sua envolvente, proporcionando até que tais agrupamentos possam situar-se na vizinhança indirecta de espaços urbanos muito vitalizados.

Tudo isto tem a ver com a possibilidade de um urbanismo feito de escalas e relações mútuas harmonizadas, humanizadas e pormenorizadas; um urbanismo residencial feito ao serviço da pessoa, do habitante, redescobrindo e reinterpretando a forma histórica de se fazer cidade, tal como aponta Rudolf Arnheim (5), quando defende que “o desfiladeiro da rua é o reino da presença ampliada do homem, sendo por isso apreendido como forma”, citando, depois, Heide Berndt, quando este diz que “a rede de ruas, estreita e relativamente confusa, era funcionalmente apropriada a ruas que só serviam para dar acesso aos edifícios. Poucas ruas eram largas o suficiente para permitir a passagem de veículos. O elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas. As estreitas vielas eram determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada”... Mas “na era industrial a relação espacial entre edifícios e ruas altera-se. Com as crescentes exigências dos sistemas de transportes, as ruas tornam-se mais importantes que a disposição dos edifícios na determinação do plano geral da cidade e do centro desta.”

E citemos novamente o mesmo trabalho de Arnheim (6), quando este transcreve mais uma essencial afirmação de Christian Norber-Schulz sobre a forma da rua: “Para se tornar uma verdadeira forma, a rua tem de possuir um «carácter figural»”; o que se refere, sem dúvida, à tal “presença ampliada do homem”, apontada por Arnheim, ainda que seja, eventualmente, uma presença/”sombra.” E serão estas sombras positivas que deverão ajudar a configurar as vizinhanças tão expressivamente urbanas como residenciais.



Fig. 08

c) A domesticidade nos espaços edificados

A domesticidade é natural no interior das habitações e pode, a partir delas, e designadamente dos seus prolongamentos, invadir os espaços comuns, transparecer em fachadas e empenas e prolongar-se por locais exteriores privativos e/ou com imagem pública, acentuando, neste caso, a influência de um afirmado carácter residencial – acolhedor, humanizado, intimista e mesmo parcialmente interiorizado – nas vizinhanças de proximidade.

A domesticidade nos espaços edificados tem de ser aproximada, tanto na pesquisa e no desenvolvimento de tipologias humanizadas, ligadas com a máxima identidade em cada habitação e com a máxima relação entre cada habitação e a sua envolvente comum e pública, como com a pesquisa de espaços comuns que harmonizem funcionalidades com uma activa expressão residencial e sentido equilibrado de comunidade com apropriação individual e familiar, espaços comuns que contenham um verdadeiro e confortável sentido de habitar (exemplo, luz natural, acabamentos, arte, etc.), não se reduzindo a meras ligações funcionais no estrito sentido de funcionalidade, e ainda com relacionamentos atraentes e estimulantes entre estes espaços comuns e as respectivas envolventes térreas e paisagísticas, relacionamentos que podem se apenas ambientais, ou também funcionais e espaciais, inventando-se “novos” pequenos territórios; e tudo isto, no seu conjunto irá dar corpo a um sentido agradavelmente residencial associado, por exemplo, a um edifício multifamiliar que pode até uma dimensão relativamente significativa – mas sem se ultrapassarem limites de bom senso.

Numa perspectiva de contraste, relativamente, aos apontados caminhos da humanização e expressão residencial dos edifícios habitacionais, registam-se, em seguida, os aspectos negativos, em termos de saúde física e psicossocial, que são habitualmente associados a grandes edifícios, sem escala humana e sem identidade, cruzados por “infindáveis e anónimos” espaços comuns:

A saúde das crianças ressente-se, tanto por doenças respiratórias motivadas pela habitual insuficiência de espaço nos apartamentos, como por incidência de desordens psiconeuróticas resultantes do confinamento e do isolamento social. As crianças confinadas têm de brincar e fazem ruído, que nos espaços pequenos dos apartamentos, provocam incómodos e embaraços, tanto na vida familiar, como nas relações entre vizinhos; aumentando, mesmo, a sensibilidade relativamente aos níveis de ruído considerados aceitáveis (até porque se teme que o ruído perturbe os vizinhos).

As pessoas que vivem nos andares mais altos tendem a sair menos à rua do que as que vivem em andares onde podem prescindir do uso dos elevadores; a demora e a pouca vontade de privar com vizinhos desconhecidos na apertada cabina do elevador e eventuais considerações ligadas a possíveis situações de insegurança no percurso (especialmente se este for longo e pouco visível/antecipável), podem ser mais do que suficientes para que não se vença a inércia natural de quem está confortavelmente no seu lar; e, mais uma vez, fortemente prejudicados estão os muito novos, porque não devem usar sozinhos os elevadores, e os muito idosos, que se deslocam com dificuldade.

A solidão nos enormes blocos de apartamentos incide, também, basicamente, sobre as pessoas que não trabalham fora de casa, a não ser que estejam instaladas perto de familiares e de pessoas amigas ou conhecidas; de outro modo, a obrigação de passar à frente de muitas portas fechadas e de atravessar longos e inóspitos espaços comuns, aliadas à visão miniatural que se tem, a partir das janelas da casa, sobre a envolvente exterior, resulta num forte efeito de isolamento e afastamento, que se faz sentir, essencialmente, sobre quem não tem de abandonar, diariamente esse meio. Mas o isolamento acaba por se generalizar, quando qualquer necessidade/vontade de comprar algo tão corrente como, por exemplo, um jornal, obriga a percursos horizontais e verticais longos e inesperados, em termos de encontros, para, finalmente, e com frequência, se ter de pegar no carro e ir longe, afinal, tantas vezes por causa de uma “ninharia”; motivo este que, em outras condições habitacionais mais humanizadas, estava quase sempre associado à sã oportunidade de um convívio natural e esporádico.

E tudo isto se liga a uma quase total negação de um sentido de habitação devidamente humanizado e expressivamente doméstico, que é aqui erradicado ao serviço de verdadeiros “armazéns habitacionais” em que o único cuidado com os utentes serão aspectos regulamentares de acessibilidade e segurança; e o resultado ficou à vista, desde há bastantes anos, nos motins nas “cités” francesas entre os arrabaldes de Lyon e de Paris, numa situação que, naturalmente, não resulta apenas desta situação – há toda uma falta de lógica em termos de localização, acessibilidades urbanas e vida urbana (só para falar das matérias de Arquitectura) –, mas que é agravada pelo desamor e mesmo pelo desprezo com que se trata muito realojamento, e não só nessas periferias, naturalmente.

d) A domesticidade nas habitações

Quando tratamos de edifícios unifamiliares e, globalmente, quando abordamos o espaço privado da habitação estamos, evidentemente, no “santuário” da expressão residencial e identitária, fortemente associada à respectiva capacidade de apropriação.

E no interior doméstico como é possível humanizar e caracterizar domesticamente uma unidade/fogo? Como é que o “alojamento” se torna “habitação”, no sentido de espaço habitado/marcado por quem o vive diariamente, e que vai marcando, desejavelmente, de forma positiva esses seus habitantes?

Com que elementos e composições de elementos (por exemplo: uma lareira evidenciada, a organização expressiva de uma grande cozinha, a evidenciação de uma escada em madeira)? Com que acabamentos e cores? Com que relações interior/exterior (por exemplo lugares/janela)? Com que ...?

As condições para um aumento da domesticidade, como fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer, veja-se o vídeo, a televisão panorâmica, os equipamentos de alta fidelidade, as consolas de jogos, os computadores pessoais, os elaborados equipamentos de telecomunicação que permitem fazer muitos trabalhos em casa, os serviços de entrega de compras e de refeições prontas ao domicílio, a TV por cabo e as antenas parabólicas ligando o lar ao mundo, os variados e aperfeiçoados equipamentos de auxílio nos trabalhos domésticos, etc.

Sendo assim talvez que a batalha deva ser tanto a de proporcionar excelentes mundos domésticos, daqueles dos quais não nos apatecerá sair, como enriquecer e tornar extremamente útil e atraente a envolvente directa e de uso público desses mundos pessoais e familiares, levando-nos a sair deles com frequência, pois logo ali podemos continuar a encontrar uma outra forma de caracterização residencial e doméstica, que nos continua a apoiar e a fazer-nos sentir “em casa”, mas que também nos propicia um convívio mais alargadao e a relação estimulante com a cidade, numa oferta que tornará o nosso jogo da glória diário, entre trabalho e casa, muito interessante.

E para tal interesse também contribuirão: a caracterização doméstica de partes do ambiente de trabalho; e a caracterização equilibradamente profissional de partes do ambiente doméstico.



Fig. 09

9. Carácter e importância específica da domesticidade

As margens da domesticidade ligam-se a aspectos marcantes de conforto ambiental e de presença de aspectos elementares da criação como o fogo, a água e uma natureza dominada, a conjugações especiais de funções e espaços domésticos, e nelas a relações marcantes entre interior e exterior, a imagens pontuadas por símbolos de privacidade e apropriação, a pormenorizações ligadas a conteúdos telúricos e simbólicos, e a uma envolvência gradual mas forte por ambientes cálidos e expressivamente confortáveis, onde a luz e o sol, o verde e os seus reflexos forram suavemente espaços interiores ou interiorizados que nos protegem e amparam nas nossas relações com o exterior público, e que tornam a nossa vida doméstica mais rica e significante.

A domesticidade liga-se, basicamente, à interioridade e ao conforto, será também, frequentemente, uma certa e bem equilibrada intimidade, muitas vezes difícil de caracterizar, mas claramente aparente.

Faz-se notar que condições para um aumento da domesticidade, como a fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer com a ampla disponibilidade de serviços ao domicílio e com o rápido crescimento do trabalho doméstico.

Ao nível público fica o desafio, que se julga importante, no sentido do desenvolvimento de ambientes de vizinhança residencializados/domésticos como factores de dinamização da apropriação pelos habitantes e da identificação com o sítio que habitamos.

10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial

Em termos de reflexão geral apuram-se, para já, os seguintes aspectos.

Estamos, assim, entre a casa e o bairro, desejando uma cidade habitada – humana e vitalizada – e um sítio de trabalho humanizado, pois neste passamos quase um terço da nossa vida. E se estamos entre a casa e o bairro estamos em mundos potencialmente muito envolventes e expressivos de domesticidade. E desta forma chegamos, desde já, a uma ideia que aponta a incoerência de tudo o que aposte em escalas físicas que “esmaguem” a escala humana e de tudo aquilo que não integre um essencial conjunto de serviços de proximidade adequados ao nosso dia-a-dia.

E se formos às ruas deste mundo de proximidade, a dois passos do nosso quarto e da nossa sala, não há qualquer razão para que tudo o que aí se passa não se passe com o vagar, o cuidado e a protecção que gostamos de ter em nossas casas.

E nesta lógica de “habitar a cidade”, que se considera vital para a urgente teabilitação urbana, chega-se, naturalmente, ao potencial surgimento de novas espécies de espaços e de novos tipos de escalas de habitar, em que a casa se torna pólo de comunicação com o mundo (7), podendo a cidade começar a funcionar um pouco como a extensão do espaço doméstico, e , quem sabe, vice-versa; isto numa perspectiva potencialmente bem ligada a uma reforçada activação da funcionalidade dos espaços públicos e domésticos; aspectos que merecem uma urgente reflexão e discussão.

Em termos dos desenvolvimentos que são, desde já, possíveis nestas matérias da domesticidade urbana e residencial, sintetizam-se os seguintes temas de estudo.

O interesse em se aprofundarem os aspectos que marcam uma expressão residencial reforçada em zonas específicas do espaço público e na envolvente próxima das habitações, estamos a pensar, por um lado nas questões organizativas e “estruturais”, que têm a ver com a escala geral da intervenção, com a organicidade ou com a depuração e racionalidade das suas principais formas edificadas e “vazias”, e com a opção funcional em termos de uma expressiva predominância pedonal, embora funcionalmente bem sustentada, e, por outro lado, estamos a visar as questões de preenchimento e pormenorização, ligadas por exemplo, ao partido de verde urbano escolhido, ao “menu” de texturas e cores apurado e à própria “família” de elementos de design de equipamento (exemplo, luminárias) e de comunicação (exemplo, elementos informativos) escolhida – e, por exemplo, este “povoamento” do exterior tem grande importância na respectiva residencialização, ou, pelo contrário, constitui um erro de palmatória que põe em risco a referida expressão residencial.

O interesse que tem a identificação daquelas “famílias” de aspectos associáveis a uma expressão residencial intensificada da envolvente dos edifícios e que não tenham qualquer tipo de conotação com partidos formais específicos – por exemplo as expressões residenciais evidenciadas de um embasamento, de uma chaminé e de um vão de janela, podem ser “desenhadas” em diversas linguagens formais, sendo o resultado idêntico em termos de evidenciação da respectiva domesticidade.

E, finalmente: Será que temos verdadeira legitimidade na utilização destas “ferramentas” de expressão residencial reforçada? Uma questão que se pode ir sempre colocando, até para estarmos preparados para as situações em que tal expressão tem evidentes objectivos comerciais, mas sobre a qual há que referir, desde já, que se não se considerasse que é legítimo usar este tipo de elementos, não se teria abordado aqui a temática, que se julga ser bem distinta e, muitas vezes, complementar da atractividade, mas ligada, também a outras facetas qualitativas, com destaque apara a apropriação e a própria integração; sendo esta a última faceta qualitativa que é objecto deste estudo e que será, em seguida, abordada.

Gostaria, no entanto, de concluir esta reflexão sublinhando a efectividade e a significância em termos de “sentido de estar em casa na rua”, de “atmosfera” envolvente e de certa forma protectora – talvez porque ampliando verdadeiramente o ambiente doméstico sobre o exterior – que fica provada ao visitarmos, com um mínimo de calma e sentido de observação natural (imaginando-nos, verdadeiramente, habitantes), certas vizinhanças urbanas e residenciais, que são fortemente marcadas, cumulativamente e de forma mutuamente harmonizada, por um sentido global de ordenamento, por elementos directamente referidos à escala humana, por elementos da natureza e designadamente por árvores e arbustos e por sinais naturais de apropriação por parte dos respectivos habitantes; aqui, nestes locais, marcados pelos mais diversos “desenhos” arquitectónicos, sentimo-nos um pouco em casa numa rua que nem é a nossa, o que acaba por se constituir numa alavanca de excelente predisposição para se viver essa rua e eventualmente nela se poder conviver.

Mas há mais: há um certo sentimento de que aquelas habitações nos acompanham e protegem positivamente, que aquela escala edificada é realmente a nossa, como uma outra pele, e que aquelas janelas e portas, ali tão perto e que nos são, na prática “estranhas”, equilibram eventuais intrusões à nossa liberdade/privacidade no exterior por um agradável sentido de acompanhamento – e, na prática, tanto mais isto se sente, quanto mais aproximado a um unifamiliar densificado ou a um uni/multifamiliar for a solução, sendo muito importante a presença de acessos privados directamente ligados ao exterior público.

Mas salienta-se que, depois, quando passamos a soluções estritamente unifamiliares, ainda que, por exemplo, geminadas, esse tipo de sentido de convizinhança que abriga e integra bem a individualidade de cada habitação, desaparece para dar lugar, frequentemente, a um sentimento de alguma “crispação” entre a presença dos limites das “moradias” e o uso do exterior público que lhe é contíguo.


Notas bibliográficas:

(1) Georges Simenon, "Maigret e os Cães Ferozes", pp. 7 e 8.

(2) Marina de Almeida Ribeiro, "O Simbolismo da Casa em Júlio Dinis", p. 93.

(3) Witold Rybczinski, "Domesticity", in "Housing: Symbol, Structure, Site", Lisa Taylor (ed).

(4) Witold Rybczynski, “Casa – Pequena história de uma idéia”, trad. Betina Von Staa, 2002 (1986).

(5) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.

(6) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.68.

(7) Farè e Silvia Piardi (dir.), “Nuove specie di spazi”, 2004.


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(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
(iv) Para ser possível a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens - é usado o Photobucket; onde, devido ao grande número de imagens, se torna difícil registar as respectivas autorias. Desta forma salienta-se que, caso se pretenda usar essas imagens, se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as respectivas autorias são registadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor abc@lnec.pt

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
A caracterização doméstica do habitar
Infohabitar, Ano VII, n.º 366, 23 e Outubro de 2011