domingo, outubro 23, 2011

A caracterização doméstica do habitar - Infohabitar 366

Infohabitar, Ano VII, n.º 366

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar

Artigo de António Baptista Coelho

Nota prévia à presente edição:

Retomando uma série editorial cujo último “capítulo”, sobre a importância da atractividade na qualidade arquitectónica residencial, editado, há apenas uma semana, com o n.º 365 deste Infohabitar, publicam-se agora algumas reflexões sobre a matéria da DOMESTICIDADE arquitectónica residencial, uma matéria sempre tão sensível, como estimulante e discutida, quando se debate o habitar e a habitação, numa dupla perspectiva de qualidade de “desenho” e de relação com a satisfação dos habitantes.

Índice

Introdução geral

1. A caracterização doméstica do habitar

2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial

3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário

4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade

5. Aspectos estruturadores da domesticidade

6. Ainda sobre a natureza da domesticidade

7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção

8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados

a) A domesticidade nos espaços públicos

b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios

c) A domesticidade nos espaços edificados

d) A domesticidade nas habitações

9. Carácter e importância específica da domesticidade

10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial

Introdução geral

Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão 17 ou 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e, provavelmente, outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).

Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que foi, até agora, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados), mas que se pretende que, nesta ponta final da edição da série, mantenha agora um máximo de continuidade (dentro da normal periodicidade semanal do Infohabitar):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução
A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.

Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º 341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 348 e 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar (final de Maio e início de Junho de 2011).

Infohabitar n.º 364 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado - 9 de Outubro de 2011.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 365 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção – 16 de Outubro de 2011.

(o presente artigo) Infohabitar n.º 366 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: A caracterização doméstica do habitar – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.

Infohabitar n.º XXX - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: reflexões finais.

Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.

Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC

http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, e que se tem feito nesta série editorial às matérias da qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.

Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais. Esta abordagem foi editada pela Livraria do LNEC no livro "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2 (fig. 02)


Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC

http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php

Habitação e Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar


Fig. 03

1. A caracterização doméstica do habitar

Tal como se considerou ao abordarem-se as matérias associadas à atractividade residencial, o que se refere a uma caracterização residencial expressiva, que também se pode sintetizar como “doméstica”, é uma qualificação parceira, ou, quando muito, alternativa/opcional da atractividade residencial, podendo mesmo corresponder a uma determinada opção de atractividade; mas pelo seu interesse específico e pelas questões que tem levantado, desde há muitos anos, considerou-se importante fazer aqui uma sua abordagem específica.

Mas convém delimitar e definir, minimamente, a temática doméstica que é aqui visada, considerando-se que, por exemplo, entre o âmbito bem identificável da “Casa Portuguesa” de Raul Lino, plena de beirados, vãos ornados e chaminés evidenciadas, entre outros pormenores considerados como radicados na tradição do que seria a arquitectura doméstica portuguesa e a radical ausência de imagens gerais, pormenores e signos de domesticidade, patente em muitas intervenções racionais e depuradas, houve e haverá múltiplos e estimulantes caminhos:

(i) uns mais orgânicos, na excelente tradição deste tipo de partido arquitectónico, que sempre vai sobrevivendo a outras linhas mais formais;

(ii) outros até muito influenciados por um equilibrado sentido vernáculo e verdadeiro, que decorre do enorme leque de elementos coligidos no fundamental estudo que deu origem à Arquitectura Popular Portuguesa;

(iii) e ainda outros em boa parte baseados numa atitude de estimulante simplicidade programática e de pormenorização, que acaba por expressar, com naturalidade, sítios de vivência e sítios de paisagem bem caracterizados, sendo, assim, veículos formais naturais destes conteúdos, neste caso, essencialmente, domésticos.

Estivemos aqui a referir os caminhos mais sólidos e julgados coerentes de expressão do sentido doméstico, pois há, como bem sabemos, uma linha que resulta de vários “guias de desenho urbano” ingleses e franceses e, mais recentemente, do designado “Novo Urbanismo”, e que nos USA, mas igualmente em várias localizações europeias e asiáticas, desenvolve conjuntos residenciais, alguns com grande dimensão, caracterizados por uma arquitectura expressivamente residencializada e tradicionalista, muitas vezes inspirada em verdadeiros cenários cinematográficos, e que, de certa forma, estiliza e reinterpreta formas de viver sonhadas e idealizadas, associando estes aspectos formais a verdadeiras cartilhas de gestão, baseadas na rigorosa manutenção desses “cenários” e mesmo numa relativa encenação da vida diária que aí acontece.

Salienta-se, ainda, que esta última pequena análise foi feita de uma forma moderadamente crítica, pois considera-se haver interesse em vários aspectos deste tipo de intervenções, no que se refere a uma humanização da escala formal e da vivência diária nessas zonas, por exemplo, predominantemente pedonais, isto desde que os espaços criados sejam caracterizadamente públicos e sem quaisquer delimitações e controlos condominiais; mas como não houve ainda a oportunidade de uma vivência real dessas soluções, não podemos aprofundar esta análise.

Naturalmente que devem ficar fora desta abordagem da domesticidade, como caminho de qualidade arquitectónica muito associável à satisfação dos respectivos habitantes, todas aquelas soluções mais ou menos negativamente “festivas” ou mesmo “carnavalescas”, de pífia e triste interpretação da arquitectura tradicional e doméstica. Que fique, portanto, aqui salientado que neste estudo estamos a encarar a expressão evidenciada da residencialidade no habitar, apenas nos casos em que tal caminho foi realizado com fundamentação, seriedade, sobriedade e sentido de integração física e social.

2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial

Tal como se apontou, já alguns anos, num estudo sobre estas matérias, a domesticidade ou a residencialidade assinalável de uma dada área habitacional ou de um dos seus elementos, significa que estão presentes e, eventualmente, evidenciadas características habitualmente associadas a espaços sedes de aprazível viver diário, relativas à protecção, ao conforto e à dignidade de espaços de residência e de cidadania.

Sobre a “razão de ser” e a actualidade prática de pensarmos nestes termos salienta-se a utilização que tem sido feita, desde talvez mais de 10 anos, deste conceito associado à caracterização doméstica, em operações de “residencialização” e requalificação de conjuntos franceses de “habitação social”. E há mesmo casos em que é referida a ideia de “domesticação” das “velhas” soluções pobremente racionalistas; e refere-se, aqui, a ideia de uma certa pobreza racionalista, porque a economia de meios e o sentido depurado em termos de materiais e pormenores pode ser extremamente rica na configuração de soluções urbanas e residenciais.

É claramente oportuno colocar-se a questão de ser, ou não ser, viável realizar espaços residenciais caracterizadamente “adomésticos”, sem quaisquer conotações residenciais, “amenizadas”, envolventes e transparecendo o respectivo conteúdo habitacional.

Será que basta aos espaços residenciais uma adequada capacidade de atractividade própria e de integração na respectiva envolvente paisagística (urbana ou ruralizada), considerando, isoladamente, os factores mais ligados ao aspecto? Sem qualquer “imagem” de se tratar de um local predominantemente usado como espaço de habitar, interior e exterior? E é importante ter presente esta dualidade interiorizada, bem conhecida, e pública/comum exterior do sentido doméstico, pois julga-se que ela pode ajudar a responder a esta possibilidade.

Esta questão remete-nos para ser, eventualmente, a domesticidade uma qualidade talvez de “opção suplementar”, mas importa aprofundar esta questão, designadamente dos pontos de vista de quem visita/observa (..e como..?) e de quem habita (...”e como” ?); e não podemos deixar de referir a evidente satisfação que é, frequentemente, proporcionada por conjuntos urbanos e residenciais expressivamente marcados por um “sentido” doméstico.

Um outro aspecto sensível a estudar, que aliás já foi aqui anotado, refere-se à capacidade de associação entre diversas linguagens de arquitectura, designadamente contemporâneas, e espaços expressivamente residencializados; uma constatação verdadeira que importa ter sistematicamente presente. E decorrendo desta perspectiva, quais serão os aspectos globais e caracterizadores que qualificam determinados cenários urbanos e determinadas soluções de pormenor, em simultaneidade, como expressivamente residenciais, urbanas, culturalmente consistentes e motivadores? E será que é eticamente legítimo avançar neste sentido? E não será que este caminho é apenas um entre vários percursos de concepção?

São questões para as quais aqui, neste estudo, não se encontrarão respostas cabais, apenas sugestões, ligadas à noção de que uma domesticidade equilibrada e de bom senso, pouco ou nada tem a ver com uma opção “obrigatória” por partidos formais negativamente tradicionalistas e/ou pitorescos, e tem sempre a ver com a disponibilização de ambientes de proximidade e privados amigáveis e estimulantes de um habitar que transborda, estimulantemente, de dentro da nossa habitação, para a vizinhança e depois mesmo para as ligações à cidade. É como que havendo um sentido doméstico e um sentido urbano, ambos influenciando, potencial e positivamente, as principais casas (extremas) do tal jogo da glória diário do habitar e da cidade; e quando uma destas “casas” é defeituosa há sempre problemas.


Fig. 04

3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário

Como a domesticidade arquitectónica e residencial é uma qualidade fluida e dinâmica ela ganha muito, em termos de definição e clarificação com a interpretação que dela fazem, com bastante frequência, os escritores e ficcionistas (tema este bem digno de posterior e específico desenvolvimento), citando-se, a propósito e já de seguida, um texto de Simenon, que se julga exemplar nesta perspectiva:

"À sua volta, a atmosfera era de uma frescura agradável, tanto mais que, apenas a dois metros, para além da fronteira de sombra e de sol, tudo parecia uma fornalha em que as moscas zumbiam ruidosamente... O lugar da casa que Maigret mais apreciava era aquele em que se encontravam: um lugar sem nome, uma espécie de pátio entre a cozinha e o jardim, parcialmente coberto e que, a pouco e pouco, tinham mobilado, até instalado um fogão e um bufete, para aí tomarem a maior parte das refeições estivais. Fazia lembrar um pátio espanhol, com o chão de tijoleira vermelha que dava à sombra uma tonalidade especial" (1).

Traçou-se aqui, em pinceladas largas, uma imagem escrita de um ambiente habitacional, que para além de o ser em termos “funcionais”, é também marcadamente doméstico, porque nos rodeia de referências a cenários, pormenores e sequências de espaços afectuosos e envolventes, que suscitam afinidade e apropriação, e que evidenciam protecção e ligações com as bases da vida, como a terra, o fogo, o vento, o Sol e a natureza.

Numa outra perspectiva, distinta desta talvez mais pessoal/individual e “perceptiva”, importa referir que a qualidade do que é doméstico deve possuir uma base fundamentalmente consensual, que seja capaz de estruturar fortemente e até de motivar tanto as diferentes construções interiorizadas dos espaços domésticos particulares, como a difícil construção comum, embora sempre pessoalmente interpretada, do espaço doméstico global do condomínio ou conjunto de residências, que é de todos os vizinhos e com o qual todos eles se devem poder identificar, pelo menos minimamente.

Referindo-se à descrição feita por Júlio Dinis da Casa da família Whitestone (em "Uma Família Inglesa") Marina de Almeida Ribeiro proporciona-nos uma ampla e metódica definição de domesticidade, que se julga ser adequada nessa perspectiva mais comum/ou de grupo também associada à domesticidade:

"Nesta casa, penetramos suavemente como a própria luz, e é lentamente que a vamos descobrindo. É um espaço de alegria e bem-estar e conhecê-la bem exige um ritual de disponibilidade, que não se compadece com pressas, nem com atrevimentos. Vamos vendo e observando o que nos vai sendo franqueado. Qualquer falta de gosto, de pudor, de confiança, poderia impedir ou retardar uma intimidade que desejamos estabelecer... Este espaço, cuidado por uma mulher...aquecido por fogões cuidadosamente acesos e rodeado de jardins, é aureolado pelo prestígio da fortuna e da cultura...” (2).

É um certo sentido agradável e “repousada”/seguramente formal que aqui se marca, um pouco como se “a casa” tivesse um carácter/alma que vive por si, com as suas regras e com as quais temos de contar, pois fazendo-o sabemos que iremos ter vários benefícios, imediatos e a prazo, pois somos/fomos acolhidos pela “casa”, que nos protege e apoia; uma perspectiva que também nos pode levar longe.

4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade

Witold Rybczinski, no seu importante estudo, intitulado, exactamente, "Domesticity" (3), faz-nos uma belíssima perspectiva do desenvolvimento desse conceito ao longo da nossa história (Ocidental e Europeia), considerando-o como elemento central perspectiva essa que, em seguida, se cita, globalmente, num longo texto, cuja citação é, em seguida, entrecortada por breves comentários:

"Casa é uma palavra do interior, de confortáveis lareiras e íntimos quartos, de cadeiras agradáveis e privacidade, de ambiente cálido e conforto. Mas não foi sempre assim. Antes do século dezoito à casa faltavam quase todos estes atributos. A casa do final da idade média, por exemplo uma casa burguesa, era espaçosa dentro dos padrões modernos, mas continha muitos habitantes. Era, em primeiro lugar, um local público... A casa tinha alguns, poucos, compartimentos amplos, que serviam muitas funções: dormir, comer, cozinhar, lazer, fazer negócios. O mobiliário era essencialmente utilitário e não decorativo, limitando-se a camas, mesas e bancos. Cadeiras reservavam-se para pessoas de posição...”

Rybczinski aponta matérias de grande pertinência no que se refere, por exemplo, numa primeira linha, ao papel convivial do espaço doméstico e das suas ligações com a vizinhança e com cidade – um papel que tem sido, quase sempre, esquecido quando não desprezado – e, também, no sublinhar da importância dos aspectos funcionais que devem ser devidamente apoiados pelo espaço doméstico.

“No século dezassete, com a crescente prosperidade e a melhoria das técnicas dos artífices, o mobiliário tornou-se mais variado e elaborado. As camas de casal chegaram a fazer lembrar pequenas casas e a ornamentação tornou-se comum... Durante o século dezoito a atmosfera doméstica mudou bastante. Com o crescimento da importância atribuída à família... As pessoas ligaram-se às suas casas, e devotaram-se mais à vida doméstica. Este novo sentimento precisou de uma nova palavra: domesticidade... Uma consciência crescente da família e de si próprio produziu uma vontade de privacidade, primeiro em relação ao exterior, depois relativamente aos criados e mais tarde, ainda, relativamente aos outros membros da família...”

O autor sublinha, aqui, o avolumar da importância do espaço habitado, relativamente ao qual se desenvolve, gradualmente, uma consciência que se liga ao sentido de privacidade e de identidade de cada família, com a especialização e o simbolismo que irão marcar peças de mobiliário e mesmo elementos de decoração do interior, sendo que, provavelmente, esta evolução na domesticidade irá, ela própria, influenciar a própria estruturação e composição espacial das habitações; isto também por haver peças de mobiliário extremamente volumosas e difíceis de mudar de local.

“As casas começaram a ser divididas em diversos compartimentos, alguns para o uso íntimo familiar, outros para funções sociais. Os corredores permitiram aos arquitectos desenvolverem casas de modo a que ninguém mais passasse através de compartimentos, mas ao lado deles. Diferentes compartimentos adquiriram usos permanentes - dormir, comer e conviver - e a mobília dentro desses espaços foi disposta em posições permanentes. Escadas de serviço e passagens mantinham os criados à distância. E mesmo no interior da família, o «layout» da casa proporcionava distinções - bibliotecas para os cavalheiros, «withdrawing rooms» para as senhoras e creches («nurseries») para as crianças...”

Rybczinski aponta depois a gradual e cada vez mais fina especialização doméstica, que teve lugar nas grandes casas e que, naturalmente, influenciou todas as outras sob diversas formas e com diversas intensidades, seno muito interessante lermos estas reflexões do autor também numa perspectiva de comentário a uma renovada prospectiva de organização da habitação e espaço de recreio e de trabalho dos dias de hoje.

“Os princípios do século vinte viram incríveis desenvolvimentos na maquinaria doméstica, que reduziram a necessidade do apoio por criados e tornaram a casa um espaço ainda mais privativo da família. Para além disso a introdução da luz eléctrica e do aquecimento central aumentaram imenso as condições de conforto ambiental no fogo, enquanto os telefones reduziram o isolamento e os gramofones e rádios enriqueceram os lazeres domésticos... Mas começou-se a olhar para fora das casas confortáveis. Para o cinema e para a praia, para o centro comercial, para os passeios de automóvel...”

Finalmente o autor aborda as grandes invenções maquinais domésticas, que afinal marcaram desde o início do Século XX à actualidade, sendo que há ainda trabalho a fazer em vários aspectos da integração doméstica desses elementos, assim como na racionalização funcional das tarefas domésticas obrigatórias.:

Mas temos, também nesta fase do relato de Rybczinski a importante referência, por um lado aos passos de gigante feitos nas formas de lazer doméstico e, por outro lado, na expansão do “habitar”, num sentido lato de vida no dia-a-dia, ao exterior da habitação; num equilíbrio ou desequilíbrio de “pólos” de atracção que tem marcado, sob diversas formas e em diversas alturas, o habitar a cidade, talvez nos últimos 100 anos: desde o tempo do “Passeio Público”, ao tempo do intervalo no Foyer do Cinema (tão ou mais importante do que o próprio filme), aos tempos da rua comercial viva, ao tempo do crescimento do trânsito privado de veículos, Centros Comerciais essencialmente rodoviários e excelentes condições de “cinema em casa”. E tudo isto tem a ver com o possível papel urbano e privado da domesticidade, que não existe na cidade rodoviária e existe naturalmente quando a família se reúne para ver um filme em casa ...

Rybczinski fala-nos, depois, do sentido vincadamente “não doméstico”, que marcou o racionalismo arquitectónico, de certa forma em contraste com a profusão formal das “artes decorativas” e das colecções de arte em equena escala (“doméstica”) que povoaram os cabinets londrinos, verdadeiros museus domésticos ...; e, assim, escreveu o autor:

“A atmosfera conscientemente «adoméstica» (indoméstica) da arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas, tal e qual como o que aconteceu com o mobiliário despojado e inconfortável que intencionalmente a acompanhava... O interesse renovado pelos interiores «Victorianos» representa um fascínio com a idade dourada da domesticidade. Não que esse tipo de vida doméstica possa alguma vez voltar, muita coisa mudou, e acima de tudo o papel da mulher em casa e na sociedade... mas a devoção à casa e à família parece continuar tão forte como era então. As delícias burguesas da domesticidade provaram ser surpreendentemente resilientes".

Será que é verdade que “a arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas”? Será que a arquitectura moderna e a sua componente de interiores despojados e minimalistas estava, de certa forma, em excessiva antecipação ao modo como a maioria das pessoas viviam? Ou será que houve diversas “arquitecturas modernas”, sendo que muitas delas aliaram as marcas da sua modernidade a uma caracterização residencial por vezes muito forte e envolvente, como aconteceu, por exemplo, com tantas soluções das escolas nórdicas e, designadamente, de Aalto?

E hoje em dia, já noutro século, como experimentamos a racionalidade e a austeridade de determinadas soluções? Como “habitamos”? Como “preenchemos” determinados espaços extremamente “crus” e austeros? E não será que entre espaço de recepção e enquadramento e os respectivos “recheios” se jogam situações bem distintas, sendo estes últimos muito mais adequados ao reflectir e expressar estas ideias de “domesticidade”? Desde que o espaço de base aceite, realmente, e facilite a sua própria, efectiva e diversificada apropriação, condição esta que por vezes não se verifica.

E é ainda interessante considerar que certas soluções domésticas marcada e genuinamente racionalistas, por exemplo aplicadas em Portugal na Encarnação - Olivais Norte, continuam a proporcionar, seja um expressivo potencial de adaptabilidade e de apropriação interior, seja um quadro/cenário global doméstico extremamente positivo para a integração das mais variadas soluções e opções de mobiliário e de “decoração”, produzindo-se, potencialmente, ambientes intensamente marcados pelo sentido de domesticidade.

E no que se refere a este último aspecto uma das explicações possíveis será a qualidade arquitectónica básica e pormenorizada desses espaços domésticos, que são extremamente racionalizados, mas não visualmente marcados por esta condição, e, também, a grande relação que esses projectos estabeleceram, então, com aspectos essenciais do conforto ambiental, designadamente, em termos de relação e transição interior/exterior, protecção da insolação e excelentes condições de iluminação natural.


Fig. 05

5. Aspectos estruturadores da domesticidade

De certa forma ao estarmos aqui a reflectir sobre a natureza da expressão da residencialidade, considerada esta expressão como uma possível qualidade arquitectónica, as matérias associadas à respectiva estruturação serão mais “fluidas” e, sem dúvida, mais geradoras de diversas opiniões e perspectivas de abordagem, do que noutras temáticas que têm vindo a ser aqui visadas. Por esta razão considera-se que a possível estruturação da domesticidade encontrará linhas de desenvolvimento nos variados aspectos já referidos, no entanto, e de forma prática, comentam-se, com brevidade, o que se julga serem quatro importantes aspectos ou facetas caracterizadoras, que podem ser usados como “motivos” de concepção na expressão evidenciada da residencialidade:

A primeira faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade está ligada e evidencia o que podemos definir como um expressivo “enraizamento”de um dado elemento ou espaço urbano e residencial: (i) em termos locais – servindo-nos de e servindo um local com expressivo carácter; (ii) em termos regionais, uma opção mais sensível e complexa, pois pode “cair” para aspectos de “regionalismo” pouco fundamentado, mas que tem sempre “boa moeda”, por exemplo, na utilização de materiais locais, soluções pormenorizadas locais e cores locai; e (iii) em termos culturais, numa opção ainda mais sensível e complexa, mas que podemos exemplificar aqui pela negativa, considerando que, por exemplo, um “chalé suíço”, por muito “doméstico” que seja será sempre um intruso em Portugal.

A segunda faceta aqui considerada refere-se ao desenvolvimento de uma forte base simbólica, através de formas e elementos com esse tipo de conotação, designadamente, ligada ao mundo doméstico real e histórico, e que podem ser relativamente singulares – como são, por exemplo, os casos de uma chaminé evidenciada (onde até, quem sabe, possamos quase entrar ou entrar mesmo) e de uma janela expressivamente marcada e contendo ela própria um certo sentido de espaço (lugar-janela) - ou serem bastante globais e aqui um óbvio exemplo é o de uma habitação unifamiliar com a forma geral directamente associada à ideia vernácula/infantil que fazemos de “uma casa”; mas há muitos mais exemplos destes tipos particulares ou globais de elementos e são exemplos que podem cobrir também o estender do habitar sobre o espaço público e a própria formalização de partes pormenorizadas da cidade.

A terceira faceta aqui considerada como potencialmente caracterizadora da domesticidade, é, como tinha de ser, essencialmente humana, tendo a ver com uma auto-caracterização humana efectiva, que é frequentemente servida por ambientes domésticos e vizinhanças residenciais muito tratadas, “povoadas”, marcadas e apropriadas, sendo que talvez o principal tema deste desenvolvimento seja um sentido “doméstico”, que se considera por natureza embebido ou associado a um enorme leque de objectos e elementos de mobiliário e decoração – o que configura mais um tema com grande potencialidade de desenvolvimento.

A quarta faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade é, naturalmente, sociocultural e decorre de todo um amplo leque de continuidades de relacionamentos humanos, físicos e paisagísticos: relações geracionais; relações aprofundadas e/ou dinamizadas entre pessoas, locais e ambientes; raízes socioculturais; aplicação de escalas adequadas e ligadas às “dimensões” humanas de corpo e de usos; e, por fim, o manejar de ambientes muito caracterizados e específicos, marcados por elementos fortes e/ou local e/ou regionalmente típicos/caracterizadores (por exemplo, grande árvore, bosque denso, grandes pedras, vista ampla, vista urbana íntima, enfiamento urbano estimulante, etc.).

Pode levantar-se a questão se muitos destes “motivos” não serão, tanto ou mais, elementos de atractividade do que de caracterização residencial? A ideia que tenho, por agora, é que realmente há conotações domésticas em muitos destes temas, que são bastante evidentes quando experimentamos as respectivas situações, embora sejam dificilmente recionalizáveis e portanto explicáveis ...



Fig. 06

6. Ainda sobre a natureza da domesticidade

Pegando nesta última questão, chegamos, novamente, ao tema da principal natureza da domesticidade, e nesta matéria Rybczynski (4) defende que ela corresponde “a um conjunto de emoções sentidas, e não a um único atributo. Ela está relacionada à família, à intimidade, à devoção ao lar, assim como a uma sensação da casa como incorporadora – e não somente contentora – desses sentimentos. Foi a atmosfera da domesticidade que permeou as pinturas de de Witte e de Vermeer. O interior não era só um ambiente para atividades domésticas – como sempre havia sido – mas os cômodos, os seus objetos, agora adquiriam vida própria... .... O verdor inglês, a cultura inglesa, o conforto inglês, vistos sob o sol claro, que não era opressivo.» O conforto não deveria ser dramático, mas calmante. Ele deveria parecer «natural», mas, como o jardim inglês ou a casa inglesa, era cuidadosamente arquitetado” (p.129).

Na mesma obra Rybczynski defende que o “conforto doméstico envolve toda uma gama de atributos – conveniência, eficiência, lazer, bem-estar, prazer, domesticidade, intimidade e privacidade –... Esta percepção envolve uma combinação de sensações – muitas subconscientes – não só físicas, mas também emocionais e intelectuais, o que torna o conforto difícil de se explicar e impossível de se medir. Mas isto não o torna menos real...”. (p. 236)

E o citado autor conclui que “precisamos redescobrir por nós mesmos o mistério do conforto, pois, sem ele, as nossas casas realmente serão máquinas em vez de lares”, e podemos aproveitar o actual tempo de mudança na própria natureza do nosso habitar interior – incluindo lazer e trabalho – e exterior – compatibilizando a cidade rodoviária e a pedonal – para irmos cuidadosamente reinventando as tipologias domésticas e edificadas (multifamiliar), contemplando nelas o que considerarmos ser de recuperar do “velho” sentido de ambiente doméstico.

7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção

Sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar, no entanto, uma riquíssima expressão urbana e ambiental, marcando os espaços públicos ou de uso público que preenchem núcleos residenciais de vizinhança próxima bem caracterizados; e não se trata aqui, novamente de um estímulo cénico e ambiental ao convívio na proximidade do habitar, mas tão somente de uma marcação da cidade habitada, da cidade onde começam os nossos pequenos mundos privados e onde apreciamos que estas nossas capas de identidade se misturem, com alguma ordem, com a identidade da parte da cidade ou bairro que habitamos. Nesta perspectiva alguns dos melhores exemplos portugueses, em termos desta evidenciação pública e natural de um conteúdo expressivamente residencial, são encontrados nos Bairros de Alvalade (respectivas “células sociais”) e Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa; sendo que, tal como chegou a referir Teotónio Pereira há vários pequenos “Alvalades” espalhados pelo País.

Esta possibilidade de uma cidade incluir espaços urbanos caracterizadamente domésticos é muito rica em termos das imagens que podem ser produzidas e dos seus contrastes com outros tipos de imagens urbanas mais comerciais, mais institucionais, mais naturais, etc. E trata-se, também, de mais uma maneira de negar uma uniformidade urbana descaracterizadora e nada emocionante. No entanto, e tal como se tem vindo a repetir, estamos a tratar com uma matéria muito sensível e que pode resvalar, rapidamente, para soluções negativamente marcadas por aspectos “gratuitamente” visuais e sem consistência humna, cultural e citadina; pelo que há que actuar de forma muito cuidadosa e com a participação de projectistas capazes de garantir sínteses equilibradas no que se refere a este tipo de intenções.

Ainda ao nível urbano e igualmente nesta perspectiva estrategicamente residencializadora importa sublinhar o importante papel do designado “verde urbano”, que pode e deve ser usado de forma tão intensa como devidamente ponderada no sentido de uma total harmonização com os partidos de concepção arquitectónica aplicados em cada local. E a referência a uma desejável “intensidade” na introdução do verde urbano justifica-se pois só assim ele pode ter presença activa e protagonista em termos visuais e ambientais, sendo que é infelizmente muito frequente uma sua introdução “envergonhada” e ridiculamente pontual, assim como também, por vezes, acontece uma sua introdução pouco adequada e fundamentada em termos de participação equilibrada nas respectivas imagens urbanas.

O uso adequado do verde urbano tem múltiplas vantagens para a saúde, para o ambiente do dia-a-dia, para a fixação de carbono e, tal como é aqui apontado, para uma forte expressão residencial das zonas urbanas onde é introduzido, e sem dúvida assume um papel efectivo, mas habitualmente secundário – ou, quem sabe, secundarizado –, na concepção arquitectónica residencial, podendo, eventualmente ter uma importância mais efectiva em casos específicos de tipologias menos massivas e mais tradicionais em termos de continuidade urbana; mas atenção tais caminhos obrigam a um adequado trabalho profissional de “arquitectura” paisagista no seu desenvolvimento e um trabalho realizado em grande conjugação com a concepção urbana global e pormenorizada de cada zona, caso contrário será evidente uma “manta de retalhos” conceptual muito pouco digna no seu efeito final.

Nestas matérias e sublinhando a importância do verde urbano como factor de expressão residencial evidenciada dos espaços públicos registam-se as actuais acções de requalificação, designadas de “residencialização”, das massivas operações de HLM francesas, operações estas dispendiosas, que exigem grande capacidade profissional e têm forte sensibilidade conceptual, mas onde fica bem evidente a forte e positiva influência da aplicação cuidada e completa de “verde” urbano na humanização de conjuntos residenciais, basicamente, sem continuidades urbanas e constituídos por edifícios altos e isolados; uma lição que pode ser replicada noutras situações do tipo, embora eventualmente menos graves, e existentes em Portugal.


Fig. 07

8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados

a) A domesticidade nos espaços públicos

A domesticidade no espaço citadino é factor de escala humana e condição contrária a uma massificação monótona e anónima que marca, infelizmente, sólida presença em muitos espaços públicos.

Para além deste importante papel a domesticidade pode ser responsável pelo desenvolvimento de agradáveis e vitalizadoras “ilhas” ou “oásis” residenciais em meios urbanos menos propícios para um viver calmo e gratificante; e nesta perspectiva a domesticidade pode ser uma qualidade estratégica nos espaços públicos de conjuntos residenciais integrados em zonas urbanas “centrais” e/ou muito animadas.

Em todos estes aspectos a domesticidade joga com elementos básicos de composição urbana, destacando-se o equilíbrio da escala edificada e da integração global e especificada (“leque” de diversos aspectos), a escala humana evidenciada, o verde urbano bem integrado, expressivo e estruturador (com a sua influência real e que pode e deve ser devidamente justificada) , e a ligação a naturais elementos simbólicos ou fortemente característicos de espaços habitados e acolhedores (ex. chaminés, beirados, etc.), evidenciados como caracterizadores das respectivas imagens urbanas.

Ainda sobre a relação entre o verde urbano e a domesticidade, podemos comentar e apontar, em seguida, e em termos de exemplos talvez significaticos: que ele suaviza globalmente os espaços edificados; que ele assegura “pontes” e relações de continuidade em sítios onde existiam hiatos entre edifícios e construções; que ele preenche espaços públicos antes criticamente vazios; que ele caracteriza e regista a relação da escala humana um pouco por todo o lado no espaço público, pois os principais troncos/bases das árvores e muitos arbustos têm aproximadamente a dimensão da altura de uma pessoa; que ele forra e reveste grandes superfícies que sem estas condições estariam “nuas” e agrestes em terra à vista; que ele diversifica o ambiente urbano com múltiplas imagens de pormenor (enorme diversidade de espécies com enorme diversidade formal) que serão muito adequadas a uma grande diversidade de gostos dos habitantes e assim positivamente apropriadas, numa perspectiva de amigabilidade das intervenções que é outra faceta da domesticidade; que ele é capaz de nos oferecer verdadeiras “casas” naturais cheias de sentido simbólico, através de pequenos bosques e túneis de vegetação; e, finalmente, que o verde será sempre associado à terra, à produção de alimentos e, assim, também ao sentido doméstico.

Importa ainda referir aqui que outros elementos naturais, e designadamente as rochas aparentes, a madeira, a areia e as superfícies aquáticas ou mesmo a simples presença de água, também participam na construção de espaços expressivamente marcados por um sentido residencial, de estadia, de calma, de apropriação e de protecção. Mas temos de sublinhar que em termos de custo-benefício há soluções mais, ou menos, viáveis, e provavelmente o verde urbano será ainda a ferramenta mais disponível, a não ser quando o contexto, ele próprio, proporcione outro tipos de elementos naturais e conotados com um certo sentido rústico ou vernáculo, muito associado à referida residencialização.

E ainda neste tipo de perspectiva há que sublinhar o interesse da aplicação de elementos em betão armado à cor natural e com marcas visíveis das respectivas cofragens, e, de forma geral, a estratégia de se mostrar a verdade dos materiais, que é também um caminho privilegiado de uma adequada expressão de residencialidade e de habitat humano, que tem forte potencial de aplicação nos espaços públicos e na envolvente dos edifícios.

b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios

No que se refere à expressão evidenciada da presença da habitação e dos múltiplos “contornos”, “cenários” e pormenores domésticos nas vizinhanças de proximidade há que salientar, desde já e naturalmente, que será aqui, neste nível físico, que será mais adequada e potencialmente preponderante a aplicação dos aspectos que acabaram de ser referidos para a domesticidade nos espaços públicos.

Mas no entanto e a este nível da vizinhança de proximidade das habitações, nestas ruas, ruelas e pracetas residenciais, expressiva ou dignamente domésticas, há um aspecto que marcará tanto esse sentido doméstico, como os elementos embebidos no espaço público: trata-se da diversidade de delimitações exteriores entre público e privado e de transparências de vãos domésticos sobre o exterior público.

Esta é mais uma daquelas matérias que, por si só, pode dar lugar a desenvolvimentos específicos e muito estimulantes, sendo uma perspectiva que, sublinha-se mais uma vez, praticamente nada tem a ver com as opções formais da respectiva concepção arquitectónica e urbana, sendo tão válida numa zona relativamente vernácula e tradicional, como numa zona modernista; dependendo naturalmente e sempre da respectiva qualidade arquitectónica.

Realmente a domesticidade é uma qualidade que impressiona e caracteriza uma vizinhança e mesmo um bairro: nos muros a média altura ou expressivamente altos, na sua constituição e aberturas neles praticadas; nas vedações naturais ou semi-naturais e nas respectivas vistas proporcionadas sobre os espaços exteriores privados; e na rica complexidade de conteúdos privados estrategicamente visíveis a partir dos caminhos públicos que servem as entradas “secretas” e alternativas das habitações térreas.

E a domesticidade ou expressiva caracterização residencial impressiona também nas vistas que são possíveis relativamente a varandas, terraços e vãos privativos, e onde é expressa a identidade e alguns conteúdos seleccionados dos respectivos espaços domésticos; sendo que há varandas e há vãos cujas “profundidades” e pormenorizações proporcionam elevados potenciais de apropriação e de expressão dos referidos elementos domésticos – pormenorizações essas nada complexas e que podem passar, seja por pequenos “poiais”, que aceitam alguns elementos decorativos e identificadores, seja por vãos que aceitem bem cortinas e até, eventualmente, pequenos espaços de transição e de relação entre essas cortinas e o vidro exterior, tal como acontecia nas velhas habitações com paredes espessas, que são espaços excepcionais para se evidenciar a domesticidade e para se criarem, simultaneamente, limiares de privacidade e pequenas “câmaras” de “descompressão” que ajudam ao próprio conforto ambiental.

E nesta envolvente directa do espaço privado interior, na pele do edificado, o verde urbano encontra um óptimo e diversificado pano de fundo, proporcionando-se um grande leque de soluções de fusão entre edifício e verde, desde os terraços e as coberturas, ajardinadas, às varandas transformadas em pequenos jardins, aos pátios semi-urbanos e semi-privados e marcados pelo verde (até pontualmente), às simples mas efectivas soluções com floreiras e mesmo com vasos de plantas nas fachadas. E em todos estes casos a carácter doméstico ai realçado.

E assim, sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar uma riquíssima expressão urbana e ambiental em núcleos residenciais de vizinhança próxima, que acabam por transparecer essa qualidade na sua envolvente, proporcionando até que tais agrupamentos possam situar-se na vizinhança indirecta de espaços urbanos muito vitalizados.

Tudo isto tem a ver com a possibilidade de um urbanismo feito de escalas e relações mútuas harmonizadas, humanizadas e pormenorizadas; um urbanismo residencial feito ao serviço da pessoa, do habitante, redescobrindo e reinterpretando a forma histórica de se fazer cidade, tal como aponta Rudolf Arnheim (5), quando defende que “o desfiladeiro da rua é o reino da presença ampliada do homem, sendo por isso apreendido como forma”, citando, depois, Heide Berndt, quando este diz que “a rede de ruas, estreita e relativamente confusa, era funcionalmente apropriada a ruas que só serviam para dar acesso aos edifícios. Poucas ruas eram largas o suficiente para permitir a passagem de veículos. O elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas. As estreitas vielas eram determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada”... Mas “na era industrial a relação espacial entre edifícios e ruas altera-se. Com as crescentes exigências dos sistemas de transportes, as ruas tornam-se mais importantes que a disposição dos edifícios na determinação do plano geral da cidade e do centro desta.”

E citemos novamente o mesmo trabalho de Arnheim (6), quando este transcreve mais uma essencial afirmação de Christian Norber-Schulz sobre a forma da rua: “Para se tornar uma verdadeira forma, a rua tem de possuir um «carácter figural»”; o que se refere, sem dúvida, à tal “presença ampliada do homem”, apontada por Arnheim, ainda que seja, eventualmente, uma presença/”sombra.” E serão estas sombras positivas que deverão ajudar a configurar as vizinhanças tão expressivamente urbanas como residenciais.



Fig. 08

c) A domesticidade nos espaços edificados

A domesticidade é natural no interior das habitações e pode, a partir delas, e designadamente dos seus prolongamentos, invadir os espaços comuns, transparecer em fachadas e empenas e prolongar-se por locais exteriores privativos e/ou com imagem pública, acentuando, neste caso, a influência de um afirmado carácter residencial – acolhedor, humanizado, intimista e mesmo parcialmente interiorizado – nas vizinhanças de proximidade.

A domesticidade nos espaços edificados tem de ser aproximada, tanto na pesquisa e no desenvolvimento de tipologias humanizadas, ligadas com a máxima identidade em cada habitação e com a máxima relação entre cada habitação e a sua envolvente comum e pública, como com a pesquisa de espaços comuns que harmonizem funcionalidades com uma activa expressão residencial e sentido equilibrado de comunidade com apropriação individual e familiar, espaços comuns que contenham um verdadeiro e confortável sentido de habitar (exemplo, luz natural, acabamentos, arte, etc.), não se reduzindo a meras ligações funcionais no estrito sentido de funcionalidade, e ainda com relacionamentos atraentes e estimulantes entre estes espaços comuns e as respectivas envolventes térreas e paisagísticas, relacionamentos que podem se apenas ambientais, ou também funcionais e espaciais, inventando-se “novos” pequenos territórios; e tudo isto, no seu conjunto irá dar corpo a um sentido agradavelmente residencial associado, por exemplo, a um edifício multifamiliar que pode até uma dimensão relativamente significativa – mas sem se ultrapassarem limites de bom senso.

Numa perspectiva de contraste, relativamente, aos apontados caminhos da humanização e expressão residencial dos edifícios habitacionais, registam-se, em seguida, os aspectos negativos, em termos de saúde física e psicossocial, que são habitualmente associados a grandes edifícios, sem escala humana e sem identidade, cruzados por “infindáveis e anónimos” espaços comuns:

A saúde das crianças ressente-se, tanto por doenças respiratórias motivadas pela habitual insuficiência de espaço nos apartamentos, como por incidência de desordens psiconeuróticas resultantes do confinamento e do isolamento social. As crianças confinadas têm de brincar e fazem ruído, que nos espaços pequenos dos apartamentos, provocam incómodos e embaraços, tanto na vida familiar, como nas relações entre vizinhos; aumentando, mesmo, a sensibilidade relativamente aos níveis de ruído considerados aceitáveis (até porque se teme que o ruído perturbe os vizinhos).

As pessoas que vivem nos andares mais altos tendem a sair menos à rua do que as que vivem em andares onde podem prescindir do uso dos elevadores; a demora e a pouca vontade de privar com vizinhos desconhecidos na apertada cabina do elevador e eventuais considerações ligadas a possíveis situações de insegurança no percurso (especialmente se este for longo e pouco visível/antecipável), podem ser mais do que suficientes para que não se vença a inércia natural de quem está confortavelmente no seu lar; e, mais uma vez, fortemente prejudicados estão os muito novos, porque não devem usar sozinhos os elevadores, e os muito idosos, que se deslocam com dificuldade.

A solidão nos enormes blocos de apartamentos incide, também, basicamente, sobre as pessoas que não trabalham fora de casa, a não ser que estejam instaladas perto de familiares e de pessoas amigas ou conhecidas; de outro modo, a obrigação de passar à frente de muitas portas fechadas e de atravessar longos e inóspitos espaços comuns, aliadas à visão miniatural que se tem, a partir das janelas da casa, sobre a envolvente exterior, resulta num forte efeito de isolamento e afastamento, que se faz sentir, essencialmente, sobre quem não tem de abandonar, diariamente esse meio. Mas o isolamento acaba por se generalizar, quando qualquer necessidade/vontade de comprar algo tão corrente como, por exemplo, um jornal, obriga a percursos horizontais e verticais longos e inesperados, em termos de encontros, para, finalmente, e com frequência, se ter de pegar no carro e ir longe, afinal, tantas vezes por causa de uma “ninharia”; motivo este que, em outras condições habitacionais mais humanizadas, estava quase sempre associado à sã oportunidade de um convívio natural e esporádico.

E tudo isto se liga a uma quase total negação de um sentido de habitação devidamente humanizado e expressivamente doméstico, que é aqui erradicado ao serviço de verdadeiros “armazéns habitacionais” em que o único cuidado com os utentes serão aspectos regulamentares de acessibilidade e segurança; e o resultado ficou à vista, desde há bastantes anos, nos motins nas “cités” francesas entre os arrabaldes de Lyon e de Paris, numa situação que, naturalmente, não resulta apenas desta situação – há toda uma falta de lógica em termos de localização, acessibilidades urbanas e vida urbana (só para falar das matérias de Arquitectura) –, mas que é agravada pelo desamor e mesmo pelo desprezo com que se trata muito realojamento, e não só nessas periferias, naturalmente.

d) A domesticidade nas habitações

Quando tratamos de edifícios unifamiliares e, globalmente, quando abordamos o espaço privado da habitação estamos, evidentemente, no “santuário” da expressão residencial e identitária, fortemente associada à respectiva capacidade de apropriação.

E no interior doméstico como é possível humanizar e caracterizar domesticamente uma unidade/fogo? Como é que o “alojamento” se torna “habitação”, no sentido de espaço habitado/marcado por quem o vive diariamente, e que vai marcando, desejavelmente, de forma positiva esses seus habitantes?

Com que elementos e composições de elementos (por exemplo: uma lareira evidenciada, a organização expressiva de uma grande cozinha, a evidenciação de uma escada em madeira)? Com que acabamentos e cores? Com que relações interior/exterior (por exemplo lugares/janela)? Com que ...?

As condições para um aumento da domesticidade, como fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer, veja-se o vídeo, a televisão panorâmica, os equipamentos de alta fidelidade, as consolas de jogos, os computadores pessoais, os elaborados equipamentos de telecomunicação que permitem fazer muitos trabalhos em casa, os serviços de entrega de compras e de refeições prontas ao domicílio, a TV por cabo e as antenas parabólicas ligando o lar ao mundo, os variados e aperfeiçoados equipamentos de auxílio nos trabalhos domésticos, etc.

Sendo assim talvez que a batalha deva ser tanto a de proporcionar excelentes mundos domésticos, daqueles dos quais não nos apatecerá sair, como enriquecer e tornar extremamente útil e atraente a envolvente directa e de uso público desses mundos pessoais e familiares, levando-nos a sair deles com frequência, pois logo ali podemos continuar a encontrar uma outra forma de caracterização residencial e doméstica, que nos continua a apoiar e a fazer-nos sentir “em casa”, mas que também nos propicia um convívio mais alargadao e a relação estimulante com a cidade, numa oferta que tornará o nosso jogo da glória diário, entre trabalho e casa, muito interessante.

E para tal interesse também contribuirão: a caracterização doméstica de partes do ambiente de trabalho; e a caracterização equilibradamente profissional de partes do ambiente doméstico.



Fig. 09

9. Carácter e importância específica da domesticidade

As margens da domesticidade ligam-se a aspectos marcantes de conforto ambiental e de presença de aspectos elementares da criação como o fogo, a água e uma natureza dominada, a conjugações especiais de funções e espaços domésticos, e nelas a relações marcantes entre interior e exterior, a imagens pontuadas por símbolos de privacidade e apropriação, a pormenorizações ligadas a conteúdos telúricos e simbólicos, e a uma envolvência gradual mas forte por ambientes cálidos e expressivamente confortáveis, onde a luz e o sol, o verde e os seus reflexos forram suavemente espaços interiores ou interiorizados que nos protegem e amparam nas nossas relações com o exterior público, e que tornam a nossa vida doméstica mais rica e significante.

A domesticidade liga-se, basicamente, à interioridade e ao conforto, será também, frequentemente, uma certa e bem equilibrada intimidade, muitas vezes difícil de caracterizar, mas claramente aparente.

Faz-se notar que condições para um aumento da domesticidade, como a fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer com a ampla disponibilidade de serviços ao domicílio e com o rápido crescimento do trabalho doméstico.

Ao nível público fica o desafio, que se julga importante, no sentido do desenvolvimento de ambientes de vizinhança residencializados/domésticos como factores de dinamização da apropriação pelos habitantes e da identificação com o sítio que habitamos.

10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial

Em termos de reflexão geral apuram-se, para já, os seguintes aspectos.

Estamos, assim, entre a casa e o bairro, desejando uma cidade habitada – humana e vitalizada – e um sítio de trabalho humanizado, pois neste passamos quase um terço da nossa vida. E se estamos entre a casa e o bairro estamos em mundos potencialmente muito envolventes e expressivos de domesticidade. E desta forma chegamos, desde já, a uma ideia que aponta a incoerência de tudo o que aposte em escalas físicas que “esmaguem” a escala humana e de tudo aquilo que não integre um essencial conjunto de serviços de proximidade adequados ao nosso dia-a-dia.

E se formos às ruas deste mundo de proximidade, a dois passos do nosso quarto e da nossa sala, não há qualquer razão para que tudo o que aí se passa não se passe com o vagar, o cuidado e a protecção que gostamos de ter em nossas casas.

E nesta lógica de “habitar a cidade”, que se considera vital para a urgente teabilitação urbana, chega-se, naturalmente, ao potencial surgimento de novas espécies de espaços e de novos tipos de escalas de habitar, em que a casa se torna pólo de comunicação com o mundo (7), podendo a cidade começar a funcionar um pouco como a extensão do espaço doméstico, e , quem sabe, vice-versa; isto numa perspectiva potencialmente bem ligada a uma reforçada activação da funcionalidade dos espaços públicos e domésticos; aspectos que merecem uma urgente reflexão e discussão.

Em termos dos desenvolvimentos que são, desde já, possíveis nestas matérias da domesticidade urbana e residencial, sintetizam-se os seguintes temas de estudo.

O interesse em se aprofundarem os aspectos que marcam uma expressão residencial reforçada em zonas específicas do espaço público e na envolvente próxima das habitações, estamos a pensar, por um lado nas questões organizativas e “estruturais”, que têm a ver com a escala geral da intervenção, com a organicidade ou com a depuração e racionalidade das suas principais formas edificadas e “vazias”, e com a opção funcional em termos de uma expressiva predominância pedonal, embora funcionalmente bem sustentada, e, por outro lado, estamos a visar as questões de preenchimento e pormenorização, ligadas por exemplo, ao partido de verde urbano escolhido, ao “menu” de texturas e cores apurado e à própria “família” de elementos de design de equipamento (exemplo, luminárias) e de comunicação (exemplo, elementos informativos) escolhida – e, por exemplo, este “povoamento” do exterior tem grande importância na respectiva residencialização, ou, pelo contrário, constitui um erro de palmatória que põe em risco a referida expressão residencial.

O interesse que tem a identificação daquelas “famílias” de aspectos associáveis a uma expressão residencial intensificada da envolvente dos edifícios e que não tenham qualquer tipo de conotação com partidos formais específicos – por exemplo as expressões residenciais evidenciadas de um embasamento, de uma chaminé e de um vão de janela, podem ser “desenhadas” em diversas linguagens formais, sendo o resultado idêntico em termos de evidenciação da respectiva domesticidade.

E, finalmente: Será que temos verdadeira legitimidade na utilização destas “ferramentas” de expressão residencial reforçada? Uma questão que se pode ir sempre colocando, até para estarmos preparados para as situações em que tal expressão tem evidentes objectivos comerciais, mas sobre a qual há que referir, desde já, que se não se considerasse que é legítimo usar este tipo de elementos, não se teria abordado aqui a temática, que se julga ser bem distinta e, muitas vezes, complementar da atractividade, mas ligada, também a outras facetas qualitativas, com destaque apara a apropriação e a própria integração; sendo esta a última faceta qualitativa que é objecto deste estudo e que será, em seguida, abordada.

Gostaria, no entanto, de concluir esta reflexão sublinhando a efectividade e a significância em termos de “sentido de estar em casa na rua”, de “atmosfera” envolvente e de certa forma protectora – talvez porque ampliando verdadeiramente o ambiente doméstico sobre o exterior – que fica provada ao visitarmos, com um mínimo de calma e sentido de observação natural (imaginando-nos, verdadeiramente, habitantes), certas vizinhanças urbanas e residenciais, que são fortemente marcadas, cumulativamente e de forma mutuamente harmonizada, por um sentido global de ordenamento, por elementos directamente referidos à escala humana, por elementos da natureza e designadamente por árvores e arbustos e por sinais naturais de apropriação por parte dos respectivos habitantes; aqui, nestes locais, marcados pelos mais diversos “desenhos” arquitectónicos, sentimo-nos um pouco em casa numa rua que nem é a nossa, o que acaba por se constituir numa alavanca de excelente predisposição para se viver essa rua e eventualmente nela se poder conviver.

Mas há mais: há um certo sentimento de que aquelas habitações nos acompanham e protegem positivamente, que aquela escala edificada é realmente a nossa, como uma outra pele, e que aquelas janelas e portas, ali tão perto e que nos são, na prática “estranhas”, equilibram eventuais intrusões à nossa liberdade/privacidade no exterior por um agradável sentido de acompanhamento – e, na prática, tanto mais isto se sente, quanto mais aproximado a um unifamiliar densificado ou a um uni/multifamiliar for a solução, sendo muito importante a presença de acessos privados directamente ligados ao exterior público.

Mas salienta-se que, depois, quando passamos a soluções estritamente unifamiliares, ainda que, por exemplo, geminadas, esse tipo de sentido de convizinhança que abriga e integra bem a individualidade de cada habitação, desaparece para dar lugar, frequentemente, a um sentimento de alguma “crispação” entre a presença dos limites das “moradias” e o uso do exterior público que lhe é contíguo.


Notas bibliográficas:

(1) Georges Simenon, "Maigret e os Cães Ferozes", pp. 7 e 8.

(2) Marina de Almeida Ribeiro, "O Simbolismo da Casa em Júlio Dinis", p. 93.

(3) Witold Rybczinski, "Domesticity", in "Housing: Symbol, Structure, Site", Lisa Taylor (ed).

(4) Witold Rybczynski, “Casa – Pequena história de uma idéia”, trad. Betina Von Staa, 2002 (1986).

(5) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.

(6) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.68.

(7) Farè e Silvia Piardi (dir.), “Nuove specie di spazi”, 2004.


Notas editoriais:
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Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
A caracterização doméstica do habitar
Infohabitar, Ano VII, n.º 366, 23 e Outubro de 2011

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