quarta-feira, outubro 31, 2007

"As cidades e a voz que as habita", um belíssimo texto; Comentários matinais 31Out07 - Infohabitar 166

 - Infohabitar 166

Apenas se refere e se sublinha que no site "antroposmoderno" está desde há pouco tempo disponível um belíssimo texto de Rafael Toriz, intitulado "Cartografias: Las ciudades - el lenguaje - y la voz que las habita"; um texto que muito se recomenda a quem goste de cidades, se preocupe pelo que de mal lhes está acontecer e tenha a noção que muito de bem ela nos têm dado e nos podem ainda dar.
O texto refeido fala por si, mas apenas para aguçar o apetite dos leitores se refere que se inicia com: "E todas as cidades do mundo sussurram dentro de mim" (Álvaro de Campos) e a certa altura Toriz escreve que ""O ser humano desejou, como deseja, habitar um lugar hospitaleiro para não ser mais um estranho a si mesmo"" e, depois, que "é a palavra o que torna legível as cidades, tornando-as humanas e deixando-nos a sua chave".

Acreditem que vale muito a pena mergulharmos num texto tão belo, em:
http://antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=1100

ABC

terça-feira, outubro 30, 2007

Blogue de Mário Cordeiro; Comentários matinais, 30 Out. 07 - Infohabitar 165

 - Infohabitar 165

Sobre Prof. Mário Cordeiro


Com este pequeníssimo comentário inaugura-se no Infohabitar uma nova secção, que aliás estava já em reserva há algum tempo, e que se refere a curtos comentários que podem ter a ver com uma determinada ideia, com uma determinada notícia de jornal e com um determinado evento que se queira marcar.
A ideia-base destes "comentários matinais" é, de certa forma, dar uma companhia e um certo complemento, espera-se quase diário, vamos ver o que se consegue - a uma edição semanal de "artigos de fundo", nome um pouco pomposo, que se irá manter no nosso Infohabitar e devidamente divulgada, tal e qual como tem acontecido.

A espoleta que levou ao comentário de hoje é excelente: trata-se do que se julga ser o início de edição de um blogue de um amigo, escritor e ilustre pediatra, o Prof. Mário Cordeiro; não seria preciso dizê-lo, mas o Prof. Mário Cordeiro é uma daquelas pessoas que, além de saber, faz verdadeiras pontes entre os saberes, e continua a ser uma pessoa como as outras! É muito com essas pessoas que podemos construir o futuro.

E assim se convidam todos os leitores do Infohabitar a uma excelente viagem (n)" o espaço azul entre as nuvens " que está já aqui em em http://www.azulnuvem.blogspot.com/

E tal como diz Mário Cordeiro, a quem daqui se envia um grande abraço "boas leituras e melhores comentários".

ABC

quinta-feira, outubro 25, 2007

O habitar, da proto-história aos romanos – Paços de Ferreira 12 e 13 de Outubro - Infohabitar 164

  - Infohabitar 164

Viagem por 50.000 anos de história do habitar em Portugal

O Habitar e a História I

 Paços de Ferreira, 12 de Outubro de 2007:
relato de António Baptista Coelho


O Grupo Habitar é uma associação técnica e científica multidisciplinar e sem fins lucrativos, sediada actualmente no Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil. O Grupo foi criado, em 2001, por pessoas com muito variadas formações e práticas profissionais, todas ligadas aos amplos temas do habitar a casa, a cidade e a paisagem, discutindo e divulgando os aspectos qualitativos das novas intervenções e das urgentes acções de regeneração urbana.

O GH aborda estas matérias em encontros temáticos e em visitas, tentando estabelecer pontes efectivas com saberes que também muito têm a dizer sobre a qualidade do habitar, mas que muitas vezes têm sido dela afastados, como é o caso da História. Sublinha-se, desde já, que, tal como aconteceu em paços de Ferreira, boa parte dos encontros e visitas do GH têm participação livre e, portanto, não limitada aos respectivos associados.

A propósito da 1ª Visita Alargada do Grupo Habitar (GH), realizada com a fundamental cooperação da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, em 12 e 13 de Outubro de 2007, intitulada “O Habitar e História I”, faz-se, primeiro, o relato informal da extraordinária sessão em que se teve a oportunidade de acompanhar 50.000 anos de história do nosso habitar, em Portugal, através das intervenções dos historiadores e investigadores, Armando Coelho, Lino Tavares Dias e Mário Varela Gomes e de uma visita pormenorizada e comentada à Citânia de Sanfins de que se faz aqui um registo fotográfico. Termina-se este artigo com os respectivos e devidos agradecimentos públicos por esta inesquecível jornada que, felizmente, colocou bem alta a fasquia de próximas Visitas Alargadas do GH.


Fig. 01: divulgação da Citânia de Sanfins


O Habitar e a História I teve a sua primeira e fundamental sessão no salão nobre do edifício da Câmara Municipal de Paços de Ferreira. Em seguida faz-se um relato “informal” e de trabalho que é apenas isso e que se deseja não contenha muitas imperfeições ou mesmo erros científicos. Mas entre correr este risco e não fazer o testemunho e o registo de uma manhã verdadeiramente única, onde se teve a oportunidade de ter uma vista geral e ricamente sequencial da história do habitar, em Portugal, desde cerca de 50.000 anos a.C. até ao Império Romano, optou-se pelo risco certo de se editarem imperfeições e incorrecções, que se espera não sejam muito graves e que são, desde já, assumidas pelo relator desta sessão e deste texto, apresentando-se desde já as devidas desculpas aos autores das intervenções.



Fig.02: mesa de abertura dos trabalhos, com o Senhor Vereador Dr. António Coelho, e com o Arq. Paulo Bettencourt, um dos organizadores deste encontro


E desde já se endereça aqui um muito sincero agradecimento aos professores Mário Varela Gomes, Armando Coelho e Lino Tavares Dias pelo privilégio de uma tão apixonante lição conjunta sobre tantos anos de habitar, um privilégio que se estendeu depois pela visita à Citânia de Sanfins.

Transcrevem-se, assim, de seguida, segundo a ordem das intervenções temáticas, e com grande informalidade (e “carácter telegráfico”), algumas notas do muito que foi apresentado na Câmara Municipal de Paços de Ferreira na manhã do dia 12 de Outubro de 2007.



Fig. 03: Mário Varela Gomes


Mário Varela Gomes: a proto-história de Portugal


O homem viveu esporadicamente em grutas, mas apenas esporadicamente e à entrada das grutas em pequenos abrigos sob rochas.

O homem é um construtor de “habitares”.

Desenvolveu sempre uma ligação com o fogo, numa perspectiva de “lar” e num binómio marcado : pela construção/edificação da protecção; e pelo “fogo” estruturador da família e agregador de grupos humanos.

Os vestígios apontam como um dos primeiros “habitares” construídos as cabanas (feitas com ramagens) em Terra Amata que datam de cerca de 350.000 anos a.C.; cabanas com cerca de 8/10 m de comprimento.

Em Portugal os primeiros vestígios encontrados datam de cerca de 55.000 a.C., já referidos a Neandertais, localizados em Vilas Ruivas, na zona de Vila Velha de rodão, são dois abrigos do tipo pára-ventos, com marcas de ramagens e estruturas de combustão, e que se encontram referidos no Museu de Castelo Branco.

Posteriormente, cerca de 15.000 a 12.000 a.C., já no Paleolítico Superior encontramos vestígios de cabanas ovóides com a menor dimensão horizontal com cerca de 3m e com vestígios de estruturas de combustão junto do único acesso numa das extremidades.

No Mesolítico cerca de 7.000/8.000 a.C. nos Concheiros de Muje há vestígios dos primórdios do planeamento urbano, numa zona ampla – com um diãmetro de cerca de 40/50m – em que há vestígios de uma sequência de: necrópole de adultos; zona de habitação; necrópole de crianças. Havendo ainda vestígios de áreas económicas específicas (era já a altura da domesticação de animais).

As cabanas teriam diâmetro de cerca de 5m e poderiam ser desenvolvidas apenas em semi-círculo com sítios de dormir organizados radialmente em torno de uma lareira central e interior, interiormente havia ainda zonas de armazenamento; haveria depois uma lareira exterior maior (ex., para tratar o sílex).

Foram realizados “paralelos etnográficos” com cabanas de esquimós que são ainda hoje usadas – e não resisto a fazer aqui um comentário sobre o interesse de poder vir a utilizar este tipo de ferramenta de análise noutros contextos de estudo do habitar e da cidade.

Outros modelos ovóides chegavam a ter 6m na sua zona horizontal mais estreita e nesse caso, com uma única abertura, sendo que na extremidade fechada (oposta) era a zona de armazenagem, foram encontrados potes.

Do Neolítico tardio foi encontrada uma cabana longa, com “duas águas”, com cerca de 3m de largo por 18m de comprido e também com aberturas laterais na zona de Sines.

De cerca de 5.000 a.C. num sítio com vestígios islâmicos foi descoberta a “primeira aldeia portuguesa”, composta por cabanas alongadas e rectangulares, moduladas nas respectivas estruturas de suporte; percebendo-se que as casas alongadas substituíram com sucesso as ovais. As casas longas distribuem-se no espaço definindo e de certa forma delimitando o espaço do povoado, um espaço aproximadamente rectangular, sendo que no respectivo miolo e no seu “tecido conjuntivo” se encontram silos, um depósito de água (“estrutura negativa”) e sepulturas. As coberturas são em duas águas ou numa única água.

Cerca de 4.000 a.C. terá havido stress social, provavelmente ligado ao desenvolvimento da pastorícia e passamos para a idade do cobre marcada pelo desenvolvimento de cidadelas centrais e casas envolventes defendidas por muralhas, bastiões, torres e barbacâs, em dispositivos defensivos por vezes muito complexos – a complexidade seria também um facor de melhoria das condições de defesa.

A construção passa então a ser feita em pequenas pedras transportáveis e também em taipa e adobe; isto por exemplo no Zambujal e em Torres Vedras. As casas são circulares com bancos envolventes e um sítio de fogo central.

No final do Calcolítico os povoados são abandonados, desenvolvendo-se quintas e casais com casas com uma parte central oval envolvida por pátios ou outros espaços complementares aproximadamente concêntricos, com dimensões maiores de cerca de 12m; tais espaços complementares e envolventes podem não ter um uso como pátio mas sim, por exemplo, como espaços fechados por pórtico para arrumações (vestígios na Beira Baixa).

Desta altura, cerca de 2.000 a.C., data o vestígio da casa no Pessegueiro, arredondada e feita de madeira com pórtico em pedra.

A par desta evolução desenvolvem-se os grandes opida fortificados, por ex. com entrada sob uma grande torre, e há o desenvolvimento de feitorias com construção do tipo mediterrânico, provavelmente com influência fenícia e colonial, por ex., em Abul, ilha no Rio Sado, Alcácer do Sal, num conjunto de torre e grande edifício quadrangular (lado com cerca de 45m) com dois pisos e pátio central, sendo que neste pátio haveria uma ara votiva; os alicerces eram em pedra e a construção restante em taipa.

Desenvolveram-se bandas de edifícios quadrangulares com espaços murados privados ou semi-privados e por vezes com pátios pequenos multiformes, também em taipa; a organização do espaço doméstico era feita em torno do fogo num grande compartimento, havendo em anexos outros espaços de arrumação (escuros e frescos) e para usos específicos; exteriormente há por vezes bancos corridos que fazem também contraforte. Isto do 8º ao 5º milénio a.C.



Fig. 04: Armando Coelho


Armando Coelho: da aldeia à cidade no 1º milénio a.C. (Proto História de Portugal)


O povoado está ligado á família alargada (ex., família cigana actual), que integra cerca de 60 a 80 pessoas e ocupa uma área elevada com cerca de 500 a 600m2.
No Norte de Portugal haveria provavelmente uma população de cerca de 500.000 habitantes em cerca de 6.000 sítios. Organizam-se em “lugares centrais” que quase coincidem com as freguesias.

Cerca de 1.000 a.C. Cartago é fundada.

No que se refere á casa desenvolve-se o interesse em perdurar e na sedentarização; as fundações passam a ser de pedra, em algumas casas, e desenvolvem-se muralhas de pedra.

Nesta altura o Porto era o “porto” e o castelo de Gaia o castro.

Há contacto com invenções como a roda de oleiro. As casas crescem. Os povoados crescem, o Porto tem 2 Ha. O litoral é muito aproveitado. As muralhas antes frustes são reforçadas por causa dos vizinhos, e surgem os romanos por vezes através de pactos.

Aperece então Sanfins, assim como outros grandes povoados; Sanfins é um lugar central, que nasceu grande. A presença romana na zona é muito concentrada em Braga e Chaves.

Sanfins nasce grande e sob influência romana transforma-se numa cidadela, com uma estrutura urbana regular de vias ortogonais e com pequenos bairros formados por casas-pátio em bandas contínuas laterais e costas com costas. É um “lugar central” com equipamentos públicos, como será o caso de uma praça e de dois edifícios para banhos públicos do tipo sauna e provavelmente associados a aspectos esprituais e religiosos.

Cada casa com cerca de 250m2 tinha diversas zonas funcionais – do forno à necrópole – e abrigaria entre 20 a 25 pessoas da mesma família ...



Fig. 05: Lino Tavares Dias


Lino Tavares Dias – a Arquitectura e a construção romana na periferia do império


Na sua intervenção o investigador abordou os aspectos do urbanismo romano e designadamente as matérias ligadas ao espaço público, aos equipamentps colectivos e ao espaço doméstico que marcaram a vida romana mesmo nesta extremidade ocidental do império.

A civitas é uma noção política de estruturação do território e não apenas uma estrutura física.

No século I as casas circulares foram desmontadas e instaladas casas com plantas rectangulares; e é interessante que o modelo da casa de Pompeia, com implúvio central, perdurou cerca de 300 anos e expandiu-se pelo império.




Fig. 06: Lino Tavares Dias


Assim como é muito interessante perceber-se que por exemplo em Tongóbriga, perto do Marco de Canavezes, os banhos públicos funcionaram e actualizaram-se, por exemplo com uma piscina exterior, continuamente ao longo de cerca de 300 anos.
Durante o império foi aplicado uma especie de projecto-tipo de habitação, marcado pelo clima mediterrânico, um clima que na altura no N de Portugal era mais estável e com temperaturas mais elevadas, havendo grandes florestas de carcalhos e castanheiros e água abundante. A casa-tipo era quadrangular em 2 pisos com forma de anel aberto num dos lados.


Fig. 07: alguns dos membros fundadores do Grupo Habitar durante o almoço: (esq. para a dir.)Baptista Coelho, Defensor de Castro, José Clemente Ricon, Dâmaso Silva e Guilherme Vilaverde.


Visita à Citânia de Sanfins: um breve relato e mais algumas palavras

Foi depois visitada a Citânia de Sanfins – que tem merecido escavações sistemáticas desde 1944 – , com um riquíssimo acompanhamento por parte do Prof. Armando Coelho, num constante comentar e explicar do que foi sendo visto e onde se sublinha um núcleo familiar reconstituído.

Datada de cerca do século I, a. C., mas com vestígios habitados que remontam a 500 anos antes de Cristo, a Citânia de Sanfins ocupa cerca de 15 hectares, oferece mais de 150 construções circulares e quadrangulares, associadas em cerca de 40 unidades domésticas, num espaço de habitar e urbano regularmente organizado e protegido por várias cinturas de muralhas.

Salienta-se, ainda, a existência no local de um núcleo habitacional reconstituído, uma unidade familiar, que acolhia uma família alargada com cerca de 20 a 25 pessoas numa área murada rectangular com cerca de 250m2 e onde estavam bem definidas diversas zonas funcionais interiores, exteriores e de transição interior/exterior.

A Citânia de Sanfins seria assim um dos “Lugares Centrais” a que se refere o Prof. Armando Coelho, “Lugares” esses que se tinham de proteger muito bem de vizinhos menos amigáveis e provavelmente cobiçosos dos bens e das artes que o início de um povoamento organizado iam proporcionando.

Em Sanfins houve cidade para além de ter havido toda uma estrutura funcional doméstica e, de certa forma, associada a uma determinada tipologia de organização do lar, como envolvente física, como sítio do fogo, como sítio da família em entre-ajuda e em companhia, e também, muito provavelmente, como base da perspectiva espiritual e religiosa muito relacionada com a natureza.

A cidade surgia de forma bem marcada, além do muro da casa-grande, e a cidade tinha estruturação racional que integrava geometricamente a unidade-fogo e tinha estruturação pública, que ainda hoje é bem perceptível, por exemplo em Sanfins, nos enfiamentos das ruas principais e das passagens mais estreitas e ortogonais, assim como nos vestígios de espaços públicos amplos e regulares e na introdução de equipamentos colectivos – “Banhos Públicos” – onde provavelmente as matérias da higiene e da saúde se ligavam às da espiritualidade e da religião.

Nesta matéria destaca-se a exposição que está patente no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), intitulada Pedra Formosa - Arqueologia Experimental em Vila Nova de Famalicão que tal como é referido no site do Museu se refere a “um conjunto arquitectónico pré-romano de banhos, construído no período castrejo. E no MNA está patente até 3 de Fevereiro de 2008, uma excelente reconstituição desses banhos, onde é possível e recomendável entrar, e uma reconstituição associada à apresentação da forma de viver dos povos de então, nuam exposição, a não perder, organizada pelo MNA e pela Câmara Municpal de Vila Nova de Famalicão, com comissariado científico do Prof. Armando Coelho Ferreira da Silva.

Visita à Citânia de Sanfins: sequência fotográfica

Fig. 08


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Fig. 19


Fig. 20

Regista-se que a Citânia de Sanfins é Monumento Nacional desde 20 de Agosto de 1946, e decorre, actualmente, o processo de candidatura dos castros a Património Mundial da Unesco.

Para quem não tenha estado com o GH nesta jornada “única” de 12 de Outubro de 2007 em Paços de Ferreira, sugere-se uma extraordinária visita dupla à Citânia de Sanfins e ao seu Museu, trata-se de uma rara oportunidade de viver a história, de sentir como habitavam e viviam os nossos antepassados. E deixa-se aqui expressa a vontade e a urgência de tirar o devido partido de um património único, que muito pode enriquecer a caracterização da região e do País; acreditem que é uma sequência única a visita a Sanfins, com a sua reconstituição de uma casa com quase 2.500 anos e depois entrar também na reconstituição dos “banhos” que também eram habitados por essa altura, trata-se de uma história viva e é fundamental que ela tenha o devido relevo e a devida divulgação em Portugal e fora de Portugal.

Desde já se recomendam os sites:

da Câmara Municipal de Paços de Ferreira:
http://www.cm-pacosdeferreira.pt/VSD/pacosferreira/vPT/Publica
e da Citânia de Sanfins:http://www.citaniadesanfins.com/in00/


Visita ao Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins

Sequencialmente e ainda na companhia esclarecedora dos Professores Armando Coelho e Lino Tavares Dias foi visitado o Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins, situado num edifício barroco designado por Casa da Igreja ou Solar dos Brandões, um local onde está devidamente apresentado o acervo encontrado na Citânia e que corresponde também a uma excelente intervenção arquitectónica (funcional, atraente, sóbria e caracterizada) do Arq. Manuel Furtado de Mendonça, uma pessoa muito ligada a Sanfins e a outras citânias do noroeste e um projectista que fez excelentes obras de reabilitação urbana e habitacional com uma carreira longa e marcante na equipa do CRUARB no Porto.

Fig. 21


Fig. 22


Fig. 23: maqueta do núcleo habitacional reconstituído da Citânia de Sanfins


Fig. 24: maqueta do núcleo habitacional reconstituído da Citânia de Sanfins


Fig. 25


Fig. 26



Debate no Centro de Arqueologia Castreja e Estudos Célticos

Para terminar a 1ª edição da 1ª Visita Alargada do Grupo Habitar, que foi subordinada ao tema “o Habitar e a História”, decorreu uma Sessão de debate no Centro de Arqueologia Castreja e Estudos Célticos, que está instalado num edifício contíguo ao Museu e que também “casa” de forma muito agradável o novo desenho de arquitectura com as velhas casas. O Centro de Arqueologia Castreja e Estudos Célticos é uma unidade de investigação e divulgação científica coordenada pelo Prof. Armando Coelho.

Fig. 27: no Centro de Arqueologia Castreja e Estudos Célticos



Agradecimentos

Agradecece-se à Câmara Municipal de Paços de Ferreira ao seu Presidente Dr. Pedro Pinto e ao Senhor Vereador Dr. António Coelho, pela vital cooperação nesta acção conjunta; um público e sentido agradecimento que também abarca a boa vontade pessoal para com esta iniciativa e a importância das intervenções dos historiadores e investigadores, Doutoras Albertina Marinho e Rosário Machado, doutores Armando Coelho, Lino Tavares Dias e Mário Varela Gomes, mas também de todos os restantes estudiosos e técnicos ligados à CM de Paços de Ferreira, à Citânia de Sanfins e à Rota do Românico, sem os quais estas excelentes jornadas não teriam sido possíveis.

E com um sentimento muito especial pois o Grupo Habitar está a ser, cada vez mais, um Grupo dinamizado por todos os seus membros, há que referir o precioso enquadramento dos associados do GH arquitectos Paulo Bettencourt, Maria João Pimentel, Bruno Marques e José Clemente Ricon. Esta iniciativa marcou um patamar organizativo excelente que será, em breve, continuado por outras viagens e sessões temáticas que irão reunir pessoas com distintas formações mas unidas na vontade de saber mais um pouco da nossa identidade; e a nossa identidade está, como bem sabemos, impressa nos modos e nas formas como marcámos e como marcamos os sítios que habitamos, da casa, à cidade e à paisagem.

Notas finaisNo sábado dia 13 de Outubro de 2007, o Grupo Habitar teve o privilégio de seguir uma extraordinária Rota do Românico, à qual voltaremos em futuro artigo essencialmente fotográfico.

Em próximos artigos serão editados os seguites temas:
. Sobre a importância da relação entre o Habitar e a História
. Sobre a Rota do Românico uma reportagem fotográfica

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 25 de Outubro de 2007.
António Baptista Coelho
Edição por José Baptista Coelho, na mesma data

segunda-feira, outubro 22, 2007

Vamos falar sobre habitação em Coimbra? - Infohabitar 163

  - Infohabitar 163

Salientando que, já de seguida, na sequência de leitura do Infohabitar poderá ler o artigo:
Promoção da Qualidade do Habitar, Coimbra 11 de Outubro de 2007

Onde se faz o relato informal do worshop organizado pelo Grupo Habitar (GH) e pelo Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da Câmara Municipal de Coimbra na passada tarde do dia 11 de Outubro de 2007, na Sala Polivalente da Casa Municipal da Cultura; um encontro técnico sobre o tema “promoção da qualidade do habitar” que teve intervenções do Dr. Carlos Encarnação, Eng. Defensor de Castro, Eng. Sidónio Simões, Dr. Paulo Atouguia Aveiro, Arq. Manuel Correia Fernandes, Eng. José Teixeira Trigo, Arq. Paulo Tormenta Pinto, Dr. Luís Ferreira da Silva e Guilherme Vilaverde.

Por solicitação da Pro Urbe, Associação Cívica de Coimbra divulgam-se próximos eventos em Coimbra, em que a habitação é, igualmente, tema central e deseja-se a melhor dinâmica para a sessão de cinema e para o encontro que terão lugar, respectivamente, no dia 26 e no dia 27 de Outubro em Coimbra
Ficha técnica e programa:
http://www.prourbe.org/

nome genérico:

Vamos falar sobre habitação [em Coimbra]?

organização: Pro Urbe, Plataforma Artigo 65
apoios: Direcção Regional da Cultura do Centro, Ordem dos Arquitectos, Teatro Académico Gil Vicente, Conselho da Cidade, Diário de Coimbra

programa:
TAGV, Café-teatro segunda-feira, 22 de Outubro, 18h00Inauguração da exposição de fotografia “Habitação”.
Mesa redonda com representantes da Pro Urbe, da Plataforma Artigo 65, da Ordem dos Arquitectos, Manuel Portela (Director do TAGV) e António Pedro Pita (Director Regional da Cultura)
Apresentação do programa e objectivos da iniciativa (Pro Urbe), apresentação do movimento Plataforma Artigo 65 (Plataforma). Perspectiva crítica sobre a Debate com o público.
Conferência de imprensa com representantes da Pro Urbe, da Plataforma Artigo 65, da Ordem dos Arquitectos, dos fotógrafos presentes, e das demais entidades apoiantes do evento.

TAGV, sala sexta-feira, 26 de Outubro, 21h30Apresentação do documentário “PAZ, PÃO, HABITAÇÃO… AS OPERAÇÕES SAAL” de João Dias
Debate moderado por Elísio Estanque (sociólogo), com José António Bandeirinha (arquitecto) com João Dias (autor), Alexandre Alves Costa (arquitecto) e Samuel Roda Fernandes (arquitecto)

Café Santa Cruz sábado, 27 de Outubro, 10hPequeno-almoço seguido de distribuição de programas da sessão a desenrolar a seguir e interpelação/conversa com pessoas na Praça 8 de Maio.

Salão Brazil sábado, 27 de Outubro11:00 > 1º painel
“O problema e o futuro da habitação”Mesa-redonda moderada por José Reis (economista)
com Helena Roseta (arquitecta), Teresa Craveiro (geógrafa) e Padre Valentim Gonçalves.
12h00 > debate com o público.
12h30 > almoço

14h00 > 2º painel
“O mercado da habitação”Moderação de Ana Pires (geógrafa)
com Maria João Freitas (Conselho Directivo do IHRU), Pedro Bingre (agrónomo), Jorge Carvalho (urbanista), Guilherme Vilaverde (Presidente da FENACHE - Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica)

15h15 > 3º painel
“O caso de Coimbra”
Moderação de João Mesquita (jornalista)
com Elísio Estanque (Sociólogo), Jorge Gouveia Monteiro (Vereador da habitação da CMC), João Paulo Craveiro (presidente da CombraViva, Sociedade de Reabilitação Urbana) e Gustavo Cunha (arquitecto, responsável pelo Plano Estratégico e de Urbanização para Coimbra)
16h30 > debate com os intervenientes nos dois painéis.

sábado, 27 de Outubro, 17h30
Passeio pela Baixa de Coimbra

“1 g de cimento” – Performance por Pedro Medeiros
Sínteses de encerramento: Representante da Pro Urbe, Representante da Plataforma artigo 65 e José Dias (Presidente do Conselho da Cidade)

Exposições: TAGV, 22 a 31 de Outubro“Habitação” - imagens de António José Martins, Emanuel Brás, Luís Filipe Rocha, Nuno Patinho, Paulo Abrantes, Pedro Medeiros e Tiago Hespanha
Salão Brasil, 27 de Outubro“ORPC (O Respeito Pelas Cidades): Portugal Devoluto e Coimbra Devoluta” - fotografia de Luís Filipe Rocha
XM, 22 a 31 de OutubroExposição genérica “Plataforma artigo 65”
Vídeo: Nathalie Mansoux Design: Inês Barros
João Dias Textos: Pedro Cerejo
Rui Pina
Tiago Afonso

sexta-feira, outubro 19, 2007

Promoção da Qualidade do Habitar, Coimbra 11 de Outubro de 2007 - Infohabitar 162

  - Infohabitar 162

Promoção da qualidade do habitar


O Grupo Habitar (GH) e o Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da Câmara Municipal de Coimbra asseguraram na passada tarde do dia 11 de Outubro de 2007, na Sala Polivalente da Casa Municipal da Cultura um encontro técnico sobre o tema “promoção da qualidade do habitar”.

Este encontro integrou o programa da "Quinzena Portuguesa da Habitação" desenvolvida no âmbito da Presidência Portuguesa da UE com o apoio da Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades e Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), e o enquadramento do CECODHAS.P/ Comité Português de Coordenação da Habitação Social e seus associados.

Neste nosso Infohabitar e desde a passada semana já está disponível uma das intervenções deste encontro onde se aborda a matéria da promoção da qualidade do habitar, hoje em dia, nesta nossa Europa, ainda no início do século XXI é que pondera um pouco, de forma sintética, sobre aspectos, uns mais quantitativos e outros mais qualitativos, uns mais globais e temáticos e outros mais práticos, mas todos bem ligados à “qualidade do habitar”.

Esta semana e bem na tradição do Grupo Habitar, que quer sempre acrescentar/registar mais um pouco relativamente ao que se vai discutindo e sublinhando em sessões e visitas técnicas, faz-se um apontamento, que é sempre pessoal, de algumas das matérias e ideias que foram apresentadas e discutidas neste encontro técnico, aproveitando-se para acompanhar com algumas imagens do mesmo encontro – algumas destas imagens foram gentilmente facultadas pelo Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da Câmara Municipal de Coimbra.



Fig. 01

Desde já se sublinha que, em seguida, não se faz nenhum relato circunstanciado do que foi dito pelos diferentes intervenientes, mas somente um “passar a limpo” de notas tiradas na altura, mas naturalmente “filtradas” por quem as ouviu e apontou; procurou-se, naturalmente e no entanto, a maior fidelidade às opiniões expressas nas diversas intervenções e, por facilidade de trabalho, associaram-se às intervenções muitos aspectos que decorreram dos amplos períodos de debate que marcaram a conclusão dos dois períodos de trabalho em que se dividiu o Encontro/Workshop.

Pelas imperfeições, faltas de fidelidade ao que foi referido e esquecimento de aspectos considerados importantes pelos autores, este relator informal apresenta, desde já, as devidas desculpas e, evidentemente, coloca esta revista, à disposição dos mesmos para uma adequado esclarecimento e desenvolvimento destas e de outras ideias. Ao longo do texto que se segue e entre aspas procurou-se sublinhar algumas opiniões e ideias específicas que foram expressas pelos intervenientes; e desde se apresentam a estes intervenientes as devidas desculpas pelas imperfeições e inexactidões que caracterizam estas notas, bem como pelo seu carácter sintético que, de forma alguma, é fiel ao discurso corrido e bem articulado que caracterizou as suas intervenções.


A sessão foi aberta com a intervenção do Dr. Carlos Encarnação, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra.

Fig. 02


O Dr. Carlos Encarnação sublinhou que tudo o que se refere ao habitar tem a sua atenção pessoal e que nesta matéria se destaca actualmente a questão da reabilitação, para a qual defendeu que o Estado tem que desenvolver um leque completo de mecanismos de apoio, também do ponto de vista fiscal e associados, designadamente, ao acto de reabilitação voluntária.

Salientou também a grande importância que para ele têm os aspectos de desenvolvimento de um adequado conforto ambiental e de uma adequada dignidade nas condições de habitabilidade. E afinal “é no Centro Histórico que está o grande tesouro da cidade de Coimbra” e o “grande objectivo é a rebilitação do Centro Histórico”, uma tarefa muito grande que o Governo tem de apoiar num registo de melhoria e de continuidade de medidas de apoio, e com um mínimo de demoras legislativas.

Seguiram-se as palavras do Eng. Defensor de Castro, Director da Delegação no Porto do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, que representou a Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e Cidades.

A sequência de intervenções temáticas foi iniciada com a intervenção do Presidente da Direcção do Grupo Habitar e Chefe do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, intervenção esta que está já disponível no Infohabitar desde 11 de Outubro e que se refere a um panorama global, mas objectivo, sobre uma série de aspectos a ter em conta na qualidade do habitar, neste novo século nesta nossa Europa.


Fig. 03

A promoção da qualidade do habitar, na perspectiva da investigação e do projecto foi o tema apresentado pelo Professor Arq. Manuel Correia Fernandes, da FAUP, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e membro fundador do Grupo Habitar.

Manuel Correia Fernandes sublinhou que “a primeira reinvidicação do homem é ter espaço”; o ter mais espaço é um desejo que se mantém inciso no adn de todos nós, mas o espaço não é o mesmo para todos nós e em todo o mundo, pois a “casa refúgio” pode ter 50m2 desde que, por exemplo, a 20 minutos a pé existam diversos elementos citadinos; o que leva a considerar o que poderão ser/ter uns tais 20 minutos a pé aqui em Portugal, em diversos locais do País, em outras zonas da Europa (ex., na Dinamarca), e na África, por exemplo.

Referiu a possibilidade de se estar a assistir, actualmente, a um possível retorno da referência à necessidade de “um habitar para o grande número”, um conceito que ele prefere ao de “habitação social”.

Defende que os tempos mudaram, as coisas mudaram, as pessoas mudaram, e é assim importante mudar, também, o conceito de “um habitar para o grande número”, acrescentando-se novas noções qualitativas à “velha” quantidade, e portanto ultrapassando os aspectos essencialmente quantitativos de uma qualidade do habitar que sempre esteve muito associada ao que se passava na casa de cada um, acrescentando-se/sublinhando-se, designadamente, a crucial noção de se habitar, de facto, a rua, o bairro e a cidade.

Porque “a rede que sustenta o espaço do habitar é um contínuo”, e este contínuo está hoje em risco. Porque há aspectos que devem ser considerados e lidados com grande cuidado e efectividade (diria eu também afectividade), e entre os quais se destacam as matérias da segurança e da felicidade, segurança e felicidade que fazem sociabilidade e que estão ou devem estar na rua da cidade; e foi lá que ele também viveu a sua infância e juventude (assim como tantos de nós).

E Correia Fernandes lembrou o comentário de um habitante de Beirute, quando esta cidade se transformou em cenário de guerra e de insegurança, e que dizia que “hoje as crianças aprendem na rua porque a escola já não existe.”

Mas hoje a praça foi em grande parte substituída pela rotunda, o mar pelo resort, o quarteirão e o bairro pelo condomínio.

E, hoje, outras culturas chegam até nós o que leva à necessidade de disponibilização de diferentes espaços adequados a diferentes necessidades.

E “as novas tipologias estão constrangidas por morfologias estáticas” que não proporcionam saídas; um aspecto que, pessoalmente, considero crítico.

E assim assiste-se a a “uma nova guetização das cidades”, que, pelo contrário, deveriam “abrir espaços à/para a diferença”, pois “precisamos de novos paradigmas ... precisamos de voltar á estaca zero” numa activa recusa de uma sociedade consumidora excessivamente massificada num contexto aparente de plena liberdade.

E entre tais novos paradigmas salienta-se a fraternidade, e aqui há que questionar se a rua é ou não é o espaço mais paradigmático da cidade; e é preciso rever conceitos de concepção, de desenho e de uso desse espaço “que é o que faz passar da casa para a sociedade”. “E continuamos a desenhar a rua para os automóveis e, no entanto, a afirmar que a rua é para as pessoas.”

E aqui não resisto a citar um pequeno texto de Allan Jacobs inserido numa recente newsletter do PPS – Project for Public Spaces:

“If we can develop and design streets so that they are wonderful, fulfilling places to be – community-building places, attractive for all people – then we will have successfully designed abou tone-third of the city directly and will have had na immense impact on the rest.”


Fig. 04

A promoção da qualidade do habitar, na perspectiva da investigação e da construção foi a matéria desenvolvida pelo Eng. José Teixeira Trigo, especialista do LNEC e membro de honra do Grupo Habitar.

José Teixeira Trigo sublinhou a importância que tem a satisfação das exigências do cliente/utilizador na promoção da qualidade do habitar.
Defendeu que tudo deve confluir em tal sentido: da experiência, ao ensino, à investigação e ao projecto ligados à obra nova e à reabilitação. E há também um aspecto essencial que é a verdadeira identificação e caracterização dos utilizadores, assim como do período de utilização.

E aqui há uma noção do habitar “como um bem construído” que convém mudar para um conceito de bem associado ao serviço de habitação ou ao serviço do habitar, resultando num produto (que terá muito pouco a ver, digo eu, com um produto de consumo).

Como é que vamos propiciar que este bem preste o serviço mais adequado? É nesta questão que se situa a matéria da busca pela qualidade do habitar, que há que tratar não como objecto, mas como serviço. Por exemplo “ao nível municipal há que assegurar que as habitações existentes numa dada povoação prestam o serviço social que delas se espera”.

Trata-se, assim, não apenas de “construir” mas de satisfazer expectativas legítimas: do utente/cliente; dos trabalhadores associados ao sector; e dos responsáveis pelo sector (ex., os sócios accionistas no caso de se tratar de uma empresa). No caso do habitar há que satisfazer as expectativas dos habitantes (utilizadores), dos proprietários e da sociedade (da vizinhança e do bairro) – interesses que se expressam em períodos entre 10 a 30 anos. E nesta matéria sublinha-se que as pessoas com mais reduzido nível económico são as que mais são agredidas no pensar “apenas” as suas necessidades consideradas, essencialmente, como aquelas necessidades mais directas.

E nas escolhas que há que fazer por vezes tem de haver coragem para demolir partes do existente para que o que fica tenha uma qualidade adequada, “para que o resto, possa ter qualidade” ou converter realidades em novas realidades (ex., fogos que se agregam e geram novos fogos).

Afinal é preciso que algo mude para que o essencial e fundamental se possa manter, e há que realizar alianças estratégicas entre a ciência, a tecnologia e a sociedade, diversificando respostas e tendo naturalmente presente que a casa nada tem a ver, por exemplo, com um telemóvel que dura dois anos, é algo que estará cá pelo menos 50.

Nesta matéria é necessário alargar o conceito de ciências bem para além das consideradas exactas, e bem dentro das matérias humanas, de gestão, jurídicas, etc. E nesta matéria há que ter muito cuidado com o modo como se fazem leis, tantas vezes num divórcio da prática e sem acompanhamento da sua aplicação.

Considerando a realidade das nossas cidades Teixeira Trigo defende que houve uma densificação constante do casco histórico das mesmas ao longo dos séculos XIX e XX ; e, consequentemente, há problemas específicos de acessibilidade, segurança contra risco de incêndio e salubridade que têm de ser encarados, considerando que cada caso é um caso e que, por exemplo, há casos de intervenções em determinadas ruas que são inviáveis a não ser num quadro mais vasto – opinião que foi também partilhada por Manuel Correia Fernandes.

E Correia Fernandes também referiu que há também o próprio “direito à ruína”, pois há edifícios que podem ter um excelente papel urbano como ruínas.

Seguiu-se um debate e um pequeno intervalo.



Fig. 05

A segunda parte da sessão foi iniciada com o tema da promoção da qualidade do habitar na perspectiva do projecto de arquitectura e da investigação, tema abordado pelo Professor Arq. Paulo Tormenta Pinto, Presidente do Departamento de Arquitectura e Urbanismo do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa e membro fundador do Grupo Habitar.

Paulo Tormenta Pinto apresentou um caso concreto no Montijo de reabilitação e total reconversão interior de três pequenas casas, numa acção realizada com um orçamento muto contido, “num olhar renovado sobre a fotografia” e numa acção sobriamente exemplar que tem lugar “nos recônditos da cidade” da “cidade que herdamos”; uma cidade marcada pela especulação e pela cidade periférica.

Tormenta Pinto também sublinhou que a reabilitação não se esgota na reabilitação habitacional, pois faltam na cidade histórica espaços para integrar elementos urbanos que são necessários à cidade e aos cidadãos, e nestes aos grupos de cidadãos mais sensíveis como os idosos e as crianças.

Referiu ainda que importa estudar o impacto da reabilitação na vida moderna, percebendo-se, por exemplo, o que é o habitar dos idosos nos seus sítios de vida, nas suas dificuldades em termos de acessibilidades e de movimentação, em casas espacialmente exíguas e mal equipadas e em zonas, por exemplo, sem Centros de Dia e com reduzidas acessibilidades e sem espaços para introdução de novos equipamentos.


Fig. 06

Seguiu-se a intervenção sobre a temática da promoção da qualidade do habitar, na perspectiva municipal de vitalização dos centros urbanos, uma intervenção que coube ao Eng. Sidónio Simões, Director do Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da Câmara Municipal de Coimbra – Gabinete este que foi o principal parceiro do GH na organização desta sessão técnica.

Sidónio Simões falou sobre a acção diária do GCH da CM de Coimbra, sublinhando a vontade de se contribuir para acabar “com a fúria construtiva”. Têm sido muito pragmáticos, têm usado a ficha do NRAU, feita pelo LNEC, privilegiaram a consolidação do edificado (coberturas e paredes), feita pela CM, mas que depois induz investimentos por parte dos proprietários.
Referiu também a grande importância que tem o poder usar uml eque de boas soluções práticas e salientou a importância da ventilação e da qualidade do ar quando se trata de espaços domésticos e públicos frequentemente exíguos.
Sobre as tipologias salientou que os pequenos T0 e T1 não são adequados para fixar famílias.

Globalmente defendeu que os custos da reabilitação dos centros históricos podem ser reflectidos na comercialização de fogos sem lucros,isto numa primeira fase de actuação. Procurando-se a aproximação a fases seguintes em que os centros históricos possam entrar numa lógica de valorização (como já acontece em muitas cidades europeias como por exemplo Pádua).

Relativamente ao espaço para equipamentos uma acção integrada no âmbito de uma estrutura do tipo SRU poderia ser uma solução, procurando-se a escala do quarteirão para este tipo de actuação (como acontece por exemplo em Toulouse e em Paris).

Em todas estas matérias e considerando que, realmente, a decadência leva à criminalidade, o Estado acabará por poupar em acessibilidades, em segurança pública e em recursos, se optar por um claro poio à reabilitação urbana, pois se calhar a política da reabilitação é a mais transversal actualmente.

Reabilitar é: não gastar novo solo; é reduzir emissão de gases em acessos diários a partir e para a periferia; é melhor gestão de recursos, pois basicamente fundações e paredes estão já lá; é dinamizar turismo; é potenciar adesão ao transporte público; é apoiar a revitalização do comércio tradicional; e é aumentar a segurança natural no espaço urbano. E Sidónio Simões propõe a ideia de 25% de apoios a fundo perdido para a reabilitação; pois os custos da reabilitação dos centros urbanos acabam por ser globalmente menores do que os custos associados à construção nas periferias. E sublinhou que em Coimbra há já acções integradas (ex., Pantufinhas/pequenos veículos de transporte público gratuitos, com Parques auto localizados).

Na frente do licenciamento municipal foi sublinhado que no GCH se aprecia um projecto no Centro Histórico mais rapidamente do que na periferia da cidade, através de um coordenador que acompanha tora a tramitação do respectivo processo. E assegura-se a coordenação de todas as obras no Centro Histórico, em termos globais, pois ele só aceita 12 estaleiros em simultâneo.


Fig. 07

Seguiu-se a intervenção sobre a temática da promoção da qualidade do habitar, na perspectiva da iniciativa empresarial, uma intervenção assegurada pelo Dr. Luís Ferreira da Silva, membro da Direcção da AECOPS, Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e membro fundador do Grupo Habitar.

Luís Ferreira da Silva sublinhou que a reabilitação é um processo complexo, designadamente, no próprio desenvolvimento das obras, uma situação que está, felizmente, cada vez mais simples e associada a menores custos, através de novos materiais e sistemas de construção.

Relativamente ao habitar em geral defende que continua a haver discrepâncias entre o que é frequentemente oferecido em termos de condições habitacionais e o que as pessoas desejam – por exemplo ao nível da espaciosidade.
A questão das acessibilidades em termos da articulação entre automóvel privado e transportes públicos é algo que está ainda bastante mal resolvido, sendo crítica nos cascos históricos.

Luís Ferreira da Silva também sublinhou que a crise que afecta a construção nova e periférica leva a um potencial de descida de preços na habitação, condição esta que ainda mais afecta a oferta de habitar reabilitado em zonas históricas. E a isto ainda acresce uma tendência dos locais de trabalho saírem das zonas urbanas.

Os impostos afectam muito fortemente a construção de habitação e se juntarmos o preço do terreno então é fácil encontrar situações em que estes dois factores ultrapassam claramente o custo de construção. A especulação acontece essencialmente no passar de solos rústicos a urbanos e muito pouco em solos urbanos.

A sustentabilidade tem de ser: económica; humana/social; ambiental; funcional; e urbana, relativamente aos potenciais impactos nas áreas vizinhas. E, finalmente, em termos de novas formas de habitar há aspectos a considerar, po exemplo ter em atenção matérias funcionais fundamentais (ex., tratamento de roupa), envidraçados generosos, ventilação adequada, acessibilidade, etc.



Fig. 08


A promoção da qualidade do habitar na perspectiva da iniciativa cooperativa foi o tema da intervenção de Guilherme Vilaverde, Presidente da FENACHE, Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica e membro fundador do Grupo Habitar.

Guilherme Vilaverde fez uma viagem sobre a realidade da cooperação habitacional portuguesa, no âmbito das cooperativas filiadas na FENACHE, apontando os muitos fogos feitos e em desenvolvimento. A Federação conta com 72 cooperativas e realizou 160.000 fogos para 600.000 pessoas, portanto cerca de 6% da população; as cooperativas integradas na FENACHE contam, actualmente, com cerca de 50.000 inscritos, que aguardam novos programas habitacionais.

Sublinhou que, em cada cooperativa, os membros participam e definem soluções de habitar com a respectiva Direcção e seus técnicos relativamente à promoção em que estão inscritos e visando-se um serviço habitacional completo e alargado a equipamentos sociais e serviços, incluindo ainda actividades que valorizam a vivência habitacional, designadamente, nas matérias do convívio e da cultura.

Sublinhou também o carácter não lucrativo do movimento cooperativo habitacional e as suas múltiplas potencialidades cívicas, bem como todo o leque de serviços habitacionais e urbanos que têm sido oferecidos pelas cooperativas de habitação.

Referiu ainda o recente esforço do movimento cooperativo nas áreas da sustentabilidade ambiental e da reabilitação urbana e habitacional, neste caso aliada à completação e regeneração de um símbolo da história da arquitectura habitacional de interesse social, em Portugal, o conjunto da Bouça com projecto de Siza Vieira. Mas também sublinhou as grandes dificuldades que as cooperativas têm atravessado para tentar harmonizar este caminho da reabilitação com o do fundamental controlo de custos.

E partilhou a opinião de Sidónio Simões relativamente a uma contabilização de vantagens associadas à intervenção na cidade histórica, uma contabilização que deve levar á conclusão sobre o verdadeiro investimento que o Estado pode e deve fazer se apoiar especificamente a reabilitação em Centros Históricos.

Seguiu-se um debate alargado.



Fig. 09

O encerramento dos trabalhos foi assegurado pelo Dr. Paulo Atouguia Aveiro, Presidente do CECODHAS P , Comité Português de Coordenação da Habitação Social e Presidente dos Investimentos Habitacionais da Madeira (IHM).

Paulo Atouguia referiu, entre outras ideias, que ao promoverem-se encontros sobre a qualidade do habitar não se deve esquecer a quantidade de habitação que é ainda necessária, porque o mercado não conseguiu resolver as carências de habitação de interesse social; e sublinhou também que há que equilibrar as carências quantitativas com uma fundamental qualidade, não mais se aceitando situações como as que estão hoje evidentes em “habitação social” apenas com cerca de 30 anos e que, provavelmente, acabará por ser demolida; pois “o que for feito tem de ser bem feito”.


Termina-se este relato informal com os necessários agradecimentos públicos:

- ao Dr. Carlos Encarnação, Presidente da C. M de Coimbra, ao Eng. Defensor de Castro Director da Delegação no Porto do IHRU, ao Eng. Sidónio Simões, Director do GCH da C.M. de Coimbra, ao Dr. Paulo Atouguia Aveiro, Presidente do CECODHAS P, e dos Investimentos Habitacionais da Madeira (IHM), à Drª Luísa Ganho do GCH e ao Dr. António Mesquita do IHRU;

- e a cinco membros fundadores do Grupo Habitar, que refiro na ordem das suas intervenções: o Arq. Manuel Correia Fernandes, professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, o Eng. José Teixeira Trigo, ilustre especialista do LNEC, o Arq. Paulo Tormenta Pinto, Presidente do Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE, o Dr. Luís Ferreira da Silva, membro da Direcção da AECOPS, Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e Guilherme Vilaverde, Presidente da FENACHE, Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica.

Sem todos eles não teria sido possível a excelente tarde de debate vivo que aconteceu em Coimbra.

quinta-feira, outubro 11, 2007

A qualidade do habitar, no início do século XXI, na Europa – I, artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 161

  - Infohabitar 161

A qualidade do habitar, no início do século XXI, na Europa

I

Considerando a matéria da promoção da qualidade do habitar, hoje em dia, nesta nossa Europa, ainda no início do século XXI é possível e desejável reflectir sobre muitos aspectos, uns mais quantitativos e outros mais qualitativos, uns mais globais e temáticos outros mais práticos; em seguida e um pouco “ao correr da pena” sugerem-se algumas ideias sobre a “natureza” da qualidade do habitar, ideias com que muitos de nós se têm cruzado e que o autor destas linhas tem naturalmente revisitado ao longo do desenrolar de muitas actividades no âmbito Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde coordena o Núcleo de Arquitectura e urbanismo (NAU), mas também nas inciativas do Grupo Habitar e naturalmente na sua participação na vida de uma grande cooperativa de habitação, a Nova Habitação Cooperativa (NHC) e também no âmbito da FENACHE – a Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica.

Fiquemos então, primeiro, com um conjunto de ideias gerais, mas que, como se verá, têm fortes reflexos práticos e, depois, com uma série de matérias de âmbito mais prático, mas que elas próprias revertem para fundamentais opções genéricas.

Com os sub-títulos tenta-se uma clarificação global da matéria e as poucas ilustrações querem apenas reforçar, de forma muto genérica, o sentido geral do texto, referindo-se a casos recentes de habitação de interesse social em Portugal.



Fig. 01: 2001, Maia, Milheirós, Rua 5 de Outubro e Rua do Paiol, empresa Sedengil/Engil, 48 e 28 fogos, projectista coordenador, Arq. João Carlos dos Santos.

Um habitar humanizado

A primeira ideia tem a ver com a pergunta sobre “o que devemos pedir ao espaço arquitectónico para que o homem possa continuar a designar-se como humano?” e sobre isto Norberg-Schulz disse que “em primeiro lugar devemos pedir uma estrutura representável que ofereça abundantes possibilidades de identificação.” E disse também que “a tarefa do arquitecto é ajudar o homem a encontrar um sítio existencial onde firmar-se, concretizando as suas imaginações e fantasias sonhadas ...” (1)

O habitar como um serviço


A segunda ideia é que a habitação não é, basicamente, um produto de consumo, pois, tal como escreveu Gerard Bauer (1980), “sempre que as exigências primordiais estão praticamente satisfeitas, quando o habitante começa a ter voz activa, ele (exige) diversidade, cor local, charme, humor, e verdadeiros sítios”.(2)

Aprofundar a qualidade do habitar


A terceira ideia é que a qualidade do habitar tem muito a ver com o aprofundamento e a diversificação da noção de qualidade de vida, pois tal como sintetizou o pintor Júlio Resende, a propósito de uma casa que, para ele, projectou Carlos Loureiro (3): “O arquitecto que submete toda a génese da obra ao binómio técnica-espírito é, em propriedade, o arquitecto para o homem...”

Habitar a cidade pública e convivial


Uma quarta ideia é que a qualidade do habitar se joga um pouco por todo o lado na cidade e com grande intensidade no exterior público, no andar a pé, e na essencial convivialidade.

Um habitar democraticamente qualificado


Uma quinta ideia é que “há certas qualidades que podem ser consideradas essenciais em todos os géneros de casas: sossego, encantamento, simplicidade, largueza de vistas, vivacidade e sobriedade, sentido de protecção e abrigo, expressiva economia na manutenção, harmonia com a envolvente natural e a vizinhança, ausência de lugares escuros e ao abandono, conforto e uniformidade de temperatura,...” – escreveu-o Voysey, em “The English Home”, em 1911.

A busca da felicidade no habitar


E, finalmente, uma sexta ideia tem a ver com o verdadeiro sentimento de felicidade que está associado ao habitar de espaços com qualidade arquitectónica, pois, tal como disse o Arq.º George Ferguson, “uma escola melhor desenhada leva a um melhor ensino, e uma casa e um escritório melhor desenhados resultam em pessoas mais felizes”(4). E inversamente, e tal como escreveu Spiro Kostof (1992), há que interiorizar que os actos de violência e revolta urbana são “inspirados pela cinzenta monotonia das envolventes e por um sentimento geral de exclusão relativamente à corrente principal da sociedade.”(5)

Uma cinzenta monotonia que tão bem conhecemos e que tantas vezes terá a ver, não com razões objectivas, por exemplo de custos, mas com “carências de projecto e de estereótipos de produção consolidados.”(6)
Sendo assim fica claro que qualquer tipo de promoção de habitacional e designadamente a habitação de interesse social, apoiada pelo Estado, pode e deve assumir um papel de relevo como ferramenta de apoio ao desenvolvimento pessoal, familiar e social dos habitantes e das respectivas vizinhanças e comunidades locais e nunca, de forma alguma, deve influenciar negativamente em qualquer uma destas áreas.



Fig. 02: 2001, Guimarães Mataduços, empresa FDO, 60 fogos, projectistas coordenadores, Arq. Carlos Fonseca e Arq. Alfredo Machado.

Falou-se de alguns aspectos gerais e de enquadramento da natureza da qualidade do habitar, mas acreditem que são aspectos com forte expressão prática. Serão, agora, apontados, também muito brevemente, algumas matérias que sendo práticas, têm também uma importância estratégica na qualidade residencial.

Precisamos, urgentemente, de humanizar e vitalizar centros históricos e subúrbios e num tal desígnio as novas intervenções na cidade central e na cidade periférica têm de ser, cada vez mais, de pequena escala, muito bem pormenorizadas e qualificadas no seu desenho de arquitectura, muito sensíveis aos respectivos habitantes e sítios de habitar numa perspectiva humanizadora de reconstrução da coesão urbana.

Nestas matérias os caminhos passam pela redução da ocupação dispersa do território, trabalhando-se a densidade e uma forma urbana atraente, orgânica e contínua, condições estas que obrigam a um projecto de arquitectura muito bem qualificado em termos de opções gerais e de pormenor e que aplique uma solução tipológica bem estudada e fundamentada.



Fig. 03: 2001, Lisboa, Calhariz de Benfica, Travessa do Sargento Abílio, C. M. de Lisboa, 91 fogos, projectista coordenador Arq. Paulo Tormenta Pinto.


Um projecto que interiorize uma coerente inovação tipológica, do habitar e das outras suas tantas actividades “amigas”, servindo-se uma (“nova”) cidade “genérica mult-étnica e multi-cultural”, em soluções que façam habitar a casa, o edifício e a cidade; e em soluções sem “tabus” e sem ideias feitas no que se refere às tipologias de edifícios.

E os caminhos do projecto e da sua análise deverão também começar a considerar, objectivamente, a “qualidade arquitectónica”, noção esta com grande actualidade, pois encontra hoje em dia sustentáculo institucional mesmo ao nível das preocupações e dos objectivos da União Europeia, um desígnio que tem de se construir através da harmonização entre qualidade de desenho e satisfação habitacional; um tema que é igualmente urgente e oportuno.



Fig. 04: 2001, Vila Nova de Gaia, Oliveira do Douro, Quinta do Guarda-Livros, C. M. de Vila Nova de Gaia, 139 fogos, projectista coordenador, Arq. Paulo Alzamora

Uma outra questão que também se liga com esta última matéria do urgente aprofundamento do que é “qualidade arquitectónica” vai mais fundo e tem a ver com a “convivência”, que é fundamental assegurar – nesse sentido de dinamização da qualidade arquitectónica –, entre qualidade do desenho de arquitectura e satisfação dos moradores. Desde já e sobre esta matéria aqui se comenta que entre a linguagem arquitectónica eventualmente considerada “correcta” e o gosto por uma casa em grande parte tão atraente como as outras há todo um debate a fazer e estudos a desenvolver. Não se defende uma arquitectura residencial “fácil” e menos qualificada, no entanto há um equilíbrio básico que deve ser respeitado e, mais fundo que isso, há debates a fazer sobre o que é ou será melhor para uns ou para outros e mesmo se tal questão se poderá colocar.

Finalmente, e também em termos muito práticos, há ainda que contar com o crescimento da necessidade de mais habitação, associado à desagregação da grande família tradicional, ao aumento da esperança de vida e ao desenvolvimento do trabalho em casa e das actividades domésticas ligadas ao lazer. Uma necessidade que também resulta da continuidade da concentração urbana, que irá agudizar-se nos próximos decénios. Uma necessidade que também é consequência de se ter de substituir o que se fez mal; e aqui temos bem presente o mau exemplo francês que vai levar à demolição de 250.000 habitações, e ao realojamento, em melhores condições habitacionais e citadinas de cerca de 5 milhões de suburbanos. E sobre esta matéria, não haja dúvidas, será necessário desenvolver, por vezes, opções drásticas e dispendiosas, isto se se quiser, realmente, seguir, finalmente, a via da qualidade; e lembremos que, tal como foi divulgadohá pouco tempo na imprensa escrita, afinal, em Portugal, parecem ser ainda necessárias cerca de 200.000 habitações novas e quase o mesmo número de habitações reabilitadas, sendo que delas cerca de 20% terão de ter apoio do Estado.



Fig. 05: 2001, Funchal, Santo António, Caminho da Penteada, C. M. do Funchal, 8 fogos T0 para pessoas idosas e que vivem sozinhas, projectista coordenador, Arq.ª Susana Fernandes (Dep. Habitação, C.M. do Funchal).

Mas para rematar estas matérias de números, e tal como Kazuo Shinohara, salienta-se (7) que “na nossa enorme sociedade actual há pouca diferença entre fazer cem casas ou duzentas casas, mas que a quantidade que é difícil apurar é o número de casas que são feitas e que atingem um significado social.” E casas com significado social interagem com partes de cidade vivas e conviviais.

Cidades bem conformadas pelos conceitos de público e de privado, numa relação activa e recíproca, marcada pela redescoberta da importância dos “limiares”, que se distribuem da rua à porta de casa, em cenários potencialmente apaixonantes, ... pois como escreveu Daniel Filipe "de vez em quando apetece a gente tomar por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios." (8)



Fig. 06: 2001, Porto, Campanhã, Conjunto Habitacional do Ilhéu, C. M. do Porto, 126 fogos, projectista coordenador, Arq. Manuel Correia Fernandes.

Mais habitar e mais cidade

Tal como defende Fernández-Galiano, não tenhamos dúvidas que o problema da habitação se tornou o problema da cidade – e eu gostaria de acrescentar esta ideia dizendo que, hoje em dia, o problema e o potencial do habitar é, nem mais nem menos, o problema e o potencial da cidade. E mais se adianta que, neste nosso novo século das cidades, o problema e o potencial da cidade é hoje o problema e o potencial da humanidade. E se, como parece, há ainda tanta falta de habitação e tanta falta de cidade, então, não tenhamos dúvidas, só é hoje possível fazer boa cidade com boa habitação; tudo o resto não nos pode interessar.

Finalmente, sobre como fazer boa cidade habitada, hoje em dia, no princípio deste novo século, nesta nossa velha e excelente cultura europeia, lembremos, por fim, uma grande afirmação de Leonardo Benevolo e Benno Albretch que nos dizem que (9): “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza.”
Notas:(1) Christian Norberg-Schulz, Existencia, Espacio y Arquitectura, Barcelona, Editorial Blume, trad. Adrian Margarit, 1975, p. 135.
(2) AAVV, Architecture 1980 – Doctrines et Incertitudes, Les Cahiers de la Recherche Architecturale, n.º 6/7, Paris, 1980, p. 103.
(3) Carlos Loureiro, “Moradia do pintor Júlio Resende”, Arquitectura, 1966.
(4) Artigo de Rita Jordão Silva no Jornal Público de 29 de Novembro de 2004, citando George Ferfuson, Presidente do Royal Institute of British Architects na inauguração da nova galeria do Victoria and Albert Museum, dedicada a uma exposição permanente de arquitectura, num significativo retorno ao passado pois até 1909, e tal como se refere no artigo, “a arquitectura era a alma do Victoria and Albert Museum”.
(5) Spiro Kostof, “The City Assembled”, 1992, p.121
(6) Giovanni Ottolini e Vera De Prizio, “La casa attrezzata - qualità dell'abitare e rapporti di integrazione fra arredamento e architettura”, 1993.
(7) Kazuo Shinohara, “Now, «modern next»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, Tóquio, TOTO Shuppan 2005, p. 435.
(8) Daniel Filipe, “Discurso sobre a cidade”, Lisboa, Editorial Presença, Colecção Forma n.º 8, 1977 (1956), p.77: “ uma cidade onde acontecem coisas ...(p.51)
(9) Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.

Lisboa, Encarnação-Olivais Norte, 11 de Outubro de 2007
Publicado por José Baptista Coelho

sexta-feira, outubro 05, 2007

Raúl Hestnes Ferreira, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra - Infohabitar 160

  - Infohabitar 160




Raúl Hestnes Ferreira, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra


“(Hestnes Ferreira) – Aquela ideia da casa, muito ligada até aos românticos, e sei lá, ao Thoreau, o tipo que vai para a floresta, corta a árvore, arranja as pranchas, faz a sua casa e ali, ali é a sua casa, é uma ideia que continua, a estar presente, culturalmente ...

(Manuel Vicente) – Afinal uma casa é boa para uma família quando for boa para todas, não é? Mas isto não é o elogio do anónimo mas antes da extrema qualidade, a universalidade pela qualidade e não a universalidade pelo «éffacement», pelo apagar.

(Bravo Ferreira) – O neutro ... o neutro é chato em qualquer situação, é sempre cinzento...

(Manuel Vicente) – Do neutro ninguém se apropria... uma pessoa só se apropria daquilo que ama. Uma pessoa não pode amar uma coisa que não seja nada.

(Hestnes Ferreira) – E quando visitamos uma casa do século passado e ficamos deslumbrados com certo tipo de espaços e gostamos mesmo de ir para lá, isso é mesmo um sintoma de que aquilo transcendeu a família para quem foi feito, continua a sugerir e se calhar já foi utilizada de mil e uma formas, já teve mil e uma jarras diferentes em mil e uma mesas diferentes.
(Bravo Ferreira): restou-lhe sempre a qualidade, e essa é que está sempre.”

(Raul Hestnes Ferreira (HF), Manuel Vicente (MV) e Vicente Bravo Ferreira, “Conversa à roda de uma casa”, Arquitectura, n.º 129, 1974, pp. 36-40).

O arquitecto Raúl Hestnes Ferreira recebeu o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra numa cerimónia que decorreu na manhã do dia 30 de Setembro, na Sala dos Capelos (Sala Grande dos Actos).

Este pequeno texto retirado de uma conversa de amigos quer saudar e homenagear um dos grandes arquitectos portugueses actuais e fazê-lo com um sentido de grupo e de alguma naturalidade. Afinal , não tenhamos dúvida de que a Arquitectura só ganha em termos de desenho enriquecido e de verdadeira humanidade com uma tal naturalidade e um tal sentido de grupo e de diálogo.

Pois, afinal, e tal como disse o próprio Raul Hestnes Ferreira (em1973): “De acordo com o que penso que seja a arquitectura, a formação profissional nada é se não for estruturada por uma perspectiva humanista que clarifique os aspectos técnicos dessa formação e lhes dê sentido...”
E lembremos, também, que a Arquitectura só ganha com uma cuidada e sentida leitura de ideias como aquelas acima apontadas; desta forma vamos conseguindo cruzar palavras, desenhos e obras, e na carreira de Raúl Hestnes há, de facto excelentes palavras, muitas delas como professor de futuros arquitectos, belos desenhos e grandes obras de Arquitectura.

A propósito de palavras e de Arquitectura valem bem a pena os textos "proposta de atribuição do grau", da autoria do Prof. Arquitecto Alexandre Alves Costa e do Prof. Doutor Walter Rossa que fez o elogio do doutorado; textos estes disponíveis a partir do site: https://webonc.darq.uc.pt/weboncampus/event/dataNews.do?elementId=116

E sobre a vida e a carreira de projectista entre muitos outros textos é interessante começar pela síntese disponibilizada no site da RTP:
http://www.rtp.pt/index.php?article=300085&visual=16&rss=0

Em seguida reedita-se o artigo escrito por uma amiga de Raúl Hestnes Ferreira, a arquitecta paisagista Maria Celeste Ramos, a propósito de uma recente exposição sobre a obra de Raúl Hestnes, uma excelente exposição que esteve patente no seu ISCTE, cerca de Fevereiro de 2006, e que, quem sabe, possa vir a ser proximamente reeditada.

Com uma saudação muito sentida a Raúl Hestnes Ferreira
António Baptista Coelho
1 de Outubro de 2007

Uma imagem de Raúl Hestnes Ferreira no Júri do Prémio INH 2005, que integrou como representante da Ordem dos Arquitectos




Sem palavras de apresentação que não as de uma atenção muito afectiva para o precioso significado e a rara beleza e sinceridade das palavras, que se seguem, da amiga Maria.Celeste.Ramos, faz-se no Infohabitar uma primeira viagem de texto e imagens a propósito da belíssima exposição, actualmente em exibição no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), sobre a obra de Raúl.Hestnes.Ferreira, e já agora, quem não conheça, pode aproveitar para passear na muito rica e muito humana arquitectura exterior e interior do novo edifício do ISCTE, também concebido por Raúl.Hestnes e que constitui uma verdadeira continuidade da exposição; as imagens são de Pedro Romana Baptista Coelho
Amiga Celeste, o Infohabitar considera um privilégio editar as tuas palavras,
Antonio Baptista Coelho
FAZER CIDADE
A propósito da macro-exposição dos projectos do arqtº. Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE que visitei a 7 de fevereiro de 2006, sinto necessidade de voltar atrás quando também eu trabalhei no GTH a desenhar espaços de jardim, integrada na equipe por onde passaram alguns grandes arquitectos-paisagistas e arquitectos de hoje que fizeram Cidade, tentando eu "acompanhá-los" ajardinando os "espaços" por eles concebidos e honrar os colegas mais velhos que por lá já tinham passado, o que abria para mim, ainda tão jovem, um mundo novo não apenas de trabalho mas também de "olhar" a cidade e de participar na sua construção pois que, do papel, se seguiu depressa a sua construção, tendo-me sido muito grato, ainda, abrir pela primeira vez grandes covas para plantar as árvores que ainda lá estão hoje tão velhas e sólidas como os edifícios, numa área de cidade de grande qualidade de vida e de ambiente urbano
Nesses anos 60 o país iniciava nova forma de fazer cidade em Olivais Norte e Sul, e Chelas, planeada e desenhada não só a outra escala de intervenção no espaço físico, mas com novo desenho de estruturação como se de "cidade nova" se tratasse, moderna nos desenhos de estrutura entre eles o "celular", como o de uma célula de ser vivo, que se introduzia quase "clandestinamente" na cidade antiga de desenho "tradicional", pese embora a diversidade que Lisboa pode oferecer e de que Alfama é sempre excepção mas contudo sempre dentro da mesma "regra” de construir habitar.
Que surpreendente para mim, "novata" nas coisas dos jardins e da cidade, e que passados tantos anos me é forçado reavivar, não por ser muito importante o meu trabalho, mas ter sido esta exposição que, mais uma vez, me faz repensar melhor cada "bocado" da cidade onde moro, com mais "um olhar" e um referencial que passa pelo olhar do meu envelhecer em paralelo com o da própria urbe e com contínuo feed-back como se eu me sentisse um bicho que olha o seu habitat de que muito depende "qualquer bicho."
Assim este recuo que faço permite-me não apenas avaliar a qualidade do que foi feito nesse tempo e que é hoje referência de qualidade urbana e de dinâmica da cidade, manifestada igualmente pela apropriação feita pelas várias gerações de habitantes que conquistaram a “sua cidade”, o “seu bairro”, o “seuhabitar” e o “seu viver.”
Estes 50 anos de cidade nova a que o tempo já deu "tempo histórico" desde o tempo do risco dos esquissos até à existência da árvore que dá, pela sua estatura, uma definição rigorosa do tempo de existência dessa realidade "tijolo-árvore-habitar" - tempo vivo na natureza das coisas e do lugar do homem.
Apetece-me assim fazer este percurso emocional, não apenas sobre este-bocado-de-cidade-também já velha, que faz contínuo edificado e contínuo Humano com a cidade histórica, integrando a natureza viva, mas relacionando-a com a evolução da cidade-velha à qual esta foi acrescentada permanecendo a matriz de urbanidade em que é visível a evolução da vida do betão-tijolo-árvore, mas que hoje poderá estar a ser posta em causa pois que a evolução da cidade mais velha foi transformada e transfigurada nem sempre da melhor forma sobretudo a partir dos anos 80 devido a novos factores de evolução que a cidade teve de integrar, não apenas em termos de crescimento demográfico que acompanhou a introdução do automóvel, tão abruptamente, que levou a transformações globais por vezes tão drásticas e brutais sobretudo nas grandes avenidas que de repente se transformaram em auto-estradas urbanas, desumanizando o viver, mas contudo realidade com que a cidade se teve de debater e tem que com ela viver e continuamente ajustar-se, mas sem no entanto ter ainda encontrado compromisso de qualidade
Não quero deambular muito mais por este tema em que o peão deixou de ter prioridade para a ceder ao automóvel que também não só transtornou os velhos transportes públicos tradicionais como o eléctrico , como obrigou ao "tapamento" dos belos pavimentos das ruas em paralelepípedos de granito para que não lhe caíssem os parafusos nem avariassem a suspensão, pavimento que era semi-permeável e sem quase despesa de conservação e certamente sem causar nenhuma poluição, como a que é hoje provocada pelos combustíveis fósseis utilizados como energia-motor, acrescida aos detritos derivados do desgaste do betuminoso com o atrito dos pneus que por sua vez se desgastam e tornaram a atmosfera irrespirável todos eles detritos cancerígenos, para além de ter alterado, irreversivelmente, o clima urbano que passou a ser mais quente e mais seco, até porque a chuva quando cai já não encontra os pequenos espaços das juntas das pedras a que estava habituada e ser bem recebida para bem da cidade e cidadãos e tudo se tornou negro e impermeável com estes modernos materiais também emanadores de CO2, acrescendo-se ainda a poluição do som, num acréscimo contínuo de desumanização da cidade que não encontra equilíbrio para a vida global e a modernidade.
Assim, a exposição de 45 anos de arquitectura de Hestnes Ferreira, inaugurada no ISCTE a 7 de Fevereiro de 2006, é importante não apenas pelos projectos que foram agora postos a público na sua essencialidade contando a sua história pessoal que se confunde com a profissional, mas porque este arquitecto e o seu trabalho já fazem parte da história da cidade, sendo que este preâmbulo só propõe equacionar a minha visão da cidade "desse tempo", que também vivi, para que possa, então, olhar a sua obra e sobre ela opinar, obra que não se pode separar nem da evolução do país nem da cidade, nem do tempo histórico e cultural, e mesmo económico, pois que se os anos 60 são de grande viragem e evolução, os anos 80 serão o início de tempo de grande degradação, hoje constatada não importa por que tipo de cidadão urbano, sabendo ou não o que quer que seja da história da cidade que habita
A sua obra é assim representativa e imbuída de factos da história do país durante a segunda metade do século passado de que os actos de fazer arquitectura fazem parte e que vieram também romper com a arquitectura "institucionalizada" e denominada de "português suave"
Esta é uma exposição de um homem e uma vida e da sua contribuição para o "construir-habitar", que já não seria no entanto a cidade de agora que exige ainda mais interdisciplinaridade do que há 50 anos atrás, porque a vida urbana se tornou muito mais complexa, tempo durante o qual também aumentou de forma quase inesperada a esperança de vida, a par das grandes mudanças sociais e de participação do cidadão permitindo que os habitantes invoquem o direito de pedir muito mais à cidade e, para tanto até bastará dizer que eu, cidadã do mesmo país, nele vivi para além da maioridade sem qualquer direito de cidadania pois que só me era concedido o direito social - e parcialmente jurídico - de existir .
Abrir a boca, ter opinião e emiti-la era como se se cometesse "pecado de querer existir como ser social e intelectual" e as consequências estavam logo ali - 50 anos bem interessantes, esses, que coincidem com o tempo em que o trabalho deste arquitecto foi executado e “fez cidade”, quase tantos quantos eu, e outros como eu, levaram a adquirir o direito de existir em plenitude social. Mas não estarei a sonhar com essa de plenitude social? Enganei-me com certeza.
Terminada esta espécie de enquadramento sociocultural, parece no entanto que hoje, importante ou vazia, a minha opinião pode não apenas ser emitida, como ouvida e, se não for, resta o "grito", porque já se pode "gritar".
Desta forma ao olhar cada projecto exposto, na sua imensa variedade formal recolhe-se esta quase incapacidade de não voltar atrás para melhor repensar o hoje e, só depois, mas em primeiro lugar, falar da sensação quase inquietante de "quantidade", como se fosse inesperado que um homem só conseguisse produzir o que foi nesta exposição dado apreciar por quantos a visitaram e foram muitos e serão com certeza muitos mais os que terão interesse em ver a "forma" como um homem viveu o seu tempo através do seu trabalho.
Já se escreveu neste blog/revista, no final do ano de 2005, sobre "o espírito do lugar", num artigo geminado. Que interessante é esta experiência de adesão intelectual, e afectiva, que faz alguém repegar uma ideia e geminar-lhe a sua num "contínuo-cultural" que une, retoma e segue, à semelhança do que é, afinal, a cidade, ela espelho dos habitantes, que permite construção de afectos adentro (e fora) das paredes duras de cada habitação.
Parecendo-me que habitar terá também essa dimensão de juntar o meu ao seu olhar a cidade e a ideia de ser o espaço dos homens e dos seus afectos e de lançar raízes não apenas estéticas e éticas, mas também afectivas e solidárias.
Cidade a Casa do Homem e o conforto de viver física e emocionalmente.
Olhar cada projecto de Hestnes Ferreira é desventrar-lhe não apenas a forma da sua geometria mas a intenção com que o "desenho" se apropriou das mãos, ou as mãos do desenho que se destinava a um lugar e a uma função específica
Olhar cada projecto e apreciar-lhe o desenho de geometrias quase arquetípicas tal que se diria que cada lugar as aceitaria sem "gemido" porque se lhe apõem humanizando-o e revivificando-o, dando-lhe "existência."
Espírito do lugar?
Espírito da intenção?
E que espírito teria porventura cada lugar de cada projecto?
Não teria sido algumas vezes o "espírito do projecto" que o deu ao lugar?
Se há lugares que não admitem que sejam "adulterados na sua essência" porque é essa a sua condição de "lugar", outros há que "esperam" que algo ou alguém lhes dê vida e identidade em diálogo inteligente homem-lugar e a sua obra.
Assim, obrigada Raúl por essa arquitectura de mão-cheia, que "sobrou" como exemplo de vida concreta e exponível para os teus colegas e para muitos outros, e que "fez cidade e vida de viver."
PS - não cheguei a falar sobre os projectos de Hestnes Ferreira, só falei de mim como pessoa urbana que foi crescendo e olhando a cidade durante esse tempo de trabalho em que foram sendo desenhados e construídos tais projectos pelo país espalhados e pergunto se não será necessário aprender, colectivamente, a LER o sentido e espírito de ser cidade com os espaços onde se tem de viver.
Lisboa e Bairro.de.Santo.Amaro, 11 de fevereiro de 2006
Celeste Ramos