segunda-feira, dezembro 26, 2005

60 - O ESPÍRITO DO LUGAR - Dois artigos gémeos de Celeste Ramos e Baptista Coelho - Infohabitar 60

 - Infohabitar 60





1º Artigo – da desintegração dos lugares à urgência da reconstituição do "espírito do lugar" e aos caminhos a seguir


“Hoje fala-se muito de alienação... a ecologia humana faz salientar o resultado alienante de uma experiência comum nos nossos dias: a perda do sentido de lugar. Nos últimos 100 anos e especialmente a partir da última guerra mundial os lugares sofreram um processo de desintegração. Começaram a perder uma delimitação bem definida em relação à paisagem próxima e envolvente” (Christian Norberg-Schulz).

Quando Charles Moore escreve sobre o “desenhar do acto de habitar”, diz-nos que uma “uma habitação deveria ser o centro do universo para as pessoas que a partilham”, lembra-nos que “as aldeias de que todos gostamos ofereciam aos seus habitantes cinco benefícios: segurança, privacidade, sociabilidade, justiça e um local ligado à memória”, mas afirma que, naturalmente, “as novas aldeias não podem simplesmente duplicar as antigas”, pois “devemos aprender a desenvolver limites, para suscitar um sentimento de segurança, centros, para promover sociabilidade, organização, para proporcionar um ordenamento claro e atraente, e apoiar activamente os fundamentais aspectos do civismo e da privacidade, e ícones e ornamento, para suscitar uma forte ligação à nossa cultura” (tradução bastante livre para tentar respeitar a força das ideias do autor).

E Moore salienta, ainda, que ”depois, é preciso ter a energia e o conhecimento para fazer em conjuntos residenciais, portanto numa escala urbana significativa, aquilo que isoladamente, ou em pequenos grupos se consegue já fazer” (refere-se a todos esses aspectos de humanização e caracterização), e termina afirmando que esse objectivo “é naturalmente muito difícil.”

Começou-se este pequeno texto sobre aquilo que é provavelmente um dos mais importantes aspectos do habitar urbano, o respeito e o trabalhar com o espírito do lugar, com a lembrança que o desenhar do acto de habitar tem de ser feito na constante e intransigente conquista de um leque de qualidades essenciais e, se nelas atentarmos, verificamos que todas elas colaboram na construção do espírito do lugar. Realmente, limites, centros, organização e ícones, são matéria do espírito do lugar.

Mas falta um ingrediente básico, que é o próprio lugar, o próprio sítio, o quadro de proximidade e de paisagem com que todos aqueles vectores de projecto se deverão fundir, em harmonia e no serviço a um partido que resulte numa valorização de cada sítio e de todos os sítios pelos homens habitados e marcados.

E aqui é John Ruble que nos ajuda, quando nos diz que o mais importante valor de uma casa é a sua wohnqualitat, a sua qualidade de casa, qualidade esta, que ele sublinha reflectir-se na importância de se usar plenamente o sítio e as suas adjacências para criar um ambiente de vida específico e bem positivo, pois, tal como ele salienta, “cada aspecto do planeamento de pormenor do sítio – vistas, jardins, a localização do jogo e do recreio, a sequência de chegada – acrescenta uma dimensão vital à vivência em densidade e contribui para o sucesso ou insucesso da criação de um sítio de comunidade.”

O que Ruble acrescenta, e muito bem, à construção de um espírito do lugar feito com o lugar e naturalmente com o seu espaço público, é esse aspecto, tão importante, que é o fazer-se um sítio de comunidade.

Temos, assim, um espírito do lugar, bem humanizado, em harmonia com o sítio e ao serviço da comunidade. E temos praticamente tudo o devemos ter pois desta forma, através da (re)descoberta do espírito de cada lugar os seus habitantes muito ganharão em sentido de pertença e de responsabilidade.




Afinal vale sempre a pena ter presente que:

“... A arquitectura é um fenómeno concreto. Ela abarca paisagens e ocupações humanas, edifícios e conjugações caracterizadas. Portanto, uma realidade viva.
Desde tempos remotos a arquitectura tem ajudado o homem a dar sentido e significado à sua existência. Com a ajuda da arquitectura ele conseguiu marcar uma posição no espaço e no tempo.
A arquitectura preocupa-se portanto com algo mais do que necessidades práticas e economia. Ela refere-se a conteúdos e significados existenciais. Os conteúdos e significados existenciais resultam de fenómenos naturais, humanos e espirituais, e são experimentados como ordem e carácter.
A arquitectura traduz estes significados através de formas espaciais. As formas espaciais em arquitectura não são nem Euclidianas nem Einsteinianas. Em arquitectura as formas espaciais significam lugar, caminho e domínio, isto é, a estrutura concreta do ambiente humano.
Por isso a arquitectura não pode ser satisfatoriamente descrita através de conceitos geométricos e semiológicos. A arquitectura deveria ser entendida em termos de formas significantes. E como tal fazendo parte da história dos significados existenciais.
Hoje em dia o homem sente uma necessidade urgente de reconquistar a arquitectura como um fenómeno concreto. O presente livro pretende ser uma contribuição para se atingir este objectivo.”

(Texto de Christian Norberg-Schulz, no Prefácio do seu “Meaning in Western Architecture”, Studio Vista, Londres, 1986)

Lisboa, Encarnação/Olivais.Norte, Dezembro de 2005,
António Baptista Coelho



2º Artigo – a subjectividade materializada pela criatividade e sensibilidade do projectista que é desafiado pelo próprio "espírito do lugar"


Não é linear encontrar definição para o que se entende por "espírito do lugar" porque se por um lado há características essencialmente concretas e objectivas, há, por outro, espaço para a subjectividade materializada pela criatividade e sensibilidade do projectista que é desafiado pelo próprio "espírito do lugar", o que não quer dizer que duas pessoas de idade e formação diferentes não possam, igualmente, ter propostas muito diferentes de "ocupação do espaço" com igual qualidade.

Para o projectista que tem em mãos a proposta de um projecto seja de um objecto simples de grande volumetria, incluindo o de uma estrada, ou de habitação a inserir no tecido urbano existente ou fora dele, ou de um grande conjunto habitacional, a análise do local será o primeiro passo a dar.

Mas que local é este, que informação me dá para que o que vier a ser construído seja dialogante com as características e condicionantes da paisagem e a humanize sem dissonância?

A geologia e geomorfologia, a história e a geografia, a ocupação vegetal natural e cultivada, a natureza do solo e o seu passado de ocupação, a tradição e a envolvente e ainda o clima e a luz, bem como a "cor da paisagem" são, de imediato, factores de ponderação, sob pena de se inserir um "objecto" ou corpo estranho àquele conjunto de situações.




Se um agricultor olhar uma "paisagem" e se o tempo tiver sido mais seco do que o habitual, vai com certeza afirmar que a seara não será tão grada, enquanto que um pintor, mesmo sem reconhecer que plantas lá estão, poderá extasiar-se com a cor e volumetrias, com a luz e formas e movimento, como se "o mesmo lugar permitisse várias leituras" e, ambas válidas, assim como o escultor pode ver na montanha esquálida e descarnada, a beleza quase interior das pedras que lhe convém para a sua obra de arte, podendo mesmo apreciar essa "ferida" da montanha.

Também um automobilista, que domina bem o carro que conduz, pode afirmar que a estrada que segue é fantástica, mas poderá não ter aptidão e informação para concluir se o local de implantação é inapropriado por ter decepado um território cujo valor botânico, científico e ecológico e mesmo paisagístico, entrou em degradação irreversível, e que a estrada, à luz do espírito do lugar, poderia e deveria ter sido traçada noutro lugar.

Quem é responsável por qualquer projecto que implique ocupação do solo de forma a alterar-lhe o uso irreversivelmente, como é o caso do arquitecto, neste momento em que o planeta já reage de forma tão brutal à acumulação do erro humano, terá cada vez mais de se rodear de uma equipa interdisciplinar para que a sua "ideia" se integre no LUGAR sem mais danos e possa mesmo ser "reparadora" do local porque, como a habitação, também a paisagem demolida pode ser restaurada e reconvertida, já que sempre o homem pode corrigir os seus próprios erros.


O homem criativo e sensível e bem informado olha e lê num local o que dele poderá ou não fazer, como se pudesse falar com as árvores, com o rio e com a montanha, com a cor do céu e a luz, até porque nasceu e cresceu com esses "haveres" num local qualquer e se por momentos pensou que tudo estaria sempre ao seu "serviço", cedo se apercebe de que é exactamente o oposto e que a natureza e o "espírito do lugar" lá estão a mostrar-se para serem vistos.

Lisboa, Bairro.de.Santo.Amaro, Dezembro 2005

Maria Celeste d'Oliveira Ramos


Fotografias de A. B.Coelho (por ordem de apresentação): a zona Leste da Madeira; pormenor de preexistência, jardim e edifício de habitação com projecto dos Arq.os Artur.Pires.Martins e Palma.de.Melo em Olivais N, Lisboa; porta de casa em Azambuja.

O Infohabitar deseja o melhor 2006 aos seus colaboradores e aos seus leitores, com muita saúde e felicidade. Em 2006 poderão contar com a continuidade das edições semanais da nossa revista/blog e nós desejamos poder contar com a continuidade e, muito especialmente, com a dinamização da vossa leitura e participação.
Um óptimo 2006 para todos.

A edição do Infohabitar

sexta-feira, dezembro 16, 2005

59 - O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade – um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 59

 - Infohabitar 59

O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade

um artigo de Celeste Ramos
Imagens de A.B.Coelho

Nunca nenhum acontecimento na História das Civilizações marcou tanto os homens como o nascimento de Jesus em Belém da Palestina, como se a partir daí a História passasse a ser re-escrita, perdurando até hoje esse "marco" ao longo de dois mil anos e que se tornou imaterial.
O próprio Império Romano que marcou sobretudo o mundo mediterrânico e europeu com a Pax Romana e a sua cultura técnica e estética poderia ser o primeiro gesto de globalização e unificação do "estar em paz e simultaneamente em desenvolvimento" dos povos e lugares conquistados. Porém, o avanço das legiões romanas Germânia fora, e o seu contacto com os Teutões, que se previa poderem ser, igualmente, absorvidos, levaria à última etapa da queda lenta do longo e grande Império de Roma.

Interessante entretanto os adoradores de muitos deuses pagãos, que nos deixaram para sempre essa ímpar faceta cultural da mitologia romana tão paralela à grega, terem tido como último Imperador Constantino, que, ao instalar-se uma nova religião – o cristianismo – a ela aderiu a ponto de mandar pintar nos escudos dos soldados e centuriões das suas Legiões os símbolos desse Deus único (Jesus "O" Cristo), cujos sinais teria visto em sonho, passando as guerras de conquista a ser a partir daí levadas a cabo em seu nome, o do Menino que nasceu em Belém.

Foi assim que em honra ao "novo deus" fundou com a maior grandeza e fausto Constantinopla (antes Bizâncio), a nova Roma, que seria o centro do Império Romano do Oriente, em que igrejas, monumentos e palácios teriam riqueza de formas de arquitectura exterior e interior, e fausto de ornamentos, jamais visto, império que cairia em definitivo, com a invasão dos Otomanos, mas depois de ser a capital do Império Bizantino de 330 a 1453, portanto durante mais de mil anos.




Em comemoração do nascimento de Jesus Cristo e da visita dos Reis Magos, representou-se o estábulo em que Jesus nasceu – talvez feito de barro, provavelmente complementando uma saliência ou pequena gruta na rocha (segundo S. Jerónimo) –, desde o século IV, embora os presépios com figuras esculpidas se baseiem em reconstituições do pré-renascentista São Francisco de Assis.

O Natal passaria a ser comemorado por todo o Mundo onde há um cristão, sendo o Presépio e a Missa do Galo seguidos pela Consoada, todos símbolos fortes da comemoração actual do Natal de Jesus, Natal também dos homens cristãos que celebram a festa da "sagrada família" e da sua família também, nessa "noite fria e a mais longa do ano", a noite do solstício de inverno, e, aliás, natal significa "nascimento de novo sol".

E o Natal é celebrado por muitos homens que se intitulam pagãos, rasgando fronteiras físicas e étnicas, sociais e culturais, como se o "natal" e esse novo "sol" existisse e renascesse em cada homem, não importando qual a sua motivação interior.

O Natal é um acontecimento na aldeia, na vila, na cidade e na família. Assim não há rua de qualquer lugar que não assinale a festa do Natal. E parece que há mais leveza e alegria no rosto de toda a gente, que se pacifica, e também o rosto da cidade se veste dos mais variados e cada vez mais perfeitos enfeites de luz, que sendo embora obras de arte pública efémera, tornam os espaços habitados tão diferentes que convidam até a ir à rua ver o que os homens fizeram para proporcionar e partilhar alegria colectivamente.

Este tempo marca toda a gente de todas as idades e condições sociais, e as ruas estão mais vivas como se participassem dessa azáfama. Da mesma forma muda a gastronomia e a doçaria, tão rica e gulosa, como muda até o interior de cada habitação que se torna mais festiva e adornada.




Afinal, por dentro da casa e na rua, a cidade muda porque muda a atitude dos homens. Há mais luz, mais arte, mais solidariedade e mais união entre os humanos, que pelo menos por estes instantes se despojam um pouco do seu quotidiano e das suas guerras, e dão um lugar maior à paz.

Os ritmos da Cidade e dos seus habitantes mudam com as estações do ano e, no solstício de Inverno, há paragem e meditação sobre o nosso sol interior e para encontro do homem com o melhor de si mesmo, como preparação para se celebrar o novo ano que se aproxima com toda a renovação possível para se "entrar com o pé direito", e se renascer, mesmo antes do renascimento da natureza na primavera, que a seguir vem, porque estamos também ainda num tempo de repouso e despojamento da natureza e de hibernação da vida.

E será frio só por fora, pois a terra conserva o seu calor interior, para mais tarde nos dar a emoção de tudo voltar a reflorescer, porque por amor tudo recomeça. Como se a própria Terra parasse a sua azáfama, o solo descansasse da sua produção, as árvores se despissem de folhas porque já entregaram os seus frutos no verão, e tudo se "recolhesse", preparando o que virá a seguir, em ciclos contínuos da natureza e dos homens, ciclos cósmicos a que o homem responde e se realizam de acordo com cada estação do ano, e como se o sítio do habitar, a Cidade, do mais pequeno povoado à maior urbe, fosse o eterno espaço-espelho-e-testemunho de toda a acção humana.



Seja em honra dos deuses ou de um só Deus, dos seus heróis, ou santos da sua devoção, sempre os homens festejaram as datas dos seus calendários históricos e culturais, misturando o sagrado e o profano sem complexos.

É ainda uma das grandes riquezas deste País onde nascemos, que ainda não esqueceu a tradição concretizada nas festas e romarias em terra de vale ou de montanha, no rio e no mar, as festas das estações; e, entre elas, uma há que é sempre muito especial, porque é a festa do nascimento e do renascimento, a festa do Natal.

E a cidade, que teima em desfazer-se e desmoronar-se numa ânsia tantas vezes cega de modernização, não pode deixar de perpetuar a celebração das suas festas sagradas e populares que, se morrerem, arrastarão consigo mais pedaços da vida urbana e da identidade urbana.

Santo Natal, com muita paz, para todos os "visitadores" do infohabitar e o desejo mais sincero de que o Ano Novo seja, de facto, NOVO e renovador.


Lisboa, Bairro de Santo Amaro, Dezembro de 2005
Maria Celeste d'Oliveira Ramos – arquitecta-paisagista

Imagens de A.B.Coelho

segunda-feira, dezembro 12, 2005

58 - QUEM SABE COMEÇAMOS POR NÓS? Artigo de Marilice.Costi - Infohabitar 58

 - Infohabitar 58

QUEM SABE COMEÇAMOS POR NÓS?

Artigo de Marilice Costi

“Pensar nas palavras ditas para pensar
as pessoas que as proferem...
e aquelas a quem respeitam”

Paulo.Machado
(Os idosos na cidade e a cidade envelhecida. http://infohabitar.blogspot.com/ 05.dez. 2005)


A lama que, todo os dias em vários meses, vem sendo jogada pela televisão e pelas letras repetidas nos jornais, só faz aumentar a nossa descrença nos homens e num mundo melhor. Mesmo que muitos digam que estamos purgando anos de história corrupta e de forma visceral – o que pode significar um tratamento radical e eficaz – não se justifica o sofrimento que o país (leia-se gente) passa. Nada justifica. Matar a utopia de um povo é tapar o final do túnel, apagar a luz. E isto é um dos crimes mais sórdidos ao meu ver.

Tenho lido textos de autores renomados como Arnaldo.Jabor ou João.Ubaldo.Ribeiro, circulando na Internet. Eles mexem com a gente, tentam estimular a nossa auto-estima e a nossa responsabilidade frente aos acontecimentos. Uma forma de mostrar que temos a obrigação de virar a página e virar de forma adequada, abrindo novas saídas para o túnel e removendo o que é espúrio. Mesmo assim muito me entristecem.

Mas um ato simples e delicado de uma pessoa num clube desportivo de Porto.Alegre fez com que me sentisse melhor. Ambas saímos da aula de ginástica – Pilates é um tipo de exercício que mexe muito com o corpo e, consequentemente, movimenta os líquidos – e nos dirigimos ao sanitário. Quando chegamos, percebi que a colega nova – eu não a tinha encontrado anteriormente – estava na minha frente, portanto, certamente, a vez era dela: aliviar-se antes de mim. Ela me perguntou: Você está em que condições? Tem pressa? Respondi-lhe, mais ou menos. Ela disse, eu estou na mesma. Vá primeiro. E eu argúi: Você chegou antes, eu aguardo. Mas ela insistiu: Que idade você tem? – e eu, sem me dar conta, lasquei a minha. Ela, a recém-conhecida, categoricamente, ordenou: Você vai primeiro. Tem mais idade que eu. E ainda observou que o papel higiênico estava no fim, foi buscá-lo e me alcançou.

Sem argumento e mediante o seu critério, sucumbi dando-me conta que eu estava sendo respeitada pela idade que eu tinha, apenas quatro anos mais que ela.




A caminho de casa, depois de um dia turbulento, cheio de problemas a resolver, como tem sido o dia-a-dia das famílias brasileiras, pensei: uma coisa tão singela me deu tanto bem-estar. Conheci uma pessoa respeitosa, ao redor dela existem outras tantas que também devem respeitar as pessoas da mesma forma. Ainda existem critérios de valor na sociedade. Sorri sozinha.

A complexidade do século XXI perpetua a fragmentação e degradação do século XX, destruindo os valores humanos... Nossa sociedade tão carente de valores... Valores, critérios. Qual vivenciei naquele final de tarde? O respeito à idade e à experiência dos outros. O respeito aos mais velhos. Um simples critério que não só parece ser simples. É simples, assim como são poucos e básicos os Dez Mandamentos.

Vale lembrar que ouvi dizer que os tais mandamentos, se fossem escritos hoje, teriam um mais: Não consumirás sem critérios. Tudo que frequentemente não fazemos, porque não suportamos a avalanche de estímulos ao consumo jogados nas nossas retinas, mobilizando nosso sistema nervoso...

Respeito aos outros – como foi o caso da minha colega desconhecida -, e por nós mesmas - como é o caso de não sucumbirmos à mídia - não são tão complicados.

A nossa capacidade de discernimento precisa ser resgatada, a crítica e a autocrítica devem ser exercitadas desde sempre. Mas mais que isto, é preciso olhar o próximo como a nós mesmos. Mas isto pode doer muito. Daí que nos entupimos de presentes, mesmo que nem precisemos deles.

Vale lembrar o direito do consumidor, não só como algo que dever ser relacionado à aquisição de bens e serviços, que devem ser bem feitos e pagos devidamente, mas como algo que vem de nós, de nossa ética, da nossa capacidade de discernir, de respeitar os outros.





A pessoa que me cedeu lugar talvez nem saiba o quanto me fez bem sentir que envelhecendo ainda sou alguém. Foi o que pensei enquanto aguardava o semáforo abrir ao voltar para casa. Sempre poderemos fazer alguma coisa para possibilitar que o outro se sinta melhor. Mesmo que isto seja simplesmente ceder lugar num banco de ônibus ou na fila de um sanitário. É simples. Começar por nós mesmos. O que pode ser o início de uma mudança de hábito, o início do resgate de valores, o início do clima natalino, que tal?

Porto.Alegre, Dezembro de 2005

Marilice.Costi


Nota do editor:
Na sequência desta primeira abordagem da fundamental temática dos idosos na cidade, é com muito gosto que novamente acolhemos um artigo de grande humanidade e oportunidade, escrito pela arquitecta e escritora Marilice.Costi e, já agora, visitem o seu site www.sanaarquitetura.arq.br

(fotografias de A.B.Coelho)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Mensagem triste, por um amigo que partiu, em memória saudosa de José Barreiros Mateus - Infohabitar 57

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Não há palavras quando um amigo parte, provavelmente deveríamos nada dizer, mas é preciso soltar um pouco a dor e as palavras. Hoje pela manhã, dia 7 de Dezembro de 2005, o nosso bom amigo e companheiro José Barreiros Mateus partiu para outras terras, para outro nível de existência.
Não há palavras, pela alegria, pela generosidade, pela humanidade, pela força, pelo que fez para tantos. E não conseguimos entender o que é hoje a dor da família, se a nossa dor é aquela que sentimos.
O Dr. José Barreiros Mateus fez muitas coisas na sua vida, fez muitos amigos, fez a Nova Habitação Cooperativa (NHC), ajudou a que a Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) fosse ganhando uma força imparável e ainda arranjou tempo para estar com o Grupo Habitar. Muito fez, muito iria fazer, muita muita falta nos fará.

À esposa, aos filhos, à família enlutada e a toda a grande família da NHC, à qual pertenço, deixo em meu nome e do Grupo Habitar as palavras impossíveis de uma sentida tristeza, um abraço de amizade e o sentido de sempre o termos bem presente no dia-a -dia da nossa memória e das nossa obras, pois ele estará sempre ao nosso lado, ajudando-nos na caminhada que continua e nos objectivos que visava e que visamos.

No dia 8 Dezembro haverá Missa na Igreja do Algueirão, pelas 15h 30, seguindo-se o Funeral no Cemitério do Lourel.

A vida afasta-nos talvez, dos camaradas, impede-nos de pensar muito neles. Estão, no entanto, em qualquer parte, não se sabe bem onde, mas tão fiéis! E, se acaso os nossos caminhos se cruzam, sacodem-nos pelos ombros, com labaredas de alegria! Pouco a pouco, porém, descobrimos que não voltaremos a escutar o riso claro daquele, que nos está vedado para sempre tal jardim. É então que principia o nosso verdadeiro luto, porque nada, jamais, substituirá o companheiro perdido. Velhos camaradas não se criam. Não há nada que valha o tesouro de tanta recordação comum. Estas amizades não se refazem. Ao plantar-se um carvalho, é vão ter a esperança de se poder gozar brevemente da sua sombra. Assim corre a vida ... Um a um, os camaradas retiram-nos a sua sombra. (Terra dos Homens, A. Saint-Exupery)


António Baptista Coelho

segunda-feira, dezembro 05, 2005

56 - Os idosos na cidade e a cidade envelhecida - um artigo de Paulo Machado - Infohabitar 56

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Os idosos na cidade e a cidade envelhecida

um artigo de Paulo Machado, Sociólogo, Investigador Auxiliar no LNEC, onde integra o Núcleo de Ecologia Social.

Pensar nas palavras ditas para pensar as pessoas que as proferem... e aquelas a quem respeitam.

Na nossa sociedade é sensível uma alteração vocabular que importa reter: aos velhos de antigamente sucederam os homens e as mulheres da 3ª Idade e da 4ª Idade, os idosos de hoje. A expressão velho ou velha, enquanto designativo, caiu em desuso, salvo quando se pretende caracterizar alguém do ponto de vista do seu estado presente, por comparação ao passado ou por comparação com outrém: “envelheceu de repente”; “está a ficar velho”; “ele está mais velho do que ela”. Caso contrário, a designação socialmente correcta é amaciada (idoso, a mais usada, de preferência a ancião, sénior, geronte, velhote), e o termo velho ganha um sentido quase pejorativo.

A alteração vocabular deixa perceber uma mudança social com um significado próprio. Esta nova opção vocabular não se aplicou aos tecidos inertes (à habitação), embora eles possuam “vida”, façam viver a cidade e preservem a vida de quem neles se abriga. Daqui resulta que um idoso possa ser referenciado numa velha casa, sendo improvável ouvir dizer que um idoso apartamento é morada de uma mulher velha. Sem pruridos, dizemos que um edifício está velho quando revela sinais de deterioração. Mas é afirmação socialmente menos consentida se essa senescência for de alguém que estimamos e respeitamos.

Esta deferência vocabular introduzida nas sociedades Ocidentais contemporâneas quando nos referimos aos mais velhos espelha a nossa própria posição sobre essa condição humana e social (a velhice). É questão que não cabe aqui esmiuçar. Mas pode ter implicações sobre o modo como compreendemos a relação do homem e da mulher idosos com o seu espaço vivido. Por exemplo, pode levar-nos a pensar em soluções residenciais assistidas, dos próprios (apoio domiciliário) ou especialmente construídas para o efeito. Nestes casos, a gama existente vai das pequenas unidades residenciais (condominiais, agrupamento de famílias) aos grandes equipamentos (lares, casas de repouso), numa lógica de descontinuidade geracional mais ou menos radical.

A questão do alojamento das pessoas de maior idade, quando entendida como tal (isto é, questão de uma geração e não da nossa organização social) acaba por ser tributária do mesmo processamento social, que categoriza etariamente e favorece uma estereotipia social baseada na idade. Esse processamento é um fenómeno social normalizador (e normativo) que reduz a complexidade do real e homogeneíza as pessoas e os seus grupos de pertença. As ‘crianças’, os ‘adolescentes’, ‘os jovens adultos’, os ‘adultos’, os ‘idosos’ são produto desse processo, e a organização da vida social é determinada por estas categorizações, retroagindo incessantemente.




Imagem 1: A cidade e os seus equipamentos exigem atenção redobrada para um usufruto em condições adequadas. O “típico” pode ser adverso ao idoso.

As cidades, expoentes máximos da concentração humana e da civilização urbanocêntrica, reproduzem na sua ordem social e espacial este modo segmentado de ver a sociedade. Enquanto as urbes se confundiram com crescimento populacional, pujança económica, sorvedouros de mão-de-obra jovem e espaços de elevada atractibilidade, poucos foram os que imaginaram (e se preocuparam) com os velhos que nelas habitavam, e a questão do envelhecimento demográfico não lhes dizia directamente respeito.

Desenganem-se, porém, aqueles que pensam que as cidades não envelhecem demograficamente, em estreita relação com o envelhecimento do seu edificado e das demais infra-estruturas. Provámo-lo à saciedade em estudos recentes. Entre nós, por exemplo, a maioria da população com mais de 65 anos de idade já não residia, em 2001, maioritariamente, em lugares com menos de 2.000 habitantes (apenas 47,6%, contra 53% dez anos antes), e o maior aumento nas últimas décadas tem-se verificado nos centros urbanos, quer de média, quer de grande dimensão. No início deste século XXI, mais de ⅓ (35%) dos idosos vive em aglomerados considerados urbanos (> 10.000 habitantes). Mais precisamente: 592 mil pessoas idosas.

As cidades, nomeadamente as de maior dimensão, reflectem nas suas estruturas populacionais esta tendência demográfica para o envelhecimento, embora a expressão do peso relativo da população idosa se faça sentir ainda mais, dado que a própria transformação urbana se encarrega de proceder a uma segregação demográfica que expulsa para as periferias as gerações mais novas, criando as condições para o aparecimento de áreas dentro da cidade (freguesias, quarteirões, bairros) em que a proporção de idosos é elevadíssima, em muitos casos ultrapassando 30% da população aí residente. A Cidade de Lisboa reflecte bem este fenómeno.



Imagem 2: A secularização crescente e a desparoquialização das práticas religiosas têm contribuído para o isolamento progressivo do idoso, mesmo na “sua “ Igreja.

A segregação demográfica (ou dissociação etária), entendida neste duplo sentido do envelhecimento populacional das cidades e rejuvenescimento das suas periferias, pode ser definida como a desigual repartição dos diferentes grupos sexo-etários no seio das aglomerações urbanas, e é um fenómeno gerador de importantes disfunções sociais e urbanas. A elas nos poderemos vir a referir em outras ocasiões.

Por agora, fiquemo-nos por uma breve caracterização da cidade de Lisboa e do seu envelhecimento, acompanhada de comentários que sugerem aberta discussão.




Os factos da cidade envelhecida que já foi de muitas e desvairadas gentes.


1. Cidade de pouco mais de meio milhão de habitantes (564 mil em 2001), em Lisboa residem cerca de 134 mil idosos (pessoas com mais de 65 anos de idade). Para que se compreenda a reconfiguração demográfica da cidade-capital, são mais 10.000 do que há dez anos, quase mais 20.000 do que há vinte anos.


NENHUM PROJECTO PARA LISBOA PODE FICAR INDIFERENTE AO FACTO DE A CIDADE REGISTAR, ANUALMENTE, UM ACRÉSCIMO DE SENSIVELMENTE MAIS 1.000 PESSOAS IDOSAS, QUANDO O VOLUME TOTAL DE POPULAÇÃO NÃO PÁRA DE DIMINUIR.


2. O total de residentes idosos em 2001 correspondia, numericamente, e grosso modo, ao volume de residentes de todas as idades que a cidade deixou escapar desde 1940. Parte considerável das suas freguesias perdeu diversidade geracional, envelheceu e não apresenta sinais de “retoma” demográfica sustentada.



O PROBLEMA SOCIAL EM MUITAS FREGUESIAS DA CIDADE NÃO É APENAS O FACTO DE ESTAREM ENVELHECIDAS.
É TAMBÉM, E SOBRETUDO, O FACTO DE CADA VEZ SEREM MENOS OS HABITANTES QUE NÃO SÃO IDOSOS.


3. Dos 134 mil idosos residentes, aproximadamente 43% têm mais de 75 anos de idade. E destes muito idosos, quase 40 mil são mulheres.



NÃO BASTA DIZER QUE A CIDADE ESTÁ ENVELHECIDA. É PRECISO TOMAR CONSCIÊNCIA DE QUE OS IDOSOS ESTÃO MAIS VELHOS, O QUE SIGNIFICA QUE OS CUIDADOS DE QUE CARECEM AUMENTAM E PROLONGAM-SE NO TEMPO.


4. Das 53 freguesias, só em 5 existem mais jovens (até aos 15 anos) do que idosos. Essas freguesias são a Ameixoeira, Carnide, Charneca, Lumiar e Marvila.


5. Estes factos explicam porque Lisboa é a cidade portuguesa mais envelhecida, a capital europeia com maior proporção de idosos e uma das cidades europeias com maior envelhecimento demográfico.


No conjunto da cidade, o número de idosos é o dobro dos jovens (134 mil vs. 66 mil).






6. As projecções demográficas indicam que a tendência para o envelhecimento se manterá e acentuará nas próximas décadas. Lisboa não escapará a esse desígnio demográfico.



A DINÂMICA SOCIAL E DEMOGRÁFICA IMPÕE RESPOSTAS POLÍTICAS QUE NÃO PODEM SER ADIADAS.


7. Mas também a própria Área Metropolitana conhecerá um fenómeno de envelhecimento. Estimam-se que sejam hoje cerca de 326 mil os idosos residentes na AML, mas dentro de 10 anos serão quase 400 mil.



AS QUESTÕES DO ENVELHECIMENTO NÃO DIZEM APENAS RESPEITO A LISBOA MAS A TODA A SUA ÁREA METROPOLITANA E É TAMBÉM NESSE CONTEXTO QUE DEVERÃO SER PENSADAS.


A estes factos demográficos, outros indicadores sociais se podem associar:

8. Pelo menos 34.000 idosos da Cidade (dos 134 mil residentes, i.e., 25%) vivem sós em casa.


9. Pelo menos mais 50.000 viverão apenas com o seu cônjuge, o que significa que cerca de 62% viverão sós ou acompanhados com outro idoso.



O TOTAL ISOLAMENTO OU A DEPENDÊNCIA DE OUTRO IDOSO SÃO FACTOS A QUE NÃO PODEMOS FICAR INSENSÍVEIS E QUE SUGEREM POLÍTICAS SOCIAIS ACTIVAS PARA OS MAIS VELHOS.


10. A relação entre a idade das pessoas e a idade dos alojamentos e as suas más condições habitacionais é fortíssima (e estatisticamente irrefutável), denunciando que a precaridade das condições em que habitam será, em muitos caso, muito elevada.



O PROBLEMA DAS MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS NÃO ADAPTADAS ÀS NECESSIDADES DOS MAIS VELHOS PODE SER ATACADO.


11. Nem todos vivem no centro da Cidade. Grande parte vive nas avenidas novas, em Alvalade, em Benfica, muitos (cerca de 6.500) em bairros sociais de realojamento.



É ERRADO PENSAR-SE QUE SÓ EXISTEM IDOSOS NAS ZONAS HISTÓRICAS DA CIDADE.


12. Mais de 3.000 vivem em lares e residências para idosos (2 em cada 100).


13. O índice de risco rodoviário (nomeadamente no atravessamento das ruas) é várias vezes superior à média (de todas as idades).


14. O medo (sentimento de insegurança) gerado pelos furtos e roubos de que são alvo é o maior de entre todos os cidadãos.


15. A mobilidade (uso do transporte próprio ou público) é a mais baixa de entre todos os moradores.



OS RISCOS RELACIONADOS COM A UTILIZAÇÃO DA VIA PÚBLICA, O MEDO DE SER ASSALTADO, A AUSÊNCIA DE UMA REDE DE TRANSPORTES ADEQUADA, A FALTA DE RECURSOS MATERIAIS EXIGEM RESPOSTAS.


16. O rendimento mensal médio é dos mais baixos.


17. Pela óptica mais restrita dos índices de pobreza (i.e., em que o critério assegura que as pessoas identificadas nesta categoria possuem rendimentos correspondentes a 60% da mediana do valor da receita líquida total por adulto equivalente), obtém-se um nicho de idosos pobres residentes na Cidade em torno dos 50 mil, ou seja, cerca de 37% do total de idosos residentes.


alguém poderá ficar indiferente a uma estimativa que admite que o número de idosos pobres na cidade ronde os 50 mil?

18. Deverá ter-se em consideração que 92% dos homens e mulheres com mais de 65 anos e residentes na cidade são “inactivos” (o que significa serem reformados, aposentados ou domésticos, não exercendo uma actividade remunerada), e que os 8% que ainda trabalham, a maioria fá-lo apenas até aos 69 anos de idade, predominando (nestes casos), por ordem decrescente de importância, os seguintes grupos sócio-económicos:


Trabalhadores não qualificados (de diferentes sectores) (21%)

Quadros intelectuais e científicos (15,4%)

Empregados administrativos do comércio e serviços (15%)

Pequenos patrões do comércio e serviços (7%)

Directores e quadros dirigentes do Estado e empresas (5,5%)


A INACTIVIDADE PROFISSIONAL DA VELHICE URBANA, SOBRETUDO DAQUELES QUE SE ENCONTRAM PSICOLOGICAMENTE E FUNCIONALMENTE APTOS, PODERIA SER A MAIOR FORÇA DE TRABALHO SOCIAL DISPONÍVEL AO SERVIÇO DE UMA CIDADE SOLIDÁRIA


19. Deverá ter-se também em consideração que 43% das pessoas residentes em Lisboa que foram identificadas como portadores de uma qualquer deficiência e independentemente do grau de incapacidade (motora, auditiva, visual, mental ou outra, cfr. dados de 2001) tinham mais de 65 anos de idade. Aliás 43% dos idosos estavam nessa situação.


Comente você mesmo!





Imagem 3: Há alguma inconvencionalidade no modo de vida do idoso urbano, que o cosmopolitismo não esbate, e pelo contrário acentua.