segunda-feira, dezembro 05, 2005

Os idosos na cidade e a cidade envelhecida - um artigo de Paulo Machado - Infohabitar 56

 - Infohabitar 56

Os idosos na cidade e a cidade envelhecida

um artigo de Paulo Machado, Sociólogo, Investigador Auxiliar no LNEC, onde integra o Núcleo de Ecologia Social.

Pensar nas palavras ditas para pensar as pessoas que as proferem... e aquelas a quem respeitam.

Na nossa sociedade é sensível uma alteração vocabular que importa reter: aos velhos de antigamente sucederam os homens e as mulheres da 3ª Idade e da 4ª Idade, os idosos de hoje. A expressão velho ou velha, enquanto designativo, caiu em desuso, salvo quando se pretende caracterizar alguém do ponto de vista do seu estado presente, por comparação ao passado ou por comparação com outrém: “envelheceu de repente”; “está a ficar velho”; “ele está mais velho do que ela”. Caso contrário, a designação socialmente correcta é amaciada (idoso, a mais usada, de preferência a ancião, sénior, geronte, velhote), e o termo velho ganha um sentido quase pejorativo.

A alteração vocabular deixa perceber uma mudança social com um significado próprio. Esta nova opção vocabular não se aplicou aos tecidos inertes (à habitação), embora eles possuam “vida”, façam viver a cidade e preservem a vida de quem neles se abriga. Daqui resulta que um idoso possa ser referenciado numa velha casa, sendo improvável ouvir dizer que um idoso apartamento é morada de uma mulher velha. Sem pruridos, dizemos que um edifício está velho quando revela sinais de deterioração. Mas é afirmação socialmente menos consentida se essa senescência for de alguém que estimamos e respeitamos.

Esta deferência vocabular introduzida nas sociedades Ocidentais contemporâneas quando nos referimos aos mais velhos espelha a nossa própria posição sobre essa condição humana e social (a velhice). É questão que não cabe aqui esmiuçar. Mas pode ter implicações sobre o modo como compreendemos a relação do homem e da mulher idosos com o seu espaço vivido. Por exemplo, pode levar-nos a pensar em soluções residenciais assistidas, dos próprios (apoio domiciliário) ou especialmente construídas para o efeito. Nestes casos, a gama existente vai das pequenas unidades residenciais (condominiais, agrupamento de famílias) aos grandes equipamentos (lares, casas de repouso), numa lógica de descontinuidade geracional mais ou menos radical.

A questão do alojamento das pessoas de maior idade, quando entendida como tal (isto é, questão de uma geração e não da nossa organização social) acaba por ser tributária do mesmo processamento social, que categoriza etariamente e favorece uma estereotipia social baseada na idade. Esse processamento é um fenómeno social normalizador (e normativo) que reduz a complexidade do real e homogeneíza as pessoas e os seus grupos de pertença. As ‘crianças’, os ‘adolescentes’, ‘os jovens adultos’, os ‘adultos’, os ‘idosos’ são produto desse processo, e a organização da vida social é determinada por estas categorizações, retroagindo incessantemente.

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Imagem 1: A cidade e os seus equipamentos exigem atenção redobrada para um usufruto em condições adequadas. O “típico” pode ser adverso ao idoso.

As cidades, expoentes máximos da concentração humana e da civilização urbanocêntrica, reproduzem na sua ordem social e espacial este modo segmentado de ver a sociedade. Enquanto as urbes se confundiram com crescimento populacional, pujança económica, sorvedouros de mão-de-obra jovem e espaços de elevada atractibilidade, poucos foram os que imaginaram (e se preocuparam) com os velhos que nelas habitavam, e a questão do envelhecimento demográfico não lhes dizia directamente respeito.

Desenganem-se, porém, aqueles que pensam que as cidades não envelhecem demograficamente, em estreita relação com o envelhecimento do seu edificado e das demais infra-estruturas. Provámo-lo à saciedade em estudos recentes. Entre nós, por exemplo, a maioria da população com mais de 65 anos de idade já não residia, em 2001, maioritariamente, em lugares com menos de 2.000 habitantes (apenas 47,6%, contra 53% dez anos antes), e o maior aumento nas últimas décadas tem-se verificado nos centros urbanos, quer de média, quer de grande dimensão. No início deste século XXI, mais de ⅓ (35%) dos idosos vive em aglomerados considerados urbanos (> 10.000 habitantes). Mais precisamente: 592 mil pessoas idosas.

As cidades, nomeadamente as de maior dimensão, reflectem nas suas estruturas populacionais esta tendência demográfica para o envelhecimento, embora a expressão do peso relativo da população idosa se faça sentir ainda mais, dado que a própria transformação urbana se encarrega de proceder a uma segregação demográfica que expulsa para as periferias as gerações mais novas, criando as condições para o aparecimento de áreas dentro da cidade (freguesias, quarteirões, bairros) em que a proporção de idosos é elevadíssima, em muitos casos ultrapassando 30% da população aí residente. A Cidade de Lisboa reflecte bem este fenómeno.

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Imagem 2: A secularização crescente e a desparoquialização das práticas religiosas têm contribuído para o isolamento progressivo do idoso, mesmo na “sua “ Igreja.

A segregação demográfica (ou dissociação etária), entendida neste duplo sentido do envelhecimento populacional das cidades e rejuvenescimento das suas periferias, pode ser definida como a desigual repartição dos diferentes grupos sexo-etários no seio das aglomerações urbanas, e é um fenómeno gerador de importantes disfunções sociais e urbanas. A elas nos poderemos vir a referir em outras ocasiões.

Por agora, fiquemo-nos por uma breve caracterização da cidade de Lisboa e do seu envelhecimento, acompanhada de comentários que sugerem aberta discussão.



Os factos da cidade envelhecida que já foi de muitas e desvairadas gentes.


1. Cidade de pouco mais de meio milhão de habitantes (564 mil em 2001), em Lisboa residem cerca de 134 mil idosos (pessoas com mais de 65 anos de idade). Para que se compreenda a reconfiguração demográfica da cidade-capital, são mais 10.000 do que há dez anos, quase mais 20.000 do que há vinte anos.

NENHUM PROJECTO PARA LISBOA PODE FICAR INDIFERENTE AO FACTO DE A CIDADE REGISTAR, ANUALMENTE, UM ACRÉSCIMO DE SENSIVELMENTE MAIS 1.000 PESSOAS IDOSAS, QUANDO O VOLUME TOTAL DE POPULAÇÃO NÃO PÁRA DE DIMINUIR.


2. O total de residentes idosos em 2001 correspondia, numericamente, e grosso modo, ao volume de residentes de todas as idades que a cidade deixou escapar desde 1940. Parte considerável das suas freguesias perdeu diversidade geracional, envelheceu e não apresenta sinais de “retoma” demográfica sustentada.


O PROBLEMA SOCIAL EM MUITAS FREGUESIAS DA CIDADE NÃO É APENAS O FACTO DE ESTAREM ENVELHECIDAS.
É TAMBÉM, E SOBRETUDO, O FACTO DE CADA VEZ SEREM MENOS OS HABITANTES QUE NÃO SÃO IDOSOS.


3. Dos 134 mil idosos residentes, aproximadamente 43% têm mais de 75 anos de idade. E destes muito idosos, quase 40 mil são mulheres.


NÃO BASTA DIZER QUE A CIDADE ESTÁ ENVELHECIDA. É PRECISO TOMAR CONSCIÊNCIA DE QUE OS IDOSOS ESTÃO MAIS VELHOS, O QUE SIGNIFICA QUE OS CUIDADOS DE QUE CARECEM AUMENTAM E PROLONGAM-SE NO TEMPO.


4. Das 53 freguesias, só em 5 existem mais jovens (até aos 15 anos) do que idosos. Essas freguesias são a Ameixoeira, Carnide, Charneca, Lumiar e Marvila.


5. Estes factos explicam porque Lisboa é a cidade portuguesa mais envelhecida, a capital europeia com maior proporção de idosos e uma das cidades europeias com maior envelhecimento demográfico.


No conjunto da cidade, o número de idosos é o dobro dos jovens (134 mil vs. 66 mil).

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6. As projecções demográficas indicam que a tendência para o envelhecimento se manterá e acentuará nas próximas décadas. Lisboa não escapará a esse desígnio demográfico.


A DINÂMICA SOCIAL E DEMOGRÁFICA IMPÕE RESPOSTAS POLÍTICAS QUE NÃO PODEM SER ADIADAS.


7. Mas também a própria Área Metropolitana conhecerá um fenómeno de envelhecimento. Estimam-se que sejam hoje cerca de 326 mil os idosos residentes na AML, mas dentro de 10 anos serão quase 400 mil.


AS QUESTÕES DO ENVELHECIMENTO NÃO DIZEM APENAS RESPEITO A LISBOA MAS A TODA A SUA ÁREA METROPOLITANA E É TAMBÉM NESSE CONTEXTO QUE DEVERÃO SER PENSADAS.


A estes factos demográficos, outros indicadores sociais se podem associar:

8. Pelo menos 34.000 idosos da Cidade (dos 134 mil residentes, i.e., 25%) vivem sós em casa.


9. Pelo menos mais 50.000 viverão apenas com o seu cônjuge, o que significa que cerca de 62% viverão sós ou acompanhados com outro idoso.


O TOTAL ISOLAMENTO OU A DEPENDÊNCIA DE OUTRO IDOSO SÃO FACTOS A QUE NÃO PODEMOS FICAR INSENSÍVEIS E QUE SUGEREM POLÍTICAS SOCIAIS ACTIVAS PARA OS MAIS VELHOS.


10. A relação entre a idade das pessoas e a idade dos alojamentos e as suas más condições habitacionais é fortíssima (e estatisticamente irrefutável), denunciando que a precaridade das condições em que habitam será, em muitos caso, muito elevada.


O PROBLEMA DAS MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS NÃO ADAPTADAS ÀS NECESSIDADES DOS MAIS VELHOS PODE SER ATACADO.


11. Nem todos vivem no centro da Cidade. Grande parte vive nas avenidas novas, em Alvalade, em Benfica, muitos (cerca de 6.500) em bairros sociais de realojamento.


É ERRADO PENSAR-SE QUE SÓ EXISTEM IDOSOS NAS ZONAS HISTÓRICAS DA CIDADE.


12. Mais de 3.000 vivem em lares e residências para idosos (2 em cada 100).


13. O índice de risco rodoviário (nomeadamente no atravessamento das ruas) é várias vezes superior à média (de todas as idades).


14. O medo (sentimento de insegurança) gerado pelos furtos e roubos de que são alvo é o maior de entre todos os cidadãos.


15. A mobilidade (uso do transporte próprio ou público) é a mais baixa de entre todos os moradores.


OS RISCOS RELACIONADOS COM A UTILIZAÇÃO DA VIA PÚBLICA, O MEDO DE SER ASSALTADO, A AUSÊNCIA DE UMA REDE DE TRANSPORTES ADEQUADA, A FALTA DE RECURSOS MATERIAIS EXIGEM RESPOSTAS.


16. O rendimento mensal médio é dos mais baixos.


17. Pela óptica mais restrita dos índices de pobreza (i.e., em que o critério assegura que as pessoas identificadas nesta categoria possuem rendimentos correspondentes a 60% da mediana do valor da receita líquida total por adulto equivalente), obtém-se um nicho de idosos pobres residentes na Cidade em torno dos 50 mil, ou seja, cerca de 37% do total de idosos residentes.


alguém poderá ficar indiferente a uma estimativa que admite que o número de idosos pobres na cidade ronde os 50 mil?

18. Deverá ter-se em consideração que 92% dos homens e mulheres com mais de 65 anos e residentes na cidade são “inactivos” (o que significa serem reformados, aposentados ou domésticos, não exercendo uma actividade remunerada), e que os 8% que ainda trabalham, a maioria fá-lo apenas até aos 69 anos de idade, predominando (nestes casos), por ordem decrescente de importância, os seguintes grupos sócio-económicos:


Trabalhadores não qualificados (de diferentes sectores) (21%)

Quadros intelectuais e científicos (15,4%)

Empregados administrativos do comércio e serviços (15%)

Pequenos patrões do comércio e serviços (7%)

Directores e quadros dirigentes do Estado e empresas (5,5%)

A INACTIVIDADE PROFISSIONAL DA VELHICE URBANA, SOBRETUDO DAQUELES QUE SE ENCONTRAM PSICOLOGICAMENTE E FUNCIONALMENTE APTOS, PODERIA SER A MAIOR FORÇA DE TRABALHO SOCIAL DISPONÍVEL AO SERVIÇO DE UMA CIDADE SOLIDÁRIA


19. Deverá ter-se também em consideração que 43% das pessoas residentes em Lisboa que foram identificadas como portadores de uma qualquer deficiência e independentemente do grau de incapacidade (motora, auditiva, visual, mental ou outra, cfr. dados de 2001) tinham mais de 65 anos de idade. Aliás 43% dos idosos estavam nessa situação.


Comente você mesmo!

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Imagem 3: Há alguma inconvencionalidade no modo de vida do idoso urbano, que o cosmopolitismo não esbate, e pelo contrário acentua.

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