segunda-feira, março 23, 2009

Nuno Teotónio Pereira, 31 de Março de 2009, no LNEC - Infohabitar 240

Infohabitar, Ano V, n.º 240
Algumas, poucas, palavras sobre o arquitecto Nuno Teotónio Pereira e convite para as 1as Jornadas Técnicas do NAU e do GH e o acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo de Nuno Teotónio
António Baptista Coelho

Fig. 00: LNEC – NAU e GH
Na tarde da terça-feira, dia 31 de Março, na Sala 2 do Centro de Congressos do LNEC, entre as 14h 30 e as 17h 30, decorrerá, com entrada livre e sem necessidade de confirmação de presença, o acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo do Arq.º Nuno Teotónio Pereira, integrado no âmbito das 1.as Jornadas Técnicas do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC e do Grupo Habitar.
(chama-se a atenção para a capacidade da sala, de cerca de 40 lugares)

Faz-se, em seguida, um breve e sempre incompleto resumo da actividade do arquitecto Nuno Teotónio Pereira, ilustra-se o texto com imagens de algumas das excelentes soluções de habitação e cidade, por ele desenvolvidas, inicia-se e termina-se o texto com palavras do próprio Nuno Teotónio e anexa-se, finalmente o programa da tarde de 31 de Março de 2009.

Fig. 01

“Se olharmos para o interior da profissão é uma evidência que muitos arquitectos têm dificuldade em arranjar trabalho ou são obrigados a desempenhar tarefas fora do quadro profissional; e que estas dificuldades vão acentuar-se com a proliferação desmesurada de cursos de Arquitectura a que se vem assistindo.

E se olharmos para a produção do espaço edificado entre nós, não só persiste uma elevada percentagem de projectos feitos por curiosos ou técnicos não qualificados, como até alguns dos que levam porventura a assinatura de arquitecto não ultrapassam uma triste mediocridade: a qualidade continua a ser uma excepção e o nível da produção corrente é claramente insatisfatório — o que significa que o direito à (boa) Arquitectura não está ao alcance de todos.

Colmatar este défice — eis aqui um desafio bem digno de ser assumido pela profissão nesta celebração dos 50 anos do Congresso de 48, em prol do interesse público e da qualidade de vida dos portugueses. E este desiderato, que implica obrigatoriamente, sem porém nesta se esgotar, a revogação do tristemente célebre 73/73, poderá fazer com que tantos jovens arquitectos à procura de trabalho possam encontrar oportunidade de se devotarem à profissão que com tanto entusiasmo escolheram, constituindo um estímulo para o aperfeiçoamento da prática de todos nós.”

Nuno Teotónio Pereira, sobre “o problema da habitação e o I Congresso Nacional de Arquitectura”, em 24.8.98
Fig. 02: os arquitectos Nuno Teotónio Pereira, Vasco Folha e Raúl Hestnes Ferreira e o engenheiro José Teixeira Trigo, no INH, numa acção do Grupo Habitar

Breve nota curricular

Nuno Teotónio Pereira nasceu em Lisboa, em1922. Arquitecto pela Escola de Belas Artes de Lisboa, é Doutorado “honoris causa” pelas Universidades do Porto e Técnica de Lisboa, é autor e co-autor de numerosos edifícios, conjuntos urbanos, projectos, estudos, livros, artigos e comunicações sobre Arquitectura, Habitação, Património, Urbanismo e Território.

Sócio Correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, foi Presidente do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, da Cooperativa Cultural PRAGMA, do Centro Nacional de Cultura, da Associação dos Arquitectos Portugueses e do Conselho de Arquitectos da Europa; é Membro de Honra do Grupo Habitar (GH), em cujas actividades tem participado intensamente.

Resistente contra a ditadura, foi membro da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, foi coordenador do jornal clandestino Direito à Informação, participou nas vigílias contra a guerra colonial da Igreja de S. Domingos e da Capela do Rato e no Boletim Anti-Colonial; foi libertado da prisão política de Caxias a seguir ao 25 de Abril, tendo sido depois dirigente do Movimento de Esquerda Socialista. Em 1995 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, e em 2004 foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante, aquando da exposição no Centro Cultural de Belém, sobre os 60 anos de actividade do seu atelier, denominada «Arquitectura e Cidadania».

2º Prémio Nacional de Arquitectura da Fundação Gulbenkian em 1961, Prémios Valmor de 1968, 1971 e 1975, com menções honrosas em 1987 e 1988 (com Nuno Portas), Prémio Aica em 1985, Prémio Instituto Nacional de Habitação em 1992 (com Pedro Botelho) e Menção do Júri do mesmo Prémio INH em 1994 (com Pedro Botelho), Prémio Espiga de Ouro da Câmara Municipal de Beja em 1993, Prémio Municipal de Lisboa Eugénio dos Santos em 1995, com menção honrosa em 1997 (os dois com Bartolomeu Costa Cabral), Prémio Aquisição-Arquitectura da Academia Nacional de Belas Artes, em 2007, pelo conjunto da obra.

Conciliou uma intensa actividade de projecto e obra de arquitectura e urbanismo em regime de profissão liberal, no quadro de um atelier profissional e formativo, com uma constante participação cívica, o desenvolvimento da investigação aplicada e uma importante actividade como técnico consultor das Habitações Económicas – Federação das Caixas de Previdência; instituição que marcou um quarto de século com inúmeros casos de referência na promoção de habitação de interesse social em Portugal.

Participou no Inquérito à Arquitectura Regional em Portugal, foi delegado português no Comité do Habitat da União Internacional dos Arquitectos e realizou e publicou livros, artigos e diversos estudos entre os quais se destacam: a "Evolução das Formas de Habitação Pluri-Familiar em Lisboa"; “Prédios e Vilas de Lisboa” (Livros Horizonte, 1995); “Escritos” (edições FAUP, 1996); “Tempos, Lugares, Pessoas” (Público/Contemporânea, 1996); e “Património Arquitectónico da Segurança Social (Secretaria de Estado da Segurança Social, 1997); ensaios sobre a arquitectura do Estado Novo; entradas em diversos dicionários; e numerosos artigos e comunicações.
Fig. 03: o bloco das Águas Livres, construído em Lisboa entre 1953 e 1956, em co-autoria com Bartolomeu Costa Cabral, um edifício que marcou a nossa arquitectura do habitar, pela inovação na promoção privada de edifícios de habitação.
Autor e co-autor: de conjuntos de habitação de interesse social, moradias e outros edifícios em vários pontos do País (Vila do Conde, Barcelos, Lisboa, Universidade de Aveiro); das igrejas das Águas (1949/1953), de Almada, de Boidobra e do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa (1961), em co-autoria com Nuno Portas, que foi Prémio Valmor 1975; de vizinhanças e torres habitacionais muito humanas em Olivais Norte-Lisboa, em co-autoria com António Pinto de Freitas e Nuno Portas, às quais (torres) foi atribuído o Prémio Valmor 1967, o único dedicado à habitação social; do bloco das Águas Livres, em co-autoria com Bartolomeu Costa Cabral, um edifício que, também, marcou a nossa arquitectura do habitar; do edifício de escritórios na Rua Braancamp em Lisboa conhecido por Franjinhas (1965/1968), em co-autoria com João Braula Reis, que foi Prémio Valmor 1971; da sede da Companhia de Seguros Fidelidade; da Caixa Geral de Depósitos na Horta; do conjunto da EPUL no Alto do Restelo, em Lisboa (1972/1973), em co-autoria com vários colegas; dos grandes e excelentes conjuntos de habitação municipal de Oeiras em Laveiras (Caxias) e no Alto da Loba, realizados em co-autoria com Pedro Botelho, dos quais o primeiro foi Prémio INH Municipal em 1991; e dos Planos de Urbanização do Crato, Fronteira e Castelo de Vide.
Fig. 04: uma das torres habitacionais muito humanas em Olivais Norte-Lisboa, em co-autoria com António Pinto de Freitas e Nuno Portas, e com projecto estrutural do Eng.º Ruy Gomes, às quais foi atribuído o Prémio Valmor 1967, o único até agora dedicado a à habitação de interesse social.

É um dos autores da reconstrução dos Paços do Concelho de Lisboa e co-autor do Estudo de Recuperação e Revitalização do Palácio Nacional de Mafra, do Auditório Municipal de Linda-a-Velha, do Plano de Pormenor 5 do Parques das Nações e do Programa Polis na Covilhã – ordenamento da Praça do Município e requalificação ambiental e urbana das zonas das ribeiras da Goldra e Carpinteira. No início de 2009 Nuno Teotónio Pereira aderiu a uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa que visa ajudar a resolver os problemas dos bairros da cidade com o apoio de um arquitecto de renome; e, assim, em cooperação com outros colegas, está a procurar solucionar “os pequenos grandes problemas” de Alvalade.
Fig. 05: imagens do grande e excelente conjunto urbano de habitação municipal de Oeiras em Laveiras (Caxias), em co-autoria com Pedro Botelho e com projecto estrutural do Eng.º José Teixeira Trigo, que foi Prémio INH Municipal em 1991.

De 1957 a 1974 trabalhou em associação com Nuno Portas e a partir de 1984 com Pedro Botelho, no Concurso para o Centro Cultural de Belém (menção honrosa), no Elevador de Santa Justa, também com Irene Buarque (1º prémio), Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (2º prémio), Reconversão de Cacilhas (2º prémio) e nos projectos do interface do Cais do Sodré (estações do Metropolitano, REFER e Transtejo) e dois edifícios integrados na reconstrução do Chiado.



Esta foi uma síntese, certamente imperfeita e incompleta, da extensa e multifacetada obra de uma pessoa, que sempre a associou a uma notável acção cívica e formativa, e que marcou várias gerações de arquitectos e de todos aqueles ligados às matérias do habitar, da cidade e de uma activa participação cidadã.
Falta agradecer, em nome do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do/e do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e do Grupo Habitar, associação técnica e científica com sede no NAU do LNEC, a honra desta cedência do acervo documental de habitação e urbanismo do Arq.º Nuno Teotónio Pereira, um acervo muito rico, quer pelo seu conteúdo, quer pela sua organização prévia, quer pelo perfil temático que reflecte; e sublinhar que este acervo acervo ficará disponível para consulta na Biblioteca do LNEC, será no Laboratório cuidado e divulgado da melhor maneira que soubermos e pudermos e terá, assim, uma utilidade que desejamos será sempre crescente.

Aproveita-se a oportunidade para saudar os anteriores Chefes do NAU do LNEC, arquitectos Nuno Portas e António Reis Cabrita, que participaram, plenamente, nesta iniciativa, assim como a direcção do Departamento de Edifícios do LNEC, na pessoa do seu Director Eng. Vasconcelos Paiva e o Conselho Directivo do LNEC, na pessoa do seu Presidente Eng. Carlos Matias Ramos pelo total apoio a esta ideia.

Finalmente regista-se aqui um agradecimento ao Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) pela matéria que possibilitará a exposição relativa ao Prémio IHRU Construção 2008; e, naturalmente, um muito especial agradecimento à colega Arq.ª Cláudia Weigert e à Direcção Geral de Saúde, a que pertence, pela excelente oportunidade de se poder associar a cedência do acervo do Arq.º Nuno Teotónio a uma sessão prática de divulgação e discussão sobre o habitar, numa perspectiva que, todos sabemos, estar totalmente ligada ao modo de viver e actuar do Nuno Teotónio.


António Baptista Coelho
Chefe do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, Presidente da Direcção do Grupo Habitar



Fig. 06: imagem do grande e excelente conjunto urbano e de habitação municipal no Alto da Loba, Paço de Arcos - Oeiras, em co-autoria com Pedro Botelho, que foi Menção do Júri do Prémio INH em 1994.

Antes de se anexar o convite para as Jornadas de 31 de Março, conclui-se este breve registo com uma frase de Nuno Teotónio Pereira (“Tempos, Lugares, Pessoas”, p. 103):

“É chegada a hora de reconhecer o interesse público da arquitectura, enquanto organiza, qualifica e humaniza o espaço; disciplinar a ocupação do território; exigir produções de qualidade através da atribuição das respectivas responsabilidades... É preciso que o direito à Arquitectura chegue a todos, dentro de um quadro de competitividade que tenha por critério a qualidade técnica e cultural.”
Fig. 07: imagens da 1.ª Assembleia Geral Eleitoral do Grupo Habitar, no LNEC, em 3 de Dezembro de 2003.
Convite para as 1as Jornadas Técnicas do NAU e do GH e o acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo de Nuno Teotónio Pereira na Sala 2 do Centro de Congressos do LNEC, entre as 14h 30 e as 17h 30 da terça-feira 31 de Março de 2009

Serão realizadas no LNEC, com uma periodicidade flexível, as Jornadas Técnicas do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo – NAU e do Grupo Habitar – GH, um evento com dimensão igualmente flexível, destinado à apresentação e discussão informal de diversos temas técnicos da qualidade do habitar, e estruturado, por regra, com uma parte de apresentação de casos concretos e uma outra parte reservada a uma conferência ou diversas intervenções teórico-práticas sobre um dado tema.

As 1ªs Jornadas Técnicas do NAU e do GH serão dedicadas ao tema:
Saúde e Habitação (I)
Estas Jornadas estão associadas ao acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo do Arq.º Nuno Teotónio Pereira, uma decisão que muito honra o Laboratório, onde desde há cerca de 40 anos se desenvolvem estudos sobre o habitar, e que constitui motivo de fundadas esperanças na sua dinamização e aprofundamento.

A entrada é livre, mas limitada à capacidade da sala (cerca de 40 lugares).

Programa:

. 14h 30: abertura dos trabalhos.

. 14h 35: apresentação comentada dos conjuntos residenciais que se destacaram no Prémio IHRU Construção 2008, pelo Arq.º António Baptista Coelho (NAU e GH).

. 15h 00: palestra sobre o tema “Saúde e Habitação”, pela Arq.ª Cláudia Weigert, Assessora da Divisão de Saúde Ambiental da Direcção Geral de Saúde.

. 15h 40: intervenção sobre o mesmo tema pelo Arq.º António Reis Cabrita (NAU ap., e GH).

. 16h 00: outras intervenções curtas sobre o mesmo tema.

. 16h 15: intervenção do Conselho Directivo do LNEC e outras intervenções no âmbito do acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo do Arq.º Nuno Teotónio Pereira.

. 17h. 00: encerramento dos trabalhos.
Fig. 08: imagem tratada de Laveiras/Caxias


Núcleo de Arquitectura e Urbanismo, Av. do Brasil 101, 1700 – 066 Lisboa.
Grupo Habitar - APPQH, Av. do Brasil 101, 1700 – 066 Lisboa.
Contactos: António Baptista Coelho, abc@lnec.pt Tel. 218443679/Fax. 218443028
telem: 914 631 004
Edição de José Baptista Coelho, em 23 de Março de 2009
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

segunda-feira, março 16, 2009

Novos caminhos da habitação - Infohabitar 239

Infohabitar, Ano V, n.º 239


Novos caminhos da habitação
António Baptista Coelho

Sobre o habitar a cidade e a casa hoje em dia

Estudar a habitação é estudar a cidade e o modo como fazer cidade viva pois, como diz Manuel Correia Fernandes, “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação” e a “cidade sem habitação não faz sentido...” (1)
Vamos então falar um pouco sobre como habitar melhor uma cidade melhor e sobre como a HIS pode participar neste desafio …



Fig. 01: Coop. Habecê, Porto, Viso, 72 f., 1994, Arq.ºs João Pestana, Chaves Almeida e Fernando Neves

A população estabilizou mas as necessidades habitacionais têm crescido, talvez pela junção ainda de críticas faltas de habitação condigna com novas e diversificadas necessidades habitacionais por aumento das pessoas que vivem sós, por uma mutação frequente e brusca na composição dos agregados, pela crescente autonomização residencial dos mais idosos, um grupo etário em crescimento, mas também porque, cada vez mais, há mais pessoas a habitarem diferentes casas e a habitarem a cidade com intensidade.



Fig. 02: os modos de vida e de habitar mudaram e diversificaram-se

Os modos de vida e de habitar mudaram e diversificaram-se, é portanto necessário flexibilizar a oferta de soluções urbanas e residenciais e assumir cada vez mais a habitação como vários espaços de habitar, no interior como lugar de trabalho e de recreio, que responda a um amplo leque de necessidades e desejos através da adaptabilidade e da redução das hierarquias funcionais domésticas, e no exterior urbano por uma afirmação de vizinhanças e de uma cidade agradavelmente habitada.



Fig. 03: nas ruas e pracetas citadinas é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos

E aqui. nas ruas e pracetas citadinas é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos, pois, como defende Jan Gehl (2), enquanto uma casa cheia de gente, como acontecia antigamente, era uma pequena cidade, no caso de uma pessoa que viva só, ou no caso de um casal, precisa-se da vida da cidade para se viver com diversidade e estímulo.

* Dois objectivos aliados: cidade mais viva e melhor habitada

Que problemas são os mais importantes na sociedade e na cidade actuais? Provavelmente estarão entre os mais críticos a falta de vitalidade urbana e a as desmotivantes condições de qualidade habitacional que afectam, ainda, e de diversas formas, muitas pessoas e famílias.

A ideia-chave que aqui se propõe é ser possível e desejável melhorar as condições de habitar de muitos, através de habitação de interesse social, melhorando também a cidade onde se vive, numa resolução dupla de problemas que foram e são críticos.



Fig. 04: é possível e desejável melhorar as condições de habitar de muitos, através de habitação de interesse social, melhorando também a cidade onde se vive - C. M. Matosinhos, Telheiro, 2002, f.44, Arq.º Manuel Correia Fernandes, Const. Norasil

Mesmo com um número reduzido de fogos e com limites de custo é possível enriquecer a paisagem urbana e o que não se deve realmente fazer é quase só habitação, ou quase só lojas, ou quase só equipamento, pois a cidade é tudo isso, a cidade viva é tudo isso, em todos os sítios.

Cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade. E portanto, quando pensamos nas vizinhanças urbanas, que são as células de uma cidade, elas devem integrar, além das habitações, pequenos equipamentos adequados ao serviço das diversas necessidades dos habitantes, mas também ao estímulo do convívio natural e mesmo de uma verdadeira extensão do habitar para além das paredes da casa de cada um.



Fig. 05: cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade - (1991) Faro, Coop. Coobital, Arq. José Lopes da Costa e José Brito

São, por exemplo, os pequenos cafés e restaurantes estrategicamente situados em esquinas e passagens, que tornam a cidade mais habitada e segura e que se podem tornar verdadeiros terceiros espaços das nossas casas, com vantagens para uma vida pessoal, familiar e urbana mais rica e estimulante, mas também é todo um amplo leque de outros equipamentos de proximidade que tornam a cidade circunvizinha mais habitável, porque mais amigável.

Numa cidade assim habitada há que acolher uma grande diversidade de soluções habitacionais, desde a habitação corrente, num multifamiliar, à pequena habitação apoiada e integrada num conjunto de espaços comuns, soluções estas que além de corresponderem a necessidades específicas irão enriquecer a textura vital da cidade.

E para uma cidade mais viva além de melhor habitada e equipada é importante não esquecer o sentido lúdico, de verdadeiro jogo, que deve marcar acessos a habitações e equipamentos e espaços urbanos, sendo a sua pedonalização em espaços mais segmentados e diversificados a condição directa para uma sua maior amigabilidade; uma cidade viva e amiga do peão.



Fig. 06: é importante não esquecer o sentido lúdico, de verdadeiro jogo, que deve marcar acessos a habitações e equipamentos e espaços urbanos - C.M. de Matosinhos, 2005, Monte Espinho, 108 f., Arqª Paula Petiz, const. FDO

A introdução ou a reintrodução de habitação deve ser, assim, aliada à vitalização e qualificação urbana pormenorizadas, ganhando-se, assim, mais e melhores espaços de habitar e de cidade.

Actuar desta forma depende de se fazer boa arquitectura urbana pormenorizada, numa pequena escala civicamente enriquecedora e muito humana, sem repetições de soluções e com intervenções feitas para cada sítio e marcadas pela qualidade arquitectónica; num processo que exige enquadramento específico, pois o segredo, se o há, é, realmente, a qualidade real do projecto, uma qualidade que tem de ser exigida e verificada, pois dela deve resultar melhores habitações e melhores paisagens urbanas.

E uma qualidade que nunca poderá resultar de tábuas rasas, pois devemos aprender com a experiência.

Notas:
(1) Manuel Correia Fernandes – Anos 80 As Cooperativas de Habitação e o Desenho da Cidade, a Senhora da Hora em Matosinhos, p. 1.
(2) Jan GEHL,«A Changing Street Life in a Changing Society» in http://repositories.cdlib.org/ced/places/vol6/iss1/JanGehl/, consultado em 13.02.2009.

Edição Infohabitar por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
15 de Fevereiro de 2009

domingo, março 08, 2009

Seminário sobre conservação de azulejos no LNEC - Infohabitar 238

Infohabitar, Ano V, n.º 238

International Seminar, conservation of glazed ceramic tiles. 15-16 Abril 2009, LNEC

Junta-se, em seguida, um texto de divulgação de um seminário sobre conservação de azulejos que decorrerá brevemente no LNEC, chamando-se a atenção para o grande interesse técnico e patrimonial desta iniciativa e para se estar já muito próximo do final dos prazos para submissão de comunicações do tipo "extended abstract", que no entanto é ainda possível enviar pois o prazo foi alargado até o próximo dia 15 de Março.
Remete-se para o texto que se segue, elaborado pelo colega João Mimoso - e não pelo colega Delgado Rodrigues como foi por lapso anunciado pela divulgação do Infohabitar - , o desenvolvimento do tema deste excelente seminário, bem como as necessárias referências para contactos; e as imagens que desde já se juntam são apenas uma pequena introdução ao interesse que sem dúvida terá esta iniciativa.

A edição do Infohabitar






Fig. 01




International Seminar, conservation of glazed ceramic tiles. 15-16 Abril 2009, Laboratório Nacional de Engenharia Civil

A técnica de fabricação de azulejaria vidrada foi desenvolvida no Médio Oriente e chegou à Península Ibérica durante a época islâmica, com importantes centros fabris em Sevilha e Manises donde os azulejos se difundiram para Espanha e Portugal e posteriormente para Itália, Holanda e outros países, bem como para regiões ultramarinas com presença europeia.

Em Portugal os azulejos foram divulgados a partir de finais do séc.XV, época em que o rei D. Manuel I fez encomendas a fábricas andaluzes para decoração do Palácio Real de Sintra. Algumas décadas mais tarde já eram fabricados localmente, tendo-se tornado um meio preferido de acabamento decorativo das superfícies arquitecturais no séc. XVII. A decoração prevalecente a azul-cobalto sobre branco vítreo, que se associa imediatamente à arquitectura barroca do Brasil e de Portugal, desenvolveu-se para satisfazer uma moda influenciada pela porcelana Ming que os navios portugueses traziam da China.

A produção na Holanda, onde as mesmas influências originaram a decoração no famoso “azul de Delft” foi particularmente notável e os azulejos holandeses foram importados e largamente utilizados no Brasil e em Portugal. Após um século de declínio, a estética Arte Nova enquadrou um renascimento da azulejaria cujo resultado é hoje um notável património da Europa e das Américas.





Fig. 02

Os azulejos são um revestimento extremamente durável, como comprovam os muitos painéis várias vezes centenários que ainda se encontram quase intactos. No entanto, sofrem também da fraqueza inerente de serem materiais estratificados em que a camada vidrada se pode separar da chacota sempre que a água consegue penetrar entre ambas. Outras patologias frequentes são a fissuração do vidrado e o descolamento dos suportes.
Essas e outras fraquezas são frequentemente exacerbadas por intervenções inadequadas.

Não é raro encontrar azulejos, mesmo em interiores, em que mais da terça parte do vidrado já foi irremediavelmente perdida e com ela toda a decoração que continha, num processo de degradação em curso que a breve prazo conduzirá à perda de todo o painel azulejar.

A principal finalidade do seminário que se realizará em Lisboa de 15 a 16 de Abril de 2009 será reunir cientistas e conservadores de diversos países com património azulejar relevante para discutir os azulejos de interesse histórico, os seus processos de degradação e as técnicas de conservação e restauro.

O seminário será composto de palestras por oradores convidados oriundos de vários países com tradição azulejar, e de comunicações (em inglês) sobre o contexto histórico dos materiais e das técnicas de fabricação, a degradação e as suas causas, métodos e materiais de conservação e restauro, relatos de intervenções e seus resultados, necessidades de investigação e problemas por solucionar.

Os resumos alargados devem ser enviados até ao dia 28 de Fevereiro, mas no caso dos leitores deste boletim o prazo é alargado até ao dia 15 de Março pedindo, no entanto, que contactem os organizadores para azulejos@lnec.pt informando da vossa intenção de enviar uma contribuição escrita.

O site do seminário é: http://azulejos.lnec.pt/ onde podem ser consultados todos os outros dados de interesse para os participantes.

João Manuel Mimoso (Investigador Coordenador do LNEC)


O Infohabitar errou:
Apresentam-se as devidas desculpas aos colegas Delgado Rodrigues e João Manuel Mimoso pelo engano havido no registo e na divulgação da autoria do texto acima editado - que foi referido no Infohabitar, inicialmente, como tendo sido elaborado pelo colega Delgado Rodrigues - , engano esse que foi inteiramente da responsabilidade da edição do Infohabitar e que foi originado pela parceria organizativa entre os colegas Delgado Rodrigues e João Mimoso, que está a marcar a organização e a divulgação deste excelente Seminário sobre conservação de azulejos.



Fig. 03

segunda-feira, março 02, 2009

1as Jornadas Técnicas do NAU e do GH - Infohabitar 237

Núcleo de Arquitectura e UrbanismoAv. do Brasil, 101, 1700 - 066 Lisboa


Av. do Brasil, 101, 1700 - 066 Lisboa, NIF - 506 438 740

Infohabitar, Ano V, n.º 237
Convite para estar presente nas:

1as Jornadas Técnicas do NAU e do GH

que decorrerão na Sala 2 do Centro de Congressos do LNEC,
entre as 14h 30 e as 17h 30 da terça-feira 31 de Março de 2009

Pretende-se realizar no LNEC, anualmente, as Jornadas Técnicas do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo – NAU e do Grupo Habitar – GH, um evento com dimensão flexível, destinado à apresentação e discussão informal de diversos temas técnicos da qualidade do habitar, a escolher em cada ano, e estruturado, por regra, com uma parte de apresentação de casos concretos e uma outra parte reservada a uma conferência sobre um dado tema. As 1ªs Jornadas Técnicas do NAU e do GH serão dedicadas ao tema: Saúde e Habitação (I).

Estas primeiras Jornadas estão associadas ao importante acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação do Arq.º Nuno Teotónio Pereira, uma decisão que muito honra o Laboratório, onde desde há cerca de 40 anos se desenvolvem estudos sobre o habitar, e que constitui motivo de fundadas esperanças na sua dinamização e aprofundamento.
A entrada é livre, mas limitada à capacidade da sala.

Programa:

14h 30: abertura dos trabalhos.

14h 35: apresentação comentada dos conjuntos residenciais que se destacaram no Prémio IHRU Construção 2008, pelo Arq.º António Baptista Coelho (NAU e GH).

15h 00: palestra sobre o tema “Saúde e Habitação”, pela Arq.ª Cláudia Weigert, Assessora da Divisão de Saúde Ambiental da Direcção Geral de Saúde.

15h 40: intervenção sobre o mesmo tema pelo Arq.º António Reis Cabrita (NAU, ap. E GH).

16h 00: outras intervenções curtas sobre o mesmo tema.

16h 15: intervenções curtas no âmbito do acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo do Arq.º Nuno Teotónio Pereira.

17h. 00: encerramento dos trabalhos.


António Baptista Coelho
Chefe do NAU, Presidente da Direcção do GH

Núcleo de Arquitectura e Urbanismo, Av. do Brasil 101, 1700 – 066 Lisboa.
Grupo Habitar - APPQH, Av. do Brasil 101, 1700 – 066 Lisboa.
Contactos: António Baptista Coelho, abc@lnec.pt Tel. 218443679/Fax. 218443028, telem: 914631004

CONVOCATÓRIA DA 8.ª ASSEMBLEIA-GERAL DO GH - Infohabitar 236

GRUPO HABITAR (GH)
Infohabitar, Ano V, n.º 236

Grupo Habitar – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

CONVOCATÓRIA DA 8.ª ASSEMBLEIA-GERAL DO GH
em Lisboa, nas instalações do Laboratório Nacional de Engenharia Civil
em 31 de Março de 2009

Em cumprimento do disposto nos artigos 17º, 27º e 42º dos Estatutos, convoca-se a 8.ª Assembleia-geral, em sessão ordinária, para reunir em Lisboa, nas instalações do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
A 8.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar decorrerá pelas 17,30h, na tarde de terça-feira dia 31 de Março de 2009, nas instalações do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, na Av. do Brasil 101, 1700-066 Lisboa, na Sala 312 do Edifício Arantes e Oliveira, onde se situa a sede do Grupo Habitar (edifício principal do LNEC, 1.º andar, sala da Chefia do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC) – alternativamente, a 8.ª Assembleia – geral do GH poderá decorrer à mesma hora e também no LNEC na Sala 2 do respectivo Centro de Congressos, local onde na mesma tarde e antecedendo a referida Assembleia – geral decorrerá a 1.ª edição das Jornadas Técnicas do GH e do NAU.

A 8.ª Assembleia – geral do GH cumprirá a seguinte Ordem de Trabalhos:
1. apreciação e aprovação da Acta da Assembleia-geral anterior e das contas do Grupo Habitar relativas a 2008;
2. apresentação e admissão de novos associados, que se convidam a estar presentes;
3. reflexão sobre as actividades desenvolvidas e a desenvolver no âmbito do GH, considerando a sua dinamização em 2009;
4. informações.
Se à hora marcada não estiverem presentes metade dos associados, a Assembleia reunirá meia hora depois, com os membros presentes, de acordo com o disposto no n.º 2 do art. 28.º dos mesmos Estatutos.
Lisboa, 2 de Março de 2009
O Presidente da Mesa da Assembleia-geral,
Duarte Nuno Simões

Nota importante: esta convocatória é enviada por mail com aviso de recepção e editada na revista/blog http://www.infohabitar.blogspot.com/ – edição esta amplamente divulgada na mailing list do GH.

PS: ANTECEDENDO A ASSEMBLEIA GERAL, pelas 14,30 H, na Sala 2 do Centro de Congressos do LNEC decorrerá a primeira edição das Jornadas Técnicas do GH e do NAU, subordinadas ao tema “saúde no habitar”, incluindo a apresentação dos conjuntos residenciais que se destacaram no Prémio IHRU Construção 2008, uma palestra da Arq.ª Cláudia Weigert, da Direcção Geral de Saúde, sobre a referida temática e a cerimónia de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo pertencente ao Arq.º Nuno Teotónio Pereira.