segunda-feira, março 16, 2009

Novos caminhos da habitação - Infohabitar 239

Infohabitar, Ano V, n.º 239


Novos caminhos da habitação
António Baptista Coelho

Sobre o habitar a cidade e a casa hoje em dia

Estudar a habitação é estudar a cidade e o modo como fazer cidade viva pois, como diz Manuel Correia Fernandes, “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação” e a “cidade sem habitação não faz sentido...” (1)
Vamos então falar um pouco sobre como habitar melhor uma cidade melhor e sobre como a HIS pode participar neste desafio …



Fig. 01: Coop. Habecê, Porto, Viso, 72 f., 1994, Arq.ºs João Pestana, Chaves Almeida e Fernando Neves

A população estabilizou mas as necessidades habitacionais têm crescido, talvez pela junção ainda de críticas faltas de habitação condigna com novas e diversificadas necessidades habitacionais por aumento das pessoas que vivem sós, por uma mutação frequente e brusca na composição dos agregados, pela crescente autonomização residencial dos mais idosos, um grupo etário em crescimento, mas também porque, cada vez mais, há mais pessoas a habitarem diferentes casas e a habitarem a cidade com intensidade.



Fig. 02: os modos de vida e de habitar mudaram e diversificaram-se

Os modos de vida e de habitar mudaram e diversificaram-se, é portanto necessário flexibilizar a oferta de soluções urbanas e residenciais e assumir cada vez mais a habitação como vários espaços de habitar, no interior como lugar de trabalho e de recreio, que responda a um amplo leque de necessidades e desejos através da adaptabilidade e da redução das hierarquias funcionais domésticas, e no exterior urbano por uma afirmação de vizinhanças e de uma cidade agradavelmente habitada.



Fig. 03: nas ruas e pracetas citadinas é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos

E aqui. nas ruas e pracetas citadinas é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos, pois, como defende Jan Gehl (2), enquanto uma casa cheia de gente, como acontecia antigamente, era uma pequena cidade, no caso de uma pessoa que viva só, ou no caso de um casal, precisa-se da vida da cidade para se viver com diversidade e estímulo.

* Dois objectivos aliados: cidade mais viva e melhor habitada

Que problemas são os mais importantes na sociedade e na cidade actuais? Provavelmente estarão entre os mais críticos a falta de vitalidade urbana e a as desmotivantes condições de qualidade habitacional que afectam, ainda, e de diversas formas, muitas pessoas e famílias.

A ideia-chave que aqui se propõe é ser possível e desejável melhorar as condições de habitar de muitos, através de habitação de interesse social, melhorando também a cidade onde se vive, numa resolução dupla de problemas que foram e são críticos.



Fig. 04: é possível e desejável melhorar as condições de habitar de muitos, através de habitação de interesse social, melhorando também a cidade onde se vive - C. M. Matosinhos, Telheiro, 2002, f.44, Arq.º Manuel Correia Fernandes, Const. Norasil

Mesmo com um número reduzido de fogos e com limites de custo é possível enriquecer a paisagem urbana e o que não se deve realmente fazer é quase só habitação, ou quase só lojas, ou quase só equipamento, pois a cidade é tudo isso, a cidade viva é tudo isso, em todos os sítios.

Cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade. E portanto, quando pensamos nas vizinhanças urbanas, que são as células de uma cidade, elas devem integrar, além das habitações, pequenos equipamentos adequados ao serviço das diversas necessidades dos habitantes, mas também ao estímulo do convívio natural e mesmo de uma verdadeira extensão do habitar para além das paredes da casa de cada um.



Fig. 05: cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade - (1991) Faro, Coop. Coobital, Arq. José Lopes da Costa e José Brito

São, por exemplo, os pequenos cafés e restaurantes estrategicamente situados em esquinas e passagens, que tornam a cidade mais habitada e segura e que se podem tornar verdadeiros terceiros espaços das nossas casas, com vantagens para uma vida pessoal, familiar e urbana mais rica e estimulante, mas também é todo um amplo leque de outros equipamentos de proximidade que tornam a cidade circunvizinha mais habitável, porque mais amigável.

Numa cidade assim habitada há que acolher uma grande diversidade de soluções habitacionais, desde a habitação corrente, num multifamiliar, à pequena habitação apoiada e integrada num conjunto de espaços comuns, soluções estas que além de corresponderem a necessidades específicas irão enriquecer a textura vital da cidade.

E para uma cidade mais viva além de melhor habitada e equipada é importante não esquecer o sentido lúdico, de verdadeiro jogo, que deve marcar acessos a habitações e equipamentos e espaços urbanos, sendo a sua pedonalização em espaços mais segmentados e diversificados a condição directa para uma sua maior amigabilidade; uma cidade viva e amiga do peão.



Fig. 06: é importante não esquecer o sentido lúdico, de verdadeiro jogo, que deve marcar acessos a habitações e equipamentos e espaços urbanos - C.M. de Matosinhos, 2005, Monte Espinho, 108 f., Arqª Paula Petiz, const. FDO

A introdução ou a reintrodução de habitação deve ser, assim, aliada à vitalização e qualificação urbana pormenorizadas, ganhando-se, assim, mais e melhores espaços de habitar e de cidade.

Actuar desta forma depende de se fazer boa arquitectura urbana pormenorizada, numa pequena escala civicamente enriquecedora e muito humana, sem repetições de soluções e com intervenções feitas para cada sítio e marcadas pela qualidade arquitectónica; num processo que exige enquadramento específico, pois o segredo, se o há, é, realmente, a qualidade real do projecto, uma qualidade que tem de ser exigida e verificada, pois dela deve resultar melhores habitações e melhores paisagens urbanas.

E uma qualidade que nunca poderá resultar de tábuas rasas, pois devemos aprender com a experiência.

Notas:
(1) Manuel Correia Fernandes – Anos 80 As Cooperativas de Habitação e o Desenho da Cidade, a Senhora da Hora em Matosinhos, p. 1.
(2) Jan GEHL,«A Changing Street Life in a Changing Society» in http://repositories.cdlib.org/ced/places/vol6/iss1/JanGehl/, consultado em 13.02.2009.

Edição Infohabitar por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
15 de Fevereiro de 2009

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