segunda-feira, abril 27, 2009

Qualidade Arquitectónica e Satisfação Residencial - Parte I - Infohabitar 244

Infohabitar, Ano V, n.º 244

Qualidade Arquitectónica e Satisfação Residencial - Parte I
António Baptista Coelho

Índice:
Parte I
. Entre qualidade arquitectónica e satisfação
. Rumos de estudo da qualidade arquitectónica residencial
. As avaliações pós-ocupação habitacionais

Parte II
. O objectivo é a vida e o sítio estratégico é a cidade
. Um espaço urbano e habitacional convidativo
. Notas finais

. Notas bibliográficas

Entre qualidade arquitectónica e satisfação

Considerando que importa defender e revalorizar, urgentemente, o nosso património urbano e habitacional e que é fundamental aproximarmo-nos, cada vez mais, de uma clara satisfação para com a habitação e a cidade que cada vez mais habitamos em maior número e com mais intensidade, tem oportunidade estratégica o aprofundamento das ligações entre o fazer de uma habitação urbana convidativa e com valor cultural, numa conciliação de objectivos que, frequentemente, estiveram ausentes e, ainda mais frequentemente, estiveram e estão ainda isolados uns dos outros.

Afinal, com alguma frequência, acontece que aquilo de que os arquitectos gostam é rejeitado, mais ou menos intensamente, pelos habitantes, que não as entendem e têm dificuldade na sua apropriação, enquanto a perspectiva oposta, de satisfação directa dos gostos e desejos de quem habita, está habitualmente associada a intervenções sem interesse e sem valor acrescentado para a cidade – as tais soluções bastardas, que são aqueles de que ninguém assume a sua paternidade, tal como defende o Arq.º José Luís Azkárate.



Fig. 01

Estas reflexões indicam a oportunidade de se poderem seguir opções intermediárias em termos do desenho e da designável “satisfação bruta”, e atentas às boas práticas.

Tais opções implicam alianças estratégicas entre:


- Um desenho que seja arquitectonicamente bem qualificado, e que integre elementos dinamizadores da adesão formal dos habitantes.
- E uma satisfação “bruta” estruturada por aspectos objectivos ligados ao agrado no decurso da ocupação, tais como boas condições de segurança, luz natural, privacidade e funcionalidade.
E eventualmente a aposta num conjunto de alianças de imagem e de conteúdo:
. Que não são exclusivas de determinados desenhos.
. Que não são exclusivas de determinados grupos socioculturais, constituindo valiosas ferramentas de integração cívica.
. E que dependem, frequentemente, de um exterior público com conteúdo e imagem urbanas que possam ser verdadeiramente estimados.
É, assim, necessário um aprofundamento duplo e articulado, da matéria disciplinar da qualidade arquitectónica residencial e dos processos ligados à satisfação do habitante.
E há que fazê-lo tendo presente não haver, na qualidade arquitectónica residencial, uma barreira real entre o mais qualificável e o mais quantificável, mas, essencialmente, como refere o Prof. Klas Tham - coordenador do projecto de uma ainda recente cidade do futuro, a Bo01 em Malmö - , haverá, sim, aspectos de qualidade que são mais dificilmente avaliáveis e, consequentemente, são menos conhecidos e caracterizados.
E talvez que seja possível avançar num aprofundamento da qualidade arquitectónica residencial em perspectivas que tenham forte eco na globalidade dos habitantes, através de uma continuada divulgação de casos de referência, da sua discussão aberta, e de um esforço real para a sua clara interpretação.
Numa continuada sequência de acções verdadeiramente direccionadas para a comunidade e onde se vise, directamente, fazer passar a ideia da urgência do respeito pelos aspectos qualitativos no fazer e no refazer de uma habitação profundamente mais satisfatória e de uma cidade mais humana e mais enriquecedora do nosso património cultural, um património que, afinal, hoje em dia começa a ter uma enorme valia económica.
É assim urgente sensibilizar habitantes e cidadãos para uma qualidade residencial e urbana que não resulta apenas de números ou de receitas quantitativas a repetir e associadas a uma qualquer satisfação garantida, pois o fazer da cidade e da casa do Homem liga-se, essencialmente, a aspectos qualitativos; e tal como escreveram, há pouco tempo, Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza” (1).
Fig. 02
Mas os arquitectos podem e devem facilitar a percepção pública da complexidade e da subtileza que caracteriza o núcleo fundamental da qualidade residencial e urbana, designadamente, através de algumas formas de actuação entre as quais se sublinha:
Uma linha de aprofundamento disciplinar da qualidade arquitectónica residencial, através da investigação dos respectivos rumos qualitativos; e do desenvolvimento de Programas de Qualidade pormenorizados. Salienta-se, por exemplo, que o Programa de Qualidade do novo grande bairro de Malmö vai até ao diâmetro das árvores.
E uma outra linha de aprofundamento da satisfação habitacional, ligada à consolidação dos processos de Análise e Avaliação retrospectiva ou de Pós-Ocupação.
E uma linha de pesquisa e análise do que foi feito de melhor e de pior, linha esta que deve associar, sempre que possível a audição dos autores de casos habitacionais e urbanos de referência e que depende de uma continuada e clara divulgação de tais casos.
Rumos de estudo da qualidade arquitectónica residencial
Naturalmente que o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil tem avançado no referido aprofundamento da qualidade arquitectónica residencial, desde o avanço de Nuno Portas, cerca de 1969, com o estudo das funções e exigências dos espaços habitacionais e os primeiros trabalhos multidisciplinares associados ao conhecimento da satisfação dos habitantes, e depois de Reis Cabrita, em 1987, ter esquematizado a área da qualidade arquitectónica residencial no seu estudo “O Homem e a Casa”, desenvolvi alguns dos grandes rumos de análise e aprofundamento da qualidade arquitectónica residencial – entre os quais e apenas a título de exemplo (2) refiro aqui a acessibilidade, a funcionalidade, a apropriação, a adaptabilidade e a integração.
Fig. 03
Este trabalho – “Qualidade arquitectónica residencial” (2) – foi discutido no âmbito da primeira prova de doutoramento em Arquitectura realizada na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, em 1995, foi editado no LNEC em 2000, e teve, há cerca de dois anos, continuidade com o estudo das principiais linhas de humanização do habitar e da cidade, estudo desenvolvido também no âmbito de nova prova pública, desta feita no LNEC, e que se encontra também editado numa versão ampla e numa outra resumida e de apresentação do tema (3).
E juntam-se, em seguida, algumas imagens ilustrativas daqueles rumos de qualidade arquitectónica residencial, acompanhadas por breves comentários.
A boa acessibilidade é um aspecto que percorre os diversos níveis físicos, criando motivadores encadeamentos, mais urbanos ou mais naturais, que servem as estratégias de ligações urbanas. A acessibilidade é uma qualidade com grande continuidade entre exterior e interior, mudam apenas as escalas e a pormenorização.
A comunicabilidade é matéria extremamente arquitectónica, responsável pela transmissão de conteúdos funcionais e ambientais e, em parte, pela relação entre espaços, conjugando-se com a acessibilidade, a defesa da privacidade e a promoção do convívio, através do desenvolvimento de limiares e transições.
Fig. 04: a comunicabilidade
A espaciosidade é um aspecto em parte objectivo, ligado a matérias objectivas como a acessiblidade, mas também a assuntos menos aprofundados, como o convívio. Uma espaciosidade equilibrada, exterior e interior, é muito daquilo que caracteriza uma adequada concepção arquitectónica, salientando-se que espaço a mais não é obrigatoriamente melhor espaço e que espaço e pormenorização são faces da mesma moeda.
A capacidade caracteriza soluções adequadas a certos usos e ocupações. A capacidade de arrumação estrutura os espaços domésticos. A capacidade apoia directamente outras qualidades proporcionando uma reserva funcional de apoio directo, assim como uma reserva para usos futuros.
A “velha” funcionalidade cruza espaço urbano, vizinhança, edifício e espaço doméstico. Mas há que considerar quais são as exigências funcionais hoje em dia e localmente determinantes de uma melhor qualidade residencial e vivencial. Boas condições funcionais devem articular múltiplas actividades, mas não podem ser espartilhos associados a previsões monofuncionais em espaços por vezes abaixo de mínimos.
Fig. 05: a funcionalidade
A agradabilidade quer fazer as pontes de ligação com a arquitectura a partir das várias áreas do conforto ambiental. Fazer uma arquitectura residencial sensível ao conforto deveria ser condição obrigatória, mas há ainda que trabalhar e clarificar essas pontes. Hoje em dia domina-se bem o conforto no interior do edificado, mas, como se referiu, tal conhecimento é ainda pouco aplicado, e começamos a aprofundar o conforto no exterior público. E em tudo importa atender à importância da presença do verde urbano nas suas diversas formas.
A durabilidade deve servir com fidelidade e ampla margem de segurança as condições ambientais mais rigorosas e os usos críticos esperados, depende de uma adequada programação dos processos de manutenção periódicos e especiais, e de eficazes e participados processos de gestão.
A segurança é, em grande parte, uma qualidade objectiva, no que se liga a aspectos físicos correntes e especiais do habitar e, naturalmente, aos regulamentos a eles associados. Mas os aspectos menos aprofundados da segurança ganham um peso cada vez maior. Trata-se, aqui, de uma adequada configuração urbana dos edifícios e espaços públicos que lhes estão associados (criando-se vizinhanças visualmente protegidas).
Fig. 06: a segurança
A convivialidade urbana e doméstica, em espaços alternativos, é importante para a coesão familiar. O convívio no edifício é mais complexo, mas um número reduzido de fogos e a possibilidade de uma ou outra actividade comum, que pode ser até a conversa breve de circunstância, serão sempre aspectos positivos. Finalmente, o convívio público é uma qualidade essencial para a garantia de espaços urbanos vitalizados e motivadores.
A privacidade no recanto pessoal é uma necessidade básica, prolongada por idêntica exigência em cada habitação, e depois por uma gradação de privacidades de grupo caracterizando o edifício, o espaço de vizinhança – por exemplo o quarteirão – e até o desejado pequeno bairro residencial e intimista. Privacidade e convivialidade são complementares e interagem numa rica gradação de territórios e limiares.
Fig. 07: a privacidade
A adaptabilidade trata da adequação dos espaços a determinadas condições de contexto e da sua capacidade de mudança de configuração e conteúdo funcional. A adaptabilidade é vital para o fortalecimento do carácter e do protagonismo de espaços urbanos vivos, para a sua grande longevidade de adequação à mudança dos modos de vida, e para o aprofundamento da apropriação de cada habitação.
Quanto à apropriação salienta-se a sua importância numa realidade urbana e habitacional marcada por negativas condições de anonimato e massificação. A apropriação é também determinante quando se procura, ao nível do agrupamento das habitações e nos próprios espaços domésticos, servir melhor diversos grupos socioculturais, vários tipos de famílias e variados tipos de usos domésticos.
Fig. 08: a apropriação
Quanto à atractividade, ela é condição importante para a satisfação residencial e, designadamente, para a criação de laços positivos, de identidade e de estima, entre o mundo habitacional e os seus habitantes. A ideia actual é que temos muitas questões a colocar sobre a capacidade de atracção do espaço público, enquanto já nos aproximamos de algumas certezas sobre o que se pode privilegiar no edificado.
A domesticidade é, basicamente, envolvência e conforto, será também uma bem equilibrada intimidade, por vezes difícil de caracterizar, mas bem aparente. Ao nível público fica, em aberto, a questão da muito provável importância do desenvolvimento de ambientes de vizinhança caracterizadamente residenciais como factores de dinamização da apropriação e da identificação com o sítio que habitamos.
O último rumo qualitativo deste leque que aqui apresento é a “velha” integração (tão velha na justificação da concepção arquitectónica como a funcionalidade). A integração refere-se ao desenvolvimento de conjuntos residenciais completos e coerentes na unidade de todos os seus elementos, e em bom diálogo com os espaços de acolhimento urbanos e naturais; diálogo este de que deve resultar um efeito final que seja uma mais-valia cultural e funcional para o sítio e para a sua envolvente.
Fig. 09: a integração
As Avaliações Pós-ocupação habitacionais
No que se refere à avaliação pós-ocupação, portanto ao desenvolvimento do conhecimento de como nós habitantes gostamos de habitar, sublinham-se dois campos de actuação.
O primeiro refere-se ao conhecimento pormenorizado do último quarto de século de habitação de interesse social portuguesa ligado, em boa parte, às 18 edições anuais do Prémio INH, de 1989 a 2006, e aos Prémios promovidos pelo IHRU em 2007 e 2008, e seguindo idêntica metodologia.
Os conjuntos habitacionais analisados no âmbito destes Prémios constituem cerca de um terço de toda a promoção de habitação de interesse social financiada, correspondendo a cerca de 600 intervenções municipais, cooperativas e privadas. E sublinha-se que estes conjuntos foram pormenorizadamente visitados e localmente discutidos em cerca 600 reuniões de análise multidisciplinar; e por isto se considera que o Prémio assegurou, nos últimos 20 anos, um verdadeiro observatório da habitação feita em Portugal com apoio do Estado (4).
Fig. 10
O segundo campo de actuação nesta matéria refere-se ao desenvolvimento no LNEC de uma metodologia de avaliação pós-ocupação, que foi já aplicada em três grandes campanhas, em 42 conjuntos residenciais, em diferentes localizações, com diferentes tipologias de edifícios, de promoção cooperativa, municipal e privada, realizados entre 1986 e 1998, e com cerca de 3.300 habitações.
Neste processo de avaliação estão envolvidas três especialidades - Arquitectura, Engenharia, Construção e Ciências Sociais - e o processo de análise incluiu o estudo dos respectivos projectos, a discussão com os respectivos promotores, projectistas, construtores e gestores e uma visita pormenorizada aos conjuntos, incluindo entrevistas a habitantes e o lançamento de um nquérito postal, que foi respondido por cerca de um quarto das famílias.
As ferramentas de APO aplicadas no LNEC, têm dado interessantes resultados, salientando-se, apenas a título de exemplo, que:
. Na habitação a qualidade é frequentemente associada a aspectos de iluminação natural e de privacidade;
. No edifício detecta-se, em alguns casos, satisfação com a respectiva imagem urbana, mas continuam a destacar-se negativamente as matérias com âmbito construtivo.
. E no que toca às soluções de arquitectura urbana, é de salientar a boa aceitação de vizinhanças reforçadas e atraentes, considerando o seu conteúdo funcional e a sua gestão integrada, e dirigindo à gestão do espaço público uma atenção redobrada.~
Entre as duas faces da moeda – aprofundar a qualificação arquitectónica residencial; e melhorar a avaliação pós-ocupação – é ainda vital assegurar fundamentados e oportunos processos de análise do projecto.


Notas bibliográficas:
(1) Leonardo BENEVOLO e Benno ALBRETCH, As Origens da Arquitectura, Lisboa, Edições 70,2004 (2002), pp.10-13.
(2) António Baptista COELHO, Qualidade arquitectónica residencial: rumos e factores de análise, Lisboa, LNEC, ITA 8, 2000.
(3) António Baptista COELHO, Habitação humanizada – uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória 836, 2007.
(4) António Baptista COELHO, Instituto Nacional de Habitação, 1984 – 2004: 20 anos a promover a construção de habitação social, Lisboa, INH, LNEC, 2006.

Na próxima semana será editada a parte II deste artigoEdição Infohabitar, 26 de Abril de 2009
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, abril 20, 2009

Apropriação ou representação na habitação - Infohabitar 243

Infohabitar, Ano V, n.º 243

Apropriação ou representação na habitação
António Baptista Coelho

Série habitar e viver (melhor), VI: Apropriação ou representação na habitação, mais luxos ou verdadeiros luxos residenciais
Nota: a ilustração privilegia pormenores de habitação de interesse social

Mais apropriação ou mais representação na habitação
A apropriação pode ser até negativa, mas uma vizinhança e uma casa sem capacidade de apropriação não são, nem uma verdadeira vizinhança nem uma verdadeira casa.

A apropriação pode ser activa ou passiva, mas também, neste caso, com sentido positivo, pois, por exemplo, um edifício habitacional formalmente atraente ou inserido num atraente jardim urbano é sempre um edifício bem apropriado, porque bem identificável e estimulante.


Fig. 01:
Apropriamo-nos assim de algo que nos atrai e que gostamos de mostrar, porque nos marca a memória, de forma positiva e amigável, assim como podemos gostar de algo onde conseguimos introduzir a nossa marca pessoal; ainda que tal marca seja quase um “sinal” de identidade e de presença, ligado a um dado pormenor que nos cativa e que assinala uma entrada, ou uma janela.


E por vezes ao marcarmos algo estamos, realmente, a destruir o equilíbrio formal que aí existia, mas apenas se tal equilíbrio existia. Mas num caso destes estamos, realmente, a contribuir, negativamente, para a destruição de uma essencial estima pública, baseada em pormenores e imagens urbanas gerais e estruturantes que devem conciliar o interesse e a dignidade de uma parte de cidade, que é de todos e que a todos deve agradar, com a força de apropriação de cada edifício e de cada habitação pelos seus próprios habitantes; uma força que pode residir, por vezes, em pormenores tão singelos como uma dada forma geral sóbria mas marcante, ou uma dada marcação do nome de uma pequena praceta ou uma presença de arte urbana estratégica, “surpreendente”, curiosa e sempre marcante de um dado sítio e da sua identidade.

Uma alternativa a este frequente sensível equilíbrio ou desequilíbrio entre apropriação positiva ou destruição do carácter de um dado local, ou, eventualmente, um outro aliado da apropriação pode ser um aspecto representativo, muito digno, de um dado edifício ou troço urbano e habitado. Pode ser que sim, mas será que apropriamos, verdadeiramente, essa “dignidade”, por vezes quase “cerimoniosa”, designadamente, quando ela se liga aos espaços que habitamos com diária intensidade?

Podemos transportar esta dúvida para o interior da nossa casa. Será que aqui apropriamos aqueles espaços de “cerimónia” ou, pelo contrário, são eles que se nos impõem, ou, no mínimo, acabamos por nunca os viver realmente; um pouco como aquelas salas que existiam em certas casas para serem os espaços de recepção das visitas “de cerimónia” e, por vezes, os sítios onde se velavam os finados. E, atenção, estas salas existiam em casas com outras salas, não em casas onde o espaço é relativa ou claramente escasso, e onde, por vezes, só há esse espaço reservado para a “cerimónia”.


Fig. 02: vista parcial da Residência Madre Maria Clara, uma residência assistida da C.M. de Oeiras, 2007, Carnaxide; Arquitectura, Cristina Veríssimo, Diogo Burnay, Patrícia Ribeiro e Inês Norton de Matos.
Talvez que, desta forma, a representatividade seja, essencialmente, direccionada para átrios comuns e/ou para os espaços de vizinhança. Mas, mesmo aqui, será que não preferimos ambientes calorosos e atraentes, portanto fortemente apropriáveis, em vez de outros onde nos sentiremos sempre um pouco estranhos, um pouco “a mais”, porque o que conta, essencialmente, é o quadro de um cenário urbano feito, muitas vezes, para se valorizar, essencialmente, quando vazio?

Ficará para outros textos o avanço nos caminhos de uma apropriação pessoal e familiar de vizinhanças, de habitações e de janelas sobre a rua, que conviva bem com uma verdadeira, porque sóbria, dignidade urbana da respectiva vizinhança e suas imagens urbanas; e isto sem se envolver estas vizinhanças de uma cerimónia descabida e impessoal, mas também sem se impor aos outros vizinhos apropriações parcelares e pessoais excessivas, porque intrusivas das suas próprias identidades e vontades ou não-vontades de apropriação.

E fica também para discussão posterior o como fazer conviver estas intenções, positiva e intensamente, com uma “arquitectura nova”; isto sem qualquer rejeição de regionalismos, sempre estratégicos nestas matérias da apropriação, mas não ficando obrigatoriamente deles reféns.

E atenção que nas vizinhanças dos nossos “habitares” também precisamos de alguma representação, de algum sentido de cenário, pois, numa situação contrária teríamos realmente de habitar ambientes maquinais, crus, “sem sombras”, sem cores, sem sequências, sem fundos e vistas de paisagens próximas ou distantes, sem primeiros planos atraentes de pessoas ou de pormenores. E evidentemente que esta capacidade representativa nem tem de ter apenas a ver com a capacidade de apropriação de cada sítio, nem tem de ser algo suplementar ou descartável, devendo fazer parte integrante da caracterização local e identitária de cada solução; uma representação que deverá estabelecer pontes de grande escala com a paisagem envolvente e outras, de pequena escala com os percursos pormenorizados que “perfurem” curiosamente as vizinhanças e com as sequências de planos que mergulhem nos interiores de habitações e outros espaços da vizinhança.


Fig. 03: conjunto habitacional nas Fontainhas, C. M do Porto, 2007; Arquitectura, Helder Ribeiro e Amândio Cupido.
Mais luxos ou verdadeiros “luxos” residenciais

Seguimos estas ideias associadas à representatividade e à apropriação que devem ser manejadas no fazer de um habitar de vizinhança que “brigue” connosco, positiva e curiosamente, no dia-a-dia, durante muitos anos e há que considerar que talvez estes caminhos de concepção sejam os verdadeiros luxos de que não devemos abdicar nos sítios onde vivemos.

A questão centra-se em imaginarmos podermos viver uma dada vizinhança de um dado bairro de uma dada cidade, numa dada casa ou apartamento, sentindo toda essa série de espaços e ambientes como uma sequência de sítios que realmente usamos em plenitude e com verdadeiro prazer, e isto todos os dias e em todas a horas do dia.

Um lugar comum? Esta possibilidade será um lugar comum? Não de certeza, pois a maioria de nós não tem um tal privilégio, um privilégio que não tem uma razão económica, mas somente uma razão de qualidade de concepção de Arquitectura, seguida, naturalmente, de uma razão de qualidade construtiva e de gestão, razões essas que também não têm exclusivas razões económicas, longe disso.

Viver bem em excelentes condições habitacionais não é um luxo no sentido que damos aos condomínios luxuosos onde vivem os ricos, pois é possível viver, praticamente, tão bem – naturalmente com menos espaço doméstico, menos mármores e menos empresas de vigilância – por um custo perfeitamente adequado a uma bolsa normal. E para quem não acredite, ainda, numa tal realidade juntam-se mais algumas imagens de habitação de interesse social portuguesa, para provar essa possibilidade bem real. Fica a “eterna” questão de, sendo assim, porquê tanta falta de qualidade urbana e residencial?

Talvez que não haja ainda o verdadeiro e bem assumido sentido dessa verdadeira vivência habitacional da cidade das vizinhanças, uma vivência que é fulcral no saborear dessa qualidade sóbria, mas tão efectiva e afectiva e talvez que uma tal qualidade seja realmente o “suplemento de alma” da Arquitectura verdadeiramente bem qualificada, que continuará, sempre, a ser rara; mas de que tanto precisamos, nós habitantes e as cidades que habitamos.

Mas também poderá haver outras respostas, igualmente importantes. Por exemplo, numa perspectiva de divulgação das qualidades residenciais que é possível ter a custo zero, porque embebidas num bom projecto de Arquitectura; e numa perspectiva de simples divulgação comentada de bons casos de referência, daqueles em que esses verdadeiros luxos do bom-viver, sejam claramente associados a soluções económicas, porque simples e citadinamente dignas.

E, às vezes, como bem sabemos até muito do tal “luxo” complexo e tantas vezes de gosto pesado e impositivo, porque medido, frequentemente, numa espécie de luxo quantitativo, medido ao metro ou até ao peso, por exemplo, em metros de mármore e de pormenores plenos de novo-riquismo, pode ser substituído, com evidentes vantagens financeiras, funcionais e mesmo de aspecto por outros tipos de acabamentos, de atribuições funcionais e de cuidados de gestão.


Fig. 04: vizinhança residencial cooperativa que integra o grande, recente e excelente conjunto cooperativo do Vale Formoso, Lisboa; urbanismo Arq. António Piano e Arq. Eduardo Campelo; parte das soluções de arquitectura Arq. ºs Serra Alvarez.
Ainda há pouco tempo, em Junho de 2008, na sequência da comemoração da conclusão de uma obra habitacional cooperativa, “a custos controlados”, na zona tradicional das Fontainhas, no Porto, num artigo de jornal referia-se o conjunto designando-o, no título do artigo, como “de luxo”, e, no entanto, no corpo do artigo associava, e bem, um tal luxo a condições únicas de integração urbana, de enquadramento paisagístico e de qualidade do desenho de Arquitectura; e temos de concordar que é “um luxo” nestes termos, e um luxo que mais ainda o é, por ser “um luxo”, “luxuosamente” disponibilizado a custos acessíveis a muitas bolsas.

Mas entendamos que a referência ao luxo habitacional está ainda muito pouco associada a tais condições, sendo, frequentemente ligada a matérias mais vulgares de acabamentos materialmente dispendiosos e a uma superabundância de espaço, que, tantas vezes, acaba por ser visual e mesmo funcionalmente redundante.

Mas, realmente, na base do verdadeiro “luxo” está a possibilidade de vivermos verdadeiramente bem nas nossas casas, vizinhanças e cidades, até, habitualmente, associando uma tal capacidade de podermos ser um pouco mais felizes com um melhor espaço de habitar e de cidade, a uma expressão pública muito sóbria e contida de um tal conjunto de condições e o que aqui, nesta sequência de artigos, se tem vindo a defender é que para tal nem é preciso gastar mais dinheiro do que o que se gasta em sítios onde nos alojamos, menos bem e com bastante menos felicidade, porque, “do mal o menos”, ou a casa não é má, ou a vizinhança é funcional, ou é agradável, ou a localização urbana é central ou, não o sendo, está bem servida de transportes.

E, assim, não nos esquecendo que precisamos disso tudo para vivermos melhor – uma boa casa, um bom sítio, acessibilidades, capacidade de convívio público, etc. – tais matérias que se ligam ao verdadeiro “luxo”, que só assim é referido por ser ainda relativamente raro, até são suficientemente potentes e adaptativas para poderem equilibrar-se e apoiar-se, mutuamente.

E sobre estas matérias há três questões que deve ser colocadas em cima da mesa, sendo uma delas um conjunto de cuidados de projecto, promoção e execução que marcam uma actividade verdadeiramente profissional, sendo a outra questão a que se liga à, cada vez mais, vital exigência de uma verdadeira qualidade de Arquitectura, e a terceira questão é a urgência de que estas matérias, ligadas ao como habitar com mais satisfação, sejam levadas ao grande público, podendo, tendencialmente, constituir-se em exigências do grande grupo de todos os habitantes. E este livro tem lugar cativo nesta terceira frente da sensibilização para a urgência de um habitar mais feliz …

Concluímos, para já, este novelo de assuntos com uma citação de Monique Eleb (1997), que sublinha que “o alojamento de luxo não oferece hoje em dia um modelo de habitar e que isto acontece há decénios” e que “a diferença entre habitações de luxo e sociais têm menos a ver com aspectos de estruturação e distribuição e mais com a localização, expressão das fachadas ou utilização de certos materiais.” (1)
Muito longe nos pode levar esta ideia, que só em apontamento aqui abordámos e que muito se liga aos aspectos de apropriação e de representação, negativos ou positivos e caracterizadores de sítios de habitar e de vizinhanças urbanas a que nos referimos no início deste texto.

Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p.17.

Edição Infohabitar – Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 19 de Abril de 2009
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, abril 13, 2009

1as Jornadas Técnicas do NAU e do GH - 31 Março 2009 LNEC - Infohabitar 242

Infohabitar, Ano V, n.º 242


1as Jornadas Técnicas do NAU e do GH - 31 Março 2009 LNEC
António Baptista Coelho


Faz-se em seguida uma pequena reportagem essencialmente fotográfica das 1.as Jornadas Técnicas do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC e do Grupo Habitar – GH, um evento com dimensão flexível, destinado à apresentação e discussão informal de diversos temas técnicos da qualidade do habitar, a escolher em cada ano, e estruturado, por regra, com uma parte de apresentação de casos concretos e uma outra parte reservada a uma conferência sobre um dado tema.

Nota: as imagens acompanham a evolução dos trabalhos

As 1ªs Jornadas Técnicas do NAU e do GH foram dedicadas ao tema: Saúde e Habitação (I).
Estas Jornadas foram associadas ao acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo do Arq.º Nuno Teotónio Pereira, uma decisão que muito honrou o Laboratório, onde desde há cerca de 40 anos se desenvolvem estudos sobre o habitar, e que constitui motivo de fundadas esperanças na sua dinamização e aprofundamento.



(Fig. 01)

A parte dos casos concretos foi assegurada pela apresentação comentada dos conjuntos residenciais que se destacaram no Prémio IHRU Construção 2008, pelo Arq.º António Baptista Coelho (NAU e GH), a quem coube a representação do LNEC no respectivo Júri.

Seguiu-se a palestra sobre o tema “Saúde e Habitação”, pela Arq.ª Cláudia Weigert, Assessora da Divisão de Saúde Ambiental da Direcção Geral da Saúde, que nos proporcionou um enquadramento global e exemplificado das relações entre saúde e habitação com um enfoque específico nas matérias associadas ao Plano Nacional de Habitação e Saúde, actualmente em desenvolvimento com a participação de diversas entidades, entre as quais o LNEC, e que terá um remate importante, com a próxima conclusão de um guião de apoio à elaboração de planos locais e municipais de enquadramento da importância que têm os objectivos de saúde na promoção habitacional; assunto a que iremos voltar aqui no Infohabitar, proximamente, e que terá uma ampla divulgação, por parte da Direcção Geral da Saúde, antes do final de 2009, com uma grande acção que será amplamente divulgada.



(Fig. 02)

Depois foi desenvolvida uma intervenção sobre o mesmo tema pelo Arq.º António Reis Cabrita (NAU, ap. e GH), um investigador que desenvolveu diversos trabalhos sobre o tema da habitação e da saúde, ao longo da sua carreira no LNEC e que nos trouxe um amplo enquadramento e uma oportuna discussão deste tema.



(Fig. 03)

Finalmente foram feitas várias intervenções no âmbito do acto de cedência ao LNEC do acervo documental sobre habitação e urbanismo do Arq.º Nuno Teotónio Pereira, numa sequência dos vários arquitectos que chefiaram o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, ao longo dos quase 40 anos da sua existência oficial – arquitectos António Baptista Coelho, António Reis Cabrita e Nuno Portas –, e depois dos engenheiros José Vasconcelos Paiva – Director do Departamento de Edifícios do LNEC – e Carlos Matias Ramos – Presidente do LNEC, concluindo-se a sessão com uma intervenção extremamente interessante por parte de Nuno Teotónio Pereira, na qual ele fez uma pequena história da sua vida como projectista e estudioso dos temas habitacionais e urbanos, fazendo, simultaneamente, uma estimulante súmula das matérias que integram os cerca de 50 caixotes de documentação sobre aqueles temas e que integram o espólio que cedeu ao LNEC e que estará em breve disponível para consulta na Biblioteca do Laboratório.



(Fig. 04)

Aproveita-se este meio para saudar e agradecer aos anteriores Chefes do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, arquitectos Nuno Portas e António Reis Cabrita, a sua fundamental participação, assim como aqui de agradece à direcção do Departamento de Edifícios do LNEC, na pessoa do seu Director Eng. Vasconcelos Paiva e ao Conselho Directivo do LNEC, nas pessoas dos seus Presidente e Vice Presidente engenheiros Carlos Matias Ramos e Carlos Pina, pelo total apoio a esta ideia, que resultou numa extraordinária tarde de discussão técnica e de fundamental memória.

E regista-se aqui um agradecimento ao Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) pela matéria que possibilitou a exposição relativa ao Prémio IHRU Construção 2008 e deixa-se aqui um muito especial e sentido agradecimento à colega Arq.ª Cláudia Weigert e à Direcção Geral da Saúde, a que pertence, pela oportunidade de se relançar, nesta sessão, a discussão da vital temática da saúde e do habitar.



(Fig. 05)

Relativamente ao amigo e colega Nuno Teotónio Pereira salienta-se aqui, mais uma vez e de forma simples, a importância duma longa e muito rica carreira, e de uma vida cheia e útil à sociedade, marcada pela contínua aliança entre a produção teórica, a acção de projecto e a intervenção cívica e política; testemunhada numa obra extensa e multifacetada, que marcou várias gerações, e uma obra que nunca se sobrepôs a uma sua presença extremamente humana e solidária.

Na sessão de 31 de Março de 2009, no Pequeno Auditório do LNEC, Reis Cabrita e Nuno Portas falaram de Nuno Teotónio com a pertinência que provém da longa convivência, e foi de grande interesse ficar com uma ideia muito mais verdadeira das razões e de alguns aspectos concretos que marcaram o arranque da investigação em arquitectura residencial, em Portugal, no LNEC, entre 1961 e 1969, no remate da fundamental experiência das Habitações Económicas e no arranque do Fundo de Fomento da Habitação, uma história que se terá de fazer e que tudo tem a ver com o nascimento do Núcleo de Arquitectura do LNEC, hoje o seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo, um grupo de investigação que durante cerca de 4º anos assegurou, no nosso País, o principal pólo de estudos teóricos e práticos em habitação de interesse social, espaços exteriores residenciais, qualidade residencial e, depois, outras matérias como a reabilitação e a análise de espaços já habitados, num leque de mais de 400 trabalhos, algumas dezenas deles disponíveis na Livraria do LNEC.



(Fig. 06)

Regista-se também aqui que, tal como foi apontado em 31 de Março, Nuno Teotónio teve sempre como objectivo o fazer cidade viva com habitação humanizada e através de uma obra multidisciplinarmente participada e que visa o futuro; e em toda esta matéria lembremos aspectos tão importantes, que desde sempre foram por ele aprofundados na teoria e na prática, como é o caso da integração paisagística, da criação de vizinhanças conviviais, da experimentação tipológica cuidadosa, inovadora e em estreita relação com a adequação aos modos de habitar, da dignidade e da atractividade de uma imagem urbana pormenorizada, da marcação da escala humana e da integração da arte na arquitectura. Temas estes que, tal como se percebe, têm hoje total actualidade e pertinência.

E afinal, tudo isto tem a ver com uma frase de Nuno Teotónio, que tem hoje crítica oportunidade e que sublinha que: “é chegada a hora de reconhecer o interesse público da arquitectura, enquanto organiza, qualifica e humaniza o espaço; disciplinar a ocupação do território; exigir produções de qualidade através da atribuição das respectivas responsabilidades... (“Tempos, Lugares, Pessoas”, p. 103)



(Fig. 07)

Concentrando-nos, agora, nas áreas mais ligadas à habitação e lembrando o que foi referido na sessão de 31 de Março pelo Eng. Matias Ramos, Teotónio Pereira tem uma muito meritória experiência como técnico e investigador no domínio da habitação de interesse social em Portugal ao longo de um período temporal muito significativo, com relevo para os cerca de 25 anos de dinâmica actividade no âmbito das Habitações Económicas – Federação de Caixas de Previdência, um período em que se firmaram os laços técnicos entre a Federação e o LNEC, depois continuados durante a actividade do Fundo de Fomento da Habitação e finalmente aprofundados nos 23 anos de actividade do INH, e actualmente do IHRU.



(Fig. 08)

No final dos anos quarenta Teotónio Pereira dá assessoria a Miguel Jacobetty na construção das células sociais do bairro de Alvalade em Lisboa; depois, passados cerca de 20 anos é co-autor com os arquitectos António Pinto de Freitas e Nuno Portas, contando com o engenheiro Ruy Gomes no “projecto de construção”, do único Prémio Valmor que foi atribuído à habitação de interesse social, nas torres habitacionais construídas em Olivais Norte; e depois, passados cerca de 25 anos é co-autor, com o arquitecto Pedro Botelho e contando com o engenheiro Teixeira Trigo na parte construtiva, de um conjunto de habitação social, promovido pelo município de Oeiras, em Laveiras Caxias, e que foi Prémio INH. E o que o Eng. Matias Ramos salientou com estas referências foi, por um lado, a dimensão geracional, continuada e aprofundada de uma vida que é ela própria uma pequena história vivida do projecto e da promoção da habitação apoiada pelo Estado em Portugal, e, por outro, a constante e aprofundada relação com uma tecnologia da construção tão aprofundada como sensível à cuidada inovação arquitectónica e residencial.

Antes de concluir este artigo há que sublinhar que Nuno Teotónio tem sido, também, um leitor assíduo deste nosso Infohabitar e um seu redactor, o que se deve aqui saudar também, com um carinho muito especial.



(Fig. 09)

Finalmente regista-se, aqui, o agradecimento público do LNEC, feito no decurso da sessão de 31 de Março, pela honra da cedência de um acervo documental de habitação e urbanismo, que é muito rico, pelo seu perfil temático, pela sua sistemática constituição ao longo de mais de meio século e pelo seu conteúdo, constituído por várias centenas de documentos, entre livros, revistas, actas de reuniões nacionais e internacionais, relatórios e compilações de artigos de jornais; um acervo que, tal como se referiu, estará em breve disponível para consulta na Biblioteca do LNEC.
E desde já se faz um primeiro pré-anúncio para uma nova sessão técnica, que acontecerá, também no LNEC, em 24 de Novembro próximo, no âmbito das 2.as Jornadas Técnicas do NAU e do GH, para apresentação e discussão do tema “Bairros Vivos – Cidades Vivas”, e por ocasião do 40º aniversário da fundação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, durante todo um dia para o qual serão convidados a intervir alguns dos muitos colegas que pelo NAU passaram e um evento para o qual estão desde já todos convidados.

Infohabitar: Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
12 de Abril de 2009
Edição de José Baptista Coelho


8.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar
Na sequência das 1ªs Jornadas Técnicas do NAU e do GH, realizadas na tarde de 31 de Março de 2009, e no âmbito dos trabalhos dos associados do Grupo Habitar, realizou-se na sede do GH no LNEC a sua 8.ª Assembleia-geral, que decorreu com intensa participação e uma ordem de trabalhos essencialmente virada para futuras realizações, anexando-se, em seguida, para memória futura, algumas imagens da sessão.




(Fig. 10)



(Fig. 11)



(Fig. 12)

Infohabitar: Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
12 de Abril de 2009
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, abril 06, 2009

Mais espaço ou melhores espaços residenciais - Infohabitar 241

Infohabitar, Ano V, n.º 241

Série habitar e viver (melhor), VI: mais espaço ou melhores espaços residenciaisAntónio Baptista Coelho

Nota: a ilustração é muito genérica e foi centrada em imagens dos Olivais Norte - Lisboa

Não se quer correr o risco de passar a noção de que as questões associadas a uma maior ou menor adequação e satisfação residencial e doméstica se reduzem à “velha” questão do dimensionamento das áreas da habitação e, designadamente, à recorrente matéria das áreas mínimas habitacionais.

A velha questão da quantidade de espaço doméstico interior é, julga-se, uma matéria globalmente ultrapassada, entre quem entenda minimamente os aspectos da qualidade residencial, seja numa perspectiva realista de se encarar o habitar, como tem de ser encarado, estendido sobre a vizinhança e ligado a uma cidade obrigatoriamente viva e estimulante, seja numa perspectiva mais “fina” e obrigatoriamente especializada de um habitar marcado por uma expressiva e sentida qualidade arquitectónica residencial.

Mas antes de comentar um pouco mais o que se acabou de apontar e a respectiva relação com as recorrentes matérias do dimensionamento habitacional, desde já se sublinha que não é essa a ideia-base aqui seguida, mas por não se poder nem querer passar ao lado de um debate que está sempre na primeira linha das questões ligadas à qualificação do habitar, desde já aqui se apontam alguns aspectos que são sintetizáveis na frase “mais área(s) ou melhores áreas”.

Basicamente a ideia que é talvez a mais significativa é que a área doméstica, ou, globalmente, a quantificação da área habitacional privada, não é o factor determinante numa perspectiva de verdadeira satisfação doméstica. Afinal entende-se bem que um dado compartimento, quando adequadamente dimensionado, é verdadeira e potencialmente mais satisfatório do que um outro compartimento marcado por dimensões pouco adequadas – desafogadas e versáteis –, por organizações pouco estimulantes e funcionais e por condições de conforto ambiental negativas; e atente-se que o mau dimensionamento tende a associar-se a uma má previsão de aspectos ambientais, por exemplo, ligados à luz natural, à insolação e à ventilação – parece haver como que um negativo entendimento do projectar do conjunto integrado de condições de bem-estar interior doméstico, condições estas em que se conjugam, realmente, aspectos dimensionais, de conforto ambiental e de variadas e compatíveis utilidades.

E há que sublinhar que este novelo integrado de condições dimensionais, ambientais e de utilidade dá corpo a uma verdade que é quase tão estruturante do interior da habitação, como dos espaços exteriores residenciais, pois num e noutro sítio, mais de que quantidade de espaço vale a respectiva qualidade, uma qualidade que decorre da justeza e riqueza das suas formas e do interesse, estímulo e coerência que caracterize a sua diversidade e a sua conjugação mútua. Só que se não há ainda consenso sobre uma tal realidade no interior doméstico, então o que dizer da fase em que estamos no que se refere à qualificação integrada e apurada de um exterior, quase tão “doméstico” como urbano, que é aquele que nos faz falta em todas as vizinhanças e, depois, disseminadamente, na própria cidade mais animada.

E atenção que nas matérias que estamos a abordar, da relação entre dimensionamento, caracterização em termos de conforto ambiental e aspectos de utilidade e adequação a diversos usos e apropriações, nem estamos a contar com uma outra dimensão, que entra em qualquer boa arquitectura residencial, que é naturalmente o próprio carácter e qualidade do “desenho”aí desenvolvido, e que é uma matéria que ela própria irá retroagir com os outros aspectos de concepção e levar a que estes últimos aspectos sejam vividos, “melhor ou pior”, mas sempre numa apreensão conjugada entre aspectos especificamente “de desenho”, de “partido”, de “carácter” e os outros atrás apontados.

E é assim que se avança com a noção da secundarização da espaciosidade “bruta” residencial relativamente a um caminho de qualificação em que diversamente de uma opção, “simplesmente”, por “mais área”, uma opção pouco qualificada e de certa forma “a granel”, é muito mais importante a noção de melhor espaço, e designadamente de melhor espaço doméstico e residencial, uma noção que tem naturalmente a ver com a quantidade da área, mas que tem também muito a ver com aspectos de dimensionamento pormnorizado, de funcionalidade e de adequada caracterização da solução residencial integrada, de vizinhança e urbana que foi visada e desenvolvida.



Fig. 01

Não se nega, evidentemente, a importância que tem uma área desafogada numa dada rua e num dado compartimento doméstico, assim como, globalmente, no conjunto dos espaços que garantam a funcionalidade de uma dada vizinhança urbana e o desafogo de uma habitação; apenas se chama a atenção para que mais área, por si só, não é “automaticamente” factor de mais qualidade residencial e urbana ou doméstica, e as provas estão, aí, em soluções residenciais e urbanas tradicionais e espacialmente exíguas e em soluções domésticas espacialmente acanhadas, mas muito bem dimensionadas e organizadas, que, hoje em dia, continuam a servir bem os seus habitantes (ex., dos bairros históricos às soluções mais económicas da antiga “habitação social” que foram realizadas, por exemplo, em Olivais Norte, Lisboa).

E nesta matéria há ainda que comentar que, tal como ficará evidente em muitas visitas, infelizmente, bem fáceis de fazer, a disponibilidade de muito espaço, qualitativamente mal projectado e tratado, é mesmo, frequentemente, um muito negativo factor urbanístico, com terríveis influências em termos de insatisfação, desapropriação, redução crítica do convívio vicinal e urbano e condições de insegurança resultantes de pouco uso do espaço público, de afastamentos críticos entre utentes do espaço público e, naturalmente, de falta de estima pelo mesmo espaço público, diria mesmo claro desamor pela vivência exterior.

Anteriormente, nesta série de artigos, abordámos um pouco as matérias da densificação estratégica do espaço urbano residencial e citadino, uma densificação que mais não é do que uma opção por proporcionar apenas aquele espaço urbano de vizinhança que é o necessário para diversos vectores funcionais, não “alargando” exageradamente as dimensões de tal forma que os laços de coesão urbana, de convivialidade e animação por proximidade e as relações que constroem as sequências de imagens que compõem a imagem urbana de proximidade e com escala humana, possam exercer-se, desenvolver-se, afirmar-se e possam caracterizar, notoriamente, cada vizinhança, como “única”, atraente e verdadeiramente habitável; tudo isto, naturalmente, ao nível de um mundo predominantemente pedonal.

Nesta perspectiva, hoje em dia crucial e crítica, do habitar-se com intensidade, agrado e continuidade os nossos espaços urbanos de vizinhança residencial e urbana, a questão do mais espaço não ser, directamente, melhor espaço, é uma verdade que tem de ser bem evidente e que pode até traduzir-se numa afirmação, bem verdadeira, da disponibilização de mais espaço urbano “a granel”, traduzir-se, habitualmente, em pior espaço, podendo constituir-se, frequentemente, num verdadeiro factor de desagregação urbana.


Fig. 02

Ao nível dos interiores domésticos a realidade é significativamente diferente, pois, aqui, um pouco de espaço a mais é sempre condição de maior adaptabilidade e desafogo. No interior doméstico a existência de um sentido de espaciosidade acaba sempre por ser um significativo factor de qualificação, ainda que esse espaço possa ter muito pouco utilidade funcional e um reduzido protagonismo arquitectónico (ex., simbólico, representativo, caracterizador), como acontece frequentemente.

Mas, no entanto, se considerarmos a habitação realizada com apoio do Estado, importa trabalhar muito bem, ao nível do espaço doméstico, garantindo-se como que uma estrutura espacial extremamente bem dimensionada e desenvolvida, baseada nas áreas e nas dimensões ergonomicamente adequadas para as diversas actividades, embora associadas, quer a um “suplemento” dimensional capaz de garantir uma essencial adaptabilidade a diversos usos e formas de habitar, quer a uma solução doméstica específica, cuja caracterização proporcione uma fundamental unidade, ou “partido” em termos de solução e de oferta de um dado leque de formas de habitar a “casa”; um leque que, tal como refere a palavra, propicie uma ampla diversidade de formas de habitar, mas que seja distinto de muitos outros “leques” de formas de habitar “casas”, proporcionados por muitas outras soluções domésticas.

É esta outra ideia-base que aqui se quer deixar sublinhada: que é essencial haver muitos leques de soluções domésticas disponíveis para se escolher como se quer habitar a “casa” e não, como infelizmente, acontece soluções repetidas tantas vezes até à náusea, como se organizar uma habitação fosse uma tarefa com uma única solução possível e na qual a única variação possível, ou a mais significativa, fosse a maior ou menor disponibilização de espaço “a granel”, e, “vá lá”, a maior ou menor “quantidade” de luxo que “enfeite” essa mesma quantidade de espaço.

Voltaremos a este tema, que consideramos fundamental, nas suas dimensões, também estruturantes, das opções tipológicas por edifícios, em que também se repete esta opção, sem sentido, sempre pela mesma solução, neste caso de esquerdo/direito, sem se entender todo o enorme leque de opções de agregação de fogos e de espaços comuns capazes de oferecer um modo de viver e de habitar a cidade e a casa, muito mais entusiasmante e mesmo emocionante, matérias que naturalmente têm também tudo a ver com melhor espaço, em vez de mais espaço.

Toda esta fundamental abertura de campos de criatividade no desenvolvimento e, depois, na vivência de um melhor espaço residencial tem, evidentemente, a ver com uma melhor Arquitectura, numa opção que tem de ser desenvolvida em várias frentes: a das entidades públicas com responsabilidades na matéria; a dos promotores residenciais; a dos investigadores e dos projectistas; e a dos próprios habitantes, que têm de exigir tal diversidade e qualidade.
Mas os arquitectos têm de avançar activamente nestas matérias e exemplificar que se está aqui a tratar de assuntos que têm tudo a ver com qualidade residencial e urbana e que nada têm a ver com quaisquer fantasmas de custos acrescidos, e afinal estamos hoje numa fase das preocupações sobre o habitar que evidencia a necessidade da diversificação e da adaptabilidade das soluções.

A título de exemplo muito significativo desta grande batalha por melhores espaços residenciais, no sentido de espaços melhor “arquitectados”, cita-se um estudo de Jacqueline Palmade e M. Perianez no qual estes autores referem um empreendimento francês de habitação de interesse social multifamiliar, em Rex Hermet-Biron, com 47 fogos e no qual se desenvolveram 23 aspectos "originais" relativos a diversas características dos vários espaços e compartimentos habitacionais e aos relacionamentos entre eles (1).

Nesta intervenção as características de originalidade, ou menor convencionalidade, na organização e na espacialidade doméstica agrupavam-se diversamente em cada habitação, variando entre fogos com um único aspecto menos habitual, até outros em que se concentravam até oito aspectos mais originais.

Na apropriação que se desenvolveu deste conjunto residencial, em Rex Hermet-Biron, detectou-se uma tendência de escolha das habitações mais “clássicas”, porque incluindo um menor número de inovações, por parte das famílias social e economicamente mais favorecidas; famílias estas que também demonstraram maior gosto pelas habitações mais pequenas do que as famílias consideradas como mais desfavorecidas (2). Embora se trate, aqui, apenas de um caso, estes aspectos podem querer significar para os agregados mais favorecidos uma vontade mais tradicional na solução da habitação, que depois é ambientalmente compensada/aproveitada por arranjos pessoais mais fortes, livres e caracterizados; enquanto que para os outros agregados talvez que a vontade de ter mais espaço pessoal e familiar seja ainda determinante, o que não deixa de ser natural, quer pela situação de evolução de piores para melhores condições habitacionais, quer pela muito reduzida oferta de opções habitacionais que caracteriza, quase sempre, essa transição qualitativa.



Fig. 03

Em Olivais Norte, Lisboa, um dos conjuntos de habitação de interesse social portugueses que foram realizados (cerca de 1965) de forma mais integrada, nas relações entre interiores e exteriores, e num evidente e exigente apuro em termos de grande qualidade arquitectónica, assiste-se, ainda hoje, passados quase 50 anos, à continuidade de uma positiva apropriação de soluções habitacionais extremamente “económicas” em termos de áreas domésticas, extremamente inovadoras, à época e ainda hoje em dia, em termos de propostas de organizações domésticas e, por vezes, marcadas por soluções igualmente inovadoras na oferta de espaços comuns espaçosos e caracterizados por expressivos elementos de apropriação e identificação, com destaque para as intervenções artísticas.

Esta é uma temática que não se esgota nesta simples abordagem, sob o tema do mais espaço ou dos melhores espaços, mas há aqui aspectos com importância determinante no pensar o habitar. E nestes aspectos destaca-se, desde já, quer a clara complementaridade que se respira, em Olivais Norte, entre soluções com espaços domésticos e comuns mínimos e espaços exteriores residenciais de vizinhança extremamente cuidados e “habitáveis”, quer a idêntica complementaridade entre espaços domésticos relativamente mínimos e excelentes e conviviais espaços comuns, quer o grande apuro que foi investido no estudo aprofundado das organizações e relações dos espaços domésticos – não se optando por quaisquer “dados adquiridos” em termos de soluções preexistentes –, quer, finalmente, a qualidade comum a todas estas soluções, que é a do excelente desenho de Arquitectura, um desenho feito tanto numa sensível relação com a própria matéria do desenho e da arte, quer numa igualmente sensível e pormenorizada relação com quem habita, quer, finalmente, numa igualmente sensível e envolvente relação com a natureza.

Fiquemos, então, com a ideia de que chega de pensar que qualidade e quantidade são aspectos afins, que é chegada a hora de interiorizar que a oferta habitacional tem de responder, o melhor possível, a muitos gostos distintos de habitar e a diversas exigências habitacionais, que uma tal opção não implica, obrigatoriamente, gastos suplementares e que, para tal, há que melhor arquitectar o habitar, do exterior urbano e residencial ao interior doméstico; e afinal há bastantes bons exemplos a seguir ou com os quais é possível aprender, mais do que soluções específicas, um caminho específico de conciliar desenho, adequação de usos e gostos residenciais e integração entre cidade e natureza.



Fig. 04

E, afinal em tudo isto, há sempre que sublinhar que não estamos a tratar de números ou de receitas a repetir e associadas a uma qualquer satisfação garantida, porque o fazer da cidade e da casa do Homem liga-se, essencialmente, a aspectos qualitativos, e, tal como escreveram, há pouco tempo, Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza” (3).

E é nesta complexidade e subtileza que actua a melhor Arquitectura residencial e urbana, manejando os diversos aspectos quantitativos e qualitativos e realizando, quer pequenas habitações económicas bem integradas em vizinhanças acolhedoras e onde, provavelmente, pouco sentimos uma eventual exiguidade espacial pois habitamos uma solução integrada e equilibrada onde há complementaridades entre casa e rua e onde os espaços, embora reduzidos, são adaptáveis e apropriáveis, quer grandes habitações cuja caracterização arquitectónica espacialmente pormenorizada reduz, de certa forma, o seu expressivo dimensionamento a uma escala de uso agradavelmente humanizada e envolvente

Notas:
(1) Jacqueline PALMADE; Manuel PERIANEZ, "Des HLM à la Conquete de l'Espace", pp. 50 e 51.
(2) Jacqueline PALMADE; Manuel PERIANEZ, "Des HLM à la Conquete de l'Espace", p. 182.
(3) Leonardo BENEVOLO e Benno ALBRETCH, As Origens da Arquitectura, Lisboa, Edições 70,2004 (2002), pp.10-13.

Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 6 de Abril de 2009
Edição de José Baptista Coelho