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segunda-feira, dezembro 11, 2017

Dos quartos aos pequenos apartamentos - Infohabitar 622

 Infohabitar, Ano XIII, n.º 622
Dos quartos aos pequenos apartamentos: um novo artigo e links para cinco artigos sobre o tema
por António Baptista Coelho

Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre uma ampla temática que parte dos quartos domésticos e que vai aos grandes quartos autónomos e aos pequenos apartamentos, integráveis em edifícios com espaços e serviços comuns; para além deste artigo são também disponibilizados links para cinco artigos sobre o mesmo tema. 

Em setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições semanais regulares e considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Lembra-se que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já divulgámos, a maior parte dos artigos desta série editorial (editados talvez ao longo de dois anos) não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista - o Blogger.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

Registam-se, em seguida, os artigos já disponibilizados na Infohabitar sobre a temática dos “dos quartos  e do pequenos apartamentos privados” (basta clicar sobre o título para aceder ao respectivo texto):


Dos quartos aos pequenos apartamentos

(novo artigo)

 A eterna escolha entre mínimos e “máximos” de espaciosidade

As temáticas associadas e associáveis à matéria geral dos quartos domésticos são muito amplas, sensíveis e significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim desenvolver, de seguida, uma reflexão geral e informal sobre o tema.
E uma tal reflexão inicia-se, simplesmente, com a ideia geral da caracterização própria e relacional entre quarto mínimo e quarto máximo (esta última uma ideia pouco usada, mas que se julga interessante) e podemos, desde já, apontar que sobre o “quarto mínimo” muito se reflectiu, designadamente, em termos de áreas mínimas, e já menos em termos de dimensões mínimas – que correspondem a matéria essencial – e também muito pouco em termos de áreas e dimensões recomendáveis, que é matéria essencial, designadamente, para a boa adaptabilidade e para a boa apropriação dos espaços de quarto; havendo apenas e sistematicamente, a ideia de se ligar a “tipologia” de quarto mínimo a uma definição da sua ocupação – por uma duas pessoas e pouco mais – e numa perspectiva sempre limitada de se considerar o quarto individual com cama individual e o quarto de casal com cama de casal.
Relativamente à, pouco frequente, ideia de “quarto máximo”, podemos visar a noção ou a “figura” do pequeno apartamento em um único espaço principal marcado por com continuidades visuais caracterizadoras, ainda que, eventualmente, parcialmente repartido em subespaços; e aqui facilmente poderemos imaginar uma unidade do tipo “T0”, que pode ter uma pequena bancada de cozinha, uma boa casa de banho e um conjunto de diversos subespaços razoavelmente caracterizados. E continuando a avançar nesta ideia pode-se considerar como sendo, de certa forma, facultativa/opcional a maior ou menor autonomia desta unidade (pequeno apartamento espacialmente compacto): (i) numa habitação (que ela própria pode ser funcional e ambientalmente muito diversificada), (ii) ou, directamente, num edifício multifamiliar, que pode ter, ou não, espaços, equipamentos e serviços comuns bem desenvolvidos.  
Já poderemos considerar que a capacidade e diversidade de agregação do “quarto mínimo” é, claramente, mais limitada, dirigindo-se, designadamente, para quadros de habitação também mínima, e para situações específicas em que quartos razoavelmente mínimos se agregam, quer em unidades habitacionais especializadas e, por exemplo, dedicadas a pequenos grupos de pessoas idosas ou de jovens, quer em equipamentos específicos e especializados, como hospitais e prisões – estas são matérias bem distintas, mas ambas extremamente especializadas.
E julga-se valer a pena desenvolver este perfil de reflexão, pois no caso da unidade de quarto maximizada ela pode constituir um elemento extremamente maleável na geração de novas tipologias edificadas e funcionalmente mistas (habitação e equipamentos), enquanto no caso da unidade de quarto minimizada ela pode ser um caminho interessante para a disponibilização de um expressivo “maior número” de espaços realmente individualizados, privatizados e bem apropriáveis, integrados em soluções de equipamentos que, de outro modo, continuariam a apostar em quartos para duas, três e até mais pessoas, situação esta que parece poder ser adequada em casos excepcionais , mas não por regra, pois anula muitas das adequadas condições de direito à privacidade pessoal e de adequada apropriação espacial e ambiental.


O quarto como espaço mínimo

Globalmente julga-se que mesmo uma pequena “cela” individual (uma cela que pode ser de um monge ou de um recluso, por exemplo), desde que extremamente bem projectada e pormenorizada (espaço, pormenor, ergonomia, conforto ambiental, relações espaciais, cor, mobiliário, “carácter”, etc.), e desde que integrada num “complexo” que disponha de adequados espaços, equipamentos e serviços comuns  – e aqui a referência a “adequação” é muito específica e poderá ser muito especializada e exigente em aspectos bem distintos dos aspectos da agradabilidade doméstica, aqui abordados, como acontecerá no caso de um estabelecimento prisional (mas nem por isso há que pôr de lado a referida condição do “bom projecto” dos respectivos espaços de cela e comuns) –, será, sempre, mais humana para uma pessoa isolada, do que a “convivência” forçada em espaços, relativamente, maiores, mas partilhados; onde ou ninguém pode exprimir a sua individualidade, ou alguém irá fazê-lo e assim acabar por sobrepor-se à individualidade dos outros.

Haverá, sem dúvida, situações que recomendam a outra opção de partilha do espaço de quarto, quando seja recomendável em termos de bem-estar e de saúde, ou mesmo quando preferida pelos habitantes/utentes – mas aqui há que cuidar bem de como se apura uma tal preferência, que tem de ser expressa de forma bem livre de influências.

Mas atenção que, tal como acontece na concepção de espaços ditos mínimos em habitação de interesse social, este caminho da concepção do quarto mínimo está só ao alcance de um projecto de arquitectura de muito elevada qualidade e que, designadamente, em casos específicos (ex., quartos hospitalares, quartos para idosos, quartos para pessoas com demência, celas prisionais, etc.) deverá articular-se com a participação de diversos especialistas; afinal, uma exigência que não se limita à matéria da concepção de espaços “mínimos”, mas que adquire vital relevância em espaços mínimos.

E há, sempre, que ter cuidado com uma opção por espaços mínimos, havendo que incluir na “opção pelo mínimo”, o valor de tal opção no conjunto da respectiva operação, e sempre que tal avaliação não seja relevante será sempre preferível trabalhar acima dos mínimos espaciais, e designadamente quando o espaço “a mais” não está associado a uma mais significativa disponibilização de instalações e de equipamentos; isto, é, quando o espaço a mais é, apenas, um pouco mais de chão, tecto e paredes simples – e esta é uma noção que interessa aprofundar em futuros artigos e que decorre, seja de uma reflexão lógica sobre o assunto, seja de testemunhos de promotores de habitação de interesse social, que o afirmaram claramente.

E quando a opção for por espaços mínimos há que a tratar “especificamente” e há que a “suavizar” e pormenorizar nessa mesma perspectiva de “pequeno espaço”, isto é: (i) assumi-la em termos de caracterização da solução, de uma forma, sempre que possível, bem distinta do desenvolvimento de um “quarto clássico”, mas minúsculo e até, eventualmente, com esse pequeno dimensionamento visual e negativamente reforçado por um grande pé-direito (altura de paredes); (ii) tratá-la de modo muito benéfico no que se refere a aspectos de conforto ambiental, com um especial destaque para a relação visual com o exterior (vistas agradáveis e estimulantes e bem visíveis do interior, até em posições sentadas e/ou deitadas), para adequadas condições (exposição e controlo) da luz natural e da insolação e para excelentes condições de isolamento sonoro (e pensando ao contrário é só imaginar as péssimas condições oferecidas por um quarto minúsculo, “sem” vistas, frio e ruidoso); (iii), se possível, pormenorizá-la “apaixonadamente” e seguindo um pouco a tipologia de microarquitectura de interiores, “superergonómica”, usada, por exemplo, em iates e autocaravanas.

Mas importa aqui sublinhar que o que acabou de ser apontado para uma adequada geração de quartos mínimos tem uma aplicabilidade genérica para qualquer quarto mínimo, mas uma aplicabilidade específica para exercícios bem dirigidos para a procura de espaços de quartos/espaços pessoais mínimos e extremamente bem adequados em termos de ergonomia e caracterização; o que corresponde a mais uma matéria a desenvolver em outros textos e que é, aliás, matéria muito querida de grandes nomes da Arquitectura e da Filosofia, designadamente, quando se dedicam à concepção dos espaços por vezes designados como pequenos abrigos e “cabanas”.


O quarto como espaço “máximo” ou pequena mas agradável habitação

Acabámos de abordar, sumariamente, os quartos como espaços mínimos e vamos agora seguir um mesmo caminho no que se refere a considerar os quartos como espaços “maximizados”, constituindo verdadeiras pequenas habitações.

E, desde já, se volta a lembrar que esta é uma reflexão, que se deseja útil, mas que se deverá articular com muitas outras reflexões sobre o assunto, que vale bem um adequado aprofundamento, seja pela importância fulcral que, para todos nós, sempre teve e terá a boa concepção dos nossos quartos privados – e atente-se que, mesmo aqui, se está a evitar usar a designação, considerada limitativa, de “quartos de dormir” –, seja porque há novas e renovadas funções a considerar nos nossos quartos privados, seja porque há todo um “novo” leque tipológico a considerar no desenvolvimento de quartos privados, seja considerando aspectos de vital especialização (ex., de hospital), seja considerando o (res)surgimento de um interessante e amplo leque de tipologias em que os quartos privados podem/devem ser, também, praticamente, pequenas habitações, ou pequenas células habitacionais, mais ou menos, autonomizadas relativamente a um edifício em que se integram e que poderá dispor de um também amplo leque de espaços, equipamentos e serviços comuns e até, eventualmente, de acesso/uso público.

Importa, ainda, sublinhar que será, naturalmente, muito benéfico, para não dizer mesmo obrigatório, que não existam, por regra e considerando as situações especializadas à parte, fronteiras rígidas entre intervenções que integrem células habitacionais privadas mínimas e outras maximizadas, sendo, claramente, muito desejável que se desenvolvam soluções mistas a este nível, e que, designadamente, tratem as suas células mínimas de forma muito adequada em termos dos seus conteúdos espaço funcionais e ambientais específicos e que não façam transparecer essa condição “mínima” para além da respectiva porta de entrada.

E aqui se avança para o desenvolvimento de conjuntos edificados que integrem uma expressiva mistura de quartos e pequenos apartamentos privados com variadas dimensões, e que proporcionam, assim, a sua ocupação por pessoas com uma expressiva diversidade de recursos financeiros, numa “mixagem” sociocultural que tem os seus riscos e exigências de gestão, mas que parece ser caminho essencial a seguir, designadamente, em estruturas habitacionais que integrem pessoas idosas – e já agora importa referir que uma tal “mixagem” raramente foi feita, entre nós, ao nível da contiguidade entre edifícios habitacionais para diversos grupos socioculturais.

E faz-se, ainda, uma referência para a importância que assume a referida mistura  de quartos e pequenos apartamentos privados com variadas dimensões, que são dirigidos para pessoas com diversidade de recursos financeiros e que, devido a essa expressiva diversidade dimensional poderão mobilar e equipar os seus espaços privados de forma adequada e compatível com os seus meios, evitando-se negativas situações de espaços deixados praticamente vazios de mobiliário por evidente ausência de meios do habitante.

Dito isto, que é, talvez, o mais importante, podemos considerar que uma pequena célula residencial ambientalmente “compacta”, tal como tem vindo aqui a ser abordada, e que seja razoável ou mesmo maximizadamente tratada em termos dos seus conteúdos espaço funcionais e ambientais específicos, poderá ter como características, designadamente:

(i) uma adequada espaciosidade, privacidade, multifuncionalidade e capacidade de apropriação da zona ou quarto mais dedicado ao dormir/repousar ;

(ii) uma adequada espaciosidade, capacidade convivial, multifuncionalidade e capacidade de apropriação da zona mais dedicada ao estar;

(iii) capacidade específica para o desempenho de uma dada actividade especializada, que possa ser relativa ou totalmente isolada;

(iv) capacidade para receber visitantes em pernoita (que pode ser razoavelmente mínima em termos de condições específicas);

(v) razoável capacidade e autonomização/isolamento para preparação de refeições; (vi) boas capacidade e agradabilidade nos espaços integráveis na casa de banho;

(vii) possibilidade de estar em pequeno espaço exterior privado e com relativa ou total privacidade;

(viii) e razoável capacidade de recepção, representativa e protegendo a privacidade dos restantes espaços privados. Globalmente um programa habitacional “compacto”, mas “maximizado”, deste tipo pode corresponder, num limite máximo, a uma pequena tipologia T2 ou mesmo "T2,5", mas pode haver integrações espaço funcionais diversas que “comprimam” a solução sem aspectos negativos significativos.

Importa, ainda, referir que, naturalmente, uma unidade habitacional, mesmo baseada num grande quarto (com múltiplas zonas) ou numa pequena habitação “compactada”, mas com diversos compartimentos, se quisermos que ela seja bem integrável em conjuntos residenciais com espaços e serviços comuns, não deverá ser espacialmente excessiva, até porque se pretende, como se referiu, que exista uma adequada integração entre unidades com diversos dimensionamentos e porque será desejável a presença de um número razoável de “condóminos” ou vizinhos.

E neste sentido poderemos avançar que a referida maximização espacial deverá, em princípio, respeitar uma espaciosidade designável como razoável, isto é, claramente acima dos mínimos, com expressiva capacidade de adaptação e usos múltiplos e com grande capacidade a nível da circulação interna, mas não caracterizada pelo uso do espaço “a mais”, globalmente justificável apenas como “espaço representativo”; e julga-se que entrar nesta dimensão das unidades quartos/mini-habitações marcadas por este espaço representativo far-nos-ia passar para uma outro quadro de reflexão, que neste momento não nos interessa.

Mas atenção que, seja nas unidades “mínimas”, seja nas “maximizadas”, a matéria da circulação interna e da multifuncionalidade no uso dos espaços e nas tarefas domésticas deve ser especificamente cuidada, considerando que as pessoas à medida que envelhecem habitam melhor com suplementos dimensionais e funcionais.


Complemento da caracterização das pequenas unidades habitacionais autonomizáveis

Esta reflexão deveria iniciar outro texto específico, mas o que importa, desde já, salientar é que uma pequena unidade habitacional “compacta”, autonomizável e agregável numa unidade com forte potencial de usos comuns – do grande quarto ao  apartamento compacto com poucos quartos – deve caracterizar-se não só pela funcionalidade, mas também por adequadas e exigentes capacidades no que se refere à boa apropriação e à agradabilidade doméstica proporcionadas; de certa forma produzindo-se como que pequenas unidades habitacionais mas com uma muito expressiva capacidade de vivência doméstica, privada e própria de cada um ou de cada casal – quase que numa “compactação” ou intensificação estratégicas do ambiente e das funcionalidades proporcionadas numa habitação maior e significativamente isolada.

Não será fácil assegurar este tipo de condições, com certeza que não, mas parece ser esse o caminho certo e tudo que seja contrário a tal caminho deve ser claramente evitado e negado; e apenas para dar alguns exemplos, podem-se apontar situações de equipamentos residenciais que agregam pequenas unidades habitacionais e serviços comuns e globalmente caracterizados por: mobiliário repetido, “frio” e mal desenhado; ausência de um arranjo de arquitectura de interiores completo e adequado, e incluindo os espaços comuns; espaços comuns com carácter “hospitalar”, frio e “nu” (sem adequada integração de elementos de arranjo também nas paredes).

Exemplos de bons caminhos nestas matérias associadas ao desenvolvimento de pequenas unidades habitacionais autonomizáveis e agregáveis numa unidade com forte potencial de usos comuns também se apontam: específico e muito cuidadoso tratamento dos espaços de acesso às unidades privadas; aconselhamento e apoio na decoração dos espaços privados, visando-se a criação de ambientes agradavelmente “domésticos”; disponibilização de recantos e espaços para integração de mobiliário da pessoa/família; cuidadosa estratégia de iluminação natural e artificial; etc., etc.

De certa forma poderemos sintetizar que estas unidades habitacionais autonomizáveis para além de expressivamente funcionais têm de ser expressivamente “bem habitáveis” e agradáveis de viver, equilibrando com estas últimas características os aspectos de funcionalidade especializada que poderão ter (ex., no apoio a condicionados na mobilidade e na percepção), e os aspectos de expressiva ou relativa redução e concentração espacial que, habitualmente, também terão; mas conceber tudo isto, sublinha-se, exige um excelente programa e um excelente projecto de Arquitectura residencial e urbana, deve “beber” em muitos casos de referência actualmente já disponíveis, tratando-se de um processo que não está, directamente, limitado por questões financeiras, pois a diferença entre um bom e um mau projecto reflecte-se numa operação basicamente viável ou inviável, e uma operação que deve ser considerada, seja em termos da sua dimensão estritamente económica, seja em termos da sua potencial relevância humana e social, e neste sentido e desde já se recomenda um caminho organizacional que passe por uma vertente cooperativa e/ou associativa, com expressiva sensibilidade social de proximidade, embora, naturalmente, associada a uma componente “empresarial” que assegure adequada continuidade e vitalidade à iniciativa.

Antes de concluir este subtema relativo à caracterização das pequenas unidades habitacionais autonomizáveis deixa-se uma pequena reflexão para futuro, uma reflexão que se dirige, basicamente, para um amplo quadro de soluções habitacionais e urbanas que se podem distribuir entre dois “conceitos limite”, que definem um amplo leque de soluções: das casas/quartos aos recantos/casas.

As casas/quartos são aqueles espaços que acima abordámos, casas/habitações apenas relativamente espaçosas, e onde uma pessoa só ou um casal pode “dominar”, facilmente, boa parte do respectivo espaço, mas onde será possível o isolamento ou o trabalho específico em subespaços específicos; enquanto os recantos/casas serão os grandes quartos multifuncionais ou, até e no limite, verdadeiros subespaços onde conseguimos concentrar e expressar boa parte da nossa vida e identidade; depois, depois ficará à conta da imaginação e da racionalidade projectuais a capacidade para se gerarem soluções que possam “casar” estas individualidades (da pessoa ou do casal, e perdoem esta liberdade) com uma agradável e funcional convivência, no verdadeiro sentido do termo (vivência em comum), no quadro de conjuntos de edifícios e espaços de uso comum ou público verdadeiramente adequados e estimulantes.

Sobre a variedade das unidades habitacionais autonomizáveis e agregáveis

Lembremos, agora e para concluir, que se começou com uma reflexão sobre “simples” quartos e se acabou com ideias sobre habitações; e assim se revela um novo “jogo da glória” – novo, porque distinto do “jogo da glória” urbano que, desejavelmente, nos deve levar, com naturalidade e motivação, da nossa vizinhança, ao pé de casa, ao centro da cidade e vice-versa –, um “jogo da glória” interior, privado e comum, que nos deve apoiar e fazer viver, com satisfação, entre o nosso espaço pessoal e o espaço de convivência do nosso agregado familiar, ou outro agregado social em que habitemos, numa perspectiva que, potencialmente, conjugada com um amplo leque de espaços, equipamentos e serviços comuns e/ou de uso público, constitui, provavelmente, a principal unidade agregadora de um enorme e tão pouco explorado leque tipológico residencial.

e a estas matérias voltaremos; mas, salienta-se que, tal como já se apontou, logo no início da edição, na lista de cinco artigos acima disponibilizada encontrarão, desde já, outros conjuntos de reflexões.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 622
Dos quartos  aos pequenos apartamentos privados: um novo artigo e links para cinco artigos sobre o tema
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, abril 06, 2009

Mais espaço ou melhores espaços residenciais - Infohabitar 241

Infohabitar, Ano V, n.º 241

Série habitar e viver (melhor), VI: mais espaço ou melhores espaços residenciaisAntónio Baptista Coelho

Nota: a ilustração é muito genérica e foi centrada em imagens dos Olivais Norte - Lisboa

Não se quer correr o risco de passar a noção de que as questões associadas a uma maior ou menor adequação e satisfação residencial e doméstica se reduzem à “velha” questão do dimensionamento das áreas da habitação e, designadamente, à recorrente matéria das áreas mínimas habitacionais.

A velha questão da quantidade de espaço doméstico interior é, julga-se, uma matéria globalmente ultrapassada, entre quem entenda minimamente os aspectos da qualidade residencial, seja numa perspectiva realista de se encarar o habitar, como tem de ser encarado, estendido sobre a vizinhança e ligado a uma cidade obrigatoriamente viva e estimulante, seja numa perspectiva mais “fina” e obrigatoriamente especializada de um habitar marcado por uma expressiva e sentida qualidade arquitectónica residencial.

Mas antes de comentar um pouco mais o que se acabou de apontar e a respectiva relação com as recorrentes matérias do dimensionamento habitacional, desde já se sublinha que não é essa a ideia-base aqui seguida, mas por não se poder nem querer passar ao lado de um debate que está sempre na primeira linha das questões ligadas à qualificação do habitar, desde já aqui se apontam alguns aspectos que são sintetizáveis na frase “mais área(s) ou melhores áreas”.

Basicamente a ideia que é talvez a mais significativa é que a área doméstica, ou, globalmente, a quantificação da área habitacional privada, não é o factor determinante numa perspectiva de verdadeira satisfação doméstica. Afinal entende-se bem que um dado compartimento, quando adequadamente dimensionado, é verdadeira e potencialmente mais satisfatório do que um outro compartimento marcado por dimensões pouco adequadas – desafogadas e versáteis –, por organizações pouco estimulantes e funcionais e por condições de conforto ambiental negativas; e atente-se que o mau dimensionamento tende a associar-se a uma má previsão de aspectos ambientais, por exemplo, ligados à luz natural, à insolação e à ventilação – parece haver como que um negativo entendimento do projectar do conjunto integrado de condições de bem-estar interior doméstico, condições estas em que se conjugam, realmente, aspectos dimensionais, de conforto ambiental e de variadas e compatíveis utilidades.

E há que sublinhar que este novelo integrado de condições dimensionais, ambientais e de utilidade dá corpo a uma verdade que é quase tão estruturante do interior da habitação, como dos espaços exteriores residenciais, pois num e noutro sítio, mais de que quantidade de espaço vale a respectiva qualidade, uma qualidade que decorre da justeza e riqueza das suas formas e do interesse, estímulo e coerência que caracterize a sua diversidade e a sua conjugação mútua. Só que se não há ainda consenso sobre uma tal realidade no interior doméstico, então o que dizer da fase em que estamos no que se refere à qualificação integrada e apurada de um exterior, quase tão “doméstico” como urbano, que é aquele que nos faz falta em todas as vizinhanças e, depois, disseminadamente, na própria cidade mais animada.

E atenção que nas matérias que estamos a abordar, da relação entre dimensionamento, caracterização em termos de conforto ambiental e aspectos de utilidade e adequação a diversos usos e apropriações, nem estamos a contar com uma outra dimensão, que entra em qualquer boa arquitectura residencial, que é naturalmente o próprio carácter e qualidade do “desenho”aí desenvolvido, e que é uma matéria que ela própria irá retroagir com os outros aspectos de concepção e levar a que estes últimos aspectos sejam vividos, “melhor ou pior”, mas sempre numa apreensão conjugada entre aspectos especificamente “de desenho”, de “partido”, de “carácter” e os outros atrás apontados.

E é assim que se avança com a noção da secundarização da espaciosidade “bruta” residencial relativamente a um caminho de qualificação em que diversamente de uma opção, “simplesmente”, por “mais área”, uma opção pouco qualificada e de certa forma “a granel”, é muito mais importante a noção de melhor espaço, e designadamente de melhor espaço doméstico e residencial, uma noção que tem naturalmente a ver com a quantidade da área, mas que tem também muito a ver com aspectos de dimensionamento pormnorizado, de funcionalidade e de adequada caracterização da solução residencial integrada, de vizinhança e urbana que foi visada e desenvolvida.



Fig. 01

Não se nega, evidentemente, a importância que tem uma área desafogada numa dada rua e num dado compartimento doméstico, assim como, globalmente, no conjunto dos espaços que garantam a funcionalidade de uma dada vizinhança urbana e o desafogo de uma habitação; apenas se chama a atenção para que mais área, por si só, não é “automaticamente” factor de mais qualidade residencial e urbana ou doméstica, e as provas estão, aí, em soluções residenciais e urbanas tradicionais e espacialmente exíguas e em soluções domésticas espacialmente acanhadas, mas muito bem dimensionadas e organizadas, que, hoje em dia, continuam a servir bem os seus habitantes (ex., dos bairros históricos às soluções mais económicas da antiga “habitação social” que foram realizadas, por exemplo, em Olivais Norte, Lisboa).

E nesta matéria há ainda que comentar que, tal como ficará evidente em muitas visitas, infelizmente, bem fáceis de fazer, a disponibilidade de muito espaço, qualitativamente mal projectado e tratado, é mesmo, frequentemente, um muito negativo factor urbanístico, com terríveis influências em termos de insatisfação, desapropriação, redução crítica do convívio vicinal e urbano e condições de insegurança resultantes de pouco uso do espaço público, de afastamentos críticos entre utentes do espaço público e, naturalmente, de falta de estima pelo mesmo espaço público, diria mesmo claro desamor pela vivência exterior.

Anteriormente, nesta série de artigos, abordámos um pouco as matérias da densificação estratégica do espaço urbano residencial e citadino, uma densificação que mais não é do que uma opção por proporcionar apenas aquele espaço urbano de vizinhança que é o necessário para diversos vectores funcionais, não “alargando” exageradamente as dimensões de tal forma que os laços de coesão urbana, de convivialidade e animação por proximidade e as relações que constroem as sequências de imagens que compõem a imagem urbana de proximidade e com escala humana, possam exercer-se, desenvolver-se, afirmar-se e possam caracterizar, notoriamente, cada vizinhança, como “única”, atraente e verdadeiramente habitável; tudo isto, naturalmente, ao nível de um mundo predominantemente pedonal.

Nesta perspectiva, hoje em dia crucial e crítica, do habitar-se com intensidade, agrado e continuidade os nossos espaços urbanos de vizinhança residencial e urbana, a questão do mais espaço não ser, directamente, melhor espaço, é uma verdade que tem de ser bem evidente e que pode até traduzir-se numa afirmação, bem verdadeira, da disponibilização de mais espaço urbano “a granel”, traduzir-se, habitualmente, em pior espaço, podendo constituir-se, frequentemente, num verdadeiro factor de desagregação urbana.


Fig. 02

Ao nível dos interiores domésticos a realidade é significativamente diferente, pois, aqui, um pouco de espaço a mais é sempre condição de maior adaptabilidade e desafogo. No interior doméstico a existência de um sentido de espaciosidade acaba sempre por ser um significativo factor de qualificação, ainda que esse espaço possa ter muito pouco utilidade funcional e um reduzido protagonismo arquitectónico (ex., simbólico, representativo, caracterizador), como acontece frequentemente.

Mas, no entanto, se considerarmos a habitação realizada com apoio do Estado, importa trabalhar muito bem, ao nível do espaço doméstico, garantindo-se como que uma estrutura espacial extremamente bem dimensionada e desenvolvida, baseada nas áreas e nas dimensões ergonomicamente adequadas para as diversas actividades, embora associadas, quer a um “suplemento” dimensional capaz de garantir uma essencial adaptabilidade a diversos usos e formas de habitar, quer a uma solução doméstica específica, cuja caracterização proporcione uma fundamental unidade, ou “partido” em termos de solução e de oferta de um dado leque de formas de habitar a “casa”; um leque que, tal como refere a palavra, propicie uma ampla diversidade de formas de habitar, mas que seja distinto de muitos outros “leques” de formas de habitar “casas”, proporcionados por muitas outras soluções domésticas.

É esta outra ideia-base que aqui se quer deixar sublinhada: que é essencial haver muitos leques de soluções domésticas disponíveis para se escolher como se quer habitar a “casa” e não, como infelizmente, acontece soluções repetidas tantas vezes até à náusea, como se organizar uma habitação fosse uma tarefa com uma única solução possível e na qual a única variação possível, ou a mais significativa, fosse a maior ou menor disponibilização de espaço “a granel”, e, “vá lá”, a maior ou menor “quantidade” de luxo que “enfeite” essa mesma quantidade de espaço.

Voltaremos a este tema, que consideramos fundamental, nas suas dimensões, também estruturantes, das opções tipológicas por edifícios, em que também se repete esta opção, sem sentido, sempre pela mesma solução, neste caso de esquerdo/direito, sem se entender todo o enorme leque de opções de agregação de fogos e de espaços comuns capazes de oferecer um modo de viver e de habitar a cidade e a casa, muito mais entusiasmante e mesmo emocionante, matérias que naturalmente têm também tudo a ver com melhor espaço, em vez de mais espaço.

Toda esta fundamental abertura de campos de criatividade no desenvolvimento e, depois, na vivência de um melhor espaço residencial tem, evidentemente, a ver com uma melhor Arquitectura, numa opção que tem de ser desenvolvida em várias frentes: a das entidades públicas com responsabilidades na matéria; a dos promotores residenciais; a dos investigadores e dos projectistas; e a dos próprios habitantes, que têm de exigir tal diversidade e qualidade.
Mas os arquitectos têm de avançar activamente nestas matérias e exemplificar que se está aqui a tratar de assuntos que têm tudo a ver com qualidade residencial e urbana e que nada têm a ver com quaisquer fantasmas de custos acrescidos, e afinal estamos hoje numa fase das preocupações sobre o habitar que evidencia a necessidade da diversificação e da adaptabilidade das soluções.

A título de exemplo muito significativo desta grande batalha por melhores espaços residenciais, no sentido de espaços melhor “arquitectados”, cita-se um estudo de Jacqueline Palmade e M. Perianez no qual estes autores referem um empreendimento francês de habitação de interesse social multifamiliar, em Rex Hermet-Biron, com 47 fogos e no qual se desenvolveram 23 aspectos "originais" relativos a diversas características dos vários espaços e compartimentos habitacionais e aos relacionamentos entre eles (1).

Nesta intervenção as características de originalidade, ou menor convencionalidade, na organização e na espacialidade doméstica agrupavam-se diversamente em cada habitação, variando entre fogos com um único aspecto menos habitual, até outros em que se concentravam até oito aspectos mais originais.

Na apropriação que se desenvolveu deste conjunto residencial, em Rex Hermet-Biron, detectou-se uma tendência de escolha das habitações mais “clássicas”, porque incluindo um menor número de inovações, por parte das famílias social e economicamente mais favorecidas; famílias estas que também demonstraram maior gosto pelas habitações mais pequenas do que as famílias consideradas como mais desfavorecidas (2). Embora se trate, aqui, apenas de um caso, estes aspectos podem querer significar para os agregados mais favorecidos uma vontade mais tradicional na solução da habitação, que depois é ambientalmente compensada/aproveitada por arranjos pessoais mais fortes, livres e caracterizados; enquanto que para os outros agregados talvez que a vontade de ter mais espaço pessoal e familiar seja ainda determinante, o que não deixa de ser natural, quer pela situação de evolução de piores para melhores condições habitacionais, quer pela muito reduzida oferta de opções habitacionais que caracteriza, quase sempre, essa transição qualitativa.



Fig. 03

Em Olivais Norte, Lisboa, um dos conjuntos de habitação de interesse social portugueses que foram realizados (cerca de 1965) de forma mais integrada, nas relações entre interiores e exteriores, e num evidente e exigente apuro em termos de grande qualidade arquitectónica, assiste-se, ainda hoje, passados quase 50 anos, à continuidade de uma positiva apropriação de soluções habitacionais extremamente “económicas” em termos de áreas domésticas, extremamente inovadoras, à época e ainda hoje em dia, em termos de propostas de organizações domésticas e, por vezes, marcadas por soluções igualmente inovadoras na oferta de espaços comuns espaçosos e caracterizados por expressivos elementos de apropriação e identificação, com destaque para as intervenções artísticas.

Esta é uma temática que não se esgota nesta simples abordagem, sob o tema do mais espaço ou dos melhores espaços, mas há aqui aspectos com importância determinante no pensar o habitar. E nestes aspectos destaca-se, desde já, quer a clara complementaridade que se respira, em Olivais Norte, entre soluções com espaços domésticos e comuns mínimos e espaços exteriores residenciais de vizinhança extremamente cuidados e “habitáveis”, quer a idêntica complementaridade entre espaços domésticos relativamente mínimos e excelentes e conviviais espaços comuns, quer o grande apuro que foi investido no estudo aprofundado das organizações e relações dos espaços domésticos – não se optando por quaisquer “dados adquiridos” em termos de soluções preexistentes –, quer, finalmente, a qualidade comum a todas estas soluções, que é a do excelente desenho de Arquitectura, um desenho feito tanto numa sensível relação com a própria matéria do desenho e da arte, quer numa igualmente sensível e pormenorizada relação com quem habita, quer, finalmente, numa igualmente sensível e envolvente relação com a natureza.

Fiquemos, então, com a ideia de que chega de pensar que qualidade e quantidade são aspectos afins, que é chegada a hora de interiorizar que a oferta habitacional tem de responder, o melhor possível, a muitos gostos distintos de habitar e a diversas exigências habitacionais, que uma tal opção não implica, obrigatoriamente, gastos suplementares e que, para tal, há que melhor arquitectar o habitar, do exterior urbano e residencial ao interior doméstico; e afinal há bastantes bons exemplos a seguir ou com os quais é possível aprender, mais do que soluções específicas, um caminho específico de conciliar desenho, adequação de usos e gostos residenciais e integração entre cidade e natureza.



Fig. 04

E, afinal em tudo isto, há sempre que sublinhar que não estamos a tratar de números ou de receitas a repetir e associadas a uma qualquer satisfação garantida, porque o fazer da cidade e da casa do Homem liga-se, essencialmente, a aspectos qualitativos, e, tal como escreveram, há pouco tempo, Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza” (3).

E é nesta complexidade e subtileza que actua a melhor Arquitectura residencial e urbana, manejando os diversos aspectos quantitativos e qualitativos e realizando, quer pequenas habitações económicas bem integradas em vizinhanças acolhedoras e onde, provavelmente, pouco sentimos uma eventual exiguidade espacial pois habitamos uma solução integrada e equilibrada onde há complementaridades entre casa e rua e onde os espaços, embora reduzidos, são adaptáveis e apropriáveis, quer grandes habitações cuja caracterização arquitectónica espacialmente pormenorizada reduz, de certa forma, o seu expressivo dimensionamento a uma escala de uso agradavelmente humanizada e envolvente

Notas:
(1) Jacqueline PALMADE; Manuel PERIANEZ, "Des HLM à la Conquete de l'Espace", pp. 50 e 51.
(2) Jacqueline PALMADE; Manuel PERIANEZ, "Des HLM à la Conquete de l'Espace", p. 182.
(3) Leonardo BENEVOLO e Benno ALBRETCH, As Origens da Arquitectura, Lisboa, Edições 70,2004 (2002), pp.10-13.

Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 6 de Abril de 2009
Edição de José Baptista Coelho