domingo, junho 14, 2015

Versatilidade da arrumação doméstica - Infohabitar 537


Atenção às inscrições no 3.º CIHEL - 3.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono, em setembro de 2015, São paulo, Brasil.

A importância e a versatilidade da arrumação doméstica 

Artigo LXXXI da Série habitar e viver melhor
Infohabitar, Ano XI, n.º 537
António Baptista Coelho

Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e continuamos hoje a desenv«volver uma reflexão sobre os espaços de arrumação domésticos.

Arrumar muita coisa e apoiar todas as outras funções habitacionais 



Arrumar bem, é essencial para se ter uma boa casa


A capacidade de arrumação doméstica, propriamente dita, porque associada aos múltiplos e inúmeros objectos de que precisamos e que gostamos de ter nas nossas casas é uma qualidade do habitar que pode existir:

- ou de forma claramente suficiente, proporcionando uma significativa facilidade e um significativo desafogo nos diversos tipos de arrumação que são necessários;

- ou de forma, pelo menos, minimamente estratégica em determinados pontos-chave domésticos como será o caso da cozinha, da casa de banho, dos quartos e da principal zona de tratamento de roupas.

E desde já se refere que na ausência de uma tal capacidade mínima, já razoavelmente estudada em termos funcionais por diversos autores, os habitantes terão uma qualidade de vida claramente diminuída pois na sua casa haverá uma significativa tendência para ficarem aparentes, rapidamente, atitudes menos sistemáticas de arrumação e, naturalmente, os reflexos, em termos de menor arrumação, produzidos por modos de vida mais informais.


Quando há capacidade de arrumação, há, sempre, pelo menos, o recurso a uma arrumação aparente que pouco mais é do que esconder a desarrumação; mas em modos de vida que são, na prática, pouco domésticos, pois são caracterizados por uma reduzida permanência em casa, esta é uma possibilidade estratégica e oportuna, nem que seja pela possibilidade que oferece de adiar a verdadeira arrumação para alturas mais adequadas, por exemplo no final da semana.

A importância básica da arrumação - para lá dos aspetos funcionais

E é importante ter presente que, praticamente, ninguém aprecia conviver com uma desarrumação aparente.
O arrumar de tudo o resto que, para além do mobiliário, preenche as nossas casas exige um cuidado especial pois, na prática, há diversos tipos de arrumação a considerar, desde a dos elementos necessários ao dia-a-dia doméstico, aos elementos ligados à vivência semana-a-semana, e mesmo a elementos específicos associados a uma arrumação personalizada e especializada. 
Simplificando esta matéria há que pensar, na cozinha, em arrumar tudo aquilo de que se necessita para cozinhar e para apoiar as refeições, mas aqui temos grande ajuda de toda uma indústria funcional-decorativa que nos propõe até verdadeiros sonhos de cozinhas cujos únicos problemas são o preço e o espaço que ocupam; e vale a pena sublinhar que é possível ser económico e proporcionar tudo aquilo que além de necessário proporciona um óptimo ambiente de vida.


Fig. 01: Uma cozinha cuja capacidade de arrumação constitui claro fator de atratividade e apropriação - interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 4, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

Da cozinha que nos serve à montra-cozinha

E há, até, que ter cuidado em não se transformar um espaço que será potencialmente muito usado numa espécie de montra para visitas que depois acaba por ser mais uma dor de cabeça em termos de exageros de limpeza e arrumação, acabando, tantas vezes, por deixar de ser um espaço de convívio – daí tantas vezes se fazerem segundas cozinhas, que são as verdadeiras, sempre que se pode (por exemplo em moradias).
E na cozinha há que ter especialmente cuidado com a arrumação dos alimentos e dos mais diversos produtos e objectos usados nas lides da casa, sendo naturalmente conveniente uma adequada separação entre uns e outros e algum desafogo que permita arrumar os habituais grandes avios semanais ou mesmo mensais; e atenção se a casa é grande e serve uma família grande tais espaços terão de ser especialmente bem dimensionados.
Um outro aspecto a ter em conta nesta última matéria da arrumação de géneros e apetrechos para cozinhar liga-se a um hábito que parece estar em crescendo e que é a prática do cozinhar como segunda actividade ou passa-tempo, numa passagem de modos de viver a casa entre a cozinha que era o espaço de quem cozinhava, praticamente, como profissão, para a cozinha de quem cozinha, periódica ou eventualmente como paixão e como gosto específico; uma situação que deixa totalmente de lado aquela “cozinha laboratório” onde tantas vezes a empregada, que hoje não existe, se “desenrascava”, e uma situação que acaba por revestir a nova cozinha de uma nova necessidade de funcionalidades bem ligadas a um amplo, estratégico e atraente leque e arrumações – um pouco como se tratando de um grande “brinquedo”.
Ainda associado à cozinha outro aspecto a considerar é o apoio simplificado e adequado a arrumações de géneros alimentares em quantidades mais significativas – por exemplo uma saca de batatas – e o apoio especializado à arrumação de géneros com arrumação potencialmente prolongada, mas que sejam periodicamente manuseados – por exemplo queijos e vinhos.
Referem-se especificamente estes aspectos pois considera-se que tais possibilidades integram, expressivamente, o gosto de habitar e viver a casa de muitas pessoas e, assim, deverão ser devidamente considerados em termos da concepção dos seus espaços domésticos, proporcionando-se, assim, mais gosto no habitar diário da casa e nas suas múltiplas facetas.

Arrumação nas casas de banho

Passando, agora, às arrumações nas casas de banho a ideia mais importante é que elas são fundamentais seja para apoiarem naquilo que é funcionalmente adequado e que deve ali estar “à mão”, seja para conferirem às casas de banho um verdadeiro sentido de “casas de banho”, agradável, envolvente e caloroso, bem distinto do sentido frio, duro, impessoal, maquinal e quase “de jazigo”, associado a tantas “instalações sanitárias”, que mais não são do que um repositório “de catálogo” de peças sanitárias.

Arrumações nos quartos

Sobre as arrumações nos quartos elas estão associadas, essencialmente, a artigos de vestuário e a um amplo leque de objectos pessoais, sendo aqui interessante referir que há, sempre, um aproveitamento muito mais integral do espaço de arrumação quando se conta com roupeiros encastrados, desde que estes sejam úteis no máximo da altura disponível no quarto e desde que, interiormente, sejam funcionalmente organizados em diversas valências de arrumação – pendurar vestuário, prateleiras e gavetas; a diferença em capacidade de arrumação entre um roupeiro assim desenvolvido e outro sem este tipo de condições é, frequentemente, muito significativa e o respectivo investimento pode ser muito minimizado.
Roupeiros encastrados úteis como os referidos oferecem uma capacidade de arrumação muito superior à que está associada aos tradicionais roupeiros móveis e podem ter um acabamento que ou fica “camuflado” com as cores e texturas aplicadas, globalmente, no quarto, ou assume um acabamento em madeira aparente igual ao eventualmente utilizado em rodapés e portas interiores; soluções estas compatíveis com os diversos tipos de arranjos de mobiliário usados nos quartos.

Arrumações em espaços de circulação

As arrumações nos espaços de circulação seguem, basicamente, o que acabou de ser referido para as arrumações com roupeiros encastrados nos quartos, referindo-se, apenas, que se trata de uma valência de arrumação muito útil para os mais diversos fins e objectivos de arrumação, o que pode levar a uma diversificação cuidada dos tipos pormenorizados de arrumação que são aqui oferecidos. Anota-se, ainda, que poderá haver interesse em deixar espaços de circulação “desimpedidos” de roupeiros ou armários embutidos, designadamente, em locais estratégicos para se posicionarem elementos de mobiliário especiais e mais cuidados, por exemplo, numa parede bem visível logo quando se entra em casa.
Um espaço de circulação que merece um tratamento específico em termos de capacidade de arrumação é a zona de entrada doméstica, onde será interessante a existência de um roupeiro embutido, para apoio a diversos tipos de arrumações associadas à relação com o exterior, mas onde é especialmente importante a referida possibilidade de integração de elementos de mobiliário especiais e mais cuidados.


Fig. 02: Novas formas de arrumação em zonas de estar - interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 4, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

Arrumações nas salas

Sobre as arrumações nas salas há que referir não se tratar de uma opção frequente, até pela situação de se evitarem eventuais incompatibilidades formais com a escolha de mobiliário para a sala-comum, no entanto, havendo os cuidados de harmonização acima apontados, e considerando-se uma posição estratégica e sóbria de um armário embutido, um elemento deste tipo poderá revelar-se de grande utilidade na sala-comum, designadamente, no apoio à diversificação funcional desde principal espaço social doméstico, proporcionando, por exemplo, a arrumação prática e integral de elementos de apoio a actividades profissionais realizadas em casa.
Ainda nesta matéria das arrumações embutidas na sala-comum é interessante apontar as virtualidades que tais arrumações oferecem, quer em condições de reduzida espaciosidade global, substituindo, com vantagens práticas de muito maior capacidade de arrumação, os tradicionais aparadores ou mesmo estantes móveis, quer em soluções de articulação entre vários tipos de espaços, em que estes armários embutidos servem, também, de tabiques de separação entre diversos a sala-comum e outro compartimento ou espaço de circulação; e neste caso estes armários embutidos poderão ser usados nas suas duas frentes. E atente-se, finalmente, que sendo a sala-comum, basicamente, um espaço social não haverá nestas soluções quaisquer problemas de privacidade.

Fig. 03: pormenor de arrumação em interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 4, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

Arrumações em escritórios

Os escritórios ou saletas-escritório integrados em habitações podem ou devem ser considerados como variações adaptativas de quartos – de certa forma também se poderá considerar exactamente a ideia oposta, a adaptabilidade doméstica só fica a ganhar –, e assim a existência de um roupeiro ou armário embutido deverá seguir os aspectos acima apontados para os quartos. No entanto e como será natural a existência de um quarto mais pequeno e, tendencialmente, mais associável a esta função de escritório ou de saleta de recepção e de estar em sossego, neste compartimento poderá não existir um armário embutido ou então este poderá ter uma dimensão especialmente reduzida, de modo a ser possível realizar aqui um arranjo de mobiliário mais caracterizado e identificável.

Despensa geral

Será, ainda, interessante a criação de um pequeno compartimento especializado para arrumações, uma despensa geral, tanto mais útil, quanto mais tradicionais forem os modos de habitar e quanto maior for o agregado familiar; e num tal compartimento é fundamental uma adequada integração de prateleiras ergonómicas, seja no seu dimensionamento, seja no seu espaço de utilização.

Arrumações fora da habitação

E, finalmente, sobre as arrumações fora dos espaços habitacionais específicos, portanto situadas nas garagens comuns ou em outros sítios, a regra a aplicar é idêntica à apontada para a despensa geral, considerando-se, no entanto, que estas arrumações poderão ser mais espaçosas e funcionalmente diversificadas, de forma a poderem acolher seja arrumações “sujas”, como por exemplo alguma lenha, seja a arrumação funcional de bicicletas.
Conclui-se esta pequena viagem pela arrumação doméstica com a dúvida de como apoiar a arrumação funcional de bicicletas, quando não existe o referido compartimento de arrumações fora da habitação ou outro espaço adequado e protegido em espaços exteriores privativos; uma solução será a previsão de um compartimento ou espaço comum, devidamente controlado, com este tipo de função.

Fig. 01: interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 4, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

References/Referências/notas


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 537
Artigo LXXXI da Série habitar e viver melhor
A importância e a versatilidade da arrumação doméstica - Infohabitar n.º 537

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



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