segunda-feira, maio 28, 2018

Sítios-biblioteca - Infohabitar 641

Infohabitar, Ano XIV, n.º 641

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CXIV

por António Baptista Coelho (texto e imagens)


Nota prévia: um pequeno problema editorial levou a que este artigo tenha sido retirado, durante alguns dias, do corpo editorial da Infohabitar; o problema está resolvido, o artigo está novamente disponível e mantém a sua numeração original (n.º 641) 


Sítios-biblioteca

(Nota prévia: por uma questão de autonomia de leitura a introdução será repetida nos vários artigos sobre esta temática dos pequenos sítios domésticos)
Para além dos habituais espaços domésticos globalmente associados a compartimentos mais de estar ou mais de circulação e/ou recepção e que bem conhecemos, uma boa habitação, que nos “diga” realmente algo, para além de, simplesmente, nos abrigar, deve integrar, de forma muito natural, diversos tipos de sítios domésticos, entre os quais se contam os “lugares janela”, já desenvolvidos, mas cuja variedade dependerá da capacidade de quem bem projecta e de quem bem habita esse espaço doméstico.
Mas não tenhamos quaisquer dúvidas de que essa capacidade de adequada e estimulante integração de múltiplos pequenos sítios domésticos, propícios a variadas conjugações de microfunções e microapropriações depende em boa parte de um adequado, pormenorizado e rico/imaginativo projecto de Arquitectura, que facilitará e até incentivará tais condições, enquanto, se não existir esse projecto bem qualificado, quando o mundo doméstico é “manejado” de forma “maquinal” e rigidamente “unificada”, os resultados no uso e apropriação da habitação tenderão a ser muito “áridos” e funcional e formalmente muito pobres.
De certa forma aquilo que se aplica/acontece ao nível urbano e relativo aos aspectos de localização/integração, que têm enorme importância na satisfação dos habitantes – resumindo-se, por vezes, na ideia de que o que interesse primeiro é o sítio, depois o sítio e ainda depois o sítio … -  é algo que acontecerá, depois, ao nível do edifício, quando ele integra habitações com a riqueza da conjugação de variados sítios domésticos, e, depois, ao próprio nível doméstico, considerado, e bem, como a conjugação de variados e ricos pequenos sítios que nos servem, marcam e que apropriamos.
Em seguida iremos comentar diversos “pequenos sítios domésticos”, sem a ambição de os esgotarmos a todos, naturalmente; pois a sua diversidade está apenas dependente da sensibilidade e da imaginação de quem os projecta e de quem os habita – mas mesmo a este último nível é de grande importância o desenvolvimento da reflexão dos projectistas sobre estas matérias, reflexões estas que naturalmente, sendo feitas de forma clara/acessível, irão municiar/influenciar uma grande e adequada riqueza nessa apropriação pelos habitantes.

Contribuição para a definição de “biblioteca”

Antes de iniciar esta reflexão importa estabilizar, minimamente, a ideia/definição de “biblioteca”, que podemos definir:
(i) como uma colecção de livros, pelo menos, minimamente organizados,
(ii) mas também como um móvel destinado à arrumação de livros,
(iii) e ainda como um espaço físico (compartimento, edifício ...) onde se guardam livros e documentos de variados tipos.
É também interessante considerar que a definição de “biblioteca”  se pode associar à “definição” de “livraria”, também referida a uma colecção de livros, embora também a um estabelecimento de comércio de livros; havendo opiniões que ligam a definição de biblioteca, especificamente, à de uma grande colecção de livros adequadamente organizada; condição esta de “minimamente organizada”, que é naturalmente, ambígua ou subjectiva, pois desde que consigamos encontrar razoavelmente, um dado volume, numa extensa colecção bibliográfica, tal situação parece corresponder a uma organização, pelo menos, mínima da mesma.
Para dinamizar este conjunto de comentários iremos falar de “bibliotecas” e de “sítios-biblioteca”, considerando o que é acima referido e centrando-nos, exactamente, nessas referência a uma colecção de livros arrumada num móvel ou em móveis, por sua vez integrados em compartimento(s) doméstico(s) ou parte(s) de compartimento(s) doméstico(s), por sua vez integrando uma dada habitação e/ou edifício ou, mesmo, um dado conjunto/complexo de edifícios.
Desta forma acabamos por usar a referida “definição” como elemento gerador da própria ideia de sítios-biblioteca, e ao serviço de uma pequena reflexão sobre o interesse e a expressiva valência que tais sítios têm, sem dúvida, na criação/caracterização de habitações onde nos possamos sentir melhor, porque rodeados daquilo de que gostamos e nos preenche parte significativa da vida e onde aprofundamos a nossa identidade, rodeados e amparados pelos muitos milhares de mundos, histórias e ideias que vivem nos livros, afinal, na linha do que disse o grande Jorge Luis Borges sobre bibliotecas, sintetizando que:
“Sempre imaginei o paraíso como um tipo de biblioteca.”



Bibliotecas domésticas e qualidade de vida

Evidentemente que tal comparação serve aqui apenas para dar o sentido da importância que pode ter uma biblioteca doméstica na nossa qualidade de vida e numa estimulante caracterização dos sítios que habitamos, e neste sentido e para além do obrigatório texto/conto de Borges intitulado  “A Biblioteca de Babel” – a não perder, porque contém, mesmo, uma proposta de configuração de “O UNIVERSO (que outros chamam a Biblioteca)”, em termos formais e funcionais –, muito se recomendam os livros do também argentino Alberto Manguel – “Embalando a Minha Biblioteca” e “A Biblioteca à Noite” –, que constituem incontornáveis exemplos de como os livros nos podem habitar e habitar as nossas casas de modo extremamente positivo.
Nestes casos, quase como sendo os espaços de biblioteca e os seus cantos/recantos associados – espaços de leitura, de trabalho à mesa, de estar, de convívio e reunião, etc. – que podem ser verdadeiros pólos aglutinadores da globalidade dos respectivos espaços domésticos e de trabalho em casa.
Importa sublinhar, aqui, que não se constatam estas condições de expressiva presença dos livros nas habitações, em situações específicas de edifícios feitos ou convertidos para o efeito, pois mesmo em andares/apartamentos relativamente correntes esta situação/condição pode ser expressivamente vivida, seja de modo premeditado, seja, naturalmente, ao longo do tempo e da gradual expansão de diversas pequenas bibliotecas, provavelmente, temáticas por quase toda a habitação.
E um aspecto de grande interesse e justificativo deste verdadeiro “casamento” entre livros e casas, condição esta que, depois, resulta nos tais sítios-biblioteca, que, habitualmente ou frequentemente, vão crescendo, em móveis, sítios e partes de compartimentos ocupados, é a multiplicidade de qualidades que os livros atribuem aos nossos espaços domésticos, pois, para além da sua básica e essencial utilidade e do prazer que nos dão, que tantas vezes se renova ao longo dos anos, em leituras e releituras; os livros e os seus espaços-biblioteca, criam ambientes, produzem espaços volumétrica e cromaticamente estimulantes, apoiam no conforto ambiental interior, estão embebidos de expressivos significados culturais e mesmo simbólicos e evidenciam uma interessante “condensação” da nossa história de vida (individual e familiar), estando directamente associados a muito do que nos aconteceu; e, suplementarmente, fundem-se, de forma extremamente estimulante com as mais diversas recordações, que vamos acumulando ao longo dos anos e que podem fazer viver as prateleiras em conjunto com as coloridas lombadas e também, evidentemente, com os mais diversos elementos artísticos.  
E apesar de estarmos já em plena reflexão fica, aqui, a referência de estar bem longe da nossa ideia qualquer tipo de esgotamento ou mesmo de significativa sistematização de uma matéria, que, como esta, nos motivará para outros artigos e textos mais desenvolvidos e específicos.

Livros que vão preenchendo casas

Começámos devagar, muitos de nós, em pequenos a ler e a acumular livros, talvez, primeiro, em simples pequenos montes no chão do quarto e, depois, nas poucas prateleiras que os móveis correntes tinham, para em seguida, e quando houve possibilidade, conseguir uma estante com significativa quantidade de prateleiras, que nos possibilitaram iniciar a arrumação da nossa pequena biblioteca/livraria.
É evidente que nesta sequência de acontecimentos de um lado ficaram aqueles que associaram os livros à “obrigação” de estudar, e que, portanto, os tinham obrigatoriamente, e aqueles que até consideravam tais livros “de estudo” uns quase não-livros, exactamente devido a esse carácter obrigatório, que estranho sempre foi aos amantes de livros; estes sim “escondendo”, frequentemente, os livros de estudo nas gavetas e escrivaninhas ligadas ao estudo, mas começando, já, a evidenciar aquelas primeiras filas de pequenas lombadas dos livros que chegaram por vontade própria ou, tantas vezes, previamente desejados e marcando datas festivas.
E aconteceu, logo aqui, uma primeira “separação de águas”, entre aqueles que começavam a não conseguir viver, de forma agradável e estimulante, sem ler/ver livros, e que, portanto, os honravam com essa presença evidenciada nas ainda pequenas estantes do quarto, ali sempre à mão de uma inesperada releitura de lazer e marcando já o ambiente interior do mesmo quarto, e os que não começaram a ganhar, logo então, o “bichinho dos livros”, o prazer único dos livros e que, logo que possível, os encaixaram e relegaram para compartimentos de arrumação ou, melhor, os deram a quem os lê e estima; e será, essencialmente, com aqueles primeiros que iremos continuar esta pequena reflexão.
Depois e à medida da passagem dos anos e do crescimento das disponibilidades financeiras, os livros, as revistas e outros interessantes documentos vão crescendo em número e diversidade temática, sendo que a vontade de ter uma pequena biblioteca se vai instalando, parecendo, enfim, ser possível, no sentido de ocupar e marcar, plenamente, primeiro uma parede quase inteira, depois, um grande canto de compartimento, e finalmente todo um compartimento, rodeando-nos, os livros, finalmente, como um cerco benéfico, estimulante e protector.

Dos sítios-biblioteca à casa-biblioteca

É então, quando os filhos vão seguindo as suas vidas, que a biblioteca doméstica vai ocupando a casa  em recantos e sítios-biblioteca minimamente temáticos e organizados, libertando-se, finalmente, das suas primárias limitações financeiras e culturais, ligadas à velha “obrigação” de ler tudo o que se compra, para se passar a uma nova fase de verdadeira biblioteca/livraria, cada vez mais rica, cada vez mais direccionada para as temáticas que mais nos interessam e apaixonam, e, portanto, cada vez mais servindo como uma verdadeira biblioteca pessoal ou familiar (mas sempre muito pessoal), que acaba por ser muito mais estimulante do que muitas outras, embora muito maiores e mais ricas.
E é também esta a altura em que, por vezes, chegam estimulantes doações de familiares, que vão criar outros ricos “nichos” temáticos, que ficam confortavelmente em reserva para próximas explorações.
E é também então que esta biblioteca doméstica positivamente tentacular e até estimulantemente labiríntica e inesperada, nos começa a oferecer os melhores cantos/recantos e sítios-biblioteca, onde nos sentimos duplamente em casa e identitariamente confortados; condições estas que, naturalmente, se expandem e expressivamente, em termos de ambientes criados aos respectivos espaços domésticos e, quando bem desenvolvida, à própria “casa” no seu conjunto, que passará, no limite a ser uma casa-biblioteca.    

Livros e novos hábitos domésticos

De uma forma mais global os sítios-biblioteca nas nossas habitações podem estar em extinção com a tendência de se encaixotarem os livros, relegando-se estes caixotes para arrumações, frequentemente, junto dos estacionamentos, ou mandando-os para outras paragens, pelas mais variadas razões entre as quais as “higiénicas”, pois os livros criam pequenos bichos e acumulam pó, e além de tudo isto há a televisão e a internet e o papel começa a estar a mais, pois até em casa nos vamos rendendo à revolução informática, que evidentemente, é benéfica; isto embora ainda não se tenha inventado, parece, uma forma mais evidenciada e estimulante de tratar a crescente biblioteca de PDFs.
Lembremos, já agora, que as próprias livrarias comerciais passaram a ser, essencialmente, montras de livros recentemente lançados e deixaram de ser o que eram: verdadeiras bibliotecas ricas e aconselhadas; uma situação que, por si só, acaba por reforçar a importância que tem e terá uma adequada biblioteca doméstica.
Julga-se que durante muitos anos ainda haverá sítios-bibliotecas domésticos “resistentes” e são sítios fantásticos para se ouvir música, ler, trabalhar e conversar, e podem ser uma óptima alternativa ao sítio de TV e cinema em casa; constituindo um verdadeiro trunfo na riqueza temática e ambiental de uma habitação que se deseje bem qualificada e caracterizada.
E, como em tudo, há fluxos e refluxos nos hábitos gerais e domésticos, e não tenhamos dúvida de que a revolução informática documental acaba por ser dinamizadora da continuidade do livro impresso, que tem qualidades distintas das do PDF.
Um pouco à margem desta sequência de reflexões é oportuno considerar que estas inovações no habitar doméstico - trabalhos e lazeres - parece também confluir para o interesse em se desenvolver uma estruturação da habitação em compartimentos razoavelmente idênticos em termos de condições dimensionais e assim adaptavelmente apropriáveis para diversos usos.

E importa, aqui, registar que a qualidade e os benefícios de uma dada biblioteca doméstica ou de um dado sítio-biblioteca doméstico não se ligam, apenas, ao seu desenvolvimento quantitativo, havendo pequenos móveis-biblioteca bem desenvolvidos, pormenorizados, localizados e avizinhados, e/ou situados em determinados cantos/recantos domésticos que vivem, por si, como verdadeiras bibliotecas bem caracterizadas, estimulantes e visual e ambientamente atraentes.   


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 641

Sítios-biblioteca – Infohabitar 641

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

Sítios da habitação - Infohabitar 643

Infohabitar, Ano XIV, n.º 643

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CXV

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sítios da habitação - Infohabitar 643

Sobre uma habitação mais feita de sítios específicos do que de funções domésticas

Lembrando, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas.
As limitações a uma tal liberdade doméstica são, naturalmente, de vária ordem, destacando-se alguns aspectos de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade e de funcionalidade com sentido lato, que, em seguida, muito brevemente se apontam.




Agradabilidade espacial e conforto ambiental

As limitações à liberdade de apropriação e à “personalização” nas áreas da agradabilidade espacial global e do conforto ambiental são de grande importância e referem-se ao “direito” à espaciosidade, pelo menos, mínima, referida a condições de desafogo espacial que possam contar grande diversidade de potenciais ocupações por mobiliário, à acessibilidade/circulação adequada, à luz natural, à boa insolação, à boa ventilação e ao adequado conforto higrotérmico e acústico que todos os habitantes devem ter. Naturalmente que ao avançarmos na referida perspectiva de “apropriação e personalização”, não se conseguirá garantir tudo isso, pois a liberdade de apropriação poderá condicionar alguns desses aspectos; no entanto muitos deles poderão ser facilitados e favorecidos através de cuidados prévios projectuais adequados – por exemplo: boa espaciosidade básica (também a nível de pé-direito), boa orientação e insolação, adequada e extensa fenestração e edifícios pouco profundos e/ou com soluções de iluminação/ventilação no miolo do edificado, ventilação cruzada garantida, adequado isolamento térmico e acústico, etc.

Aspectos essenciais de adaptabilidade

As limitações à liberdade de apropriação e à “personalização” nas área da ausência de aspectos essenciais de adaptabilidade referem-se, essencialmente e em termos de organização da habitação, à existência de rígidas hierarquias espaciais, designadamente, através de uma sequência de zonas domésticas praticamente unifuncionais; no que se refere à pormenorização da habitação a respectiva inadaptabilidade e dificuldade de apropriação crescem com a redução do número de paredes livres – de vãos, de interruptores e tomadas, de instalações fixas e de encosto de portas. E naturalmente que condições de espaciosidade mínimas ou próximas de mínimas, designadamente, em termos de dimensões de largura de compartimentos e circulações, influenciam muito negativamente o respectivo potencial de adaptabilidade desses espaços.  
Num sentido contrário e portanto para dispormos de habitações bem adaptáveis e apropriáveis teremos espaços domésticos com larguras versáteis em termos da respectiva ocupação, organizações domésticas funcionalmente neutrais em termos de organização geral e dimensionamento dos respectivos compartimentos, associadas a circulações alternativas possíveis, directamente, entre compartimentos e preparação de fusões e subdivisões de compartimentos e naturalmente que a localização das instalações também apoiará ou dificultará essa capacidade adaptativa; em termos de pormenorização quanto mais metros lineares de paredes totalmente livres tivermos mais adaptável e apropriável será a respectiva habitação.

Aspectos essenciais de funcionalidade num sentido amplo

Passando, agora, às limitações à liberdade de apropriação e à “personalização” associáveis a aspectos essenciais de funcionalidade, privacidade/convivialidade e capacidade de arrumação, podemos sintetizar referindo que uma funcionalidade bem prevista e/ou, de certa forma, “bem concentrada” onde ela possa facilitar e agilizar, eficazmente, as actividades domésticas mais trabalhosas em termos de esforço/duração e/ou com maior potencial de má influência sobre a vida doméstica, é condição extremamente benéfica na “libertação” dos restantes espaços da habitação para expressivas e sequenciais intervenções de adaptação e apropriação; e estas condições jogam-se em previsões espaço-funcionais específicas com influência tanto nas configurações espaciais e de integração de equipamentos e instalações, como numa adequada pormenorização, que, por exemplo, facilite expressivamente a limpeza e outras actividades domésticas mais trabalhosas e obrigatórias (ex., fazer camas, lavar e arrumar louça, lavar, tratar e arrumar roupa).
Matéria importante nesta última temática é, também, a consideração de aspectos essenciais de apoio à privacidade e à convivialidade domésticas; neste sentido os aspetos de privacidade são mais associáveis à entrada na habitação, aos espaços de descanso/dormir e ao uso de casas de banho, jogando-se, talvez, de forma mais efectiva no sentido de uma espacialidade relativamente desafogada e a uma adequada previsão de vistas interiores, e podendo variar significativamente com os usos e modos de vida específicos e havendo que considerar que a disponibilização de casas de banho privativas deverá ser bem considerada e harmonizada com o potencial adaptativo do respectivo compartimento a que ela está associada; no que se refere ao potencial adaptativo no sentido convivial ele poderá cumprir-se, por exemplo, através da previsão de fusões temporárias entre compartimentos, bastando para tal que exista já uma ligação potencialmente ampla entre eles (ex., grande porta de correr).    

E então a liberdade de apropriação?

Poderíamo comentar que, depois de tantas considerações e de tantos cuidados específicos pouco ficará como campo de liberdade para o(s) morador(es) adaptarem, apropriarem e personalizarem os seus compartimentos e as suas habitações, mas julga-se que não.
E poderemos até imaginar um espaço de habitação que cumpra praticamente tudo aquilo que acabou de ser referido e que, apesar disso, ou em boa parte por causa disso seja “campo” muito adequado para se tornar um “complexo” único de “espaços/cantos/microespaços” únicos, agradavelmente acolhedores e versáteis nos seus usos.
E podemos e devemos ainda considerar que também é possível projectar pormenorizadamente uma habitação no sentido em que ela possa ser extremamente versátil na sua ocupação posterior, entrando-se, aqui, naturalmente na matéria da qualidade arquitectónica, seja no sentido em que esta deixa margem para depois o habitante intervir não tendendo a afectar os aspectos de qualidade críticos, acima apontados, seja no sentido em que a concepção vai logo ao encontro desse potencial de diversidade de ocupação; e, por vezes, isto é até atingido dentro de quadros dimensionais mínimos (habitação de interesse social); sendo que, como é sabido, outras vezes esta qualidade não é atingida mesmo quando não há tais limitações dimensionais.
De certa forma é este um dos lugares de eleição do Arquitecto, pensar em lugar de muitos dos habitantes que irão viver no espaço que está a projectar e procurar servi-los a todos o melhor possível, propiciando espaços, microespoaços e conjugações de espaços expressivamente versáteis e apropriáveis; e não tenhamos dúvida de que o conselho/apoio de um Arquitecto poderá ajudar os habitantes a ocuparem e viverem melhor os seus espaços de vida, pois afinal trata-se da especialização do Arquitecto, podendo constituir mais um importante campo da sua intervenção, aconselhando, por exemplo, na mudança de habitação e na respectiva (re)configuração e (re)ocupação pormenorizadas.

Sobre o valor/identidade da habitação

Tais eventuais limitações no que se refere a uma adequada apropriação habitacional e respectivos cuidados, acima apontados, têm importantes repercussões positivas seja na disponibilização de espaços domésticos que harmonizam apropriação, carácter próprio/único e adequadas condições de habitabilidade e de conjugação entre diversos espaços fortemente apropriáveis, seja no próprio valor imobiliário desses espaços, que não apresentarão, assim, quaisquer “problemas” de habitabilidade críticos ou indesejáveis para muitos outros potenciais habitantes; podendo, até, apresentar, frequentemente, aspectos específicos que marcam a identidade daqueles espaços e os tornam únicos e muito mais apetecíveis do que a situação “estafada” do “esquerdo-direito” e T0 a T4, com instalações sanitárias interiores (para poupar espaço de fachada) de que estão cheias as nossas cidades e vilas.
Para concluir e apenas como tema que fica um pouco e positivamente em suspenso, no sentido do seu posterior desenvolvimento, fica a ideia que este potencial de expressiva diversidade, versatilidade e caracterização de uma habitação, poderá/deverá ter continuidade: (i) seja nas suas “extensões” e/ou especificações de projecto no edifício multifamiliar – por exemplo, no aproveitamento em duplex de posições sob a cobertura, e no aproveitamento da relação com espaços exteriores privados (peqeunos quintais/pátios, varandas fundas, etc.); (ii) seja na configuração expressivamente diversificada e caracterizada de “novos” edifícios multifamiliares, bem distintos das referidos estafadas tipologias  “esquerdo-direito” e potencialmente bem marcados pela fusão entre vários tipos de usos (usos mistos); ricas e actuais matérias que ficam para outros desenvolvimentos.
Falta, naturalmente, salientar aqui que tudo o que aqui se apontou em termos de apropriação pelo morador e inovação tipológica nunca poderá contribuir para a deterioração da imagem pública e vicinal dos respectivos edifícios, devendo, sim, contribuir para a sua valia patrimonial e urbana.

Nota final: em próximos artigos desta série serão comentados alguns sítios domésticos com variadas valências.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 643

Sítios da habitação – Infohabitar 643

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, maio 21, 2018

Uma rua bem habitada - A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º I


Uma rua bem habitada 


A propósito do livro de Xavier Monteys (*) “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642


Nota prévia editorial sobre a nova Série: “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”

Com este artigo inicia-se uma linha editorial da Infohabitar, intitulada  “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”, desejada desde há muito e referida a uma apresentação, desenvolvida e, em alguns casos, comentada, de livros recentes e/ou considerados significativos nas áreas temáticas da nossa revista.


Não vai haver grandes limites relativamente ao ano de edição, havendo, naturalmente, um privilegiar de livros recentes e, portanto, provavelmente, menos conhecidos dos leitores, e sendo, sempre, de ter em conta a desejável disponibilidade editorial dos livros apresentados e comentados; havendo, sempre, as bibliotecas...


Como os leitores sabem tem havido já apresentações de livros na nossa revista, mas realizadas de modo eventual e sem periodicidade, ou sem um desenvolvimento ou comentário, decorrentes de uma sua leitura completa e atenta, por um dado autor, que, naturalmente, apresenta a sua opinião pessoal sobre a obra que é apresentada.


Julga-se que numa actualidade marcada pela enorme riqueza do acesso directo e indirecto à informação, através do muito que lemos na WWW e do muito que descobrimos na mesma WWW, mas uma actualidade também marcada por uma expressiva “velocidade” e, por vezes, alguma ligeireza na consideração e na reflexão sobre o praticamente infinito campo de documentação existente sobre uma dada temática, velocidade essa que é incontornável face à quantidade da referida documentação e informação, mas que, por vezes, talvez não nos proporcione um adequado “respiro” no pensar sobre um dado tema, dificultando pensamentos bem desenvolvidos sobre o mesmo, e aliás numa actualidade em que mesmo as livrarias dificilmente disponibilizam um adequado acervo editorial, substituído pelo leque de edições mais recentes e continuamente renovadas,


será altura para poder reduzir um pouco essa velocidade de “absorção de ideias/informação”, concentrando-nos, também, com algum detalhe e tempo sobre a sequência de ideias que um dado autor desenvolve num dado livro; nesta caso, evidentemente, em matérias referidas às temáticas abordadas aqui na nossa revista – e quando estava a escrever esta “justificação” lembrei-me que será um pouco resgatar o “slow-reading”, conceito este aqui inventando um pouco à imagem da “slow-food” e das “slow-cities”, numa perspectiva que não põe em causa, nem o podia fazer, a velocidade do tempo actual, mas que deseja não perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, o que parece ser até bem oportuno quando se está a (re)pensar sobre o actual quadro do habitat humano pormenorizado, urbano e habitacional.


A partir de agora a Infohabitar irá procurar manter uma periodicidade mensal relativamente a esta sua nova linha editorial de apresentação comentada de livros na grande temática do habitat humano.


O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys intitulado “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”

por António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Notas explicativas

No texto que se segue faz-se uma reflexão livre e uma apresentação comentada relativamente ao livro de Xavier Monteys (*) intitulado “La calle y la casa. Urbanismo deinteriores”, editado pela Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, em 2017 (**).
Importa desde já clarificar que os comentários desenvolvidos são, evidentemente, pessoais, designadamente, quando se apresentam reflexões que decorreram da respectiva leitura.
Na parte inicial do texto incluem-se aspectos objectivos referidos à constituição, estrutura e conteúdos do livro, embora possa acontecer que as respectivas traduções não sejam as mais correctas e/ou adequadas à intenção do autor; e por este facto e desde já se apresentam as devidas desculpas.
Nas referidas reflexões procurou-se um perfil de natural contenção, seja porque se considera que a apresentação de um livro não será o local adequado para maiores desenvolvimentos, seja porque de forma alguma se pretende substituir a leitura directa do livro; cuidado este que também esteve presente na apresentação da sua estrutura geral, que não integra todas as temáticas presentes no livro.
E desde já se recomenda a leitura desta obra de Xavier Monteys.

Apresentação geral

Nas palavras de Xavier Monteys: “este livro aspira a integrar uma trilogia sobre o espaço que habitamos – com os meus livros anteriores Casa collage (2001, com Pere Fuertes) e La habitación (2014)”; livros estes também já disponíveis na mesma coleção da Editorial Gustavo Gili.
Embora não seja este o objectivo deste texto apetece referir a cuidada e atraente edição deste livro, agradavelmente quadrangular e bem manuseável, com uma capa a duas cores, bem ilustrada com um desenho esboçado de Louis Khan, que, tal como aponta o autor do livro procura “ajudar a tornar visível uma dimensão poliédrica da rua, mas com a atenção centrada em tudo aquilo que a relaciona mais intensamente com a casa”; objectivo este que, segundo o autor, é o objectivo deste seu livro.
Um objectivo que, cruzado com a excelente e desenvolvida “Introdução” de reflexão teórico-prática com cerca de 15 pp, e uma estratégia de apresentação agradavelmente comentada, bem fundamentada (ver as úteis e quase constantes, mas bem legíveis, notas de pé de página) e muito bem ilustrada (todo o livro é extensamente ilustrado a preto/branco), nos leva a uma sua leitura estimulante; pois quando se termina a introdução estamos, praticamente, dentro do “miolo” temático da obra e está bem ganha a embalagem para se ir, com gosto, até ao fim.
O livro tem 168 pp. e a sua organização geral proporciona: (i) seja uma leitura sequencial a partir da referida introdução de apresentação teórica e prática, seguindo-se os 24 subtemas de reflexão; (ii) seja uma leitura subtema a subtema, que se recomenda que seja feita após a leitura da introdução; (iii) seja uma leitura inicial mais global e que proporciona um prático guia de (re)leitura posterior.
Interessa ainda sublinhar tratar-se de um livro com um muito amplo leque de potenciais leitores, naturalmente, bem marcado por arquitectos interessados no urbanismo de pormenor e no habitat humano, mas igualmente apetecível por todos aqueles profissionais e cidadãos que se interessem por essas matérias; a agradabilidade formal da escrita de Xavier Monteys, o seu encadear de ideias bem claras e ricas, a referida extensa ilustração, que acompanha a par e passo o texto, e o tema geral referido a como podemos ter uma cidade feita de ruas e habitações mutuamente vitalizadas, assim o proporciona.

Estrutura

Depois de uma introdução com grande interesse e expressiva autonomia como texto, o autor abre para 24 subtemas ilustrados, que em seguida se exemplificam na sua diversidade e oportunidade e que podem ser lidos, sequencialmente ou, isoladamente, um a um.
Exemplos dos subtemas abordados: entrar!; as ruas de Piranesi; ruas cobertas; ruas como palácios, janelas singulares, o que fazemos na rua, as extensões da rua, ruas de celulóide, a rua de Corbusier, a rua como escola, ruas no espaço, a pintura as ruas e a chuva, a casa praça e a casa rua, etc.

Conteúdos

Apontam-se, agora, algumas ideias que vão sendo revisitadas ao longo do livro de Xavier Monteys, seja mais directamente, na introdução, seja, bem a propósito, à medida que se dedica aos diversos subtemas, alguns dos quais acima apontados; e para uma mais fiel relação com a obra do autor vão sendo citadas, entre aspas, algumas das suas frases; lembrando-se as já apresentadas desculpas relativamente a eventuais deficiências na tradução.
Este livro aborda a rua e o habitar a rua numa perspectiva ampla, considerando-a e comentando-a como “um espaço mental, mas também um espaço mental, um estado de ânimo.”
Refere-se que terá havido um certo privilegiar da praça urbana, designadamente, em termos do seu papel na promoção do convívio, enquanto que “a rua não teve a mesma sorte”.
E salienta-se algo que ficou muito presente depois da leitura do livro: a ideia de se dever assumir a rua como verdadeiro lugar e para além da rua com infraestrutura; uma ideia que se considera ser de grande oportunidade, pois “a rua não é o resto [...], é o que mantém juntos os edifícios.” E decorrendo destes aspectos a bem útil ideia de “rua como espaço servido e não apenas espaço servidor.”
Há, depois, um privilegiar, bem oportuno, em diversas das subtemáticas (itens que estruturam o livro) de uma reflexão sobre a actual e futura diversidade, inovação e “matização” dos usos associados à rua e à habitação (à “casa”), em “contaminações mútuas”, que podem e poderão gerar desenvolvimentos da convivialidade e mesmo de um uso público dos espaços domésticos e, inversamente, de usos mais privados e/ou domésticos do espaço público, enquanto e simultaneamente podem também ser gerados interessantes e diversificados “espaços ambíguos que assumem inegável interesse na actualidade”.
E aqui, com certeza, poderão ser feitas interessantes pontes temáticas com as matérias que o autor desenvolveu nas suas obras anteriores –Casa collage, com Pere Fuertes e La habitación.
Conjugadamente com estas ideias o autor lança a noção, que se partilha, de que a função de circulação não é elemento determinante de uma habitação e, sequencialmente, pensa-se, de um espaço de habitar que integre edifícios e espaços públicos (vizinhança urbana); e simultaneamente lança-se a noção da importância que numa rua bem habitada/habitável tem o “espacio compartido” e “negociável” [entre peões e condutores], que o próprio autor refere ter sido proposta pelo Eng.º de tráfego Hans Mondermann; e aqui há que comentar que se trata de mais uma interessante noção proposta pela engenharia de tráfego e lembro que nas minhas reflexões sobre o tema foi também na engenharia de tráfego que encontrei, há bastantes anos, as primeiras referências destacadas à importante noção de vizinhança próxima.
Importa, agora, salientar a fluidez e a riqueza da leitura deste livro, que nunca fica “aprisionado” (aspas minhas) nas matérias arquitectónicas, mas que aborda e exemplifica ideias e conceitos com noções, imagens e textos, bem a propósito e bem claros, não só de arquitectos, mas, frequentemente, de outros artistas e escritores, como é o caso Orhan Pamuk e George Perec; e o resultado ganha muito na clareza discursiva e exemplificativa, fica, afinal, tal como acima referi, um livro para todos sobre um assunto que a todos nos interessa, o de uma rua mais viva e, muitas vezes, até agradavelmente doméstica.
Um aspecto cumulativo do interesse deste livro é basear-se, em parte, na vivência urbana de duas cidades: Barcelona e Lisboa. Lisboa relativamente à qual o autor aponta: a luz, a variedade, o dramatismo, etc. Muitos aspectos a ter em conta no (re)fazer da rua, num “olhar por cima da racionalidade ou funcionalidade”, que o autor considera determinante.
Ao longo do livro e sempre tendo em contas estas perspectivas, abordam-se e desenvolvem-se 24 subtemas de reflexão; iniciados com o tema “entrar” – entrar no edifício e sair da rua e vice-versa –, abordando-se aspectos físicos de “acompanhamento” e marcação das diversas acções desempenhadas na rua e dando-se o devido relevo à própria experiência humana do viver a rua e as suas margens edificadas de uma forma rica e o mais possível completa; o que, portanto, nos leva muito para além dos aspectos funcionais aplicáveis.
Desenvolvem-se e ilustram-se, assim, reflexões: (i) tanto sobre aspectos mais ligados à paisagem urbana, como as perpectivas; (ii) como sobre elementos concretos urbanos como são, por exemplo,  as pequenas ruas/ruelas e as ruas verdes/arborizadas, (iii) e como sobre as ligações destas temáticas às interpretações amplas e sintéticas que delas são feitas por quadros artísticos diversificados, designadamente, ligados ao cinema e à pintura; mas sempre interpretações centradas na rua, e no seu sentido de paisagem urbana humanizada e estrategicamente confinada.
Trabalham-se, depois, neste livro, as margens das ruas, na sua ligação/fusão com os edifícios e as habitações e, ainda, os espaços ambíguos, que não se sabe se serão ruas, tal como aponta e comenta o autor.
Sobre as margens da rua aborda-se uma “primeira coroa” dos edifícios e suas habitações que deve ser influenciada por esse seu papel dialogante com a rua e com as respectivas habitações – pois, tal como aponta o autor, a cidade molda a envolvente mais pública dos quarteirões e, designadamente, os compartimentos e outros elementos edificados que integram essa primeira coroa mais pública, na qual surgem vãos com diversas funções, de protecção, de ligação, de estadia e de relação.
E, em seguida, o autor oferece-nos outras reflexões bem a propósito, entre as quais e a título de exemplo se apontam as seguintes:
E as catedrais e as grandes galerias comerciais o que são?
E as muito discutidas galerias habitacionais, suas origens e desenvolvimentos; como se ligam à natureza das ruas?
E a evolução actual da rua, gradualmente a esvaziar-se dos serviços que a basearam?
Abordam-se, ainda, aspectos particulares mas muito estimulantes do uso da rua e da sua caracterização, desde as montras, aos espaços em que a rua, praticamente, entra no seu edificado marginal, àqueles espaços que se estendem sobre a rua a partir dos edifícios marginais e a outras tipologias fisicamente marginais.
Desenvolve-se, ainda, no livro uma pausada reflexão sobre a rua pensada como um cenário e não só como sítio de trânsito e de actividades, tendo-se em conta a rua de hoje, que propicia e acolhe actividades e comportamentos de hoje e não se esquecendo que a rua e a casa  “intercambiam coisas” e têm fronteiras entre ambas que “parecem por vezes diluir-se e outras afirmar-se com clareza.”
Matérias estas que constroem a riqueza e a humanização da rua.
Lembra-se a rua citadina sem horários, que serve bem a cidade das muitas pessoas sozinhas e dos casais, pois “cada vez mais a rua parece ser um serviço doméstico [...]”.
Avança-se, depois, no livro, na rua das “anomalias” (elementos de arquitectura urbana) positivas, que transformam algumas ruas em lugares mais habitáveis do que outras, pois “há algo nos acidentes/circunstâncias físicas de uma rua, nas suas irregularidades, que concede a esses espaços uma qualidade quase doméstica.”
E, sequencialmente, lembram-se as ruas que convidam a sentar, que estimulam relações de proximidade e que favorecem o lazer e o passeio; e as ruas que se prolongam por outras ruas, mais pequenas, por becos (sem saída) e que de certo modo pertencem já em boa parte, também, aos edifícios envolventes, criando-se uma unidade urbana muito estimulante e localmente caracterizada, onde as esquinas têm uma importância bem real.
Paralelamente a estas reflexões sobre espaços urbanos reais o autor regista e ilustra outras matérias, entre as quais as ligadas à presença da rua na arte e especificamente no cinema, sublinhando que esta arte procura sempre “transmitir a ideia de uma cidade habitada e real” e marcada pelo peso/presença da habitação/da casa e da rua como cidade habitada.; e que a pintura procura representar a rua “na sua totalidade e, portanto, e ainda que com os seus erros, recriar o seu espaço e a sua atmosfera. ”
E considera-se ser muito interessante e oportuna esta procura da representação e caracterização da rua na sua máxima totalidade; uma procura que nos pode ajudar a resgatar tantos fracassos urbanos.
Mais no final do livro e de certa forma abrindo a reflexão para outros níveis físicos, abordam-se interessantes e inovadoras novas formas de habitar a rua e a casa .
E termina-se lembrando, e desenvolvendo, extensamente, a noção, que “há ruas em que o mais importante são as árvores.” E considera-se muito significativo que, praticamente no remate deste livro, Xavier Monteys dedique a sua atenção à relação entre natureza e cidade, ou verde urbano e rua citadina. 

Reflexões a propósito

Seriam muitas, mas ficarão, essencialmente, para os leitores aos quais se recomenda a leitura deste livro; e que, caso o queiram poderão, até, depois dessa leitura, dialogar sobre ele nesta nossa revista, bastando para tal que nos enviem esses comentários, que poderão ficar ligados a este artigo, e aí disponíveis para quem os queira ler.
Julgou-se, no entanto, interessante lembrar, aqui, como minha reflexão pessoal e de síntese sobre este livro (portanto, salienta-se ser uma escolha muito pessoal), a ideia, lançada, pelo autor, e com contribuições de Alejo Carpentier e Alexander Humboldt, de que por vezes um “mau traçado” urbano nos oferece “uma impressão de paz e frescura, que dificilmente encontraríamos onde os urbanistas conscientes exerceram a sua ciência.”

Breves notas de remate e sobre uma importante característica suplementar deste livro

Já vai longa esta apresentação comentada, mas este livro merece-a bem; e apenas para concluir sublinha-se que, para aqueles que, como eu, procuram, por regra e naturalmente, em cada livro caminhos para outras reflexões, livros e fontes, associadas ao que trata cada livro, então não tenham dúvida porque este “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”, de Xavier Monteys, nos oferece esse importante suplemento de alma e interesse suplementar de abertura e aprofundamento temáticos, através de um rico e diversificado manancial de indicações relativamente a muitas outras leituras e referências sobre este excelente tema da relação entre rua e habitar.


Boa leitura é o que se deseja,

António Baptista Coelho



(*)Xavier Monteys é catedrático da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), na qual dirige o grupo de investigação Habitar e é professor na Escola Tècnica Superior d’Arquitectura de Barcelona (ETSAB).


(**) Xavier Monteys, "La calle y la casa. Urbanismo de interiores", Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, 2018
Espanhol, ISBN/EAN: 9788425229756

Página do site da editora dedicado ao livro:

https://ggili.com/la-calle-y-la-casa-libro.html


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Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar
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