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terça-feira, novembro 03, 2020

SOBRE OS ESPAÇOS DOMÉSTICOS PRIVADOS, UMA INTRODUÇÃO – INFOHABITAR # 753


Infohabitar, Ano XVI, n.º 753

Edição: terça-feira, 3 de novembro de 2020

Sobre os espaços domésticos privados, uma introdução – Infohabitar # 753

 


Caros amigos e colegas,

Antes do nosso artigo semanal

É com muito gosto que partilho a divulgação do webinar, que decorrerá hoje, e que, em seguida, se descreve, 

Com amizade e consideração,

 

António Baptista Coelho

 

A editora Oficina de Textos convida a todos para o webinar gratuito:


Tema:  Morar em Apartamento: um olhar sobre a organização do espaço doméstico, suas características tipológicas e sua evolução

Palestrante: Prof.ª Drª. Simone Barbosa Villa

da FAUeD da Universidade Federal de Uberlândia, MG, Brasil

 

Quando:  3 de novembro de 2020 - terça-feira - às 15h

(Em Portugal continental às 18h)

 

INSCRIÇÃO: http://bit.ly/Inscricao-Morar-em-Apartamento-Simone-Villa



Caros leitores da Infohabitar,

Continuando em um dos temas “centrais” da nossa revista: os espaços do habitar, vamos aprofundando, semana a semana, esta matéria, neste caso específico no âmbito do, julgado, bem oportuno tema de um adequado desenvolvimento e de uma fundamentada inovação na temática dos espaços domésticos expressivamente privados, uma matéria que, por motivos críticos ligados à pandemia que vivemos desde há meses, ganhou grande importância, designadamente, no que se refere a muitas habitações em sobreocupação e/ou minimamente dimensionadas e/ou mal projetadas em termos arquitectónicos; e chama-se a atenção para estes três aspetos.

Esta viagem pelos espaços do habitar continuará a ser feita nas próximas semanas editoriais da Infohabitar, apenas com eventuais intervalos mais dedicados à divulgação de iniciativas julgadas especialmente interessantes.

E lembra-se, julga-se a propósito, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com , ao meu cuidado),

Considerando a atual e muito crítica evolução da pandemia, voltar a sublinhar-se a vital importância que neste momento tem o distanciamento social, conseguido, designadamente, através do teletrabalho e de todas as medidas de proteção própria e dos outros, que são muito favorecidas com o uso sistemático, maximizado e cuidadoso de máscara – seja no interior seja nos espaços públicos mais usados – e por um reforço dos cuidados de higiene próprios e relativamente à sistemática  higienização dos ambientes e dos objetos que usamos no dia-a-dia.

Não tenhamos dúvida de que boa parte do combate à pandemia passa por estes nossos esforços pessoais e familiares,

Despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores,    

Lisboa, Encarnação, em 2 de novembro de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Sobre os espaços domésticos privados, uma introdução - Infohabitar n.º 753

António Baptista Coelho


Pequena introdução aos espaços domésticos “mais privados”

A ideia-base desta abordagem específica e relativamente destacada aos espaços domésticos aqui designados como “mais privados”, sendo que estes integram e, de certa forma, qualificam, pela sua natureza básica de espaços privados, o desenvolvimento, a caraterização e a própria designação da habitação como “espaço privado”, tem a ver, essencialmente, com dois aspetos, já de seguida, “apenas” apontados e que contamos vir a individualizar e a desenvolver em próximos textos.

O primeiro aspeto refere-se ao importante desenvolvimento de um mundo doméstico com três distintas, enriquecedoras e mutuamente estimulantes facetas: (i) um sentido de global privacidade, identidade, conforto e estratégica separação de outros mundos mais comuns e públicos, sentido este bem natural num espaço doméstico, bem protegido e caraterizado de acordo com tal natureza espacial/ambiental, física e psicológica; (ii) um sentido de potencial de convívio familiar ou doméstico que pode e deve trazer para esta esfera mais íntima atividades de partilha e de interação social com expressiva diversidade e que poderão ela próprias contrastar agradavelmente com esse sentido de privacidade global e com a natureza de privacidade pessoal, em seguida apontada; e (iii) o referido sentido de privacidade pessoal, de identidade pessoal e de caraterização pessoal, que constitui talvez a base do sentido doméstico e que, no entanto, se carateriza por alguma ambiguidade no que se julga deveria ser o adequado serviço à individualidade de cada um dos membros de um casal – serviço este só verdadeiramente possível quando existem especiais condições de espaciosidade e de estruturação doméstica, mas que pode e deve ser sempre considerado, designadamente, ao nível do detalhe e do desenvolvimento de subespaços domésticos “superprivados”.

O segundo aspeto refere-se ao igualmente importante desenvolvimento de um “pequeno” mundo doméstico expressivamente privado, no sentido da criação de um ambiente físico e psicológico bem caraterizado e caraterizador da individualidade de cada um de nós, que nos sirva o melhor possível em termos do amplo leque das nossas necessidades, gostos e desejos e que se constitua mesmo como uma nossa “segunda pele” até no sentido de nos poder ajudar a caraterizar em termos da nossa própria identidade e história de vida; tudo isto num sentido que também se pode e deve prolongar por toda  “nossa” habitação, mas aqui talvez de uma forma mais consensualizada e partilhada com os membros do nosso agregado familiar, quando existam evidentemente – o que evidencia a importância da capacidade de apropriação e de identidade de toda a habitação, tratando-se de habitações para pessoas sós.

Tendo-se abordado esta matéria que, repete-se, se considera de grande interesse, designadamente, numa inovadora abordagem atualmente tão necessária aos espaços domésticos mais privados, saliente-se que  nas próximas semanas editoriais viajaremos, aqui na Infohabitar, mais um pouco, pelos espaços domésticos privativos e pessoais, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou muito ligado ao casal, e onde, também não há que excluir os outros, mas sim acolhê-los marcando, aqui, ainda mais fortemente, aspectos de identidade e de abrigo.

O que pode ajudar a caracterizar a nossa casa como um sítio diferente de um simples espaço de estadia/abrigo é, exactamente, a associação entre as actividades correntes da habitação e inúmeras outras actividades ligadas, quer ao trabalho diversificado – tanto profissional como de passatempos, como de verdadeiras “segunda atividades” –, quer ao lazer, quer, por exemplo, ao colecionismo (nas sua mais variadas formas), quer a características e modos de habitar específicos e bem distintos dessas actividades referidas como correntes e que se associam, frequentemente, a tipos específicos de compartimentos (sala/estar, quartos/dormir, casa de banho/higiene pessoal, vestíbulo/entrar, etc.).

Realmente, o que poderá ajudar a identificar e a caraterizar positivamente uma dada habitação será a capacidade por ela oferecida para que em cada um dos seus espaços, mais correntes, possam ser realizadas muitas outras actividades diferentes daquelas que, habitualmente, aí são realizáveis como “concha” de simples alojamento funcional; e de certa forma até esse simples “alojamento funcional” nos seus diversos aspetos(ex., refeições, dormir, descansar, etc.) devem poder “rodear-se” e “transfigurar-se” de múltiplos modos consoante variados desejos, necessidades e evolução de tais desejos e necessidades.

Cumulativamente, uma tal diversidade de potenciais identificações numa dada habitação também dependerá da capacidade, por ela oferecida, para se “transmutar” ou converter no “reino” doméstico mais apropriado para as mais distintas e específicas formas de habitar.

E o que apetece comentar sobre isto é que esta perspectiva é sem dúvida muito mais aliciante do que a que é pobremente oferecida por habitações “unifuncionais” e mesmo “uniformais”, onde em cada um dos seus espaços dificilmente é possível desenvolver outras actividades do que aquelas consideradas correntes pela “família tipo” da “cultura dominante”, e com formas idênticas.

São, designadamente, os seguintes os diversos tipos de espaços/elementos domésticos pessoais de que aqui “falaremos”, caso a caso, nas próximas semanas:

- Quartos privados

- Espaço de lazer/trabalho

- Pequenos escritórios e espaços de trabalho profissional em casa

- Outros espaços privativos e diferenciados

- Recantos vários

- Alcovas em espaços domésticos comuns

- Detalhes domésticos

Nestas matérias é evidentemente essencial estudar e aprofundar a história dos espaços domésticos e os seus usos e costumes.

Mas para fazer avançar, desde já, um pouco uma matéria que se julga bem aliciante, apontam-se em seguida, apenas exploratoriamente, alguns aspetos gerais sobre alguns desses espaços, recantos e elementos domésticos.

Quartos não apenas para dormir, espaços de apropriação, intimidade e sossego

O quarto pode ser o quarto de dormir clássico, praticamente estruturado pelo espaço/cama, sem grandes ambientes/actividades complementares ou paralelas, ou pode constituir um conjunto de subzonas de actividades entre as quais as associadas ao espaço/cama terão, eventualmente, algumas preponderâncias, mas proporcionando pequenas áreas de lazer, estar e trabalho.

E até pode acontecer que se deseje dormir, por exemplo, na sala ou numa biblioteca, reduzindo-se, relativamente, a importância do espaço/cama.

Durante anos e ainda hoje, muita da promoção habitacional "comercial", propôs uma “zona íntima” doméstica, onde se agregavam muitas vezes com carácter quase segregado do resto da habitação, todos os quartos da habitação, um sítio quase isolado, onde afinal acabava por se desenvolver uma espécie de desprivatização ou proximidade excessiva, muitas vezes associada a um exíguo corredor ou vestíbulo interior para o qual dão todos os quartos e as principais casas de banho.

Escritórios e espaços de trabalho profissional em casa e espaços domésticos de lazer e trabalho não doméstico nem profissional

A temática do trabalho profissional ou não-doméstico em casa – habitual e globalmente designado por home-office – poderia inaugurar um outro grande tema desta série editorial, o que não se pretende, pensando-se no tema numa perspectiva suplementar às actividades mais directamente ligadas à habitação.

Os espaços para trabalho profissional ou não-doméstico em casa devem ser razoavelmente “separados” dos restantes espaços da casa e estarem próximos do vestíbulo de entrada, tanto porque podem apoiar actividades que exigem algum sossego e isolamento (escrita, estudo e leitura) ou porque podem ser pouco compatíveis com a habitação (produzem ruídos e lixos), ou porque essas actividades podem incluir a recepção de estranhos à família.

Este sentido de separação entre espaço expressivamente mais doméstico e subespaços ou espaços dedicados a uma prática profissional poderá ser, naturalmente atenuado, quando existam condições assinaláveis de espaciosidade e/ou de acessibilidade domestica alternativa, e/ou quando se desenvolvam grandes espaços multifuncionais e bem projetados em termos de conforto ambiental; sendo que tal sentido de multifuncionalidade e de integração de atividades mais domésticas e mais profissionais está atualmente muito bem servido pelas novas tecnologias de trabalho informatizado e de partilha de informação – e neste sentido é sempre interessante lembrar o elevado número de pessoas que, hoje em dia, trabalham “à distância” em múltiplas localizações também fora de casa (por exemplo à ,aesa de um café).

O que se referiu para os espaços de trabalho em casa aplica-se, em boa parte, aos espaços de lazer domésticos, até porque frequentemente serão ténues as fronteiras entre trabalho e lazer em casa, havendo, por exemplo, passatempos que sendo acções de lazer exigem verdadeiros espaços especializados e, frequentemente, oficinais.

Globalmente os espaços de lazer domésticos deve, ser atraentes e estimulantes e, essencialmente, devem ser múltiplos, diversificados e disseminados por toda a habitação; sendo que, por exemplo, uma banheira bem localizada e ergonómica pode e deve ser também um excelente espaços de leitura, e um recanto de sofá muito confortável pode tornar-se num local preferido de repouso e reflexão.

Quando os espaços globalmente designáveis como de lazer doméstico crescem em especialização, por exemplo numa gradação que poderá ter as exigências do colecionismo numa fase intermédia e, depois, as necessidades específicas de conforto ambiental exigidas, por exemplo, por um estúdio de pintura, então, poderemos chegar a uma situação em que todo o espaço doméstico se estruture e desenvolva em função de tais necessidades e desejos.

E não tenhamos quaisquer dúvidas de que o sentido da adaptabilidade espacial e ambiental doméstica é sempre aquele que mais situações servirá em termos diretos de adequação a múltiplas vontades e necessidades e de natural evolução, no tempo, de tais vontades e necessidades.

Casas de banho e espaços de banho privativos

Globalmente, importa sublinhar a possibilidade de desenvolvimento da “figura” do espaço de banho com um sentido caraterizador e caracterizado por determinadas formas de viver a habitação.

Situação que poderá ligar-se ao desenvolvimento de associações entre espaços de banho e outros espaços de estar, dormir e lazer com forte carácter identitário e relativamente privativo, embora espacialmente pouco controlado em termos dimensionais. Um exemplo expressivo de um tal espaço é o sítio de banho de uma das grandes casas projetadas pelo Arq.º Charles Moore, que se integra num espaço de estar e assume mesmo uma posição destacada neste espaço.

E lembremo-nos que a história do banho fundamenta especificamente esta ideia, e não só a vontade individual da mesma.

Outros espaços privativos e diferenciados, recantos vários e alcovas em espaços domésticos comuns

A esta matéria dedicaremos uma próxima e específica reflexão escrita, bastando apenas para já referir aqui que a “revolução” funcionalista praticamente erradicou tais elementos da gramática da construção dos mundos domésticos,  esquecendo tudo o que, afinal, tinha constituído a base da construção do viver doméstico nómada e depois, por exemplo, medieval, numa perspetiva de simplificação formal e funcional do mundo habitável, assim reduzido a espaços maiores monofuncionais ocupados por elementos de mobiliário também frequentemente monofuncionais.

Depois da bem justificada revolução “higienista” sucedeu uma revolução pobremente funcionalizadora de um mundo doméstico em que a função nunca foi a razão única e fundamental; e uma revolução funcionalizadora que apenas se “libertou” pela criatividade de grandes arquitectos.

 

Os pequenos grandes mundos do pormenor doméstico

O que se irá comentar sobre o detalhe doméstico serão, essencialmente, matérias suplementares, ou melhor dito, paralelas, às já referidas sobre os espaços da habitação,  e praticamente não dedicadas aos aspectos funcionais, já amplamente visados em diversos estudos, mas privilegiando determinadas notas associadas às opções de Arquitectura interior e ao seu diálogo com os habitantes ao serviço das opções gerais apontadas nas respectivas soluções domésticas.

Sobre o pormenor e o detalhe doméstico vale a pena comentar, ainda, a título de introdução, que é matéria que abre todo um outro “novo” mundo de conceção e projeto, tantas vezes injustamente “menorizado” a título de “decoração” e que reganhou alguma importância com a designação de “arquitectura de interiores”.

 

O presente artigo corresponde a uma edição ampliada, modificada e revista do artigo que foi editado na Infohabitar, em 25/04/2016, com o n.º 579.


Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 753

Sobre os espaços domésticos privados, uma introdução – Infohabitar # 753

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

 

terça-feira, junho 02, 2020

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732


Em memória bem viva de José Paulo Goulart de Bettencourt



Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde e, novamente, com um muito especial abraço de força e de confiança no futuro aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão, que estão agora a atravessar uma fase complicada da epidemia.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 1 de junho de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

António Baptista Coelho


Continuando a apresentar e comentar reflexões de projectistas e estudiosos sobre aspetos considerados estruturantes nas opções de organização dos espaços domésticos, ficamos em seguida com Amos Rapoport e, depois, com Christopher Alexander, entre opiniões de outros autores, privilegiando-se uma perspetiva que tenta aprofundar a grande diversidade de soluções potencialmente disponibilizadas, que integram uma verdadeira dimensão de adaptabilidade habitacional, e que, assim, propiciam uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.

Habitação e modos de vida

Amos Rapoport evidencia três factores a ter em conta naquela que ele considera dever ser uma aproximação muito cuidadosa e funcionalmente “aberta” a uma solução doméstica que sirva, o melhor possível, determinados modos de vida familiares: (1)
A negrito/bold evidenciam-se as indicações de Rapoport e de outros autores.
·        o afastamento cultural existente e a "capacidade de comunicação" que possa ser criada entre habitante e projectista [capacidade esta que parece ser potenciada através da acção de certos promotores como é evidentemente o caso das cooperativas de habitação, que desde sempre consideraram a participação dos, e a boa informação aos, futuros habitantes como um processo essencial no acesso à habitação];
·        a significativa variedade de subculturas que estão, actualmente, em mutação rápida (designadamente, por desenraizamento cultural e imigração para as grandes cidades) [e aqui poderemos acrescentar que actualmente vivemos um período em que essa grande diversidade de modos e desejos de habitar ficou e ficará extremamente evidenciada];
·        e a existência, em cada grupo sociocultural, de muitos níveis de aculturação e mesmo de mutação sociocultural.

Diversidade no habitar – diversas soluções domésticas e de vizinhança

É ainda Rapoport que evidencia o que considera ser a principal medida de adequação entre habitação e família, ou entre habitação e características socioculturais, que é, para aquele estudioso, a oferta de uma ampla capacidade de escolha ao futuro morador, seja do tipo específico de habitação, seja do tipo geral de solução habitacional.
E se a escolha do tipo geral de habitação, designadamente, entre soluções uni e multifamiliares é bastante difícil, essencialmente por razões financeiras e de localização, então o “universo” das soluções multifamiliares poderia e deveria obviar a esta falta de diversidade de oferta, disponibilizando um amplo leque de formas de habitar com variedade de caraterísticas específicas e de relacionamento com o exterior; o que infelizmente não acontece.
Trata-se, portanto, de uma espécie de capacidade de adaptação prévia, por possibilidade de escolha e aqui importa comentar que o mercado, infelizmente, nem disponibiliza, habitualmente, variedade de soluções habitacionais de vizinhança e de formas de associação em edifícios, nem mesmo variedade de soluções domésticas, o que seria muito mais simples.
Mas, não! O mercado, por regra, oferece o mesmo “produto” do 1º ao 7º andar. Há excepções, começa a haver excepções, mas por ora elas pouco ultrapassam a barreira da produção dita de luxo, ou então da promoção de interesse social, quando bem qualificada e informada.

 

Habitação adaptável

Há que evidenciar aqui que as matérias da adaptabilidade doméstica são de extrema importância no sentido de uma maior apropriação da casa pelos seus habitantes e de favorecimento de soluções domésticas mais duráveis e adequáveis em termos de natural conversão funcional e de ambiente doméstico geral – por exemplo, uma casa que se transforme com facilidade de uma solução com um assinalável peso de áreas de quartos, para uma outra marcada por uma expressiva sequência de áreas de estar.
A adaptabilidade doméstica foi aprofundada, ainda não há muitos anos, num livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9), e importa aqui referir que ela é fundamental:
  •  quer no sentido de se proporcionar aos moradores uma expressiva capacidade de apropriação do seu espaço doméstico;
  •  quer no sentido de se compatibilizar a organização da habitação e dos seus aspectos específicos de ordem construtiva, funcional (relações entre espaços), dimensional, ocupacional (capacidade de acolhimento de mobiliário) e ambiental (localização, dimensão e características de abertura de vãos exteriores).



Fig. 01: livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9).

Habitação apropriável e habitação natural e agradavelmente mutante

A primeira perspectiva, acima referida, evidencia a importância que tem o potencial de capacidade de apropriação de uma habitação por parte de quem a habita. Trata-se, naturalmente, de um aspecto de enorme importância para o desenvolvimento da adequação habitacional e de um sentimento de verdadeira satisfação com o habitar, e tem expressão directa na possibilidade que a casa deve oferecer para o desenrolar de uma importante dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos:
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário, mais frequentes, simples e passivas (simples mudanças nas disposições de conjuntos de mobiliário e outros elementos de composição e decoração);
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos.
Um exemplo extremo deste tipo de solução é dado por Sven Thiberg (Sven Thiberg, Ed., "Housing Research and Design in Sweden", p. 139), quando se refere ao compartimento tradicional da casa japonesa, que muda, funcionalmente, através de mudanças de peças de mobiliário muito simples; e,  mesmo na nossa cultura, bastará recuarmos à Idade Média para encontrarmos soluções semelhantes.

E há que sublinhar que a referida dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos obriga a uma organização e a um dimensionamento muito cuidados dos espaços domésticos e a uma espaciosidade razoável porque seja ou claramente acima dos mínimos regulamentares, ou próxima de tais mínimos mas compensada por uma excelente solução de organização e configuração domésticas – um excelente projecto de Arquitectura, portanto.




Fig. 02: o atual espaço de trabalho do autor destas linhas, que resultou do aproveitamento de uma velha mesa de jogo, arrumada num canto de um compartimento razoavelmente espaçoso e bem localizado na contiguidade de uma varanda; a relativa exiguidade do espaço é em boa parte compensada pela sua excelente localização em termos de conforto ambiental (luz natural, ventilação natural, boa orientação solar a Sul, contiguidade com o exterior privado.
Neste “recanto” doméstico é possível conciliar um razoável leque de atividades de trabalho e de lazer (ex., leitura e audição de música), criando-se condições adequadas para a privacidade e um membro da família e para as suas necessidades de relativo isolamento (trabalho, lazer); condições estas que podem ser replicadas em outros compartimentos da habitação para outros membros do agregado, com excelentes resultados em termos de adequação ao trabalho individual e a gostos específicos de vivência doméstica e, reservando-se, assim, naturalmente, os espaços domésticos mais sociabilizantes para o convívio doméstico.
E tudo isto mediante pequenos, mas muito judiciosos, incrementos às áreas e, muito especialmente, às dimensões domésticas consideradas mínimas, excelentes previsões em termos das diversas dimensões do conforto ambiental doméstico e, naturalmente, um excelente projecto de Arquitectura, que estrutura e organiza a habitação de um modo claramente e “passivamente” adaptável a essas diversas apropriações e atividades.
O projecto de Arquitectura deste edifício multifamiliar é dos anos de 1960, com autoria dos arquitectos Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo.

 Junção e subdividão de compartimentos

A segunda perspectiva, acima referida, as conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos, tem tem idênticas influências na capacidade de apropriação e de identidade que a habitação deve oferecer e liga-se:
·         Quer à evolução da família que aí resida (crescimento e decrescimento);
·         Quer à mudança nas necessidades e nos gostos domésticos; por exemplo, à medida que a família original envelhece e cresce haverá mais necessidade de mais espaço de circulação e de desafogo funcional e, eventualmente, um maior gosto numa especialização de zonas de estar.
·         E esta perspectiva de junção e subdividão de compartimentos é servida:
·         quer por simples aspetos de pormenorização, extremamente fáceis de prever, como é o caso da distribuição estratégica de tomadas de telecomunicações ao longo da casa, proporcionando variadas utilizações e versáteis mudanças de usos dos mesmos compartimentos;
·         quer por aspectos estruturantes na organização da habitação, mas que podem proporcionar uma sua riquíssima versatilidade de uso, como é caso de uma parte do espaço doméstico poder ser usado como espaço total ou relativamente autónomo, desde que disponha, ou possa vir a dispor, sem obras significativas, de acesso próprio e de instalações mínimas de cozinha e sanitárias.(2)
  

Adaptabilidade doméstica e adequação a modos de vida

A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida, caracterizando diversos tipos de agregados familiares e, até, diversas apropriações funcionais específicas, é, cada vez mais, um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, pois assim se podem servir melhor um leque crescente de modos de vida e de usos da habitação, que decorre, tal como sintetizei num anterior livro editado pela livraria do LNEC (“Do bairro e da vizinhança à habitação” – ITA 2):
  • de uma diversidade de horários de trabalho;
  • da ausência, frequente, dos habitantes no seu domicílio, durante os dias úteis;
  • de um nível gradualmente mais elevado de acesso à cultura e à informação;
  • da mobilidade dos agregados implicada por uma tendência, provavelmente crescente, de mobilidade nos postos de trabalho;
  • da recuperação do uso da casa, também, como sítio de trabalho(s);
  • do crescente uso da casa como sítio privilegiado de exercício de actividades de lazer e de “segundas actividades”, tendencialmente cada vez mais numerosas, temporalmente cada vez mais prolongadas e frequentemente bastantes exigentes em termos de condições específicas de concretização;
  • e da tendência fortemente crescente de existência de modos de vida e de tipos de agregados familiares socioculturalmente diferenciados, e aos quais é essencial proporcionar respostas domésticas expressivamente adequadas, seja diretamente, seja através de fáceis condições de conversão – construtivamente simples e baratas e bem adequadas nos respetivos aspetos de manutenção.
Naturalmente que todo este tipo de previsões, quando associado a habitações destinadas a grupos sociais com reduzidas e médias condições económicas não pode implicar uma inflação de espaços específicos e uma exagerada previsão dimensional, sendo, portanto, vital que a habitação incorpore excelentes condições de adaptabilidade passiva e de convertibilidade; condições estas que devem merecer uma especial atenção em termos de segurança estrutural do edifício sempre que estejam associadas à ligação entre compartimentos, sendo muito recomendável uma evidenciada marcação e informação dos elementos construtivos que não podem ser intervencionados.

Notas:
(1) Amos Rapoport, "Housing Ecology", p. 149.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 637.


Uma primeira versão, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 472 da Infohabitar, em 17 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 732

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).