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segunda-feira, dezembro 04, 2017

Espaços domésticos privados - Infohabitar 621 e Projeto KnowRISK

Infohabitar, Ano XIII, n.º 621 e Projeto KnowRISK

Sobre os espaços domésticos privados e pessoais: novo artigo e link para um velho artigos sobre o tema

por António Baptista Coelho


E (antes da nossa edição habitual) uma divulgação importante, de evento a realizar, em breve no LNEC:

Caros colegas,

No próximo mês de dezembro, de 11-12 de dez., terá lugar a Conferência

Final do projeto KnowRISK.

O KnowRISK — Know your city, reduce seismic risk through non-structural elements  —  é um projeto europeu orientado para a divulgação científica sobre risco e proteção sísmica não-estrutural. Este projeto assenta num consórcio de investigação composto por instituições de Portugal (IST e LNEC), Itália (INGV) e Islândia (EERC).

O evento inica-se no dia 11 (como poderão ver no site),  e o dia 12 será no LNEC onde ocorrerá uma Mesa Redonda destinada a fazer um balanço da intervenção KnowRISK e discutir o papel das escolas enquanto plataforma para a comunicação de risco.

Paralelamente, haverá uma pequena exposição, destinada a apresentar os
materiais utilizados ou feitos pelos alunos durante a intervenção nos
três países do consórcio knowrisk. Esta exposição será um pretexto para uma conversa entre a equipa KnowRISK e todos aqueles que se juntarem a nós, em
torno das questões de risco sísmico e medidas protetivas.

Convidamos todos a marcarem presença no dia 12 de dezembro.
(Auditório)!

Envia- se a ligação ao site da Conferência
(https://risklisbon.wixsite.com/knowrisk) onde é possível
conhecer com maior detalhe o que vai acontecer. 



Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre a estimulante temática dos espaços domésticos privados e pessoais e um link para uma “velho” artigo sobre o mesmo tema e que assegura uma introdução ao desenvolvimento, posterior, da matéria, de acordo com as diversas tipologias específicas desses espaços domésticos (ex, quartos, espaços para tranbalho, etc.). 

Em setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições semanais regulares e considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, o título interactivo do artigo da série “Habitar e Viver Melhor”, que aborda a temática dos espaços domésticos privados, e junta-se um novo artigo com reflexões sobre esta matéria. Em próximos artigos iremos aprofundar, tipo de espaço a tipo de espaço, as diversas subtipologias dos espaços domésticos mais privados e personalizados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já divulgámos, a maior parte dos artigos desta série editorial (editados talvez ao longo de dois anos) não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista - o Blogger.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.



Regista-se, em seguida, o artigo já disponibilizado na Infohabitar sobre a temática dos “espaços domésticos privados e pessoais” (basta clicar sobre o título para aceder ao respectivo texto):

- Espaços domésticos privados


Espaços domésticos privados e pessoais

(novo artigo)
As temáticas associadas e associáveis à matéria geral dos espaços domésticos privados e pessoais são extremamente amplas e tão sensíveis como significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim desenvolver, de seguida, uma reflexão geral e informal sobre o tema, aproveitando a oportunidade de o fazer antes de passar a uma viagem sobre o leque tipológico em que eles se disseminam, e tentar deixar algumas reflexões e ideias como pistas para posteriores incursões teórico-práticas; sendo que se procura que tudo isto seja feito numa perspectiva de inovação sustentada no tratamento da temática.

Tendo dito isto, importa, agora, clarificar o que se pode entender por “espaços domésticos privados e pessoais”, uma caracterização mais espacial/ambiental do que tipológica, e que se refere a todos aqueles espaços domésticos – especificamente compartimentados ou espacial/ambientalmente definidos (podem ser apenas parcialmente definidos – que têm tendencialmente um uso/apropriação privilegiando uma pessoa, um pequeno conjunto de pessoas (ex., irmãos), ou um casal, estando, assim, definidos, um pouco por contraste relativamente aos espaços domésticos com características tendencialmente ao serviço de todo o agregado familiar e conviviais, no sentido de poderem integrar reuniões mais alargadas, e ainda aqueles espaços que funcionalmente servem todo o agregado familiar, como será o caso das circulações e espaços de entrada na habitação, das arrumações gerais domésticas e das casas de banho de serviço comum.

Naturalmente que uma tal definição pode ser sempre discutível e pode ser encarada de forma limitada, quando queremos imbuir no espaço doméstico um sentido de expressiva adaptabilidade, concretizado em zonas que possam, eventualmente, mudar, radicalmente, de atribuição funcional ao longo do tempo (ex., quarto de dormir que se transforma em sala e sala que se converte em grande quarto de dormir e trabalhar).
No entanto uma expressiva caracterização de privacidade visual e ambiental, relativa ou quase total autonomização e capacidade de apropriação e identidade deve sempre marcar os espaços domésticos mais ligados a um uso pessoal exclusivo ou por um muito pequeno grupo de habitantes (ex., casal).    

São, designadamente, os seguintes os diversos tipos de espaços domésticos pessoais e personalizáveis de que aqui “falaremos”, caso a caso, em próximas edições:
 - Quartos
- Espaço de lazer/trabalho
- Pequenos escritórios e espaços de trabalho profissional em casa
- Outros espaços privativos e diferenciados
- Recantos vários
- Alcovas em espaços domésticos comuns

E desde já se regista que esta lista não é fixa, pois à medida que iremos mergulhando na matéria a potencial diversidade e dinâmica desta tipologia de espaços privados e desejavelmente personalizáveis será, espera-se, ampliada e reconvertida.

Talvez que a principal função doméstica exercida no espaço privado seja o sono, o repouso e actividades associadas, ligado a quartos que incluam camas e ou sofás/camas, uma condição que faz desde logo relevar a questão dimensional geral deste espaço, no qual a cama não deve integra-se de forma excessivamente ocupadora do espaço; caso contrário o quarto vai resumir-se a uma função de alcova, mas não dispondo das relações que, tradicionalmente, as alcovas proporcionam com espaços domésticos contíguos, sendo portanto uma espécie de alcova com eventuais caracterizações excessiva e negativamente encerradas e até, por vezes, ambientalmente negativas, se o volume de ar for reduzido e existir deficiente ventilação.

Numa outra perspectiva, embora ainda na faceta do conforto ambiental, é importante que os espaços domésticos mais privados sejam espaços caracterizadamente sossegados – relativamente isolados ou bem isoláveis do ruído exterior e doméstico – e dispondo de adequados elementos de controlo das respectivas condições de conforto ambiental, e designadamente da luz natural, proporcionando-se adequadas condições para o solo e o repouso sempre que estas sejam desejadas; são, portanto, os espaços domésticos mais sensíveis em termos de conforto ambiental global e nesta sensibilidade deverá entrar a questão da sua orientação preferencial relativamente ao movimento aparente do Sol, sendo que, habitualmente, a orientação a Nascente poderá proporcionar uma agradável harmonização com os ciclos naturais do homem em termos de despertar e adormecer. 

Um outro aspecto que é determinante no desenvolvimento dos espaços domésticos expressivamente privados e ligados a uma pessoa ou a um casal, é a sua capacidade para poder ser fortemente apropriado por quem directamente o habita, uma qualidade que tem a ver com diversas variáveis entre as quais se destacam; a espaciosidade suplementar depois de instalada(s) a(s) cama(s) e tendo-se, razoavelmente, em conta o “sobredimensionamento” que hoje caracteriza algumas camas; a disponibilidade e a funcionalidade de espaços e equipamentos de arrumação, em elementos de mobiliário específicos e/ou em roupeiros embutidos; a disponibilidade de adequados e amplos panos de parede para encostar mobiliário e para pendurar quadros e espelhos; e a possibilidade de se desenvolverem outras pequenas áreas funcionais complementares ou enriquecedoras do espaço, como espaço de toucador e/ou de escrivaninha e sítio para pequeno sofá, bem situados na proximidade de janela; e naturalmente a relação deste espaço com uma casa de banho privativa ou próxima – sendo ainda possível desenvolver outras enriquecedoras relações entre um espaço privativo basicamente centrado nas funções dormir, descansar, lazer e as micro-funções ligadas ao banho.

Naturalmente que tais possibilidades dependem muito da espaciosidade básica do espaço privativo/quarto em questão, mas há aqui dois aspectos que importa salientar: sendo um deles que é sempre desejável aliar outras micro-funções, realmente possíveis, à habitual função-base do dormir/descansar, e isto ainda que tais possibilidades sejam razoavelmente muito delimitadas (ex., uma pequena escrivaninha servindo também como apoio de cabeceira à cama), pois a multifuncionalidade enriquece o conteúdo e a imagem dos quartos; e que é interessante e talvez desejável que tenhamos em conta as metodologias de concepção dos bons quartos de hotel, quando pensamos nos quartos domésticos – sem dúvida que muito com eles aprenderemos, designadamente, nesta criação de micro-zonas funcionais adequadas, atrentes e mutuamente bem ligadas.

Hoje em dia considerar um quarto como espaço de lazer/trabalho em condições expressivas de privacidade é condição essencial que importa assegurar pois, cada vez mais, muito trabalho pode ser realizado à distância, mas devendo, sempre, associar-se a condições, pelo menos mínimas, de suporte do mesmo, seja em termos funcionais, seja em termos de resguardo da privacidade e de adequado conforto ambiental (ex., isolamento sonoro, iluminação natural, conforto higrotérmico, vistas agradáveis sobre o exterior). E, naturalmente, que tais condições também servem o lazer doméstico.
E deverá existir, sempre, um suplemento espacial que proporcione um “suplemento de convívio potencial”, sendo muito pouco agradável e “doméstico”, que, por exemplo, no quarto de um dado jovem não seja possível a recepção, ainda que em condições apenas mínimas e claramente informais, de outros dois ou três jovens.

Uma outra tendência que já não é nova, mas que parece avolumar-se, é o desenvolvimento de pequenos escritórios e outros espaços de trabalho profissional em casa, numa tendência que a vulgarização das videoconferências e dos apoios tecnológicos baratos e vários ao trabalho doméstico (ex., máquinas de impressão, scanner e fotocópia e mecanismos de autenticação de assinaturas) vai tornando mais efectiva; sendo realmente já possível para muitas profissões e metodologias de trabalho por objectivos que o tempo de trabalho individual possa ser realizado em casa.
Mas para tal há que proporcionar condições adequadas, que se sintetizam em três vertentes gerais: (i) adequada e estimulante espaciosidade e capacidade para integrar mobiliário e equipamento; (ii) muito adequadas e estimulantes condições de conforto ambiental e de relação com o exterior, pois podemos estar, aqui, a abordar períodos de trabalho muito alongados ; e (iii) estratégicas capacidades para um funcionamento do espaço de trabalho de uma forma razoável ou totalmente autonomizada relativamente ao restante espaço doméstico – condição esta que está dependente da recepção corrente de pessoas estranhas ao agregado familiar (ex., clientes), e que pode ser matizada por estruturações gerais da habitação caracterizadamente adaptáveis a diversos tipos de ocupação espaço-funcional.

Naturalmente que este último tipo de espaços domésticos poderá existir de modo totalmente integrado com outras funções privadas, como o caso do dormir e do repouso pessoal, caso as condições dimensionais e ambientais do compartimento assim o proporcionem (ex., grande quarto com boas janelas) e, desejavelmente, através de um cuidado específico com o respectivo mobiliário e equipamento.   


Estivemos, aqui, dedicados a espaços específicos destinados a uma actividade de estudo e/ou trabalho com algumas exigências em termos espaciais e funcionais, mas no campo de uma adequada concepção doméstica importa considerar e assegurar que muitas das principais actividades domésticas, que são, globalmente, adstritas a um dado compartimento bem definido, serão melhor realizada, quando de certa forma repartidas ou disseminadas por conjuntos de sub-espaços que podem ter exiggências específicas de espaço, funcionalidade, conforto e ergonomia, caso se pretenda que estes sub-espaços sejam bem e intensamente usados e as suas sub-actividades possam aí ser estimulantemente desempenhadas.

E para além de tais sub-espaços mais correntes, haverá todo um leque de passatempos cujo exercício pode depender de espaços de apoio específicos, que não se compadeçam de uma integração limitada a uma zona de um dado móvel, mas sim a um dado móvel e eventuais outros equipamentos, agradavelmente integrados naquele espaço e/ou naquele recanto e/ou naquela passagem espaçosa; e tudo isto faz uma habitação mais apropriável, estimulante e realmente doméstica.

E, já agora, comenta-se que entre estes passatempos haverá alguns, tão diversos e interessantes, como é o caso da bibliofilia, da aquarofilia e da filatelia, que podem mesmo vir a assegurar um lugar de destaque num dado compartimento e mesmo numa dada habitação e para tal há que disponibilizar, sabiamente, espaços gerais, “espaços entre”, relações espaciais, paredes desafogadas, e dimensões estrategicamente desafogadas. E naturalmente que há espaços que têm de ter condições funcionais específicas, ainda que bem delimitadas, como é o caso de uma prática oficinal intensa (ex., marcenaria ou metalomecânica).

Finalmente, nesta pequena viagem global pela matéria dos espaços domésticos privados e pessoais importa dar verdadeiro relevo a uma categoria que poderemos designar como “recantos vários”, uma tipologia espacial que muito se liga, que à prática de inúmeras actividades domésticas, quer à fundamental marcação de um dado espaço como mais ligado a uma dada pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas (ex., um casal); e sendo esta, como tantas outras aqui referidas, muito associável a um adequado projecto de Arquitectura, pois um dado recanto tem de ser adequadamente projectado e não pode surgir como algo “a mais” ou “forçado”, aqui se deixa, apenas, a nota de que um recanto estimulante pode ser um nicho de cima a baixo para um móvel, ou pode ser o espaço no “interior” de uma bay-window, ou pode ser quase simulado com uma pequena gola de parede, sendo evidenciado cromaticamente; sublinhando-se, assim, a infindável diversidade de mais este elemento de arquitectura doméstica, mais um daqueles que fazem de uma habitação um espaço único e que vale a pena e não mais uma “unidade” igual a milhares de outras.

Naturalmente que talvez o principal dos recantos seja aquele que designamos como “alcova” e que era tradicionalmente uma zona de dormir/descansar, desenvolvida na contiguidade de espaços maiores e conviviais; uma tradição muito antiga e, julga-se, muito praticada, diversamente, em várias sociedades e designadamente naquelas em que havia de assegurar adequadas condições de conforto ambiental, devido a críticas condições climáticas.

A tipologia da alcova é muito diversificada, podendo praticamente reduzir-se a um grande móvel/cama, ou desenvolver-se em recantos que integram sofás e sofás/camas, e foi descartada nas revisões higienistas do século XIX e nos regulamentos racionalistas do século XX, naturalmente, por se considerar que este tipo de soluções estava muito ligada a excessos de ocupação doméstica e a negativas condições se privacidade e salubridade. Hoje em dia talvez seja de rever a utilização da tipologia da alcova, mais no sentido de se proporcionar o seu uso no encontro a desejos e modos de vida doméstica específicos.

Como já, em parte se apontou, várias questões são fundamentais e devem ser adequadamente tratadas quando se pensa sobre a concepção de espaços domésticos mais privados e apropriáveis e nesta perspectiva importa aprofundar melhor, designadamente, os seguintes aspectos: a questão essencial da espaciosidade e da ergonomia de tais espaços, com relevo para as suas condições consideradas “mínimas”; a questão da relação com o exterior privado, nas quais importa atribuir um relevo muito especial ao projecto de pormenor de vãos exteriores com adequada aparência, adequada caracterização ambiental (isolamento/controlo) e adequadas vistas e linhas de vista sobre o exterior; a questão do convívio potencial que deve marcar mesmo estes espaços basicamente privados/sossegados; e a questão da existência de uma casa de banho privativa ou da sua estratégica proximidade e da sua adequada caracterização.

Um outro aspecto bem interessante e associado a estas matérias das relações visuais e da presença dos vãos exteriores que servem espaços domésticos mais privados e pessoais, tem a ver com a respectiva visualização exterior, que pode e deve integrar uma imagem de edifíco multifamiliar que se caracterize, na sua presença pública, por uma diversidade de "pequenas imagens" que suscitem a identificação dos habitantes com as suas habitações e espaços privados que as compõem, através de uma judiciosa variação das fachadas; procura-se, assim, seja uma animação e uma atratividade melhoradas dessas fachadas, seja um certo sentido de que um multifamiliar, tal como a própria designação indica, é um conjunto ou agregação de “células unifamiliares” e que estas mesmas correspondema agregação, entre outros (mais comuns) de espaços basicamente privados e bem apropriados.

Finalmente, aponta-se, aqui, apenas de forma muito geral, um caminho de reflexão sobre os espaços domésticos privados, que, só ele, corresponde a um rumo de urgente investigação: trata-se da ligação entre a caracterização dimensional, ambiental, funcional e pormenorizada, em termos de Arquitectura, de espaços domésticos privados e pessoais, do tipo quarto multifuncional e/ou pequeno apartamento T0 ou no máximo T2 (mas pequeno), mas sempre com apoio a cozinha relativamente limitado, e a respectiva integração em edifícios com um leque significativo de espaços e equipamentos comuns.

Esta é matéria específica que importa continuar a desenvolver em sede/artigos próprio(s), mas desde já se avança que ela terá sempre muito a ganhar com uma reflexão cruzada com o que se vai passando em novos e renovados estabelecimentos do tipo hoteleiro, em que se vão “manejando” múltiplas valências quantitativas e qualitativas, bem para lá de uma simples abordagem espaço-funcional – e apenas a título de exemplo regista-se uma nova “corrente” hoteleira em que os quartos, para lá de uma classificação de base como de casal ou duplos, são classificados como “pequeno”, “médio”, “XL” e “XXL”, sendo que cada um deles tem um leque de sub-ambientes e de microfuncionalidades especificamente associado.

A título sequencial e suplementar e numa perspectiva de “ponte” temática com a matéria, acima referida, de espaços privados, caracterizados por grandes quartos multifuncionais ou pequenos apartamentos com funcionalidades domésticas mínimas, porque associados em edifícios com leques variados de espaços, equipamentos e serviços comuns – matéria esta que será tratada no próximo novo artigo da Infohabitar – é interessante considerar que um adequado e maximizado desenvolvimento de espaços privados e apropriados no quadro de uma habitação corrente – embora tendencialmente bem desenvolvida – é uma qualidade que muito enriquece em termos funcionais e caracterizadores essa habitação (enquanto, necessariamente, quartos mínimos e mal caracterizados a empobrecem); de certa forma colando-se, positivamente, uma outra dimensão, muito privada, à dimensão doméstica e de grupo que caracteriza essa habitação (enriquecendo-se esta conjugação de leitura/vivência de ambientes e dimensões). De certa forma, e num sentido inverso, o excelente desenvolvimento de um leque (o mais possível amplo) de conjuntos de espaços privados, em micro-zonas funcionais de grandes quartos ou pequenos apartamentos, integrados em edifícios com valências comuns, enriquece tais soluções em termos globais, pois atribui-lhes, realmente, conteúdos domésticos bem vitalizados e viáveis – ao contrário de “soluções” que “encaixam” quartos quase mínimos e sem espaço para privacidade e apropriação, servidos por corredores apenas funcionais, que levam a espaços comuns, mas tantas vezes sem carácter e sem um ambiente atraente e envolvente/afectivo.

e a estas matérias relativas ao amplo leque de espaços domésticos privados, voltaremos (mas, tal como já se apontou, nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um conjunto interessante de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 621
Sobre os espaços domésticos privados e pessoais: um novo artigo e lembrar um velho artigo
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

sábado, março 21, 2015

525 - A cozinha para conviver - Assembleia-geral da GHabitar - Infohabitar n.º 525

Infohabitar, Ano XI, 525

Lembra-se a próxima Assembleia-geral da GHabitar

Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade  Habitacional - APPQH

(anteriormente designado "Grupo Habitar - APPQH")

A realizar no sábado, dia 28 de março de 2015, em Matosinhos, na Sede da Cooperativa de Habitação Económica As Sete Bicas, situada na Rua António Porto, n.º 42, 4460-353 Senhora da Hora, Matosinhos.
Convoca-se a 1.ª Assembleia-geral da GHabitar,  em sessão ordinária, para reunir pelas 11h.00, numa sala da Sede da Cooperativa de Habitação Económica As Sete Bicas, situada na Rua António Porto,n.º 42, 4460-353 Senhora da Hora, Matosinhos,

A Convocatória foi devidamente publicitada na edição da Infohabitar de 8 de março: http://infohabitar.blogspot.pt/2015/03/infohabitarano-xi-n.html


Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns. Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e continuamos com alguns aspetos sobre o espaço de cozinha e sobre o seu potencial como zona de convívio doméstico.


A cozinha para conviver

Artigo LXXI da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho


O espaço de cozinha para cozinhar, apenas, ou também para conviver?

Cozinha para cozinhar ou para conviver? Uma pergunta que tem como resposta que numa casa é necessário haver um espaço de preparação de refeições, espaço este fundamentalmente funcional e marcado por um dado conjunto de instalações e equipamentos, mas que não deve justificar um dado compartimento, feito dimensionalmente à medida desse conjunto de instalações e equipamentos, como se estivéssemos a conceber uma cozinha de um restaurante doméstico onde, quase sempre, não há “empregados” cuja função é estar nessa cozinha "laboratório" a preparar as refeições de quem habita aquela casa.

Caso esse pólo de instalações e equipamentos esteja associado a um outro espaço doméstico que tenha configuração e caracterização convivial, então teremos um espaço positivo que tanto pode assumir-se como grande cozinha, como pode constituir-se como sala-comum ou sala de família com uma zona específica dedicada à preparação de refeições.


Segundo Sven Thiberg (1), a forma do compartimento, a escolha dos materiais, as características de iluminação e ventilação natural e o contacto com outros compartimentos e espaços vizinhos são aspectos complementares de um bom funcionamento básico da cozinha, mas que têm especial importância no seu papel e conteúdo social, em termos do convívio e do estar familiares.


Fig. 01: Cozinha e zona de refeições de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H4-5, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.


Ligação entre preparar refeições e outras atividades domésticas

A cozinha de preparação de refeições é o espaço doméstico que mais fornecimentos exteriores recebe, é também o espaço doméstico que mais gera resíduos e lixos e é, ainda, um espaço estratégico de produção de bens que ou são consumidos na própria cozinha, ou num espaço de refeições específico. 

Considerando tudo isto a posição da zona onde se preparam as refeições deve ser estratégica e desafogada, quer na sua relação com uma entrada na habitação, quer na sua relação com os referidos espaços de refeições.
Alexander (2) considera que o traçado da cozinha deve privilegiar o desenvolvimento de uma longa bancada insolada (ou pelo menos cheia de luz), a possibilidade de vistas exteriores e interiores significativas (não a vista cortada da parede "à frente do nariz") e a alegria cromática com tons quentes (que podem até quebrar a frieza/uniformidade da luz recebida por janelas, eventualmente, viradas mais a norte - orientação bastante recomendada no hemisfério norte).

São as seguintes as características mais desejáveis numa cozinha onde se tomam refeições com agrado:

  • existência de espaço real para se poder estar à mesa e num sítio agradável;
  • a mesa poder servir para muitas outras actividades, desde o apoio à preparação de refeições ao trabalho e recreio das crianças;
  • e a ausência de ruídos incómodos, como os do funcionamento de máquinas de lavar e secar roupa, o que pode obrigar à instalação destas máquinas em local específico e encerrado.

A possibilidade de se desenvolver um verdadeiro convívio numa cozinha familiar ou numa sala de família que integre uma zona de preparação de refeições, depende, entre outros aspectos da previsão de uma zona de lavandaria doméstica num um espaço próprio e com características definitivas e funcionalmente adequadas, pois não faz qualquer sentido uma vizinhança promíscua entre cozinhar e tratar da roupa.

Hábitos interessantes associados ao espaço de cozinha

A cozinha separada do estar foi, de certa forma, uma invenção numa altura em que havia criados(as) que cozinhavam e serviam na sala de jantar; e por acréscimo podemos pensar o mesmo da própria sala de jantar.

Isto não significa que tais condições não se mantenham, em determinadas situações, e que noutras as próprias famílias não se sintam mais à vontade com situações que se tornaram correntes e tipificadas como estas e que aliás têm vantagens funcionais e ambientais no uso da casa, pois concentram e isolam a produção de ruídos e de cheiros, separando-as de zonas onde se pretende estar em sossego.

Mas no entanto há que interiorizar que os tempos de hoje não são tempos de empregados domésticos, nem são tempos em que há uma parte da família na cozinha, isolada, a cozinhar para uma outra parte da família na sala; se as pessoas quiserem viver assim devem poder fazê-lo, mas, desejavelmente, nunca de uma forma quase obrigatória, que é, de certa forma, a regra, em tantas soluções habitacionais ainda marcadas pela “fatal” zona funcional cozinha/tratamento de roupas e, depois pela outra fatalidade que dá pelo nome de “zona de quartos”, e à qual nos iremos dedicar outros artigos desta série editorial.



Fig. 02: Cozinha e zona de refeições de uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 13-14, Arquitetura: Charles Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.

Alternativas de uso da cozinha e de modos de viver a relação cozinha-sala

E há formas expeditas de proporcionar alternativas de uso da cozinha e de modos de viver a relação cozinha-sala, de modos que mantêm a referida possibilidade de relativa discriminação entre quem executa funções e quem as goza, mas que, simultaneamente proporcionam modos de uso da casa mais democráticos, mais actuais e essencialmente mais conviviais.

E é fácil, basta disponibilizar-se uma cozinha espaçosa e com uma capacidade convivial, pelo menos, mínima, proporcionando-se, assim a alternativa ao estar/convívio nesta cozinha ou na sala, sala esta que, havendo limitações dimensionais (orçamentais) poderá ser razoavelmente reduzida, podendo, por exemplo, aceitar as refeições formais de uma forma versátil (por exemplo, numa mesa que se acrescente).


Mas importa considerar que uma tal versatilidade exige, além do tal dimensionamento relativamente folgado e adaptável da cozinha, que esta seja pelo menos minimamente cuidada em termos de acessos e de arranjos e equipamentos, de modo a que as pessoas que lá trabalham e lá convivem, tomando as refeições, se sintam não num ambiente maquinal, que tantas vezes lembra uma grande “casa de banho”, mas sim no âmago, no coração de uma casa; e lá estão certos equipamentos como o fogão para serem aproveitados nesse estimulante sentido simbólico e agregador do convívio e do sentido doméstico. 

A "cozinha de jantar"

Como indica e ilustra Sven Thiberg “uma «cozinha de jantar» (dining-kitchen) com uma espaçosa área de refeições e espaço suplementar para vários trabalhos pode, sendo bem desenhada, adaptar-se ao desempenho de variadas necessidades, proporcionando, cumulativamente, como refere este autor o desenvolvimento dos trabalhos culinários de pé, sentado, ou em cadeira de rodas, o que é uma interessante vantagem complementar (3), e aligeirando a sala de um amplo conjunto de actividades, tornando-as, assim, mais adequada, por exemplo, para formas mais especializadas de convívio (por exemplo enquanto se ouve música) e para o recreio e o trabalho profissional em casa.

Notas:
(1) Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 176.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 802 e 803.
(3) Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 176.

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Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 525
Artigo LXXI da Série habitar e viver melhor

A cozinha para conviver

Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.






[1]     Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 176.

domingo, fevereiro 01, 2015

CORREDORES E ZONAS DE PASSAGEM DOMÉSTICAS - Infohabitar 518

Infohabitar, Ano XI, n.º 518

Tendências nos corredores e zonas de passagem domésticas
António Baptista Coelho
Artigo LXVII da Série habitar e viver melhor

Continuando a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns, vamos, agora, falar com algum detalhe sobre os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam.

Tendências nos corredores e zonas de passagem domésticas
Um dos aspectos que continua a ser estruturador de uma boa solução doméstica é que ela se caracterize por uma economia ponderada de circulações, conseguida através da mínima extensão e do aproveitamento máximo das circulações por corredor (por exemplo por dupla utilidade para circulação e para arrumações em roupeiros) e também mediante a mínima extensão e posicionamento estratégico das eventuais zonas de circulação obrigatória através de compartimentos mais sociais (por exemplo, quartos com acessos através de salas e cozinhas).
Mais do que uma questão de compartimentação as opções ligadas ao desenvolvimento de corredores e outros espaços de circulação doméstica têm a ver com opções fundamentais de organização e de formas de habitar.

(Exemplo) Escada doméstica como elemento "plástico" de habitação

Fig. 01: Escada doméstica como elemento "plástico" de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H4-5, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

A circulação pode, praticamente, desaparecer, ficando o referido "espaço-concha" mínimo ou máximo, e, aliás, vale a pena lembrar que os espaços específicos de circulação terão sido uma invenção, seja nas habitações com serviçais, onde estes espaços existiam nas áreas de serviço, seja nas habitações “de rendimento” onde tais espaços de circulação acabam por ser a base que estrutura uma divisão espacial que proporciona um máximo aproveitamento de um dado espaço disponível e a máxima concentração da volumetria construtiva.
E lembremos, por exemplo, que hoje, por regra, não há empregados domésticos, embora as razões ligadas ao máximo aproveitamento espacial se mantenham – mas nesta matéria seria de grande interesse perceber-se melhor quais são as volumetrias construtivamente mais económicas, considerando os cuidados de construção e de equipamento (por exemplo, obrigatoriedade de ascensores).

(Exemplo) Circulação doméstica integrada no espaço habitacional



Fig. 02: Circulação doméstica integrada no espaço de uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 13-14, Arquitetura: Charles Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.
Uma ideia que pode ficar nesta matéria das circulações domésticas é que quando existam corredores estes devem ser razoavelmente largos e mobiláveis, constituindo verdadeiros compartimentos, que até podem ter luz natural (directa ou indirecta), ou usáveis como acesso a arrumações úteis, e que o seu desenvolvimento deve ser extremamente cuidadoso e justificado.
Outra ideia que deve ficar é que estará na altura de se colocarem em causa opções de hierarquização doméstica, que têm sido consideradas positivas – por exemplo, ligadas à definição de zonas domésticas mais íntimas e mais sociais – e que são, por vezes, positivas, proporcionando diversidade de actividades e privacidade entre actividades, mas que, outras vezes, são negativas, pois acabam por “obrigar” a um funcionamento "maquinal", unívoco e rigidamente hierarquizado de uma habitação, com problemas seja na adequação a diversos modos de habitar, seja à evolução dos modos de habitar pela qual passam todas as famílias.

(Exemplo): Circulação doméstica como elemento "protagonista" de uma habitação


Fig. 03: Circulação doméstica de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 4-5, Arquitetura: Bengt Hidemark.
E em tudo isto a reflexão sobre as circulações domésticas é fundamental, quando se concebe e quando se escolhe uma habitação. E é bem interessante pensar que esta matéria que, há vinte/trinta anos era assunto secundário na concepção doméstica, é hoje, talvez, assunto prioritário, seja por aspectos de poupança de recursos financeiros (habitações mais pequenas), seja pela dinamização que estas opções funcionais provocam no desenvolvimento de novos modelos de organização/vida doméstica.

(Exemplo): Escada doméstica, como "elemento central" de habitação

Fig. 04: Escada doméstica, como "elemento central" de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H  33-34, Arquitetura: Greger Dahlström.
Corredores e escadas são elementos que podem caracterizar uma habitação, de forma extremamente positiva e significativa; também são elementos difíceis de utilizar e por isso no seu desenvolvimento fica evidenciada a qualidade arquitectónica de uma dada solução habitacional – condição esta que se aplica tanto aos edifícios unifamiliares , caraterizados por uma natural maior liberdade organizacional e espacial, seja ás habitações integradas em edifícios multifamiliares.
Bons corredores e boas escadas residenciais fazem excelentes soluções domésticas, daquelas que vemos nas revistas, e boas porque aliam, frequentemente, funcionalidades e atractividade, associando à necessidade de proporcionar acesso doméstico outros tipos de condições e mesmo "qualidades" habitacionais, por exemplo em termos de ambientes dimensionais e cromáticos, servindo estratégias específicas de estruturação e atractividade domésticas, portanto, dando acesso, mostrando e estruturando, numa evidenciada relação forma – função .

(Exemplo): Circulação doméstica como "elemento central" de habitação

Fig. 05: Circulação doméstica como "elemento central" de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H  30, Arquitetura: Gert Wingard, Monica Riton.

Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitadosno entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interioressituação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
·       (i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
·       (ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
·       (iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 518

Artigo LXVII da Série habitar e viver melhor
Tendências nos corredores e zonas de passagem domésticas
Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.