domingo, julho 25, 2010

Olivais Norte: modernismo e natureza (i) - Infohabitar 305

Infohabitar, Ano VI, n.º 305
Sobre a integração da arquitectura modernista: Algumas notas introdutórias a propósito do tema da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa António Baptista Coelho

Advertência ao leitor
Faz-se, em primeiro lugar, a seguinte advertência ao leitor: as breves notas que se seguem, e que abordam de uma forma podemos dizer “exploratória” a temática da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa, não pretendem ser: nem uma análise histórica e teórica do referido Bairro; nem uma análise arquitectónica, ainda que parcial, do mesmo bairro; nem uma análise minimamente aprofundada das suas características vivenciais.
Aproveita-se para sublinhar que qualquer uma das três análises que acabaram de ser referidas é, hoje em dia, vital e muito pertinente, pois já é tempo de se avançar na clarificação de alguns aspectos da Arquitectura e da satisfação residencial que tanto tocam os aspectos de concepção/projecto, como os rumos dessa satisfação, encontrando-se, afinal, alianças reais, mas, à partida consideradas pouco prováveis, por exemplo, entre linguagens formais despojadas e agrado vivencial; considera-se. no entanto,que estas são matérias a desenvolver noutros textos.
Fiquemos então com algumas breves notas sobre o que se considera ser a excelente integração natural e em termos de imagem urbana, proporcionada pelos exemplos de arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa.



Fig. 01: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

A perspectiva de leitura/análise adoptada


A perspectiva de leitura, talvez mais até do que de análise, que foi adoptada, foi a do indivíduo que passeia pelos espaços exteriores do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em seguida designado apenas por Olivais Norte, ou mesmo, apenas por bairro. Naturalmente que a formação desse deambulador não se pode descartar, mas tenta-se remetê-la para uma segunda linha, o que fica sublinhado até pela opção de não se referirem nomes de projectistas e datas de projectos e de obras, matéria que será referida noutros textos, embora se aponte, desde já, uma bibliografia sumária, sempre útil aos mais interessados.



Fig. 02: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Tipos de imagens mais frequentes e/ou dominantes


Quem deambula pelo bairro e não se perde, até porque não é fácil “perdermo-nos” em Olivais Norte, tanto pela equilibrada dimensão global do bairro, como devido a ter ele uma estrutura organizativa muito clara, está muito disponível para poder ser impressionado por imagens/enquadramentos que vão surgindo, e que tanto podem ser:

. dominantemente edificados;
. como expressivamente naturais e associados neste caso ao verde urbano;
. como fortemente marcados por fusões de massa edificada e verde urbano;
. como ainda por extensões espaciais e paisagísticas que nos inculcam sentimentos fortes em termos de espaços e ambientes amplos e caracterizados.


Podemos, naturalmente, considerar - e esta ideia aqui escrita exige um conhecimento prévio e directo, ainda que mínimo, do bairro – que nele se oferecem imagens globais – vistas “panorâmicas” (embora delimitadas, e a este tema já voltaremos) – e sequências de imagens, globalmente caracterizadas pela presença do verde e da natureza, que podemos até designar mais desta forma do que de “verde urbano”, na perspectiva em, que este último será, porventura, um verde mais “educado”, confinado e ordenado (por exemplo em filas de árvores de arruamento em caldeiras e ao longo das ruas).

Enquanto que em Olivais Norte o verde está, aparentemente, “livre”, orgânica e aparentemente desordenado e naturalmente dialogante com a massa edificada; e diz-se “aparentemente”, porque bem sabemos que este verde foi global e pormenorizadamente planeado e desenhado, não só nas suas implantações e misturas específicas, mas também nas formas e ambientes prospectivos que iriam assumir ao longo de dezenas de anos – mais um tema para um outro texto, sem dúvida, mas aqui precisa-se de um colega paisagista.

Temos assim, para sintetizar, uma natureza dominante, que poderemos designar de “bairro jardim”, designação, como sabemos, comum, mas que seria interessante substituir por algo do género “bairro parque” ou “bairro verde”; não sei, porque até continuo a gostar mais do termo bairro-jardim, embora neste caso talvez um bairro-jardim orgânico, ou mesmo um jardim romântico, embora sem quaisquer dos aspectos, relativamente, artificiais, habitualmente embebidos na fábrica do “jardim romântico” – de certa forma o romantismo aqui liga-se à afectividade e envolvência dos ambientes criados, uma matéria à qual tentaremos voltar neste artigo.

Mas, caros leitores, quando deambulamos pelos passeios, pelas sendas, pelos caminhos e pelos relvados/prados de Olivais Norte, somos tão impressionados por essa componente natural/verde, como pelos próprios edifícios, numa alternativa de leitura que pode variar, e varia, por vezes, de instante a instante, e que, provavelmente é uma das matérias-chave das ideias apontadas neste pequeno texto.



Fig. 03: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

O "prédio" na natureza, ou o edifício na natureza
O subtítulo que acabei de usar foi escolhido, exactamente, para tentar aproximar-me da sensação que tive, há alguns meses, numa das minhas frequentes deambulações pelo bairro, ou talvez pelo espaço “urbano verde” que o integra (ideia que me ocorreu ao correr das teclas numa não-ocasional inversão da ideia de “verde urbano”).

Estava, portanto, passeando numa vereda perto dos limites, ou melhor dito, do limiar (bem activo), entre Olivais Norte e a malha maior da Encarnação, quando deparei com a imagem-tipo do edifício embebido no verde, ou talvez deva desde já dizer do edifico modernista em total integração com uma natureza reconfigurada; e passou-me pela cabeça a ideia que há uma grande distância entre a ideia, considerada óbvia, de que a arquitectura modernista é, por “natureza” uma arquitectura da relação com a natureza e da “cidade jardim”, uma ideia que, depois, se aponta ter “x” problemas, desde os sociais aos económicos, embora se possa considerar até plasticamente positiva, e uma ideia real, sentida, experimentada e vivida, por exemplo, no nosso “bairro jardim” mais paradigmático e puro que é Olivais Norte, construído há cerca de 50 anos e aparentemente com uma expressiva continuidade de clara adesão de quem lá tem vivido desde então.

Naturalmente que nestas relações há que ir mais fundo do que pela “imagem”, mas fiquemos para já, neste texto, um pouco por aí, pois a imagem e a leitura que ela permite e suscita é algo muito importante para quem passeia e vive na cidade.



Fig. 04: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Algumas reflexões sobre aspectos formais

Abordam-se, em seguida, sinteticamente quatro aspectos: a questão da escala global e pormenorizada da intervenção; a questão da integração micro-urbanística dos vários elementos em presença; e a questão mais “pura e dura” da linguagem formal edificada que foi usada.
Tentemos abordar, ainda que brevemente e de forma exploratória, estas quatro questões/características na sua aplicação “tipo” em Olivais Norte.



Fig. 05: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(i) A questão da escala global e pormenorizada da intervenção, realizada no bairro: sobre esta matéria, quem visite Olivais Norte com o tempo necessário para poder passear pelo bairro com calma – e quaisquer duas/três horas permitem um conhecimento mínimo –, terá a noção de uma intervenção baseada numa escala edificada e numa edificação caracterizadas por uma forte relação com a dimensão e o uso humanos, aspectos estes presentes em inúmeras situações de pormenor e de relacionamento entre edifícios, entre edifícios e espaços exteriores e entre espaços exteriores.

Ora uma tal condição é, à partida, veículo privilegiado para poder haver uma atenção especial e focada dos habitantes/utentes relativamente às imagens urbanas e paisagísticas propiciadas no bairro e pelo bairro; atenção esta que é o primeiro passo para se estabelecerem relações imagéticas, funcionais e ambientais entre edifícios e natureza.



Fig. 06: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(ii) A questão da integração micro-urbanística dos vários elementos em presença, no bairro e de certa forma uma questão central nas intervenções “modernistas”: sobre esta condição o que importa referir, à partida, é que mais do que visar a concepção de edifícios e de espaços exteriores específicos, se visou, em Olivais Norte, a “construção” de vizinhanças coesas de edifícos e de espaços exteriores, coesas, porque complementares e atraentemente contrastantes; e afinal não foi por se terem privilegiado as vizinhanças, ou os conjuntos de micro-urbanismo, que se proporcionou menos atenção às obras de Arquitectura e de Paisagem; não senhor, antes pelo contrário, do reforço da vizinhança e do micro-urbanismo salientaram-se e salientam-se hoje em dia as excelentes obras de Arquitectura de edifícios e de Arquitectura de paisagem.

E assim se entende melhor que se criaram as condições relativa ou potencialmente ideais para se salientar a relação e o interesse da relação entre essas obras de Arquitectura de edifícios e de Arquitectura de paisagem, e então como tais obras foram marcadas, sistematicamente, pela excelência “individualizada”, o conjunto, ou, melhor, os conjuntos multiformes e infinitamente variados em termos de pontos de vista – aspecto este ligado à própria natureza do racionalismo edificado em meio paisagístico – ficam indelével mas afirmadamente marcados por uma qualidade global, que é maior do que a simples soma das partes da qualidade individual das Arquitecturas dos edifícios e da paisagem reconformada.



Fig. 07: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(iii) A questão mais “pura e dura” da linguagem formal edificada que foi usada, que é também uma questão central em todas as intervenções “modernistas” melhor qualificadas ou mais genuínas, e na matéria aqui em consideração, designadamente, na relação entre formas simples e racionais, pormenores depurados e materiais “verdadeiros”, todas estas adjectivações aplicadas aos edifícios (entre outros adjectivos possíveis), e uma natureza recriada com sensibilidade e também com verdade, em termos das formas e das espécies mais adequadas aos locais específicos e às relações globais e particulares com os elementos edificados e construídos com que se devem integrar.

Há que sublinhar, aqui, ter sido esta matéria específica aquela que despoletou, directamente, esta reflexão e esta nossa primeira incursão nesta temática: ter encontrado um edifício tão “simples” e tão bem desenhado, tão bem integrado num espaço natural bem composto e reconfigurado, uma pequena parcela de jardim ou parque orgânico, marcado pelos fundamentais objectivos de se procurar uma simulação reforçada de ambientes naturais característicos (ex., bosque, orla de bosque, prado, etc.).

E daqui resulta que da possível fusão, numa escala de vizinhança, portanto de grande proximidade, entre uma Arquitectura positiva e afirmadamente sóbria e atraente e uma conseguida simulação de um ambiente natural, resulta um efeito final, simultaneamente, de grande integração formal entre edificado e natureza, e também de uma insuspeita valorização, quer especificamente desse edificado, quer desse “recanto” natural; afinal, o tema de base que suscitou esta reflexão.



Fig. 08: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

(iv) Finalmente, mas nunca em último lugar, importa referir a questão da própria qualidade do desenho das Arquitecturas dos edifícios e da paisagem reconformada, uma matéria que é evidente no bairro de Olivais Norte, sítio onde não há, por regra, lugar a arquitecturas edificadas e paisagísticas que estejam abaixo da excelência.

Sobre esta matéria específica muito haveria e haverá a comentar, mas fica sempre a ideia de que quando tratamos de fazer conjuntos urbanos e pequenos bairros de uma cidade que teve história e que quer continuar a fazer história, não deveríamos aceitar um nível arquitectónico exigencial abaixo da excelência, designadamente, quando se desenvolvem conjuntos com dimensão urbana significativa; afinal há um direito à criatividade, sem dúvida que há, mas tem também de haver um direito cidadão a essa excelência urbana e residencial com sentido amplo e de certa forma comsensual, e por aqui ficamos nesta temática para já.

Algumas notas complementares, mas importantes, que ficam por desenvolver

Várias são as questões que podem ser consideradas como formal e/ou funcionalmente complementares a estes aspectos de integração entre modernismo edificado e natureza reconfigurada, mas que, na prática têm tudo a ver com o êxito que se pensa ter sido atingido, pelo menos, neste bairro de Olivais Norte.

Apontam-se em seguida, sumariamente, algumas dessas questões, por regra associadas a determinados aspectos qualitativos, seja de micro-urbanismo, seja de concepção do edifício e da própria célula habitacional privada.



Fig. 09: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Um dos aspectos é haver vida de bairro em Olivais Norte, não sendo por não haver ruas e quarteirões e pracetas que deixa de haver no bairro uma estimulante vida diária, uma matéria que terá a ver, seja com a actual centralidade e a excelente acessibilidade urbana gozada pelo bairro, designadamente, em termos de transportes colectivos, seja com a existência de um pequeno “centro cívico”, verdadeiramente multifuncional e estrategicamente concentrado e bem situado/acessível a pé a todos os moradores do bairro. Mais desenvolvimentos do tema terão de ficar para outros textos.

Outro aspecto é ser necessário fazer contas sobre o que custa a manutenção do verde publico em Olivais Norte. Sem dúvida que será/é uma manutenção dispendiosa, designadamente, nas estações mais quentes, mas atentemos à situação de haver grandes extensões de “erva” e terra sob grandes árvores, onde é quase só necessário limpar, e haver grandes relvados e/ou prados cuja mecanização da manutenção será sempre possível e está já em parte desenvolvida, sendo eventualmente a actual opção por mão de obra intensiva uma escolha que eventualmente poderá visar uma perspectiva de criar mais emprego ainda que com base, eventualmente, em ordenados reduzidos.

O que se aponta aqui é, essencialmente, que há contas a fazer nesta matéria e haverá, provavelmente, lições positivas e negativas a retirar sobre formas de actuação paisagística desenvolvidas no bairro - temática a desenvolver desejavelmente em parceria com um colega paisagista noutros artigos desta série.

Ainda nas áreas da manutenção urbanística seria interessante realizar um estudo comparativo entre o que tem custado a manutenção dos troços viários de tráfego misto e das vias "clássicas" (rodoviárias marginadas por passeios) de Olivais Norte, e o que custa a aplicação corrente e isolada dessa mesma solução "clássica"; é que, pelo menos aparentemente, as referidas vias mistas do bairro parecem estar, em boa parte, intocadas e quase sem precisarem de manutenção desde há cerca de 50 anos.

Outro aspecto é considerar o verdadeiro nível de qualidade de vida e de saúde ambiental que é possível em Olivais Norte; matéria esta com enorme importância numa sociedade actual, marcada pelo stress e pela poluição - temática fundamental a desenvolver.

Outro aspecto a desenvolver refere-se a estarmos em presença de uma dos mais "acabados" e positivos exemplos portugueses de aplicação de uma rede pedonal estruturadora, embora bem conjugada com as vias para veículos, num conjunto residencial com grande dimensão.

E ainda um outro aspecto tem a ver com a verdadeira qualidade de desenho edificado e de “desenho de natureza” que foi aplicada em Olivais Norte, e aqui há necessariamente uma pequena história a fazer e ensinamentos a recolher, numa altura em que será cada vez mais vital assegurar essa qualidade.

Naturalmente estas são matérias a desenvolver e que terão grande importância num fundamentado aprofundamento dos processos que regem a satisfação urbana e residencial.



Fig. 10: edifícios e natureza reconfigurada em Olivais Norte

Comentários de remate
A título de remate global sobre a temática da integração da arquitectura modernista habitacional do bairro de Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa, sublinha-se o que foi referido no início deste artigo, sobre não se ter pretendido fazer aqui: nem uma análise histórica e teórica do referido Bairro; nem uma sua análise arquitectónica, ainda que parcial; nem uma análise minimamente aprofundada das suas características vivenciais.

Deambulou-se pelo bairro, afinal “um bairro”, embora sem ruas com continuidade, sem quarteirões e sem uma afirmada continuidade física com a cidade central, e pensou-se, um pouco, sobre como a sua arquitectura modernista, predominantemente, habitacional constituiu, durante cinquenta anos, portanto durante meio século, e constituirá, muito provavelmente durante muito mais tempo, um verdadeiro trunfo citadino, de vizinhança e edificado com claro sinal positivo, tanto em termos vivenciais, como em termos culturais.

E um trunfo que em breve ficará ainda mais valorizado com a abertura da estação de Metro da Encarnação - e aqui aproveita-se para sublinhar que deveria ser assegurada uma re-estruturação viária e do estacionamento que, após a abertura da estação, garantisse a manutenção de uma paz residencial mínima aos residentes, enquanto, simultaneamente, proporcionasse condições favoráveis de estacionamento a um número significativo de automóveis - e salienta-se que se julga ser possível este tipo de solução e que é tempo de se acabar com intervenções parecelares e desintegradas em termos das condições funcionais oferecidas; é evidente que a abertura de uma nova estação de Metro irá gerar um movimento intenso de veículos de não-residentes e parece ser possível prever acrescidas condições de estacionamento e salvaguardar a paz residencial que constitui parte integrante do carácter do bairro.

Voltando ao tema centtal do artigo, para o concluir, podemos referir que, afinal, parece ser possível fazer “cidade modernista” coesa, atraente e viva; aprendamos pois, um pouco mais, com o muito que há para aprender em Olivais Norte – Encarnação, tanto nos aspectos globais e pormenorizados de concepção, que aqui não foram abordados, como nestes aspectos de relação entre “partidos”, racionalistas, depurados e muito bem qualificados em termos de desenho e uma natureza igualmente bem “desenhada” e com expressiva presença; uma excelente realidade que está, claramente, a “milhas de distância” dos infelizmente frequentes casos de mau desenho de "arquitectura" cheio de pormenores sem sentido e mal acompanhado por um verde urbano negativamente ausente ou tristemente fingido.

Em outros artigos desta série sobre Olivais Norte, que irá sendo editada sem qualquer ordem previamente definida, e a propósito deste excelente caso de estudo, serão abordados outros temas que caracterizam este bairro-jardim modernista e que têm toda a actualidade na mega-cidade actual.

Alguns documentos de aprofundamento (numa primeira e breve listagem)
ASSOCIAÇÃO DOS ARQUITECTOS PORTUGUESES (AAP), Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa (GUAL). Lisboa: AAP, 1987, 311 p.

COELHO, António Baptista – Qualidade Arquitectónica Residencial – rumos e factores de análise. Lisboa: LNEC, Informação Técnica Arquitectura (ITA) n.º 8, 2000 , 475 p.

COELHO, António Baptista; PEDRO, João Branco – Do Bairro e da Vizinhança à Habitação. Lisboa: LNEC, Informação Técnica Arquitectura (ITA) n.º 2, 1998, 530 p.

GABINETE TÉCNICO DA HABITAÇÃO DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA – Principal Legislação da Habitação Económica interessando à cidade de Lisboa de 1912.07.26 a 1964.12.28, em boletim gth, vol. 1, n.º 3. Lisboa. Câmara Municipal de Lisboa, 1964.

PEREIRA, Nuno Teotónio – As Casas Económicas, 1947 – 1969, em Jornal Arquitectos n.º 16, 17 e 18. Março/Abril. Lisboa, 1983, 4 p.

PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos (1947 – 1996, selecção). Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, FAUP Publicações, 1996.

PEREIRA, Nuno Teotónio – Tempos, Lugares, Pessoas. Matosinhos: Contemporânea Jornal “Público”, Colecção Os Contemporâneos do Público, 1996, 144 p.

PEREIRA, Nuno Teotónio (colaboração de António Baptista Coelho) – Os Olivais – experiência colectiva de uma geração, Palestra proferida nos Encontros da Associação dos Arquitectos Portugueses – Habitação, Construir Cidade com Habitação. Lisboa: AAP, 1998, 8 p.

TOSTÕES, Ana (coord.) – Arquitectura e Cidadania, Atelier Nuno Teotónio Pereira. Lisboa: Quimera Editores, Catálogo, 2004, 331 p.

Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.
Infohabitar, Ano VI, n.º 305
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 25 de Julho de 2010

quinta-feira, julho 22, 2010

Interrupção de uma semana na edição do Infohabitar

Caros leitores do Infohabitar, tal como terão já percebido, devido a ausências em trabalho dos elementos que garantem a edição do Infohabitar e a uma descoordenação entre os mesmos, a nossa revista sofreu uma imprevista interrupção editorial de uma semana, situação que, praticamente não acontecia desde o seu início.

Pelo facto apresentamos as nossa sinceras desculpas.

Desde já se anuncia que na tarde do próximo domingo dia 25 de Julho será retomada a edição semanal corrente, com o artigo intitulado:

Olivais Norte: modernismo e natureza (i)

Com os melhores cumprimentos,

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho

domingo, julho 11, 2010

VIV(ER)ACIDADE: Reviver a vizinhança na mega-cidade europeia - Infohabitar 304

António Baptista Coelho

Infohabitar, Ano VI, n.º 304

Introdução
Este artigo integra um início de reflexão prática sobre como no tempo das mega-cidades poderemos trabalhar e suavizar a frequente falta de humanização dos espaços urbanos que habitamos e, simultaneamente, os problemas sociais e funcionais sentidos, como cada vez mais graves, nas grandes cidades congestionadas, através de uma ampla e sensível revalorização das vizinhanças que habitamos.

De certa forma "dando-se a volta" aos problemas reais e aproveitando-se ao máximo as também reais potencialidades das cidades e designadamente das cidades europeias.

Visam-se e foca-se a atenção em intervenções e vizinhanças desenvolvidas em grandes zonas urbanas, ou mega-cidades europeias, onde há problemas sociourbanísticos e arquitectónicos efectivos e onde tais problemas têm merecido respostas arquitectónicas interessantes; e regista-se que não é por haver menor interesse sobre a mega-cidade americana e asiática, mas apenas, porque devemos começar por matérias que conhecemos melhor, nos seus aspectos de identidade urbana e vivencial nas suas células de vizinhanças; e suspeita-se, que os aspectos agora apontados se aplicam, muito provavelmente e em boa parte a outras realidades urbanas, mas o reduzido conhecimento que se tem destas realidades não permite, para já, reflexões sobre elas direccionadas.

A ideia-base deste primeiro exercício sobre o viver da cidade e o reviver das suas vizinhanças privilegia, também, a percepção e, sempre que possível, a leitura local de situações de introdução de pequenos novos agregados de habitação de interesse social na continuidade urbana e integrando equipamentos de vizinhança conviviais; uma opção que se liga à reflexão sobre como reviver a vizinhança e a cidade e que permitirá úteis comparações com o que se tem passado em Portugal, ultimamente, nesta tipologia de intervenções - uma realidade que tem sido estudada, entre nós, com algum desenvolvimento e objecto de publicações de síntese.



Fig. 01: Reinventar boas escalas humanas no pequeno bairo municipal do Telheiro, em Matosinhos (2002), um conjunto que além de proporcionar habitação funcionalmente adequada e bem desenhada, revitaliza a vizinhança e a zona urbana onde se integra, Arquitectura de Manuel Correia Fernandes.
De uma nova cidade viva e amigável aos "segredos" de uma cidade marcada pelo peão e pela integração social.

Importa aprofundar os modos preferenciais como se estabelecem relações directas entre o visitante "a pé" e as diversas zonas urbanas, proporcionando-se uma afirmada continuidade funcional e de leitura com os espaços de vizinhança; isto numa perspectiva que também cumpre a ideia do viver a grande cidade e as suas grandes infraestruturas de acessibilidade, revivendo as suas vizinhanças mais humanizadas.

E importa procurar entender melhor como pequenas, bem disseminadas, "cirúrgicas" e arquitectonicamente bem qualificadas intervenções habitacionais e urbanas,que sejam veículos de diversas modalidades de habitação de interesse social (ex., desde habitações para pessoas sem recursos a habitações específicas para jovens e idosos), visualmente impossíveis de destrinçar e identificar, entre si e relativamente aos respectivos contextos urbanos, podem ajudar os bairros a viverem melhor, mais coesos, preenchidos e atraente e equilibradamente diversificados em termos funcionais e de imagem urbana, enquanto, e simultaneamente, tais operações podem integrar equipamentos locais em falta nas respectivas vizinhanças, e também enquanto se aprofundam os aspectos de melhor fusão entre tipos de tráfego e de conteúdos urbanos, visando-se, sempre, naturalmente, uma vida nas vizinhanças que seja agradável, funcional e também estimulante ou estrategicamente urbana.


Uma habitação de interesse social que seja motivo de introdução de pequenos conjuntos de boa Arquitectura

Procura-se, assim, avançar, um pouco mais, numa habitação de interesse social que seja motivo de introdução de pequenos conjuntos de boa Arquitectura, bem disseminados na cidade, revitalizando as suas vizinhanças com melhores condições de habitabilidade, novos habitantes e novos equipamentos conviviais.

Estamos no tempo das mega-cidades e, se não queremos ser esmagados pelos seus problemas críticos, está na altura de reforçarmos valores essenciais de ecologia urbana, como a (re)densificação e (re)vitalização estratégicas, a criação de vizinhanças intimistas, a integração e suavização de tráfegos e a diversificação e adequação da habitação aos novos desejos e necessidades habitacionais. Somos cada vez mais citadinos, mas “cidade sem habitação não faz sentido”, como defende Correia Fernandes, e, assim, há que harmonizar cidade viva e cidade agradavelmente vivida em vizinhanças humanizadas.

Importa associar estas preocupações a uma cuidadosa perspectiva formal, porque "na cidade o que interessa não é o espaço, mas sim o interior do espaço e o horizonte situado nesse interior. O conceito de «clareza labiríntica» (apontado por Aldo van Eyck para se referir ao que deve caracterizar tanto uma casa como uma cidade) é descritor das situações urbanas. Esta clareza suaviza os limites do espaço e do tempo e facilita os encontros casuais, as relações e as convenções. Favorece o desenvolvimento dos limiares, de espaços onde se produz a relação, e que se vão moldando à força de serem usados." (1)

O traço comum dassoluções que se procuram ... é, assim, a relação adequada e formalmente estimulante entre cidade e habitar, servida por uma boa solução de Arquitectura e aplicada numa dimensão física e funcional equilibrada, seja pela sua integração urbana, seja por um sentido básico de intimidade residencial, procurando-se identificar linhas de referência sobre como trabalhar e suavizar a frequente falta de humanização dos espaços onde vivemos e, simultaneamente, os problemas sociais e funcionais aí sentidos.

Pretende-se vir a apurar intervenções e vizinhanças em grandes zonas urbanas europeias, onde tais problemas têm merecido respostas arquitectónicas interessantes, marcadas pelo objectivo de se "habitar a cidade" ou "viver a cidade"; objectivo sempre importante, mas que se torna crucial quando os habitantes são pessoas com problemas socioculturais, e que assim poderão ter mais possibilidades de se integrarem, positivamente, na vida urbana.

O objectivo de melhor viver a cidade é servido pelas soluções de habitação de interesse social e de micro-urbanismo “que melhor se adaptam à sua localização na cidade, às suas características de morfologia urbana e que introduzem melhorias nas respectivas envolventes” (2), num aprofundamento dos valores de proximidade e cidade viva que pode equilibrar a vida doméstica pouco satisfatória de muitas pessoas. Estas matérias assumem especial urgência e sensibilidade por estarmos no limiar de uma nova crise habitacional europeia, uma crise que tem a ver com as faltas de habitação ligadas à persistência de um parque habitacional sem condições, à imigração, à maior esperança de vida, e ao crescimento do número de pequenos agregados familiares.




Fig. 02: um exemplo de introdução de um novo edifício de habitação de interesse social, participando na revitalização funcional e formal de um velho bairro de Lisboa, junto ao Lago do Conde Barão (2004), Arquitectura de Eugénio Castro Caldas e Nuno Távora.


Novas soluções de habitação de interesse social para novos grupos de carenciados
"A sociedade terá novos e amplos subgrupos: pessoas que vivem sós, dinkies (casais com rendimentos e sem filhos), famílias monoparentais e idosos, todos com referências étnicas e culturais diversas. Cada um terá as suas próprias expectativas sobre como gostaria que fosse a sua habitação, mas surpreendentemente quase todos preferirão um apartamento em ambiente urbano ... vantagens de uma infraestrutura pública, serviços, oferta cultural variada e ambiente com apoio a deficientes, serão as razões que os levam a escolher o estilo de vida urbano, em vez das urbanizações ajardinadas das periferias." (3) E assim se demonstra que somos cada vez menos "normalizáveis" em termos de necessidades residenciais e urbanas.

Será, então, necessário, que o "continente residencial europeu" (4) cresça, ainda, ligado à urgente reabilitação urbana e habitacional e às velhas e novas carências de muitos grupos sociais, mas não mais associado a um habitar repetitivo, não mais pela “simples” satisfação de exigências quantitativas, e ainda menos através dos "produtos habitacionais" fornecidos nos subúrbios dormitórios, e que contribuíram para os problemas urbanos que sentimos. O continente residencial europeu tem de crescer, estrategicamente, de forma disseminada e diversificada, de acordo com um amplo leque de exigências ambientais, funcionais, sociais, de integração e de desenho de arquitectura.

Considera-se elevado o potencial de influência, em Portugal, dos casos a estudar, no respeito desta nova perspectiva de "habitação de interesse social", seja porque estes se ligam, quase todos, à adequada disseminação urbana de uma habitação de interesse social com elevada qualidade de concepção, seja porque, actualmente, se conhece grande parte do que de melhor se tem feito no nosso País neste tipo de intervenções; condição esta que permitirá cuidadosas e úteis reflexões comparativas, bem como um direccionamento estratégico para as melhores soluções e processos e, eventualmente, até para aqueles agentes, que. em termos de concepção e de promoção, melhor têm actuado em habitação de interesse social nas últimas dezenas de anos, muitas vezes inovando de forma coerente e bem fundamentada.

Como elementos de base deste desenvolvimento salienta-se que em 2006 e 2009 foram editados dois livros sobre cerca de 300 conjuntos portugueses de habitação de interesse social, realizados nas últimas duas dezenas de anos, (5) entre os quais há casos de referência por associarem a intenção de revitalização das suas vizinhanças e zonas citadinas, enquanto proporcionam habitação condigna às pessoas e famílias que os habitam.

Fig. 03: pormenor de uma pequena rua pedonal (na altura inacabada) e integrando variadas tipologias habitacionais directamente vitalizadoras do espaço público e da continuidade urbana, no bairro Bo01, em Malmö, iniciado em 2001 com a exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", e actualmente concluído e habitado.

Actualmente é fundamental desenvolver um estudo teórico e prático sobre como dinamizar o VIVER A CIDADE , pois se já vai sendo conhecida a sua prática em Portugal, esta pode e deve receber oportunos e estimulantes ensinamentos resultantes da respectiva experiência europeia.

Há, assim, a vontade, aqui sublinhada de poder mostrar, por imagens e comentários, designadamente, em futuros artigos desta série sobre o VIVER A CIDADE, que é possível viver melhor as cidades, com vitalidade, enquanto se faz viver e habitar a cidade pelos mais diversos grupos sociais e nas mais variadas misturas desses grupos sociais e de tipologias habitacionais e urbanas, salientando-se que esta estimulante possibilidade, de que há alguns exemplos nas maiores cidades de Portugal e muitos casos práticos nas maiores cidades da Europa, tem muito a ver com um projecto de Arquitectura urbana tão bem qualificado em termos de desenho, como humanizado em termos de ambiente geral e de capacidade de apropriação das suas vizinhanças.

Notas:(1) Javier MOZAS, Aurora PER - Densidad: nueva vivienda colectiva, 2004, p. 70.
(2) Josep Maria MONTANER e Zaida Muxí MARTÌNEZ (dir.), Habitar el presente, Vivienda en España, Ministerio de Vivienda, 2006, p. 32.
(3) Javier MOZAS, Aurora PER - Densidad: nueva vivienda colectiva, 2004, p. 70.
(4) Título da revista "Arquitectura Viva", N.º 64 de 1999.
(5) O último destes livros encontra-se ainda disponível, foi editado pela Livros Horizonte em 2009, na colecção "Horizonte de Arquitectura" e intitula-se "Habitação de interesse social em Portugal 1988-2005", e os autores são António e Pedro Baptista Coelho.


Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.
Infohabitar, Ano VI, n.º 304Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 11 de Julho de 2010

segunda-feira, julho 05, 2010

Caminhos da habitação e do urbanismo na cidade central ou na cidade "velha" - Infohabitar 303

António Baptista Coelho
Infohabitar, Ano VI, n.º 303

Divulgação prévia: 1.º CIHEL
O Grupo Habitar e o Infohabitar aproveitam a oportunidade para continuarem a divulgar o 1.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono, o 1.º CIHEL, que terá lugar entre 22 e 24 de Setembro no ISCTE, junto a Entrecampos em Lisboa, numa parceria com a respectiva escola de Arquitectura.
Chama-se a atenção para a disponibilização no artigo n.º 301 do Infohabitar de uma apresentação pormenorizada do 1.º CIHEL.
Neste Congresso pretende-se alargar o debate sobre a habitação e o habitar, num sentido amplo, às realidades sociais dos países lusófonos em geral e dos de África em particular, realidades essas fisicamente distantes mas afectivamente próximas, privilegiando-se, nesta primeira edição do Congresso, uma reflexão sobre a promoção de bairros e agrupamentos residenciais para populações com baixos rendimentos.
Fig. 00: 1.º CIHEL - Linha gráfica: a linha gráfica do 1.º CIHEL e designadamente o seu símbolo foram realizados por alunos do 12.º ano do Curso Profissional de Design Gráfico da Escola Secundária de Sacavém, incluindo um concurso de ideias para o respectivo símbolo.
Este tema da promoção de bairros e agrupamentos residenciais para populações com baixos rendimentos será desenvolvido no 1.º CIHEL, em 5 conferências principais e em 20 palestras/comunicações, por um grupo de oradores provenientes de diversos países da lusofonia, organizadas nas temáticas: das políticas e dos programas; das infraestruturas e dos equipamentos; das soluções habitacionais e dos modos de vida; e dos materiais e das tecnologias. Uma consulta ao Infohabitar n.º 301 (basta correr um pouco a informação no écran) bastará para ficar esclarecido relativamente às temáticas tratadas e às conferências já confirmadas.
Este é um primeiro Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono a que se deverão seguir outros sobre outras perspectivas complementares nas amplas áreas do habitar e da cidade. Pretende-se criar, na sequência deste 1º Congresso, um grupo, ou uma rede, para assegurar o próximo Congresso e desenvolver outros eventos nestas matérias.
O infohabitar irá manter, em próximas edições, uma informação actualizada sobre a organização do 1.º CIHEL e designadamente sobre as temáticas abordadas nas palestras/comunicações, actualmente em fase de apreciação final pela Comissão Científica, e sobre os eventos paralelos ao Congresso.
Informações complementares serão dadas pelo Secretariado do 1.º CIHEL:
Departamento de Arquitectura e Urbanismo ISCTE – IUL, Ala Autónoma, Sala 335, Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa
ou pelo telefone: +351 21 7903060; ou pelo mail: cihel01@gmail.com
António Baptista Coelho e Paulo Tormenta Pinto (Direcção); António Reis Cabrita (Pres. da Comissão Científica)
Edita-se, em seguida, o artigo semanal do Infohabitar
Caminhos da habitação e do urbanismo na cidade central ou na cidade "velha"
António Baptista Coelho
O artigo integra algumas reflexões de síntese sobre os caminhos da habitação e do urbanismo na cidade central ou na cidade "velha", reflexões estas cujo autor estudou, ao longo de bastantes anos, essencialmente a habitação de interesse social, o novo realojamento, a habitação popular e o espaço público urbano: são portanto reflexões de um não-especialista nas áreas da reabilitação; ou será que o fazer bem a nova habitação de interesse social e o renovar e reabilitar bem o espaço público urbano não constituem elementos fundamentais numa adequada estratégia de reabilitação urbana e habitacional?
O artigo integra a intervenção do autor, sobre o tema, na sessão sobre "reabilitação urbana e habitacional", que correspondeu à 19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar e que foi realizada em 16 de Junho de 2010, no Cais de Gaia, numa parceria com a CidadeGaia SRU e com a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
Fig. 01
A ideia que quero sublinhar é que um habitar mais feliz, porque mais humanizado em termos de escala e de expansão sobre o espaço público terá muito a ver com uma relação aprofundada entre espaço doméstico e espaço citadino; e é no casco antigo das cidades que o espaço doméstico fica mais próximo do espaço público.
A cidade precisa da vitalidade da habitação, e a habitação precisa da vida citadina, e por isso temos de enfrentar, rapidamente, os actuais problemas de falta de habitações vitalizadoras dos centros históricos, e de falta de vida urbana nas periferias.
Tal como refere o arquitecto Herman Hertzberger, nas suas Lições de Arquitectura (1), “uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme”; mas para que a cidade seja esta casa enorme, tem de proporcionar um complemento funcional mas também um verdadeiro suplemento de alma ao habitante, tal como diz Jorge Silva Melo: “um café aqui, um apartamento em cima, a rua larga, o Tejo ao fundo (neste caso o Douro), passeios, gente que se encontra, gente que se salva, que se reencontra …” (2)
Afinal, escadas, galerias, passeios, pracetas, lojas e cafés fazem parte do espaço do habitar, enriquecendo-o e proporcionando até eventuais compensações entre casa e cidade.
Podemos redescobrir e reinventar soluções de habitar baseadas na cidade tradicional, aquela em que o comércio se estende sobre a rua, aquela em que são as próprias portas dos fogos e das lojas que estruturam e vitalizam as ruas, aquelas em que estar em casa é estar perto de poder estar a uma mesa de “café”, aquelas em que estar num jardim é também estar na cidade, soluções estas que são, por exemplo, extremamente úteis no desenvolvimento de uma cidade habitada, que seja, o mais possível, naturalmente segura, pois estruturada por espaços urbanos naturalmente defensáveis e vigiados nas suas margens vivas.
Fig. 02
E neste re-habitar da cidade há que privilegiar os mais idosos e dos mais jovens, que são, afinal, aqueles habitantes que mais usam a cidade, que tanto podem dar de vida à cidade e aos quais a cidade tanto pode dar em termos de quadro de vida formativo e de lazer.
E é essencial que na habitação que se faça de novo ou se reabilite se aproximem as habitações do espaço urbano, designadamente, pela humanização das soluções multifamiliares e por novas soluções de moradias bem agregadas compactas e densificadas.
Julga-se ser este um objectivo muito importante: vitalizar a cidade com jovens e pequenos agregados familiares para os quais tal possibilidade será um elemento fundamental na manutenção ou na redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária em meio urbano denso; enquanto no caso dos seniores o resultado será a contribuição para a manutenção da vitalidade individual, em termos físicos e mentais – e mesmo com excelentes efeitos na sua saúde.
Nas acções de reabilitação e de introdução de novos edifícios há que ter em conta a grande urgência de intervenção em tantos casos que chegam ao risco colapso, e aos inúmeros casos de condições de habitabilidade críticas; uma matéria que exige uma abordagem específica e bem ponderada no que se refere ao estabelecimento de patamares mínimos de habitabilidade, que assegurem condições adequadas de saúde na habitação, mas que não inviabilizem, na prática, um processo dinâmico de reabilitação urbana e habitacional.
Mas para se refazer uma cidade bem habitada não basta seguir critérios objectivos de ordenamento, porque o habitante necessita de emoção na relação com o espaço urbano, assumindo-se as intervenções de arquitectura urbana como oportunidades de abertura ao mundo e à vida, tal como refere o arqº Yves Lyon, numa perspectiva de urbanidade melhorada e re-humanizada, e aqui é obrigatório citar Gordon Cullen (3), quando este escreve que: “o conformismo mata, aniquila; enquanto a diferenciação, pelo contrário, é fonte de vida" e que “a composição de um conjunto urbano é potencialmente uma das mais emotivas e variadas fontes de prazer”.
Fig. 03
Este caminho tem de ser construído numa cidade do vagar que, naturalmente, encontra importantes modelos na cidade histórica e diferenciada, marcada por usos mistos e veículo de cultura.
Mas, tal como escreveu António Pinto Ribeiro (4), “a maioria das nossas cidades tem perdido a escala que seria mais adequada à sua fruição enquanto espaço, arquitectura, urbanismo e coreografia, porque a medida do cidadão pedestre … tem sido preterida em favor da do automóvel... Neste sentido, seria desejável que a cidade voltasse a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia… a uma ligação mais epidérmica com o espaço e à possibilidade de se instalar durabilidade no tempo de gozo da cidade”; acabei de citar
E o prazer de quem habita, realmente, a cidade, percorrendo-a, parando, conversando, optando, subitamente, por um outro percurso, decidindo permanecer um pouco mais na mesa daquele pequeno café, da qual se vê a rua e quem passa, deve ser o objectivo de quem reabilita a cidade; tão simples como isso, proporcionar a “tentação de andar só mais cem metros, e depois mais outros cem”; escreveu-o Edmund White sobre Paris (5), mas podia tê-lo feito sobre qualquer cidade viva e à escala do homem.
O tema central em toda esta matéria é como nos aproximarmos de uma expressiva amabilidade nos ambientes urbanos e, afinal, poder viver num ritmo mais humano, em ambientes atraentes, saudáveis e conviviais, levará a uma predisposição para a cultura e para a arte, e provavelmente o contrário também é verdadeiro e um ambiente marcado pela arte e pelas indústrias culturais será um meio sensibilizador para a adopção de formas de vida e de ambientes globalmente mais sustentáveis.
Fig. 04
E a opção pela cultura é também, hoje em dia, na nossa Europa, um investimento que cada vez mais dará resultados económicos, e sobre esta matéria lembra-se o sub-título de um artigo sobre Tom Fleming e as suas pequenas indústrias culturais e criativas, que aponta: “Quando a economia falha, sobra a cultura”. (6) E não é possível deixar aqui de lembrar, bem a propósito, que na União Europeia a cultura contribui mais para a economia do que os automóveis e que, mesmo em Portugal, a cultura, era, já em 2006, o terceiro contribuinte para o nosso PIB (7).
E conclui-se esta breve reflexão com uma citação, “de síntese”, retirada à “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis” (8), e onde se refere:
“Entendemos que as nossas cidades têm qualidades culturais e arquitectónicas únicas, uma forte capacidade de inclusão social e excelentes oportunidades de desenvolvimento económico. São centros de conhecimento e fontes de crescimento e inovação. Mas, ao mesmo tempo, debatem-se com problemas demográficos, desigualdade social, exclusão social de grupos populacionais específicos, falta de alojamento adequado a preços acessíveis e problemas ambientais. A longo prazo, as cidades não poderão desempenhar a sua função de motor de progresso social e crescimento económico descrita na Estratégia de Lisboa se não conseguirmos manter o equilíbrio social no interior de cada uma e entre elas, preservando a diversidade cultural e fixando elevados padrões de qualidade para o planeamento urbanístico, a arquitectura e o ambiente.”
Fig. 05
Conclui-se com um poema de Constantino Cavafis, intitulado "A CIDADE"
Não encontrarás outro país nem outras praias,
levarás por todo o lado e com custo a tua cidade;
caminharás nas mesmas ruas,
envelhecerás nos mesmos subúrbios,
ficarás grisalho nas mesmas casas.
Chegarás sempre a esta cidade;
Não esperes outra,
não há barco nem caminho para ti.
Ao arruinar a tua vida nesta parte da terra,
Destroçaste-a em todo o universo.
A CIDADE - Constantino Cavafis, 1863 (Alexandria) - 1933
Notas:
(1) Herman Hertzberger, Lições de Arquitetura, São Paulo, Martins Fontes, 1996 (1991),p.193.
(2) Artigo saído no Jornal Público de 22 de Janeiro de 2005
(3) Gordon CULLEN. Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística, Barcelona, 1977 (1971), pp. 13 e 15.
(4) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.
(5) Edmund WHITE, O Flâneur – Um passeio pelos Paradoxos de Paris. São Paulo, Companhia das Letras, Colecção “O Escritor e a Cidade”, 2001 - excerto retirado do artigo de Andréia Azevedo Soares, intitulado “O Flâneur – Um passeio pelos Paradoxos de Paris – Passear por uma Paris menos óbvia”, saído no suplemento “Fugas” do jornal “ Público” de 2002/09/28. Este mesmo livro foi, entretanto, editado entre nós pela editora ASA na Colecção “O Escritor e a Cidade.”
(6) Abel Coentrão, “Tom Fleming - Quando a economia falha, sobra a cultura”, Público, 3 de Fevereiro 2008.
(7) Joana Gorjão Henriques - “É a cultura, estúpido!”, Público, 16 de Novembro 2006.
(8) Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis – adoptada na reunião informal dos Ministros responsáveis pelo Desenvolvimento Urbano e Coesão Territorial, em 24 e 25 de Maio de 2007, em Leipzig (CdR 163/2007 EN-EP/hlm, 9 págs.).
Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.
Infohabitar, Ano VI, n.º 303
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
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Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 4 de Julho de 2010