domingo, julho 11, 2010

VIV(ER)ACIDADE: Reviver a vizinhança na mega-cidade europeia - Infohabitar 304

António Baptista Coelho

Infohabitar, Ano VI, n.º 304

Introdução
Este artigo integra um início de reflexão prática sobre como no tempo das mega-cidades poderemos trabalhar e suavizar a frequente falta de humanização dos espaços urbanos que habitamos e, simultaneamente, os problemas sociais e funcionais sentidos, como cada vez mais graves, nas grandes cidades congestionadas, através de uma ampla e sensível revalorização das vizinhanças que habitamos.

De certa forma "dando-se a volta" aos problemas reais e aproveitando-se ao máximo as também reais potencialidades das cidades e designadamente das cidades europeias.

Visam-se e foca-se a atenção em intervenções e vizinhanças desenvolvidas em grandes zonas urbanas, ou mega-cidades europeias, onde há problemas sociourbanísticos e arquitectónicos efectivos e onde tais problemas têm merecido respostas arquitectónicas interessantes; e regista-se que não é por haver menor interesse sobre a mega-cidade americana e asiática, mas apenas, porque devemos começar por matérias que conhecemos melhor, nos seus aspectos de identidade urbana e vivencial nas suas células de vizinhanças; e suspeita-se, que os aspectos agora apontados se aplicam, muito provavelmente e em boa parte a outras realidades urbanas, mas o reduzido conhecimento que se tem destas realidades não permite, para já, reflexões sobre elas direccionadas.

A ideia-base deste primeiro exercício sobre o viver da cidade e o reviver das suas vizinhanças privilegia, também, a percepção e, sempre que possível, a leitura local de situações de introdução de pequenos novos agregados de habitação de interesse social na continuidade urbana e integrando equipamentos de vizinhança conviviais; uma opção que se liga à reflexão sobre como reviver a vizinhança e a cidade e que permitirá úteis comparações com o que se tem passado em Portugal, ultimamente, nesta tipologia de intervenções - uma realidade que tem sido estudada, entre nós, com algum desenvolvimento e objecto de publicações de síntese.



Fig. 01: Reinventar boas escalas humanas no pequeno bairo municipal do Telheiro, em Matosinhos (2002), um conjunto que além de proporcionar habitação funcionalmente adequada e bem desenhada, revitaliza a vizinhança e a zona urbana onde se integra, Arquitectura de Manuel Correia Fernandes.
De uma nova cidade viva e amigável aos "segredos" de uma cidade marcada pelo peão e pela integração social.

Importa aprofundar os modos preferenciais como se estabelecem relações directas entre o visitante "a pé" e as diversas zonas urbanas, proporcionando-se uma afirmada continuidade funcional e de leitura com os espaços de vizinhança; isto numa perspectiva que também cumpre a ideia do viver a grande cidade e as suas grandes infraestruturas de acessibilidade, revivendo as suas vizinhanças mais humanizadas.

E importa procurar entender melhor como pequenas, bem disseminadas, "cirúrgicas" e arquitectonicamente bem qualificadas intervenções habitacionais e urbanas,que sejam veículos de diversas modalidades de habitação de interesse social (ex., desde habitações para pessoas sem recursos a habitações específicas para jovens e idosos), visualmente impossíveis de destrinçar e identificar, entre si e relativamente aos respectivos contextos urbanos, podem ajudar os bairros a viverem melhor, mais coesos, preenchidos e atraente e equilibradamente diversificados em termos funcionais e de imagem urbana, enquanto, e simultaneamente, tais operações podem integrar equipamentos locais em falta nas respectivas vizinhanças, e também enquanto se aprofundam os aspectos de melhor fusão entre tipos de tráfego e de conteúdos urbanos, visando-se, sempre, naturalmente, uma vida nas vizinhanças que seja agradável, funcional e também estimulante ou estrategicamente urbana.


Uma habitação de interesse social que seja motivo de introdução de pequenos conjuntos de boa Arquitectura

Procura-se, assim, avançar, um pouco mais, numa habitação de interesse social que seja motivo de introdução de pequenos conjuntos de boa Arquitectura, bem disseminados na cidade, revitalizando as suas vizinhanças com melhores condições de habitabilidade, novos habitantes e novos equipamentos conviviais.

Estamos no tempo das mega-cidades e, se não queremos ser esmagados pelos seus problemas críticos, está na altura de reforçarmos valores essenciais de ecologia urbana, como a (re)densificação e (re)vitalização estratégicas, a criação de vizinhanças intimistas, a integração e suavização de tráfegos e a diversificação e adequação da habitação aos novos desejos e necessidades habitacionais. Somos cada vez mais citadinos, mas “cidade sem habitação não faz sentido”, como defende Correia Fernandes, e, assim, há que harmonizar cidade viva e cidade agradavelmente vivida em vizinhanças humanizadas.

Importa associar estas preocupações a uma cuidadosa perspectiva formal, porque "na cidade o que interessa não é o espaço, mas sim o interior do espaço e o horizonte situado nesse interior. O conceito de «clareza labiríntica» (apontado por Aldo van Eyck para se referir ao que deve caracterizar tanto uma casa como uma cidade) é descritor das situações urbanas. Esta clareza suaviza os limites do espaço e do tempo e facilita os encontros casuais, as relações e as convenções. Favorece o desenvolvimento dos limiares, de espaços onde se produz a relação, e que se vão moldando à força de serem usados." (1)

O traço comum dassoluções que se procuram ... é, assim, a relação adequada e formalmente estimulante entre cidade e habitar, servida por uma boa solução de Arquitectura e aplicada numa dimensão física e funcional equilibrada, seja pela sua integração urbana, seja por um sentido básico de intimidade residencial, procurando-se identificar linhas de referência sobre como trabalhar e suavizar a frequente falta de humanização dos espaços onde vivemos e, simultaneamente, os problemas sociais e funcionais aí sentidos.

Pretende-se vir a apurar intervenções e vizinhanças em grandes zonas urbanas europeias, onde tais problemas têm merecido respostas arquitectónicas interessantes, marcadas pelo objectivo de se "habitar a cidade" ou "viver a cidade"; objectivo sempre importante, mas que se torna crucial quando os habitantes são pessoas com problemas socioculturais, e que assim poderão ter mais possibilidades de se integrarem, positivamente, na vida urbana.

O objectivo de melhor viver a cidade é servido pelas soluções de habitação de interesse social e de micro-urbanismo “que melhor se adaptam à sua localização na cidade, às suas características de morfologia urbana e que introduzem melhorias nas respectivas envolventes” (2), num aprofundamento dos valores de proximidade e cidade viva que pode equilibrar a vida doméstica pouco satisfatória de muitas pessoas. Estas matérias assumem especial urgência e sensibilidade por estarmos no limiar de uma nova crise habitacional europeia, uma crise que tem a ver com as faltas de habitação ligadas à persistência de um parque habitacional sem condições, à imigração, à maior esperança de vida, e ao crescimento do número de pequenos agregados familiares.




Fig. 02: um exemplo de introdução de um novo edifício de habitação de interesse social, participando na revitalização funcional e formal de um velho bairro de Lisboa, junto ao Lago do Conde Barão (2004), Arquitectura de Eugénio Castro Caldas e Nuno Távora.


Novas soluções de habitação de interesse social para novos grupos de carenciados
"A sociedade terá novos e amplos subgrupos: pessoas que vivem sós, dinkies (casais com rendimentos e sem filhos), famílias monoparentais e idosos, todos com referências étnicas e culturais diversas. Cada um terá as suas próprias expectativas sobre como gostaria que fosse a sua habitação, mas surpreendentemente quase todos preferirão um apartamento em ambiente urbano ... vantagens de uma infraestrutura pública, serviços, oferta cultural variada e ambiente com apoio a deficientes, serão as razões que os levam a escolher o estilo de vida urbano, em vez das urbanizações ajardinadas das periferias." (3) E assim se demonstra que somos cada vez menos "normalizáveis" em termos de necessidades residenciais e urbanas.

Será, então, necessário, que o "continente residencial europeu" (4) cresça, ainda, ligado à urgente reabilitação urbana e habitacional e às velhas e novas carências de muitos grupos sociais, mas não mais associado a um habitar repetitivo, não mais pela “simples” satisfação de exigências quantitativas, e ainda menos através dos "produtos habitacionais" fornecidos nos subúrbios dormitórios, e que contribuíram para os problemas urbanos que sentimos. O continente residencial europeu tem de crescer, estrategicamente, de forma disseminada e diversificada, de acordo com um amplo leque de exigências ambientais, funcionais, sociais, de integração e de desenho de arquitectura.

Considera-se elevado o potencial de influência, em Portugal, dos casos a estudar, no respeito desta nova perspectiva de "habitação de interesse social", seja porque estes se ligam, quase todos, à adequada disseminação urbana de uma habitação de interesse social com elevada qualidade de concepção, seja porque, actualmente, se conhece grande parte do que de melhor se tem feito no nosso País neste tipo de intervenções; condição esta que permitirá cuidadosas e úteis reflexões comparativas, bem como um direccionamento estratégico para as melhores soluções e processos e, eventualmente, até para aqueles agentes, que. em termos de concepção e de promoção, melhor têm actuado em habitação de interesse social nas últimas dezenas de anos, muitas vezes inovando de forma coerente e bem fundamentada.

Como elementos de base deste desenvolvimento salienta-se que em 2006 e 2009 foram editados dois livros sobre cerca de 300 conjuntos portugueses de habitação de interesse social, realizados nas últimas duas dezenas de anos, (5) entre os quais há casos de referência por associarem a intenção de revitalização das suas vizinhanças e zonas citadinas, enquanto proporcionam habitação condigna às pessoas e famílias que os habitam.

Fig. 03: pormenor de uma pequena rua pedonal (na altura inacabada) e integrando variadas tipologias habitacionais directamente vitalizadoras do espaço público e da continuidade urbana, no bairro Bo01, em Malmö, iniciado em 2001 com a exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", e actualmente concluído e habitado.

Actualmente é fundamental desenvolver um estudo teórico e prático sobre como dinamizar o VIVER A CIDADE , pois se já vai sendo conhecida a sua prática em Portugal, esta pode e deve receber oportunos e estimulantes ensinamentos resultantes da respectiva experiência europeia.

Há, assim, a vontade, aqui sublinhada de poder mostrar, por imagens e comentários, designadamente, em futuros artigos desta série sobre o VIVER A CIDADE, que é possível viver melhor as cidades, com vitalidade, enquanto se faz viver e habitar a cidade pelos mais diversos grupos sociais e nas mais variadas misturas desses grupos sociais e de tipologias habitacionais e urbanas, salientando-se que esta estimulante possibilidade, de que há alguns exemplos nas maiores cidades de Portugal e muitos casos práticos nas maiores cidades da Europa, tem muito a ver com um projecto de Arquitectura urbana tão bem qualificado em termos de desenho, como humanizado em termos de ambiente geral e de capacidade de apropriação das suas vizinhanças.

Notas:(1) Javier MOZAS, Aurora PER - Densidad: nueva vivienda colectiva, 2004, p. 70.
(2) Josep Maria MONTANER e Zaida Muxí MARTÌNEZ (dir.), Habitar el presente, Vivienda en España, Ministerio de Vivienda, 2006, p. 32.
(3) Javier MOZAS, Aurora PER - Densidad: nueva vivienda colectiva, 2004, p. 70.
(4) Título da revista "Arquitectura Viva", N.º 64 de 1999.
(5) O último destes livros encontra-se ainda disponível, foi editado pela Livros Horizonte em 2009, na colecção "Horizonte de Arquitectura" e intitula-se "Habitação de interesse social em Portugal 1988-2005", e os autores são António e Pedro Baptista Coelho.


Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.
Infohabitar, Ano VI, n.º 304Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 11 de Julho de 2010

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