domingo, fevereiro 26, 2006

Infohabitar/reportagem: com Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian, artigo de Pedro e António Baptista Coelho - Infohabitar 71

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Infohabitar/reportagem: com Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian

Artigo de Pedro e António Baptista Coelho

Inicia-se um novo tipo de artigo no Infohabitar, com pequenas reportagens fotográficas, apenas minimamente comentadas sobre iniciativas do Grupo Habitar.

Esta primeira reportagem dá uma ideia apenas muito genérica do interesse e da participação que teve a 8.ª Visita Técnica do Grupo Habitar, ao Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, na manhã do sábado 18 de Fevereiro e que contou com o fundamental enquadramento do seu principal projectista, o arquitecto paisagista, Professor Gonçalo.Ribeiro.Telles, com a essencial organização da Arq.ª Dora.Lampreia, da Direcção do Grupo Habitar, e com o gentil e eficaz apoio da própria Fundação Gulbenkian, que cedeu uma sala onde, antes da visita, o Prof. Ribeiro.Telles introduziu os participantes nas bases de desenvolvimento do mesmo Jardim, bem como num conjunto extremamente oportuno de considerações sobre a fundamental valia da preocupação com a paisagem urbana e natural, numa sociedade de hoje, infelizmente, muito pouco sensibilizada para os valores ambientais e culturais da paisagem.

Mas uma pequena e informal viagem sobre o conteúdo da aliciante palestra e da visita comentada que o Prof. Ribeiro.Telles teve a gentileza de nos oferecer irá ficar para um artigo de conteúdo, neste mesmo Infohabitar, que está já a ser preparado, com a cooperação de vários membros do Grupo Habitar.

Hoje e nesta pequena e informal reportagem iremos ficar apenas com algumas imagens dessa excelente manhã de 18 de Fevereiro de 2006, no Jardim Gulbenkian, na 8ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, com Ribeiro.Telles, primeiro numa conversa sobre o jardim, os jardins e as cidades e, depois, num passeio pelos caminhos do jardim, com especial relevo nos seus espaços que foram objecto de profundas e muito ricas acções de reconfiguração e desenvolvimento de novos conteúdos ambientais e paisagísticos de grande proximidade, envolvência e diversidade, também com o traço de Gonçalo.Ribeiro.Telles.

Deseja-se um bom passeio do olhar e sugere-se uma visita real, pois também no Inverno o jardim tem encanto e este, especialmente, é sempre um oásis na cidade.




Lisboa, Encarnação/Olivais.Norte, 26 de Fevereiro de 2006
Texto de António Baptista Coelho, fotografias de António Baptista Coelho e Pedro Baptista Coelho

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

FAZER CIDADE – a exposição de Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE, um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 70

 - Infohabitar 70

FAZER CIDADE – a exposição de Raúl Hestnes Ferreira no ISCTE

artigo de Celeste Ramos
imagens de Pedro Romana Baptista Coelho

Sem palavras de apresentação que não as de uma atenção muito afectiva para o precioso significado e a rara beleza e sinceridade das palavras, que se seguem, da amiga Maria.Celeste.Ramos, faz-se no Infohabitar uma primeira viagem de texto e imagens a propósito da belíssima exposição, actualmente em exibição no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), sobre a obra de Raúl Hestnes.Ferreira, e já agora, quem não conheça, pode aproveitar para passear na muito rica e muito humana arquitectura exterior e interior do novo edifício do ISCTE, também concebido por Raúl Hestnes e que constitui uma verdadeira continuidade da exposição; as imagens são de Pedro Romana Baptista Coelho.
Amiga Celeste, o Infohabitar considera um privilégio editar as tuas palavras,
Antonio Baptista Coelho
FAZER CIDADE
A propósito da macro-exposição dos projectos do arqtº. Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE que visitei a 7 de fevereiro de 2006, sinto necessidade de voltar atrás quando também eu trabalhei no GTH a desenhar espaços de jardim, integrada na equipe por onde passaram alguns grandes arquitectos-paisagistas e arquitectos de hoje que fizeram Cidade, tentando eu "acompanhá-los" ajardinando os "espaços" por eles concebidos e honrar os colegas mais velhos que por lá já tinham passado, o que abria para mim, ainda tão jovem, um mundo novo não apenas de trabalho mas também de "olhar" a cidade e de participar na sua construção pois que, do papel, se seguiu depressa a sua construção, tendo-me sido muito grato, ainda, abrir pela primeira vez grandes covas para plantar as árvores que ainda lá estão hoje tão velhas e sólidas como os edifícios, numa área de cidade de grande qualidade de vida e de ambiente urbano

Nesses anos 60 o país iniciava nova forma de fazer cidade em Olivais Norte e Sul, e Chelas, planeada e desenhada não só a outra escala de intervenção no espaço físico, mas com novo desenho de estruturação como se de "cidade nova" se tratasse, moderna nos desenhos de estrutura entre eles o "celular", como o de uma célula de ser vivo, que se introduzia quase "clandestinamente" na cidade antiga de desenho "tradicional", pese embora a diversidade que Lisboa pode oferecer e de que Alfama é sempre excepção mas contudo sempre dentro da mesma "regra” de construir habitar.
Que surpreendente para mim, "novata" nas coisas dos jardins e da cidade, e que passados tantos anos me é forçado reavivar, não por ser muito importante o meu trabalho, mas ter sido esta exposição que, mais uma vez, me faz repensar melhor cada "bocado" da cidade onde moro, com mais "um olhar" e um referencial que passa pelo olhar do meu envelhecer em paralelo com o da própria urbe e com contínuo feed-back como se eu me sentisse um bicho que olha o seu habitat de que muito depende "qualquer bicho."
Assim este recuo que faço permite-me não apenas avaliar a qualidade do que foi feito nesse tempo e que é hoje referência de qualidade urbana e de dinâmica da cidade, manifestada igualmente pela apropriação feita pelas várias gerações de habitantes que conquistaram a “sua cidade”, o “seu bairro”, o “seuhabitar” e o “seu viver.”
Estes 50 anos de cidade nova a que o tempo já deu "tempo histórico" desde o tempo do risco dos esquissos até à existência da árvore que dá, pela sua estatura, uma definição rigorosa do tempo de existência dessa realidade "tijolo-árvore-habitar" - tempo vivo na natureza das coisas e do lugar do homem.
Apetece-me assim fazer este percurso emocional, não apenas sobre este-bocado-de-cidade-também já velha, que faz contínuo edificado e contínuo Humano com a cidade histórica, integrando a natureza viva, mas relacionando-a com a evolução da cidade-velha à qual esta foi acrescentada permanecendo a matriz de urbanidade em que é visível a evolução da vida do betão-tijolo-árvore, mas que hoje poderá estar a ser posta em causa pois que a evolução da cidade mais velha foi transformada e transfigurada nem sempre da melhor forma sobretudo a partir dos anos 80 devido a novos factores de evolução que a cidade teve de integrar, não apenas em termos de crescimento demográfico que acompanhou a introdução do automóvel, tão abruptamente, que levou a transformações globais por vezes tão drásticas e brutais sobretudo nas grandes avenidas que de repente se transformaram em auto-estradas urbanas, desumanizando o viver, mas contudo realidade com que a cidade se teve de debater e tem que com ela viver e continuamente ajustar-se, mas sem no entanto ter ainda encontrado compromisso de qualidade
Não quero deambular muito mais por este tema em que o peão deixou de ter prioridade para a ceder ao automóvel que também não só transtornou os velhos transportes públicos tradicionais como o eléctrico , como obrigou ao "tapamento" dos belos pavimentos das ruas em paralelepípedos de granito para que não lhe caíssem os parafusos nem avariassem a suspensão, pavimento que era semi-permeável e sem quase despesa de conservação e certamente sem causar nenhuma poluição, como a que é hoje provocada pelos combustíveis fósseis utilizados como energia-motor, acrescida aos detritos derivados do desgaste do betuminoso com o atrito dos pneus que por sua vez se desgastam e tornaram a atmosfera irrespirável todos eles detritos cancerígenos, para além de ter alterado, irreversivelmente, o clima urbano que passou a ser mais quente e mais seco, até porque a chuva quando cai já não encontra os pequenos espaços das juntas das pedras a que estava habituada e ser bem recebida para bem da cidade e cidadãos e tudo se tornou negro e impermeável com estes modernos materiais também emanadores de CO2, acrescendo-se ainda a poluição do som, num acréscimo contínuo de desumanização da cidade que não encontra equilíbrio para a vida global e a modernidade.
Assim, a exposição de 45 anos de arquitectura de Hestnes Ferreira, inaugurada no ISCTE a 7 de Fevereiro de 2006, é importante não apenas pelos projectos que foram agora postos a público na sua essencialidade contando a sua história pessoal que se confunde com a profissional, mas porque este arquitecto e o seu trabalho já fazem parte da história da cidade, sendo que este preâmbulo só propõe equacionar a minha visão da cidade "desse tempo", que também vivi, para que possa, então, olhar a sua obra e sobre ela opinar, obra que não se pode separar nem da evolução do país nem da cidade, nem do tempo histórico e cultural, e mesmo económico, pois que se os anos 60 são de grande viragem e evolução, os anos 80 serão o início de tempo de grande degradação, hoje constatada não importa por que tipo de cidadão urbano, sabendo ou não o que quer que seja da história da cidade que habita
A sua obra é assim representativa e imbuída de factos da história do país durante a segunda metade do século passado de que os actos de fazer arquitectura fazem parte e que vieram também romper com a arquitectura "institucionalizada" e denominada de "português suave"
Esta é uma exposição de um homem e uma vida e da sua contribuição para o "construir-habitar", que já não seria no entanto a cidade de agora que exige ainda mais interdisciplinaridade do que há 50 anos atrás, porque a vida urbana se tornou muito mais complexa, tempo durante o qual também aumentou de forma quase inesperada a esperança de vida, a par das grandes mudanças sociais e de participação do cidadão permitindo que os habitantes invoquem o direito de pedir muito mais à cidade e, para tanto até bastará dizer que eu, cidadã do mesmo país, nele vivi para além da maioridade sem qualquer direito de cidadania pois que só me era concedido o direito social - e parcialmente jurídico - de existir .
Abrir a boca, ter opinião e emiti-la era como se se cometesse "pecado de querer existir como ser social e intelectual" e as consequências estavam logo ali - 50 anos bem interessantes, esses, que coincidem com o tempo em que o trabalho deste arquitecto foi executado e “fez cidade”, quase tantos quantos eu, e outros como eu, levaram a adquirir o direito de existir em plenitude social. Mas não estarei a sonhar com essa de plenitude social? Enganei-me com certeza.
Terminada esta espécie de enquadramento sociocultural, parece no entanto que hoje, importante ou vazia, a minha opinião pode não apenas ser emitida, como ouvida e, se não for, resta o "grito", porque já se pode "gritar".
Desta forma ao olhar cada projecto exposto, na sua imensa variedade formal recolhe-se esta quase incapacidade de não voltar atrás para melhor repensar o hoje e, só depois, mas em primeiro lugar, falar da sensação quase inquietante de "quantidade", como se fosse inesperado que um homem só conseguisse produzir o que foi nesta exposição dado apreciar por quantos a visitaram e foram muitos e serão com certeza muitos mais os que terão interesse em ver a "forma" como um homem viveu o seu tempo através do seu trabalho.
Já se escreveu neste blog/revista, no final do ano de 2005, sobre "o espírito do lugar", num artigo geminado. Que interessante é esta experiência de adesão intelectual, e afectiva, que faz alguém repegar uma ideia e geminar-lhe a sua num "contínuo-cultural" que une, retoma e segue, à semelhança do que é, afinal, a cidade, ela espelho dos habitantes, que permite construção de afectos adentro (e fora) das paredes duras de cada habitação.
Parecendo-me que habitar terá também essa dimensão de juntar o meu ao seu olhar a cidade e a ideia de ser o espaço dos homens e dos seus afectos e de lançar raízes não apenas estéticas e éticas, mas também afectivas e solidárias.
Cidade a Casa do Homem e o conforto de viver física e emocionalmente.
Olhar cada projecto de Hestnes Ferreira é desventrar-lhe não apenas a forma da sua geometria mas a intenção com que o "desenho" se apropriou das mãos, ou as mãos do desenho que se destinava a um lugar e a uma função específica
Olhar cada projecto e apreciar-lhe o desenho de geometrias quase arquetípicas tal que se diria que cada lugar as aceitaria sem "gemido" porque se lhe apõem humanizando-o e revivificando-o, dando-lhe "existência."
Espírito do lugar?
Espírito da intenção?
E que espírito teria porventura cada lugar de cada projecto?
Não teria sido algumas vezes o "espírito do projecto" que o deu ao lugar?
Se há lugares que não admitem que sejam "adulterados na sua essência" porque é essa a sua condição de "lugar", outros há que "esperam" que algo ou alguém lhes dê vida e identidade em diálogo inteligente homem-lugar e a sua obra.
Assim, obrigada Raúl por essa arquitectura de mão-cheia, que "sobrou" como exemplo de vida concreta e exponível para os teus colegas e para muitos outros, e que "fez cidade e vida de viver."
PS - não cheguei a falar sobre os projectos de Hestnes Ferreira, só falei de mim como pessoa urbana que foi crescendo e olhando a cidade durante esse tempo de trabalho em que foram sendo desenhados e construídos tais projectos pelo país espalhados e pergunto se não será necessário aprender, colectivamente, a LER o sentido e espírito de ser cidade com os espaços onde se tem de viver.
Lisboa e Bairro.de.Santo.Amaro, 11 de fevereiro de 2006
Celeste Ramos

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Hestnes.Ferreira, Teotónio.Pereira e Teixeira.Trigo: sessão do Grupo Habitar com o Instituto Nacional de Habitação - Infohabitar 69

 - Infohabitar 69

Hestnes Ferreira, Teotónio Pereira e Teixeira Trigo: sessão do Grupo Habitar com o Instituto Nacional de Habitação


(habitação, bairros, casa, casa popular, habitação social, habitação social em Portugal, construção, espaços da casa, Bairro de Alvalade, Olivais Norte, Beja, Cooperativa Lar para Todos, SAAL, INH)

Notas breves sobre o “Encontro sobre prática profissional em projectos e reflexão para o futuro na promoção de habitação”,

com Raúl Hestnes Ferreira, Nuno Teotónio Pereira e José Teixeira Trigo
Artigo de António.Baptista.Coelho
O Instituto Nacional de Habitação (INH) e o Grupo Habitar (GH) – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional promoveram em Lisboa, em 24 de Janeiro de 2006, no Auditório do Edifício Sede do INH, um “Encontro sobre prática profissional em projectos e reflexão para o futuro na promoção de habitação”, no qual os Arquitectos Nuno.Teotónio.Pereira e Raúl.Hestnes.Ferreira e o Engenheiro José.Teixeira.Trigo abordaram essa temática, sublinhando nela os temas que consideram com importância actual, naturalmente associados às suas longas e meritórias experiências como projectistas nas amplas áreas do habitar.
A ideia, concretizada neste encontro, moderado pelo Arquitecto Vasco.Folha e que constituiu também a 4ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, foi proporcionar um tempo de reflexão sobre a prática profissional de três projectistas essenciais na intervenção no domínio da habitação de interesse social em Portugal ao longo de um período temporal significativo. Pensou-se proporcionar essa reflexão partindo de uma apresentação individual de cada um dos três projectistas convidados, em que cada um dissesse o que considera mais interessante e oportuno, no que se refere ao projecto e construção de habitação, e/ou ao projecto e construção de habitação de interesse social e e/ou ao projecto e construção do habitar em termos globais.
Em forma de notas articuladas, mas sem intenção de ser exaustivo relativamente a tanto do que foi dito na tarde do dia 24 de Janeiro apontam-se, em seguida, e seguindo a ordem das intervenções (escolhida devido a aspectos práticos ligados a meios de projecção de imagens), alguns dos aspectos então referidos, bem ligados ao título da sessão, e que, como muitos entenderão têm uma enorme riqueza no que se refere à reflexão sobre o projecto, a construção e a gestão do habitar.
Raúl.Hestnes.Ferreira falou-nos sobre os aspectos que podem ser identificados como fundamentais no habitar a casa, falou-nos sobre as raízes do habitar e sobre os essenciais espaços domésticos polarizadores da vida em comum e em família.
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01: arquitectura popular
Iniciou a sua galeria de imagens com a planta de uma casa simples de Rio de Onor, retirada da “Arquitectura Popular Portuguesa” e falou sobre o projecto e a sua ponderação, sobre os espaços domésticos mais correntes e sobre outros recantos, que são os principais obreiros do habitar interior, como foi o caso da entrada desnivelada que criava um espaço de transição na entrada do escritório da casa que projectou para o seu pai.
Falou-nos com exemplos ilustrados sobre o estar junto ao fogo e à televisão que reúnem as pessoas à sua volta, mas antes disso falou-nos do viver simples junto ao chão e em torno do fogo, da mesa como espaço familiar e unificador de actividades, lembrando hábitos orientais de usar a mesa para um grande leque de actividades, num encadeamento natural de usos, utentes e horários, e também nos falou do grande quarto/sala com uma ampla mesa de Jorge Luís Borges, onde ele trabalhava, recebia, conversava, vivia.
Continuando a reflectir sobre estas matérias dos espaços domésticos essenciais e envolventes e a propósito da pequena casa de férias de Francisco Keil do Amaral, Hestnes Ferreira disse-nos que era uma casa muito amigável, uma casa pequena mas que reflectia e envolvia o modo muito informal/simples, humano e caloroso que caracterizava o modo diário de viver daquela família, dando-lhe um bom suporte, até naquela mesa estrategicamente situada sob a janela e sobre a vista exterior.
Passou depois para as sempre novas questões do dia/noite doméstico, uma forma interessante de colocar uma eventual distinção de duas zonas, que serão provavelmente tanto dia/noite como, por exemplo, comuns/privadas; e aqui defendeu opções de adaptabilidade, em que através de uma adequada concepção estrutural e de um cuidadoso dimensionamento, se possa alterar a disposição das zonas de dormir e de estar, entre outras.
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02: Fonsecas e Calçada, década de 70 (séc. xx)
Sobre o exterior urbano e relativamente ao Bairro das Fonsecas.Calçada, em Lisboa, referiu que os fogos tiveram uma relação directa com a génese da forma edificada, proporcionando flexibilidade na sua integração e que a tipologia de acessos foi influenciada, no esquerdo/direito predominante, por uma opção dos próprios habitantes, que foram convidados pelos projectistas a visitarem (nos Olivais, Lisboa) uma outra bem diversa forma de circulação comum através de galerias, e seguidamente a expressarem a sua tipologia preferida, que, como se deduz, foi o esquerdo/direito; que aliás é bem matizado por pequenas galerias/varandas de distribuição nos cantos interiores dos edifícios. Sobre este bairro Hestnes Ferreira chamou ainda a atenção para a sobriedade da sua envolvente, que contrasta com pequenos interiores de quarteirão mais diversificados. E, quanto aos fogos, salientou que se ouviram os moradores, projectando-se organizações habituais.
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03: Unidade João Barbeiro, década de 80 (séc. xx)
Sobre a diversificada experiência residencial em Beja – a Unidade João.Barbeiro e a Cooperativa Lar Para Todos – começou por salientar a importância da harmonização construtiva em sede de projecto e numa relação aberta com a obra, e com as potenciais e específicas qualidades de execução que aí muitas vezes se detectam e que têm a ver, por exemplo, com capacidades técnicas concretas de determinadas empresas e mesmo de determinados operários.
Depois falou da caracterização pública e também comum do grande pátio da Unidade João Barbeiro, do modo como, a partir dele, se pode aceder com naturalidade aos fogos, motivando-se o convívio, e da forma como o conjunto se integra solidamente na sua envolvente directa através de uma base de betão em que se integram galerias públicas comerciais, harmonizando-se, assim, um espaço de vizinhança assumido e eficaz com a tal sobriedade urbana, já acima apontada.
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04: Cooperativa Lar Para Todos, década de 80 (séc. xx)
Relativamente à Cooperativa Lar Para Todos referiu, no exterior, os pátios alongados sempre que possível vitalizados pelos acessos directos a fogos térreos, e salientou o investimento ambiental e caracterizador que foi desenvolvido nos amplos espaços comuns de cada edifício (com distribuição esquerdo/direito), trespassados e matizados pela luz natural de cima abaixo e em cada entrada dos fogos. Nestes espaços procurou-se realizar uma agradável e muito graduada transição com a rua, estimular o convívio possível e proporcionar uma cuidadosa transparência da vida dos fogos (nesta caso através de um pano de tijolo de vidro no hall).
Finalmente, ao nível dos fogos, há uma clara e muito estimulante inovação na criação de um amplo espaço familiar de cozinha/refeições, mas também a rara possibilidade de toda a continuidade entre esse espaço, a entrada e a sala, poder ser vivido praticamente como um único grande espaço.
E fica aqui um desafio para quem não conheça estas obras habitacionais excelentes, se deslocar a Beja e as percorrer com vagar; uma óptima visita, não tenham dúvidas.
Depois de uma intervenção marcada, como se pode perceber, por alguns dos fundamentos da concepção habitacional, Nuno.Teotónio.Pereira privilegiou-nos com uma pequena história vivida do projecto e da promoção da habitação apoiada em Portugal, desde o princípio dos anos quarenta do século passado até à actualidade. E basta saber que um dos primeiros “Bairros Sociais”, o do Arco do Cego, em Lisboa, foi concluído no início dos anos trinta, embora com outros tenha sido iniciado em 1918, para entender a amplitude e o significado da história viva a que tivemos oportunidade de assistir.
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05: Alvalade, década de 40 (séc. xx)
No final dos anos quarenta Teotónio.Pereira e Costa.Martins fazem assessoria a Miguel.Jacobetty na construção das células sociais do bairro de Alvalade em Lisboa (em que se destacou o construtor António.Veiga), uma malha urbana e residencial, que constituiu um verdadeiro e um dos únicos planos integrados feitos entre nós e cujo plano urbano foi desenvolvido por Faria.da.Costa. Integrado desde o nível do planeamento da intervenção, ao seu conteúdo físico e ao seu conteúdo social; mas também integrado no que se refere à conjugação em obra de um máximo de inovações tecnológicas e construtivas no sentido de se aliar qualidade e rapidez de construção. Ficam para o presente e o futuro as fundamentais aprendizagens com os positivos segredos e avanços que em Alvalade se conquistaram para o grande objectivo de fazer cidade viva com habitação humanizada e através de uma obra multidisciplinarmente participada e que visava o futuro.
Falou depois dos seus vinte e dois anos de trabalho de projecto e promoção ligado aos conjuntos habitacionais e urbanos da Federação das Caixas de Previdência, salientando os aspectos de organização central e regional dos que então eram os poucos arquitectos portugueses ligados a esta importante tarefa, e de como foi conciliando o trabalho na Federação, com a actividade de projectista e com a participação em iniciativas internacionais que então despontaram sobre as temáticas do habitar – por exemplo a União Internacional dos Arquitectos (UIA) tinha uma comissão especial para o habitat.
Entre muitos outros aspectos referidos, destaca-se uma grande exposição do Inquilinato Cooperativo, organizada pela então pujante Associação dos Inquilinos Lisbonenses e associada a uma exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes e naturalmente, chegados a 1960, o desenrolar de uma década que Teotónio considera ter sido fundamental para a habitação e para a habitação apoiada em Portugal.
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06: Olivais Norte, década de 60 (séc. xx)
E aqui se destaca, novamente, um bairro, neste caso Olivais Norte, em Lisboa, fundado num excelente plano urbano de Sommer.Ribeiro e Falcão.e.Cunha, com intervenção de J. Rafael.Botelho (ex., todos os edifícios foram implantados e projectados considerando a geometria da insolação, de forma a usar ao máximo a energia solar passiva), e onde se integraram tipologias edificadas/habitacionais muito variadas, realizadas por entidades muito diferentes, e destinadas a grupos sociais muito diversos, marcando-se em Olivais Norte uma grande diferença relativamente ao que até aí tinha sido a regra de fazer uma espécie de “aldeias na cidade”.
Podemos considerar que todos estes aspectos, para além da fundamental construção simultânea dos variados tipos de edifícios para os diversos grupos sociais, configuram uma promoção pioneira numa ampla perspectiva de sustentabilidade – e em Alvalade também se podem identificar muitos ensinamentos nesta matéria.
Na apresentação de Nuno.Teotónio sobre Olivais Norte teve de ficar, quem sabe, para uma outra sessão, um fundamental passeio comentado pelas torres habitacionais, cujo projecto foi por si desenvolvido com António.Pinto.de.Freitas e Nuno.Portas, ligadas a uma primeira atribuição de um Prémio Valmor a habitação multifamiliar e dita “social”, e em que se privilegiou a largueza, o conforto e a dignidade dos espaços comuns (marcados em cada piso por uma peça de arte); mas também nos edifícios mais baixos de Olivais Norte se inovou, sustentadamente, como hoje é possível ver, antecipando-se o átrio do edifício num espaço exterior convivial.
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07: Olivais Norte, década de 60 (séc. xx)
Nuno Teotónio salientou também que a experiência muito positivamente qualificada dos Olivais ficou a dever-se à acção, que considerou exemplar, do Gabinete Técnico de Habitação (GTH) da Câmara Municipal de Lisboa, numa actividade de contratação de projectistas com reconhecida competência, mas com a obrigação de associarem um jovem arquitecto em cada equipa. E a propósito foi também destacada a importância da estreita cooperação técnica sempre prosseguida com engenheiros altamente qualificados e sensíveis aos aspectos da arquitectura, e aqui houve a referência específica a Ruy Gomes, mas também poderia ter havido a outros nomes de engenheiros, tal como o próprio José.Teixeira.Trigo, que aliás colaborou com Teotónio e com Hestnes em variadas obras.
Chegou depois, naturalmente, ao pós 25 de Abril com as experiência do SAAL e de outras iniciativa de participação com a população no projecto do seu habitar mais urbano ou mais rural, que levou à noção, já antes sentida no contacto com aos primeiros avanços da ligação entre a arquitectura do habitar e a sociologia – onde se destacam os contactos com Paul Chombart de Lauwe – de que as pessoas tendem a desejar casas como “toda a gente tem”; talvez, digo eu, caiba ao arquitecto a função de advogado da inovação quando esta parece ser valiosa.
E sobre esta matéria ficou claro, aquilo que Teotónio considera ter sido uma evolução entre os projectos dos Olivais com galerias em que chegou a haver realmente convívio, tal como era o objectivo do projecto (ex., visível numa imagem de habitantes preparando refeições na galeria comum), e a transformação dessa galeria comum convivial, numa galeria que se queria rua, por exemplo, no bairro da EPUL no Restelo, Lisboa, voltando-se depois, novamente, ao esquerdo/direito (mais corrente), mas no entanto integrando pequenos edifícios multifamiliares bem agarrados à terra e com quintais privados nos mais recentes bairros em Oeiras, projectados por Nuno Teotónio e Pedro Botelho, um dos quais foi Prémio INH.
Das experiências mais próximas Teotónio destacou duas intervenções distintas, uma delas ligada a uma Bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe permitiu estudar e publicar, em colaboração com a sua mulher Irene Buarque, um livro sobre os prédios e as vilas de Lisboa, hoje infelizmente esgotado; enquanto no projecto e entre outros destacam-se, tal como foi acima referido, dois bairros de habitação apoiada, construídos em Oeiras – Laveiras e Alto da Loba – e projectados em conjunto com Pedro Botelho, que foram sumariamente apontados na sessão, mas que merecem toda uma atenção específica, pelo seu interesse urbano, doméstico e humano e pelas suas positivas novidades, em termos de uso do solo, escala e misturas funcionais.
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08: Alto da Loba, década de 90 (séc. xx)
O desafio atrás feito para uma visita é aqui renovado, neste caso, designadamente, aos edifícios referidos em Olivais Norte (Lisboa); um tempo bem aproveitado por quem decida assim actuar.
Chegou a vez de José.Teixeira.Trigo, que concentrou a atenção da sua intervenção em três temas principais: as questões ligadas às anomalias da construção, os problemas associados às anomalias de uso, e o enunciar de recomendações para a respectiva correcção prática.
Teixeira.Trigo praticamente sublinhou, como ponto de partida das suas palavras, o muito que se aprende com a patologia construtiva e com a fiscalização de empreitadas, considerando que entre o que era o mundo da construção e o que é hoje, uma das mudanças mais significativas são os intervenientes no projecto e na obra: há cada vez mais projectos, os projectos são cada vez mais complexos, as apreciações e os intervenientes no processo de elaboração e aprovação dos projectos constituem uma sequência cada vez mais complicada, e do lado de quem constrói o empreiteiro geral quase desaparece, num enorme leque de subempreiteiros, remetendo-se essencialmente a uma função de controlo de custos.
E ironizou referindo as figuras de tantos “responsáveis”, afirmando, depois, que conhece as funções dos profissionais e que não entende bem o que será a “profissão” de “responsável.”
Salientou, em seguida, que tudo isto, em termos de complexidade, tem ainda de viver, seja com a cada vez mais significativa introdução da inovação arquitectónica e construtiva, seja com a crescente dinamização do próprio processo da obra. Trigo.concordou com Teotónio considerando “os Olivais (Lisboa) a época de ouro da nossa construção”, no edificado e nos espaços públicos, e demonstrou esta afirmação lembrando que grande parte dos betuminosos e pavimentos exteriores dos Olivais são ainda os originais.
Desenvolveu, em seguida, algumas considerações sintéticas sobre a matéria regulamentar, e sublinhou que considera haver falta de coerência e de compatibilidade na regulamentação; um problema que, defende, marca todo o processo que se inicia na elaboração dos diversos regulamentos até à própria regulamentação da construção.
Finalmente centrou-se na matéria da formação e especificamente na formação nas ciências da construção, salientando que hoje em dia há uma falta, cada vez maior, de pessoas que possam/saibam fazer sínteses de projecto e construção adequadas.
Usou como exemplos concretos quer a fundamental harmonização entre as estruturas de betão armado, que se deformam com o passar do tempo, e os panos de alvenaria (cada vez mais rígidos), quer a execução das coberturas em terraço, que exigem a união de esforços de um amplo leque de intervenções especializadas. E concluiu esta matéria reforçando a necessidade de se privilegiarem urgentemente as visões de conjunto nos processos construtivos.
Relativamente aos problemas levantados pelo uso sublinhou as graves situações que têm sido identificadas no que se refere à vital temática da ventilação doméstica, onde defende existir um grave problema de falta de coerência entre as diversas soluções mais usadas e as formas de uso da casas e dos seus elementos funcionais – desde as janelas quase estanques aos exaustores que, por vezes, levam a que o sistema de ventilação previsto funcione ao contrário.
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09: Olivais Norte, painel de azulejos de Lima de Freitas, década de 60 (séc. xx)
Teixeira.Trigo rematou a sua intervenção com um pequeno conjunto de recomendações:
- Acabar com a regulamentação dispersa, mediante uma concentração regulamentar que seja o mais coerente possível com a nossa prática de construção.
- Introduzir e privilegiar na prática profissional sínteses construtivas, de segurança, económicas e processuais.
- Assegurar o aperfeiçoamento e o aprofundamento das ciências da construção.
- Valorizar o saber no sector da construção.
Seguiu-se um animado debate em que foram tratados variados assuntos aqui apenas telegraficamente apontados:
- As tipologias com galerias comuns de acesso são hoje pouco adequadas pois hoje “não é esse o espírito”, há um reforço do individualismo da casa, uma espécie de “enriquecimento” do papel da casa de cada um.
- Os ritmos e modos de vida mudam e talvez o uso das galerias seja ainda possível no que se refere às crianças, mas no que se refere aos adultos é difícil aí a convivialidade até porque são espaços socialmente muito controlados.
- Os fogos de hoje têm reduzida capacidade de aceitação de famílias sem serem as famílias “tipo” e isto prejudica, por exemplo, a capacidade de integração dos nossos idosos.
- Os projectos habitacionais têm de visar mais do que uma geração.
- A dúvida sobre se, hoje em dia, o grande público está a ter respostas adequadas a um desejável desígnio sobre a temática do habitar, tal como houve no passado – por exemplo para os dias de hoje seria bem oportuno um desígnio sobre a sustentabilidade/”durabilidade”.
- A importância de se fazer uma formação no projecto e na construção em vários níveis e com ritmo/continuidade.
- A importância que deveria ter a oferta de diversidade e de flexibilidade no habitar, estimulando-se a mudança de casa e diversas formas de “ter” casa.
O debate teve, de certa forma, o seu remate natural com duas curtas intervenções.
A primeira, de Hestnes.Ferreira, em que ele referiu ter havido uma época em que se acreditou que a arquitectura poderia mudar o mundo; hoje sabe-se que a arquitectura pode contribuir para tornar o mundo um pouco melhor, mas há que medir todas as circunstâncias neste processo e tentar, sempre, fazer um pouco melhor.
A segunda, de Teixeira.Monteiro, Presidente do INH, em que foi defendida a enorme importância que tem a aprendizagem com a experiência, e nesta aprendizagem o papel que têm sessões deste tipo, onde são identificados temas e linhas de aprofundamento a desenvolver, mas também a verdadeira escola que pode constituir um continuado processo de visitas técnicas realizadas em diálogo com os vários intervenientes na promoção de habitação, como é o caso do processo seguido anualmente no Prémio INH.
Conclui-se este artigo informal de registo das matérias tratadas na 4ª sessão do GH, realizada em estreita colaboração com o INH, com três citações e uma dedicatória, que foram lidas no início da sessão:
A primeira citação é de Le Corbusier que diz não acreditar “que todas as arquitecturas que falem à alma sejam sempre o produto de indivíduos. Um homem aqui, outro ali, percebe, compreende, toma uma decisão e procede para actuar, para criar. E como resultado uma solução emerge, proporcionando que outros homens encontrem os seus próprios caminhos.”
A segunda é de Robert Stern e nela ele sublinha que “a arquitectura não pode desenvolver-se enquanto os arquitectos acreditarem que se encontram diante de uma tábua rasa, enquanto acreditarem que o edifício individual é essencialmente o produto do talento individual e da personalidade individual. A arquitectura é uma síntese de valores tradicionais e de circunstâncias imediatas.”
A última é de Fernando.Távora e diz-nos que “projectar, planear e desenhar devem significar encontrar a forma justa, a forma correcta... projectar, planear, desenhar não deverão traduzir-se para o arquitecto na criação de formas vazias de sentido” e que além da especialização o arquitecto deve aplicar na sua actividade “um profundo e indispensável humanismo.”
E falando de humanismo, termino com a dedicatória desta sessão e deste artigo a um querido companheiro e dirigente cooperativista, fundador da minha cooperativa a NHC – Nova Habitação Cooperativa, que sempre esteve presente e que hoje continua connosco em espírito e em obras, o Dr. José.Barreiros.Mateus.
Lisboa e Encarnação/Olivais.Norte, em 8 de Fevereiro de 2006
António Baptista Coelho

domingo, fevereiro 05, 2006

Retrospectiva, por Maria Luiza Forneck - Infohabitar 68

 - Infohabitar 68

É sempre com um renovado prazer que se anuncia um texto de um novo colaborador do Infohabitar, neste caso uma nova colaboradora de Porto Alegre, a quem, desde já, agradecemos a sua contribuição para a nossa revista/blog, trata-se da Doutora Maria Luísa Forneck, Socióloga, Pós-Graduada em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Doutorada em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o seu interessantíssimo texto/crónica será sem dúvida mais um ponto alto da história editorial do Infohabitar.

António Baptista Coelho


Retrospectiva

por Maria Luiza Forneck

Junto com tantos videntes, astrólogos e afins, faço, a minha moda, um balanço dos últimos dias de 2005, em uma cidade brasileira, Porto.Alegre. Falar das festividades de fim de ano em um determinado país parece um tanto bobo, pois o 31 de dezembro é comemorado em todo o planeta. No Brasil há, entretanto, uma particularidade que não sendo religiosa, mas econômica, consegue mexer com cabeças, organizações e até relações pessoais. Refiro-me ao décimo terceiro salário, um abono recebido pelos trabalhadores, do humilde ao abonado, uma injeção de dinheiro nos orçamentos, que faz passeio vertiginoso nos bolsos de quem o recebe.
Os que são autônomos, grande parte de nossa mão-de-obra, trataram de tirar proveito do poder de compra dos demais, incluindo o aumento dos preços, pois há um curto espaço de tempo, de vinte de novembro, quando é depositada a primeira parcela até o Natal, para adquirir presentes, quitar dívidas, preparar uma ceia, por mais modesta que seja. Buscaram os primeiros criar novidades para oferecer, garantindo assim um pé-de-meia para janeiro e fevereiro, período das férias escolares. O centro das cidades, sobretudo as áreas de comércio popular, tornou-se a Meca das compras, um burburinho, empurra-empurra em busca de mil bugigangas para enfeite das casas, incluindo o tradicional pinheiro e duvido que saibam porque são usados os enfeites de algodão. Pululavam minúsculas lâmpadas que acendem e apagam, estrelinhas, bolas coloridas, mas o presépio que não podia faltar e era o centro dos enfeites em minha infância, perdeu espaço na maioria dos lares, até desaparecer em outros.
O dinheiro extra também serviu para fazer uma gentileza para o porteiro do edifício, que nos prestou pequenos serviços, a secretária que encontrou um horário favorável na agenda lotada do médico, etc. e que não esperam nada, mas no próximo ano continuarão a ser gentis porque foram reconhecidos. Foi um momento de agradar os que são próximos, e dever os olhos dos pequenos brilharem diante dos brinquedos que abarrotam lojas e vitrines.
Há os que praticamente nada receberam, que duvido serem tantos, porque as entidades que se encarregam da solidariedade distribuem brinquedos em vários pontos da cidade. Talvez sejam decepcionantes, porque a TV vai a praticamente todos os lugares, mostrando novidades, presentes de alto custo, celulares, até um aparelho de microondas só para “aquecer” a comida das bonecas, pedido por uma menina, fato comentado num programa da TV local. A alta tecnologia cada vez mais é aplicada aos brinquedos, além de jóias desenhadas para o gosto e escolha dos petizes, enfim tanto para uns e quase nada para outros...
Falar sobre nossas mazelas, que se acentuam na época do Natal, nada traz de novo, mas lembra-me que no Centro da cidade neste ano, deixei-me roubar o cartão do banco, após ter retirado dinheiro num Caixa 24 horas, quando devem ter copiado a senha ... O prejuízo ficou em um terço do meu abono. Logo, falar do décimo terceiro, é também falar sobre “eles”, os amigos do alheio, talvez uma gangue de mulheres que age no centro da cidade e que suspeito tenha sido autora do meu desfalque... tratando de obter na marra sua gratificação de fim de ano! História corriqueira para quem vive em grandes cidades, especialmente uma tonta ou desavisados, bolsas soltas que vão para as costas e saque rápido em lotéricas e boca do caixa do meu banco.
Quando iniciei esta crônica, pensei em não comentar o fato, tendo me preparado para escrever sobre a mobilidade das mulheres na época do Natal, uma vez que somos as responsáveis pela maior parte das compras da família. Terminei por deixar que meu susto fale que há pessoas que podem, e só freqüentam shopping center e para as outras, sobram ruas com sua insegurança, o que é uma realidade não apenas em nosso País. Quanto às mulheres, parece-me que junto com reivindicações válidas por reconhecimento, emprego e renda, atingiram a tão sonhada igualdade a seus parceiros, ao menos em imaginação e engenhosidade para obter dinheiro fácil, sem trabalho ou esforço.
A mobilidade feminina, objeto de meu interesse quando trabalhava com planejamento de transportes, rendeu-se ao fato de que quase chegamos lá, pelo menos em ousadia... Há nichos masculinos, é certo, salários e empregos que ainda são inferiores para as mulheres, persiste o abuso dos mais fortes através da violência, mas a mobilidade com desenvoltura parece ter sido alcançada, ao ver o desembaraço com que gangs femininas enfrentam as ruas, ao menos em minha cidade ... Já me conformei com a perda, pois festejar é preciso. Curti a decoração de alguns pontos da cidade, fui a mais festas numa semana do que em quase todo o semestre, dei e recebi presentes de amigo secreto, mandei alguns poucos cartões e muitos e-mails. Também pude rever amigos e sentir o bem que eles nos fazem. E me recolhi para encontrar Aquele que festejamos o nascimento, quase esquecido no burburinho consumista. Ah! Ia esquecendo, desejo que o mundo melhore um pouquinho, ao menos em 2006!