sexta-feira, fevereiro 17, 2006

FAZER CIDADE – a exposição de Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE, um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 70

 - Infohabitar 70

FAZER CIDADE – a exposição de Raúl Hestnes Ferreira no ISCTE

artigo de Celeste Ramos
imagens de Pedro Romana Baptista Coelho

Sem palavras de apresentação que não as de uma atenção muito afectiva para o precioso significado e a rara beleza e sinceridade das palavras, que se seguem, da amiga Maria.Celeste.Ramos, faz-se no Infohabitar uma primeira viagem de texto e imagens a propósito da belíssima exposição, actualmente em exibição no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), sobre a obra de Raúl Hestnes.Ferreira, e já agora, quem não conheça, pode aproveitar para passear na muito rica e muito humana arquitectura exterior e interior do novo edifício do ISCTE, também concebido por Raúl Hestnes e que constitui uma verdadeira continuidade da exposição; as imagens são de Pedro Romana Baptista Coelho.
Amiga Celeste, o Infohabitar considera um privilégio editar as tuas palavras,
Antonio Baptista Coelho
FAZER CIDADE
A propósito da macro-exposição dos projectos do arqtº. Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE que visitei a 7 de fevereiro de 2006, sinto necessidade de voltar atrás quando também eu trabalhei no GTH a desenhar espaços de jardim, integrada na equipe por onde passaram alguns grandes arquitectos-paisagistas e arquitectos de hoje que fizeram Cidade, tentando eu "acompanhá-los" ajardinando os "espaços" por eles concebidos e honrar os colegas mais velhos que por lá já tinham passado, o que abria para mim, ainda tão jovem, um mundo novo não apenas de trabalho mas também de "olhar" a cidade e de participar na sua construção pois que, do papel, se seguiu depressa a sua construção, tendo-me sido muito grato, ainda, abrir pela primeira vez grandes covas para plantar as árvores que ainda lá estão hoje tão velhas e sólidas como os edifícios, numa área de cidade de grande qualidade de vida e de ambiente urbano

Nesses anos 60 o país iniciava nova forma de fazer cidade em Olivais Norte e Sul, e Chelas, planeada e desenhada não só a outra escala de intervenção no espaço físico, mas com novo desenho de estruturação como se de "cidade nova" se tratasse, moderna nos desenhos de estrutura entre eles o "celular", como o de uma célula de ser vivo, que se introduzia quase "clandestinamente" na cidade antiga de desenho "tradicional", pese embora a diversidade que Lisboa pode oferecer e de que Alfama é sempre excepção mas contudo sempre dentro da mesma "regra” de construir habitar.
Que surpreendente para mim, "novata" nas coisas dos jardins e da cidade, e que passados tantos anos me é forçado reavivar, não por ser muito importante o meu trabalho, mas ter sido esta exposição que, mais uma vez, me faz repensar melhor cada "bocado" da cidade onde moro, com mais "um olhar" e um referencial que passa pelo olhar do meu envelhecer em paralelo com o da própria urbe e com contínuo feed-back como se eu me sentisse um bicho que olha o seu habitat de que muito depende "qualquer bicho."
Assim este recuo que faço permite-me não apenas avaliar a qualidade do que foi feito nesse tempo e que é hoje referência de qualidade urbana e de dinâmica da cidade, manifestada igualmente pela apropriação feita pelas várias gerações de habitantes que conquistaram a “sua cidade”, o “seu bairro”, o “seuhabitar” e o “seu viver.”
Estes 50 anos de cidade nova a que o tempo já deu "tempo histórico" desde o tempo do risco dos esquissos até à existência da árvore que dá, pela sua estatura, uma definição rigorosa do tempo de existência dessa realidade "tijolo-árvore-habitar" - tempo vivo na natureza das coisas e do lugar do homem.
Apetece-me assim fazer este percurso emocional, não apenas sobre este-bocado-de-cidade-também já velha, que faz contínuo edificado e contínuo Humano com a cidade histórica, integrando a natureza viva, mas relacionando-a com a evolução da cidade-velha à qual esta foi acrescentada permanecendo a matriz de urbanidade em que é visível a evolução da vida do betão-tijolo-árvore, mas que hoje poderá estar a ser posta em causa pois que a evolução da cidade mais velha foi transformada e transfigurada nem sempre da melhor forma sobretudo a partir dos anos 80 devido a novos factores de evolução que a cidade teve de integrar, não apenas em termos de crescimento demográfico que acompanhou a introdução do automóvel, tão abruptamente, que levou a transformações globais por vezes tão drásticas e brutais sobretudo nas grandes avenidas que de repente se transformaram em auto-estradas urbanas, desumanizando o viver, mas contudo realidade com que a cidade se teve de debater e tem que com ela viver e continuamente ajustar-se, mas sem no entanto ter ainda encontrado compromisso de qualidade
Não quero deambular muito mais por este tema em que o peão deixou de ter prioridade para a ceder ao automóvel que também não só transtornou os velhos transportes públicos tradicionais como o eléctrico , como obrigou ao "tapamento" dos belos pavimentos das ruas em paralelepípedos de granito para que não lhe caíssem os parafusos nem avariassem a suspensão, pavimento que era semi-permeável e sem quase despesa de conservação e certamente sem causar nenhuma poluição, como a que é hoje provocada pelos combustíveis fósseis utilizados como energia-motor, acrescida aos detritos derivados do desgaste do betuminoso com o atrito dos pneus que por sua vez se desgastam e tornaram a atmosfera irrespirável todos eles detritos cancerígenos, para além de ter alterado, irreversivelmente, o clima urbano que passou a ser mais quente e mais seco, até porque a chuva quando cai já não encontra os pequenos espaços das juntas das pedras a que estava habituada e ser bem recebida para bem da cidade e cidadãos e tudo se tornou negro e impermeável com estes modernos materiais também emanadores de CO2, acrescendo-se ainda a poluição do som, num acréscimo contínuo de desumanização da cidade que não encontra equilíbrio para a vida global e a modernidade.
Assim, a exposição de 45 anos de arquitectura de Hestnes Ferreira, inaugurada no ISCTE a 7 de Fevereiro de 2006, é importante não apenas pelos projectos que foram agora postos a público na sua essencialidade contando a sua história pessoal que se confunde com a profissional, mas porque este arquitecto e o seu trabalho já fazem parte da história da cidade, sendo que este preâmbulo só propõe equacionar a minha visão da cidade "desse tempo", que também vivi, para que possa, então, olhar a sua obra e sobre ela opinar, obra que não se pode separar nem da evolução do país nem da cidade, nem do tempo histórico e cultural, e mesmo económico, pois que se os anos 60 são de grande viragem e evolução, os anos 80 serão o início de tempo de grande degradação, hoje constatada não importa por que tipo de cidadão urbano, sabendo ou não o que quer que seja da história da cidade que habita
A sua obra é assim representativa e imbuída de factos da história do país durante a segunda metade do século passado de que os actos de fazer arquitectura fazem parte e que vieram também romper com a arquitectura "institucionalizada" e denominada de "português suave"
Esta é uma exposição de um homem e uma vida e da sua contribuição para o "construir-habitar", que já não seria no entanto a cidade de agora que exige ainda mais interdisciplinaridade do que há 50 anos atrás, porque a vida urbana se tornou muito mais complexa, tempo durante o qual também aumentou de forma quase inesperada a esperança de vida, a par das grandes mudanças sociais e de participação do cidadão permitindo que os habitantes invoquem o direito de pedir muito mais à cidade e, para tanto até bastará dizer que eu, cidadã do mesmo país, nele vivi para além da maioridade sem qualquer direito de cidadania pois que só me era concedido o direito social - e parcialmente jurídico - de existir .
Abrir a boca, ter opinião e emiti-la era como se se cometesse "pecado de querer existir como ser social e intelectual" e as consequências estavam logo ali - 50 anos bem interessantes, esses, que coincidem com o tempo em que o trabalho deste arquitecto foi executado e “fez cidade”, quase tantos quantos eu, e outros como eu, levaram a adquirir o direito de existir em plenitude social. Mas não estarei a sonhar com essa de plenitude social? Enganei-me com certeza.
Terminada esta espécie de enquadramento sociocultural, parece no entanto que hoje, importante ou vazia, a minha opinião pode não apenas ser emitida, como ouvida e, se não for, resta o "grito", porque já se pode "gritar".
Desta forma ao olhar cada projecto exposto, na sua imensa variedade formal recolhe-se esta quase incapacidade de não voltar atrás para melhor repensar o hoje e, só depois, mas em primeiro lugar, falar da sensação quase inquietante de "quantidade", como se fosse inesperado que um homem só conseguisse produzir o que foi nesta exposição dado apreciar por quantos a visitaram e foram muitos e serão com certeza muitos mais os que terão interesse em ver a "forma" como um homem viveu o seu tempo através do seu trabalho.
Já se escreveu neste blog/revista, no final do ano de 2005, sobre "o espírito do lugar", num artigo geminado. Que interessante é esta experiência de adesão intelectual, e afectiva, que faz alguém repegar uma ideia e geminar-lhe a sua num "contínuo-cultural" que une, retoma e segue, à semelhança do que é, afinal, a cidade, ela espelho dos habitantes, que permite construção de afectos adentro (e fora) das paredes duras de cada habitação.
Parecendo-me que habitar terá também essa dimensão de juntar o meu ao seu olhar a cidade e a ideia de ser o espaço dos homens e dos seus afectos e de lançar raízes não apenas estéticas e éticas, mas também afectivas e solidárias.
Cidade a Casa do Homem e o conforto de viver física e emocionalmente.
Olhar cada projecto de Hestnes Ferreira é desventrar-lhe não apenas a forma da sua geometria mas a intenção com que o "desenho" se apropriou das mãos, ou as mãos do desenho que se destinava a um lugar e a uma função específica
Olhar cada projecto e apreciar-lhe o desenho de geometrias quase arquetípicas tal que se diria que cada lugar as aceitaria sem "gemido" porque se lhe apõem humanizando-o e revivificando-o, dando-lhe "existência."
Espírito do lugar?
Espírito da intenção?
E que espírito teria porventura cada lugar de cada projecto?
Não teria sido algumas vezes o "espírito do projecto" que o deu ao lugar?
Se há lugares que não admitem que sejam "adulterados na sua essência" porque é essa a sua condição de "lugar", outros há que "esperam" que algo ou alguém lhes dê vida e identidade em diálogo inteligente homem-lugar e a sua obra.
Assim, obrigada Raúl por essa arquitectura de mão-cheia, que "sobrou" como exemplo de vida concreta e exponível para os teus colegas e para muitos outros, e que "fez cidade e vida de viver."
PS - não cheguei a falar sobre os projectos de Hestnes Ferreira, só falei de mim como pessoa urbana que foi crescendo e olhando a cidade durante esse tempo de trabalho em que foram sendo desenhados e construídos tais projectos pelo país espalhados e pergunto se não será necessário aprender, colectivamente, a LER o sentido e espírito de ser cidade com os espaços onde se tem de viver.
Lisboa e Bairro.de.Santo.Amaro, 11 de fevereiro de 2006
Celeste Ramos

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