domingo, fevereiro 05, 2006

Retrospectiva, por Maria Luiza Forneck - Infohabitar 68

 - Infohabitar 68

É sempre com um renovado prazer que se anuncia um texto de um novo colaborador do Infohabitar, neste caso uma nova colaboradora de Porto Alegre, a quem, desde já, agradecemos a sua contribuição para a nossa revista/blog, trata-se da Doutora Maria Luísa Forneck, Socióloga, Pós-Graduada em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Doutorada em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o seu interessantíssimo texto/crónica será sem dúvida mais um ponto alto da história editorial do Infohabitar.

António Baptista Coelho


Retrospectiva

por Maria Luiza Forneck

Junto com tantos videntes, astrólogos e afins, faço, a minha moda, um balanço dos últimos dias de 2005, em uma cidade brasileira, Porto.Alegre. Falar das festividades de fim de ano em um determinado país parece um tanto bobo, pois o 31 de dezembro é comemorado em todo o planeta. No Brasil há, entretanto, uma particularidade que não sendo religiosa, mas econômica, consegue mexer com cabeças, organizações e até relações pessoais. Refiro-me ao décimo terceiro salário, um abono recebido pelos trabalhadores, do humilde ao abonado, uma injeção de dinheiro nos orçamentos, que faz passeio vertiginoso nos bolsos de quem o recebe.
Os que são autônomos, grande parte de nossa mão-de-obra, trataram de tirar proveito do poder de compra dos demais, incluindo o aumento dos preços, pois há um curto espaço de tempo, de vinte de novembro, quando é depositada a primeira parcela até o Natal, para adquirir presentes, quitar dívidas, preparar uma ceia, por mais modesta que seja. Buscaram os primeiros criar novidades para oferecer, garantindo assim um pé-de-meia para janeiro e fevereiro, período das férias escolares. O centro das cidades, sobretudo as áreas de comércio popular, tornou-se a Meca das compras, um burburinho, empurra-empurra em busca de mil bugigangas para enfeite das casas, incluindo o tradicional pinheiro e duvido que saibam porque são usados os enfeites de algodão. Pululavam minúsculas lâmpadas que acendem e apagam, estrelinhas, bolas coloridas, mas o presépio que não podia faltar e era o centro dos enfeites em minha infância, perdeu espaço na maioria dos lares, até desaparecer em outros.
O dinheiro extra também serviu para fazer uma gentileza para o porteiro do edifício, que nos prestou pequenos serviços, a secretária que encontrou um horário favorável na agenda lotada do médico, etc. e que não esperam nada, mas no próximo ano continuarão a ser gentis porque foram reconhecidos. Foi um momento de agradar os que são próximos, e dever os olhos dos pequenos brilharem diante dos brinquedos que abarrotam lojas e vitrines.
Há os que praticamente nada receberam, que duvido serem tantos, porque as entidades que se encarregam da solidariedade distribuem brinquedos em vários pontos da cidade. Talvez sejam decepcionantes, porque a TV vai a praticamente todos os lugares, mostrando novidades, presentes de alto custo, celulares, até um aparelho de microondas só para “aquecer” a comida das bonecas, pedido por uma menina, fato comentado num programa da TV local. A alta tecnologia cada vez mais é aplicada aos brinquedos, além de jóias desenhadas para o gosto e escolha dos petizes, enfim tanto para uns e quase nada para outros...
Falar sobre nossas mazelas, que se acentuam na época do Natal, nada traz de novo, mas lembra-me que no Centro da cidade neste ano, deixei-me roubar o cartão do banco, após ter retirado dinheiro num Caixa 24 horas, quando devem ter copiado a senha ... O prejuízo ficou em um terço do meu abono. Logo, falar do décimo terceiro, é também falar sobre “eles”, os amigos do alheio, talvez uma gangue de mulheres que age no centro da cidade e que suspeito tenha sido autora do meu desfalque... tratando de obter na marra sua gratificação de fim de ano! História corriqueira para quem vive em grandes cidades, especialmente uma tonta ou desavisados, bolsas soltas que vão para as costas e saque rápido em lotéricas e boca do caixa do meu banco.
Quando iniciei esta crônica, pensei em não comentar o fato, tendo me preparado para escrever sobre a mobilidade das mulheres na época do Natal, uma vez que somos as responsáveis pela maior parte das compras da família. Terminei por deixar que meu susto fale que há pessoas que podem, e só freqüentam shopping center e para as outras, sobram ruas com sua insegurança, o que é uma realidade não apenas em nosso País. Quanto às mulheres, parece-me que junto com reivindicações válidas por reconhecimento, emprego e renda, atingiram a tão sonhada igualdade a seus parceiros, ao menos em imaginação e engenhosidade para obter dinheiro fácil, sem trabalho ou esforço.
A mobilidade feminina, objeto de meu interesse quando trabalhava com planejamento de transportes, rendeu-se ao fato de que quase chegamos lá, pelo menos em ousadia... Há nichos masculinos, é certo, salários e empregos que ainda são inferiores para as mulheres, persiste o abuso dos mais fortes através da violência, mas a mobilidade com desenvoltura parece ter sido alcançada, ao ver o desembaraço com que gangs femininas enfrentam as ruas, ao menos em minha cidade ... Já me conformei com a perda, pois festejar é preciso. Curti a decoração de alguns pontos da cidade, fui a mais festas numa semana do que em quase todo o semestre, dei e recebi presentes de amigo secreto, mandei alguns poucos cartões e muitos e-mails. Também pude rever amigos e sentir o bem que eles nos fazem. E me recolhi para encontrar Aquele que festejamos o nascimento, quase esquecido no burburinho consumista. Ah! Ia esquecendo, desejo que o mundo melhore um pouquinho, ao menos em 2006!

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