segunda-feira, fevereiro 23, 2009

A Sustentabilidade na EPUL – da Obra Nova à Reabilitação - Infohabitar 235

Infohabitar, Ano V, n.º 235

A Sustentabilidade na EPUL – da Obra Nova à Reabilitação
EPUL – Sara Ribeiro e João da Veiga Gomes

O Infohabitar agradece aos autores da apresentação que se segue a sua disponibilização para edição no Infohabitar. Refere-se, ainda, que esta apresentação foi feita na Exponor, em Dezembro de 2008, no âmbito de um conjunto de conferências desenvolvido pelo Grupo Habitar e pelo Núcleo de Arquitectos de Veiro da OA, no âmbito da temática da relação entre Arquitectura e sustentabilidade.

A edição do Infohabitar

Resumo

Pretende esta apresentação abordar a temática da Sustentabilidade na Empresa Pública de Urbanização de Lisboa - EPUL, partindo de um compromisso da empresa estabelecido no seu “Documento Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável”, e demonstrando a sua aplicabilidade na concepção de edifícios de obra nova e reabilitação.

Os projectos apresentados, representam o percurso da Empresa na implementação de medidas sustentáveis, na construção e reabilitação de edifícios destinados a equipamentos e habitação em Lisboa, quer na A intenção final é demonstrar que a sustentabilidade aplicada à construção é um percurso evolutivo não só na aplicação global ou parcial dos princípios estabelecidos no documento estratégico, como na sensibilização da sociedade e do mercado habitacional.

Entende-se assim que nem sempre as oportunidades de projecto permitem a utilização de todos os meios existentes e disponíveis conducentes a uma construção sustentável.




Fig. 01: Fotografias EPU, Martim Moniz e Rua de São Pedro Mártir.


A Sustentabilidade na EPUL – da Obra Nova à Reabilitação
EPUL – Sara Ribeiro e João da Veiga Gomes


Apresentação

Esta apresentação da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa – EPUL, decorreu em dois momentos que se complementaram. O primeiro de carácter introdutório pelo Arq. João da Veiga Gomes e o segundo, exemplificativo foi apresentado pela Arq. Sara Ribeiro.

Com esta apresentação institucional, pretendeu-se primeiramente abordar a temática da “A Sustentabilidade na EPUL” e posteriormente fazer ver, algumas das nossas experiencias de implementação desta temática na Cidade de Lisboa, através da nossa “obra nova e obra de reabilitação”.

“A Sustentabilidade na EPUL”:Antes de mais, a EPUL tem procurado abordar a temática da sustentabilidade, sempre como ponto de partida e um desafio para atingir uma determinada meta. Através dos seus compromissos, da sua missão, dos trabalhos e estudos que tem vindo a desenvolver, não entendendo a sustentabilidade, como sendo apenas resolvida por meio da introdução de tecnologias, de painéis, sistemas de aproveitamento de águas, poupanças energéticas, redução de consumos e de emissões e introduzindo tecnologias de ponta que se tornam obsoletas passado pouco tempo, onde os grandes investimentos têm retornos a 15, 20 e 25 anos.

A sustentabilidade entendida como uma forma de garantir e prevenir o futuro, não se cingindo à aplicação de manuais e textos de referência, como sejam o Green Vitruvius, as cartas de Amesterdão e de Atenas, ou até o Protocolo de Quioto, e muito menos apenas Recuperar, Reutilizar e Reciclar. A sustentabilidade implica uma nova atitude e uma acção imediata, dentro da Empresa e nas suas relações com outras entidades, e fora da Empresa no exemplo dado pelas suas obras.

Foi por este motivo que em trabalhos precursores a EPUL sentiu necessidade de aprofundar a temática da sustentabilidade, tendo a destacar o “Relatório Provisório sobre a “Sustentabilidade em edifícios e espaço público”, como Proposta de Modelo de Ponderação, partindo de uma Estrutura de Análise Matricial, onde em cada matriz são definidos os Objectivos, os Meios, os sistemas e Tipos de Intervenção, com a sequente Valorização:

Matriz A – Enquadramento Técnico / Construção Sustentável

Matriz B – Edifícios – Opções de Concepção

Matriz C – Edifícios – Opções Construtivas / Tecnologias

Matriz D – Espaço Público

O exemplo dado por uma Empresa com 37 anos e mais de 10.000 fogos construídos, procurou com a implementação de medidas de sustentabilidade e internas e externas e através da Sua participação e relacionamento institucional e no mercado da promoção, aplicar esta sistematização no espaço urbano, contribuindo para uma regulação do mercado, testando e inovando soluções.

Atendendo aos desígnios que motivaram esta empresa a procurar a qualidade e eficiência do habitar, entendido como viver a cidade, da casa ao bloco, ao equipamento, ao bairro, à praça, e até ao jardim, a EPUL procurou efectuar uma mudança para o futuro, onde a técnica e a construção continuam a servir as necessidades dos nossos habitantes.

Assim surge o “Documento Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável”, fruto de uma vasta colaboração e contributo interno desde a administração aos seus técnicos.

Este Documento Estratégico, resulta assim dum processo de reflexão interna e integrado, para atingir uma mudança, como instrumento fundamental para uma nova abordagem estratégica e empresarial, permitindo ajustar procedimentos e práticas, por meio do estabelecimento de uma série de premissas e medidas a introduzir a médio/ longo prazo, avaliando a performance da EPUL, monitorizada por relatórios anuais de sustentabilidade, nas seguintes vertentes.

Definem-se assim, Estratégias de Sustentabilidade para cada oportunidade de projecto e aplicando-as caso a caso:

Na Obra Nova, por meio de sistemas construtivos que introduzam o conforto ambiental nos edifícios e uma clara redução dos consumos energéticos, e integração urbana em áreas ainda não consolidadas;

Na Reabilitação, promovendo o aproveitamento de estruturas existentes, integração e regeneração urbana, definição de programas que não limitem a durabilidade dos edifícios na sua componente de uso/ apropriação;

No Projecto, com as oportunidades de projecto procuraram-se novas estratégias para a introdução de medidas de sustentabilidade com recurso eventual a sistemas passivos;

Na Empresa, com a Certificação do modelo de gestão e contabilidade da empresa, avaliação, a monitorização e relatório anual, a gestão do quadro de pessoal valorizando a sua formação, competências e aquisição de novas valências, e também promovendo a investigação interna, testando e aprovando novas soluções e técnicas sustentáveis.


“Da obra nova à reabilitação”

É pois na oportunidade da obra nova no edifício ou conjunto reabilitado, que surge o desenho do projecto, onde quando possível são introduzidas medidas conducentes a uma melhor sustentabilidade do edificado. Relativamente à Obra Nova a EPUL define as seguintes linhas de orientação:

Planear Sustentável, como modelo de equilíbrio urbanístico, qualificando a cidade nos seus diversos sistemas urbanos, promovendo uma Cidade Integrada com Conceitos de Desenvolvimento Sustentável;

Projectar Sustentável, desenvolvendo projectos rigorosos com elevados níveis de sustentabilidade e promovendo a utilização de sistemas construtivos (eco-eficiência, recolha, reciclagem e reutilização).

São exemplos, o edifício da Escola do Alto da Faia, em Lisboa, que foi um projecto elaborado em conjunto com o INETI na área de Conforto Ambiental Térmico e Acústico e Vencedor do 1º Prémio de Eficiência Energética em Edifícios DGE 2003; e o Edifício de Habitação Telheiras XXI.

Quanto a este último, o programa foi definido com vista a melhor orientação solar das tipologias, tendo havido uma preocupação de integração urbana e da ligação das várias escalas/ linguagens das construções envolventes. A imagem do edifício foi definida na relação com o edifício de Equipamento - Escola, e na definição de medidas passivas para o controle da incidência solar e a relação dos espaços interiores do edifício com áreas e varanda e jardins, e a introdução de iluminação natural em todos os espaços de habitação (através do prolongamento/ continuidade dos espaços).

O Edifício de Habitação Telheiras XXI, foi o primeiro edifício de habitação em Lisboa da EPUL com sistema colectivo de captação de energia através de painéis solares, anteriormente à entrada em vigor da actual legislação do RCCTE, procurando-se compatibilizar a Instalação de painéis solares com a imagem do edifício e adaptando as suas áreas técnicas. Este sistema de painéis solares está a ser monitorizado, para aferição dos resultados da sua contribuição para a eficiência energética do edifício.



Fig. 02: Fotografia aérea 3D http://maps.live.com; Fotografia EPUL

Já quanto à Obra de Reabilitação, a EPUL entende que as estratégias de sustentabilidade passam para outro plano. A obra de reabilitação já não é totalmente condicionada por esta temática, mas sim parcialmente, estando sujeita à temática da integração no Bairro e Cultura locais, que podem ser igualmente sustentáveis.

Para a EPUL a reabilitação é por natureza, ou por defeito, um acto sustentável de edificar, não tendo que aplicar “gadgets” para que um edifício seja considerado um edifício sustentável, porque por um lado, reaproveita, recupera e recicla, e por outro, assenta numa base cultural e local, integrada no meio do tecido urbano. Neste conceito, Reabilitar Edifício de um forma Sustentável, é também regenerar o tecido social e revitalizar a economia local, reduzindo o seu impacto ambiental, com viabilidade económica e promovendo a inclusão e coesão social (equipamentos e infra-estruturas, acção social e parcerias).



Fig. 03: Fotomontagens EPUL - R. Alecrim, 22; R. Corpo Santo, 2-8; R. Ferragial, 9-13.

Com a reabilitação integrada de 3 edifícios na Rua do Ferragial em Lisboa, Programa Repovoar Lisboa, a EPUL e destinados a 3 segmentos do mercado habitacional distintos – Segmento Alto, Jovem e Médio, a EPUL manteve a maioria da estrutura existente e o aproveitamentos dos materiais, com consideráveis reduções de resíduos, privilegiando uma correcta orientação solar e a ventilação transversal de todas as tipologias.



Fig. 04: Imagem Maquete cedida por Appleton e Domingos, Arquitectos Lda.

Na promoção do Concurso de Ideias Limitado para a intervenção nos edifícios do Conjunto Edificado da Rua da Rosa e Rua 51 a 57 e Rua Luz Soriano 44 a 52, a EPUL deu abertura às equipas projectistas para a definição programática, sendo o principal objectivo a Integração Urbana e a Flexibilidade das fracções habitacionais, mantendo em termos gerais a estrutura existente.

Este processo envolveu a Junta de Freguesia e a Unidade de Projecto do Bairro Alto na análise das propostas, sendo o projecto vencedor o da equipa projectista Appleton e Domingos, Arquitectos Lda. Esta proposta foi valorizada nas vertentes de relação com espaço público e envolvente do bairro, na relação das áreas comuns do edifício com as fracções habitacionais, na abertura de uma área de logradouro introduzindo iluminação e ventilação em todas as fracções, na criação de uma imagem de referencia para o conjunto, na flexibilidade do desenho das fracções habitacionais, Lofts, e no aproveitamento dos materiais existentes. Entende-se que a solução encontrada confere durabilidade ao edifício, na sua relação com o Bairro Alto, podendo adaptar-se a vários usos.



Fig. 05: elementos de Estudo EPUL - Rua de São Pedro Mártir.

O estudo de reabilitação para a Rua de São Pedro Mártir, pretende recuperar um conjunto edificado em estado devoluto localizado numa área histórica da cidade, resolvendo a relação com a envolvente e introduzindo iluminação em todos os espaços do conjunto, procurando conjugar um programa de habitação com um programa de equipamento de apoio ao Bairro e a criação de uma imagem de referenciação do conjunto. A manutenção da envolvente exterior dos edifícios, preservando o contexto histórico, procura relacionar a imagem do conjunto histórico da Mouraria com a imagem dos edifícios construídos recentemente no Largo do Martim Moniz. Encara-se esta intervenção, como um protótipo de sustentabilidade, tanto na introdução e integração de medidas solares passivas e de sistemas energéticos alternativos, como na relação do conjunto com a envolvente.

Da obra nova à reabilitação, são traçados e testados os caminhos da sustentabilidade, sendo os exemplos apresentados fruto da pesquisa, da experiência e da produção da EPUL.

Sara Ribeiro e João da Veiga Gomes

Notas Bibliográficas:

“Relatório Provisório sobre a “Sustentabilidade em edifícios e espaço público”, EPUL, 2005

“Documento Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável”, EPUL, Junho 2008

Sara Ribeiro, arquitecta pela FAUTL desde 2002, colaboradora da EPUL desde 2002, entre 2004 e 2005 foi monitora da cadeira de Arquitectura 1 na FAUTL. - João da Veiga Gomes, membro fundador do GH – Grupo Habitar, arquitecto pela FAUTL desde 1990, tendo sido bolseiro Erasmus em Milão em 1989, Mestre pela FAUTL em Arquitectura da Habitação em 2001, é Gestor de Projectos da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa, EPUL desde 2006.

Edição no Infohabitar por José Baptista Coelho
Lisboa. Encarnação – Olivais Norte, 23 de Fevereiro de 2009.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Uma cidade atraente feita de densidades vitalizadoras - Infohabitar 234

Infohabitar, Ano V, n.º 234


Uma cidade atraente feita de densidades vitalizadoras
António Baptista Coelho

viver a cidade, cidade coesa, cidade e vizinhança, cidade densa, cidade vitalizada, cidade atraente, cidade motivadora, Norberg-Schulz

Série habitar e viver (melhor), V: Uma cidade atraente feita de densidades vitalizadoras

Segundo Christian Norberg-Schulz, o encontro implica proximidade e densidade em termos espaciais, e este autor defende, também, que o encontro, a convivialidade, podemos dizer, decorre também da variedade – uma ideia que muito longe nos leva quando nos lembramos dos grandes conjuntos repetidos até à náusea; e Norberg-Schulz sublinha que uma tal exigência de variedade obrigará, simultaneamente, a um cuidar específico da unidade e da caracterização, isto para que se salvaguarde a, sempre fundamental, criação de uma totalidade, um lugar.

E é, ainda, Norberg-Schulz que defende que a densidade não chega para a criação dessa totalidade, é necessária a continuidade urbana, uma continuidade marcada pela densidade e por uma diversidade equilibrada, e, afinal, uma experiência urbana é descrita com termos como os seguintes: dentro, entre, sob, sobre, à frente, atrás, perto de, termos que indicam uma organização espacial variada, mas integrada (1).

A densidade está na ordem do dia, começou a estar na mente de muitos, há alguns anos, por razões talvez formais, talvez sociais, e hoje em dia as razões da economia e da duplicação dos preços dos combustíveis trouxeram a densidade ainda mais para a ordem do dia.

É interessante pensar que o redescobrir da densidade aconteceu numa altura em que a www estava a marcar a nossa vida e as nossas redes de relações, possibilitando, exactamente, o reino individual de cada um no seu castelo longe de quase todos os outros, fisicamente, entenda-se! Será que não foi uma certa nostalgia desse contacto físico e uma nostalgia que nunca o foi num pequeno grupo de arquitectos urbanitas que terá feito renascer essa fome de densidade física e de verdadeiro espectáculo urbano, ainda antes dele ser funcional e economicamente necessário?

Estas questões da densidade têm muito a ver com toda a matéria da imagem urbana, que, por sua vez, tem tudo a ver com uma verdadeira qualidade arquitectónica aplicada, cuidadosamente, ao desenho urbano de pormenor, o que significa que é possível densificar mais do que o correntemente previsto, com ganhos habitacionais evidentes, em termos de proximidade a zonas centrais e vitalização e convivialidade na cidade, e também com ganhos para uma imagem da cidade mais rica, mais diversificada e estimulante, mas, para tal, não basta qualquer desenho de arquitecto, pois este patamar de resultados só será possível com a intervenção de uma Arquitectura muito bem qualificada e, simultaneamente, com exigentes e estratégicos controlos dessa mesma qualidade arquitectónica.

E, naturalmente, que todo um processo como este não é compatível com quaisquer tipos de soluções pré-feitas e repetidas de outros sítios, para outros sítios e para outros habitantes; estas intervenções têm de ser fatos bem à medida e fatos de grandes alfaiates, é o mínimo que se pode exigir para acções que vão marcar e, desejavelmente, revitalizar e enriquecer, culturalmente, partes centrais e estratégicas da densidade, e só assim se entenderá que em tais sítios, com tais tipos de objectivos e com tão elevado patamar qualitativo se aceite a ultrapassagem das densidades correntemente aceites, até porque, necessariamente, tais soluções terão de ter a arte para, mesmo com mais densidade, não transigirem nos aspectos fundamentais de segurança, privacidade, acessibilidade, conforto ambiental no exterior relação com a escala humana e convivialidade; e será até possível dizer que tais soluções de densificação são, em boa parte, baseadas, exactamente, na necessidade de melhoria deste mesmo amplo e exigente leque de condições.
Passemos então, sinteticamente, em revista estes tipos de condições, que se considera poderem ser associadas a intervenções com densidades significativas.

Mais de que limites impostos pelo afastamento entre edifícios os aspectos a ter em conta devem privilegiar as condições mais adequadas de relacionamento entre a vida doméstica e a vida urbana, no espaço público, e nesta matéria uma importante limitação está na situação de as crianças perderem a percepção da proximidade do solo, desde que estando acima de seis pisos e Sidónio Pardal sublinha que, a partir desta altura, "diminui, de algum modo, a percepção telúrica da casa" (2); ora, perder-se esta percepção de ligação com a terra e com o espaço público deveria ser um elemento condicionador de uma equilibrada, mas afirmada, densificação da cidade.

De certa forma há aqui um encaminhar para soluções urbanas não muito altas, mas que atinjam uma muito significativa densidade habitacional através de um desenho ele próprio denso e muito trabalhado. E nesta perspectiva há que sublinhar que uma zona com alta densidade e baixa altura proporciona um carácter urbano intenso e contínuo, com edifícios bem próximos uns dos outros (3), desde que não se prejudicando aspectos essenciais de conforto em termos de luz natural, ventilação e relativo sossego acústico. E é até possível referir que uma malha deste tipo será climaticamente muito adequada durante o Verão, não sendo sentida como excessiva em termos formais, até porque se entenderá, directamente, a razão de ser climática dessas ricas e orgânicas densidades.



Fig. 01: Alfama em Lisboa, mas poderia ser a zona antiga de qualquer outra cidade portuguesa.

Os exemplos da arquitectura tradicional citadina portuguesa oferecem, naturalmente, um manancial inesgotável de soluções com este tipo de condições, mas não se está a fazer, aqui, nenhum manifesto revivalista, pois é possível e desejável fazer novo com tais objectivos globais.

Continuando a aprofundar esta ideia de mais densidade sem altura excessiva e visando-se o objectivo central, neste livro, de espaços urbanos vivos e plenamente satisfatórios consideram-se, em seguida, alguns aspectos de imagem urbana e residencial de pormenor, muito influenciados por estudos ingleses nestas matérias (4).

A densificação deve suportar, fisicamente, uma condição de equilibrado e muito reduzido atravessamento de cada núcleo urbano, proporcionando-se um certo sentido de protecção física e psicológica de quem ali vive relativamente ao exterior urbano. Não se defende aqui a criação de ilhas, mas sim de espaços de vizinhança urbana cujas ligações privilegiadas à cidade sejam essencialmente dominadas pelos seus residentes, onde os veículos da envolvente não dominem e onde os estranhos possam ser naturalmente identificados e visualmente acompanhados, condições estas óptimas para um uso da rua intenso por crianças e idosos; e nesta matéria são óptimas as soluções muito densificadas e com grande número de vãos domésticos bem relacionados com o nível da rua.

Há um conjunto de aspectos que sempre marcam soluções urbanas e residenciais que harmonizam densidade, identidade positiva, funcionalidade, vitalidade urbana, sentido de vizinhança e um conjunto de qualidades diversificado que podemos sintetizar na ideia de agradabilidade residencial (ex., sossego, equilíbrio de temperaturas, privacidade, segurança, boa gestão local, etc.); entre tais aspectos lembram-se, desenvolvem-se e comentam-se, em seguida, aqueles que referi num estudo editado no LNEC em 1998 (5):

. Evitar o atravessamento integral da “nossa” zona residencial, tanto por veículos a ela estranhos (ruído, insegurança, poluição, incómodo nocturno devido aos faróis), como por caminhos pedonais com grande continuidade urbana (evitar contactos entre crianças e estranhos à área de residências); evitando-se, até, evidenciar as ligações ao “exterior” da “nossa” zona.

. Onde haja intenso movimento pedonal, a aproximação final a cada grupo de fogos (até cerca de 20), deve ser feita para servi-los exclusivamente; construindo-se, assim, um sentimento de pertença e de identidade que poderá ajudar a equilibrar alguns aspectos menos positivos da densificação.

. As distâncias entre veículos e entrada do edifício habitacional devem ser cuidadosamente consideradas, harmonizando-se as desvantagens ambientais com as vantagens funcionais; e atenção que a densificação implica um potencial de uso rodoviário muito intenso e que só será possível privilegiar o peão, com êxito, se o estacionamento e os tráfegos de veículos estiverem adequadamente resolvidos.

. Os grupos de estacionamentos publicamente visíveis não devem exceder um determinado número de unidades em cada localização; caso contrário a paisagem urbana perde boa parte da sua qualidade.

. O recreio de crianças em espaços públicos deve merecer toda a atenção, constituindo-se, mesmo, em um dos elementos urbanos estruturadores das soluções; e atenção que em zonas densificadas esta questão tem de ser objecto de cuidados reforçados – e quem visite as “células sociais” de Alvalade, em Lisboa, com os recreios das suas Escolas Primárias e os seus jardins de vizinhança bem rodeados de habitação e sem tráfego de atravessamento entende como é bem possível respeitar esta condição.

. Desenvolvimento de espaços mistos (peões e veículos) agradáveis e atraentes ("amenity open spaces"), conjugando caminhos e acessos de veículos, áreas pavimentadas e ajardinadas, caracterizadamente multifuncionais e em favor do recreio livre e seguro das crianças. De certa forma e sinteticamente trata-se de fazer o espaço público residencial de vizinhança do habitar, no respeito dos seus condicionalismos próprios de durabilidade e de equilíbrio ambiental e paisagístico, mas caracterizados por uma amenidade e uma atractividade que estejam, claramente, ao serviço de um habitar o exterior, em segurança e com agrado, por todos os habitantes, sendo que as crianças são os habitantes mais exigentes. E atenção que a densificação obriga a cuidados específicos em termos de tipos de arranjos, durabilidade e gestão.



Fig. 02: o sempre presente exemplo citadino e residencial de Alvalade, em Lisboa, um excelente projecto urbano densificado e de baixa altura, do arquitecto urbanista Faria da Costa, cerca de 1940.

Referi no citado estudo do LNEC que o agrupamento de fogos sem ser em blocos contínuos e uniformes tem vantagens para a privacidade, para a redução do número de utentes por zona exterior equipada e para o consequente aumento da identificação com o sítio de residência. Mantenho a ideia claramente, mas clarifico-a sublinhando que a referência a “blocos contínuos e uniformes” corresponde às soluções em que se projectam edifícios repetidos e desligados dos seus sítios de implantação, enquanto, pelo contrário, é fundamental que a continuidade do edificado e a respectiva continuidade de espaços exteriores sejam projectadas em total integração; nada de mais, é assim que se deve fazer sempre, podem comentar, mas bem sabemos que entre o que se deve e o que se faz há grandes diferenças, mas tenhamos a certeza que em qualquer caso e, muito mais, quando se pretende densificar um determinado conjunto, é essencial um projecto a três dimensões que tanto configure, pormenorizadamente, o edificado como os espaços livres que lhes são contíguos, uma opção que, por sinal, é também fundamental para se criarem espaços interiores e exteriores com melhores condições ambientais (insolação, ventilação, luz natural, resguardo acústico).

Finalmente, quando se densifica é essencial salvaguardar as questões de privacidade e nestas as relações com zonas pedonais são, habitualmente, críticas, devendo ser objecto de um cuidadoso projecto que assegure distâncias mínimas a vãos domésticos e a respectiva protecção, em termos de interposição de barreiras e de elementos de bloqueio da intrusão visual exterior.

Nestas questões de densidade é de grande importância considerar, por um lado, os aspectos de conforto ambiental e de microclima e, por outro lado, as questões ligadas à distância inter-pessoal, estudadas por Claude Lamure (6), pois muito de uma boa solução de densificação, ou muitos dos possíveis problemas com a densidade, têm a ver com uma dupla adequação climática/ambiental e social.


Fig. 03: e os bons exemplos de uma densificação urbana bem humanizada continuaram, tal como aqui na agradável e bem integrada Unidade Residencial João Barbeiro, em Beja, projecto dos arquitectos Raul Hestnes Ferreira e Manuel Miranda, cerca de 1984.

Para concluir, para já, esta breve reflexão sobre os aspectos de densificação urbana lembramos um interessante estudo de Bartolomeu Costa Cabral (7) onde este projectista verificou que a percentagem de ocupação da construção (8) é determinante para a definição do número de pisos, e comparando as percentagens utilizadas em diversos empreendimentos realizados pela Federação das Caixas de Previdência durante os anos 60 com as que podem ser calculadas em zonas antigas, obteve valores muito diversos: 12 a 13% para as primeiras e 50 a 60% para as segundas. E o referido autor continua o seu raciocínio considerando que todo o terreno livre tem de ter um destino definido e, assim, implica um custo que incide também sobre os fogos desenvolvidos e conclui que um conjunto residencial será tanto mais económico quanto maior for o número de fogos e a sua percentagem de ocupação, valor este que, como refere Bartolomeu Costa Cabral, “tem de ser compatível com todas as necessidades de espaço livre”.

E, pouco mais à frente (9), o mesmo autor aponta, referindo estudos ingleses, que “entrando apenas com certos «standards» de afastamento, as formas de maior «rendimento» são as de tipo páteo, seguindo-se as de tipo banda e por último a forma pontual, dado que permitem regressivamente maior percentagem de ocupação de solo.”E, logo a seguir, ainda o mesmo autor refere como aspectos limitativos da densificação as questões de estacionamento superficial, jogos e logradouro, “independentes das formas de agrupamento”.

Se nos lembramos que, na altura, havia uma forte limitação em todo este processo, por quase ausência de desenvolvimento de garagens subterrâneas de estacionamento (situação que ela própria dá que pensar, transpondo-a para situações actuais de garagens que foram feitas e que estão fechadas), somos levados a concluir que há, hoje em dia, uma clara potencialidade de desenvolvimento de soluções densificadas, desde que aproveitando, e bem, os espaços e os equipamentos da cidade consolidada e cerzindo o espaço urbano e desde que tais soluções sejam feitas com uma qualidade arquitectónica verdadeiramente garantida, caso contrário nem vale a pena pensar em densificar pois os resultados podem ser verdadeiramente catastróficos; e o leitor acredite que não tenho quaisquer dúvidas nos benefícios potenciais da densificação seja para uma cidade mais feliz seja para habitantes mais felizes, mas não podemos neste caso ter quaisquer dúvidas em termos da qualidade das intervenções pois há “em jogo” muitas vidas e partes estratégicas da cidade.

E para rematar, para já, esta matéria e lembrando a indicação de Bartolomeu Costa Cabral relativamente a uma extensa zona de implantação, devemos afirmar que uma solução deste tipo, para além de permitir alturas baixas, torna praticamente obrigatório o tratamento dos exteriores (10), pois, afinal, acaba por sobrar “pouco” para o espaço público, e sendo pouco ele será quase obrigatoriamente tratado.

Notas:
(1) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 55.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 69.
(3) National Board of Urban Planning, "Bostadens Grannskap (Housing Environment), Recomendations for Planning".
(4) Greater London Council, "Low Rise High Density Housing Study".
(5) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA n.º 2.
(6) Claude Lamure ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 56 e 57) considera a seguinte tabela de distâncias interpessoais: íntima, de 0 a 0.50m; pessoal, de 0.50 a 1.25m, considerando-se que abaixo de 0.75m é possível agarrar alguém, simplesmente, estendendo-se os braços e que até 1.25m é sempre possível o apertar de mãos (cumprimento formal); social, de 1.25 a 3.50m, considerando-se que até 2.10m se situa a distância da conversa informal e da clara visibilidade da fisionomia dos parceiros de conversa, enquanto entre 2.10 e 3.50m de distância entre pessoas, as conversas tornam-se formais e a atenção abarca toda a silhueta humana e não especificamente a cara; e pública, acima de 3.50m; mas devendo, sempre, respeitar-se os limiares básicos de 1.25m (possibilidade de apertar mãos) e de 1.50m (2x0.75m), que é o limite de segurança mútua relativamente ao acto de agarrar o outro, estendendo os braços.
(7) Bartolomeu Costa Cabral, "Formas de Agrupamento de Habitação", pp. 18 a 20.
(8) Id. Ibid, p. 18 - “Percentagem de ocupação da construção: ou seja uma relação entre a soma das áreas de implantação dos diferentes edifícios e a área do terreno considerado.”
(9) Id. Ibid., pp.19 e 20.
(10) Claire e Michel Duplay, "Methode Ilustrée de Création Architecturale", p. 134.

Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 16 de Fevereiro de 2009
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Equipar o habitar, habitar os equipamentos – requalificar os equipamentos sociais - Infohabitar 233

Infohabitar, Ano V, n.º 233

Equipar o habitar, habitar os equipamentos – requalificar os equipamentos sociais
António Baptista Coelho



Fig. 01


Os equipamentos do habitar

Os equipamentos de utilização colectiva são as edificações e os espaços não edificados afectos à provisão de bens e serviços destinados à satisfação das necessidades colectivas dos cidadãos; e sublinha-se que estas necessidades colectivas correspondem a um conjunto dinâmico reconhecido em cada momento no quadro político e normativo.

Esta é uma perspectiva institucional e interessante pois, hoje em dia, a cidade tem uma dinâmica que se deve reflectir nos novos equipamentos sociais, quer porque os habitantes da cidade actual precisam de apoios que antes aconteciam no seio da família, quer porque a cidade de hoje está muito envelhecida, e os idosos precisam de apoios, quer porque a própria cidade que saiu da miragem funcionalista é uma cidade um pouco doente, em que os bairros, as vizinhanças e os centros precisam de equipamentos que qualifiquem o habitar como muito mais do que um simples abrigo.

E aqui há todo um caminho a seguir seja nos novos equipamentos seja nas acções de requalificação dos muitos já existentes.


Fig. 02

O habitar num sentido completo/amplo

Cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade. E neste sentido entendido como diversas entidades, por exemplo: habitar-habitar; habitar-trabalho; habitar-escola; habitar-apoio a idosos; habitar-comércio vitalizador; habitar-convívio, etc.

Já passou o tempo das especializações funcionais sem sentido urbano e sem carácter humano, já passou o tempo dos enclaves dos bairros sociais estigmatizados, porque isolados e tristes, já passou o tempo das zonas de escritórios que afinal à noite se transformam em cidades mortas, já passou o tempo do isolamento dos nossos idosos em sítios que de lar só têm o nome, e que quando são bons são caros e mesmo assim, tantas vezes são simulacros de hospitais, sem carácter doméstico; afinal já se fez mal, muitas vezes, mas parece que já se percebeu que a cidade é criticamente alérgica a tais sítios marcados por funções únicas, pois a cidade verdadeira é a da mistura, da polivalência, e da convivência de actividades e de pessoas diversas.

Os equipamentos sociais devem fazer parte integrante de um tecido urbano bem vivo, e para isto há que os qualificar como espaços habitados que devem ser acolhedores, além de funcionais, e como elementos vitalizadores das respectivas vizinhanças urbanas, onde a sua presença tem de ser activa e não pode resumir-se aos velhos raios de influência funcionalistas.


Fig. 03

A integração dos equipamentos num habitar urbano vivo: os equipamentos correntes; e os terceiros espaços

E assim, os equipamentos sociais para serem globalmente sustentáveis, também em termos sociais e urbanos, devem fazer parte do tecido da cidade viva, participando nessa vida e nunca a prejudicando seja pela criação de quebras na continuidade urbana, seja pela sua absurda localização em edifícios segregados do resto da cidade.

E portanto, quando pensamos nas vizinhanças urbanas, que são as células de uma cidade viva, elas devem integrar, além das habitações, pequenos equipamentos adequados ao serviço das diversas necessidades dos habitantes, mas também ao estímulo do convívio natural e mesmo de uma verdadeira extensão do habitar para além das paredes da casa de cada um.

São os pequenos cafés e restaurantes estrategicamente situados em esquinas e passagens, que tornam a cidade mais habitada e segura e que se podem tornar verdadeiros terceiros espaços das nossas casas, com vantagens para uma vida pessoal, familiar e urbana mais rica e estimulante, mas também é todo um amplo leque de outros equipamentos que podem prestar serviços específicos, mas onde seja também possível o estar e o convívio espontâneo, quando se leva a roupa a engomar, quando se acompanha o filho à escola, quando se vai ao ginásio, etc., etc.



Fig. 04

As novas formas de habitar: o habitar como um serviço diversificado; e o habitar apoiado

Entrando, agora, nos edifícios importa sublinhar que os equipamentos podem conjugar-se, intimamente, com os espaços do habitar através de uma grande diversidade de soluções habitacionais; pois podemos ter:

. desde habitações correntes, mas que possam ser facilmente servidas por apoios habitacionais e de saúde;

. às soluções residenciais em que se integram diversos menus de serviços comuns;

. às soluções residenciais em cuja vivência se misturem, com a máxima naturalidade, pessoas sem quaisquer necessidades em termos de apoios habitacionais e vivenciais, mas que desejem um tipo de vida diária potencialmente mais gregário, e pessoas que tenham necessidades em termos desses apoios;

. até soluções residenciais marcadas por exigências específicas e críticas em termos de apoios habitacionais e vivenciais;

. e, naturalmente, soluções de grande ligação entre actividades residenciais e outras de grande apoio de saúde e hospitalar.



Fig. 05

A integração do habitar nos equipamentos: os recantos humanizados, os serviços humanizados

Há ainda uma terceira via da ligação entre equipamentos e habitação, que tem a ver com a expressiva caracterização residencial que deve marcar muitos dos espaços comuns e privados de um grande leque de equipamentos sociais com valências habitacionais.

Quando até os hospitais humanizam e diversificam os seus tradicionais ambientes esterilizados e uniformizados, não há qualquer justificação para se manter esta opção triste e monótona em tantos espaços onde há que harmonizar actividades residenciais, de lazer, formativas e culturais, com algumas actividades nas áreas da habitação apoiada e do apoio à saúde; misturas estas que caracterizam muitos dos equipamentos sociais existentes e dedicados ao apoio aos idosos, às crianças e às pessoas com deficiência.

O que estas pessoas precisam, nos espaços onde passam boa parte do dia ou mesmo todo o dia, é um ambiente caracterizadamente residencializado, caloroso, apropriável, envolvente, protector, ambientalmente confortável, seguro, atraentemente ligado com o exterior e a natureza e estimulantemente relacionado com uma cidade verdadeiramente amigável.



Fig. 06

Aprofundamento da qualidade vivencial e urbana dos equipamentos

Registam-se agora algumas notas, a considerar numa tónica de dinâmico aprofundamento da qualidade urbana e residencial das acções de qualificação (novos equipamentos) e requalificação (equipamentos existentes) dos equipamentos sociais:

. É importante dar relevo à amplitude do conforto ambiental na satisfação habitacional; pois se considerarmos que se os aspectos ligados à iluminação natural, ao conforto térmico, á ventilação e ao isolamento acústico determinam significativamente essa satisfação no caso da habitação corrente, o que acontecerá quando nos referimos a habitação para pessoas com diversos condicionamentos? E, assim, há que ter em conta esta situação, em cada intervenção, não apenas de uma forma global e impessoal, mas sim ao nível do pormenor, com reflexos directos nos diversos espaços mais usados dos equipamentos, melhorando-os em termos de aspectos de humanização e domesticidade – o que implica uma atenta e sensível intervenção nos respectivos espaços interiores.

. Há que ter muito cuidado na escolha de elementos de mobiliário e de equipamento, bem como na sua associação mútua, criando-se ambientes de vivência, bem adequados não apenas em termos funcionais e de durabilidade, mas também numa afirmada contribuição para a construção de ambientes sossegados, intimistas, envolventes e residenciais. E nesta sequência de ideias a muito positiva previsão de equipamentos e de espaços adequados à dinamização do uso de computadores deve ser bem harmonizada em termos de ambientes interiores.

. Quanto à segurança importa sublinhar três aspectos: um deles refere-se à necessidade de se proporcionar segurança efectiva contra incêndio e contra intrusões reduzindo, ao máximo, o impacto visual e ambiental de tais medidas para quem usa os equipamentos e neles habita, de forma a manter-se a referida residencialização global com um mínimo de estigmas e de sentido de reclusão; outro aspecto tem a ver com a atenção muito especial que deve ser dirigida para as condições de evacuação e acessibilidade dos equipamentos em acções de emergência; e o último aspecto tem a ver com a ideia de que as boas condições de segurança contra incêndio e contra intrusões estão ligadas a uma adequada integração e vitalização urbana, enquanto, pelo contrário, equipamentos segregados são basicamente pouco seguros.

. É fundamental que os espaços e equipamentos pormenorizados desenvolvidos sejam razoavelmente versáteis, de modo a poderem ser adaptáveis à mutação dos utentes, à evolução dos usos, à alteração das soluções de intervenção social e mesmo à evolução das necessidades gerais e pormenorizadas em termos de equipamentos sociais.

. Finalmente, lembra-se que os objectivos específicos de muitos equipamentos sociais defendem, quer o estímulo à integração e inclusão urbana dos seus utentes, quer a abertura à comunidade dos próprios equipamentos, o que será possível e desejável através da oferta de apoios a diversas actividades que possam atrair alguma vida urbana para os equipamentos. Condições estas que devem ter reflexo seja ao nível do serviço de transportes públicos, seja no apoio ás deslocações a pé, mas também num arranjo envolvente humanizado, bem naturalizado, protegido do tráfego rodoviário e vitalizado. E em associação com estes cuidados, importa aprofundar o desenvolvimento e equipamento dos espaços exteriores privativos dos equipamentos.

E não é possível deixar aqui se sublinhar que em todos estes aspectos da intervenção nos equipamentos sociais novos ou preexistentes é fundamental a contribuição de uma intervenção arquitectónica sabedora, sensível e bem pormenorizada, uma intervenção que será, sem dúvida, uma mais-valia seja em termos dos referidos aspectos vivenciais e urbanos, seja considerando a maior eficácia económica e social dos investimentos dirigidos para estas intervenções; e não tenhamos dúvidas que este caminho, mais do que uma necessidade será um verdadeiro trunfo em termos de uma melhor intervenção, pois sob a capa de uma aparente facilidade e simplicidade das acções escondem-se aspectos físicos e sociais, funcionais e afectivos, que exigem, frequentemente, soluções pequenas em dimensão, mas complexas na sua constituição e potencialmente associadas a aspectos de satisfação e de segurança muito importantes.



Fig. 07

Notas conclusivas

Termina-se com o reforço da ideia de que faz todo o sentido assumirmos uma percepção do habitar com um sentido amplo, que cuida da estratégica disseminação dos equipamentos numa cidade que por eles possa ser vitalizada; e lembro que nas cerca de 40 tipologias de equipamentos sociais existentes, quase 2/3 estão directamente ligadas a aspectos do habitar.

Acredita-se que o presente e o futuro estão na diversidade de soluções de habitar, preenchendo e vitalizando os vazios da cidade, assim como estão numa ampla família de equipamentos sociais vitalizadores dessa cidade e onde todos nós nos possamos sentir agradavelmente em casa, uma casa atraente e protectora, e na cidade, uma cidade amigável; afinal tanto os ambientes habitacionais monótonos, repetitivos e tristes, como os equipamentos sociais com ambientes frios e uniformizados têm de ser soluções passadas e não mais repetidas, pois o caminho é o da humanização e de uma sensível diversificação.

E deixam-se sinceros votos do melhor êxito para o novo e bem-vindo Programa da Câmara Municipal de Cascais, no âmbito da fundamental requalificação dos equipamentos socais, numa adequada perspectiva ambiental e socialmente sustentável.


Artigo concluído em 8 de Fevereiro de 2009

Nota explicativa e complementar:

O texto aqui editado integrou uma apresentação pública que aconteceu no dia 6 de Fevereiro de 2009 no Centro Cultural de Cascais, por ocasião do lançamento do programa Requalifica Five, da Câmara Municipal de Cascais, um programa destinado a apoiar e incentivar a requalificação integrada e amplamente qualificada de um grande número de equipamentos sociais existentes no concelho de Cascais.
Nesta apresentação foi sinteticamente abordado um estudo em desenvolvimento no Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil destinado à elaboração de Recomendações Técnicas para diversas valências de equipamentos sociais (novos equipamentos e melhoria de equipamentos existentes), realizado no âmbito de um protocolo de Cooperação Técnica e Científica entre o LNEC e o Instituto de Segurança Social, com financiamentos comunitários.


Edição no Infohabitar, por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 9 de Fevereiro de 2009

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Porque Morrem as Cidades os Velhos e as Árvores. Porque Morre e um País - Infohabitar 232

Infohabitar, Ano V, n.º 232

Conclui-se, em seguida, a edição de um grande artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos, um dos colaboradores que há mais tempo e mais intensamente têm partilhado esta nosso aventura editorial que está prestes a fazer que está prestes a fazer quatro anos de actividade ininterrupta.

Foi realmente em 21 de Fevereiro de 2005 que se iniciaram as edições semanais do Infohabitar e hoje contamos com mais de 230 artigos organizados em 20 temas, que correspondem a cerca de 2500 páginas ilustradas, que estão sempre disponíveis e que são diariamente consultados por cerca de 200 leitores; os page-views aproximam-se já dos 200.000 .

Tentaremos marcar os nossos jovens quatro anos de edição com um artigo um pouco mais significativo, o que será difícil após este triplo artigo da Celeste Ramos, e volta-se a convidar os leitores para a participação com o envio para os mails abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com de textos em Word com imahens jpg em ficheiros anexos.

E fiquemos, agora, com a terceira e última parte do artigo:
“PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES PORQUE MORRE UM PAÍS”.

E lembremos a razão de ser deste artigo, em algumas palavras da autora:

“Só o fiz por prazer e AMOR ao meu País e à minha e CIDADE
Por vezes RAIVA é uma forma de gostar
E quem GRITA não é por não gostar dos OUTROS – é por SOFRIMENTO do que só se vê a forma mas não a essência do grito e eu que vivi uma vida inteira a calar o meu GRITO interior, felizmente que grito para não rebentar”

E boa leitura,

A direcção do Infohabitar


PORQUE MORREM AS CIDADES
OS VELHOS E AS ÁRVORES
PORQUE MORRE UM PAÍS – III

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Arquitecta paisagista


A cidade na totalidade das suas virtudes

A cidade na totalidade das suas virtudes mas, opostamente, também dos seus pecados, e sendo que, quem vive ainda “fora dos centros urbanos”, quantas vezes, ao ter de os visitar, não importa por que razões, se cansa e acusa a insanidade urbana na poluição do ar e do som, nas corridas infernais do trânsito e da ausência de tempo que a cidade vai provocando, tornando o viver mais uma vez desumano, com limite do crescimento do crime adentro de espaços de habitar, derivando em insanidade e medo colectivo, mesmo tendo passado um século sobre a desordem da Era Industrial. Mas, mais uma vez, novos modelos de regeneração da qualidade de vida urbana se inventam para que a vida não morra nas cidades e para que os espaços, em vez de abrigar e abranger, não se tornem hostis e aumentem os perigos, para nela se poder viver, perigos como o foi séculos atrás, como se todos os fenómenos humanos urbanos se repetissem por ciclos e não pudesse existir “a cidade ideal” para habitar.

Já é do domínio público o aparecimento de novas doenças da cidade principalmente respiratórias mais graves para velhos e sobretudo para as crianças mais novas que desde muito cedo ficam com o handicap respiratório para a vida, porque as cidades se tornaram de novo insalubres, não apenas pela vizinhança de áreas industriais, mas pelo tráfego automóvel imparável, nomeadamente por milhares de camiões TIR que atravessam os Países “sem fronteiras”; sendo que a Suiça, quase País de atravessamento obrigatório de grandes rotas, tentou controlar o tráfego europeu mas não conseguiu; sendo que, com tão grave problema, já se começa a equacionar o uso mais frequente de comboio de passageiros e de mercadorias, para minimizar a poluição que cada País tem de suportar com a “aparente vantagem” de um mundo sem fronteiras mas que afronta a qualidade de vida de outros.

Em paralelo, as populações vão sofrendo fragilidades tornando-as mais vulneráveis a outras doenças, como a gripe, própria mais do Inverno do que do Verão, e que em geral até começa nos Países mais frios e “desce até aos mais quentes”, sendo que em 2008 até começou no nosso País ganhando já a dimensão de epidemia e atingindo 1 milhão de portugueses, o que nunca acontecera, e sendo, mais uma vez, as crianças e os velhos os mais atacados a ponto de precisarem de ser internados, mas para alguns, mesmo tendo-lhes sido dada “alta”, os seus familiares, em Quadra de Natal, não puderam acolhê-los, o que tornou os hospitais uma “casa-refúgio de 3ª idade”.



Fig. 01: a importância das cidades

Cidades e envelhecimento

As cidades não estão preparadas em geral para o envelhecimento global das populações que na Europa atinge já grande percentagem, mais de 17% com tendência para aumentar, já que, por razões múltiplas, nascem cada vez menos crianças, esperando-se o rejuvenescimento das populações através dos nascidos dos emigrantes; numa problemática como se fora um pau-de-dois-bicos, pois que a Europa ainda não conseguiu resolver o problema da sua integração plena e denomina-os de “emigrantes ilegais”, como se entretanto neste milénio se aceitasse o emigrante “sob condição” cada vez mais cruel e a liberdade conquistada na Europa no pós II Guerra Mundial, começasse a desaparecer também.

E este fenómeno fez gerar outro, o da adopção de crianças dos Países mais distantes como a Ásia sobretudo Índia, que praticamente “vendem” os seus filhos, porque não terem condições económicas para os criar e lhes ser “acenado” tratar deles e dar-lhes “um futuro”, o que fez nascer agências de acolhimento dos jovens que por sua vez deram lugar ao aparecimento de agência Internacional sediada na Dinamarca, que é um verdadeiro mercado de compra e venda de crianças para adopção dos países ricos, sobretudo de pais inférteis ou que não querem ter os sacrifícios e custos de inseminação artificial e sendo que as crianças indianas representam, mesmo esfomeadas, um património genético ainda não afectado pela poluição europeia e alimentos químicos que ajudaram a aumentar não apenas a infertilidade humana (o outro lado dos países da abundância), mas até doenças novas de civilização como se o crescimento económico tivesse, também, adulterado os genes humanos e a par das vacas-loucas tivesse transformado os homens em verdadeiros seres transgénicos que, como se sabe, não se reproduzem.

Há no ar um grau de demência civilizacional, pois que a par de um tão recente e mal remendado tratado europeu que recusa no seu preâmbulo a origem judaica cristã e do mandar retirar das escolas o velho Crucifixo símbolo da cristandade, se junta a liberdade de “acasalamento e casamento” entre o mesmo sexo, a par ainda de leis que põem em dúvida a segurança da família e sobretudo da “mãe” e seus filhos, ou outras que libertam o aborto, tentando-se já generalizar a eutanásia, como se a vida fosse reduzida a um código legal de comportamentos sem fronteiras e sem “espaço para prevaricar”, já que a liberdade e libertação é tão total que não sei se a estruturação da personalidade sem quaisquer “baias” não dará o maior caos socio-cultural.


Cidades e jovens

Não sei pensar muito bem sobre o que sucede com os adolescentes e quais as razões do seu comportamento em algumas escolas das grandes cidades.

Mas sei, porque já dava por isso quando dava aulas, que desde os 11 anos os meninos começam a beber álcool quando o seu organismo só está preparado para o processar a partir dos 18 anos. Tomam todo o tipo de drogas leves e até pesadas, entram em coma alcoólico nos fins de semana nas discotecas onde tudo se vende, a libertação dos tabus sexuais conduz a difíceis construções do amor, as escolas demitem-se de marcar faltas aos meninos que vão às aulas, que querem e ouvem os professores que entendem, os meninos de bairros sem qualidade urbana estudam e têm aulas em contentores tão falhos de qualidade como o lugar de habitar, sem espaços de jogos e brincadeiras em locais aprazíveis e em segurança, obtêm carta de condução aos 18 anos quando ainda são crianças irresponsáveis, batem nos pais e gritam aos professores, quando o ensino básico e médio púbico eram de grande excelência e já não é, mas havia livros escolares de certas disciplinas para três anos e agora há para cada disciplina/ano meia dúzia de manuais, que para além de exorbitantemente caros são mal escritos e mal estruturados, e como já li alguns vi ser aí impossível “aprender a gostar de aprender e saber”.

Pais, professores e sociedade não “têm mais tempo”, nem se debruçam sobre cada criatura-menino que vai crescendo mais na rua do que em casa e em condições bem diversas de acordo com a classe sócio-económica dos pais.

A Cidade de hoje oferece o céu e o inferno de mãos dadas e se tanto no Porto como em Lisboa, na Ponte Vasco da Gama, há corridas de carros ilegais e perigosas, onde está a maioria dos adolescentes no fim de semana e será a maioria dos jovens ou apenas os que se vêem? Afinal não se fala sobre os adolescentes senão quando há comportamentos desviados, que no entanto são recentes, mas que no verão 2007 e no 1º semestre de 2008 assustaram o País, sobretudo depois do que se viu ter sucedido no verão 2007 nos arredores de Paris.

São apenas meninos dos “bairros periféricos” das florestas de betão e betuminoso alienantes? Gostava de saber, porque essa juventude será adulta em breve e será população activa e, quem sabe, estará em lugares de decisão.



Fig. 02: cidades novas?

Cidades e emigrantes

E voltando mais uma vez atrás, estes emigrantes são sobretudo oriundos de Leste mas também de África, muitos deles quase “atravessando o continente a pé”, continente que já foi tão explorado pelos países europeus colonialistas e, agora, mesmo depois de serem independentes, não trilham a senda do desenvolvimento, daí resultando problemas dramáticos de “mercado-negro de transporte” para o “mundo rico”, em que a Europa representa mais uma vez o Eldorado, não se contabilizando quantos desses emigrados morrem no mar, e em terra ao atravessar o Shael, que além disso são explorados pelos “passadores” de quem ficam à mercê, fazendo lembrar as grandes emigrações dos portugueses nos anos 60, que a troco de todas as suas economias davam “o salto” e eram igualmente explorados, mas o destino era “aqui perto – a Europa”, embora se possa afirmar que o que se passa neste início do III milénio, atinja nível de crueldade e de mercado que envergonha o próprio Homem.

As cidades que expulsam os habitantes que para não morrerem de fome procuram lugares para trabalhar longe e alimentar as famílias versus as cidades que os recebem e impõem condições mal regulamentadas ou “fecham os olhos” à legalização e lhes permitem a residência para poderem trabalhar (residências que são em 2008 como eram as do início da Era Industrial do séc. XIX), mas com salários a 50% do dos naturais do País que executam o mesmo trabalho, como fazem Inglaterra e Espanha, (havendo meninos e homens portugueses da fronteira que a tal se sujeitam na vizinha Espanha) ,contribuindo para aumento de riqueza mas sem equidade nem lei, como se a Carta dos Direitos do Homem, e os acordos bilaterais entre os países, fossem “letra morta” a que os mais desprotegidos se sujeitam para mal sobreviver.

A cidade não é mais o espaço acolhedor e de mais alegria e conforto de viver, e de esperança, espaço de cultura e de beleza e de acumulação de história da humanidade, mas sim de desqualificação do próprio ser humano porque o “mercado” tomou conta da vida do homem-irmão, que não passa de “mercadoria” de fácil transacção – já não há mais nada para comerciar.

Só que o preço a pagar por esta nova mão-de-obra desqualificada mas abundante, embora entre eles haja também muitos universitários, não é comparável ao fenómeno de “comprar homens” para o futebol, expressão usada igual à de quem compra vacas ou couves – tornando-se o Homem um produto de Mercado.

E quando se pensa em Maddock e na compra do Nasdak e no mercado bolsista entre empresas fictícias, que não existem senão para manusear fortunas que nem se sabe de onde vêm e como foram feitas, dá para pensar em como a cidade dos homens atingiu o maior grau de demência e de insanidade humana e mesmo maldade, porque o TER, não importa como e de quem se saca, dominou o mundo ocidental.


Portugueses deprimidos

No CM de 29 Dezembro de 2008 os números são elucidativos relativamente aos portugueses “sem nome” que se vão suicidando ou entrando em colapso psíquico, sendo que “os psiquiatras estão preocupados com o aumento do número de portugueses deprimidos, uma doença mental que está a afectar cada vez mais pessoas, especialmente nas camadas mais jovens, mas também a gripe que há meses caminha da Ásia até aqui, só num dia fez com que apenas num hospital fossem atendidos 30 mil pessoas com pico no Natal, e de repente lembro um documentário sobre como o vírus “viaja de avião” atravessando continentes, foi dito e mostrado como o vírus contamina os passageiros através da tubagem de ar condicionado que nunca é desinfectada. E no sábado senti, até numa pastelaria (de porta fechada por causa do frio) como o ar estava pesado e infectado.

É sabido que as gripes desta natureza e gravidade conhecem periodicidade embora de longo tempo, mas em 2007 a “gripe das aves asiática” pôs em pânico os portugueses, já que foi recordada a gripe espanhola que matou muitos milhares de pessoas creio que no início do séc XX, e pensava-se poder repetir-se –, mostrando que tudo se globaliza no melhor e no pior, sendo que há cada vez mais razões para repensar como é importante a salvaguarda e minimização dos problemas de saúde pública não apenas com a prevenção anunciada pelo sistema de saúde, mas pela construção da própria cidade.

Saúde pública e saúde social pois que, da mesma forma, o PGR (Procurador Geral da República) afirmou à Rádio Renascença (29 Dezembro) que é grave o aumento de 15 % da criminalidade no País que irá aumentar no País em 2009, derivada também do que já sucede na Europa e derivada, também, do empobrecimento dos portugueses, pelos sucessivos despedimentos e falências de empresas, atrasos no pagamentos de salários e, ainda, pela existência de bairros muito populosos e sem quaisquer condições de vida, sendo bairros de exclusão social – temendo-se rotura social com esse tipo de violência que vai progredindo.

Este problema de violência mais brutal teve início em 2007 com falências (verdadeiras e falsas) continuadas de empresas e da sua deslocalização, fazendo aumentar o número de desempregados, num valor dos mais altos da UE, quando, em 2006, havia a mais baixa percentagem europeia mas não são porém bem classificados os grupos sociais portadores de tal violência já que, em Dezembro em Atenas e alargada a mais cidades, a violência surgiu dos universitários que não conseguiram encontrar emprego, o que igualmente sucedeu nas ruas de Paris.

A esta situação acresce a falência de Bancos e empresas “parasitárias” e o desaparecimento dos depósitos de cidadãos vulgares que perdem as poupanças da sua vida, sendo que o estado depressionário de jovens e de adultos tem muitas origens, não sendo a “cidade” capaz de dar resposta aos cidadãos, haja universitários a mais ou a menos, sendo que porém, não tendo embora lido em lado nenhum, não é em vão que o desemprego aumentou na Europa rica devido à ganância das empresas e governos, que permitiram, como nunca, a deslocalização dos agentes de produção para a Ásia, antes de criar alternativa para os que foram despedidos mesmo com os subsídios dos Fundos de Desemprego.



Fig. 03: cidade doente

A doença da Cidade

O Homem já não tem qualquer valor – só o Mercado dá ordens –, só não se contabiliza os custos em “saúde pública” e sanidade dos habitantes, sendo que também a tendência para privatizar a “doença”

Sim a doença da Cidade – a cidade que mata os seus habitantes está condenada a morrer nas suas mais nobres funções.

Restará o direito ao “grito” enquanto não for “calado” mais uma vez pois que tudo se repete em espiral.

Paralelamente, perante o desmoronar da sociedade, a “Caixa do Pão da Igreja de Santo António” vai ajudando dando pão e 5 euros a cada um dos que aí recorrem e, isto, na UE rica e evoluída, que se pavoneia em Bruxelas e Estrasburgo com os mais altos salários e mordomias pagas pelos impostos dos que entram em depressão.

Mas na situação oposta, e como aconteceu no “fim de ano”, foi habitual a sua passagem fora do País e em destinos tradicionais como Brasil e Caraíbas, Cabo Verde e Madeira, Cuba e México e República Dominicana parecendo assim que há sempre a quem a depressão nunca atinja.

E como uma anomalia nunca vem só, o Presidente da República fez após o tempo de noticiário da TV1 das 20 h de 29 de Dezembro, uma declaração de quatro minutos sobre o “assunto do Estatuto dos Açores” que através de Lei Ordinária se sobrepõe a Lei Constitucional, relativamente aos poderes do PR versus os de uma Região Autónoma, levantando-se querela institucional após 34 anos de democracia, como se o Governo não tivesse mais nada para fazer e governar o País, em vez de inventar problemas onde “tudo parecia bem”, dando voz ao ditado “quando não há pão todos ralham e ninguém tem razão”, não havendo, actualmente, e desde 2000, senão uma acumulação de sucessivos problemas económico-sociais que resvalam e revelam o caos estrutural do País e a incapacidade de governar cidades e homens bem como as mais altas instituições de cuja anarquia são, sempre, os mais afectados, o cidadão comum que quer Pão, Trabalho e Sossego – revelando mais uma tipologia de entre todas as patologias da Cidade.

Um ambiente doente só pode fazer adoecer quem nele habita – plantas, animais, pessoas.

Estaremos talvez em tempos de esgotamento de formas de governação da vida dos cidadãos que serviram até aqui, e que será necessário rever e refazer, refazendo também os actores activos e manifestamente incapazes de sentido de serviço do colectivo e não exclusivamente do aproveitamento para bem pessoal e individual.

A Cidade onde habitam os investigadores e os maiores criadores dos projectos de valor colectivo e que fazem evoluir as sociedades, está desde o início do milénio a gerar os maiores conflitos a um grau de patologias em que apenas uma minoria pode “passar ao lado”.

Das vantagens da abertura de fronteiras, na Europa e logo a seguir em quase todo o mundo, também vem o contraponto desta gripe que se teme, poder “viajar” de avião, não apenas com as pessoas mas com os produtos de importação-exportação, bem como outras convulsões económicas e sociais num total descontrolo, que atingem as maiorias como uma “doença” em cadeia.


O drama das cidades dos homens

Este é o drama das cidades dos homens – das cidades de hoje, não importa em que país do mundo que enriqueceu no tempo “colonial” com a exploração dos recursos naturais de África e com uma “mão-de-obra” nova, gentil e obrigada, e que apenas meio século depois toma outras formas de exploração dos homens, desertificando o continente que agoniza com as doenças mais fatais como a cólera e a tuberculose e sida, e agora a fome, passando pelo comércio das jovens para mercado sexual, ou para a “deslocalização” da licença das multinacionais da indústria de fabrico de medicamentos, das grandes marcas europeias, para fabrico de genéricos contrafeitos e que provocam a morte de muitos milhares de pessoas em África e Índia. Num verdadeiro “filme de horror e morte” com populações que além de terem outra cultura e linguagem, e hábitos, não sabem nem ler nem escrever e são apenas vítimas silenciosas, situação conhecido do mundo ocidental, denunciada apenas por alguns jornalistas “sem medo”, com risco da própria vida.

E voltando ao ambiente urbano diremos que depois há as aves que habitam quase apenas a terra e as zonas húmidas, mas também as que habitam mais os ares do que a terra, sendo que damos mais por elas na altura das grandes migrações nos equinócios da Primavera e Outono, mas há-as também autóctones e ficam-se sempre por ali, no local que a sua espécie elegeu para habitar, viver, reproduzir-se e dar mais vida e beleza, e variabilidade de riqueza aos lugares, não esquecendo as espécies cinegéticas que habitam as matas e que os homens gostam de caçar, mas também as há que adoptaram o meio urbano e a ele se habituaram se encontrarem as condições de coabitação no espaço cada vez mais artificial em que a cidade se tornou.



Fig. 04: o campo cada vez tem menos espaço na cidade, cada vez mais preenchida com betão

Como se o “campo” invadisse parcialmente a Cidade

Como se o “campo” invadisse parcialmente a Cidade, também através de agricultura peri-urbana ou hortas e jardins no miolo de quarteirões antigos da cidade reticulada, onde também podemos olhar árvores de fruto como a figueira e a nespereira, e quantas vezes a oliveira que ficou no interior urbano que se expandiu e se deixou ficar, cada uma a espreitar por cima de altos muros e a darem-nos o tempo de cada estação do ano, a dar forma e perfumes, e cor, escala e flores e “oxigénio” para todos os sentidos, ajudando-nos a renovar ritmos urbanos individuais e colectivos sem disso nos apercebermos, já que o homem da cidade se queixa de tanta chuva e de tanto frio, se queixa dos ramos que lhe entram pela janela, sem pensar nas vantagens da natureza viva dentro da cidade, que a climatiza e humaniza e o ajuda a refazer “humores”.

E tudo começa pequenino e serve o Propósito da Criação e a utilidade dos homens, seja para seu alimento ou pura manifestação de beleza a contemplar e enriquecer a inteligência e alma dos seres que somos, através da sua simples observação e forma de manifestação.

Tudo nasce, tudo se desenvolve, tudo tem um destino e tudo morre, as plantas e os animais, os pássaros e também os homens e os lugares de habitar, tantos deles perdidos no espaço e no tempo, fantasmas de civilizações passadas e locais desactivados do interesse dos tempos, algumas soterradas, outras sítios arqueológicos muito procurados pelo turismo que se debruça, cada vez mais, nos espaços que contam a história dos lugares e dos homens anteriores e que deixaram de ter interesse como locais de troca comercial de que resultava sempre troca cultural.

Mas as eras de evolução do homem levam-no a outros lugares e desde as cidades mais antigas perdidas e ficando apenas no mito, às que desabaram como Ephesus ou foram soterradas como Pompeia no séc. VII a.C., ou com tsunamis tão recentes já neste III milénio como Acheh (27 de Dezembro de 2004) ou Houston (2007) – tudo acontece às cidades como aos homens – nascem e desaparecem por vezes lamentavelmente.

Mas o mesmo adentro do nosso País, como a Bracara Augusta , cidade milenar e mais velha do que a maioria dos países que séculos levaram até definir fronteiras, entre outros Países nascidos tão recentemente, de valor histórico e arqueológico que o mais recente sentido de ordenamento e desenvolvimento condenam para sempre e são património da humanidade desaparecido sabe-se lá por que razão – mas a nossa Bracara Augusta já está debaixo do chão de betão.

Mas podem ainda existir cidades que há séculos se foram implantando e crescendo nos locais que os homens escolheram por razões de amenidade e maior conforto climático, como a fria Guarda, quem diria, pois é a que fica situada no ponto mais alto do País, ali à cota da existência dos Castanheiros que os fogos vão dizimando e fazendo desaparecer a riqueza para os homens explorarem, ou na vizinhança de locais de outros bens de produção alimentar seja à beira mar ou beira-rio, como a maior parte das cidades portuguesas, ou até nos locais mais inacessíveis e também inóspitos, por razões de defesa contra ladrões ou invasores como Almeida ou Valença, Elvas ou Óbidos, dentro de muralhas, mas que já as extravasaram há muito, para mais uma vez retirar dos locais os benefícios convenientes em cada tempo histórico.

Mas debrucemo-nos sobre as cidades que habitamos hoje, não importa de que idade e de que história falam.


Dos velhos e das árvores

E porque se quer falar dos velhos e das árvores começaremos por dizer que a árvore “entrou” na cidade à medida que crescia, já que as cidades mais antigas não precisavam delas porque tinham todo o campo e natureza ali ao debruçar das muralhas.

A cidade cresce não apenas com o aumento das famílias mas também com as migrações internas, ou até mesmo com o afluxo de emigrantes naturais ou estrangeiros que é necessário alojar, e talvez semelhantemente ao afluxo excepcional dos rurais à cidade que começou a industrializar-se, os fluxos de hoje assentam em fenómenos diferentes e mais complexos socio-culturalmente, como não há memória na história do mundo, e gerando, mais uma vez, a desintegração das periferias e a densificação do casco histórico, em superfície e em altura, ajudado agora pelos novos materiais e processos de construção.

É assim incessante o movimento das cidades que quase se tornam ingovernáveis do ponto de vista de planeamento e ordenamento urbano continuadamente, mas sobretudo pela implantação e reorientação dos equipamentos, uniformemente distribuídos no tecido urbano, acessíveis a todas as classes socio-culturais e económicas e das novas exigências da modernidade e diferenças do viver, fazendo das nossas cidades, sobretudo das capitais, uma massa de pessoas desenhando não apenas a maior interculturalidade de sempre com a tendência de integralidade, à medida que os novos habitantes, e os sistemas de política dos governantes, se debruçam sobre os processos de integração e igualização de procedimentos para todo o ser humano que procura os nossos lugares de habitar – espécie de cidade global na variabilidade dos habitantes de todas as proveniências geo-culturais, vivendo no mesmo espaço e sob a mesma lei de civilidade deste País milenar e acolhedor de todas as raças, que desde há séculos aprendeu a conviver e misturar sem complexos.

E se por acaso quisermos pensar quantas as nacionalidades do mundo inteiro e quantas delas até aqui vieram parar, tenho dificuldade em saber se faltará alguma, como se o País que percorreu os mundos e com mundos se misturou no planeta inteiro, tivesse agora, na própria “casa”, todo o mundo que nos procurou na esperança de estar melhor, e em paz, do que nos locais onde nasceram.

Que ideia terão do País que procuraram? Gostava de saber.

È certo já que o País é igualmente procurado, e cada vez mais, pelos velhos europeus já reformados e que depois de terem nascido e sido membros activos das suas sociedades, decidissem ficar neste País de Paz e de Sol para viver, sobretudo no sul, com praia e boa e variada gastronomia todo o ano como se fosse o “paraíso sonhado” e alcançado para viver esse tempo de reforma que se quer tranquila e em clima de eleição.

É interessante constatar que a cidade envelhece e, nela, os seus habitantes, e se a cidade se pode reequipar e modernizar, para os homens a vida é inexorável e curta e geração sucede a geração até no mesmo lugar.



Fig. 05: a cidade fica!

Os homens passam e a cidade fica

Onde nasceu? De onde é a sua família? A Cidade como factor de identidade.

A cidade que cresce e se acrescenta em novos bairros e nova arquitectura, responde ao grau de modernidade temporal, mas já não abdica da árvore e de outros espaços ajardinados, de desporto e de recreio, mesmo que insira no seu espaço histórico, praças e jardins antigos e jardins botânicos até com árvores centenárias e milenares, como se cada “habitante” do mesmo espaço fosse revelador dos tempos percorridos.

Muda o desenho da cidade, muda o desenho dos espaços verdes e parques e jardins, muda a forma de os usar, e a forma do habitante se apropriar da cidade e, quantas vezes, se olharmos uma grande árvore em bairro mais recente, veremos que tem a mesma “idade” do edificado seguindo as idades a par, identificando-se também o tempo de cada desenho urbano. Que interessante o Tempo que cada cidade nos ensina, tempo histórico e cultural, tempo climático e civilizacional – o tempo-idade na cidade.

E mesmo tendo iniciado este escrito em Maio, porque até as ideias tê de amadurecer com o tempo, hoje, no dia a que se chama MÁGICO, só porque se muda de ano civil, mágico para muitos sim, mas creio bem que não será indiferente, mesmo para esses, que para a maioria da população do País, e do mundo, e até desta cidade, nada terá nem de mágico nem sequer de diferente, porque será apenas mais um dia que se somará às suas vidas ou mais um dia em que mais vidas serão inutilizadas pela morte de guerras infindáveis e cruéis, pelas doenças novas ou mesmo as que estavam erradicadas e que voltaram a invadir o mundo dos que não têm nem casa nem pão e que vivem em “cidades-guetos”, deslocados dentro até do seu próprio país, onde não há nada, a não ser medo e tristeza e inumanidade e não há MAGIA nem nas palavras do Papa ou do director-geral da ONU, palavras que caem no chão como as folhas mortas das árvores que nesta época não têm flores nem sequer só folhas, revelando a “nudez” da vida, o seu repouso em silêncio da terra e da vida e a sua temporalidade e infinita fragilidade, como se fora tempo de recolhimento para mais intensa vida interior.

Interessante que neste último dia do ano que ainda corre, não a mensagem, mas as palavras pessimistas de Mário Soares, que não parecendo ter alguma vez sido homem sem esperança, afirmando (SIC 16 h – Janeiro de 2009) que o próximo ano poderá ser o ANO da REVOLTA daqueles que cada vez mais têm cada vez menos, no mesmo tempo em que cada vez menos têm cada vez mais.

E porque o artigo devia ser pequeno mas se estendeu como uma enxurrada e falta falar de árvores e de velhos vou acabar.

Cresci nesta cidade onde estudei e trabalhei e, como eu, todos os outros habitantes de cada lugar, de formas diferentes mas que deram a cada lugar o seu espírito e aos lugares se afeiçoaram, porque onde moramos é a “nossa casa” com não importa que relação de vizinhança e sendo que se envelhece a população da Europa ou do País, o mesmo sucede no mau bairro e mesmo na minha RUA.

Assim sendo, os reformados que abundam e tendo ou não família, têm uma forma de estar que há alguns anos venho apreciando porque é também essa a minha condição e o que se aprender só de olhar e ver quem passa, ou frequentar o mesmo local colectivo, foi-se criando “uma comunidade de afectos” em que todos nos conhecemos e cumprimentamos e nos queremos bem além de partilhar algo da vida vivida, outra forma de enriquecimento e aprendizagem apenas através do conviver.


Como se o meu bairro fosse uma cidade …

Como se o meu bairro fosse uma cidade dentro da cidade, como se a minha rua fosse o meu bairro inteiro e fosse também a continuação da minha casa, como se o local colectivo de convívio diário tão perto de minha porta, fosse o prolongamento do meu viver e não apenas “o local de tomar a bica”.

Comunidade de afectos e de bem-estar como se a “cidade” estivesse toda aqui e daqui sair fosse como “ir a Lisboa”, como se a rua fosse a minha casa e os meus relacionamentos de amizade e de vizinhança.

Nunca eu em tal pensara, porque me ocupara com outras coisas, mas deixei que acontecesse, e assim foi, amizade que se vai consolidando e crescendo, como crescem e envelhecem as árvores da rua, companheiras inseparáveis do casario e dos pássaros que nela poisam, que sem folhas nos dão a dimensão do Inverno e outro céu, e na Primavera tornam a rebentar em flor e folhinhas claras a anunciar a estação do ano em que por amor tudo recomeça, e outro céu, anunciadoras de todas as estações do ano e dos seus ritmos, como os ritmos dos homens de nascer e envelhecer pois que nesta rua e local colectivo de frequência diária, há bebés e seus pais, há pretos e brancos e mesmo drogados, que nos falamos e eu insisto que assim seja, há nacionais e de outras nações, embora haja um “núcleo duro” de frequentadores que criaram um ambiente invulgar nesse local colectivo de que já não prescindo, e nos sentimos todos bem, onde até se almoça e compra pão, onde a “população” vai variando com a idade e com os seus afazeres e, a partir do almoço, o espaço é todo nosso, dos que já estão reformados, que ficamos para mais tarde, com o dia que vai morrendo, com a luz do sol que vai caindo, como as horas, como o tempo.

E num pequeno espaço do bairro, apenas numa só rua, todos conhecem todos e até os seu cães, que andam a passear e nos conhecem também – ecossistema para além do humano, em bairro de paz onde se está bem e nada falta pois que tem tudo o que é necessário ao quotidiano e mesmo além disso, e certamente por tal razão e quase de repente e apenas há menos de meia dúzia de anos não pára a construção de mais habitação e de mais altura, e quantos mais demandam aqui viver, como se fugissem dos locais onde a cidade se tornou mais cruel e era excessivamente impessoal.

A todos os tempos arquitectónicos da rua, se acresce as árvores e os pássaros e os cãezinhos bem tratados e todos os bebés e adultos, todas as profissões e serviços, e todos os velhos que passam e os que param a ver se estão os seus amigos e vizinhos, ou mesmo familiares, e assim é a RUA ONDE MORO – o meu pedaço de rua – pois que tão pouco basta – extensão da minha casa ao sair da porta, e extensão dos meus afectos, local de encontro de quem já se conhece e se quer bem.



Fig. 06: a cidade dos bairros vivos.

Cidade velha de afectos novos

Vejamos entretanto quantos velhos há em Portugal (CM – de 20 de Dezembro de 2008).

Portugal é o 10º país do mundo com maior percentagem de velhos – 18 %

Dados gerais:
- Mais de 65 anos – 11849 831 - 772 405 do sexo masculino e 1077 426 feminino
- Com mais de 100 anos – 185 homens e 754 mulheres.
- O envelhecimento – o País tem por cada 100 crianças com menos de 14 anos o nº de 114 velhos com mais de 65 anos.
- Tem 26% de analfabetos – tem 61% com a 4ª classe – tem 77% de reformados.
- Tem 36% de população que ganha menos de 379 euros/mês dos quais 24% homens e 27% mulheres.
- Tem 1562 lares com 61 087 velhos.
- 17633097 velhos ganham 353.95 euros.
- Tem 820 519 homens que ganham 448.60 euros e 942 578 mulheres que ganham 271.50 euros.

Por escalões e quantidade de funções:
- Menos de 400 euros há 1442 000.
- Entre 400 e 1186 euros – há 269 000.
- Mais de 11 86 euros – há 52 000.

Aposentados e reformados da Função Pública - dados da CG Aposentações:
- Menos de 500 euros – tem 94 484.
- 500-1000 euros – 122 244.
- 1000-2000 euros – tem 105.213.
- Mais de 2000 euros 70 724.

A prioridade é alargar o apoio domiciliário – integrar no seio familiar e nas suas casas sempre que possível por ser a melhor solução.

Porque morrem as Cidades ??
Porque morrem as Árvores ??
Porque morre um País ??
Porque morre uma Civilização

Porque morre o que morre ?? e devia ser Vida e Alegria.

E, também porquê, surge de repente um Homem que até pareceria um ilustre cidadão desconhecido, que surge dos fins do mundo, ainda com o handicap de ser negro no mundo ainda tão racista, apenas um homem, chamado Barak Obama, não o novo salvador do seu País arruinado e focado durante tantas dezenas de anos, na manutenção de guerras sem fim desde Cuba até ao Médio Oriente, em nome de quê ? Não o salvador do seu País mas que, como um raio, iluminou a UE da escuridão em que se vem mergulhando.

Será um novo profeta como um Buda, como um Cristo Redentor?

Que fogo do incendiar o mundo neste Inverno frio e sem dinheiro como se o mundo tivesse de partir do NADA. O que tem ele de incomum com a sua vida e família comum? Não será sinal de que o homem comum pode ser a esperança do mundo.

Que fim de tempos iniciado com o Brasil e o seu mensalão.

Que fim de tempos com Portugal e o seu “viaje primeiro e pague depois”.

Isto que acabo de escrever não é mais do que o que fui aprendendo e olhando de um século de vivências directas e indirectas do mundo “civilizado” em que me movimentei e movimento, mesmo tendo visitado “alguns Países” considerados desse mundo que apelidam de III – vamos lá pensar porquê e como me posiciono.

Porque morrem as Cidades e há tanto sofrimento?

Por falta de amor já que morrer também pode ser belo quando chega “a hora”.
Também morrem as estrelas para que outras nasçam.

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa-Alto de Santo Amaro
24 de Maio de 2008 a 9 de Janeiro de 2009
Imagens da autora e de António Baptista Coelho

Nota importante: esta série de artigos foi dividida em três edições semanais, de que a última foi agora editada.

Preparação editorial, por António Baptista Coelho, em 31 de Janeiro de 2009.
Editado por José Baptista Coelho em 2 de Fevereiro de 2009.