segunda-feira, fevereiro 23, 2009

A Sustentabilidade na EPUL – da Obra Nova à Reabilitação - Infohabitar 235

Infohabitar, Ano V, n.º 235

A Sustentabilidade na EPUL – da Obra Nova à Reabilitação
EPUL – Sara Ribeiro e João da Veiga Gomes

O Infohabitar agradece aos autores da apresentação que se segue a sua disponibilização para edição no Infohabitar. Refere-se, ainda, que esta apresentação foi feita na Exponor, em Dezembro de 2008, no âmbito de um conjunto de conferências desenvolvido pelo Grupo Habitar e pelo Núcleo de Arquitectos de Veiro da OA, no âmbito da temática da relação entre Arquitectura e sustentabilidade.

A edição do Infohabitar

Resumo

Pretende esta apresentação abordar a temática da Sustentabilidade na Empresa Pública de Urbanização de Lisboa - EPUL, partindo de um compromisso da empresa estabelecido no seu “Documento Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável”, e demonstrando a sua aplicabilidade na concepção de edifícios de obra nova e reabilitação.

Os projectos apresentados, representam o percurso da Empresa na implementação de medidas sustentáveis, na construção e reabilitação de edifícios destinados a equipamentos e habitação em Lisboa, quer na A intenção final é demonstrar que a sustentabilidade aplicada à construção é um percurso evolutivo não só na aplicação global ou parcial dos princípios estabelecidos no documento estratégico, como na sensibilização da sociedade e do mercado habitacional.

Entende-se assim que nem sempre as oportunidades de projecto permitem a utilização de todos os meios existentes e disponíveis conducentes a uma construção sustentável.




Fig. 01: Fotografias EPU, Martim Moniz e Rua de São Pedro Mártir.


A Sustentabilidade na EPUL – da Obra Nova à Reabilitação
EPUL – Sara Ribeiro e João da Veiga Gomes


Apresentação

Esta apresentação da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa – EPUL, decorreu em dois momentos que se complementaram. O primeiro de carácter introdutório pelo Arq. João da Veiga Gomes e o segundo, exemplificativo foi apresentado pela Arq. Sara Ribeiro.

Com esta apresentação institucional, pretendeu-se primeiramente abordar a temática da “A Sustentabilidade na EPUL” e posteriormente fazer ver, algumas das nossas experiencias de implementação desta temática na Cidade de Lisboa, através da nossa “obra nova e obra de reabilitação”.

“A Sustentabilidade na EPUL”:Antes de mais, a EPUL tem procurado abordar a temática da sustentabilidade, sempre como ponto de partida e um desafio para atingir uma determinada meta. Através dos seus compromissos, da sua missão, dos trabalhos e estudos que tem vindo a desenvolver, não entendendo a sustentabilidade, como sendo apenas resolvida por meio da introdução de tecnologias, de painéis, sistemas de aproveitamento de águas, poupanças energéticas, redução de consumos e de emissões e introduzindo tecnologias de ponta que se tornam obsoletas passado pouco tempo, onde os grandes investimentos têm retornos a 15, 20 e 25 anos.

A sustentabilidade entendida como uma forma de garantir e prevenir o futuro, não se cingindo à aplicação de manuais e textos de referência, como sejam o Green Vitruvius, as cartas de Amesterdão e de Atenas, ou até o Protocolo de Quioto, e muito menos apenas Recuperar, Reutilizar e Reciclar. A sustentabilidade implica uma nova atitude e uma acção imediata, dentro da Empresa e nas suas relações com outras entidades, e fora da Empresa no exemplo dado pelas suas obras.

Foi por este motivo que em trabalhos precursores a EPUL sentiu necessidade de aprofundar a temática da sustentabilidade, tendo a destacar o “Relatório Provisório sobre a “Sustentabilidade em edifícios e espaço público”, como Proposta de Modelo de Ponderação, partindo de uma Estrutura de Análise Matricial, onde em cada matriz são definidos os Objectivos, os Meios, os sistemas e Tipos de Intervenção, com a sequente Valorização:

Matriz A – Enquadramento Técnico / Construção Sustentável

Matriz B – Edifícios – Opções de Concepção

Matriz C – Edifícios – Opções Construtivas / Tecnologias

Matriz D – Espaço Público

O exemplo dado por uma Empresa com 37 anos e mais de 10.000 fogos construídos, procurou com a implementação de medidas de sustentabilidade e internas e externas e através da Sua participação e relacionamento institucional e no mercado da promoção, aplicar esta sistematização no espaço urbano, contribuindo para uma regulação do mercado, testando e inovando soluções.

Atendendo aos desígnios que motivaram esta empresa a procurar a qualidade e eficiência do habitar, entendido como viver a cidade, da casa ao bloco, ao equipamento, ao bairro, à praça, e até ao jardim, a EPUL procurou efectuar uma mudança para o futuro, onde a técnica e a construção continuam a servir as necessidades dos nossos habitantes.

Assim surge o “Documento Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável”, fruto de uma vasta colaboração e contributo interno desde a administração aos seus técnicos.

Este Documento Estratégico, resulta assim dum processo de reflexão interna e integrado, para atingir uma mudança, como instrumento fundamental para uma nova abordagem estratégica e empresarial, permitindo ajustar procedimentos e práticas, por meio do estabelecimento de uma série de premissas e medidas a introduzir a médio/ longo prazo, avaliando a performance da EPUL, monitorizada por relatórios anuais de sustentabilidade, nas seguintes vertentes.

Definem-se assim, Estratégias de Sustentabilidade para cada oportunidade de projecto e aplicando-as caso a caso:

Na Obra Nova, por meio de sistemas construtivos que introduzam o conforto ambiental nos edifícios e uma clara redução dos consumos energéticos, e integração urbana em áreas ainda não consolidadas;

Na Reabilitação, promovendo o aproveitamento de estruturas existentes, integração e regeneração urbana, definição de programas que não limitem a durabilidade dos edifícios na sua componente de uso/ apropriação;

No Projecto, com as oportunidades de projecto procuraram-se novas estratégias para a introdução de medidas de sustentabilidade com recurso eventual a sistemas passivos;

Na Empresa, com a Certificação do modelo de gestão e contabilidade da empresa, avaliação, a monitorização e relatório anual, a gestão do quadro de pessoal valorizando a sua formação, competências e aquisição de novas valências, e também promovendo a investigação interna, testando e aprovando novas soluções e técnicas sustentáveis.


“Da obra nova à reabilitação”

É pois na oportunidade da obra nova no edifício ou conjunto reabilitado, que surge o desenho do projecto, onde quando possível são introduzidas medidas conducentes a uma melhor sustentabilidade do edificado. Relativamente à Obra Nova a EPUL define as seguintes linhas de orientação:

Planear Sustentável, como modelo de equilíbrio urbanístico, qualificando a cidade nos seus diversos sistemas urbanos, promovendo uma Cidade Integrada com Conceitos de Desenvolvimento Sustentável;

Projectar Sustentável, desenvolvendo projectos rigorosos com elevados níveis de sustentabilidade e promovendo a utilização de sistemas construtivos (eco-eficiência, recolha, reciclagem e reutilização).

São exemplos, o edifício da Escola do Alto da Faia, em Lisboa, que foi um projecto elaborado em conjunto com o INETI na área de Conforto Ambiental Térmico e Acústico e Vencedor do 1º Prémio de Eficiência Energética em Edifícios DGE 2003; e o Edifício de Habitação Telheiras XXI.

Quanto a este último, o programa foi definido com vista a melhor orientação solar das tipologias, tendo havido uma preocupação de integração urbana e da ligação das várias escalas/ linguagens das construções envolventes. A imagem do edifício foi definida na relação com o edifício de Equipamento - Escola, e na definição de medidas passivas para o controle da incidência solar e a relação dos espaços interiores do edifício com áreas e varanda e jardins, e a introdução de iluminação natural em todos os espaços de habitação (através do prolongamento/ continuidade dos espaços).

O Edifício de Habitação Telheiras XXI, foi o primeiro edifício de habitação em Lisboa da EPUL com sistema colectivo de captação de energia através de painéis solares, anteriormente à entrada em vigor da actual legislação do RCCTE, procurando-se compatibilizar a Instalação de painéis solares com a imagem do edifício e adaptando as suas áreas técnicas. Este sistema de painéis solares está a ser monitorizado, para aferição dos resultados da sua contribuição para a eficiência energética do edifício.



Fig. 02: Fotografia aérea 3D http://maps.live.com; Fotografia EPUL

Já quanto à Obra de Reabilitação, a EPUL entende que as estratégias de sustentabilidade passam para outro plano. A obra de reabilitação já não é totalmente condicionada por esta temática, mas sim parcialmente, estando sujeita à temática da integração no Bairro e Cultura locais, que podem ser igualmente sustentáveis.

Para a EPUL a reabilitação é por natureza, ou por defeito, um acto sustentável de edificar, não tendo que aplicar “gadgets” para que um edifício seja considerado um edifício sustentável, porque por um lado, reaproveita, recupera e recicla, e por outro, assenta numa base cultural e local, integrada no meio do tecido urbano. Neste conceito, Reabilitar Edifício de um forma Sustentável, é também regenerar o tecido social e revitalizar a economia local, reduzindo o seu impacto ambiental, com viabilidade económica e promovendo a inclusão e coesão social (equipamentos e infra-estruturas, acção social e parcerias).



Fig. 03: Fotomontagens EPUL - R. Alecrim, 22; R. Corpo Santo, 2-8; R. Ferragial, 9-13.

Com a reabilitação integrada de 3 edifícios na Rua do Ferragial em Lisboa, Programa Repovoar Lisboa, a EPUL e destinados a 3 segmentos do mercado habitacional distintos – Segmento Alto, Jovem e Médio, a EPUL manteve a maioria da estrutura existente e o aproveitamentos dos materiais, com consideráveis reduções de resíduos, privilegiando uma correcta orientação solar e a ventilação transversal de todas as tipologias.



Fig. 04: Imagem Maquete cedida por Appleton e Domingos, Arquitectos Lda.

Na promoção do Concurso de Ideias Limitado para a intervenção nos edifícios do Conjunto Edificado da Rua da Rosa e Rua 51 a 57 e Rua Luz Soriano 44 a 52, a EPUL deu abertura às equipas projectistas para a definição programática, sendo o principal objectivo a Integração Urbana e a Flexibilidade das fracções habitacionais, mantendo em termos gerais a estrutura existente.

Este processo envolveu a Junta de Freguesia e a Unidade de Projecto do Bairro Alto na análise das propostas, sendo o projecto vencedor o da equipa projectista Appleton e Domingos, Arquitectos Lda. Esta proposta foi valorizada nas vertentes de relação com espaço público e envolvente do bairro, na relação das áreas comuns do edifício com as fracções habitacionais, na abertura de uma área de logradouro introduzindo iluminação e ventilação em todas as fracções, na criação de uma imagem de referencia para o conjunto, na flexibilidade do desenho das fracções habitacionais, Lofts, e no aproveitamento dos materiais existentes. Entende-se que a solução encontrada confere durabilidade ao edifício, na sua relação com o Bairro Alto, podendo adaptar-se a vários usos.



Fig. 05: elementos de Estudo EPUL - Rua de São Pedro Mártir.

O estudo de reabilitação para a Rua de São Pedro Mártir, pretende recuperar um conjunto edificado em estado devoluto localizado numa área histórica da cidade, resolvendo a relação com a envolvente e introduzindo iluminação em todos os espaços do conjunto, procurando conjugar um programa de habitação com um programa de equipamento de apoio ao Bairro e a criação de uma imagem de referenciação do conjunto. A manutenção da envolvente exterior dos edifícios, preservando o contexto histórico, procura relacionar a imagem do conjunto histórico da Mouraria com a imagem dos edifícios construídos recentemente no Largo do Martim Moniz. Encara-se esta intervenção, como um protótipo de sustentabilidade, tanto na introdução e integração de medidas solares passivas e de sistemas energéticos alternativos, como na relação do conjunto com a envolvente.

Da obra nova à reabilitação, são traçados e testados os caminhos da sustentabilidade, sendo os exemplos apresentados fruto da pesquisa, da experiência e da produção da EPUL.

Sara Ribeiro e João da Veiga Gomes

Notas Bibliográficas:

“Relatório Provisório sobre a “Sustentabilidade em edifícios e espaço público”, EPUL, 2005

“Documento Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável”, EPUL, Junho 2008

Sara Ribeiro, arquitecta pela FAUTL desde 2002, colaboradora da EPUL desde 2002, entre 2004 e 2005 foi monitora da cadeira de Arquitectura 1 na FAUTL. - João da Veiga Gomes, membro fundador do GH – Grupo Habitar, arquitecto pela FAUTL desde 1990, tendo sido bolseiro Erasmus em Milão em 1989, Mestre pela FAUTL em Arquitectura da Habitação em 2001, é Gestor de Projectos da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa, EPUL desde 2006.

Edição no Infohabitar por José Baptista Coelho
Lisboa. Encarnação – Olivais Norte, 23 de Fevereiro de 2009.

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