segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Porque Morrem as Cidades os Velhos e as Árvores. Porque Morre e um País - Infohabitar 232

Infohabitar, Ano V, n.º 232

Conclui-se, em seguida, a edição de um grande artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos, um dos colaboradores que há mais tempo e mais intensamente têm partilhado esta nosso aventura editorial que está prestes a fazer que está prestes a fazer quatro anos de actividade ininterrupta.

Foi realmente em 21 de Fevereiro de 2005 que se iniciaram as edições semanais do Infohabitar e hoje contamos com mais de 230 artigos organizados em 20 temas, que correspondem a cerca de 2500 páginas ilustradas, que estão sempre disponíveis e que são diariamente consultados por cerca de 200 leitores; os page-views aproximam-se já dos 200.000 .

Tentaremos marcar os nossos jovens quatro anos de edição com um artigo um pouco mais significativo, o que será difícil após este triplo artigo da Celeste Ramos, e volta-se a convidar os leitores para a participação com o envio para os mails abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com de textos em Word com imahens jpg em ficheiros anexos.

E fiquemos, agora, com a terceira e última parte do artigo:
“PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES PORQUE MORRE UM PAÍS”.

E lembremos a razão de ser deste artigo, em algumas palavras da autora:

“Só o fiz por prazer e AMOR ao meu País e à minha e CIDADE
Por vezes RAIVA é uma forma de gostar
E quem GRITA não é por não gostar dos OUTROS – é por SOFRIMENTO do que só se vê a forma mas não a essência do grito e eu que vivi uma vida inteira a calar o meu GRITO interior, felizmente que grito para não rebentar”

E boa leitura,

A direcção do Infohabitar


PORQUE MORREM AS CIDADES
OS VELHOS E AS ÁRVORES
PORQUE MORRE UM PAÍS – III

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Arquitecta paisagista


A cidade na totalidade das suas virtudes

A cidade na totalidade das suas virtudes mas, opostamente, também dos seus pecados, e sendo que, quem vive ainda “fora dos centros urbanos”, quantas vezes, ao ter de os visitar, não importa por que razões, se cansa e acusa a insanidade urbana na poluição do ar e do som, nas corridas infernais do trânsito e da ausência de tempo que a cidade vai provocando, tornando o viver mais uma vez desumano, com limite do crescimento do crime adentro de espaços de habitar, derivando em insanidade e medo colectivo, mesmo tendo passado um século sobre a desordem da Era Industrial. Mas, mais uma vez, novos modelos de regeneração da qualidade de vida urbana se inventam para que a vida não morra nas cidades e para que os espaços, em vez de abrigar e abranger, não se tornem hostis e aumentem os perigos, para nela se poder viver, perigos como o foi séculos atrás, como se todos os fenómenos humanos urbanos se repetissem por ciclos e não pudesse existir “a cidade ideal” para habitar.

Já é do domínio público o aparecimento de novas doenças da cidade principalmente respiratórias mais graves para velhos e sobretudo para as crianças mais novas que desde muito cedo ficam com o handicap respiratório para a vida, porque as cidades se tornaram de novo insalubres, não apenas pela vizinhança de áreas industriais, mas pelo tráfego automóvel imparável, nomeadamente por milhares de camiões TIR que atravessam os Países “sem fronteiras”; sendo que a Suiça, quase País de atravessamento obrigatório de grandes rotas, tentou controlar o tráfego europeu mas não conseguiu; sendo que, com tão grave problema, já se começa a equacionar o uso mais frequente de comboio de passageiros e de mercadorias, para minimizar a poluição que cada País tem de suportar com a “aparente vantagem” de um mundo sem fronteiras mas que afronta a qualidade de vida de outros.

Em paralelo, as populações vão sofrendo fragilidades tornando-as mais vulneráveis a outras doenças, como a gripe, própria mais do Inverno do que do Verão, e que em geral até começa nos Países mais frios e “desce até aos mais quentes”, sendo que em 2008 até começou no nosso País ganhando já a dimensão de epidemia e atingindo 1 milhão de portugueses, o que nunca acontecera, e sendo, mais uma vez, as crianças e os velhos os mais atacados a ponto de precisarem de ser internados, mas para alguns, mesmo tendo-lhes sido dada “alta”, os seus familiares, em Quadra de Natal, não puderam acolhê-los, o que tornou os hospitais uma “casa-refúgio de 3ª idade”.



Fig. 01: a importância das cidades

Cidades e envelhecimento

As cidades não estão preparadas em geral para o envelhecimento global das populações que na Europa atinge já grande percentagem, mais de 17% com tendência para aumentar, já que, por razões múltiplas, nascem cada vez menos crianças, esperando-se o rejuvenescimento das populações através dos nascidos dos emigrantes; numa problemática como se fora um pau-de-dois-bicos, pois que a Europa ainda não conseguiu resolver o problema da sua integração plena e denomina-os de “emigrantes ilegais”, como se entretanto neste milénio se aceitasse o emigrante “sob condição” cada vez mais cruel e a liberdade conquistada na Europa no pós II Guerra Mundial, começasse a desaparecer também.

E este fenómeno fez gerar outro, o da adopção de crianças dos Países mais distantes como a Ásia sobretudo Índia, que praticamente “vendem” os seus filhos, porque não terem condições económicas para os criar e lhes ser “acenado” tratar deles e dar-lhes “um futuro”, o que fez nascer agências de acolhimento dos jovens que por sua vez deram lugar ao aparecimento de agência Internacional sediada na Dinamarca, que é um verdadeiro mercado de compra e venda de crianças para adopção dos países ricos, sobretudo de pais inférteis ou que não querem ter os sacrifícios e custos de inseminação artificial e sendo que as crianças indianas representam, mesmo esfomeadas, um património genético ainda não afectado pela poluição europeia e alimentos químicos que ajudaram a aumentar não apenas a infertilidade humana (o outro lado dos países da abundância), mas até doenças novas de civilização como se o crescimento económico tivesse, também, adulterado os genes humanos e a par das vacas-loucas tivesse transformado os homens em verdadeiros seres transgénicos que, como se sabe, não se reproduzem.

Há no ar um grau de demência civilizacional, pois que a par de um tão recente e mal remendado tratado europeu que recusa no seu preâmbulo a origem judaica cristã e do mandar retirar das escolas o velho Crucifixo símbolo da cristandade, se junta a liberdade de “acasalamento e casamento” entre o mesmo sexo, a par ainda de leis que põem em dúvida a segurança da família e sobretudo da “mãe” e seus filhos, ou outras que libertam o aborto, tentando-se já generalizar a eutanásia, como se a vida fosse reduzida a um código legal de comportamentos sem fronteiras e sem “espaço para prevaricar”, já que a liberdade e libertação é tão total que não sei se a estruturação da personalidade sem quaisquer “baias” não dará o maior caos socio-cultural.


Cidades e jovens

Não sei pensar muito bem sobre o que sucede com os adolescentes e quais as razões do seu comportamento em algumas escolas das grandes cidades.

Mas sei, porque já dava por isso quando dava aulas, que desde os 11 anos os meninos começam a beber álcool quando o seu organismo só está preparado para o processar a partir dos 18 anos. Tomam todo o tipo de drogas leves e até pesadas, entram em coma alcoólico nos fins de semana nas discotecas onde tudo se vende, a libertação dos tabus sexuais conduz a difíceis construções do amor, as escolas demitem-se de marcar faltas aos meninos que vão às aulas, que querem e ouvem os professores que entendem, os meninos de bairros sem qualidade urbana estudam e têm aulas em contentores tão falhos de qualidade como o lugar de habitar, sem espaços de jogos e brincadeiras em locais aprazíveis e em segurança, obtêm carta de condução aos 18 anos quando ainda são crianças irresponsáveis, batem nos pais e gritam aos professores, quando o ensino básico e médio púbico eram de grande excelência e já não é, mas havia livros escolares de certas disciplinas para três anos e agora há para cada disciplina/ano meia dúzia de manuais, que para além de exorbitantemente caros são mal escritos e mal estruturados, e como já li alguns vi ser aí impossível “aprender a gostar de aprender e saber”.

Pais, professores e sociedade não “têm mais tempo”, nem se debruçam sobre cada criatura-menino que vai crescendo mais na rua do que em casa e em condições bem diversas de acordo com a classe sócio-económica dos pais.

A Cidade de hoje oferece o céu e o inferno de mãos dadas e se tanto no Porto como em Lisboa, na Ponte Vasco da Gama, há corridas de carros ilegais e perigosas, onde está a maioria dos adolescentes no fim de semana e será a maioria dos jovens ou apenas os que se vêem? Afinal não se fala sobre os adolescentes senão quando há comportamentos desviados, que no entanto são recentes, mas que no verão 2007 e no 1º semestre de 2008 assustaram o País, sobretudo depois do que se viu ter sucedido no verão 2007 nos arredores de Paris.

São apenas meninos dos “bairros periféricos” das florestas de betão e betuminoso alienantes? Gostava de saber, porque essa juventude será adulta em breve e será população activa e, quem sabe, estará em lugares de decisão.



Fig. 02: cidades novas?

Cidades e emigrantes

E voltando mais uma vez atrás, estes emigrantes são sobretudo oriundos de Leste mas também de África, muitos deles quase “atravessando o continente a pé”, continente que já foi tão explorado pelos países europeus colonialistas e, agora, mesmo depois de serem independentes, não trilham a senda do desenvolvimento, daí resultando problemas dramáticos de “mercado-negro de transporte” para o “mundo rico”, em que a Europa representa mais uma vez o Eldorado, não se contabilizando quantos desses emigrados morrem no mar, e em terra ao atravessar o Shael, que além disso são explorados pelos “passadores” de quem ficam à mercê, fazendo lembrar as grandes emigrações dos portugueses nos anos 60, que a troco de todas as suas economias davam “o salto” e eram igualmente explorados, mas o destino era “aqui perto – a Europa”, embora se possa afirmar que o que se passa neste início do III milénio, atinja nível de crueldade e de mercado que envergonha o próprio Homem.

As cidades que expulsam os habitantes que para não morrerem de fome procuram lugares para trabalhar longe e alimentar as famílias versus as cidades que os recebem e impõem condições mal regulamentadas ou “fecham os olhos” à legalização e lhes permitem a residência para poderem trabalhar (residências que são em 2008 como eram as do início da Era Industrial do séc. XIX), mas com salários a 50% do dos naturais do País que executam o mesmo trabalho, como fazem Inglaterra e Espanha, (havendo meninos e homens portugueses da fronteira que a tal se sujeitam na vizinha Espanha) ,contribuindo para aumento de riqueza mas sem equidade nem lei, como se a Carta dos Direitos do Homem, e os acordos bilaterais entre os países, fossem “letra morta” a que os mais desprotegidos se sujeitam para mal sobreviver.

A cidade não é mais o espaço acolhedor e de mais alegria e conforto de viver, e de esperança, espaço de cultura e de beleza e de acumulação de história da humanidade, mas sim de desqualificação do próprio ser humano porque o “mercado” tomou conta da vida do homem-irmão, que não passa de “mercadoria” de fácil transacção – já não há mais nada para comerciar.

Só que o preço a pagar por esta nova mão-de-obra desqualificada mas abundante, embora entre eles haja também muitos universitários, não é comparável ao fenómeno de “comprar homens” para o futebol, expressão usada igual à de quem compra vacas ou couves – tornando-se o Homem um produto de Mercado.

E quando se pensa em Maddock e na compra do Nasdak e no mercado bolsista entre empresas fictícias, que não existem senão para manusear fortunas que nem se sabe de onde vêm e como foram feitas, dá para pensar em como a cidade dos homens atingiu o maior grau de demência e de insanidade humana e mesmo maldade, porque o TER, não importa como e de quem se saca, dominou o mundo ocidental.


Portugueses deprimidos

No CM de 29 Dezembro de 2008 os números são elucidativos relativamente aos portugueses “sem nome” que se vão suicidando ou entrando em colapso psíquico, sendo que “os psiquiatras estão preocupados com o aumento do número de portugueses deprimidos, uma doença mental que está a afectar cada vez mais pessoas, especialmente nas camadas mais jovens, mas também a gripe que há meses caminha da Ásia até aqui, só num dia fez com que apenas num hospital fossem atendidos 30 mil pessoas com pico no Natal, e de repente lembro um documentário sobre como o vírus “viaja de avião” atravessando continentes, foi dito e mostrado como o vírus contamina os passageiros através da tubagem de ar condicionado que nunca é desinfectada. E no sábado senti, até numa pastelaria (de porta fechada por causa do frio) como o ar estava pesado e infectado.

É sabido que as gripes desta natureza e gravidade conhecem periodicidade embora de longo tempo, mas em 2007 a “gripe das aves asiática” pôs em pânico os portugueses, já que foi recordada a gripe espanhola que matou muitos milhares de pessoas creio que no início do séc XX, e pensava-se poder repetir-se –, mostrando que tudo se globaliza no melhor e no pior, sendo que há cada vez mais razões para repensar como é importante a salvaguarda e minimização dos problemas de saúde pública não apenas com a prevenção anunciada pelo sistema de saúde, mas pela construção da própria cidade.

Saúde pública e saúde social pois que, da mesma forma, o PGR (Procurador Geral da República) afirmou à Rádio Renascença (29 Dezembro) que é grave o aumento de 15 % da criminalidade no País que irá aumentar no País em 2009, derivada também do que já sucede na Europa e derivada, também, do empobrecimento dos portugueses, pelos sucessivos despedimentos e falências de empresas, atrasos no pagamentos de salários e, ainda, pela existência de bairros muito populosos e sem quaisquer condições de vida, sendo bairros de exclusão social – temendo-se rotura social com esse tipo de violência que vai progredindo.

Este problema de violência mais brutal teve início em 2007 com falências (verdadeiras e falsas) continuadas de empresas e da sua deslocalização, fazendo aumentar o número de desempregados, num valor dos mais altos da UE, quando, em 2006, havia a mais baixa percentagem europeia mas não são porém bem classificados os grupos sociais portadores de tal violência já que, em Dezembro em Atenas e alargada a mais cidades, a violência surgiu dos universitários que não conseguiram encontrar emprego, o que igualmente sucedeu nas ruas de Paris.

A esta situação acresce a falência de Bancos e empresas “parasitárias” e o desaparecimento dos depósitos de cidadãos vulgares que perdem as poupanças da sua vida, sendo que o estado depressionário de jovens e de adultos tem muitas origens, não sendo a “cidade” capaz de dar resposta aos cidadãos, haja universitários a mais ou a menos, sendo que porém, não tendo embora lido em lado nenhum, não é em vão que o desemprego aumentou na Europa rica devido à ganância das empresas e governos, que permitiram, como nunca, a deslocalização dos agentes de produção para a Ásia, antes de criar alternativa para os que foram despedidos mesmo com os subsídios dos Fundos de Desemprego.



Fig. 03: cidade doente

A doença da Cidade

O Homem já não tem qualquer valor – só o Mercado dá ordens –, só não se contabiliza os custos em “saúde pública” e sanidade dos habitantes, sendo que também a tendência para privatizar a “doença”

Sim a doença da Cidade – a cidade que mata os seus habitantes está condenada a morrer nas suas mais nobres funções.

Restará o direito ao “grito” enquanto não for “calado” mais uma vez pois que tudo se repete em espiral.

Paralelamente, perante o desmoronar da sociedade, a “Caixa do Pão da Igreja de Santo António” vai ajudando dando pão e 5 euros a cada um dos que aí recorrem e, isto, na UE rica e evoluída, que se pavoneia em Bruxelas e Estrasburgo com os mais altos salários e mordomias pagas pelos impostos dos que entram em depressão.

Mas na situação oposta, e como aconteceu no “fim de ano”, foi habitual a sua passagem fora do País e em destinos tradicionais como Brasil e Caraíbas, Cabo Verde e Madeira, Cuba e México e República Dominicana parecendo assim que há sempre a quem a depressão nunca atinja.

E como uma anomalia nunca vem só, o Presidente da República fez após o tempo de noticiário da TV1 das 20 h de 29 de Dezembro, uma declaração de quatro minutos sobre o “assunto do Estatuto dos Açores” que através de Lei Ordinária se sobrepõe a Lei Constitucional, relativamente aos poderes do PR versus os de uma Região Autónoma, levantando-se querela institucional após 34 anos de democracia, como se o Governo não tivesse mais nada para fazer e governar o País, em vez de inventar problemas onde “tudo parecia bem”, dando voz ao ditado “quando não há pão todos ralham e ninguém tem razão”, não havendo, actualmente, e desde 2000, senão uma acumulação de sucessivos problemas económico-sociais que resvalam e revelam o caos estrutural do País e a incapacidade de governar cidades e homens bem como as mais altas instituições de cuja anarquia são, sempre, os mais afectados, o cidadão comum que quer Pão, Trabalho e Sossego – revelando mais uma tipologia de entre todas as patologias da Cidade.

Um ambiente doente só pode fazer adoecer quem nele habita – plantas, animais, pessoas.

Estaremos talvez em tempos de esgotamento de formas de governação da vida dos cidadãos que serviram até aqui, e que será necessário rever e refazer, refazendo também os actores activos e manifestamente incapazes de sentido de serviço do colectivo e não exclusivamente do aproveitamento para bem pessoal e individual.

A Cidade onde habitam os investigadores e os maiores criadores dos projectos de valor colectivo e que fazem evoluir as sociedades, está desde o início do milénio a gerar os maiores conflitos a um grau de patologias em que apenas uma minoria pode “passar ao lado”.

Das vantagens da abertura de fronteiras, na Europa e logo a seguir em quase todo o mundo, também vem o contraponto desta gripe que se teme, poder “viajar” de avião, não apenas com as pessoas mas com os produtos de importação-exportação, bem como outras convulsões económicas e sociais num total descontrolo, que atingem as maiorias como uma “doença” em cadeia.


O drama das cidades dos homens

Este é o drama das cidades dos homens – das cidades de hoje, não importa em que país do mundo que enriqueceu no tempo “colonial” com a exploração dos recursos naturais de África e com uma “mão-de-obra” nova, gentil e obrigada, e que apenas meio século depois toma outras formas de exploração dos homens, desertificando o continente que agoniza com as doenças mais fatais como a cólera e a tuberculose e sida, e agora a fome, passando pelo comércio das jovens para mercado sexual, ou para a “deslocalização” da licença das multinacionais da indústria de fabrico de medicamentos, das grandes marcas europeias, para fabrico de genéricos contrafeitos e que provocam a morte de muitos milhares de pessoas em África e Índia. Num verdadeiro “filme de horror e morte” com populações que além de terem outra cultura e linguagem, e hábitos, não sabem nem ler nem escrever e são apenas vítimas silenciosas, situação conhecido do mundo ocidental, denunciada apenas por alguns jornalistas “sem medo”, com risco da própria vida.

E voltando ao ambiente urbano diremos que depois há as aves que habitam quase apenas a terra e as zonas húmidas, mas também as que habitam mais os ares do que a terra, sendo que damos mais por elas na altura das grandes migrações nos equinócios da Primavera e Outono, mas há-as também autóctones e ficam-se sempre por ali, no local que a sua espécie elegeu para habitar, viver, reproduzir-se e dar mais vida e beleza, e variabilidade de riqueza aos lugares, não esquecendo as espécies cinegéticas que habitam as matas e que os homens gostam de caçar, mas também as há que adoptaram o meio urbano e a ele se habituaram se encontrarem as condições de coabitação no espaço cada vez mais artificial em que a cidade se tornou.



Fig. 04: o campo cada vez tem menos espaço na cidade, cada vez mais preenchida com betão

Como se o “campo” invadisse parcialmente a Cidade

Como se o “campo” invadisse parcialmente a Cidade, também através de agricultura peri-urbana ou hortas e jardins no miolo de quarteirões antigos da cidade reticulada, onde também podemos olhar árvores de fruto como a figueira e a nespereira, e quantas vezes a oliveira que ficou no interior urbano que se expandiu e se deixou ficar, cada uma a espreitar por cima de altos muros e a darem-nos o tempo de cada estação do ano, a dar forma e perfumes, e cor, escala e flores e “oxigénio” para todos os sentidos, ajudando-nos a renovar ritmos urbanos individuais e colectivos sem disso nos apercebermos, já que o homem da cidade se queixa de tanta chuva e de tanto frio, se queixa dos ramos que lhe entram pela janela, sem pensar nas vantagens da natureza viva dentro da cidade, que a climatiza e humaniza e o ajuda a refazer “humores”.

E tudo começa pequenino e serve o Propósito da Criação e a utilidade dos homens, seja para seu alimento ou pura manifestação de beleza a contemplar e enriquecer a inteligência e alma dos seres que somos, através da sua simples observação e forma de manifestação.

Tudo nasce, tudo se desenvolve, tudo tem um destino e tudo morre, as plantas e os animais, os pássaros e também os homens e os lugares de habitar, tantos deles perdidos no espaço e no tempo, fantasmas de civilizações passadas e locais desactivados do interesse dos tempos, algumas soterradas, outras sítios arqueológicos muito procurados pelo turismo que se debruça, cada vez mais, nos espaços que contam a história dos lugares e dos homens anteriores e que deixaram de ter interesse como locais de troca comercial de que resultava sempre troca cultural.

Mas as eras de evolução do homem levam-no a outros lugares e desde as cidades mais antigas perdidas e ficando apenas no mito, às que desabaram como Ephesus ou foram soterradas como Pompeia no séc. VII a.C., ou com tsunamis tão recentes já neste III milénio como Acheh (27 de Dezembro de 2004) ou Houston (2007) – tudo acontece às cidades como aos homens – nascem e desaparecem por vezes lamentavelmente.

Mas o mesmo adentro do nosso País, como a Bracara Augusta , cidade milenar e mais velha do que a maioria dos países que séculos levaram até definir fronteiras, entre outros Países nascidos tão recentemente, de valor histórico e arqueológico que o mais recente sentido de ordenamento e desenvolvimento condenam para sempre e são património da humanidade desaparecido sabe-se lá por que razão – mas a nossa Bracara Augusta já está debaixo do chão de betão.

Mas podem ainda existir cidades que há séculos se foram implantando e crescendo nos locais que os homens escolheram por razões de amenidade e maior conforto climático, como a fria Guarda, quem diria, pois é a que fica situada no ponto mais alto do País, ali à cota da existência dos Castanheiros que os fogos vão dizimando e fazendo desaparecer a riqueza para os homens explorarem, ou na vizinhança de locais de outros bens de produção alimentar seja à beira mar ou beira-rio, como a maior parte das cidades portuguesas, ou até nos locais mais inacessíveis e também inóspitos, por razões de defesa contra ladrões ou invasores como Almeida ou Valença, Elvas ou Óbidos, dentro de muralhas, mas que já as extravasaram há muito, para mais uma vez retirar dos locais os benefícios convenientes em cada tempo histórico.

Mas debrucemo-nos sobre as cidades que habitamos hoje, não importa de que idade e de que história falam.


Dos velhos e das árvores

E porque se quer falar dos velhos e das árvores começaremos por dizer que a árvore “entrou” na cidade à medida que crescia, já que as cidades mais antigas não precisavam delas porque tinham todo o campo e natureza ali ao debruçar das muralhas.

A cidade cresce não apenas com o aumento das famílias mas também com as migrações internas, ou até mesmo com o afluxo de emigrantes naturais ou estrangeiros que é necessário alojar, e talvez semelhantemente ao afluxo excepcional dos rurais à cidade que começou a industrializar-se, os fluxos de hoje assentam em fenómenos diferentes e mais complexos socio-culturalmente, como não há memória na história do mundo, e gerando, mais uma vez, a desintegração das periferias e a densificação do casco histórico, em superfície e em altura, ajudado agora pelos novos materiais e processos de construção.

É assim incessante o movimento das cidades que quase se tornam ingovernáveis do ponto de vista de planeamento e ordenamento urbano continuadamente, mas sobretudo pela implantação e reorientação dos equipamentos, uniformemente distribuídos no tecido urbano, acessíveis a todas as classes socio-culturais e económicas e das novas exigências da modernidade e diferenças do viver, fazendo das nossas cidades, sobretudo das capitais, uma massa de pessoas desenhando não apenas a maior interculturalidade de sempre com a tendência de integralidade, à medida que os novos habitantes, e os sistemas de política dos governantes, se debruçam sobre os processos de integração e igualização de procedimentos para todo o ser humano que procura os nossos lugares de habitar – espécie de cidade global na variabilidade dos habitantes de todas as proveniências geo-culturais, vivendo no mesmo espaço e sob a mesma lei de civilidade deste País milenar e acolhedor de todas as raças, que desde há séculos aprendeu a conviver e misturar sem complexos.

E se por acaso quisermos pensar quantas as nacionalidades do mundo inteiro e quantas delas até aqui vieram parar, tenho dificuldade em saber se faltará alguma, como se o País que percorreu os mundos e com mundos se misturou no planeta inteiro, tivesse agora, na própria “casa”, todo o mundo que nos procurou na esperança de estar melhor, e em paz, do que nos locais onde nasceram.

Que ideia terão do País que procuraram? Gostava de saber.

È certo já que o País é igualmente procurado, e cada vez mais, pelos velhos europeus já reformados e que depois de terem nascido e sido membros activos das suas sociedades, decidissem ficar neste País de Paz e de Sol para viver, sobretudo no sul, com praia e boa e variada gastronomia todo o ano como se fosse o “paraíso sonhado” e alcançado para viver esse tempo de reforma que se quer tranquila e em clima de eleição.

É interessante constatar que a cidade envelhece e, nela, os seus habitantes, e se a cidade se pode reequipar e modernizar, para os homens a vida é inexorável e curta e geração sucede a geração até no mesmo lugar.



Fig. 05: a cidade fica!

Os homens passam e a cidade fica

Onde nasceu? De onde é a sua família? A Cidade como factor de identidade.

A cidade que cresce e se acrescenta em novos bairros e nova arquitectura, responde ao grau de modernidade temporal, mas já não abdica da árvore e de outros espaços ajardinados, de desporto e de recreio, mesmo que insira no seu espaço histórico, praças e jardins antigos e jardins botânicos até com árvores centenárias e milenares, como se cada “habitante” do mesmo espaço fosse revelador dos tempos percorridos.

Muda o desenho da cidade, muda o desenho dos espaços verdes e parques e jardins, muda a forma de os usar, e a forma do habitante se apropriar da cidade e, quantas vezes, se olharmos uma grande árvore em bairro mais recente, veremos que tem a mesma “idade” do edificado seguindo as idades a par, identificando-se também o tempo de cada desenho urbano. Que interessante o Tempo que cada cidade nos ensina, tempo histórico e cultural, tempo climático e civilizacional – o tempo-idade na cidade.

E mesmo tendo iniciado este escrito em Maio, porque até as ideias tê de amadurecer com o tempo, hoje, no dia a que se chama MÁGICO, só porque se muda de ano civil, mágico para muitos sim, mas creio bem que não será indiferente, mesmo para esses, que para a maioria da população do País, e do mundo, e até desta cidade, nada terá nem de mágico nem sequer de diferente, porque será apenas mais um dia que se somará às suas vidas ou mais um dia em que mais vidas serão inutilizadas pela morte de guerras infindáveis e cruéis, pelas doenças novas ou mesmo as que estavam erradicadas e que voltaram a invadir o mundo dos que não têm nem casa nem pão e que vivem em “cidades-guetos”, deslocados dentro até do seu próprio país, onde não há nada, a não ser medo e tristeza e inumanidade e não há MAGIA nem nas palavras do Papa ou do director-geral da ONU, palavras que caem no chão como as folhas mortas das árvores que nesta época não têm flores nem sequer só folhas, revelando a “nudez” da vida, o seu repouso em silêncio da terra e da vida e a sua temporalidade e infinita fragilidade, como se fora tempo de recolhimento para mais intensa vida interior.

Interessante que neste último dia do ano que ainda corre, não a mensagem, mas as palavras pessimistas de Mário Soares, que não parecendo ter alguma vez sido homem sem esperança, afirmando (SIC 16 h – Janeiro de 2009) que o próximo ano poderá ser o ANO da REVOLTA daqueles que cada vez mais têm cada vez menos, no mesmo tempo em que cada vez menos têm cada vez mais.

E porque o artigo devia ser pequeno mas se estendeu como uma enxurrada e falta falar de árvores e de velhos vou acabar.

Cresci nesta cidade onde estudei e trabalhei e, como eu, todos os outros habitantes de cada lugar, de formas diferentes mas que deram a cada lugar o seu espírito e aos lugares se afeiçoaram, porque onde moramos é a “nossa casa” com não importa que relação de vizinhança e sendo que se envelhece a população da Europa ou do País, o mesmo sucede no mau bairro e mesmo na minha RUA.

Assim sendo, os reformados que abundam e tendo ou não família, têm uma forma de estar que há alguns anos venho apreciando porque é também essa a minha condição e o que se aprender só de olhar e ver quem passa, ou frequentar o mesmo local colectivo, foi-se criando “uma comunidade de afectos” em que todos nos conhecemos e cumprimentamos e nos queremos bem além de partilhar algo da vida vivida, outra forma de enriquecimento e aprendizagem apenas através do conviver.


Como se o meu bairro fosse uma cidade …

Como se o meu bairro fosse uma cidade dentro da cidade, como se a minha rua fosse o meu bairro inteiro e fosse também a continuação da minha casa, como se o local colectivo de convívio diário tão perto de minha porta, fosse o prolongamento do meu viver e não apenas “o local de tomar a bica”.

Comunidade de afectos e de bem-estar como se a “cidade” estivesse toda aqui e daqui sair fosse como “ir a Lisboa”, como se a rua fosse a minha casa e os meus relacionamentos de amizade e de vizinhança.

Nunca eu em tal pensara, porque me ocupara com outras coisas, mas deixei que acontecesse, e assim foi, amizade que se vai consolidando e crescendo, como crescem e envelhecem as árvores da rua, companheiras inseparáveis do casario e dos pássaros que nela poisam, que sem folhas nos dão a dimensão do Inverno e outro céu, e na Primavera tornam a rebentar em flor e folhinhas claras a anunciar a estação do ano em que por amor tudo recomeça, e outro céu, anunciadoras de todas as estações do ano e dos seus ritmos, como os ritmos dos homens de nascer e envelhecer pois que nesta rua e local colectivo de frequência diária, há bebés e seus pais, há pretos e brancos e mesmo drogados, que nos falamos e eu insisto que assim seja, há nacionais e de outras nações, embora haja um “núcleo duro” de frequentadores que criaram um ambiente invulgar nesse local colectivo de que já não prescindo, e nos sentimos todos bem, onde até se almoça e compra pão, onde a “população” vai variando com a idade e com os seus afazeres e, a partir do almoço, o espaço é todo nosso, dos que já estão reformados, que ficamos para mais tarde, com o dia que vai morrendo, com a luz do sol que vai caindo, como as horas, como o tempo.

E num pequeno espaço do bairro, apenas numa só rua, todos conhecem todos e até os seu cães, que andam a passear e nos conhecem também – ecossistema para além do humano, em bairro de paz onde se está bem e nada falta pois que tem tudo o que é necessário ao quotidiano e mesmo além disso, e certamente por tal razão e quase de repente e apenas há menos de meia dúzia de anos não pára a construção de mais habitação e de mais altura, e quantos mais demandam aqui viver, como se fugissem dos locais onde a cidade se tornou mais cruel e era excessivamente impessoal.

A todos os tempos arquitectónicos da rua, se acresce as árvores e os pássaros e os cãezinhos bem tratados e todos os bebés e adultos, todas as profissões e serviços, e todos os velhos que passam e os que param a ver se estão os seus amigos e vizinhos, ou mesmo familiares, e assim é a RUA ONDE MORO – o meu pedaço de rua – pois que tão pouco basta – extensão da minha casa ao sair da porta, e extensão dos meus afectos, local de encontro de quem já se conhece e se quer bem.



Fig. 06: a cidade dos bairros vivos.

Cidade velha de afectos novos

Vejamos entretanto quantos velhos há em Portugal (CM – de 20 de Dezembro de 2008).

Portugal é o 10º país do mundo com maior percentagem de velhos – 18 %

Dados gerais:
- Mais de 65 anos – 11849 831 - 772 405 do sexo masculino e 1077 426 feminino
- Com mais de 100 anos – 185 homens e 754 mulheres.
- O envelhecimento – o País tem por cada 100 crianças com menos de 14 anos o nº de 114 velhos com mais de 65 anos.
- Tem 26% de analfabetos – tem 61% com a 4ª classe – tem 77% de reformados.
- Tem 36% de população que ganha menos de 379 euros/mês dos quais 24% homens e 27% mulheres.
- Tem 1562 lares com 61 087 velhos.
- 17633097 velhos ganham 353.95 euros.
- Tem 820 519 homens que ganham 448.60 euros e 942 578 mulheres que ganham 271.50 euros.

Por escalões e quantidade de funções:
- Menos de 400 euros há 1442 000.
- Entre 400 e 1186 euros – há 269 000.
- Mais de 11 86 euros – há 52 000.

Aposentados e reformados da Função Pública - dados da CG Aposentações:
- Menos de 500 euros – tem 94 484.
- 500-1000 euros – 122 244.
- 1000-2000 euros – tem 105.213.
- Mais de 2000 euros 70 724.

A prioridade é alargar o apoio domiciliário – integrar no seio familiar e nas suas casas sempre que possível por ser a melhor solução.

Porque morrem as Cidades ??
Porque morrem as Árvores ??
Porque morre um País ??
Porque morre uma Civilização

Porque morre o que morre ?? e devia ser Vida e Alegria.

E, também porquê, surge de repente um Homem que até pareceria um ilustre cidadão desconhecido, que surge dos fins do mundo, ainda com o handicap de ser negro no mundo ainda tão racista, apenas um homem, chamado Barak Obama, não o novo salvador do seu País arruinado e focado durante tantas dezenas de anos, na manutenção de guerras sem fim desde Cuba até ao Médio Oriente, em nome de quê ? Não o salvador do seu País mas que, como um raio, iluminou a UE da escuridão em que se vem mergulhando.

Será um novo profeta como um Buda, como um Cristo Redentor?

Que fogo do incendiar o mundo neste Inverno frio e sem dinheiro como se o mundo tivesse de partir do NADA. O que tem ele de incomum com a sua vida e família comum? Não será sinal de que o homem comum pode ser a esperança do mundo.

Que fim de tempos iniciado com o Brasil e o seu mensalão.

Que fim de tempos com Portugal e o seu “viaje primeiro e pague depois”.

Isto que acabo de escrever não é mais do que o que fui aprendendo e olhando de um século de vivências directas e indirectas do mundo “civilizado” em que me movimentei e movimento, mesmo tendo visitado “alguns Países” considerados desse mundo que apelidam de III – vamos lá pensar porquê e como me posiciono.

Porque morrem as Cidades e há tanto sofrimento?

Por falta de amor já que morrer também pode ser belo quando chega “a hora”.
Também morrem as estrelas para que outras nasçam.

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa-Alto de Santo Amaro
24 de Maio de 2008 a 9 de Janeiro de 2009
Imagens da autora e de António Baptista Coelho

Nota importante: esta série de artigos foi dividida em três edições semanais, de que a última foi agora editada.

Preparação editorial, por António Baptista Coelho, em 31 de Janeiro de 2009.
Editado por José Baptista Coelho em 2 de Fevereiro de 2009.

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