quinta-feira, novembro 29, 2007

Evolução da produção de Habitações de Interesse Social em São Paulo - artigo de João Cantero - Infohabitar 172

 - Infohabitar 172

Nota introdutória
Edita-se, em seguida, um artigo de João Alberto Cantero, Arquiteto e Urbanista, Mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), Superintendente de Obras da COHAB-SP (Companhia Metropolitana de Habitação), onde trabalha há 15 anos.

O referido artigo apresenta a temática da palestra que João Alberto Cantero proferiu no Departamento de Arquitectura e Urbanismo (DAU) do ISCTE, em 15 de Novembro de 2007, e que constituiu a 12.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, realizada com apoio directo do DAU, do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC e da Federação nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) – na mesa são visíveis, da esquerda para a direita, João Alberto Cantero, Paulo Tormenta Pinto, Presidente do DAU, António Baptista Coelho, Presidente do GH e Chefe do NAU, e Manuel Tereso da Direcção da FENACHE.






Fig. 01

A ilustração do artigo é feita com base na apresentação de Power Point que o palestrante gentilmente disponibilizou, mas a responsabilidade da escolha e integração dos elementos desta ilustração é da edição do Infohabitar, que optou, naturalmente, por uma perspectiva de acompanhamento do texto de João Alberto Cantero.

Deixam-se, assim, os leitores com uma excelente viagem sobre:
- a evolução da produção de conjuntos habitacionais de interesse social na Cidade de São Paulo, ao longo de várias dezenas de anos;
- o processo de reocupação de uma quadra utilizada por moradias temporárias (favelas) e que foi transformada em um conjunto habitacional para famílias de baixa renda;
- e a requalificação e revitalização de ambientes construídos deteriorados inseridos em áreas centrais consolidadas da Cidade de São Paulo, com acessos e infra-estrutura já instalados a fim de receberem o realojamento de famílias de baixa renda.





Fig. 02

E agradece-se ao colega João Alberto Cantero por este excelente artigo, que constitui mais um degrau no alargamento do corpo redactorial do nosso Infohabitar no Brasil e na FAUUSP, aproveitando-se para sublinhar a enorme importância e o riquísimo manancial de experiência e de capacidade de estudo que se ganhará com o aprofundamento e a dinamização da cooperação técnica no mundo da lusofonia e designadamente entre instituições e entidades com muito e bom trabalho feito no Brasil e em Portugal nas amplas áreas do habitar e da cidade.

Não se entende, de facto, a razão – que não existe – de não se proceder a um intercâmbio de técnicos, de especialistas e de saberes, que falam português, muito mais activo do que aquele que vai acontecendo a partir de um conjunto de boas vontades. E fica aqui assim um desafio para que, urgentemente, e designadamente nas áreas do habitar e da cidade se consiga imprimir dinâmica e amplitude a uma tal cooperação; o Grupo Habitar e as entidades que apoiaram esta 12.ª Sessão Técnica do GH, juntamente com a FAUUSP estarão com certeza na linha da frente deste novo conjunto de acções.

António Baptista Coelho





Fig. 03: as escalas do Brasil e de São paulo

Resenha baseada no Artigo original para Coletânea de trabalhos Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP

TÍTULO

A questão do planejamento habitacional de interesse social: a locação social em São Paulo

CRÉDITOS
João Alberto Cantero
Arquiteto e urbanista formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1988.
Mestre em Estruturas Ambientais Urbanas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 2004.
Superintendente de Obras da Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo – COHAB-SP
Orientador: Prof. Dr. Khaled Ghoubar





Fig. 04: a fase dos grandes conjuntos habitacionais

Contextualização da produção habitacional na virada do séc. 20 para o 21: experiências recentes da política habitacional em São Paulo


A escassez de recursos orçamentários da prefeitura e a impossibilidade de ampliação de financiamentos, devido às restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal, junto com o processo de renegociação de suas dívidas com o Governo Federal, limitaram em muito a viabilização de financiamentos habitacionais a partir dos anos 80 em São Paulo.

As formas tradicionais de financiamento da produção, com recursos federais, antes através do extinto BNH e posteriormente através da Caixa Econômica Federal, mostraram-se exauridos já no final da década de 1980. Esse quadro fomentou a busca por novas formas de alocação de recursos, o que gerou a instituição do Fundo Municipal de Habitação, na cidade de São Paulo. O objetivo definido era o de captar recursos orçamentários e não orçamentários, em especial os resultantes de operações urbanas que envolvam contrapartidas ao município, para alavancar a produção habitacional de interesse social.

Em contrapartida à menor quantidade, surgiram soluções habitacionais diferenciadas, principalmente se comparadas com a produção dos grandes conjuntos “monofuncionais” do período anterior ao da década de 90, com suas tipologias padronizadas, implantadas em áreas afastadas, na periferia da cidade, carentes de infra-estrutura, comércio, serviços, equipamentos sociais, etc.
Dos Mutirões por co-gestão, ao Projeto Cingapura, as soluções habitacionais vêm se alternando ao sabor de governos municipais de orientações político ideológicas opostas, sem o estabelecimento de um plano de metas que apresente um mínimo de continuidade ou critério técnico e urbanístico perene.




Fig. 05: exemplos de conjuntos do Projeto Cingapura

Invariavelmente, e independentemente do mérito das soluções adotadas, há praticamente um completo abandono, por parte das novas administrações das soluções adotadas pela administração anterior, prejudicando a própria avaliação de determinadas soluções arquitetônicas e urbanísticas que não pode ser feita de maneira satisfatória sem a existência de um trabalho social e administrativo continuado. Essa situação aplicava-se à produção da COHAB-SP como agente operador dos recursos do Fundo Municipal da Habitação.
Como resultado, em meio a esta realidade, soluções técnicas e avanços qualitativos transcendem à alternância política da administração, quando novas soluções tipológicas dos edifícios, incorporando tecnologia e qualidade nos seus padrões arquitetônicos e de engenharia, acabam passando despercebidas.

Já durante a década de 1990 há a incorporação de novos procedimentos, como sistemas de individualização de leitura de água e gás em edificações multifamiliares verticais, bem como o início de um processo de adensamento (verticalização) dos conjuntos (em geral menores, em áreas cuja infra-estrutura já está consolidada dentro da malha urbana), superando o paradigma dos edifícios de até quatro pavimentos acima do térreo, na figura do famoso “H”: edifício formado por quatro apartamentos por pavimento, separados em duas “lâminas”, de dois apartamentos cada uma, através de uma torre de caixa de escadas.





Fig. 06: a solução em “H”

Mas é a partir do início de 2001 que se instaura uma gestão mais voltada para a região central da cidade, em um momento em que o Poder Público passa por grandes transições. O Estatuto da Cidade (aprovado em julho de 2001) e a implementação do Plano Diretor Estratégico do município (em 2003) trazem grandes mudanças à forma de intervenção pública no espaço urbano, em especial nos aspectos da função social da propriedade e no arcabouço jurídico da produção de habitação de interesse social, que se consolida com a criação das Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS.
A função da COHAB-SP se firma como efetivo agente operador desta política promovida pela SEHAB (Secretaria de Habitação) e passa a permear todos os programas habitacionais do município.

As parcerias públicas e privadas passam a ser de fundamental importância na implementação dessa nova política, uma vez que os recursos do FMH são destinados a focos específicos, como os mutirões co-geridos, as intervenções em favelas, as aquisições de áreas e edifícios, bem como as contrapartidas, às vezes econômicas, às vezes como trabalho social, este último proporcionado principalmente pela Superintendência de Habitação Popular – HABI/SEHAB.


Produção da Cohab-SP: Estudos de casos no Programa de Locação Social


O Programa Locação Social foi criado pela Resolução número 23 do Conselho do Fundo Municipal de Habitação, vinculado ao programa denominado MORAR NO CENTRO, que buscava fomentar a utilização residencial das áreas centrais dentro de um programa “mãe” de reabilitação de toda a área central degradada da cidade, conhecido como PROGRAMA AÇÃO CENTRO, que contava com um financiamento estimado em 100 milhões de dólares do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a Prefeitura de São Paulo. Cerca de 15% deste montante seriam originalmente destinados especificamente à produção de HIS.
A atuação da Cohab se deu através de contratação e gerenciamento de projetos e da construção de novas unidades em terrenos vazios ou sub-aproveitados, ou reformas com eventual mudança de uso de prédios vazios.

A locação social surgiu como um programa destinado às camadas da população cuja faixa de renda (até três salários mínimos) não permite a sua inclusão em programas de aquisição de moradia pelos sistemas tradicionais de financiamento.

O único modelo que se aproxima desta proposta é o Programa de Arrendamento Residencial (PAR), da Caixa Econômica Federal, instituído na década de 1990, que não se constitui em um programa específico para a construção de moradias nas áreas centrais, mas voltado para faixas da população com rendimentos familiares entre 3 e 6 salários mínimos, pagando mensalmente 0,7% do valor do imóvel. Este programa permite a aquisição do imóvel pelo morador, após um período de 15 anos, descontando os valores já desembolsados durante o arrendamento.
A locação social também é um programa que nasceu vinculado a várias parcerias. A produção dos primeiros empreendimentos se deu através de financiamento do BID / Caixa Econômica Federal / Ministério das Cidades (PEHP – Programa Especial de Habitação Popular) e o FMH. Ela desvincula o provimento de moradia de interesse social da sistemática de aquisição da propriedade do imóvel, sistema bastante praticado em vários países europeus.
Esta produção pode ser entendida dentro de distintos grupos, para uma melhor análise de suas características tipológicas:

Recuperação de edifícios altos no centro de São Paulo: Edifícios Riachuelo, Senador Feijó e Asdrúbal do Nascimento


São projetos pioneiros na recuperação de edifícios em áreas centrais para destinação às HIS, juntamente com os edifícios Riskallah Jorge e o antigo Hotel São Paulo, ambos no Vale do Anhangabaú e viabilizados pelo programa PAR-Reforma. Eles foram adquiridos com recursos do PEHP e encontram-se atualmente em obras. Todos foram objetos de avaliações e projetos especiais que permitiram as adequações arquitetônicas e estruturais para a sua nova destinação para unidades de habitação popular.





Fig. 07: Edifício Riachuelo

O Edifício Riachuelo, na rua Riachuelo junto ao Vale do Anhangabaú, é um edifício de grande porte, que se encontrava bastante deteriorado e cujo uso anterior era comercial. Para ele foi contratado, pela Cohab-SP, o escritório de Arquitetura Paulo Bruna Arquitetos Associados, que desenvolveu um projeto para 100 unidades habitacionais em uma área construída de 8.311,00 m2.





Fig. 08: Edifício Senador Feijó

O Edifício Senador Feijó, localizado na rua com o mesmo nome, era anteriormente um hotel, tendo sido contratado o escritório Barbosa & Corbucci Arquitetos Associados para o desenvolvimento do projeto de 45 unidades habitacionais em uma área construída de 2.280,00 m2.




Fig. 09: Edifício Asdrúbal do Nascimento

Já o Edifício Asdrúbal do Nascimento, também em rua assim denominada, era um edifício comercial que resultou em projeto de 36 unidades habitacionais, desenvolvido o projeto pelo escritório Autografics Arquitetura e Planejamento Gráfico.

Em todos os projetos a Cohab-SP adotou a premissa de buscar a diversidade das tipologias das unidades, havendo desde quitinetes até apartamentos de dois dormitórios, todos com sistemas de medição individualizada de água, gás e energia elétrica. Todos dispõem de elevadores, acessibilidade a deficientes físicos e unidades adaptadas a eles. Também as áreas condominiais, para uso coletivo, estão previstas nos edifícios, caracterizadas por salões condominiais de uso geral.


Produção de conjuntos especiais: Olarias e Parque do Gato.


Estes projetos foram desenvolvidos em terrenos localizados no bairro do Pari (Olarias) e na confluência dos rios Tamanduateí e Tietê (Residencial Pq. Do Gato).

O projeto do Conjunto Residencial Olarias foi desenvolvido pelo escritório Fábrica Urbana, e possui 137 unidades habitacionais. As obras foram concluídas em 2004 e seu projeto teve como premissas o atendimento à população moradora de rua (especialmente “catadores” de lixo reciclável), população de áreas de risco, idosos e portadores de necessidades especiais. O projeto contemplou a construção junto ao alinhamento das calçadas, lojas no andar térreo, áreas condominiais internas (livres e cobertas), elevadores, estacionamento para carrinhos de catadores, além do aparato tecnológico de medições individualizadas.





Fig. 10: o Parque do Gato





Fig. 11: o Parque do Gato

O projeto do Residencial Parque do Gato teve sua concepção na Cohab-SP, sendo o projeto final desenvolvido pelo escritório Peabiru – Trabalhos Comunitários e Ambientais. O projeto foi implantado em uma área parcialmente ocupada pela Favela do Gato, e constitui-se de 486 unidades habitacionais, divididas em 9 blocos residenciais, que compõem quatro condomínios independentes. Há diferentes tipologias de unidades, variando de quitinetes a apartamentos de dois dormitórios.




Fig. 12: o Parque do Gato, pormenores de arquitectura urbana

O projeto original previa a implantação de um centro comercial, um centro de educação infantil e o desenvolvimento do Parque do Gato, área de lazer municipal que englobaria o Campo de Beisebol existente. Até a presente data apenas o conjunto residencial foi implantado. A área original já era pública, remanescente da construção da Marginal do Tietê, o que facilitou a viabilidade do projeto.


Edifícios destinados a demandas específicas: O Residencial Vila dos Idosos


O empreendimento Residencial Vila dos Idosos foi projetado especificamente para uma população idosa e de baixa renda. O conjunto possui 145 unidades habitacionais, entre quitinetes e apartamentos de um dormitório, uma vez que destina-se a moradores sozinhos ou no máximo duas pessoas por unidade.





Fig. 13: Vila dos Idosos

Os apartamentos do andar térreo encontram-se adaptados ainda para deficientes físicos. O conjunto conta com elevadores, áreas de lazer condominial coberta em todos os andares, lojas (sendo que está prevista a instalação de uma farmácia popular), além de quadra de bocha, salões condominiais, espelho d´água com chafariz e jardins. O prédio encontra-se integrado com uma biblioteca pública, o que permitirá atividades coordenadas com os moradores.

Um fator de relevante a partir do início da operação deste empreendimento, foi a constatação da não ocorrência de inadimplência no pagamento dos aluguéis, uma vez que nos demais empreendimentos da companhia, inclusive os de locação social, as taxas de inadimplência são altas (superando muitas vezes os 50%).






Fig. 14: Vila dos Idosos

Uma constatação preliminar indica que os níveis de renda dos aposentados, providos pela aposentadoria oriunda do Estado, embora baixos, permitem melhores condições sócio-econômicas aos moradores de baixa renda que aqueles em idade produtiva.



Perspectivas das soluções adotadas: Avaliação das Possibilidades


Os projetos elencados nos permitem verificar os efeitos da necessidade de adensamento e as respostas apresentadas, sendo que tanto nos casos de recuperação das áreas centrais através de reformas de edifícios, quanto nos casos de lotes urbanos em regiões altamente valorizadas, as soluções de adensamento através de edifícios altos mostrou-se viável e plenamente justificável.
Seus custos iniciais incidentes na execução das obras justificam-se plenamente frente ao valor imobiliário da terra envolvida no empreendimento. Faz-se necessária uma verificação posterior, que diz respeito ao impacto financeiro de sua manutenção na administração condominial.
Resta ainda uma série de questões intrínsecas ao programa de locação social, cujo enfrentamento ora se coloca:


A degradação do Patrimônio Público


Ao trabalhar com valores subsidiados para a locação social, atrelada aos limites suportáveis de comprometimento de renda pelos moradores, resta pouca ou nenhuma margem para o pagamento de taxas de manutenção necessária aos edifícios. Esta questão está diretamente ligada à sustentabilidade financeira dos condomínios.


Sustentabilidade dos Condomínios

Uma das saídas vislumbradas para esta questão da sustentabilidade dos condomínios está atrelada à possibilidade de geração de renda nos empreendimentos. De maneira incipiente, estuda-se a possibilidade de que as áreas comerciais possam gerar renda e excedentes que minimamente possam prover a sustentabilidade financeira dos condomínios.
Estas experiências ainda não foram levadas a efeito, como no caso do Conjunto Olarias, onde as lojas permanecem fechadas atualmente, ou no caso do Pq. Do Gato, onde o centro comercial não foi executado.


Administração Condominial


A experiência de contratação de uma administradora privada, no caso dos conjuntos Pq. Do Gato e Olarias mostrou-se pouco eficiente. Atualmente a administração é exercida pela Cohab-SP enquanto buscam-se alternativas mais eficazes.
A administração condominial semi-pública, com a possibilidade de gestão por ONGs ou das OSCIP – Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (que podem valer-se de benefícios previstos na LEI 9.790/99) mostra-se como uma das opções mais viáveis.


Controle da inadimplência


O controle da inadimplência é peça fundamental na sustentabilidade dos condomínios. As suas formas de implementação estão ligadas diretamente à forma de administração condominial a ser concebida


Trabalho social e Geração de renda

Nos conjuntos já implantados verifica-se a necessidade de um trabalho social e educacional nos moldes originalmente propostos e dificilmente implementados.
Isto pode ser verificado pelo agravamento das tensões sociais, pelo constante aumento de violência, pela desorganização e falta de identidade comunitária. Em que pese a origem da população moradora e a sua pouca familiaridade com a organização comunitária, acreditamos que as falhas de gestão e do trabalho social insuficiente sejam em parte responsáveis pelo atual retrato destes conjuntos. Ali se verifica alta inadimplência e vandalismo das instalações e constantes furtos de partes dos elevadores como ocorre no conjunto Olarias.





Fig. 15

Conclusões

A locação social possui méritos inegáveis como programa de habitação de interesse social. Sua premissa de atendimento aos menores níveis de renda, não atendidos pelos demais programas, já a validam conceitualmente. Outro de seus grandes méritos é evitar o repasse para terceiros das unidades habitacionais, fato corriqueiro no caso de unidades comercializadas.
Assim a locação social constitui-se na forma mais adequada para a quebra do paradigma da produção habitacional nos moldes convencionais, abaixo sintetizado:

CAPACIDADE DE ENDIVIDAMENTO -> VALOR DO FINANCIAMENTO POSSÍVEL -> CUSTO LIMITE DO EMPREENDIMENTO -> CUSTO DA CONSTRUÇÃO -> ÁREA MÁXIMA A SER CONSTRUÍDA

Esta fórmula promove uma equação perversa, onde a qualidade dimensional das unidades habitacionais, assim como sua localização, está fadada a unidades de áreas limitadas pela condição do financiamento possível em áreas afastadas e conseqüentemente de menor valor imobiliário.

A locação social ao eliminar o limitante da capacidade de endividamento, permite a incorporação de qualidade arquitetônica ao projeto e implantação de empreendimentos em áreas consolidadas e mais adequadas aos perfis das demandas de menores condições.

Resta-nos, porém, uma maior promoção do projeto mais adequado a estas realidades. E para tanto, os projetos habitacionais deverão livra-se das amarras da sua função primária: morar. Eles deverão incorporar um programa muito mais abrangente que envolva a otimização do uso das áreas condominiais: novos usos complementares à habitação social, em especial a geração de renda, que será determinante na concepção dos empreendimentos de HIS, criando-se novos paradigmas de projetos habitacionais.

Nesses novos parâmetros há necessidade de priorizar a análise integrada custo/projeto, objetivando alcançar qualidade com uma nova política pública de viabilização financeira através de programas geradores de renda, para uma população que necessita morar e buscar sua própria viabilidade econômica e social.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Edição de José Baptista Coelho, 29 de Novembro de 2007

quinta-feira, novembro 22, 2007

Adequação, diversidade e inovação no habitar (II) - Infohabitar 171

 - Infohabitar 171

Adequação, diversidade e inovação nas soluções de habitar, da casa à cidade – parte II:

 artigo de António Baptista Coelho
Na Parte I deste artigo, editada na passada semana abordaram-se os temas: enquadramento, meio urbano, tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios, espaços e serviços comuns, multifamiliares e unifamiliares inovadores.
Notas prévias:
- a ilustração deste artigo foi feita numa perspectiva informal
- no final deste artigo encontra-se o índice geral referido aos dois artigos (I e II) sobre “Adequação, diversidade e inovação no habitar

Adequação, diversidade e inovação no habitar (II)
Índice
A adaptabilidade na habitação
. Formas de adaptabilidade na habitação
. Modificações com reduzido aumento do custo global do fogo
. Elementos práticos de adaptabilidade doméstica

Estudar e considerar o que o habitante quer
. Aspectos qualitativos globais
. Aspectos qualitativos de pormenor, mas com influência crítica no projecto:
. Equipamentos, complementos e acabamentos domésticos (com base num recente estudo do CIC-COI, e da Eurosondagem)

Cuidar de alguns aspectos fundamentais

Adequação e inovação tipológica e potencialidades das cooperativas de habitação

Notas conclusivas sobre o aprofundamento e a diversificação das tipologias residenciais


A ADAPTABILIDADE NA HABITAÇÃO


Fig. 01: a habitação como concha do habitante, mas uma concha que o liga ao mundo.


Formas de adaptabilidade na habitação

A adaptabilidade na habitação pode variar entre:

. Uma flexibilidade quase total de compartimentação, estruturada por uma grelha-base e por núcleos de serviços fixos, com os habitantes participando na escolha inicial da compartimentação do fogo.

. Um sistema de portas e divisórias, juntando e separando espaços.

. A conversão habitacional de sotãos e caves.

. O desenvolvimento de fogos apropriados a grupos de habitantes particularizados.

. Colocar e retirar paredes/"tabiques" interiores (por exº, entre a zona de estar e um outro espaço contíguo, a sala que aumenta anexando quarto, a sala que se subdivide em dois quartos ou em quarto e saleta). Poroporcionando-se a melhor adequação do fogo a seuências como esta: 1º. casal, 2º. casal com crianças, 3º. casal e jovens, 4º. casal.

. Fogos com possibilidade de evoluir para dois fogos separados, por subdivisão de habitações, criando-se pequenos fogos com acessos autónomos; afinal apenas um maior desenvolvimento da solução de fogos com estúdios ou quartos autonomizados e com utilidade diversificada.

. Encerramento de varandas e terraços bem programado, proporcionando uma fruição alternativa de espaço interior ou de espaço exterior (através de grandes janelas móveis); mas atenção não se está aqui a fazer a defesa das “marquises”, mas sim a sensível consideração de poderem existir espaços privativos exteriores que estejam já programados no sentido da eventual aplicação de uma solução de encerramento específica que deverá favorecer a funcionalidade e o conforto do respectivo fogo e que deverá enriquecer o aspecto visual do respectivo edifício.

. Organizações domésticas cujas relações de acessibilidade mútuas e dimensões de compartimentos proporcionam diversos usos nos mesmos espaços (ex. sala que se torna grande quarto, quarto que se torna saleta); para isso há que cuidar das dimensões úteis dos compartimentos e designadamente das suas larguras.



Fig. 02: muitas vezes nem será difícil, nem será caro, “inventar” excelentes e “inovadoras” soluções em que uma fusão de aspectos habitualmente ligados ao unifamiliar e ao multifamiliar confluem em soluções domésticas e urbanas de excelência como é o caso deste conjunto da cooperativa “O Nosso Piso” em Conceição de Tavira, projectado pelo Arq. Serra Alves.


Modificações com reduzido aumento do custo global do fogo (cerca de 5%, unitariamente):


(a ideia é que haja alguma possibilidade de diálogo e de escolha, que resultarão em apropriação e satisfação; trata-se naturalmente de uma listagem aberta)

. 6% a 7% de área habitacional suplementar (no fogo).

. Varanda espaçosa – resulta no alargamento visual do espaço interior, pode permitir
vistas melhoradas do ambiente envolvente, enriquece o espaço interior contíguo, e cria zona tampão em termos de conforto ambiental.

. Lavabo adicional com WC e lavatório ou "Recinto de duche".

. Isolamentos térmico ou acústico melhorados.

. Grande quantidade de roupeiros embutidos.

. Compartimentações desmontáveis.



Fig. 03: a “simplicidade” de uma excelente organização doméstica é, provavelmente, o principal factor de adaptabilidade doméstica, como aqui acontece em Aldoar, Porto, num conjunto da cooperativa Nova Ramalde projectado pelo Arq. Manuel Correia Fernandes.



Elementos práticos de adaptabilidade doméstica

Referem-se alguns aspectos que garantem adaptabilidade pormenorizada nas habitações:

. Um dimenionamento pormnorizado de larguras críticas de vãos, corredores e compartimentos que proporcione o melhor exercício das respectivas funções correntes (ex., num corredor: passar e colocar pontualmente um pequeno elemento de mobiliário) e que proporcione a cada compartimento a maximização da respectiva arrumação de mobiliário considerando um determinado leque de funções gerais (ex., num quarto aplicarrem-se várias combinações de mobiliário de “quarto” mas também de mobiliário de escritório).

. Uma forte disponibilização de paredes mobiláveis.

. Uma forte capacidade de arrumação, de base e por possibilidade de integração de novos equipamentos: na cozinha e zonas de serviço (mais armários fixos e mais electrodomésticos, especialmente os volumosos); nas casas de banho; nos corredores (exº, roupeiros fixos); .nos quartos (exº, roupeiros fixos). Decorrendo de áreas e larguras úteis adequadas.

. A existência de um compartimento muito espaçoso (área superior ou igual a 25.0m2).

. Uma cozinha familiar muito espaçosa (>12.0m2).

. Zona e/ou equipamentos específicos de tratamento de roupas, que propocione(m) uso multifuncional da cozinha.

Bipartição da planta, com duas partes do fogo quase independentes.

. Sala prolongando-se por espaçoso recanto, relativamente autónomo, com cerca de 6.0m2.

. Sala com dupla exposição.

. Quarto grande com duas janelas.

. Sala de banho muito espaçosa (multifuncional).

. Distribuição estratégica das tomadas de telefone, rádio e TV ao longo da casa.


ESTUDAR E CONSIDERAR O QUE O HABITANTE QUER

Os “títulos” que são, em seguida, apontados são apenas isso: títulos e ideias a explorar.

O sentido que tem a inclusão desta matéria é chamar a atenção para que tudo aquilo que atrás se compilou se liga a estudos teóricos e práticos que foram sendo realizados em Portugal e no resto da Europa no que se refere às matérias da diversificação tipológica no habitar, mas é fundamental continuar a inquirir, directamente, os habitantes sobre os eus gostos e as suas preferências, e, portanto, a listagem seguinte é apenas um esboço de matérias que devem ser consideradas em tais inquirições.


Fig. 04: a propósito de uma imagem do conjunto chamado “Campo de Batatas”, em Malmö, de Charles More, apenas se comenta que entre soluções correntes unifamiliares e soluções correntes multifamiliares há um enorme leque de soluções a desenvolver e a aplicar.


Aspectos qualitativos habitacionais globais:

. “Mais espaço”: por exemplo, um estudo recente ligado a uma associação de industriais da construção referia áreas domésticas extremamente folgadas como sendo desejadas; ora é evidente que todos queremos mais espaço de casa, só que mais espaço custa dinheiro e a relação entre satisfação residencial e espaciosidade residencial não é uma relação directa pois há fogos muito espaçosos e perfeitamente desastrados, enquanto há fogos “mínimos” extraordinários em termos de funcionalidade e de caracterização.

. “Mais janelas”, ou maior dimensão de superfície envidraçada e transparente e/ou melhores condições de luz natural e de insolação; um “complexo” qualitativo de enorme importância e que deveria levar a caminhos específicos de estudo e avaliação. O poder gozar a luz natural e as vistas é um factor de enorme importância na satisfação do habitante; todos os estudos, desde há dezenas de anos, o confirmam.

. Mais funcionalidade; um tema que parece já tratado,mas que talvez não o esteja, isto se observarmos tantas soluções domésticas onde é quase ausente uma tal qualidade, designadamente, em termos de apoio às funções domésticas “obrigatórias”.

. Mais conforto, designadamente, em termos de frescura no Verão e calor no Inverno e a partir de medidas passivas (ex., inércia térmica, sombreamento e insolação estratégicos, etc.). E é fundamental interiorizar que o conforto higrotérmico – e nele há que contar, também, com uma verdadeira estratégia de ventilação – é fundamental na satisfação para com uma habitação e só não é mais considerado porque ainda estamos, maioritariamente, mal habituados a sofrer calor e frio nas nossas casas.

. Mais conforto, designadamente, em termos de isolamento acústico; outro aspecto fundamental para o bem-estar do habitante, seja em termos de bem-estar físico, seja em termos de privacidade – também todos os estudos o confirmam.



Fig. 05: aprofundar múltiplos aspectos domésticos pormenorizados (imagens de um hotel em Hamburgo).


Aspectos habitacionais qualitativos de pormenor, mas com influência crítica no projecto:

. Aprofundar, ou não, as relações com cidade. Será que esta opção é considerada importante, ou não – esclarece-se que o que se tem em vista é o tratamento pormenorizado e funcional das relações da envolvente do edifício com a continuidade urbana onde ele se integra, por exemplo, ao nível de passeios agradáveis e protegidos. Ou, pelo contrário, o que interessa é, essencialmente, o que se refere ao desenvolvimento do condomínio.

. Aprofundar, ou não, as relações com vizinhos. Será que esta opção é considerada importante, ou não – esclarece-se que não se pretende “obrigar” ao convívio, mas simplesmente proporcionar meios e elementos que possa, eventualmente, vir a despoletar algum tipo de convivialidade, ainda que limitada por exemplo à saudação e pouco mais. Ou, pelo contrário, o que interessa é essencialmente o que está para lá da porta da casa de cada um?

. Considerar pormenorizadamente o tipo/carácter de vizinhança próxima e seu arranjo: uma pequena rua em impasse, uma praceta, um largo. Será que esta caracterização e este cuidado é considerado importante, ou não. E no caso afirmativo o que se deve privilegiar? O recreio infantil, o desorto informal, a estadia no exterior, os espaços ajardinados?

. Relação com pequenos equipamentos desportivos: Campos "mini"; "recantos desportivos"; paredes para treinar ténis; percursos para corrida e exercícios de manutenção aproveitando as diversas zonas pedonais.

. Equipamentos para crianças e jovens - condições desejáveis de acessibilidade e uso: considerar distâncias desejáveis; para crianças até 9 anos: 100/200m; avigilância natural a partir das habitações só é eficiente em grupos de 20/30 alojamentos; asáreas de jogos devem estar próximas de zonas pedonais muito usadas e ser relativamente centrais; áreas de jogos atraentes evitam que as crianças usem espaços viários para brincar; as crianças estão sentadas com frequência e são atraídas pelas escadas; há que servir os gostos das crianças e não um objectivo de decoração espacial e as zonas de circulação pedonal devem considerar o recreio livre das crianças usando variados tipos de elementos.

. Considerar pormenorizadamente o carácter e os tipos dos equipamentos na vizinhança próxima, por exemplo, ao nível dos equipamentos construídos mais comuns. Que tipos de equipamentos são os mais desejados na vizinhança? equipamentos conviviais, como poequenos cafés, equipamentos funcionais como lojas de comércio diário.

. Ter espaços comuns mínimos e funcionais ou ter espaços comuns um pouco mais espaçosos e representativos,ou ter espaços comuns muito espaçosos e representativos.

. Ter, ou não ter, luz natural nas escadas comuns.

. Ter, ou não ter, luz natural nos patins de acesso aos fogos.

. Ter, ou não ter, quintal/pátio privativo, pequeno ou grande.

. Ter, ou não ter, varanda ampla e funcional e/ou pequena (de assomar).

. Ter, ou não ter, uma zona específica e funcional para tratar a roupa doméstica.

. Ter, ou não ter, uma cozinha que sirva como sala de família.

. Ter, ou não ter, uma cozinha apenas de preparação (cozinha “laboratório”); mas neste caso coloca-se a questão de poder, ou não, associar tal equipamento a um outro espaço, ou até torná-lo temporariamente invisível.

. Ter, ou não ter, um “salão”.

. Ter, ou não ter, uma “suite” com casa de banho privativa.

. Ter, ou não ter, um quarto especialmente grande (em área e em largura).

. Ter, ou não ter, um “hall” e este ser apenas funcional ou ser especialmente amplo.

. Ter, ou não ter, um quarto próximo da entrada, portanto mais autónomo e que possa funcionar, por exemplo, como escritório.

. Ter, ou não ter, uma zona da sala que possa ser mobilada como zona de trabalho.

. Ter, ou não, ter uma grande capacidade de arrumação embebida (armários, roupeiros, despensas); e esta arrumação servir todas as zonas da casa ou especilamente uma delas.

. Ter, ou não ter, corredores que possa ser mobilados (além de proporcionarem uma passagem funcional).

. Ter, ou não ter, uma casa de banho com janela exterior e esta casa de banho ser, ou não, especialmente espaçosa.

. Ter, ou não ter, pequenas janelas que possam ser abertas independentemente das janelas maiores para se ventilar a casa.



Fig. 06: a diversidade de equipamentos domésticos (exemplos da exposição Bo01).


E relativamente a alguns equipamentos, complementos e acabamentos domésticos - com base num recente estudo do Centro de Investigação Científica da Construção e do Imobiliário, CIC-COI, e da Eurosondagem e numa ordem decrescente de importância:

. “Ter cozinha totalmente equipada”; um aspecto que se poderá reflectir no interesse de se desenvolver ao máximo a funcionalidade e mesmo a ergonomia dos espaços e equipamentos da cozinha, não se perdendo de vista, por um lado o seu sentido mais simbólico/doméstico, nem numa outra dimensão o interesse de se aprofundar toda a ergonomia doméstica.

. “Ter televisão/rádio”; um aspecto que se poderá reflectir no interesse de se aprofundar a ligação do audio-visual com o espaço doméstico.

. Ter aquecimento central/ar condicionado;

. Ter estacionamento coberto e encerrado;

. Ter estendal exterior;

. E é interessante referir que “ter varanda” fica praticamente empatado com “ter estendal”.

(em termos de revestimentos o escalonamento descrecente é o seguinte)

. Madeira (numa maioria absoluta e muito expressiva);

. Pedra;

. Mosaico cerâmico.

(e quanto a recantos/elementos funcionais)

. Roupeiros e copa , praticamente empatados numa primeira posição; aspecto este que poderá ter a ver com a amostra de casos estudada;

. Lavandaria, também com uma expressiva referência;

. Despensa;

. Arrecadação.

É no mínimo essencial sublinhar o interesse de se continuarem e disseminarem este tipo de estudos, estabelecendo-se relações expressivas com as respectivas amostras em análise e, designadamente, com os respectivos projectos de arquitectura.



Fig. 07: este conjunto de realojamento da C. M. de Santa Maria da Feira, projectado pelo Arq. Bruno Marques, serve de exemplo de como com uma fundamentada simplicidade de meios é possível desenvolver uma afirmada adequação a modos de vida e a sítios específicos.


CUIDAR DE ALGUNS ASPECTOS FUNDAMENTAIS NA HABITAÇÃO


Em todas estas matérias de aproximação a uma mais ampla, consistente e diversificada adequação – e naturalmente satisfação – residencial há que cuidar e nao esquecer alguns aspectos fundamentais de ordem económica, estratégica e mesmo prática, salientando-se alguns aspectos:

. Aprofundar as matérias associadas à importância fundamental de um custo equilibrado (inicial e em termos de gestão/manutenção).

. Aprofundar e agilizar as tarefas ligadas à gestão do condomínio, profissionalizando-a e desenvolvendo-a em termos de leque de serviços a oferecer numa base de menu de opção a partir de um conjunto mínimo/obrigatório.

. Investigar e privilegiar o que realmente vale a pena pois para que algo se vá conseguindo há que estruturar e privilegiar estrategicamente determinados objectivos.

. Proporcionar que as pessoas entendam o que se lhes oferece, designadamente, procurando, identificando e melhorando processos de diálogo e de apresentação de soluções que sejam eficazes e bem “legíveis” pelas pessoas.



Fig. 08: um dos conjuntos da cooperativa Coohafal no Funchal, projectado pelo Arq. António Barreiros Salvador, serve aqui de exemplo da tradição já bem sedimentada e comprovada de mais de três décadas de uma promoção cooperativa tão sensível aos habitantes como a uma inovação residencial consistente; aqui como em muitos outros sítios a habitação está também no exterior e garante-se que a qualidade interior e exterior irá permanecer por muitos anos.


ADEQUAÇÃO E INOVAÇÃO TIPOLÓGICA E POTENCIALIDADES DAS COOPERATIVAS DE HABITAÇÃO

Em todas estas matérias de uma fundamentada e coerente adequação e inovação tipológica e da consideração efectiva de uma grande diversidade de soluções residenciais completas – que vão da casa á vizinhança urbana – são evidentes as vantagens disponibilizadas pela promoção cooperativa habitacional, designadamente, quando esta se encontra estruturada por objectivos afins associados à participação dos habitantes, á boa integração urbana e às matérias da sustentabilidade, uma situação que caracteriza, actualmente, em Portugal as cooperativas que integram a Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica.

E assim regista-se a capacidade específica da promoção cooperativa, quer na dinamização global das promoções habitacionais de verdadeiro interesse social, quer, especificamente, no contacto com os habitantes e na crucial gestão de continuidade e de proximidade; uma capacidade aplicável na promoção directa das cooperativas, mas também nas suas parcerias com municípios.

Regista-se, também, que o desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, intimamente implicado no desenvolvimento da defendida diversificação tipológica residencial foi sempre uma intenção muito ligada aos objectivos habitacionais cooperativos de proporcionar para além de uma casa, uma potencialidade de convívio e de alguma solidariedade através da formalização de determinadas configurações físicas e sociais de vizinhança. Realmente, também se habita a rua ou a praceta que é a nossa, e que de certa forma faz uma agradável transição entre o mundo doméstico, de cada um e de cada família, e o mundo mais urbano e animado que também desejamos.

E é interessante evidenciar que é neste nível de vizinhança de proximidade que se devem desfazer e anular, totalmente, todos e quaisquer resquícios que ainda sobrevivam em termos de discriminação por imagens habitualmente mais ligadas a habitação considerada “de baixo custo” ou “social” – custos e áreas poderão ser menores, mas a imagem urbana tem de ter toda a dignidade que a cidade exige. E, naturalmente, falar da criação e da gestão de espaços exteriores de vizinhança é falar das vantagens da promoção cooperativa que, ao acabar a intervenção, tem já a respectiva gestão bem organizada.

E regista-se, ainda, que o fundamental desígnio de fazer casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos seus habitantes é um desigínio que está nas raizes da iniciativa cooperativa habitacional, seja na perspectiva básica de uma gradual aproximação a casas mais ligadas a cada família, seja na perspectiva prática e processual que marca o diálogo técnico que nas cooperativas sempre se fez entre promotores, moradores e projectistas.

E, há que o dizer, todo este sentido qualitativo está bem presente nas próprias intenções práticas que integram a Carta da Qualidade da Habitação Cooperativa , um instrumento recentemente aprovado no âmbito da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica.


Fig. 09: no Conjunto João Barbeiro, em Beja, o Arq. Raúl Hestnes Ferreira como que expandiu, muito positivamente, os espaços comuns dos pequenos multifamiliares sobre o espaço exterior que é tanto público como comum; ganharam os habitantes e ganhou a cidade.


NOTAS CONCLUSIVAS SOBRE O APROFUNDAMENTO E A DIVERSIFICAÇÃO DAS TIPOLOGIAS RESIDENCIAIS

As tipologias residenciais – consideradas numa perspectiva que abarca toda a área desde o micro-urbanismo à “celula-alojamento” e em articulação com o objectivo de se promoverem condições crescentes de alargada satisfação residencial – têm um campo muito amplo de diversificação e têm potencialidades, quer ao nível do desenho da arquitectura urbana e da respectiva imagem urbana, quer ao nível da integração física e paisagística, quer ao nível da adequação aos modos de vida, do uso da casa e do uso do Bairro e da cidade. Não há tipologias a descartar, há, sim, tipologias mais, ou menos, adequadas; e há aqui uma riquíssimo campo para o aprofundamento da qualidade do projecto arquitectónico.

Partilha-se da opinião de Francesc Peremiquel, relativamente à actual escassez de inovação tipológica residencial, baseada no repensar de funcionalidades domésticas e de relacionamentos urbanos, definidos pelos modernos e depois repetidamente aplicados e reformulados.

Outra condição que, hoje, dinamiza a reflexão sobre essas funcionalidades e relações liga-se à necessidade actual de “construir no construído”, numa muito actual dimensão da actividade de arquitecto ligada à reconversão de espaços urbanos e edificados.

Pode dizer-se que muito de tudo isto tem a ver com um jogo de agregação tipológica com sentido amplo, que privilegia o micro-urbanismo e alguma inovação na conjugação entre células habitacionais – inovação esta muito ligada aos possíveis serviços comuns –, elas próprias também potencialmente muito diversificadas, adaptáveis e mutantes.

Importa salientar que, cada vez mais, há diversos modos de vida e que, como resposta, tem de haver, cada vez mais, uma maior diversidade de oferta tipológica residencial; opçao esta que constitui, sublinha-se, um específico e importante factor de sustentabilidade no habitar da casa e da cidade. E é de grande importância esta disponibilização de formas diversas de habitar a casa e a cidade, afastando-se o fantasma do modelo único de habitar e desenvolvendo-se tipologias que prolonguem o exterior público, mas também o exterior caracterizadamente comum e potencialmente convivial; tipologias criadoras de pequenas e orgânicas partes de cidade, bem acabadas e afectuosas, e tipologias verdadeiramente criadoras de pequenos mundos privados e domésticos; e para tudo isto é fundamental o bom desenho de arquitectura, aquele que pode, de facto, ajudar a dar mais felicidade às pessoas.



Fig. 10: em um dos conjuntos da cooperativa Caselcoop, no Bairro de Caselas, Lisboa, o Arq. Justino Morais desenvolveu uma galeria/rua “jardim” interior que dá acesso aos fogos; mente quem diga que não é possível “inovar” e fazer boas soluções de habitar em multifamiliar e a custos controlados.


Nesta matéria das tipologias habitacionais as lições de arquitectura de Hertzberger (Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”) são fundamentais, pois ele traça uma linha de concepção dos espaços residenciais extremamente ligada à pormenorização coerente e fundamentada da casa, do edifício e da rua/zona de proximidade, privilegiando a humanização do habitar e sublinhando aspectos verdadeiramente “construtores” de tipologias e de variações tipológicas residenciais, e designadamente:

. as soleiras e os espaços de acesso aos fogos;

. as vistas estratégicas sobre o exterior e sobre o interior, pontos de expressão de hospitalidade e que podem fazem transparecer ou mesmo expandir, controladamente, os espaços domésticos, ajudando a combater situações de solidão (hoje tão frequentes);

. os espaços comuns como zonas de algum recreio juvenil vigiado e de convívio, ou mesmo com papel de “rua” quando os seus utentes assim o necessitam (ex. idosos);

. os edifícios integrando uma estimulante variedade de acessos privados e/ou geminados, em diversos níveis e configurações;

. e os espaços do tipo “rua de convivência”, considerados e pormenorizados como verdadeiras “salas de estar comunitárias” (ou jardins considerados como salas de estar ao ar livre), combatendo-se o automóvel preponderante, a descontinuidade física, as densidades reduzidas (n.º de fogos e n.º de habitantes/fogo) e a falta de conforto do espaço público face a um interior doméstico cada vez mais atraente, apoiando-se o recreio infantil e a diversidade de contactos casa/rua, e vitalizando-se/polarizando-se o espaço público com um máximo de acessos directos a fogos bem identificados;

Há aqui, portanto, um léxico de “pequenos” elementos de composição do habitar que podem ser os verdadeiros protagonistas da composição de variadíssimas tipologias de habitar – e atente-se no sublinhado –, como se dos fogos e de uma sua aturada pormenorização passássemos, por exemplo, para a rua, a praceta, o pequeno quarteirão, sem uma nota de importância especial para o edifício; fica, assim, de pé, a ideia de certa forma concretizadora da importância dos espaços privados e públicos e de algum eventual apagamento dos espaços colectivos, a não ser que estes tenham condições de assumir um verdadeiro protagonismo formal e funcional, seja “para baixo”, ao nível doméstico, em termos suplementares ao que é disponibilizado dentro de casa, seja “para cima”, e um “para cima” que tem sempre de ter uma dupla valência, por presença no nível de vizinhança e no nível espacificamente mais urbano, atribuindo-se aos espaços e eventuais equipamentos comuns matérias funcionais e representativas que se casem muito bem com aqueles níveis, designadamente, em zonas de transição e de limiar, que podem constituir verdadeiros elementos protagonistas na construção de novas ou renovadas tipologias residenciais e urbanas.

Mas nesta matéria, e tal como se tem aqui apontado, há também que equacionar de forma activa o desenvolvimento de soluções tipológicas de habitar em que as células residenciais individualizadas e mutuamente bem agregadas se ligam de forma directa, ou apenas minimamente graduada, ao espaço urbano de vizinhança – mais afectivo – e ao espaço urbano mais efectivo. Soluções estas que podem até manter intensas características de um habitar unifamiliar. E muito disto é possível em soluções construtivamente racionalizadas e eficazmente densificadas, que cumpram um importante papel urbano de colmatação, preenchimento e vitalização/regeneração da cidade.

Fica, para já, apontada a enorme riqueza de um tão amplo e diversificado leque de soluções em termos de potencial de adequação a uma grande diversidade de modos e desejos de vida residencial e urbana, assim como de potencial funcional e formal em termos de desenho de arquitectura urbana – e neste aspecto particular não resisto a comentar que os novos processos de projecto e de visualização do projecto apoiam muito claramente este caminho de trabalho e permitem que promotores e habitantes possam ser razoavelmente exigentes em termos da qualidade arquitectónica, residencial e urbana que é desenvolvida.

Tudo isto terá também, naturalmente, muito a ver com as novas formas de habitar (e as novas formas de cidade/bairro): por exemplo a habitação assistida, o trabalho habitado; a casa escritório. E em tudo isto se sublinha a grande importância da adaptabilidade, do conforto , da densidade e da verdadeira adequação a diversas situações, desejos e necessidades habitacionais; e há ainda o verdadeiro suplemento de alma e reserva de apoio à concepção, proporcionada pelas cidades e casa da imaginação, da ficção, do futuro.

Conclui-se esta matéria com uma reflexão complementar sobre o interesse de um caminho qualitativo residencial que passe por um determinado equilíbrio das várias dimensões da qualidade residencial incluindo os aspectos dimensionais e sobre este assunto sublinha-se que o desígnio de se ter mais qualidade residencial pouco tem a ver com mais área e acabamentos mais luxuosos, mas liga-se, sim, a ter-se mais arquitectura, mais informada e mais sensível, uma arquitectura que trate os espaços do edifício com verdadeiro pormenor, concentrando, racionalizando e “poupando” onde seja possível assim fazer, mas que verdadeiramente crie pequenos mundos domésticos, adaptáveis e ricos; uma riqueza e uma associada motivação e apropriação pelo habitante que muito tem a ver com completas, interessantes e adequadas tipologias residenciais.

E bem a propósito deste assunto é, por exemplo, bem interessante poder visitar casas muito racionalizadas e espacialmente contidas (por exemplo em condições mínimas nas escadas comuns), mas onde nos espaços comuns é possível olhar, com pormenor, o pequeno jardim de vizinhança, onde na sala há lugar para um recanto de trabalho, onde na cozinha há sítio para uma pequena mesa, e onde foi possível criar uma pequena varanda multifuncional. Está realmente “na hora” de se re-equacionarem funcionalidades e caracterizações domésticas e nestas e em outras matérias é vital uma acção tipológica fundamentada, que há que aprofundar, designadamente, através da disponibilização de amplos menus em termos de grandes caminhos de soluções residenciais e urbanas, menus estes bem apoiados em exemplos concretos e significativos, tanto actuais como referidos a muitos casos da nossa história da arquitectura do habitar.

Afirmou Constantino Cavafis que “Chegarás sempre a esta cidade; Não esperes outra,” mas é possível fazer de partes significativas desta cidade “pequenas cidades” com grande riqueza formal e funcional e com uma adequação maximizada a quem as habita, e para tal é essencial a continuidade do estudo prático e da divulgação da matéria tipológica.

Adequação, diversidade e inovação no habitar (I e II) – Índice geral

(Parte I)
A cidade (um poema de Cavafis)
Enquadramento
Adequação, diversidade e inovação no meio urbano
Tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios
. Opções gerais
. Altura do edifício (alguns elementos de reflexão, numa aliança entre uso e custo)
. Opções de pormenor
Tipos de espaços e de serviços comuns
Elementos de inovação no edifício multifamiliar
Edifícios unifamiliares inovadores
(Parte II)
A adaptabilidade na habitação
. Formas de adaptabilidade na habitação
. Modificações com reduzido aumento do custo global do fogo
. Elementos práticos de adaptabilidade doméstica
Estudar e considerar o que o habitante quer
. Aspectos qualitativos globais
. Aspectos qualitativos de pormenor, mas com influência crítica no projecto:
. Equipamentos, complementos e acabamentos domésticos (com base num recente estudo do CIC-COI, e da Eurosondagem)
Cuidar de alguns aspectos fundamentais
Adequação e inovação tipológica e potencialidades das cooperativas de habitação
Notas conclusivas sobre o aprofundamento e a diversificação das tipologias residenciais

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Edição de José Romana Baptista Coelho na noite de 22 de Novembro de 2007

quarta-feira, novembro 21, 2007

2.a Assembleia Geral Eleitoral do Grupo Habitar - convocatória - Infohabitar 170


 - Infohabitar 170
Aos membros do Grupo Habitar,

Convocatória2.ª Assembleia Geral Eleitoral do Grupo Habitar

Em cumprimento do disposto no art.º 42º e nos artigos 17º e 27º dos Estatutos do Grupo Habitar – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, convocam-se os associados para uma Assembleia Geral, a reunir em Lisboa, no
Auditório Doutor Barreiros Mateus,

Situado na Sede da Nova Habitação Cooperativa (NHC), Rua Afonso de Albuquerque, lote 2, R/C, 2685-013 Sacavém; Tel: + 351 219 498 680.
na quinta-feira dia 13 de Dezembro de 2007 pelas 17h 00, com a seguinte Ordem de Trabalhos:

(1) eleição dos Corpos Sociais;
(2) apreciação da actividade desenvolvida no primeiro quadriénio e perspectivas para uma redinamização do GH;
(3) discussão e aprovação da criação de um Grupo de Trabalho “Actividades” (designação provisória) e designação dos respectivos Presidente e Secretário.
(4) informações.

Se à hora marcada não estiverem presentes metade dos associados, a Assembleia reunirá meia hora depois, com os membros presentes, de acordo com o disposto no n.º 2 do art.º 28.º dos mesmos Estatutos.

Informa-se que qualquer associado pode apresentar uma lista para os Corpos Sociais, fazendo-a chegar à Direcção do GH até ao dia 6 de Dezembro de 2007.

Lisboa, 19 de Novembro de 2007 (divulgação aos membros)
21 de Novembro de 2007 (publicação no Infohabitar)

O Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Grupo Habitar
Duarte Nuno Simões
PS. 1: relembram-se os eventuais interessados em aderir ao GH que é possível a adesão ao grupo Habitar, no decurso da Assembleia Geral, considerando, naturalmente, um contacto prévio com um membro do GH.

P.S. 2: pelas 16h. 30 do mesmo dia 13 Dezembro vários associados do GH sairão do LNEC – Av. do Brasil 101 – com destino á sede da NHC; quem queira aproveitar esta indicação ou mesmo boleia bastará contactar com António Baptista Coelho.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Adequação, diversidade e inovação no habitar (I) - Infohabitar 169

 - Infohabitar 169

Adequação, diversidade e inovação nas soluções de habitar, da casa à cidade 

parte I: enquadramento, meio urbano, tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios, espaços e serviços comuns, multifamiliares e unifamiliares inovadores

Artigo de António Baptista Coelho

Na parte II deste artigo, a editar no final da semana que vem, abordam-se os temas: a adaptabilidade na habitação, o que o habitante quer, aspectos fundamentais, aprofundamento e diversificação tipológica, adequação e inovação residencial e potencialidades das cooperativas; e algumas notas conclusivas e de abertura para uma fundamental continuidade de trabalhos nestas áreas.

Nota prévia: a ilustração deste artigo foi feita numa perspectiva informal


Adequação, diversidade e inovação no habitar (I) - ÍndiceA cidade (um poema de Cavafis)
Enquadramento
Adequação, diversidade e inovação no meio urbano
Tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios
. Opções gerais
. Altura do edifício (alguns elementos de reflexão, numa aliança entre uso e custo)
. Opções de pormenor
Tipos de espaços e de serviços comuns
Elementos de inovação no edifício multifamiliar
Edifícios unifamiliares inovadores

A CIDADE
Disseste:
“irei a outro país, verei outras praias;
procurarei outra cidade melhor do que esta.
Todos os meus esforços são fracassos
e o meu coração, como morto, está enterrado.
Por quanto tempo mais estarei a contemplar estes despojos?
Para onde dirigir o olhar,
vejo só as ruínas negras da minha vida,
aqui onde tantos anos passei, destruí e perdi.”

Não encontrarás outro país nem outras praias,
levarás por todo o lado e com custo a tua cidade;
caminharás nas mesmas ruas,
envelhecerás nos mesmos subúrbios,
ficarás grisalho nas mesmas casas.
Chegarás sempre a esta cidade;
Não esperes outra,
não há barco nem caminho para ti.
Ao arruinar a tua vida nesta parte da terra,
Destroçaste-a em todo o universo.

Constantino Cavafis, 1863 (Alexandria) - 1933


... “Chegarás sempre a esta cidade; Não esperes outra,”...

Há que considerar que os estudos sobre áreas e outros aspectos mais objectivos estão hoje estabilizados, enquanto o caminho da resolução de grandes problemas que se mantêm, por exemplo os da habitação para minorias e do contínuo abandono do uso do espaço público, tem de passar também por outros objectivos qualitativos menos mensuráveis, mas igualmente vitais.

“Há certas qualidades que podem ser consideradas essenciais em todos os géneros de casas: sossego, encantamento, simplicidade, largueza de vistas, vivacidade e sobriedade, sentido de protecção e abrigo, expressiva economia na manutenção, harmonia com a envolvente natural e a vizinhança, ausência de lugares escuros e ao abandono, conforto e uniformidade de temperatura, e a possibilidade de cada casa poder ser o adequado quadro doméstico dos seus habitantes. Ricos e pobres, uns e outros, apreciarão estas qualidades” (Voysey C. F. A “The English Home” 1911).



Fig. 01: no conjunto do Telheiro, uma promoção de Habitação a Custos Controlados da C.M. de Matosinhos, um projecto coordenado pelo Arq. Manuel Correia Fernandes (2002), desenvolveu-se uma tipologia unifamiliar em bandas contínuas, com pátios/quintais privados posteriores, uma tipologia que associa muito do carácter do unifamiliar a uma fortíssima presença urbana unitária e regeneradora.


ENQUADRAMENTO SOBRE O HABITAR


Este texto sobre o potencial de inovação e de adequação no habitar foi iniciado no já longínquo mês de Março de 1999, a propósito de um debate/seminário de reflexão já então realizado no âmbito do movimento cooperativo e designadamente pela Nova Habitação Cooperativa (NHC).

O referido texto foi então e em parte “recuperado”, passados cerca de oito anos; fizeram-se alguns comentários e algumas reflexões, juntaram-se muitos outros aspectos, mas a matéria antes desenvolvida mantém toda a actualidade.

Um tal potencial de inovação e adequação habitacional deve privilegiar:
· aspectos essenciais de conforto (interior e exterior);
· aspectos de economia num sentido total (incluindo durabilidade e manutenção);
· casas e edifícios adaptáveis a famílias muito diversas e a indivíduos com múltiplos gostos próprios;
· e vizinhanças residenciais exteriores que estimulem os valores do convívio, hoje tão esquecidos, aliando-os, designadamente, a objectivos de recreio e desporto.

Nada disto é impossível ou caro, é sim exigente em termos de projecto – incluindo-se o respectivo enquadramento e diálogo técnico por parte do respectivo promotor.

Fig. 02: no conjunto de Habitação a Custo Controlado da Gala, promovido por uma empresa com o apoio da C. M da Figueira da Foz com projecto coordenado pelos Arquitectos Duarte Nuno Simões, Nuno Simões e Joana Barbosa (2005), concretizou-se uma tipologia multifamiliar com acessos directos ao exterior (directamente ao espaço exterior ajardinado ou indirectamente através de galeria/varanda), cuja caracterização tem muito a ver com a imagem e a funcionalidade de uma agregação de unifamiliares.

ADEQUAÇÃO, DIVERSIDADE E INOVAÇÃO NO MEIO URBANO


Continua a notar-se nos espaços públicos uma crítica dificuldade ao nível da sua essencial qualificação, desde o projecto urbano e paisagístico a uma adequada execução e equipamento, visando a sua durabilidade e o estímulo a uma ampla diversidade de actividades exteriores.

O que importa salientar é que, hoje em dia, não há um conhecimento verdadeiramente adequado e muito menos sedimentado sobre como fazer, por exemplo, uma praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável e apropriável. Os conhecimentos estão, a este nível, mais dirigidos, designadamente, para os aspectos funcionais do tráfego de veículos; e estamos agora a ultrapassar esta estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens; e é neste caminho que se encontrarão muitas das virtualidades em termos de novas ou renovadas soluções tipológicas.

Em todas estas matérias é fundamental tornar o exterior residencial útil, portanto equipado, apelativo, portanto adequadamente projectado e executado e, também, naturalmente convivial, porque afinal o convívio na vizinhança é motivo e consequência de muitas actividades exteriores, desde o recreio infantil, ao desporto e ao simples, mas fundamental, lazer.

Um último aspecto, a este nível, refere-se à exigência de uma perfeita e contínua manutenção do espaço público, condição extremamente favorecida pelas referidas condições de uso intenso e de sentido efectivo de vizinhança.
Solidificando tais conclusões esquemáticas há que considerar que, muitas vezes, os terrenos disponíveis já têm pseudo-projectos definidos e que, frequentemente, os sítios possíveis não são os melhores (ex. vizinhanças complexas, terrenos pouco regulares). No entanto, em muitos casos o refazer qualificado de um projecto, quando tal é possível e quando essa revisão abrange o espaço público de vizinhança, é uma medida essencial para a qualidade final.

Há aqui, portanto, uma nova chamada de atenção para a necessidade de se poder intervir à escala urbana da vizinhança, não apenas através de edifícios, mais ou menos isolados, mas também através de um afirmado espaço público de lazer, recreio e convívio que tem de ligar os edifícios; múltiplos exemplos de excelente qualidade residencial cooperativa devem-se a esta aliança entre um excelente projecto e uma excelente vizinhança de proximidade.

E há aspectos muito interessantes de conjugação entre exigências económicas de rentabilização de estaleiro e obra (com grupos entre 100 e 150 fogos) e de números preferenciais de vizinhos considerando-se o estímulo natural do convívio, com grupos preferenciais entre cerca de 60 a 120 fogos, servidos por agradáveis e úteis espaços públicos residenciais numa aposta na pequena dimensão, o conhecido “small is beautiful”; faz-se notar que cerca de 60 fogos é um número que proporciona boas condições para a criação de pequenos “grupos de recreio” infantil com idades idênticas.

O “small is beautiful” liga-se obrigatoriamente a uma cuidadosa pormenorização das vizinhanças de proximidade (espaços comuns e espaços públicos), porque os espaços exteriores de vizinhança são espaços muito próximos do nosso olhar directo e do olhar a partir das habitações e estamos a abordar escalas comuns e públicas com exigências fortíssimas, entre as quais se destaca o privilegiar da global funcionalidade e da convivialidade natural, a introdução do “verde urbano” e a clara definição de zonas de influência/gestão.

Importa privilegiar edifícios geradores de ruas equipadas enquanto no interior dos quarteirões permitem humanizados espaços públicos de convívio e recreio, numa eficaz aliança com os sempre estimulantes pátios privados (servindo os pisos mais baixos, e não apenas o R/C), proporcionando ainda extensões térreas privativas bem enquadradas (ex. para espaços conviviais dos condomínios como salas de jogos), e proporcionando, ainda, eventualmente, o aproveitamento inferior como garagem comum. Este tipo de espaços é também ideal para se desenvolver um arranjo "natural" dos espaços exteriores: com menos asfalto e zonas impermeáveis, com grande variedade de plantas povoando fachadas varandas e terraços e criando um microclima muito favorável em zonas urbanas.

Deixa-se à reflexão o interesse de se privilegiarem, sempre que possível, espaços exteriores de vizinhança ligados aos edifícios residenciais, assim como a sua caracterização considerada mais desejável em termos de: acesso público, medianamente condicionado ou totalmente condicionado; tipo de arranjo global, que pode ser mais ajardinado ou menos ajardinado; tipo de conteúdos em termos de actividades recreativas que podem ser mais dirigidas para crianças, para jovens e adultos e para seniores e que podem ou não privilegiar elementos de apoio a actividades desportivas; e tipos de conteúdos em termos de equipamentos de vizinhança de apoio à vida urbana (nos seus ritmos diários e ocasionais).

Fig. 03: no conjunto de habitação a Custos Controlados do Monte Espinho, promovido pela C. M. de Matosinhos, com projecto coordenado pela Arq.ª Paula Petiz (2005), criaram-se pequenos multifamiliares com quatro fogos - uma tipologia intermediária - em que todos eles têm acesso directo ao exterior, mas os fogos térreos possuem um pequeno quintal ajardinável, sendo os fogos superiores em duplex; desta forma e para além da adequação ao vários usos e desejos de habitar. cria-se uma imagem urbana intensa e contínua não se abdicando da caracterização unifamiliar.


TIPOS DE EDIFÍCIOS E DE CONJUNTOS DE EDIFÍCIOS


Vamos então a uma viagem muito rápida por um conjunto de aspectos de adequação que podem ser proporcionados por diversos tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios, e para sermos claros vamos tratar, primeiro, de algumas escolhas de ordem geral (por exemplo entre tipos distintos de habitação) e, depois, de alguns aspectos de pormenor que, no entanto, podem fazer grande diferença no resultado final.

Opções gerais
(atente-se que muitas opções podem ser determinadas por razões de custos, por regulamentação local ou por condições locais específicas)

1 - Unifamiliares isolados (moradia isolada): em lote espaçoso; ou em lote funcional (lote constituído por um conjunto bem definido de diversas áreas funcionais).

2 - Unifamiliar geminado (consegue-se frequentemente a imagem de uma grande moradia): em lote espaçoso; ou em lote funcional.

3 - Unifamiliares em bandas curtas (consegue-se, por vezes, a imagem de grande moradia); com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou alongados.
4 - Unifamiliares em bandas longas; com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou alongados.

5 - Unifamiliares em bandas longas e costas com costas; com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou pátios posteriores.

6 - Tipologias de transição entre a moradia e o multifamiliar proporcionam, por exemplo, desde pequenas jardinetas representativas, a pátios murados e terraços de lazer nos pisos mais elevados. É uma tipologia extremamente versátil podendo variar entre as seguintes imagens-limite:

. pequeníssimo “prédio” esquerdo/direito;
. grande “moradia” que agrega diversas habitações cada uma com um acesso próprio e bem identificado e cada uma com características espaciais e funcionais próprias.

As tipologias residenciais de transição uni/multifamiliar (ex., bi, tri e tetrafamiliares), quando bem projectadas:

(i) podem aliar muitas das vantagens de apropriação e de relativa “independência” dos unifamiliares;

(ii) podem densificar estrategicamente o espaço urbano, animando-o localmente e proporcionando intervenções economicamente equilibradas (desde que o projecto seja especialmente bem desenvolvido);

(iii) proporcionam uma enorme variedade de soluções, o que as torna muito adequadas para as cada vez mais necessárias operções de preenchimento urbano – um aspecto que, mais uma vez, põe em relevo o apuro de projecto que é aqui necessário;

(iv) e podem aliar importantes potencialidades conviviais (no espaço público assim recriado) e funcionais (disponibilizar necessidades locais em equipamento) à manutenção do carácter unifamiliar.

Os pequenos multifamiliares ainda proporcionam a sua associação em bandas urbanas de modo a que um número significativo dos respectivo fogos possam ter quintais, pátios e grandes terraços privativos.

7 - Multifamiliares com acesso por patim tipo esquerdo/direito sem elevador (até 3 pisos).

8 - Multifamiliares tipo esquerdo/direito com elevador.

10 - Multifamiliares com ou sem elevador (até 3 pisos) e com mais de dois fogos por nível; acesso por patim amplo ou por galeria: interior curta ou longa; exterior curta ou longa.

11 - Multifamiliares com elevador e com mais de dois fogos por nível; acesso por patim amplo ou por galeria galeria: interior curta ou longa; exterior curta ou longa.

12 - Multifamiliares caracterizados por soluções específicas de espaços comuns, por exemplo, dos tipos: jardim envolvente; grande átrio interior ou pátio exterior; galeria larga como se fosse rua elevada; ...

13 - Edifícios de habitação com um perfil específico e designadamente para séniores; multifamiliar relativamente corrente, mas com habitações especialmente desenhadas para pessoas sós ou casais de “meia idade” com significativas exigências de áreas e equipamentos.

14 - Edifício de habitação colectiva ou habitação/hotel que disponibilize um determinado menu de serviços e que integre fogos tendencialmente pequenos.

15 - Solução idêntica à anterior mas privilegiando, especificamente, fogos pequenos (ex., T0 e T1) para pessoas sós e casais, destinados ou não a grupos etários específicos; sugere-se uma mistura etária mas estruturada por regras de conduta exigentes em termos de usos e ruídos.

16 - Residência assistida em termos de cuidados sociais e/ou de saúde, que poderá chegar a ter opções específicas de verdadeiro hospital de rectaguarda.

17 - Multifamiliares caracterizados por soluções específicas de espaços privados exteriores, por exemplo, dos tipos: grandes terraços; pequenos jardins elevados (“suspensos”).

18 - ... e, naturalmente, é bem possível alargar e aprofundar e diversificar ainda mais esta listagem, embora pareça ser útil a proposta de quadros tipológicos como este aqui proposto ...
Desde já se refere que muito mais do que optar, caso a caso, por esta ou aquela solução geral, importa produzir soluções “mistas” que sirvam bem seja a diversidade da procura e as necessidades do mercado, seja as características e as exigências e carências de cada local e tendo em conta os problemas potenciais que se podem identificar em cada solução e em cada mistura de soluções – e há já experimentações cooperativas nestas áreas que é possível ter em conta.

Na criação de soluções “mistas” será sempre mais crítica a associação de residências assistidas com cuidados de saúde, seja pelos custos associados, seja pela sensível relação que este tipo de assistência irá ter com os restantes núcleos habitacionais não assisitidos e que estejam próximos. Nesta perspectiva uma resposta poderá ser uma associação mais autonomizada e urbana entre diversos edifícios com distintas valências.

Altura do edifício (alguns elementos de reflexão, numa aliança entre uso e custo):
. 1 piso, custo elevado

. de 2 até 4 pisos o custo diminui, atingindo um mínimo absoluto para 4 pisos; as crianças dos três primeiros pisos de edifícios altos são as que vão muito mais frequentemente brincar à rua.

. de 4 para 5 pisos o custo cresce muito (instalação de elevador);

. Acima de seis pisos as crianças são afectadas por perderem a percepção da proximidade do solo; nestes casos a varanda é um elemento que ganha importância como espaço de contacto com o exterior.

. de 5 até 8 pisos o custo diminui, novamente, atingindo um novo valor favorável para 8 pisos.

. de 8 para 9 pisos o custo cresce muito (instalação de equipamentos específicos, nomeadamente, para segurança contra risco de incêndio); é de notar que em Portugal este patamar será porventura um pouco mais elevado, pensando-se na altura máxima de 28.00m para uso de escadas de bombeiros - indicação esta que carece de confirmação técnica;

. de 9 até 12 pisos o custo diminui ligeiramente, atingindo um novo valor relativamente favorável para 12 pisos;

a partir de 12 pisos o custo "dispara" rapidamente.

Opções de pormenor :

(algumas notas muito informais)

Unifamiliares ou pequenos multifamiliares em conjugações densas e orgânicas têm imagens ricas, têm vantagens da agregação numa comunidade alargada e convivial e mantêm todas as principais características do unifamiliar, designadamente no que se refere ao acesso independente ao espaço público, à disponibilização de espaços exteriores privativos e à eventual possibilidade de garagens de estacionamento em boxes privativas – aspectos muito valorizados.

Em qualquer opção é possível e desejável privilegiar a melhoria de todas as condições onde seja possível actuar ao nível dos espaços comuns dos multifamiliares: luz natural; ventilação; marcação e apropriação de zonas e paredes específicas; criação de alguns pequenos recantos funcionais; ajardinamento. Sublinha-se que todas estas condições são possíveis mesmo num edifício maximizado em termos de economia.

As opções por tipos de acesso (escadas, galerias, elevadores) têm muito a ver com a qualidade visual e de uso que pode caracterizar esses acessos (ex., há degraus de escada que são muito confortáveis para subir, há galerias exteriores que são verdeiras varandas, há elevadores e patins de elevadores muito atraentes).

Há grande potencialidade – em termos de atractividade de vista exterior do edifício e de usos proporcionados – na aplicação de diversificadas soluções de espaços exteriores e semi-exteriores privativos ou comuns: varandas fundas ou só de assomar, terraços murados ou abertos, pátios murados ou abertos, jardinetas e pequenos jardins. E importa referir que muitas destas soluções são aplicáveis em edifícios multifamiliares.

Bandas densas de pequenos edifícios criando ruas, pracetas e quarteirões, fazem cidade animada, por um lado, enquanto no interior dos quarteirões é possível criar todo um mundo residencial intimista com carácter comum e/ou com carácter privado, em cada fogo.

Em qualquer escolha tipológica é sempre possível uma opção “suplementar” e de certa forma “paralela” por uma solução mais naturalizada, com mais verde urbano, ou mais “mineral”.
Fig. 04: no exemplo que aqui se ilustra, um pequeno conjunto/quarteirão habitacional em Malmö, desenvolvido no âmbito da exposição habitacional e urbana Bo01, o quintal/jardim comum, na zona posterior do edifício multifamiliar, serve também uma pequena banda de unifamiliares; e há aqui todo um leque de possibilidades de associação seja entre tipologias bem distintas, como é o caso, seja entre formas de habitar e apoios e complementos habitacionais (ex., os mais diversos tipso de serviços comuns e de complmenetos habitacionais, como por exempo quartos para uma utilização eventual). É no entanto fundamental que a eventual oferta de serviços comuns diversificados não corresponda a uma efectiva menorização dos espaços domésticos; e são possíveis excelentes equilíbrios.

TIPOS DE ESPAÇOS E DE SERVIÇOS COMUNS HABITACIONAIS


Passamos, agora, às soluções práticas de auto-organização de habitantes oferecendo todo um conjunto de serviços e actividades que são difíceis, caras ou mesmo quase impossíveis de proporcionar exclusivamente a cada fogo.

A dimensão, o carácter e o equipamento dos espaços comuns variará consoante os objectivos de cada solução. Uma variação que, a título de exemplos relativamente extremo, poderá referir-se:

(i) seja a uma sala ou conjunto de zonas de estar/convívio/jogos do condomínio, e que poderá, eventualmente, até assumir um carácter de "casa comum" multifuncional. (ex. sala de convívio equipada, por ex. com bar/TV panorâmica/jogos de mesa/bilhar/ténis de mesa, recintos de desporto, jardim, etc.), mas sempre numa total distinção relativamente ao espaço dos fogos, que poderão ter uma distribuição e acesso “clássicos”.

(ii) seja a uma solução do tipo átrio comum muito amplo para o qual abrem todos os níveis dos respectivos fogos, criando-se um carácter de grande unidade; uma solução que poderá ter virtualidades ao nível dos aspectos de conforto ambiental.

Em termos de serviços comuns poderão ser centralizados certos serviços de apoio prestados por pessoal próprio (exº recepção, segurança geral e controlo de acessos, manutenção corrente), bem como os contactos actualizados com variados e eficazes serviços exteriores (exº manutenção geral e especializada, emergência, apoio doméstico). Sobre estes aspectos será talvez preferível prever, sempre, apenas aquilo que possa ter viabilidade real, reforçando a imagem e o carácter funcional do agrupamento "em torno" dessas actividades e serviços; poderá ser, por exemplo, apenas um hall comum com serviço de portaria e um jardim bem arranjado.

Considerando que estas soluções têm, frequentemente, objectivos de estímulo à convivialidade e que esta matéria é de grande sensibilidade, desenvolvem-se algumas reflexões complementares:

(i) Soluções visando objectivamente o incentivo ao convívio em espaços públicos ou comuns poderão iniciar-se nos grupos de recreio de crianças e jovens em exteriores com condições motivadoras de variadas actividades, desde o recreio livre ao recreio estimulado por equipamentos.

(ii) Nos níveis etários superiores o convívio poderá desenvolver-se: (i) em consequência de um acompanhamento de crianças pequenas ao parque infantil (ii) a partir de actividades desportivas comuns, e (iii), naturalmente, com a apetência para a continuidade de hábitos diários de pequenos períodos de estadia e permanência em espaços bem situados relativamente às principais zonas de acessibilidade.

(iii) A ideia-base éque não se deverá tentar suscitar directamente o convívio como objectivo específico, mas sim favorecê-lo no desenrolar de um grande leque de actividades, estas sim objectivamente estimuladas/apoiadas.

Relativamente às soluções de habitação realmente colectiva considera-se que elas deverão disponibilizar serviços e espaços comuns suplementares ou complementares das actividades em cada habitação, mas sempre como opção livre e muito dirigida para serviços de apoio eventuais, caracterizando-se os espaços comuns, fundamentalmente, por um papel representativo e convivial, ou contando-se com serviços de apoio completos e eventualmente opcionais e abertos a não residentes. Uma pequena nota sobre estas últimas soluções colectivas; sublinha que que elas terão naturalmente tanto mais sentido, quanto mais integradas nas restantes soluções.

Fig. 05: ainda no âmbito da referida exposição em Malmö, em 2001, apresenta-se uma imagem relativa ao interior profusamente ajardinado de um peqeno quarteirão residencial cujo projecto teve uma forte contribuição do Arq. Charles Moore e e em que há um evidente reforço da presença de cada fogo no "colectivo" edificado, mas propondo-se, simultaneamente, uma solução geral caracterizada pela possibilidade de intensas vistas mútuas entre fogos e entre estes e o jardim comum.

ELEMENTOS DE INOVAÇÃO NO MULTIFAMILIAR


A inovação no edifício multifamiliar liga-se, frequentemente, à aliança entre as vantagens dos pequenos edifícios residenciais, isto é, entradas separadas e privadas, organizações domésticas variadas, soluções de fachada diversificadas e áreas exteriores de lazer muito ligadas ao edifício, e as vantagens do multifamiliar, como são o carácter urbano, as áreas comuns, a economia das soluções e a possibilidade de integração com actividades não habitacionais vitalizadoras e geradoras de convívio.

É possível pensar em muitos elementos funcionais, tais como, por exemplo, pequeno ginásio, terraço comum, quartos de reserva, sítios de jogo infantil, festas e reuniões privadas, local de estar agradável e bem equipado etc.; mas há que basear tais ideias numa adequada localização centralizada e bem acessível destes espaços, no seu apropriado equipamento, na sua total compatibilização com a habitação e na sua adequada programação, organização e gestão diária; numa perspectiva que deve prever a possibilidade de um mau funcionamento da comunidade ou grupo de condóminos.

Anotam-se, em seguida, informalmente, alguns tópicos de inovação no multifamiliar:

. Desenvolver a adaptabilidade doméstica passiva, designadamente, através de: espaços multifuncionais; e de contiguidades geradoras de fusões e subdivisões entre compartimentos.

. Desenvolver a adaptabilidade doméstica activa, designadamente, através de: diversidade de oferta de soluções de fogos nas mesmas localizações; oferta de fogos “feitos à medida”; oferta de soluções com serviços (água, esgotos, gás) fixos e compartimentação flexível.

. Variar alturas e profundidades conjugando fogos grandes e pequenos (simplex e duplex), áreas comuns variadas, espaços profissionais e comerciais e variados tipos de acessos comuns e eventualmente privativos.

. Desenvolver melhorias ambientais, funcionais e de estadia muito significativas em escadas, patins e galerias de acesso, tornando-os propícios ao convívio natural.

. Privilegiar sotãos e mansardas habitacionais, diversificando-se os espaços domésticos (ex. fogos duplex, zonas com pés direitos altos, estúdios) e assegurando-se a constante manutenção das coberturas.

. Disponibilizar locais para uso profissional fora dos fogos, assumindo neste caso uma perspectiva de adequada funcionalidade em termos de espaço de escritório com usos multifuncionais.

. Disponibilizar locais para uso profissional dentro dos fogos,caracterizando-os com um mínimo de funcionalidade e autonomia funcional – aspecto este que deverá ter reflexos nos espaços comuns.

. Desenvolver soluções edificadas específicas caracterizadas por combinações de fogos, espaços de trabalho e espaços para actividades de lazer.

. Desenvolver combinações variadas entre: escadas interiores, escadas exteriores, elevadores, galerias exteriores, galerias quase ruas e varandas de acesso.

. Privilegiar a variedade de espaços exteriores privativos (desde a varanda de assomar ao grande terraço ajardinado e ao pátio ou grande quintal térreo).

. Assumir cada nível e mesmo cada fogo com um equilibrado, mas afirmado, potencial de diversidade espacial e funcional, mas numa perspectiva que respeite a economia de custos.


Fig. 06: o multifamiliar é um campo muito amplo para uma inovação fundamentada e que, de facto, proporcione um grande leque de opções de "como viver", de "como habitar"; e neste conjunto em Hamburgo projectados pelos Arq.os Czerner und Czerner (2001), de certa forma avançou-se na geminação de dois edifícios através da cobertura e extenso equipamento residencial (ex., mesas e cadeiras, e até sofás) do respectivo espaço intermediário.

UNIFAMILIARES INOVADORES


A inovação no unifamiliar liga-se essencialmente a quatro aspectos organizativos gerais:

(i) A forma de agregação dos fogos; pois afinal o limite será a imaginação do projectista e a fronteira de custos.

(ii) Os serviços e equipamentos comuns que sejam eventualmente disponibilizados; pois não é por se tratar de uma solução unifamiliar que não pode ser associada, por exemplo, a um completo e funcionalmente diversificado pólo convivial e de equipamentos de vizinhança; e esta é uma condição pouco interiorizada embora se refira a uma situaão possível e muito adequada, designadamente, às características da promoção cooperativa (há exemplos funcionais em Portugal).

Nesta perspectiva há que salientar o interesse que tem, por exemplo, a aliança entre um conjunto coeso de pequenos unifamiliares térreos e um pólo de equipamentos de vizinhança funcionalmente diversificado; e atente-se na adequação que uma tal solução oferece, por exemplo, para uma vizinhança de casais de isosos e idosos que vivam sozinhos, que, assim, de certa forma possam finalmente concretizar um eventual sonho de uma “casa” relativamente isolada, ganhando, simultaneamente, um funcional leque de serviços e de espaços comuns (onde por exemplo poderão fazer, com facilidade, festas e reuniões famíliares).

(iii) A expressiva grande diversidade de soluções de desenvolvimento de espaços privados interiores, exteriores e de transição exterior/interior que são possíveis; naturalmente a liberdade a este nível organizativo é muito maior do que no multifamiliar e muita dessa liberdade nem corresponderá a críticos aumentos de custo.

(iv) As matérias ligadas à adaptabilidade na habitação, tal como são, em seguida, apontadas (na 2.ª parte do artigo a editar na próxima semana).

Nota final: o artigo tem continuidade, com outros temas em artigo a publicar aqui no Infohabitar na próxima semana, tal como se aponta no respectivo índice, que é em seguida previamente divulgado:

Adequação, diversidade e inovação no habitar (II)

Índice

A adaptabilidade na habitação
. Formas de adaptabilidade na habitação
. Modificações com reduzido aumento do custo global do fogo
. Elementos práticos de adaptabilidade doméstica
Estudar e considerar o que o habitante quer
. Aspectos qualitativos globais
. Aspectos qualitativos de pormenor, mas com influência crítica no projecto
. Equipamentos, complementos e acabamentos domésticos (com base num recente estudo do CIC-COI, e da Eurosondagem)

Cuidar de alguns aspectos fundamentais

Adequação e inovação tipológica e potencialidades das cooperativas de habitação

Notas conclusivas sobre o aprofundamento e a diversificação das tipologias residenciais


Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Edição de José Romana Baptista Coelho, 16 de Novembro de 2007

sexta-feira, novembro 09, 2007

Reposição da Casa-abrigo Eduardo Anahory: Arrábida, 1960 – um artigo de Pedro Taborda - Infohabitar 168

 - Infohabitar 168

É com grande satisfação que se edita hoje no Infohabitar um extenso e cuidadoso artigo do colega Pedro Taborda sobre a obra do arquitecto e artista Eduardo Anahory. É possível que, devido à sua extensão, este artigo possa ser ser posteriormente melhorado na sua edição, designadamente, em termos de alguns eventuais pequenos textos explicativos, a introduzir como legendas às figuras.
Para já optou-se por uma singela ilustração não comentada, referida a projectos de arquitectura de Eduardo Anahory e também a exemplos da sua obra pictórica e escultórica – imagens estas que foram retiradas pelo autor do artigo de vários dos elementos bibliográficos que são apontados na bibliografia que se anexa.
Agradecemos todos, ao Arq. e Mestre em Arquitectura Pedro Taborda por nos brindar com um verdadeiro estudo sobre aspectos fundamentais da obra de um arquitecto que marcou o século XX português e assim inaugurar, de certa forma, mais um outro perfil editorial neste nosso Infohabitar; e ficamos aguardando por outras contribuições deste nosso colaborador e membro do Grupo Habitar, assim como de outros nossos leitores, que queiram participar nesta e nas outras linhas editoriais da nossa revista.

ABCoelho, 9 de Novembro de 2007
Índice
1. O contexto da modernidade
2. A Afirmação de um percurso numa trajectória de inovação.
3. Estandardização - 1959/63a: adesão a um modelo construtivo.
4. Caracterização das Obras arquitectónicas
5. Reposição: procura de sentido para a validade da proposta.

Anexos
Biografia de Eduardo Anahory
Bibliografia
1. Obras de Eduardo Anahory
1.1. Arquitectónicas
1.2.Catálogos de Exposição
2. Estudos

Reposição da Casa-abrigo Eduardo Anahory: Arrábida, 1960

Pedro Taborda (arquitecto)


Fig. 00

1 – O contexto da modernidade

(…) “Como se fosse imune à tempestade da história, a arquitectura portuguesa evoluiu desconforme face às datas canónicas do diagrama moderno. Na quase absurda inocência do seu estatuto face aos companheiros europeus, torna-se impura ou heterodoxa frente ao que convencionalmente se aceita como arquitecturas do movimento moderno. Não só porque é miupe relativamente ao gesto transformador mas também porque nas suas confabulações sobre nacionalidade, tradição ou novo, a exaltação autista e folclorizante da realidade a colocou à margem da modernidade estabelecida, e longe do âmbito das suas críticas frontais.
Tabu de um ritual de circunstancia e/ou vazio pela repetição disfarçada, o legado deste moderno periférico e local, no âmbito da cidade e da habitação, resultou num encontro problemático entre a obra de excepção e a obra de sedimentação: a casa de Honório de Lima de 1940, ou a casa das Marinhas de 1954 ambas de Viana de Lima; a casa de Antero de Quental de Celestino de Castro de 1948; ou a casa da Arrábida de Anahory; a unidade residencial de Alvalade, de Sanches, Athouguia, Laginha, Figueiredo, Celestino, Cid, Esteves, Segurado, ou os conjuntos residenciais da Infante Santo de Gandra, Manta, Pessoa, de 1952 e no Porto os conjuntos habitacionais de J. Loureiro e L.Pádua, de 1959.”(1)
Do mesmo modo que não há homens substancialmente diferentes dos outros e que mesmo as personalidades mais destacadas da história da humanidade são produtos do seu tempo, e não estão nunca desgarrados dos seus contemporâneos, assim também os artistas – por mais geniais que sejam – se forem sinceros, mantêm as suas obras dentro de linhas gerais da época, às quais imprimem o seu cunho pessoal.

Em qualquer época a vida e consciência dos seres humanos exigem das estruturas e dos edifícios certas coisas bem definidas. O tema e o método criam necessariamente um protótipo arquitectónico que está de acordo com essa época.

Nos anos 20, a forma geral do processo criador, restaurado de acordo com as condições de uma sociedade tomada em abstracto, explode numa nova forma padrão, que procurava rectificar a discrepância entre a arquitectura então existente e a inovação da produção tecnológica. Foi como que uma tentativa de adaptação às realidades sociais e urbanas, que o significado de modernização surge na Europa, referindo-se ao estado de desequilíbrio que apareceu entre a época e a arquitectura que ficara do pós-guerra e as condições de uma temporalidade marcada pelo intenso desenvolvimento dos meios de produção e da estrutura social, na emergência de novos sistemas de racionalidade dos processos construtivos, bem como das diferentes adaptações do novo.

O desenvolvimento industrial chegou a Portugal muito tardiamente e de forma menos intensa que nos outros países da Europa, situando-nos também aí na periferia desta cultura tecnológica. As necessidades de normalização, associadas ao desenvolvimento da crença nas potencialidades das máquinas, tiveram expressão retardada nos reflexos de urbanidade e desenvolvimento da cultura sedimentada na crença em novos símbolos civilizacionais sustentados na cultura de standards.


Fig. 01


Os protótipos geradores de modelos adaptados às novas exigências industriais, e consequente desenvolvimento das estruturas tecnológicas, assiste ao desenvolvimento lento na produção de novas formas de construir. A normalização visava o factor económico da construção, como necessidade de produção de peças-tipo, de geometria fácil, pré-fabricadas em grandes séries na manipulação livre, associada ás possibilidades de repetição na hipótese de ausência de compromisso entre forma e função, expressão de uma estética sem limites, alicerçada numa dinâmica despojada de materialidade.

A utopia da modernidade aproximava-se assim de um universo conceptual; o impacto das formas industriais de produção resultava também na reorganização das anteriores formas agrárias de organização social, pela exigência estabelecida nas novas relações técnicas e sociais alicerçadas na formação genérica: a capacidade de construir seja onde for, na possibilidade de conhecer seja o que for, que por sua vez implica um sistema de organização de conhecimento estandardizado, através de um médium de linguagem também estandardizada.

Este processo conduziu a um ajuste entre as relações políticas e a cultura, sendo as diferentes formas de nacionalismo precisamente este ajuste e ligação. Em termos gerais, a formação dos Estados-nação são o resultado da centralização posta em marcha pelas exigências da industrialização: sistemas de organização de grupos humanos em sectores “pseudo” homogéneos centralmente educados, cujas tendências homogeneizantes no sistema são uma consequência das possibilidades da industrialização.(2)

Por essa razão, em 1958, Gakuji Yamamoto (3) referia que a segunda fase, conhecida como desenvolvimento da corrente arquitectónica moderna, visava, do ponto de vista da coordenada horizontal (universalidade epocal) a modernização da Arquitectura. E do ponto de vista da coordenada vertical (universalidade histórica), visava a consciência da restauração da tradição. Quando se formaram as bases para os primeiros passos desse desenvolvimento (o movimento dos anos 20), esse movimento arquitectónico para negar os elementos gerais e não modernistas da arquitectura do passado que ainda permanecia, teve de extrair características especiais duma certa realidade, conhecida por sociedade moderna. Quando se referem as características genéricas e abstractas dos primeiros passos da modernização do ponto de vista da coordenada vertical, entende-se que a restauração da tradição, nessa altura, não se baseou em factores locais, mas foi uma restauração dos processos da criação arquitectónica universal, que dependeu das condições (valor especial da função) de uma sociedade moderna – sendo por isso que, depois de 1930, o significado geral da tradição teve de ser reexaminado à luz das heranças locais de cada país.


Fig. 02

No caso português, a apropriação do conceito de racionalismo moderno e de normalização dos processos produtivos pelos sistemas cultural e político vigentes mantêm a tradição clássica e decorativa, engrandecida pela escala monumental de matriz italiano e alemão, com a manutenção de processos de fabrico que dão continuidade à valorização dos elementos ornamentais de carácter individual. A este modelo corresponde uma sociedade que não tendo os meios de produção necessários a um desenvolvimento moderno ficciona, numa Pátria rústica, o modo de perpetuar uma identidade presente-futura.
“ Na ideologia do Estado novo, sobrepunham-se uma vertente restauradora e ruralista e outra vertente de progressismo técnico e até cosmopolita que se queria imprimir aos programas dos novos equipamentos da modernização do País” (4). Até à 2ª Guerra Mundial parece claro, agora à distância, que a nova arquitectura e o novo regime são indissociáveis: não caracterizam uma situação de oposição ou resistência cultural, mas antes uma simbiose.

A procura do referente monumental e classizante como forma de assegurar uma ideologia de Estado-nação, visível nos espaços urbanos das capitais da metrópole e ultramar, concretizada em equipamentos públicos ligados ao poder central (hospitais, universidades, estações de caminho de ferro), articulava-se com uma escala de pequena dimensão, de formas arcaicas, rememoradas na rusticidade de uma “tradicional arquitectura vernacular”. Estas linguagens não-modernas tinham a sua expressão em escolas, estações de correio e de transportes, grémios e casas do povo, centros de apoio a tuberculose, entre outros, que asseguravam a vivência do quotidiano urbano, não sensibilizando para um novo gosto.

E mesmo as elites do tempo admiraram este ultimo esforço ilusório: “ os arquitectos tinham aprendido nas Escolas de Belas Artes e nos ateliers dos mais velhos um ofício académico e eclético que admitia para cada situação um estilo adequado. Recordo um caso, o de Rogério de Azevedo, que no mesmo período (1930), lado a lado, e para o mesmo cliente (a empresa do Comércio do porto) desenharia para a sede do jornal, virada à avenida dos Aliados, um edifício que poderia ter sido desenhado 20 anos antes e, para as traseiras da mesma avenida, uma garagem em altura, que fica como a obra mais inovadora e original da nova arquitectura.” (5)



Fig. 03


Com o final da 2ª Guerra Mundial, com o advento de um novo humanismo na Europa, afirmado em propostas variadas de intervenção social; e a permanência do modelo autoritário de Salazar, avesso a uma sensibilidade abstracta que inicia a mundialização da finança e reafirma os valores funcionalistas do capitalismo moderno, abre-se caminho à possibilidade da constituição do 1º Congresso de Arquitectos (1948) (6), antecedido pela intervenção dos grupos I.C.A.T (7), dinamizado por Keil de Amaral, e O.D.A.M. (8). O Congresso funciona como a instituição que promoverá o conhecimento do Movimento Moderno, alicerçado na divulgação dos fundamentos gerais, contextualizados e particulares - sobretudo através do periódico Arquitectura, órgão oficial do ICAT, que Keil de Amaral revitaliza a partir de Março de 1947 (nº.13, 2ª série) (9). Ouve-se finalmente a voz do “estilo Internacional”, através dos modelos corbusianos, pela via dos seus continuadores brasileiros (10), e do movimento dos C.I.A.M., que organizou em Lisboa, em 1953, o III Congresso Internacional de Arquitectura Moderna, e em que participaram 600 congressistas, representando 35 delegações mundiais. (11)

No entanto, a falta de domínio tecnológico e a escassez de meios que possibilitassem a inovação em termos de materiais (12), com a consequente limitação na exploração de novas tipologias (13), desenvolveu e justificou doutrinária e ideologicamente uma modernização concreta contextualizada numa valorização da continuidade cultural, num tempo e num sítio (14). Este antagonismo com os princípios pioneiros do modernismo internacional, sustentados num funcionalismo abstracto, caracteriza a evolução da arquitectura moderna em Portugal.

Fig. 04: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963
A trajectória de Anahory, introduz no debate da moderna Arquitectura portuguesa uma perspectiva Internacional.
O contributo da sua obra, pode ser simbolicamente entendido como a introdução do estilo internacional numa arquitectura do efémero em Portugal. Face à manutenção das estruturas sociais e urbanas antecedentes à 2ª Guerra Mundial, que não fomentaram o desenvolvimento de um urbanismo moderno pela necessidade de reconstrução e alargamento do tecido urbano; e às limitações culturais e tecnológicas, assimiladas corporativamente pelos arquitectos, torna difícil e retrógrada, nos anos 60’s, a organização do espaço concebido segundo um “ esquema de actuação plural e aberto que defende planeamento ou design da organização espacial (…) porque as formas também criam circunstância e não são simplesmente condicionadas pelo seu contexto (15)”.
A falta de visão global integradora das diversas escalas dos modelos produtivos da arquitectura, decorrentes da ausência propositiva de equipamentos e condicionada pelas limitações de gosto de uma clientela esclarecida, não permitem a acção de uma vanguarda para além dos campos aceites no discurso do desenho, que exige assinatura individual.



Fig. 05: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963

“Se se defende que a arquitectura cria circunstância, nos factores que com ela implicam não se pode colocar uma posição de vítima mas deverá agir para melhorar essa circunstâncias... [E não esperar pelas] condições óptimas para se poder (desenhar), riscar sem risco.” (16) - é o que Anahory parece dizer ao conceber e realizar as propostas radicais da Arrábida.

Pelo conhecimento das contingências materiais, tecnológicas e de gosto, Anahory opta por intervenções que o vão distanciar dos seus pares nacionais. Face à falta de condições efectivas para o desenvolvimento de uma industrialização dos sistemas construtivos a que correspondesse a possibilidade efectiva de mudança das tipologias standards, à semelhança dos modelos holandeses (17) e americanos, mas rejeitando o conceito de uma arquitectura social . Esta atitude revela a consciência socio-cultural da sua inovação, não constituindo obstáculo para a implementação do seu desejo de testar materialidades de base industrial mas adaptadas às possibilidades de uma fabrico proto-industrial.


2- Afirmação de um percurso numa trajectória de inovação


As obras arquitectónicas de Anahory, chegaram até nós pelas imagens publicadas nas revistas Nacionais e nas de divulgação Mundial, caracterizam-se por três componentes essenciais que estabelecem a continuidade expressiva da sua arquitectura: a forte presença da natureza; o emprego dos materiais locais; a utilização de tecnologia avançada.



Fig. 06: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963

A originalidade radica na continuidade espacial e na continuidade sistemática de adaptação do trabalho de autor que integra as atmosferas dos ambientes na expressão e articulação entre materiais tradicionais – tijolo, pedra, madeira, cortiça - e leves estruturas metálicas , numa integração de um caminho regionalista e tecnológico adaptados a um racionalismo epígono do Internacional Style.

A tudo isto se junta a vocação social da vanguarda, na vivência e consciência da grandeza histórica da sua época, onde os interesses se expandem: a importância e universalidade dos problemas da representação do acto criativo como produto que não procura perpetuar, mas se estrutura na metamorfose do processo construtivo como expressão de um vocabulário simbólico adaptado ao contexto temporal e espacial em que se implantam as obras, amparadas pelas formas e símbolos pré-figurados na ideia de casas pavilhão.

Concebendo o refúgio a partir do qual se domina a natureza, concretiza as aspirações da arquitectura moderna que representa, nas possibilidades de uma materialidade experimental potencializada pela extensão cultural de uma época em que uma mais rápida informação e convívio entre todos os intervenientes da arquitectura participam de forma activa.

A mobilização conceptual de construção clara, foi um dos princípios a que aderiu e que caracteriza a sua obra. Elevar a condição da construção à condição de estrutura, fazendo depender o princípio criativo precisamente da disciplina que possibilita potência criadora, num princípio geral : estrutura não como solução especial, mas como ideia geral. E embora cada edifício seja diferente, uma solução única, não é motivado como tal.

A procura das formas “correctas” alargou campos de experimentação que só foram solucionados pela aproximação ao estudo científico no modo de penetração na matéria, a par de um gradual desenvolvimento e depuração de hipóteses desenvolvidas na investigação dos sistemas construtivos adaptados aos programas arquitectónicos.

A influencia da depuração formal de Craig Ellwood, referida pelo próprio Anahory no artigo de que ele próprio escreve sobre a sua casa (18), enquadra as influencias do autor.” No entanto a simplicidade que aparece nas obras de Craig Ellwood [arquitecto californiano de vanguarda de influência miesiana (19)] é a consequência de uma imensa sofisticação enquanto no trabalho de Anahory se vê claramente ser o resultado de uma consciente restrição de técnicas e dos materiais utilizados, como foi o uso de painéis de cortiça revestidos com laminados de plástico. Assim como noutros detalhes, nota-se esta inerente simplicidade na solução dada ás entradas que impede qualquer suspeita de que se tivesse seguido uma moda”. (20).



Fig. 07: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963

Não deixa de ser curiosa a forma como a divulgação da obra de Anahory chega até nós: o testemunho das suas casas foi-nos deixado em artigos de revistas de maior divulgação internacional. Entre nós, só passados 3 anos a revista Binário, pela mão do autor, é dada a conhecer a inovação das experiências arquitectónicas, quando os testemunhos estrangeiros podiam ser referidos como autoridades que comprovavam por si, a autenticidade do projecto. Estranhamente, a revista de maior tiragem nacional, Arquitectura, ignora a realização destas casas protótipo, correspondente ao denominado formalismo internacional, por oposição ao regionalismo folclórico e à universalidade de estilo (21).

As receitas que as autoridades recomendavam, remetiam para uma arquitectura de carácter cenográfico, sendo como cenografia que a maior parte dos arquitectos naquele período compõem os volumes e as fachadas que desenham. O estado Novo como todos os regimes fascistas, na arquitectura que corresponde ao período de 1934-1940, promoveu exposições industriais e comemorativas, enquadrando-se no registo cerimonial do efémero, com encenações temporárias. “O clima de confusão que se gera em torno dos problemas da arquitectura durante a década que remata na monumental encenação que foi a Exposição do Mundo Português…criava as condições do reaparecimento de uma nova geração combativa, radical nos seus propósitos teóricos” (22).

Anahory, desde 1937 ao participar como decorador do pavilhão Português na Exposição de Paris, concebido por Keil do Amaral, que se integra no movimento de reforma da arquitectura dita moderna. A participação em exposições internacionais – Feira Internacional de Nova YorK (1939), Expo 58, em Bruxelas e Feira Industrial, em Munique (1958) -, possibilita-lhe conhecer e lidar com as obras de Niemeyer e Sérgio Bernardes (com quem estabelecera laços de amizade), expoentes maiores do purismo funcional desenvolvido pelo modernismo brasileiro. Anahory vai para o Brasil quando Niemeyer ganha o concurso para o edifício do Ministério de Educação e Saúde, o primeiro projecto de arquitectura moderna, na origem do vigoroso movimento cultural de reforma que introduz o sentido moderno na arquitectura e artes plásticas, dominante, desde o início da década de 40 aos anos 70.

As suas obras espelham a sua personalidade internacional, difundindo não só ideias como ainda dinamizando-as, dando-lhe uma materialidade prática e convincente, via de regra, através da participação em exposições internacionais. Contribuiu activamente para a renovação das artes decorativas, forçando com o seu contributo a passagem do gosto para a evolução do neoclassicismo Deco para o funcionalismo.

Os primeiros tempos de actividade são dedicados à arquitectura de interiores e à defesa dos princípios de vanguarda que ele defende combativamente, procurando sempre o enquadramento internacional que lhe permitisse evoluir, orientando a sua acção na assimilação e promoção de um estilo contemporâneo, adaptado à escala humana e de acordo com as exigências de função, qualidade e estética.

Pintura, desenho, aguarela, visão da arquitectura, exposições
O percurso inicial de decorador e gráfico, finaliza numa consciente aprendizagem da construção e da manipulação dos materiais da construção, fiel ao espírito dos tempos, tendo disso sido exemplo a adesão à racionalidade inerente aos sistemas de pré-fabricação, numa consciente apropriação da ideia objectiva de perfeição funcional, pela procura de unidade modelar.

A expressão “decorador”, empregue aqui como expressão de colaboração artística, poderá ser mal interpretada: a actividade em áreas de trabalho conotadas como actividades superficiais, arranjos menores ou estilísticos, fez esquecer o contributo de Anahory para o desenvolvimento da arquitectura nacional. As visões iconoclastas críticas, e alguma intolerância por parte dos arquitectos formados em preceitos quase puritanos, não permitiam a valorização do mundo, manifesto em sensibilidades mais complexas, integradoras do mundo dos objectos, das séries e do consumo efémero do quotidiano, que reflectem um certo estilo de vida do “homem moderno “.

Os objectos, ou a visão da arquitectura como objecto de consumo no ideal moderno, faz parte de nós mesmos e Anahory soube entender o alargamento dos campos da arquitectura ao contacto com o mundo simbólico dos objectos de uso quotidiano, não como forma de arte, mas com finalidades práticas.


Fig. 08: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963

A valorização dos utensílios como fenómenos intelectuais, substitui a ficção produtivista ligada ainda ao processo de troca capitalista por outro sistema mais abstracto e subjectivo, baseado na mundialização do capital. Tradicionalmente o capital só tinha de produzir bens; o consumo fazia-se por si. Nesta nova perspectiva global, tornara-se necessário produzir consumidores; o entendimento dessa vocação plástica do desenho como registo de signos que exprimem os desejos e das formas que nela se projectam, a várias escalas e a diferentes níveis, capazes de integrar o mundo dos desejos numa nova era de consumo e de industrialização desenvolvida na ideia de progresso, sustenta o imaginário na promoção dos bens modernos.

“ A reorganização das necessidades pré-embaladas constituem as bases das forças produtivas da sociedade dos anos 60’s e, a estrutura da existência social, desenvolve-se em agregados de indivíduos que lutam para conseguir satisfazer os seus desejos pessoais nos significados que circulam no mercado, sem que na verdade o consigam a não ser nos modos industrialmente aprovados”. (23)
Esta uniformização estética foi muito bem entendida por Anahory. Soube aproveitar a abertura dos novos modelos, mais subjectivos e de consciência operativa mais aberta, para realizar-se como arquitecto multifacetado, integrando toda a sua capacidade criativa em programas que lhe permitiram encontrar modos diferenciados e simultaneamente coerentes de expressão: quer pelo desenho publicitário, numa aproximação ao ícone de divulgação de marca posto ao serviço da indústria, no modelo promocional americano pós-guerra; quer no desenho de mobiliário funcional, adaptado a novas exigências programáticas; quer no desenho e construção da arquitectura, como fenómeno para ser “olhado” e projectado a vários níveis, integrando no espaço contentor elementos interiores que se apropriam do desejo de consumo ou de evasão, permitindo um uso mais vivo dos espaços do quotidiano.

As novas ideias sobre utilização dos espaços levam-no a ensaiar programas inovadores para alguns quartos do Hotel Ritz, um Cabeleireiro (24), um projecto para Loja de Discos/Snack Bar (25), ou valorizar a construção de equipamentos, construindo tectos falsos em madeira de freixo (1966), e um protótipo de plateia desmontável, em vidro e aço. Segundo informações orais (26), é ainda autor do Café Vá-Vá, o Café Ivens e a Agencia da Pan-Am.

As novas ideias sobre utilização de espaços comerciais, com a abertura programática polivalente, acrescentou ao acto da compra a possibilidade do estar no recurso ao conceito em voga de living-rom. Esta inovação corresponde a uma atitude que abre espaço para uma nova actividade da arquitectura, pelo modo como introduz factores de conforto e desejo de encontrar novos objectos utilitários, pensada a partir da necessidade do uso das coisas, alargando, no caso de o conceito de decorador para o de arquitectura de interiores.


Fig. 09: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963

3. Estandardização - 1959/63 : adesão a um modelo construtivo.

Anahory identifica na sua obra as excepcionais possibilidades materiais e técnicas do seu tempo, recorrendo a técnicas de construção e dimensionamento completamente revolucionárias em Portugal. A aderência aos sistemas pré-fabricados, pelas experiências adquiridas nas diversas participações em Exposições Universais e Industriais, e o contacto directo com as concepções de vanguarda nas áreas da experimentação tecnológica aplicadas ao sistema de construção série, assimilados durante as suas estadias no México e Brasil, leva Anahory a ser pioneiro na investigação dos sistemas construtivos leves, económicos e rápidos de executar. (27)

Participar no trabalho de fábrica como artista, significava uma atitude de partilha de ideias, esforços e responsabilidade da obra: a arte integrada no seu contexto, como possibilidade de acção consciente dos problemas vitais para a manutenção da nossa civilização, na influência do ready-made que caracteriza as expressões arquitectónicas posteriores a 45 (28).

A adesão aos trabalhos de equipa, sempre relacionado com programas de complexidade intrínseca que requeriam a necessidade do estudo e do trabalho conjunto com diferentes técnicos (arquitectura, design, estrutura), facilitou o rompimento com o tradicional sentimento individualista inato aos Portugueses e algo de refractário ao trabalho anónimo de investigação.

O facto das obras da década de 60 revelarem as preocupações de Anahory em relação às respostas técnicas que os sistemas de pré-fabricação permitiam, antecedendo a realização do 1º Congresso Pré-Fabricação - Milão em 1962 (29), denunciam a necessidade de experimentação em áreas de conhecimento avançadas (30).

Este carácter experimental é visível no modo como evoluem as mudanças essenciais postas à prova nos protótipos que Anahory vai desenvolver até ao projecto para Hotel de Porto Santo. Ao protótipo inicial da Casa de Fim-de-Semana, virão depois as novas séries de produções: Casa de Férias e Blocos de Apartamentos. O percurso de ensaio até ao hotel da Madeira, ajuda a estabelecer um processo de trabalho em formação, o que é absolutamente necessário para entender o campo de projecto e obra, como algo que se desenvolveu organicamente. Visava-se um novo estilo de habitação, inédito em Portugal, ao qual correspondia um domínio de possibilidades industriais de discreta beleza: o tema da abstracção e condensação formal, sem virtuosismos para além da própria ideia que suporta as radicais construções pela adaptabilidade ao seu contexto; no recurso a sistemas de detalhe construtivo e de sistemas pré-moldados de fácil montagem e transporte sustentadas na exigência prática de falta de mão de obra e condições naturais que permitissem a construção, face aos condicionalismos para implantação das obras.

Cada construção, neste processo evolutivo, surge como “protótipo”;e para cada projecto é adaptada na possibilidade de expressão à síntese conclusiva dos elementos construtivos de modo particular. A origem desta série experimental, encontra-se na construção edificada na Arrábida – Casa de Férias.

O processo de edificação foi executado em 90 dias, por um sistema estrutural leve em perfis de ferro que suportam a edificação de um estrado de madeira. Acima deste plano horizontal, ergue-se a construção em sistema de painéis de aglomerado de cortiça revestidos a contraplacado de “mutene”, nas áreas habitáveis e a plástico nas casas de banho, aparafusados em porticados de pilares e vigas de madeira; a cobertura é igualmente executada com painéis de aglomerado de cortiça (10cm de espessura) isolada com pintura betuminosa. O sistema de caixilharias é em madeira de casquinha, de correr, abrindo o espaço interno para a magnífica varanda; as persianas, em madeira de casquinha, são projectantes, comandadas pelo interior, formando brise-soleil orientáveis graças ao engenho simples de cabos e roldanas de barco, permitindo o fecho da casa.

A evolução dos sistemas construtivos para o Bloco de Apartamentos da Arrábida, construídos com uma distância de um ano da Casa de Férias, regista-se no uso de painéis de aglomerado de cortiça revestidos a placas de fibrocimento, pintadas a branco. O pavimento é em madeira revestida a alcatifa plástica, sendo igualmente em plástico as persianas, constituídas por sistemas basculantes idênticos ao utilizados nas produções arquitectónicas anteriores. Esta unidade de



Fig. 10: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963


4. Caracterização das Obras arquitectónicas

A modernização abstracta integra uma modernização concreta que ameniza o impacto da produção em série, pelo recurso a materiais de tradição local: disso é exemplo o recurso a sistemas de insolação em vime quando constrói o Hotel de Porto Santo, solução recorrente desde a intervenção no Pavilhão de Bruxelas e de Munique. Este modelo de arquitectura polivalente, podendo ser definida como adequada à sua época e à localidade, utiliza a industrialização como instrumento, não se deixando confundir nos termos, remetendo a ordem de fabrico em série para o processo da construção e não da arquitectura.

O desenvolvimento progressivo dos seus conhecimentos técnicos permitiram ir afirmando o domínio gradual dos processos construtivos e que possibilitaram uma unidade de linguagem e de conceito; estes resultaram, para além das experiências em acontecimentos efémeros, de algumas tipologias comuns aos programas habitacionais em que participa: espaços de residência não permanentes – casas de fim de semana e de férias, hotéis - que lhe garantem condições de aperfeiçoamento sistemático.

Uma das características destas construções, resulta da similaridade das implantações fora de áreas urbanas, em espaços naturais virgens; a ausência de referentes edificados e sociais vai permitir a Anahory uma liberdade despojada integrada na Natureza. A valorização do sítio não é comprometida pelos volumes nem pela tecnologia, gradualmente dominada no processo evolutivo que vai da casa de Fim de Semana ao Hotel de Porto Santo.

Se as condições de implantação permitem um descompromisso a vários níveis face às tradicionais formas de pensar a arquitectura, longe de qualquer tradição cultural que não a decorrente do próprio processo de experimentação, a força e grandeza dos elementos naturais permite que a simplicidade das formas construídas, para além da precariedade dos materiais e do desenho de pormenor, se integrem de forma afirmativa na paisagem.

O respeito pelo sítio revela-se não tanto pelo encaixe da forma ao terreno, mas pelo respeito e sentido dos elementos naturais na ideia de casas abrigo, onde a própria precariedade dos elementos construídos, pela sua fragilidade, interagem com o ciclo ambiental.

O artifício arquitectónico não resulta da manipulação das formas pelo jogo dos volumes, mas no complexo puzzle construtivo a que recorre, aos quais correspondem exigências naturais de simplicidade formal. Desvinculado das preocupações correntes que envolviam os arquitectos seus contemporâneos, marcados pelas lutas sociais integradas no discurso unitário disciplinar, com forte carácter político, face à incultura e à necessidade de resolução do problema da habitação social, Anahory ensaia protótipos abstractos que lhe permitem desenvolver, de modo independente a sua personalidade criativa.

Esta autonomia vai-se reforçando com as possibilidades de escolha das tipologias que lhe sugerem campos de investigação adequados ao desenvolvimento do seu carácter. E é esta marginalidade que reveste a sua obra de vanguarda no contexto nacional, a qual perdura para além do tempo da sua realização – ou seja, não existe.

A afirmação de liberdade, reveste o autor de um mistério talvez melhor entendido, se não fosse disso o reflexo de toda a sua obra, na viagem de veleiro que realiza em 1945, do Rio de Janeiro para Lisboa.


Fig. 11: Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, 1963

5. Reposição: procura de sentido para a validade da proposta

A reposição justifica-se quando a autenticidade (31) da obra num espaço e num tempo tem relevante valor patrimonial: quer pela referência a uma materialidade perdida, a qual se entenda ser contributo exemplar constituindo por si, justificação para a retoma do objecto como valor patrimonial que encontra expressão singular; quando a existência de material documental torne possível o conhecimento do objecto, viabilizando uma reconstituição fiel aos princípios que o autor na época viu implementados; e seja sustentada numa apropriação programática com vista a uma actualização da função (32).

Uma vez que a obra se encontrava construída numa reserva natural, tendo sido fabricada já nesse respeito, na tipologia do sistema construtivo utilizado – sendo prova da sua reversibilidade o facto de já não existir –, a sua eventual reposição não ameaçaria a integridade dos elementos de reserva paisagística.

A possibilidade de um abrigo que simultaneamente servisse de espaço de lazer, de estudo e de rememoração, amplia o valor intrínseco do sítio (33), não entrando em concorrência como elemento que se sobrepõe, antes sendo acontecimento promotor na divulgação do Parque Natural e um exemplo de conservação integrada. A reedificação, entendida como estrutura de acolhimento, permitiria a integração alargada à dinâmica da programação e interpretação do Monumento e do Sítio (34); sem que fosse necessário mais atributos qualificativos para além da própria ideia de “abrigo”, constituindo a melhor maneira de possibilitar o entendimento do Sítio.

Quanto ao valor inquestionável do objecto arquitectónico, nas suas características de concepção modelar para casa de praia e inovação tecnológica que expressa; por ser experiência de uma modernidade inexistente, representando Anahory, figura praticamente apagada nos registos da modernidade em Portugal (35),a concretização do estilo internacional na sua forma mais pura ; e ainda, pela analogia com o caso da reposição do Pavilhão de Mies em Barcelona (36), considera-se poder propor a reedificação, tendo como critério de uso parâmetros que não alterem o caracter multifuncional da casa, nem a ordem natural envolvente.


Anexo 1 - Biografia de Eduardo Anahory

Nasce a 16 de Dezembro de1917 e morre em 1998.
Frequenta o curso de arquitectura nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto.

Em 1936, para comemorar o Ano X da Revolução Nacional, a Junta Nacional de Educação encomenda-lhe um ex-libri “ut videam”, a selar em todas as publicações editadas durante esse ano, e consultadas na Biblioteca Nacional (ver fig. anexa n.º ) (37).

Entre 1937 e 1958 colabora na decoração de pavilhões integrados em
Exposições Nacionais e Internacionais, comemorativas e industriais, veículos de promoção de ideias e produtos, barómetros simbólicos e indicadores do progresso, tecnologia e invenção das culturas que representam, quer pela redescoberta de valores do passado comum, como reposição da memória colectiva, quer projectando o presente em promessas de futuro.



Fig. 12

Em 1937, participa na equipa de pintores e arquitectos que decoram o Pavilhão Português, na Exposição Universal e Internacional de Paris “Artes e Técnicas na Vida Moderna”, concebido por Keil de Amaral e que pretende integrar os símbolos tradicionais do escudo e da cruz de Cristo, numa fórmula dita moderna, adaptando o estilo internacional aos valores portugueses: “A mais sedutora, a mais divertida e inteligente propaganda fascista que nos é dado ver (…) parece difícil, senão impossível, com os meios actuais fazer melhor (…) transformando as contas em arte”, comenta na época o jornal La Vie Ouvrière. (ver fig. anexa n.º) (38).

No âmbito da Exposição realiza-se o V Encontro C.I.A.M., que tem como conclusões a Carta de Atenas; e pela primeira vez é exposta ao público Guernica.

Em 1939 trabalha no pavilhão português da Feira Mundial de Nova York, encomendado a Jorge Segurado. Em plena guerra mundial, sendo o Carrocel símbolo do mundo mecânico e do consumo, ficciona-se o futuro como divertimento e progresso. Por isso, a partir deste Evento as empresas privadas passam a integrar-se com pavilhões próprios, implementando o desenho industrial.

Conhece Óscar Niemeyer, arquitecto responsável, conjuntamente com Lúcio Costa, pelo pavilhão brasileiro, que o convida a trabalhar no Rio de Janeiro.
Em 1938 ganha o concurso público de concepção de um logotipo destinado às edições do duplo Centenário, criado pela secção de Propaganda e Recepção da Comissão Executiva dos Centenários (39), sendo também da sua autoria a capa do Guia Oficial da Exposição do Mundo Português, “exposição portuguesa e sobretudo histórica”, segundo palavras de Cottinelli Telmo, e por isso com um forte sentido de permanência (ver figura anexa n.º).

Participa ainda nas Comemorações como decorador e pintor mural (40), sobretudo nos Pavilhões do Centro Regional, coordenado pelo próprio António Ferro, e no das Artes e Indústrias, considerado pelos críticos nacionais e estrangeiros o espaço de melhor modernidade gráfica da Exposição. Concebido sem grande originalidade, repetindo a temática e os trabalhos decorativos e murais executados para a Exposição Artes e Técnicas da Vida Moderna (Paris, 1937), mantém impacto e força comunicativa pela qualidade gráfica das imagens e originalidade de soluções (41).
Integra o grupo de pintores e arquitectos que decoram as Montras do Chiado, certame de “espírito “ e “bom gosto”.


Fig. 13

Em 1946, o SNI promoverá nova iniciativa, aplicada às suas próprias montras, sendo Anahory premiado pela do Secretário Nacional de Informação.
Os designers, conotados então com as artes decorativas, e as artes publicitárias, em fase inicial de desenvolvimento, comprometem-se com estas jornadas, valorizando as peças artesanais e industriais, tornadas agora objectos do quotidiano, e criando formas originais de divulgação, de que é exemplo o 1º Salão Nacional de Artes Decorativas, de 1949, com edição pelo S.N.I., de uma brochura, e texto inaugural do Ministro da Propaganda e Turismo.

Anahory participa no evento com peças de mobiliário (42) e um enigmático biombo lacado, aparentemente ao gosto de uma classe média-alta cosmopolita, de forte sentido simbólico, em que guardiães de inspiração persa revelam as cartas da fortuna, protegidos por uma figura central do bestiário, em que recai a espada vital (árvore) do conhecimento: espiritual, associado a uma imagem feminina, posicionada acima da cabeça dos guardiães; material, à brutalidade maligna, situada ao nível do coração; e energia anímica, que interliga o coração dos guardiães, formando um losango com a cabeça do anjo (ver fig. anexa n.º 2.3?).

Os guardiães fingem que mostram, não mostrando, num jogo de simulação e delicadeza, em que parece ser pelo lúdico que se processa o entendimento do segredo.


Fig. 14


Em conjunto com Carlos Botelho, Tom, Paulo, Estrela Faria e Manuel Lapa trabalha na decoração do Museu de Arte Popular, de Jorge Segurado e Veloso Reis, só inaugurado em 1948 (43).

Entre 1940-45 viaja pelo México, América do Sul e Brasil, desenvolvendo actividade de arquitecto, desenhador, decorador e pintor, expondo na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Como decorador trabalha com o célebre dramaturgo parisiense Louis Jauvet em S. Paulo e Rio de Janeiro.
Finda a 2ª Guerra, em 1945, de veleiro, regressa a Lisboa.
E organiza a sua primeira exposição individual de desenhos, óleos e guaches em Portugal, na Galeria Stop (44) (ver fig. anexa n.º 2.14).

Na década de 40 participa regularmente nas exposições de pintura, desenho, aguarela e guaches, organizadas pelo S.N.I., em Lisboa (45).

De novo a convite de Louis Jauvet, vive em Paris entre 1945 e 48, sendo considerado um dos melhores decoradores de teatro em França, merecendo particular apreço do público e da crítica as fórmulas encontradas na dramatização de Garcia Lorca. (46)

Em 1952 por sugestão de Niemeyer volta ao Brasil, desenhando e realizando o Pavilhão do Instituto Brasileiro de Café.
Participa em duas exposições individuais de pintura em S. Paulo e Rio de Janeiro, e na 4ª Bienal de S. Paulo.

Em Lisboa, em 1957, colabora na decoração de alguns quartos do Hotel Ritz, escolhendo mobília standart, de linhas modernas, da Olaio, criando um estilo que os diferencia dos outros, decorados de acordo com gostos mais classizantes e uma tradicional concepção espacial. (47) Dirige com Orlando Costa a agência de Publicidade Marca.

Por um mundo mais humano, eis o tema da 1º Exposição Internacional e Universal do pós-guerra, Expo 58 (48), em Bruxelas, dominada pelo símbolo do átomo, relançando a crença na tecnologia, agora ao serviço da Paz.

Aí se realiza a maior exposição de pintura do mundo, representando 50 anos de Arte Moderna, tendo Portugal participado com pinturas de Amadeu de Sousa Cardoso e Almada Negreiros.

Conjuntamente com João Chaves, Kradolfer, Tom, Manuel Rodrigues, Sebastião Rodrigues e Frederico George participa na decoração do pavilhão Português, concebido por Pedro Cid (49), e com quem trabalhará em obras futuras.

Simultaneamente colabora no Pavilhão Brasileiro, como assistente de Sérgio Bernardes, arquitecto de um dos projectos mais elegantes da Exposição: uma leve e ondulada cobertura, em cabo de aço, material construtivo inovador, utilizado também nos pavilhões do Vaticano, E.U.A., e França.

Ainda em 1958 ganha o concurso para o pavilhão português na Feira Industrial de Munique “Ikofa”, tendo-lhe sido atribuída a Medalha de Ouro. O projecto, “revelador de um elaborado sentido espacial, descuida o pormenor, definindo previamente o percurso através de um tecto de vime” (50), solução já usada com êxito na decoração do restaurante do Pavilhão Português de Bruxelas, e recorrente na sua arquitectura.

Entre 1958-59 e 1965 realiza as poucas obras arquitectónicas de que temos informação escrita:
>Snack-bar e loja de discos – Lisboa, anterior a 1960.
>Casa de Fim de semana – Alportuche, Arrábida, anterior a 1959/60.
>Casa de Férias – Galápos, construída em 1959/60.
> Bloco de apartamentos – Galapos, Arrábida, construída em 1961.
> Hotel Porto Santo, com Pedro Cid, Madeira, 1963.
Projectos:
> Piscina Flutuante, Estoril, 1965.
> Pavilhão de Congressos, Estoril, posterior a 1975 (51)

Em 1966, no âmbito da exposição As Artes ao Serviço da Nação, projecta painéis rotulados para tectos falsos, em madeira de freixo; e, em 1973, um protótipo de plateia desmontável, em fibra de aço e ferro. (52)

Decora com Daciano Costa e Rogério Ribeiro, na década de 60, o novo edifício da Fundação Calouste Gulbenkian, concurso ganho por Pedro Cid, Ruy Athouguia e Alberto Pessoa.

Durante o ano de1963 viaja pela Finlândia e Escandinávia, com uma bolsa de estudo do Instituto de Alta Cultura.

As informações sobre os últimos trinta anos da vida de Eduardo Anahory são vagas e muito escassas: segundo Pedreirinha, em Dicionário de Arquitectos(53), vive desde 1964 em Paris; no catálogo da exposição na Galeria do Casino do Estoril, volta ao Brasil em 1975, colaborando com outros arquitectos.



Fig. 15


Em 1983 participa em duas exposições individuais de pintura e pequenas peças escultóricas, de um “inesperado e aliciante bestiário” (54), no Rio de Janeiro e em S. Paulo, expondo-as, no ano seguinte, em Lisboa (Galeria do Casino do Estoril):

“Quando o Eduardo o Eduardo Anahory me convidou a ver estas pinturas recentíssimas, trazidas do Brasil para aqui as mostrar, lembrei-me logo de desenhos seus que conheci vai para vinte ou vinte e cinco anos (…) o que me terá levado a cruzar a lembrança é o facto de, naqueles desenhos, como nestas pinturas, o debate lá por dentro vir a ser entre um gesto que estrutura e outro que indisciplina. E, assim por essa ordem. Indisciplina quer aqui dizer, evidentemente, liberdade, ultrapassagem da ordem a que a estruturação, por si só, por vezes nos amarra. Significa o gesto que transpõe o ângulo de segurança da ortogonalidade, por exemplo: o gesto que exprime a veemência onde, em princípio, se deveria instalar apenas a medida.(…)
Repartido numa profissão por mil profissões dentro dela, foram muitas e opostas, até as escalas em que se deteve como quem se decide a ficar. Daí esse seu saber chegar e saber estar onde se encontra. (55)”


Bibliografia

1. Obras de Eduardo Anahory

Arquitectónicas:
>”Um Snack-bar e loja de discos em Lisboa”
Binário, Setembro,1960, nº 24.
>”Casa de fim de semana – Alportuche, Arrábida”, já construída em 1960.
Binário, Agosto 1960, nº 23
>”Casa de Férias – Galápos”, construída em 1959/60(?).
Domus,1961,nº377
L’Architecture Aujourd’hui,1961,nº103
Binário, 1963, nº59.
>“Bloco de apartamentos – Galapos, Arrábida”, construída em 1961.
Domus,1962,nº392;
The Architectural Review,1962,nº 787
L’Architecture Aujourd’hui,1963,nº105
Binário, 1963, nº59
>” Hotel Porto Santo”, Madeira 1963.
Binário,1966, nº88
L’Architecture Aujourd’hui,1963, nº105
Domus,1963,nº398.

Catálogos de Exposições de pintura:

1942 - Exposição de Desenho, Lisboa, S.N.I.
1945 - Eduardo Anahory. Pinturas e Desenhos, Lisboa, Galeria Stop.
1946 -10º Exposição de Arte Contemporâneo, Lisboa, S.N.I.
1948 - 12º Exposição de Arte Contemporâneo, Lisboa, S.N.I.
1949 - 13º Salão de Arte Contemporânea, Lisboa, S.N.I..
1949 - 1º Salão Nacional de Artes Decorativas, Lisboa, S.N.I.
1984 - Anahory. Catálogo da Galeria de Arte do Casino do Estoril.
2002 - Catálogo Geral da Colecção, Lisboa, C.G.D..


2. Estudos

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A.A.V.V., Concurso para o pavilhão de Portugal em Bruxelas, Arquitectura, 1958, n.º 57-58.
A.A.V.V., DOCOMOMO Ibérico.Documentación y Conservacíon de la arquitectura y el urbanismo del movimiento moderno. La habitación y la ciudad modernas: rupturas y continuidades 1925-1965. Actas, Barcelona, Fundació Mies der Rohe, s/d [1997].
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Yamamoto, GaKuji, “ O Desenvolvimento da Arquitectura contemporânea e a consciência da tradição”, Binário, 1958, n.º8-9.

Notas:
(1) Cf. Mendes, Manuel, “La Casa: paisaje doméstico y projecto.”, in DOCOMOMO Ibérico.Documentación y Conservacíon de la arquitectura y el urbanismo del movimiento moderno. La habitación y la ciudad modernas: rupturas y continuidades 1925-1965. Actas, Barcelona, Fundació Mies der Rohe, s/d [1997], p. 56 e seg.
(2) Cf. Silveirinha, Maria João R.C., Identidade e Cultura Moderna, Lisboa, F.C.S.H.,1994 (tese de mestrado).
(3) Yamamoto, GaKuji, “ O Desenvolvimento da Arquitectura contemporânea e a consciência da tradição”, Binário, 1958, n.º8-9.
(4) Portas, Nuno, “Arquitectura e Estado Novo”, in Dicionário de História de Portugal, Barreto, António e M. Filomena Mónica (dir.), Lisboa, Figueirinhas, 1999, vol.7, pp.122-126.
(5) Idem, p.122.
(6) Sobre o movimento que antecedeu o 1º Congresso de arquitectura, ver França, J. Augusto, A Arte em Portugal no século XX, Lisboa, Bertrand, 1974, p. 433-485 e Tostões, Ana, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, Porto, F.A.U.P.,1997, p.24-30.
(7) Iniciativas Culturais de Arte Técnica.
(8) Organização dos Arquitectos Modernos.
(9) Por exemplo, de Fevereiro de 1948 a Novembro de 1949, a revista Arquitectura, nos n.º 20,21, 22,23,24,25,26,27,28,29,30,31,32, publica a Carta de Atenas, traduzida por Celestino de Castro e Fernando de Castro Rodrigues.
(10) Em 1949, a propósito da I exposição de arquitectura brasileira, realizada em Lisboa (I.S.T.), a revista Arquitectura publica um artigo sobre “Arquitectura Moderna Brasileira – Arquitectura Moderna Portuguesa”, de Formosinho Sanches, nº. 29, 2ª série. Durante o III congresso do CIAM, em 1953, será apresentada uma nova mostra da arquitectura “de liberdade”, na S.N.B.A., integrada na Exposição Internacional de Arquitectura que acompanhava o Congresso. Cf. ainda Tostões, Ana, op. cit., p.42 e 153 e seg.
(11) Laprade, Albert, “Les R.I.A. précurseurs dês U.I.A. », L ‘ Architecture d’ Aujourd’hui, 1964, nº 113-114, p. 38-39. Ao 1º Congresso do C.I.A.M., criado em Lausanne em 1948, sob a presidência de Jean Tschumi, seguiu-se o de Rabat e o de Lisboa, em 1953. Sobre o III C.I.A.M. em Lisboa ver. ainda José Augusto França, op. cit., p. 444-445 e Ana Tostões,op.cit., p.43 e seg.
(12) Nos finais dos anos 50 surgem no panorama nacional duas novas revistas de arquitectura com algumas preocupação no divulgar de novos materiais e tecnologias: Arquitectura Portuguesa. Cerâmica e Edificação; e Binário. Arquitectura. Construção. Equipamento.
(13) Cf. Ana Tostões , op. cit.,p.143.
(14) Fernando Távora, desde os finais da década de 40, com o ensaio O Problema da Casa Portuguesa, e o projecto de fim de curso “Casa sobre o mar”, na Foz, reflectirá sobre a questão do genius locci: o valor profundo do sítio e a integração da arquitectura na Natureza. Cf. Távora, Fernando, Da organização do Espaço, Porto, E.S.B.A.P., 1982, p.10-15.
(15) Távora, F., op.cit., p.11.
(16) Távora,F., op. cit. p. 11.
(17) Croft, Vasco, Arquitectura e Humanismo. O papel do arquitecto, hoje, em Portugal, Lisboa, Terramar, 2001.
(18) Binário , 1963, nº 59, p.480.
(19) Mccoy, Esther, Craig Ellwood, Venetia, Alfieri, 1968.
(20) Binário , 1963, nº 59, p.480.
(21) Cf. “ Expo 58”, Arquitectura, 1958, nº57-58.
(22) Portas, Nuno, “1941 - Casa Unifamiliar, no Porto, na R. Honório de Lima”, Arquitectura, 1963, n.º 78.
(23) Cf. Silveirinha, Maria João, op. cit.,p.188
(24) Cf. Atrium,1959, nº.1
(25) Cf. Binário, 1960, nº24
(26) Agradecemos os elementos fornecidos pelo arquitecto Vasco Croft Moura.
(27) O recurso a standards que “garantiam aos arquitectos uma maior eficiência na resposta às necessidades de construção, tinha conduzido logo no pós–guerra a uma racionalização dos métodos construtivos e da construção”[1], sendo disso exemplo as experiências Holandesas de 45-55, e as experiências das Américas e Brasil. Cf. Vasco Croft, op. cit., p.236-257.
(28) Vejam-se as experiências Américas, Mexicanas e Brasileiras e na Europa as experiências holandesas de 45-50. Nos Estados Unidos a realização da exposição Tomorrow’s Small House, Museum of Modern Art em 45; Case Study iniciadas em 49 com a exibição da mostra Show House , onde a casa de Breuer constitui o arquétipo da casa para todos, seduzindo milhares de americanos que aguardavam a possibilidade dos pequenos luxos a baixos custos, tendo como referente as habitações das vedetas de Hollywood, anunciadas nas casas dos anos 30 de Neutra. Cf. D.O.C.O.MO.MO, op. cit. p 133.
(29) Cf. Binário, 1963, nº 55.
(30) Em Portugal no início da década de 60, surgem cinco artigos, relacionados com o domínio dos materiais face às possibilidades de industrialização do sector construtivo, sendo apenas o de Vasco Croft da autoria de um arquitecto: Croft, Vasco, “Pré-fabricação em Hertfordshire”, Arquitectura, 1958,n.º61. Gomes, Ruy José, “Aplicação do alumínio na construção civil”, Arquitectura, 1959, n.º 60. Mateus, Tomás J., “ Para uma melhor utilização da madeira de pinheiro bravo”, Arquitectura, 1958 e 1959, n.º 58 e n.º59. Mateus, Tomás J., “Modernas Estruturas de Madeira”, Arquitectura, 1963, n.º78. Silva, A. Cavaleiro, “Isolamento acústico de pavimentos com aglomerado de cortiça”, Arquitectura, 1962, n.º77.
(31) Cf. Aguiar, José, Cor e Cidade Histórica. Estudos cromáticos e conservação do património, Porto, F.A.U.P., 2002.
(32) Cf. Ceschi, Carlo, Teoria e Storia del Restauro, Roma, Mario Bulzoni, 1970; e Choay, Françoise, A Alegoria do Património, Lisboa, Edições 70,2000
(33) Lacerda, M. E Filomena Barata, “ Estruturas de Acolhimento e Interpretação. Programa Itenerários Arqueológicos do Alentejo e Algarve”, Património e Estudos, n.º1, Lisboa, I.P.P.A., 2001, p.43-55.
(34) Cf. Hernández Hernánde, Francisca, El museo como espacio de comunicación, Gijón, Trea,1998. Hooper-Greenhill, Eilean, Los museos,y sus visitantes,Gijón, Trea,1998.
(35) Saliente-se que só na obra Dicionário dos Arquitectos, op. cit., p.50, e no artigo de Manuel Mendes, op. cit., é referida a sua actividade como arquitecto.
(36) Blaser, Werner, Mies van der Rohe, Barcelona, G.G.,1987. Cf Ainda Duarte, Rui Barreiros, Arquitectura Efémera, Lisboa, U.T.L.,1991, p.243-251; e As Grandes Exposições, Lisboa, U.T.L.,1991
(37) Acciaiuoli, Margarida, Exposições do Estado Novo:1934 -1940, Lisboa, Livros Horizonte, 1998, p.15 e 35.
(38) Santos, Rui Afonso, O Design e a Decoração em Portugal: Exposições e Feiras nos anos 20 e 30, Lisboa, F.C.S.H., 1994, vol.1, p.85.
(39) Acciaiuoli, M.,op.cit.,p.218.
(40) Pintura mural alusiva à dança popular. Cf. Acciaiuoli, M.,op.cit.,p.174.
(41) 1º Salão Nacional de Artes Decorativas (catálogo), Lisboa, S.N.I.,de 1949, s/p.[p.5].
(42) 1º Salão Nacional de Artes Decorativas , s/p.[p.5].
(43) França, J. Augusto, A Arte em Portugal no século XX, Lisboa, Bertrand, 1974,215
(44) 1945 - Eduardo Anahory. Pinturas e Desenhos, Lisboa, Galeria Stop. Criada em 1944, manterá actividade irregular até 1948.
(45) 1942 – Exposição de Desenho, Lisboa, S.N.I. 1945 - Eduardo Anahory. Pinturas e Desenhos, Lisboa, Galeria Stop, Junho. 1946 -10º Exposição de Arte Contemporâneo, Lisboa, S.N.I. 1948 - 12º Exposição de Arte Contemporâneo, Lisboa, S.N.I. 1949 - 13º Salão de Arte Contemporânea, Lisboa, S.N.I.. 1949 - 1º Salão Nacional de Artes Decorativas, Lisboa, S.N.I.
(46) Catálogo da Exposição, Casino do Casino do Estoril, 1984, s/p.
(47) Cf. Simões, Duarte N. e J. D. Santa Rita “ A Decoração do Hotel Ritz ”, Arquitectura, 1960, nº-67, p.53-55; e Nikias Skapinakis, “ A Decoração do Hotel Ritz. O Sempiterno Problema da Conjugação das Artes”, Arquitectura, 1960, nº-67, p.51-52.
(48) Portas, Nuno, “Expo 58”, Arquitectura, 1959, n.º 63.
(49) Cf. “Concurso para o pavilhão de Portugal em Bruxelas” , Arquitectura, 1958, n.º 57-58.
(50) Santos, Rui Afonso, op. cit., p. 484.
(51) Catálogo da Exposição Casino do Casino do Estoril, 1984, s/p
(52) Santos, Rui Afonso, op. cit., p.493.
(53) Pedreirinha, J., Dicionário de Arquitectos, Porto, Asa, 1999, p.50
(54) Fernando de Azevedo, Junho de 1984, palavras introdutórias ao Catálogo da Exposição, Casino do Estoril, 1984, s/p.
(55) Ibidem.