sexta-feira, novembro 16, 2007

Adequação, diversidade e inovação no habitar (I) - Infohabitar 169

 - Infohabitar 169

Adequação, diversidade e inovação nas soluções de habitar, da casa à cidade 

parte I: enquadramento, meio urbano, tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios, espaços e serviços comuns, multifamiliares e unifamiliares inovadores

Artigo de António Baptista Coelho

Na parte II deste artigo, a editar no final da semana que vem, abordam-se os temas: a adaptabilidade na habitação, o que o habitante quer, aspectos fundamentais, aprofundamento e diversificação tipológica, adequação e inovação residencial e potencialidades das cooperativas; e algumas notas conclusivas e de abertura para uma fundamental continuidade de trabalhos nestas áreas.

Nota prévia: a ilustração deste artigo foi feita numa perspectiva informal


Adequação, diversidade e inovação no habitar (I) - ÍndiceA cidade (um poema de Cavafis)
Enquadramento
Adequação, diversidade e inovação no meio urbano
Tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios
. Opções gerais
. Altura do edifício (alguns elementos de reflexão, numa aliança entre uso e custo)
. Opções de pormenor
Tipos de espaços e de serviços comuns
Elementos de inovação no edifício multifamiliar
Edifícios unifamiliares inovadores

A CIDADE
Disseste:
“irei a outro país, verei outras praias;
procurarei outra cidade melhor do que esta.
Todos os meus esforços são fracassos
e o meu coração, como morto, está enterrado.
Por quanto tempo mais estarei a contemplar estes despojos?
Para onde dirigir o olhar,
vejo só as ruínas negras da minha vida,
aqui onde tantos anos passei, destruí e perdi.”

Não encontrarás outro país nem outras praias,
levarás por todo o lado e com custo a tua cidade;
caminharás nas mesmas ruas,
envelhecerás nos mesmos subúrbios,
ficarás grisalho nas mesmas casas.
Chegarás sempre a esta cidade;
Não esperes outra,
não há barco nem caminho para ti.
Ao arruinar a tua vida nesta parte da terra,
Destroçaste-a em todo o universo.

Constantino Cavafis, 1863 (Alexandria) - 1933


... “Chegarás sempre a esta cidade; Não esperes outra,”...

Há que considerar que os estudos sobre áreas e outros aspectos mais objectivos estão hoje estabilizados, enquanto o caminho da resolução de grandes problemas que se mantêm, por exemplo os da habitação para minorias e do contínuo abandono do uso do espaço público, tem de passar também por outros objectivos qualitativos menos mensuráveis, mas igualmente vitais.

“Há certas qualidades que podem ser consideradas essenciais em todos os géneros de casas: sossego, encantamento, simplicidade, largueza de vistas, vivacidade e sobriedade, sentido de protecção e abrigo, expressiva economia na manutenção, harmonia com a envolvente natural e a vizinhança, ausência de lugares escuros e ao abandono, conforto e uniformidade de temperatura, e a possibilidade de cada casa poder ser o adequado quadro doméstico dos seus habitantes. Ricos e pobres, uns e outros, apreciarão estas qualidades” (Voysey C. F. A “The English Home” 1911).



Fig. 01: no conjunto do Telheiro, uma promoção de Habitação a Custos Controlados da C.M. de Matosinhos, um projecto coordenado pelo Arq. Manuel Correia Fernandes (2002), desenvolveu-se uma tipologia unifamiliar em bandas contínuas, com pátios/quintais privados posteriores, uma tipologia que associa muito do carácter do unifamiliar a uma fortíssima presença urbana unitária e regeneradora.


ENQUADRAMENTO SOBRE O HABITAR


Este texto sobre o potencial de inovação e de adequação no habitar foi iniciado no já longínquo mês de Março de 1999, a propósito de um debate/seminário de reflexão já então realizado no âmbito do movimento cooperativo e designadamente pela Nova Habitação Cooperativa (NHC).

O referido texto foi então e em parte “recuperado”, passados cerca de oito anos; fizeram-se alguns comentários e algumas reflexões, juntaram-se muitos outros aspectos, mas a matéria antes desenvolvida mantém toda a actualidade.

Um tal potencial de inovação e adequação habitacional deve privilegiar:
· aspectos essenciais de conforto (interior e exterior);
· aspectos de economia num sentido total (incluindo durabilidade e manutenção);
· casas e edifícios adaptáveis a famílias muito diversas e a indivíduos com múltiplos gostos próprios;
· e vizinhanças residenciais exteriores que estimulem os valores do convívio, hoje tão esquecidos, aliando-os, designadamente, a objectivos de recreio e desporto.

Nada disto é impossível ou caro, é sim exigente em termos de projecto – incluindo-se o respectivo enquadramento e diálogo técnico por parte do respectivo promotor.

Fig. 02: no conjunto de Habitação a Custo Controlado da Gala, promovido por uma empresa com o apoio da C. M da Figueira da Foz com projecto coordenado pelos Arquitectos Duarte Nuno Simões, Nuno Simões e Joana Barbosa (2005), concretizou-se uma tipologia multifamiliar com acessos directos ao exterior (directamente ao espaço exterior ajardinado ou indirectamente através de galeria/varanda), cuja caracterização tem muito a ver com a imagem e a funcionalidade de uma agregação de unifamiliares.

ADEQUAÇÃO, DIVERSIDADE E INOVAÇÃO NO MEIO URBANO


Continua a notar-se nos espaços públicos uma crítica dificuldade ao nível da sua essencial qualificação, desde o projecto urbano e paisagístico a uma adequada execução e equipamento, visando a sua durabilidade e o estímulo a uma ampla diversidade de actividades exteriores.

O que importa salientar é que, hoje em dia, não há um conhecimento verdadeiramente adequado e muito menos sedimentado sobre como fazer, por exemplo, uma praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável e apropriável. Os conhecimentos estão, a este nível, mais dirigidos, designadamente, para os aspectos funcionais do tráfego de veículos; e estamos agora a ultrapassar esta estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens; e é neste caminho que se encontrarão muitas das virtualidades em termos de novas ou renovadas soluções tipológicas.

Em todas estas matérias é fundamental tornar o exterior residencial útil, portanto equipado, apelativo, portanto adequadamente projectado e executado e, também, naturalmente convivial, porque afinal o convívio na vizinhança é motivo e consequência de muitas actividades exteriores, desde o recreio infantil, ao desporto e ao simples, mas fundamental, lazer.

Um último aspecto, a este nível, refere-se à exigência de uma perfeita e contínua manutenção do espaço público, condição extremamente favorecida pelas referidas condições de uso intenso e de sentido efectivo de vizinhança.
Solidificando tais conclusões esquemáticas há que considerar que, muitas vezes, os terrenos disponíveis já têm pseudo-projectos definidos e que, frequentemente, os sítios possíveis não são os melhores (ex. vizinhanças complexas, terrenos pouco regulares). No entanto, em muitos casos o refazer qualificado de um projecto, quando tal é possível e quando essa revisão abrange o espaço público de vizinhança, é uma medida essencial para a qualidade final.

Há aqui, portanto, uma nova chamada de atenção para a necessidade de se poder intervir à escala urbana da vizinhança, não apenas através de edifícios, mais ou menos isolados, mas também através de um afirmado espaço público de lazer, recreio e convívio que tem de ligar os edifícios; múltiplos exemplos de excelente qualidade residencial cooperativa devem-se a esta aliança entre um excelente projecto e uma excelente vizinhança de proximidade.

E há aspectos muito interessantes de conjugação entre exigências económicas de rentabilização de estaleiro e obra (com grupos entre 100 e 150 fogos) e de números preferenciais de vizinhos considerando-se o estímulo natural do convívio, com grupos preferenciais entre cerca de 60 a 120 fogos, servidos por agradáveis e úteis espaços públicos residenciais numa aposta na pequena dimensão, o conhecido “small is beautiful”; faz-se notar que cerca de 60 fogos é um número que proporciona boas condições para a criação de pequenos “grupos de recreio” infantil com idades idênticas.

O “small is beautiful” liga-se obrigatoriamente a uma cuidadosa pormenorização das vizinhanças de proximidade (espaços comuns e espaços públicos), porque os espaços exteriores de vizinhança são espaços muito próximos do nosso olhar directo e do olhar a partir das habitações e estamos a abordar escalas comuns e públicas com exigências fortíssimas, entre as quais se destaca o privilegiar da global funcionalidade e da convivialidade natural, a introdução do “verde urbano” e a clara definição de zonas de influência/gestão.

Importa privilegiar edifícios geradores de ruas equipadas enquanto no interior dos quarteirões permitem humanizados espaços públicos de convívio e recreio, numa eficaz aliança com os sempre estimulantes pátios privados (servindo os pisos mais baixos, e não apenas o R/C), proporcionando ainda extensões térreas privativas bem enquadradas (ex. para espaços conviviais dos condomínios como salas de jogos), e proporcionando, ainda, eventualmente, o aproveitamento inferior como garagem comum. Este tipo de espaços é também ideal para se desenvolver um arranjo "natural" dos espaços exteriores: com menos asfalto e zonas impermeáveis, com grande variedade de plantas povoando fachadas varandas e terraços e criando um microclima muito favorável em zonas urbanas.

Deixa-se à reflexão o interesse de se privilegiarem, sempre que possível, espaços exteriores de vizinhança ligados aos edifícios residenciais, assim como a sua caracterização considerada mais desejável em termos de: acesso público, medianamente condicionado ou totalmente condicionado; tipo de arranjo global, que pode ser mais ajardinado ou menos ajardinado; tipo de conteúdos em termos de actividades recreativas que podem ser mais dirigidas para crianças, para jovens e adultos e para seniores e que podem ou não privilegiar elementos de apoio a actividades desportivas; e tipos de conteúdos em termos de equipamentos de vizinhança de apoio à vida urbana (nos seus ritmos diários e ocasionais).

Fig. 03: no conjunto de habitação a Custos Controlados do Monte Espinho, promovido pela C. M. de Matosinhos, com projecto coordenado pela Arq.ª Paula Petiz (2005), criaram-se pequenos multifamiliares com quatro fogos - uma tipologia intermediária - em que todos eles têm acesso directo ao exterior, mas os fogos térreos possuem um pequeno quintal ajardinável, sendo os fogos superiores em duplex; desta forma e para além da adequação ao vários usos e desejos de habitar. cria-se uma imagem urbana intensa e contínua não se abdicando da caracterização unifamiliar.


TIPOS DE EDIFÍCIOS E DE CONJUNTOS DE EDIFÍCIOS


Vamos então a uma viagem muito rápida por um conjunto de aspectos de adequação que podem ser proporcionados por diversos tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios, e para sermos claros vamos tratar, primeiro, de algumas escolhas de ordem geral (por exemplo entre tipos distintos de habitação) e, depois, de alguns aspectos de pormenor que, no entanto, podem fazer grande diferença no resultado final.

Opções gerais
(atente-se que muitas opções podem ser determinadas por razões de custos, por regulamentação local ou por condições locais específicas)

1 - Unifamiliares isolados (moradia isolada): em lote espaçoso; ou em lote funcional (lote constituído por um conjunto bem definido de diversas áreas funcionais).

2 - Unifamiliar geminado (consegue-se frequentemente a imagem de uma grande moradia): em lote espaçoso; ou em lote funcional.

3 - Unifamiliares em bandas curtas (consegue-se, por vezes, a imagem de grande moradia); com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou alongados.
4 - Unifamiliares em bandas longas; com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou alongados.

5 - Unifamiliares em bandas longas e costas com costas; com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou pátios posteriores.

6 - Tipologias de transição entre a moradia e o multifamiliar proporcionam, por exemplo, desde pequenas jardinetas representativas, a pátios murados e terraços de lazer nos pisos mais elevados. É uma tipologia extremamente versátil podendo variar entre as seguintes imagens-limite:

. pequeníssimo “prédio” esquerdo/direito;
. grande “moradia” que agrega diversas habitações cada uma com um acesso próprio e bem identificado e cada uma com características espaciais e funcionais próprias.

As tipologias residenciais de transição uni/multifamiliar (ex., bi, tri e tetrafamiliares), quando bem projectadas:

(i) podem aliar muitas das vantagens de apropriação e de relativa “independência” dos unifamiliares;

(ii) podem densificar estrategicamente o espaço urbano, animando-o localmente e proporcionando intervenções economicamente equilibradas (desde que o projecto seja especialmente bem desenvolvido);

(iii) proporcionam uma enorme variedade de soluções, o que as torna muito adequadas para as cada vez mais necessárias operções de preenchimento urbano – um aspecto que, mais uma vez, põe em relevo o apuro de projecto que é aqui necessário;

(iv) e podem aliar importantes potencialidades conviviais (no espaço público assim recriado) e funcionais (disponibilizar necessidades locais em equipamento) à manutenção do carácter unifamiliar.

Os pequenos multifamiliares ainda proporcionam a sua associação em bandas urbanas de modo a que um número significativo dos respectivo fogos possam ter quintais, pátios e grandes terraços privativos.

7 - Multifamiliares com acesso por patim tipo esquerdo/direito sem elevador (até 3 pisos).

8 - Multifamiliares tipo esquerdo/direito com elevador.

10 - Multifamiliares com ou sem elevador (até 3 pisos) e com mais de dois fogos por nível; acesso por patim amplo ou por galeria: interior curta ou longa; exterior curta ou longa.

11 - Multifamiliares com elevador e com mais de dois fogos por nível; acesso por patim amplo ou por galeria galeria: interior curta ou longa; exterior curta ou longa.

12 - Multifamiliares caracterizados por soluções específicas de espaços comuns, por exemplo, dos tipos: jardim envolvente; grande átrio interior ou pátio exterior; galeria larga como se fosse rua elevada; ...

13 - Edifícios de habitação com um perfil específico e designadamente para séniores; multifamiliar relativamente corrente, mas com habitações especialmente desenhadas para pessoas sós ou casais de “meia idade” com significativas exigências de áreas e equipamentos.

14 - Edifício de habitação colectiva ou habitação/hotel que disponibilize um determinado menu de serviços e que integre fogos tendencialmente pequenos.

15 - Solução idêntica à anterior mas privilegiando, especificamente, fogos pequenos (ex., T0 e T1) para pessoas sós e casais, destinados ou não a grupos etários específicos; sugere-se uma mistura etária mas estruturada por regras de conduta exigentes em termos de usos e ruídos.

16 - Residência assistida em termos de cuidados sociais e/ou de saúde, que poderá chegar a ter opções específicas de verdadeiro hospital de rectaguarda.

17 - Multifamiliares caracterizados por soluções específicas de espaços privados exteriores, por exemplo, dos tipos: grandes terraços; pequenos jardins elevados (“suspensos”).

18 - ... e, naturalmente, é bem possível alargar e aprofundar e diversificar ainda mais esta listagem, embora pareça ser útil a proposta de quadros tipológicos como este aqui proposto ...
Desde já se refere que muito mais do que optar, caso a caso, por esta ou aquela solução geral, importa produzir soluções “mistas” que sirvam bem seja a diversidade da procura e as necessidades do mercado, seja as características e as exigências e carências de cada local e tendo em conta os problemas potenciais que se podem identificar em cada solução e em cada mistura de soluções – e há já experimentações cooperativas nestas áreas que é possível ter em conta.

Na criação de soluções “mistas” será sempre mais crítica a associação de residências assistidas com cuidados de saúde, seja pelos custos associados, seja pela sensível relação que este tipo de assistência irá ter com os restantes núcleos habitacionais não assisitidos e que estejam próximos. Nesta perspectiva uma resposta poderá ser uma associação mais autonomizada e urbana entre diversos edifícios com distintas valências.

Altura do edifício (alguns elementos de reflexão, numa aliança entre uso e custo):
. 1 piso, custo elevado

. de 2 até 4 pisos o custo diminui, atingindo um mínimo absoluto para 4 pisos; as crianças dos três primeiros pisos de edifícios altos são as que vão muito mais frequentemente brincar à rua.

. de 4 para 5 pisos o custo cresce muito (instalação de elevador);

. Acima de seis pisos as crianças são afectadas por perderem a percepção da proximidade do solo; nestes casos a varanda é um elemento que ganha importância como espaço de contacto com o exterior.

. de 5 até 8 pisos o custo diminui, novamente, atingindo um novo valor favorável para 8 pisos.

. de 8 para 9 pisos o custo cresce muito (instalação de equipamentos específicos, nomeadamente, para segurança contra risco de incêndio); é de notar que em Portugal este patamar será porventura um pouco mais elevado, pensando-se na altura máxima de 28.00m para uso de escadas de bombeiros - indicação esta que carece de confirmação técnica;

. de 9 até 12 pisos o custo diminui ligeiramente, atingindo um novo valor relativamente favorável para 12 pisos;

a partir de 12 pisos o custo "dispara" rapidamente.

Opções de pormenor :

(algumas notas muito informais)

Unifamiliares ou pequenos multifamiliares em conjugações densas e orgânicas têm imagens ricas, têm vantagens da agregação numa comunidade alargada e convivial e mantêm todas as principais características do unifamiliar, designadamente no que se refere ao acesso independente ao espaço público, à disponibilização de espaços exteriores privativos e à eventual possibilidade de garagens de estacionamento em boxes privativas – aspectos muito valorizados.

Em qualquer opção é possível e desejável privilegiar a melhoria de todas as condições onde seja possível actuar ao nível dos espaços comuns dos multifamiliares: luz natural; ventilação; marcação e apropriação de zonas e paredes específicas; criação de alguns pequenos recantos funcionais; ajardinamento. Sublinha-se que todas estas condições são possíveis mesmo num edifício maximizado em termos de economia.

As opções por tipos de acesso (escadas, galerias, elevadores) têm muito a ver com a qualidade visual e de uso que pode caracterizar esses acessos (ex., há degraus de escada que são muito confortáveis para subir, há galerias exteriores que são verdeiras varandas, há elevadores e patins de elevadores muito atraentes).

Há grande potencialidade – em termos de atractividade de vista exterior do edifício e de usos proporcionados – na aplicação de diversificadas soluções de espaços exteriores e semi-exteriores privativos ou comuns: varandas fundas ou só de assomar, terraços murados ou abertos, pátios murados ou abertos, jardinetas e pequenos jardins. E importa referir que muitas destas soluções são aplicáveis em edifícios multifamiliares.

Bandas densas de pequenos edifícios criando ruas, pracetas e quarteirões, fazem cidade animada, por um lado, enquanto no interior dos quarteirões é possível criar todo um mundo residencial intimista com carácter comum e/ou com carácter privado, em cada fogo.

Em qualquer escolha tipológica é sempre possível uma opção “suplementar” e de certa forma “paralela” por uma solução mais naturalizada, com mais verde urbano, ou mais “mineral”.
Fig. 04: no exemplo que aqui se ilustra, um pequeno conjunto/quarteirão habitacional em Malmö, desenvolvido no âmbito da exposição habitacional e urbana Bo01, o quintal/jardim comum, na zona posterior do edifício multifamiliar, serve também uma pequena banda de unifamiliares; e há aqui todo um leque de possibilidades de associação seja entre tipologias bem distintas, como é o caso, seja entre formas de habitar e apoios e complementos habitacionais (ex., os mais diversos tipso de serviços comuns e de complmenetos habitacionais, como por exempo quartos para uma utilização eventual). É no entanto fundamental que a eventual oferta de serviços comuns diversificados não corresponda a uma efectiva menorização dos espaços domésticos; e são possíveis excelentes equilíbrios.

TIPOS DE ESPAÇOS E DE SERVIÇOS COMUNS HABITACIONAIS


Passamos, agora, às soluções práticas de auto-organização de habitantes oferecendo todo um conjunto de serviços e actividades que são difíceis, caras ou mesmo quase impossíveis de proporcionar exclusivamente a cada fogo.

A dimensão, o carácter e o equipamento dos espaços comuns variará consoante os objectivos de cada solução. Uma variação que, a título de exemplos relativamente extremo, poderá referir-se:

(i) seja a uma sala ou conjunto de zonas de estar/convívio/jogos do condomínio, e que poderá, eventualmente, até assumir um carácter de "casa comum" multifuncional. (ex. sala de convívio equipada, por ex. com bar/TV panorâmica/jogos de mesa/bilhar/ténis de mesa, recintos de desporto, jardim, etc.), mas sempre numa total distinção relativamente ao espaço dos fogos, que poderão ter uma distribuição e acesso “clássicos”.

(ii) seja a uma solução do tipo átrio comum muito amplo para o qual abrem todos os níveis dos respectivos fogos, criando-se um carácter de grande unidade; uma solução que poderá ter virtualidades ao nível dos aspectos de conforto ambiental.

Em termos de serviços comuns poderão ser centralizados certos serviços de apoio prestados por pessoal próprio (exº recepção, segurança geral e controlo de acessos, manutenção corrente), bem como os contactos actualizados com variados e eficazes serviços exteriores (exº manutenção geral e especializada, emergência, apoio doméstico). Sobre estes aspectos será talvez preferível prever, sempre, apenas aquilo que possa ter viabilidade real, reforçando a imagem e o carácter funcional do agrupamento "em torno" dessas actividades e serviços; poderá ser, por exemplo, apenas um hall comum com serviço de portaria e um jardim bem arranjado.

Considerando que estas soluções têm, frequentemente, objectivos de estímulo à convivialidade e que esta matéria é de grande sensibilidade, desenvolvem-se algumas reflexões complementares:

(i) Soluções visando objectivamente o incentivo ao convívio em espaços públicos ou comuns poderão iniciar-se nos grupos de recreio de crianças e jovens em exteriores com condições motivadoras de variadas actividades, desde o recreio livre ao recreio estimulado por equipamentos.

(ii) Nos níveis etários superiores o convívio poderá desenvolver-se: (i) em consequência de um acompanhamento de crianças pequenas ao parque infantil (ii) a partir de actividades desportivas comuns, e (iii), naturalmente, com a apetência para a continuidade de hábitos diários de pequenos períodos de estadia e permanência em espaços bem situados relativamente às principais zonas de acessibilidade.

(iii) A ideia-base éque não se deverá tentar suscitar directamente o convívio como objectivo específico, mas sim favorecê-lo no desenrolar de um grande leque de actividades, estas sim objectivamente estimuladas/apoiadas.

Relativamente às soluções de habitação realmente colectiva considera-se que elas deverão disponibilizar serviços e espaços comuns suplementares ou complementares das actividades em cada habitação, mas sempre como opção livre e muito dirigida para serviços de apoio eventuais, caracterizando-se os espaços comuns, fundamentalmente, por um papel representativo e convivial, ou contando-se com serviços de apoio completos e eventualmente opcionais e abertos a não residentes. Uma pequena nota sobre estas últimas soluções colectivas; sublinha que que elas terão naturalmente tanto mais sentido, quanto mais integradas nas restantes soluções.

Fig. 05: ainda no âmbito da referida exposição em Malmö, em 2001, apresenta-se uma imagem relativa ao interior profusamente ajardinado de um peqeno quarteirão residencial cujo projecto teve uma forte contribuição do Arq. Charles Moore e e em que há um evidente reforço da presença de cada fogo no "colectivo" edificado, mas propondo-se, simultaneamente, uma solução geral caracterizada pela possibilidade de intensas vistas mútuas entre fogos e entre estes e o jardim comum.

ELEMENTOS DE INOVAÇÃO NO MULTIFAMILIAR


A inovação no edifício multifamiliar liga-se, frequentemente, à aliança entre as vantagens dos pequenos edifícios residenciais, isto é, entradas separadas e privadas, organizações domésticas variadas, soluções de fachada diversificadas e áreas exteriores de lazer muito ligadas ao edifício, e as vantagens do multifamiliar, como são o carácter urbano, as áreas comuns, a economia das soluções e a possibilidade de integração com actividades não habitacionais vitalizadoras e geradoras de convívio.

É possível pensar em muitos elementos funcionais, tais como, por exemplo, pequeno ginásio, terraço comum, quartos de reserva, sítios de jogo infantil, festas e reuniões privadas, local de estar agradável e bem equipado etc.; mas há que basear tais ideias numa adequada localização centralizada e bem acessível destes espaços, no seu apropriado equipamento, na sua total compatibilização com a habitação e na sua adequada programação, organização e gestão diária; numa perspectiva que deve prever a possibilidade de um mau funcionamento da comunidade ou grupo de condóminos.

Anotam-se, em seguida, informalmente, alguns tópicos de inovação no multifamiliar:

. Desenvolver a adaptabilidade doméstica passiva, designadamente, através de: espaços multifuncionais; e de contiguidades geradoras de fusões e subdivisões entre compartimentos.

. Desenvolver a adaptabilidade doméstica activa, designadamente, através de: diversidade de oferta de soluções de fogos nas mesmas localizações; oferta de fogos “feitos à medida”; oferta de soluções com serviços (água, esgotos, gás) fixos e compartimentação flexível.

. Variar alturas e profundidades conjugando fogos grandes e pequenos (simplex e duplex), áreas comuns variadas, espaços profissionais e comerciais e variados tipos de acessos comuns e eventualmente privativos.

. Desenvolver melhorias ambientais, funcionais e de estadia muito significativas em escadas, patins e galerias de acesso, tornando-os propícios ao convívio natural.

. Privilegiar sotãos e mansardas habitacionais, diversificando-se os espaços domésticos (ex. fogos duplex, zonas com pés direitos altos, estúdios) e assegurando-se a constante manutenção das coberturas.

. Disponibilizar locais para uso profissional fora dos fogos, assumindo neste caso uma perspectiva de adequada funcionalidade em termos de espaço de escritório com usos multifuncionais.

. Disponibilizar locais para uso profissional dentro dos fogos,caracterizando-os com um mínimo de funcionalidade e autonomia funcional – aspecto este que deverá ter reflexos nos espaços comuns.

. Desenvolver soluções edificadas específicas caracterizadas por combinações de fogos, espaços de trabalho e espaços para actividades de lazer.

. Desenvolver combinações variadas entre: escadas interiores, escadas exteriores, elevadores, galerias exteriores, galerias quase ruas e varandas de acesso.

. Privilegiar a variedade de espaços exteriores privativos (desde a varanda de assomar ao grande terraço ajardinado e ao pátio ou grande quintal térreo).

. Assumir cada nível e mesmo cada fogo com um equilibrado, mas afirmado, potencial de diversidade espacial e funcional, mas numa perspectiva que respeite a economia de custos.


Fig. 06: o multifamiliar é um campo muito amplo para uma inovação fundamentada e que, de facto, proporcione um grande leque de opções de "como viver", de "como habitar"; e neste conjunto em Hamburgo projectados pelos Arq.os Czerner und Czerner (2001), de certa forma avançou-se na geminação de dois edifícios através da cobertura e extenso equipamento residencial (ex., mesas e cadeiras, e até sofás) do respectivo espaço intermediário.

UNIFAMILIARES INOVADORES


A inovação no unifamiliar liga-se essencialmente a quatro aspectos organizativos gerais:

(i) A forma de agregação dos fogos; pois afinal o limite será a imaginação do projectista e a fronteira de custos.

(ii) Os serviços e equipamentos comuns que sejam eventualmente disponibilizados; pois não é por se tratar de uma solução unifamiliar que não pode ser associada, por exemplo, a um completo e funcionalmente diversificado pólo convivial e de equipamentos de vizinhança; e esta é uma condição pouco interiorizada embora se refira a uma situaão possível e muito adequada, designadamente, às características da promoção cooperativa (há exemplos funcionais em Portugal).

Nesta perspectiva há que salientar o interesse que tem, por exemplo, a aliança entre um conjunto coeso de pequenos unifamiliares térreos e um pólo de equipamentos de vizinhança funcionalmente diversificado; e atente-se na adequação que uma tal solução oferece, por exemplo, para uma vizinhança de casais de isosos e idosos que vivam sozinhos, que, assim, de certa forma possam finalmente concretizar um eventual sonho de uma “casa” relativamente isolada, ganhando, simultaneamente, um funcional leque de serviços e de espaços comuns (onde por exemplo poderão fazer, com facilidade, festas e reuniões famíliares).

(iii) A expressiva grande diversidade de soluções de desenvolvimento de espaços privados interiores, exteriores e de transição exterior/interior que são possíveis; naturalmente a liberdade a este nível organizativo é muito maior do que no multifamiliar e muita dessa liberdade nem corresponderá a críticos aumentos de custo.

(iv) As matérias ligadas à adaptabilidade na habitação, tal como são, em seguida, apontadas (na 2.ª parte do artigo a editar na próxima semana).

Nota final: o artigo tem continuidade, com outros temas em artigo a publicar aqui no Infohabitar na próxima semana, tal como se aponta no respectivo índice, que é em seguida previamente divulgado:

Adequação, diversidade e inovação no habitar (II)

Índice

A adaptabilidade na habitação
. Formas de adaptabilidade na habitação
. Modificações com reduzido aumento do custo global do fogo
. Elementos práticos de adaptabilidade doméstica
Estudar e considerar o que o habitante quer
. Aspectos qualitativos globais
. Aspectos qualitativos de pormenor, mas com influência crítica no projecto
. Equipamentos, complementos e acabamentos domésticos (com base num recente estudo do CIC-COI, e da Eurosondagem)

Cuidar de alguns aspectos fundamentais

Adequação e inovação tipológica e potencialidades das cooperativas de habitação

Notas conclusivas sobre o aprofundamento e a diversificação das tipologias residenciais


Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Edição de José Romana Baptista Coelho, 16 de Novembro de 2007

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