domingo, fevereiro 28, 2010

“O limite do habitar: o exposto e o recluso”, seguido de "Casa-pátio: uma tipologia muito versátil" - Infohabitar 287

Infohabitar, Ano VI, n.º 287
(dois artigos sobre a casa-pátio: por Décio Gonçalves e António Baptista Coelho)

Na sequência da edição, há poucas semanas, de um artigo sobre a "casa-pátio", aqui no Infohabitar, o colega professor Décio Gonçalves, graduado em Engenharia mecânica e civil, Mestre e doutor em Arquitectura e Urbanismo pela excelente Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, e já colaborador da nossa revista, enviou-nos o seguinte comentário:
"O tema em si da «casa-páteo» é deveras instigante ... a abordagem abrangente da questão ... sucita um leque bastante rico de análises. Por conta de minha pesquisa em obras de madeira, vieram-me à mente as emblemáticas "Usonian Houses" de Frank LLoyd. Predominantemente, na Jacob House da década de 40 do século passado. Wright aplica a meu ver, o conceito de «casa-páteo» como uma tipologia básica, dando-lhe valor e graça,... pareceu-me pertinente um olhar, ainda que de soslaio, sobre este autor de tamanha relevância para Arquitetura Moderna, permeada pelo enfoque orgânico..."
Ao qual respondi nos seguintes termos:
"Concordo inteiramente consigo e muito especificamente na relação entre casa-pátio e casa orgânica, que podendo parecer à primeira vista conceitos relativamente distintos e talvez tendo sido assim nas primeiras casa-pátio, marcadas pela funcionalidade do abrigo quase básico, acabam talvez por constituir hoje em dia um caminho excelente no que toca ao potencial de agregação das casas-pátio e das casas-terraço em conjuntos muito densificados e urbanos.

Aqui poderíamos retomar a questão de Wright e das suas casas honradamente suburbanas, onde provaelmente o pátio talvez surja na descoberta de uma dimensão doméstica do exterior, para a casa basicamente aberta ao jardim e à paisagem, e quem sabe numa influência da forte vivência japonesa do Mestre."

Desta troca de mensagens entre amigos e colegas e, aproveitando para pedir as devidas desculpas ao Décio pela edição de mensagens pessoais, surgiu a ideia de um artigo a quatro mãos sobre o tema, ideia que se concretizou, na presente edição, com dois textos sequenciais, embora tematicamente distintos, que se editam em seguida e que pretendem, apenas, abrir a discussão e a divulgação sobre as contemporãneas potencialidades da casa-pátio, seja em meio yrbano, denso, seja em meio periférico e numa ampla variedade de níveis de desenvolvimento doméstico; e aqui se deixa o desafio amigável para outras contribuições escritas, fotografias e eventualmente desenhos sobre estas matérias.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho
“O limite do habitar: o exposto e o recluso”por Décio Gonçalvesdg@usp.br

A habitação, enquanto espaço pensado para abrigar seres humanos, de forma confortável e digna, teve em Frank Lloyd Wright e Le Corbusier duas relevantes vertentes no ofício de conceber espaços arquitetônicos, a partir da metade do século XIX, mais precisamente pós 1870.
Essas vertentes projetuais assentaram-se conceitualmente, em Wright nas “Usonian houses”, e em Corbusier nas Unités d`habitation. Ambos conceitos foram fruto de um longo e paciente trabalho de pesquisa em adequar, com correção, maneiras de habitar, tendo a sua culminação no século XX.

Estes conceitos foram concebidos dentro de malhas urbanas bem definidas, apresentando a Ville Radieuse por parte de Corbusier, com o artefato arquitetônico l`apartement como contrapartida a Broadacre City e a villa de Wright, todas inseridas, no âmbito das áreas metropolitanas.

Planejadores e pesquisadores debruçaram-se sobre a questão, advindo muitas análises críticas, sobre as vantagens e desvantagens de cada sistema habitacional. No quesito privacidade de seus habitantes, não há dúvida da excelência das residências unifamiliares em relação as multifamiliares.

Mesmo em se considerando apartamentos ditos de “alto padrão”, é inegável a prevalência das “casas”, como forma de habitar com qualidade e conforto de seus moradores. Independentemente do luxo dos condomínios de apartamentos, estes ainda assim, continuam sendo residências superpostas, com todas as suas implicações envolvidas.

No caso das Usonian houses, e mais especificamente da Jacobs house (1936-ano do projeto), Wright emprega características bem delineadas da Arquitetura orgânica das casas tradicionais japonesas em madeira. Vê-se claramente um sincretismo bem nítido de características construtivas das casas japonesas na Jacobs.





Figura 1 – “Jacobs” vista externa posterior – Fonte: Mc Carter (1997)

O sistema esmerado de pré-fabricação, as tramas ou “grids”, determinadas por elementos geométricos (na Jacobs, o retângulo), fazem um paralelo com os tatamis, a varanda, o pátio, configurando o artefato arquitetônico como sendo uma casa-pátio, são algumas das características similares entre estas habitações emblemáticas, entre outras.

As casas tradicionais japonesas caracterizam-se , bem como a Jacobs pela total integração ao entorno (interno e externo se fundem de forma silenciosa sem tensões).



Figura 2 – Antiga casa japonesa assobradada – Fonte: Kishida (1954)
Atualmente, no Japão, um grande número de pessoas trabalha durante o dia em edifícios modernos, ocidentais, e à noite, as que habitam casas isoladas, o fazem à moda antiga, pois estas refletem a personalidade de seu povo, que valoriza a intimidade e o respeito pelo bem estar próprio e do seu semelhante, apresentando áreas bem definidas de viver em comunidade, onde cercas separam a vida pública do privado, entre o exposto e o recluso.


Figura 3 – O limite entre o exposto e o recluso – Fonte: Engel (1983)
A Arquitetura tradicional japonesa teve grande influência nas obras de Wright, e sua Arquitetura orgânica baseou-se nas casas antigas feitas por carpinteiros e marceneiros japoneses.

Wright nos USA, na década de 30 do século passado, quando do crash da bolsa nova-iorquina em 1929, cria as brilhantes resoluções em madeira, as Usonians houses, apresentando à classe média, à época bastante debilitada financeiramente residências unifamiliares de custo compatível, da ordem de US$ 1,000, através projetos inovadores e métodos construtivos, racionais e exemplares.

Dentro desta tipologia projetual se destaca a preocupação da privacidade de seus moradores, propiciando o resguardo da habitação em relação ao ambiente externo, ao mesmo tempo, faz com que a casa se interaja e se integre plenamente com a Natureza do entorno. Wright estabelece em sua Arquitetura limite bem definido entre os mundos: exposto e o recluso.

Esta questão traz em seu bojo uma pergunta, ou seja, não seria esta uma maneira de repensar as habitações contemporâneas?
Referências bibliográficas:
ENGEL, Heinrich. Sistemas Estruturais. Barcelona: G.Gili, 2001.
KISHIDA, Hideto. Japanese architecture. Tokyo: Japan Travel Bureau, 1954.
McCARTER, Robert, Frank Lloyd Wright, Phaidon Press Limited, London, 1997.





"Casa-pátio: uma tipologia muito versátil"
por António Baptista Coelho
abc@lnec.pt

Procurando linhas de resposta estruturantes à questão de a casa-pátio poder ser uma maneira de repensar as habitações contemporâneas, não é possível deixar de relembrar, em seguida, uma ideia mais teórica, uma outra mais prática e finalmente uma outra teórico-prática - e, depois, serão feitos, ainda, alguns outros comentários sobre a aplicabilidade da tipologia na habitação de interesse social, que é uma forma de se defender a possibilidade de uma sua aplicação razoavelmente ampla.

Em primeiro lugar e em termos mais teóricos, embora com base numa ampla investigação tipológica prática, por sinal incidindo muito especificamente em habitações de interesse social, importa relembrar que tal como defendem Monique Eleb e Anne Marie Chatelet o “habitat intermediário”, que é aquele "de fusão" das características de densificação física das soluções multifamiliares com as de autonomia de acesso e de existência de espaços exteriores privativos proporcionadas pelo unifamiliar, caracteriza-se, frequentemente, por “terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas", numa oferta plástica e funcional que proporciona a tal "escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.” (1)

E podemos considerar que será, muito provavelmente, a distribuição neste habitat intemediário de pequenos pátios, mais ou menos interiorizados, e de pátios/terraços também mais ou menos encerrados, uns e outros desenvolvidos em diversos níveis, que poderá assegurar, neste tipo de habitar, uma adequada aliança entre condições de privacidade e de apropriação individualizada, de cada habitação, e de "compactação" e continuidade/densidade urbana do agregado habitacional assim desenvolvido.

Fig. 01: perspectivas e planta dos edifícios unifamiliares evolutivos de habitação de interesse social do Bairro do Alto do Moinho, Plano Integrado do Zambujal, projectado no âmbito do Seviço Ambulatório de Apoio lOcal (SAAL) por Francisco Silva Dias (1975/78).
Em segundo lugar há que relembrar que a prova teórico-prática da capacidade urbana agregadora da tipologia “casa-pátio” foi proporcionada, já há algumas dezenas de anos, no fundamental livro de Serge Chermayeff e Christopher Alexander (2), intitulado “Community and privacy, toward a new architecture of humanism”. E refere-se ser este um livro fundamental pois ele trata, afinal, de um tema de primeira linha na nossa nova e supreendente sociedade mega-urbana: como harmonizar comunidade/convivialidade e privacidade/apropriação no habitar, articulando, assim, aspectos de densificação e continuidade urbana com os, igualmente importantes, aspectos de privacidade e apropriação do espaço doméstico de cada um.

E esta mesma obra é essencial no perspectivar da importância dos espaços e dispositivos mais urbanos, mais de vizinhança e mais privados, responsáveis pelas relações de transição, de limiar e de relação entre os referidos níveis mais urbanos ou mais domésticos; e ao longo de todo o referido livro o "pátio", vai surgindo, seja na sua forma mais urbana da praceta de vizinhanças, seja na sua forma doméstica que proporciona a agregação de múltiplas habitações, em agrupamentos fortemente densificados, mas resguardando-se a referida privacidade de fruição de cada habitação e enriquecendo-a, mesmo, com a dimensão de um exterior privativo significativo.

E lembra-se, aqui Richard Sennet (3), que aborda o desequilíbrio que hoje caracteriza as relações entre usos públicos e privados, e partindo de uma análise com bases históricas destaca, entre outros aspectos, a actual incivilidade que marca muitas das nossas relações desejavelmente comunitárias e públicas/civilizadas, enquanto, por outro lado, há um avolumar de tudo o que a intimidade acaba por impor.

Fig. 02: na proposta de Christopher Alexander para Lima, aqui esquematizada, aprofunda-se, exactamente, a densificação urbana com uma solução doméstica extremamente privatizada, com recursos a múltiplos pequenos pátios.
Em terceiro lugar e no que se refere ao interior da habitação salienta-se o interesse que pode ter o desenvolvimento de uma solução que estruture o espaço doméstico em torno de um ou vários espaços exteriores privados e importa pensar um pouco nesta virtualidade, pois em termos de opções globais de concepção é como se o espaço interior doméstico capturasse um pouco do exterior, tornando-o privado e "domesticando-o", o que proporciona uma relação sequencial: nível doméstico exterior privado; nível doméstico interior privado; nível público exterior, mas ainda, desejavelmente de vizinhança; eventual nível comum edificado e interior; e finalmente o nível exterior público.

Esta é uma possibilidade muito completa e "perfeita", quase nunca atingida, que aqui se refere para se poderem entender as virtualidades directas - de uso doméstico efectivo e económico (um pátio exterior não tem cobertura e pode ser ajardinado pelos próprios habitantes) - e indirectas - de estruturação de uma estimulante sequência de níveis habitáveis reais e também estimulantemente simbólicos - proporcionadas por casas-pátio que nem precisam de ser especialmente espaçosas.

Fig. 03: na Malagueira Siza Vieira usou a casa-pátio no sentido da máxima harmonização entre a vida privada doméstica, para lá dos muros "tradicionais" e a continuidade convivial da rua; e trata-se de habitação de interesse social. Neste conjunto as densas aglomerações de casas-pátio geram ricas continuidades urbanas com uma forte escala humana e evocadora da cidade histórica. Na Malagueira aplicam-se soluções domésticas unifamiliares evolutivas centradas em pátios privativos e formando ruas estreitas e densas, mas com baixa altura do edificado. Salienta-se que esta grande intervenção se desenvolveu ao longo de alguns anos sendo acabada já após 1984, com apoio do INH.
Além de tudo isto, há que referir que a casa-pátio e especificamente a que é desenvolvida num único piso é uma tipologia extremamente versátil em termos do seu uso, sendo muito adequada, quer para famílias com crianças, quer para idosos. E naturalmente há que referir aqui as pequenas casas-pátio de Jörn Utzon na Dinamarca e na Suécia, sendo que o conjunto em Fredensborg (1959-62), constitui um exemplo perfeito dos vários níveis acima referidos: pátio bem habitável e com a configuração/dimensão de um grande compartimento (exterior), atraentemente murado, mas permitindo algumas vistas pontuais do interior sobre a vizinhança; rodeado por uma casa térrea em "L", com a sala e um quarto/estúdio de um dos lados, e a cozinha, o quarto e a casa de banho do outro; um espaço de vizinhança afirmado e diversificado, seja no acesso rodoviário, seja no miolo de vizinhança ajardinado; depois um nível de espaços comuns com alguns quartos que podem ser ocupados com marcação, e finalmente a relação com o espaço público/citadino. (4)

Este foi um conjunto de habitação de interesse social (63 habitações mais espaço comum) projectado por Utzon depois de ter estudado em pormenor conjuntos realizados com o mesmo tipo de condicionantes em termos de controlo de áreas (habitação com três quartos e sala, 104m2) e de custos.

Cada uma das habitações de Fredensborg tem uma característica especial que resulta da sua posição e tipo específico de agregação, embora a sua forma geral seja bastante uniforme e construtivamente simples, sendo que as paredes que encerram o pátio proporciom o seu uso de acordo com os desejos de cada habitante/família sem que haja interferências negativas com os vizinhos, ganhando-se, assim, capacidade de adequação e espaço habitável a muito baixo custo. (4)


Fig. 04: esquema de conjunto em Milton Keynes (UK), onde fica evidenciada a capacidade de estruturação doméstica proporcionada pelo pátio.

Neste artigo procuraram-se alguns caminhos para a questão de a casa-pátio poder ser uma maneira de repensar as habitações contemporâneas, oferecendo-lhes um excelente potencial de adaptabilidade. E, a propósito salienta-se que os desenhos que ilustram o texto foram retirados do livro editado pelo LNEC e disponível na sua livraria, intitulado "Habitação evolutiva e adaptável". (5)

Para outros artigos sobre esta temática ficarão pequenas viagens comentadas sobre variadas soluções de casas-pátio realizadas nos últimos anos em Portugal, no âmbito da promoção de habitação de interesse social; o que serão também a prova clara da actualidade da tipologia casa-pátio.


Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18.
(2) Serge Chermayeff e Christopher Alexander, “Intimité et Vie Communautaire – vers un nouvel humanisme architectural“, 1972 (1963), pp. 191 a 197.
(3) Richard Sennet, “El declive del hombre público” (,(The Fall Of Public Man), 1992.
(4) Tobias Faber; Jens Frederiksen, "Jørn Utzon: Houses in Fredensborg", Ernst & Sohn, 1991.
(5) António Baptista Coelho e António Reis Cabrita, "Habitação evolutiva e adaptável", Lisboa, LNEC, ITA 9, 2003.
Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, o conteúdo dos artigos é da exclusiva responsabilidade dos respectivos autores.
Infohabitar, Ano VI, n.º 287Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 28 de Fevereiro de 2010


domingo, fevereiro 21, 2010

Apresentação de "O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950", um livro de Ricardo Costa Agarez editado pela CML - Infohabitar 286

Infohabitar, Ano VI, n.º 286

Com reduzidos comentários faz-se, em seguida, a apresentação do livro:
O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950,

de Ricardo Costa Agarez.

Trata-se de uma excelente e recente (2009) edição da Câmara Municipal de Lisboa, integrada na colecção Lisboa: arquitectura e urbanismo (n.º 5), apresentado há poucos dias e que, desde já, vivamente se recomenda a um amplo leque de potenciais leitores, desde os especialistas no habitar, aos projectistas, e não só os arquitectos, até aos estudiosos e amadores de Lisboa.



Fig. 01: a capa do livro

O livro assegura continuidade à muito meritória actividade de edição de trabalhos de investigação arquitectónica, urbanística e sobre o habitar, por parte do Departamento de Património Cultural, da Direcção Municipal de Cultura do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), um Departamento coordenado pelo Arq.º Jorge Ramos de Carvalho, que assim disponibiliza o 5º volume da colecção "Lisboa:", uma colecção ligada às áreas dos Estudos Sociais e da Arquitectura e Urbanismo na sua relação com o aprofundamento do estudo de uma cidade viva e patrimonial.

Faz-se, em seguida, e para despertar o fundado interesse dos potenciais leitores, uma leitura, apenas minimamente comentada, do índice deste livro do arquitecto Ricardo Costa Agarez, cuja breve resenha biográfica, extraída da badana do seu livro, se junta já de seguida.




Fig. 02: breve resenha biográfica do autor.

Apresentação, brevemente comentada, da estrutura de conteúdos do recente livro:
O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950,
de Ricardo Costa Agarez.

Nota: as imagens juntas são do referido livro e destinam-se a ilustrar e exemplificar o seu excelente aspecto gráfico.

O capítulo 1 intitula-se "Lisboa, anos de 1950".
O primeiro capítulo integra os seguintes temas: a actividade planificadora da CML e o envolvimento camarário no "problema da habitação"; a infraestruturação e o equipamento da cidade; as obras particulares vistas pela Câmara Municipal; e, finalmente, a CML e o "Problema Arquitectónico de Lisboa".



Fig. 03

O capítulo 2 tem o título "Conceitos e instrumentos condicionantes da arquitectura de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".
O segundo capítulo desenvolve duas temáticas fundamentais: "o problema da habitação", numa perspectiva articulada com a abordagem das questões da salubridade e moralidade; e a matéria da regulamentação da construção urbana em Lisboa.
Sendo que esta matéria mais regulamentar é desenvolvida em termos das seguintes temáticas: a salubridade da "edificação em conjunto", a habitabilidade dos espaços interiores, os aspectos construtivos e, concluindo o capítulo, a sempre crítica questão estética integrada nos regulamentos.

O capítulo 3 intitula-se "Premissas de modernidade na habitação multifamiliar".
O terceiro capítulo desenvolve, também, duas temáticas fundamentais: uma abordagem das "características modernas da habitação"; e uma análise da "habitação moderna" em Portugal, considerando-se apontamentos teóricos e exemplos publicados e rematando-se o capítulo com uma abordagem ao "prédio de rendimento".



Fig. 04: exemplo de duas páginas, entre as dedicadas a 115 exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950

O capítulo 4 tem o título "Cento e quinze exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".
O quarto capítulo, que se desenvolve ao longo de cerca de um terço do livro (mais de 100 páginas), dedica-se à apresentação de 115 casos de habitação multifamiliar realizados em Lisboa nos anos de 1950, uma apresentação estruturada pelas diversas zonas da cidade e feita, sistematicamente, para cada um dos casos, através de um texto de síntese e apresentação do edifício, de uma sua imagem actual ou, sensivelmente, à época da respectiva construção - casos em que é naturalmente interessante a relação da imagem do edifício com a respectiva imagem em termos de animação urbana -, e da sua planta original, muito bem reproduzida a partir das cópias heliográficas do respectivo projecto, em tempo submetido à CML.

As partes da cidade consideradas e onde se localizam os edifícios apresentados são as seguintes três zonas:

(i) a zona central norte, incluindo as Avenidas Novas, algumas parcelas e orlas de Alvalade e margens das referidas Avenidas Novas;

(ii) a zona central oriental - os bairros a nascente do eixo Av da Liberdade, Praça Marquês de Pombal e Av. Fontes Pereira de Melo;

(iii) e a zona central ocidental - a poente do eixo Av da Liberdade/Parque Eduardo VII, até aos bairros de Campolide e Campo de Ourique.



Fig. 05: exemplo de duas páginas, entre as dedicadas a 115 exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950

Este capítulo 4 termina com um interessante texto sobre a temática da integração de elementos de artes plásticas em edifícios habitacionais multifamiliares, um texto que faz sequência com a análise, imediatamente anterior, de edifícios na Av. Infante Santo, e que corresponde a uma matéria que se julga ter crítica importância seja na perspectiva de salvaguarda e maior divulgação dos excelentes exemplos que temos em Lisboa, seja no que se julga poder ser um fundamental reatar deste tipo de intervenções na cidade actual.

Mas ainda a título de remate do capítulo e sob a forma de extra-texto são editados, na pág. 222, os muito interessantes "trâmites de apreciação de um projecto apresentado a licenciamento à Câmara Municipal de Lisboa em 1958", numa sequência de 13 "passos" de análise e informação, onde se integra a "análise da solução arquitectónica e do projecto em geral «sob o ponto de vista regulamentar» e «sob o ponto de vista estético» ..."



Fig. 06:

O capítulo 5 intitula-se "Os autores dos exemplos apresentados".

Neste quinto capítulo, ao longo de uma excelentes 50 páginas, faz-se e, muito bem, justiça aos autores das obras que são apresentadas no capítulo anterior, sendo que as análises, projectista a projectista, inclui preciosas considerações tipológicas e ligadas à justificação de várias das soluções edificadas e de habitações desenvolvidas.

Este quinto capítulo, que nos apresenta um conjunto amplo de autores, e que refere muitas das suas associações profissionais, bem como muitas das preocupações, objectivos, procuras e eventuais êxitos ou situações menos conseguidas, é rematado com um conjunto de notas biográficas e curriculares, organizadas alfabeticamente, e que proporcionam uma boa leitura dos "percursos profissionais dos arquitectos autores dos casos de estudo".

O capítulo 6 tem o título "considerações sobre a arquitectura para a habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".

Este sexto e último capítulo, "tradicionalmente" a altura de o autor fazer uma síntese conclusiva, é aproveitado, e bem, para o tratamento sequencial de quatro temáticas, iniciando-se, provavelmente, com um núcleo disciplinar importante:

(i) uma primeira temática refere-se à apresentação do "programa de habitação multifamiliar" e das suas particularidades, abordando-se aqui, sinteticamente, "o promotor", "o projectista", "a construção" e "o destinatário";

(ii) a segunda temática dirige-se para a definição, igualmente sintética, das "categorias da habitação multifamiliar e sua distribuição";

(iii) a penúltima temática deste último capítulo do livro (re)centra-se no "papel da Câmara Municipal de Lisboa"e foca-se na influência dos processos de licenciamento municipal nos aspectos regulamentares e nos aspectos estéticos ou do "partido arquitectónico".

(iv) e, finalmente, a temática com que o livro termina intitula-se "a renovação do prédio de rendimento" e subdivide-se nas matérias ligadas às "dificuldades de inserção na cidade existente" e ao "desempenho dos autores" (naturalmente, títulos do autor).

E desta última parte retiram-se duas citações (pág. 302):

"A par da confirmação ... da mestria de um número reduzido de nomes, surge um conjunto de autores «desconhecidos», ainda ausentes da historiografia nacional, praticantes de uma arquitectura moderna eficaz e discreta, solucionando com competência e cuidado a instalação quotidiana de fogos na cidade existente."

e,

"Se há, como acreditamos, características inerentes ao trabalho do arquitecto moderno - o rigor geométrico racionalista, a consciência volumétrica acentuada, a veracidade da relação entre planta e alçado, a procura de novos atributos e modelos para a configuração e concatenação dos espaços, nesta caso domésticos, a ligação umbilical sem cedências da arquitectura ao «espírito do tempo» seu contemporâneo -, estas são identificáveis em alguns dos projectos assinados por estes autores."

Salienta-se, ainda, que o livro é rematado com uma extensa, bem organizada e muito útil secção de "fontes e bibliogafia".



Fig. 07: o texto de apresentação e comentário de síntese incluído na contra-capa do livro.

Este livro com 324 páginas intensamente ilustradas com imagens fotográficas e reproduções de plantas de pisos de edifícios multifamiliares lisboetas realizados na década de 50 do século passado, constitui um "tijolo" bem "desempenado" e bem assente na urgente, fundamental e aliciante construção dos estudos habitacionais e tipológicos, sobre o habitar português que integra o nosso património, perspectivando quer a sua vital protecção e divulgação patrimonial, quer o seu papel como elementos de base e de referência para a também urgente e bem fundamentada diversificação e renovação de uma oferta tipológica residencial bem embebida na cidade coesa. São contribuições como esta que nos apoiam na luta contra a doentia repetição das mesmas soluções de espaços comuns e privativos habitacionais.

E, mais uma vez, aqui nas páginas do Infohabitar, se sublinha que para se avançar, fundamentadamente, em qualquer área e, especificamente, nestas tão complexas como ricas matérias ligadas a uma boa/melhor cidade bem/melhor habitada, é básico e essencial "fazer o trabalho de casa", estudar e registar o que foi feito, tirar do que foi feito as lições possíveis, em leituras cuidadas e cíclicas, identificando os melhores e os piores caminhos, que nos servirão de referências naquilo que há que fazer, ainda, e nos cuidados de que temos de rodear tudo aquilo que foi bem feito e que contribui, cada vez mais, para a verdadeira alma da cidade e para a valiosa construção do seu carácter. Estudos como este são excelentes "tijolos" numa construção vital para uma boa cidade.

Parabéns, portanto, ao autor e ao editor, a CML e, especificamente, o Departamento de Património Cultural da Direcção Municipal de Cultura do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa.

Mas porque estas realizações editoriais tão cuidadas e pormenorizadas têm realmente "nomes", parabéns também à respectiva Direcção de Projecto, assegurada pelo Arq.º Jorge Ramos de Carvalho, que dirige o referido Departamento de Património Cultural, e também, à coordenação editorial assegurada por Maria Teresa Bispo.

É ainda necessária uma referência às fotografias, do autor do texto e de José Manuel Gema e à cooperação, que foi com certeza preciosa, do Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, com a referência a Cláudia Damas.

E, finalmente, o apontamento do apoio por parte da Fundação Calouste Gulbenkian, do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e do Arquivo Pessoal Arquitecto Manuel Laginha.

Por fim, não queremos deixar de desejar à CML e ao seu Departamento de Património Cultural a continuidade de uma tão meritória acção editorial, pois a cidade tem muias zonas, muitas épocas e muitos autores, que merecem estudos tão sérios, legíveis e construtivos como este; sendo que com esta actividade todos ganhamos, em termos culturais e de divulgação do nosso património, reforçando-se, sem dúvida, a presença patrimonial dos espaços e edifícios estudados, o que constitui, sempre, algo de muito valioso para o seu futuro e o da cidade que integram.

António Baptista Coelho


Notas editoriais:
A presente edição do Infohabitar integrou um artigo de apresentação e comentário de um novo livro, numa iniciativa que terá, no futuro, continuidade, na sequência da edição de obras que nos cheguem e que se revelem de interesse especial nas amplas áreas do habitar.
Julga-se que a obtenção do presente livro será possível na Livraria Municipal da CML, da qual se juntam as respectiva referências: Avenida da República, nº 21 A, 1050-185 Lisboa, Telefone: 21 356 78 69, E-mail: livraria.municipal@cm-lisboa.pt , Horário de Funcionamento: de 2ª a 6ª das 09.30 às 17.00h

Infohabitar, Ano VI, n.º 286
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 21 de Fevereiro de 2010



domingo, fevereiro 14, 2010

SILACC 2010: Cidade e Cultura: novas espacialidades e territorialidades urbanas - Infohabitar 285

Infohabitar, Ano VI, n.º 285
É com grande satisfação que o Infohabitar coopera na divulgação do "SILACC 2010 – Simpósio Ibero-Americano Cidade e Cultura: Novas Espacialidades e Territorialidades Urbanas”, que decorrerá na "cidade universitária" de São Carlos, próxima da grande São Paulo; e a definição "cidade universitária" é do autor destas linhas, que já participou em eventos em São Carlos e apenas quer fazer sublinhar a forte presença universitária e o ambiente muito agradável que aí se respira, que são sempre condições muito estimulantes para a reflexão e a discussão.



Fig. 00

Um dos dinamizadores do SILACC 2010 é o colega Prof. Manoel Rodrigues Alves, que esteve há pouco tempo no Grupo Habitar e no Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, para conversarmos um pouco sobre o SILACC e matérias associadas, ocasião em que houve a ideia de se fazer esta divulgação, de uma forma que, mais do que cooperar no conhecimento do Simpósio, possa constitui um elemento de pré-divulgação dos temas que aí se pretende apresentar e discutir.

E a propósito da visita do colega Manoel Alves refere-se que este tem estado numa missão de estudo junto à Universidad Internacional de Anadalucía, tendo aí desenvolvido variadas temáticas, designadamente, na área dos "processos socioespaciais", em parceria com diversos colegas entre os quais se refere o Arq.º Prof. Carlos Tapia Martín, da Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad de Sevilla, que integra a Comissão Científica do SILACC.

Outros colegas que iremos também rever no SILACC 2010 são o Prof. Arq.º Miguel Buzzar, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos, responsável pela excelente revista RISCO (http://www.arquitetura.eesc.usp.br/revista_risco/), que tem de ser visitada e à qual voltaremos num próximo artigo, e o Prof. Arq.º Miguel Vitale da Facultad de Arquitectura, Diseño y Urbanismo, da Universidad Nacional del Litoral, Santa Fe, Argentina; e este último colega deu-nos já a satisfação de ter realizado uma palestra, em Lisboa, há alguns meses, no Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE – IUL, numa iniciativa conjunta deste departamento com o Grupo Habitar e o NAU do LNEC.

E refiro todos estes colegas, com as devidas desculpas para os não referidos e também associados à organização do SILACC, porque o Grupo Habitar partilha, inteiramente, um dos objectivos do SILACC, que é desenvolver um novo e amplo espaço de debate das matérias da cidade e do habitar com "um escopo ibero-americano, ratificando a convicção de que é possível e necessário construir espaços adequados de reflexão e debate sobre os temas da cultura e da cidade contemporânea, suas continuidades e transformações em curso bem como de que esse debate pode e deve ganhar continuidade e aprofundamento."

Julgamos, realmente, que é possível, necessário e mesmo urgente debater estas matérias da cultura e da cidade contemporânea entre colegas de diversas disciplinas e que se entendem, muito bem, nas línguas que usam, num universo ibero-americano, que, naturalmente, se poderá e deverá estender aos restantes países que na África e em outras regiões do mundo falam português e espanhol; somos muitos nessas condições e há urgentes problemas associados a essas matérias nos nossos países, e o Grupo Habitar está também a avançar nesse sentido, no espaço da lusofonia com a organização do CIHEL 01, 1.º Congresso Internacional sobre Habitação no Espaço Lusófono.



Fig. 01

Mas voltando ao SILACC 2010 – Simpósio Ibero-Americano Cidade e Cultura: Novas Espacialidades e Territorialidades Urbanas”, que decorrerá, de 29 de Agosto a 01 de Setembro próximo, no campus de São Carlos da Universidade de São Paulo, salienta-se que a sua organização está associada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo.

O SILACC foi pensado com periodicidade bienal, e terá uma sua terceira edição, agora com âmbito ibero-americano, numa perspectiva que ” ratifica a convicção de que é possível construir espaços adequados de reflexão e debate sobre práticas e representações que constituem o momento presente, fomentando a produção de conhecimento relativo a processos que impactam a cidade, em distintos campos do saber e buscando estabelecer bases para uma cooperação acadêmica mais efetiva que trabalhe problemáticas da cultura e da espacialidade da cidade, suas continuidades e transformações em curso. Nesse sentido, o SILACC 2010 representa a consolidação da construção desse espaço de reflexão e debate, uma vez que dá continuidade às duas primeiras edições do Simpósio Cultura: dimensões contemporâneas”.

E, a título informativo, apontam-se os temas tratados nas duas anteriores edições do SILACC:

O SILACC 2007: Cidade e Cultura, dimensoes contemporâneas, foi realizado em Sao Carlos e estruturou-se nas seguintes sessões temáticas: Conflitos e Consensos na Conformação da Cidade Contemporânea; Espacialidades Urbanas Contemporâneas; e Projeto, Cultura e Projetualidade na Cidade Contemporânea.

O SILACC 2008: Cidade e Cultura, reflexoes e projetualidade hoje, foi realizado em Santa Fe, Argentina e compreendeu tres sessões temáticas: Urbanidade, Obscuridade e Iluminações sobre a Cidade Hoje; Textualidade. Espacializações Urbanas Coetâneas; e Projetualidade. O Projeto na Cidade Contemporânea.

O SILACC 2010 – “Cidade e Cultura: novas espacialidades e territorialidades urbanas” estrutura-se em três sessões temáticas, que são desenvolvidas na parte final do artigo, mas que aqui se apontam:
Sessão temática 1: Espacialidades e Territórios Híbridos da(na) Contemporaneidade.
Sessão temática 2: Tensões, Relações e Liminaridades na Cidade Contemporânea.
Sessão temática 3: Produção da Cidade e Produção da Habitação: cidade, cultura e política.

(nota: este texto foi realizado tendo como base diversos documentos do SILACC)

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho

Edita-se, em seguida, o texto de apresentação e divulgação do SILACC 2010



Fig. 02


SILACC 2010: Cidade e Cultura:

novas espacialidades e territorialidades urbanas
EESC-USP
São Carlos, 29 de agosto - 01 setembro 2010
PARTICIPE! Informações em www.arquitetura.eesc.usp.br/silacc2010

De 29 de agosto a 01 de setembro próximo, no campus de São Carlos da Universidade de São Paulo, será realizado o Simpósio Ibero-Americano “Cidade e Cultura: novas espacialidades e territorialidades urbanas” (SILACC 2010). A proposta para o SILACC 2010, terceiro evento realizado sob esse título, abarca um escopo ibero-americano, ratificando a convicção de que é possível e necessário construir espaços adequados de reflexão e debate sobre os temas da cultura e da cidade contemporânea, suas continuidades e transformações em curso bem como de que esse debate pode e deve ganhar continuidade e aprofundamento.

A cidade e suas novas manifestações, suas espacialidades distintas ou seus padrões diferenciados de expansão territorial, oferecem um conjunto de fragmentações reais e aparentes, crescimentos não harmônicos, deslocamentos e desdobramentos de centralidades, entre outros elementos ainda pouco conhecidos e explicados. Nesse cenário, novos elementos e configurações do meio urbano e de sua paisagem relacionam-se na conformação de dimensões, vivências e espacialidades decorrentes de uma nova escala dos entornos vivenciais e de suas infra-estruturas habitáveis.

Aventurar-se pelo urbano hoje implica, por um lado, experimentar as várias faces da transformação da noção tradicional de cidade, como entidade e imagem unificada, em um conjunto de situações espaciais e sociais conflitivas e aparentemente desconexas. As territorialidades urbanas contemporâneas nos desafiam nas tensões entre domínios, legalidades, usos e práticas urbanas, ao mesmo tempo em que aportam novos questionamentos na relação entre morfologias urbanas, tecidos sociais, comportamentos e construções conceituais para além dos modelos e conceitos instituídos, constatando-se a necessidade de investigação de formas de urbanidade e de suas complexidades sócio-culturais.

Essas manifestações inéditas fazem pensar, em um extremo, no fim da cidade planificável – seja em suas atribuições de civilidade, sociabilidade, governabilidade e gestão – e, em outro, no restabelecimento das entropias e sinergias necessárias aos estados híbridos de situações urbanas hoje detetáveis.

Quer no âmbito da cidade como artefato quer no âmbito da cidade vivida, ou do urbano vivenciado, é preciso pensar o presente, seus processos de territorialização e desterritorialização, a constituição e a destituição de cenários e atores urbanos, como amplificação e/ou como contraponto às concepções clássicas de conformação e configuração do espaço urbano.

A cidade e o urbano requerem tanto uma reflexão das condições dos universos referenciais hoje culturalmente instalados quanto a formulação de argumentos que permitam a análise de situações espaciais concretas condicionadas por dimensões heterodoxas, de natureza múltipla e bastante diversificada, nas quais se constata a superposição de possibilidades e atividades ao seu funcionamento, da experienciação da paisagem em contraponto a uma dimensão imagética dilatada, plural, mutante, virtual, midiática.

Diante desse quadro, os enfoques estritamente arquitetônicos seriam, então, redutores dos fenômenos que se constituem como alvos da elaboração empírica e conceitual de novas espacialidades e territorialidades. Assim, a presença de múltiplos olhares e enfoques se apresenta como pertinente ao afloramento de um pensamento conceitual apto ao enfrentamento do mundo contemporâneo – em oposição a um pensamento calcado em leis, normas e efeitos imagéticos.


O SILACC 2010 tem como objetivo possibilitar a reflexão conjunta a partir da diversidade de campos do conhecimento que não se restringem à Arquitetura e ao Urbanismo, objetivando gerar debates, críticas, reflexão sobre práticas culturais e urbanas, de projeto ou de intervenção, fomentando a geração de conhecimentos que dêem conta dos processos e transformações atuais observáveis na relação cultura – cidade contemporânea. Com isso pretende-se iluminar formas emergentes de urbanidade em suas dimensões sócio-culturais, correlacionando suas especificidades territoriais, ambientais, sociais e públicas, seus processos de transformação e suas permanências, seus elementos estruturantes e suas linhas de força.

O SILACC 2010 representa a consolidação da construção de um espaço institucional de reflexão que possibilite o desenvolvimento de quadro referencial teórico relativo a inter-relação entre arquitetura, cultura e o meio-ambiente na (e da) cidade contemporânea. Em assim sendo, dá continuidade às suas duas primeiras edições: em 2007, em São Carlos, com a temática “Cidade e Cultura: dimensões contemporâneas”; em 2008, na cidade de Santa Fé, abordou o tema de “Cidade e Cultura: reflexões e projetualidade hoje”.

É objetivo do Simpósio, promover o desenvolvimento de abordagens teóricas inovadoras sobre a relação entre as dimensões socioculturais e as dimensões espaciais do espaço urbano contemporâneo contemplando, para tanto, a adoção de novas perspectivas técnico-metodológicas que se apóiem em diagnósticos sócio-espaciais dinâmicos contemporâneos, buscando a identificação e elaboração de marcos conceituais que possam contribuir no desenvolvimento da reflexão e pesquisa sobre o ambiente urbano contemporâneo. Constrói-se, assim, o SILACC 2010, na linha de continuidade de outras perspectivas que abordam o território da arquitetura contemporânea a partir de um marco cultural ampliado, no qual a problemática territorial é também enfocada desde uma perspectiva sócio-espacial.

O prazo para o encaminhamento de propostas de trabalhos é de 22 de março de 2010. Todas as informações do SILACC 2010 (normas de envio e seleção de trabalhos, programação, inscrições e outras) encontram-se disponíveis na página do evento em

www.arquitetura.eesc.usp.br/silacc2010




Fig. 03


Para o desenvolvimento de sua problemática o SILACC 2010 “Cidade e Cultura: novas espacialidades e territorialidades urbanas” estrutura-se em três sessões temáticas, a saber:


Sessão Temática 1: Espacialidades e Territórios Híbridos da(na) Contemporaneidade

Essa sessão temática quer discutir temas que dizem respeito às transformações dos espaços e esferas contemporâneas, rompendo limites, estabelecendo porosidades, mesclando dimensões anteriormente separadas por clivagens mais ou menos nítidas, quer no âmbito conceitual, quer como separações e delimitações espaciais. Desse modo, essa sessão busca discutir permanências, redefinições ou mesclas conceituais que possam problematizar os fenômenos urbanos do presente que, inseridos na tendência contemporânea de criação de espaços e territorialidades distintas, dispersas, dissociadas e fragmentadas no território urbano, requerem outras chaves de leitura e aproximações desde diferentes práticas e saberes culturais.

Na contemporaneidade de realidades dispares, embaralhadas e híbridas, as intervencões sobre a cidade contemporânea constituem uma extensa casuística de acertos e desacertos que coexisten com intenções conceituais e operativos para governar a complexidade. Espaços e territórios que não se pode mais classificar como públicos ou privados, como publicizados ou privatizados, que nos colocam os processos híbridos ou hibridizados como questão a ser pensada não apenas do ponto de vista de sua produção, mas do ponto de vista de sua recepção e contínua elaboração; espaços e territórios da heterogeneidade social que criam novas contiguidades, simultaneamente promovidas e achatadas pela justaposição da coexistência, que avizinham o que é diverso e explicitam outras paisagens materiais e políticas, econômicas e étnicas. Trata-se de indagar as espacialidades e territorialidades urbanas contemporâneas observando questões relativas ao espaço público e a condição pública de sua espacialidade, a relação entre arte pública e espaço urbano, a banalização e mercantilização dos espaços urbanos, novas relações entre imaginários sociais, lugares urbanos e impactos da cultura da imagem, dentre outras.

Sessão Temática 2: Tensões, Relações e Liminaridades na Cidade Contemporânea

Consenso e conflito são duas figurações fundamentais das distintas concepções de espaço e esferas públicas, de dimensões da constituição ou destituição das elaborações publicizantes e privatizantes que constituem a gramática clássica da vida urbana, embaralhadas no momento contemporâneo.

Hoje as dimensões que mesclam o virtual e o real permitem que se considere uma zona de indiferenciação que compromete a existência autônoma de qualquer uma dessas esferas. Por outro lado, cabe também apontar que as porosidades e liminaridades entre legal e ilegal, formal e informal, moderno e contemporâneo, estrangeiros e cidadãos, elementos arcaizantes e modernizantes, populações criminalizadas e sem direitos se hibridizaram. As dimensões que compõem essas zonas cinzentas, as zonas de indistinção, a impossibilidade de distinguir sujeitos ou atores, natureza e cultura, centros e periferias, culturas autóctones e dimensões midiáticas, territórios que se constituem como liminares. Que questões são assim colocadas?

Diante do que permanece e do que se rompe, diante de redefinições, deslizamentos e mesclas, algumas dimensões de conflito, poros, novas mediações, novos e velhos usos de práticas e de valores parecem redesenhar as relações espaciais e sociais e seus vínculos, quer com a cidade, quer com o urbano. Quais são os eixos de tensão e de disputa? Quais os atores e suas mediações culturais e políticas? Quais são os fatores que estruturam as relações entre tensões, conflitos, consensos e territórios?

Sessão Temática 3: Produção da Cidade e Produção da Habitação:

cidade, cultura e política
Essa sessão tem por objetivo a discussão de aspectos relativos aos cruzamentos e intersecções entre as dimensões e aspectos urbanos, as políticas urbanas e habitacionais e as questões relativas a valores e práticas que se estabelecem nas mediações culturais das formas de uso da cidade e da moradia. Aqui também pretende-se detectar e discutir redefinições, permanências e transformações recentes que caracterizam os processos em curso nesses âmbitos de apreensão e reflexão nas múltiplas dimensões da cidade contemporânea.

É possível identificar algumas pistas que parecem indicar uma transformação nos vínculos entre cidade, processos produtivos, formas de intervenção do Estado e, nessa medida, cidade e regulação, cidade e política, tal como se evidenciam nas cidades, contemporaneamente.

Algumas dessas formas dizem respeito a novos atores que se acoplam e/ou agenciam formas de intervenção nas esferas do ambiente urbano. Quais as formas, processos e atores que constituem novas tessituras urbanas e de inserção produtiva? Algumas pistas parecem indicar transformações anteriormente apenas anunciadas que vêm ganhando novo corpo, novas densidades. Assim, talvez seja possível perceber a constituição de novos modos de intervir, de organização e de visualização dos sentidos dessas intervenções.



Fig. 04

Este texto é da responsabilidade da Comissão Organizadora do SILACC 2010, e foi enviado pelo colega Prof. Manoel Rodrigues Alves, a quem o Infohabitar agradece e deseja os maiores êxitos para o Simpósio, que abordará uma temática extremamente actual, vital e ainda tão pouco debatida,
A edição do Infohabitar
Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar, Ano VI, n.º 285
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 14 de Fevereiro de 2010

domingo, fevereiro 07, 2010

Vizinhanças e proximidades: algumas bases de referência - Infohabitar 284

Infohabitar, Ano VI, n.º 284
Série habitar e viver melhor, IX

Nota: a ilustração deste artigo foi circunscrita a algumas intervenções que se candidataram ao Prémio IHRU 2009 de construção e reabilitação.

Vizinhanças e proximidades: algumas bases de referência

António Baptista Coelho

Há matérias concretas que importa ir divulgando a projectistas, responsáveis e moradores, entre as quais se destacam alguns dados dimensionais e quantitativos que podem fazer a diferença na constituição de vizinhanças de proximidade residenciais verdadeiramente satisfatórias, designadamente, em termos de acessibilidades e proximidades; dados estes que, em seguida, se listam, e que foram obtidos no âmbito do estudo que realizei com o objectivo da elaboração do livro intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação” (ITA n.º 2, LNEC, 1998, e que está disponível na Livraria do LNEC) (1):

- No que se refere, globalmente, a distâncias pedonais pode considerar-se que (2): 1m de desnível = 15m de aumento de percurso; 200m de percurso não-abrigado = 300m de percurso abrigado = 500m de percurso totalmente protegido; 300m de percurso abrigado = 500m de percurso totalmente protegido; e que, tal como aponta Christopher Alexander, 1 minuto a pé corresponde a 45m de percurso.

- Quanto ao dimensionamento geral rodoviário já é bem a altura de começarmos a obrigar os automóveis a andar mais devagar nas zonas residenciais e assim, a título de exemplo, apontam-se algumas indicações de Dieter Prinz (3): rua colectora, com cruzamentos distanciados, entre si, cerca de 150 a 200m, velocidade máxima 50Km/h; rua periférica, com cruzamentos ou mudanças de direcção do traçado viário distanciados, entre si, cerca de 100 a 150m, velocidade máxima 50 ou 30Km/h e dominância pedonal evidenciada; e, finalmente, a rua residencial, com desvios de direcção afastados, entre si, cerca de 30 a 40m, velocidade máxima 30Km/h e prioridade pedonal.



Fig. 01: intervenção de requalificação e revitalização na zona central de Porto Covo, Largo Marquês de Pombal, 2008, Câmara Municipal de Sines, Arq.º Miguel Falcão.
- Com idêntico objectivo apontam-se algumas medidas críticas de largura de vias para veículos em áreas residenciais (4): 5.50m, todos os veículos podem cruzar-se (dois sentidos); 4.80m, dois automóveis ligeiros podem cruzar-se, mas um ligeiro e um camião têm apenas espaço mínimo; e “apenas” com 3.00m, um automóvel ligeiro e um veículo de duas rodas podem cruzar-se.

Nunca será demais lembrar que o objectivo é fazer pedaços de cidade agradáveis e seguros para o peão, portanto, faz realmente sentido é proporcionar espaços de circulação e estadia ao peão e condicionar, funcional e dimensionalmente, a circulação de veículos, remetendo-os para o seu papel funcional.



Fig. 02: Introdução de 10 pequenas habitações (T0 e T1) de interesse social em Santa Luzia, Funchal, 2008, para pessoas idosas e que vivem sós, a intervenção respeitou a envolvente e proporciona aos residentes a vivência de uma continuidade urbana equipada e a proximidade ao centro da cidade, com todas as vantagens recíprocas de relação entre os habitantes e a cidade consolidada; uma promoção do IHM, Investimentos Habitacionais da Madeira, Arquitetura de Maurílio Machado e Raquel Oliveira, Arq.ª Pais. Pedro Rodrigues.

- Em termos de acessibilidades citadinas gradáveis e estimulantes há que integrar, ao máximo, os tráfegos de peões e de transportes públicos e, assim, "considera-se que um empreendimento é servido por transportes públicos, quando pelo menos em 90% dos casos, a entrada principal dos edifícios está a menos de 500m de distância real (percorrida) de uma paragem de carreira regular com uma frequência mínima de 3 percursos diários em cada sentido" (5); julgo que esta indicação é excessiva considerando, por um lado, o envelhecimento da população e as prováveis situações desniveladas – 500 metros (portanto cerca de dez minutos) de percurso pedonal ao mesmo nível e em boas condições funcionais nada têm a ver com um percurso desnivelado e deficientemente equipado.

- Um inquérito sobre as possibilidades de fazer compras diárias, relacionadas com a distância entre as habitações e o centro comercial, numa zona residencial em Uppsala, demonstrou que entre 200 e 600m de distância a satisfação admitida pelos utentes decresce regularmente à medida que a distância aumenta; para 200m de distância (2 a 3 minutos a pé), 70% das pessoas consideraram a situação "muito boa", enquanto que quando a distância atinge os 600m apenas 10% das pessoas continuam a manter o mesmo juízo (6).

- Ainda nesta perspectiva de fundamental vitalização comercial e citadina e considerando-se que as compras de um agregado familiar com quatro pessoas correspondem a uma média aproximada de 60kg por semana, cerca de 10 sacos de compras médios, fica evidenciada a importância da proximidade entre estabelecimentos comerciais de primeira necessidade e habitações, importância esta que assume um aspecto vital quando se trata de habitantes idosos, outros habitantes com mobilidade condicionada, ou pessoas sem veículo próprio. A distância máxima considerada entre este tipo de lojas e a habitação é de 200m/ou 5 minutos a pé (para uma pessoa idosa) (7).



Fig. 03: a reabilitação de edifícios que integram a continuidade de zonas urbanas centrais, constitui uma dupla medida de revitalização dessas zonas e de se proporcionar aos respectivos habitantes um meio urbano coeso e uma vizinhança bem equipada; na imagem uma intervenção desse tipo na Rua de São Pedro em Viana do Castelo, 2008, promovida por um particular com apoio da respectiva C. M. e projecto do Arq.º José Loureiro.


- Wolfgang Preiser aponta diversas condições de melhoria de condições de uso pedonal em centros comerciais concentrados (8) (o autor refere-se a centros em vários níveis, mas julgo que as suas conclusões podem ter uma aplicação mais ampla): grande variedade de tipos e alternativas de comércios e serviços; cuidadosa programação das sequências e das orientações das montras considerando os principais fluxos pedonais; aplicação de pavimentos "suaves", agradáveis e seguros para o uso pedonal e estabelecendo continuidades entre espaços interiores e exteriores; e existência de zonas para estar sentado, que sejam espacialmente diferenciadas das principais zonas de circulação, colocadas em espaços mais calmos e dispondo de assentos confortáveis.

- E nestas matérias da dinamização comercial tenhamos bem presente que não é possível disseminar, em continuidade, pólos comerciais; e nesta matéria Kevin Lynch considera ser necessária uma "área de mercado" mínima de 5000 habitantes, ou mesmo de 10.000, para suportar um grupo comercial vitalizado (9).

Apenas a título de comentário global sobre o que acabou de ser apontado, em termos da influência no bem-estar e na agradabilidade residencial das acessibilidades pedonais, do dimensionamento viário e da dinamização por equipamentos, basta um pequeno percurso através de Alvalade, em Lisboa, e designadamente ao longo do eixo estruturado pela Av.ª da Igreja, para se poder ter a prova cabal da verdade e da importância de todos os aspectos referidos para uma cidade bem habitada e estimulante.

NOTAS:
(1) Este estudo integra a terceira parte da minha tese de doutoramento em Arquitectura, com um estudo sobre qualidade arquitectónica residencial, realizado no NAU do LNEC e apresentado e discutido na faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto; boa parte desta tese está editada no LNEC, na Colecçãon Informação Técnica Arquitectura (ITA), seja nesta ITA 2, seja na ITA 8, que constitui o "coração" da tese.
(2) National Board of Urban Planning, "Bostadens Grannskap (Housing Environment), Recomendations for Planning", p. 22.
(3) Dieter Prinz, "Urbanismo II, Configuração Urbana", pp. 37 a 39.
(4) Patricia Tutt; David Adler(Ed.), "New Metric Handbook", pp. 36, 37 e 40.
(5) LNEC; GURPLAM, “Revisão das Recomendações Técnicas para Habitação Social, Capítulo 3 Urbanização, Projecto de Articulado", p. 49.
(6) National Board of Urban Planning, "Bostadens Grannskap (Housing Environment), Recomendations for Planning".
(7) National Board of Urban Planning, "Bostadens Grannskap (Housing Environment), Recomendations for Planning".
(8) Wolfgang Preiser, "An Analysis of Unobstrusive Observations of Pedestrian Movement and Stationary Behavior in a Shopping Mall", in Lund Conference on Architecture Psychology, 1973.
(9) Kevin Lynch, "Site Planning", p. 311.

Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar, Ano VI, n.º 284
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 7 de Fevereiro de 2010