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domingo, fevereiro 28, 2010

287 - “O limite do habitar: o exposto e o recluso”, seguido de "Casa-pátio: uma tipologia muito versátil" - Infohabitar 287

Infohabitar, Ano VI, n.º 287
(dois artigos sobre a casa-pátio: por Décio Gonçalves e António Baptista Coelho)

Na sequência da edição, há poucas semanas, de um artigo sobre a "casa-pátio", aqui no Infohabitar, o colega professor Décio Gonçalves, graduado em Engenharia mecânica e civil, Mestre e doutor em Arquitectura e Urbanismo pela excelente Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, e já colaborador da nossa revista, enviou-nos o seguinte comentário:
"O tema em si da «casa-páteo» é deveras instigante ... a abordagem abrangente da questão ... sucita um leque bastante rico de análises. Por conta de minha pesquisa em obras de madeira, vieram-me à mente as emblemáticas "Usonian Houses" de Frank LLoyd. Predominantemente, na Jacob House da década de 40 do século passado. Wright aplica a meu ver, o conceito de «casa-páteo» como uma tipologia básica, dando-lhe valor e graça,... pareceu-me pertinente um olhar, ainda que de soslaio, sobre este autor de tamanha relevância para Arquitetura Moderna, permeada pelo enfoque orgânico..."
Ao qual respondi nos seguintes termos:
"Concordo inteiramente consigo e muito especificamente na relação entre casa-pátio e casa orgânica, que podendo parecer à primeira vista conceitos relativamente distintos e talvez tendo sido assim nas primeiras casa-pátio, marcadas pela funcionalidade do abrigo quase básico, acabam talvez por constituir hoje em dia um caminho excelente no que toca ao potencial de agregação das casas-pátio e das casas-terraço em conjuntos muito densificados e urbanos.

Aqui poderíamos retomar a questão de Wright e das suas casas honradamente suburbanas, onde provaelmente o pátio talvez surja na descoberta de uma dimensão doméstica do exterior, para a casa basicamente aberta ao jardim e à paisagem, e quem sabe numa influência da forte vivência japonesa do Mestre."

Desta troca de mensagens entre amigos e colegas e, aproveitando para pedir as devidas desculpas ao Décio pela edição de mensagens pessoais, surgiu a ideia de um artigo a quatro mãos sobre o tema, ideia que se concretizou, na presente edição, com dois textos sequenciais, embora tematicamente distintos, que se editam em seguida e que pretendem, apenas, abrir a discussão e a divulgação sobre as contemporãneas potencialidades da casa-pátio, seja em meio yrbano, denso, seja em meio periférico e numa ampla variedade de níveis de desenvolvimento doméstico; e aqui se deixa o desafio amigável para outras contribuições escritas, fotografias e eventualmente desenhos sobre estas matérias.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho
“O limite do habitar: o exposto e o recluso”por Décio Gonçalvesdg@usp.br

A habitação, enquanto espaço pensado para abrigar seres humanos, de forma confortável e digna, teve em Frank Lloyd Wright e Le Corbusier duas relevantes vertentes no ofício de conceber espaços arquitetônicos, a partir da metade do século XIX, mais precisamente pós 1870.
Essas vertentes projetuais assentaram-se conceitualmente, em Wright nas “Usonian houses”, e em Corbusier nas Unités d`habitation. Ambos conceitos foram fruto de um longo e paciente trabalho de pesquisa em adequar, com correção, maneiras de habitar, tendo a sua culminação no século XX.

Estes conceitos foram concebidos dentro de malhas urbanas bem definidas, apresentando a Ville Radieuse por parte de Corbusier, com o artefato arquitetônico l`apartement como contrapartida a Broadacre City e a villa de Wright, todas inseridas, no âmbito das áreas metropolitanas.

Planejadores e pesquisadores debruçaram-se sobre a questão, advindo muitas análises críticas, sobre as vantagens e desvantagens de cada sistema habitacional. No quesito privacidade de seus habitantes, não há dúvida da excelência das residências unifamiliares em relação as multifamiliares.

Mesmo em se considerando apartamentos ditos de “alto padrão”, é inegável a prevalência das “casas”, como forma de habitar com qualidade e conforto de seus moradores. Independentemente do luxo dos condomínios de apartamentos, estes ainda assim, continuam sendo residências superpostas, com todas as suas implicações envolvidas.

No caso das Usonian houses, e mais especificamente da Jacobs house (1936-ano do projeto), Wright emprega características bem delineadas da Arquitetura orgânica das casas tradicionais japonesas em madeira. Vê-se claramente um sincretismo bem nítido de características construtivas das casas japonesas na Jacobs.



Figura 1 – “Jacobs” vista externa posterior – Fonte: Mc Carter (1997)

O sistema esmerado de pré-fabricação, as tramas ou “grids”, determinadas por elementos geométricos (na Jacobs, o retângulo), fazem um paralelo com os tatamis, a varanda, o pátio, configurando o artefato arquitetônico como sendo uma casa-pátio, são algumas das características similares entre estas habitações emblemáticas, entre outras.

As casas tradicionais japonesas caracterizam-se , bem como a Jacobs pela total integração ao entorno (interno e externo se fundem de forma silenciosa sem tensões).



Figura 2 – Antiga casa japonesa assobradada – Fonte: Kishida (1954)
Atualmente, no Japão, um grande número de pessoas trabalha durante o dia em edifícios modernos, ocidentais, e à noite, as que habitam casas isoladas, o fazem à moda antiga, pois estas refletem a personalidade de seu povo, que valoriza a intimidade e o respeito pelo bem estar próprio e do seu semelhante, apresentando áreas bem definidas de viver em comunidade, onde cercas separam a vida pública do privado, entre o exposto e o recluso.

Figura 3 – O limite entre o exposto e o recluso – Fonte: Engel (1983)
A Arquitetura tradicional japonesa teve grande influência nas obras de Wright, e sua Arquitetura orgânica baseou-se nas casas antigas feitas por carpinteiros e marceneiros japoneses.

Wright nos USA, na década de 30 do século passado, quando do crash da bolsa nova-iorquina em 1929, cria as brilhantes resoluções em madeira, as Usonians houses, apresentando à classe média, à época bastante debilitada financeiramente residências unifamiliares de custo compatível, da ordem de US$ 1,000, através projetos inovadores e métodos construtivos, racionais e exemplares.

Dentro desta tipologia projetual se destaca a preocupação da privacidade de seus moradores, propiciando o resguardo da habitação em relação ao ambiente externo, ao mesmo tempo, faz com que a casa se interaja e se integre plenamente com a Natureza do entorno. Wright estabelece em sua Arquitetura limite bem definido entre os mundos: exposto e o recluso.

Esta questão traz em seu bojo uma pergunta, ou seja, não seria esta uma maneira de repensar as habitações contemporâneas?
Referências bibliográficas:
ENGEL, Heinrich. Sistemas Estruturais. Barcelona: G.Gili, 2001.
KISHIDA, Hideto. Japanese architecture. Tokyo: Japan Travel Bureau, 1954.
McCARTER, Robert, Frank Lloyd Wright, Phaidon Press Limited, London, 1997.





"Casa-pátio: uma tipologia muito versátil"
por António Baptista Coelho
abc@lnec.pt


Procurando linhas de resposta estruturantes à questão de a casa-pátio poder ser uma maneira de repensar as habitações contemporâneas, não é possível deixar de relembrar, em seguida, uma ideia mais teórica, uma outra mais prática e finalmente uma outra teórico-prática - e, depois, serão feitos, ainda, alguns outros comentários sobre a aplicabilidade da tipologia na habitação de interesse social, que é uma forma de se defender a possibilidade de uma sua aplicação razoavelmente ampla.

Em primeiro lugar e em termos mais teóricos, embora com base numa ampla investigação tipológica prática, por sinal incidindo muito especificamente em habitações de interesse social, importa relembrar que tal como defendem Monique Eleb e Anne Marie Chatelet o “habitat intermediário”, que é aquele "de fusão" das características de densificação física das soluções multifamiliares com as de autonomia de acesso e de existência de espaços exteriores privativos proporcionadas pelo unifamiliar, caracteriza-se, frequentemente, por “terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas", numa oferta plástica e funcional que proporciona a tal "escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.” (1)

E podemos considerar que será, muito provavelmente, a distribuição neste habitat intemediário de pequenos pátios, mais ou menos interiorizados, e de pátios/terraços também mais ou menos encerrados, uns e outros desenvolvidos em diversos níveis, que poderá assegurar, neste tipo de habitar, uma adequada aliança entre condições de privacidade e de apropriação individualizada, de cada habitação, e de "compactação" e continuidade/densidade urbana do agregado habitacional assim desenvolvido.



Fig. 01: perspectivas e planta dos edifícios unifamiliares evolutivos de habitação de interesse social do Bairro do Alto do Moinho, Plano Integrado do Zambujal, projectado no âmbito do Seviço Ambulatório de Apoio lOcal (SAAL) por Francisco Silva Dias (1975/78).

Em segundo lugar há que relembrar que a prova teórico-prática da capacidade urbana agregadora da tipologia “casa-pátio” foi proporcionada, já há algumas dezenas de anos, no fundamental livro de Serge Chermayeff e Christopher Alexander (2), intitulado “Community and privacy, toward a new architecture of humanism”. E refere-se ser este um livro fundamental pois ele trata, afinal, de um tema de primeira linha na nossa nova e supreendente sociedade mega-urbana: como harmonizar comunidade/convivialidade e privacidade/apropriação no habitar, articulando, assim, aspectos de densificação e continuidade urbana com os, igualmente importantes, aspectos de privacidade e apropriação do espaço doméstico de cada um.

E esta mesma obra é essencial no perspectivar da importância dos espaços e dispositivos mais urbanos, mais de vizinhança e mais privados, responsáveis pelas relações de transição, de limiar e de relação entre os referidos níveis mais urbanos ou mais domésticos; e ao longo de todo o referido livro o "pátio", vai surgindo, seja na sua forma mais urbana da praceta de vizinhanças, seja na sua forma doméstica que proporciona a agregação de múltiplas habitações, em agrupamentos fortemente densificados, mas resguardando-se a referida privacidade de fruição de cada habitação e enriquecendo-a, mesmo, com a dimensão de um exterior privativo significativo.

E lembra-se, aqui Richard Sennet (3), que aborda o desequilíbrio que hoje caracteriza as relações entre usos públicos e privados, e partindo de uma análise com bases históricas destaca, entre outros aspectos, a actual incivilidade que marca muitas das nossas relações desejavelmente comunitárias e públicas/civilizadas, enquanto, por outro lado, há um avolumar de tudo o que a intimidade acaba por impor.


Fig. 02: na proposta de Christopher Alexander para Lima, aqui esquematizada, aprofunda-se, exactamente, a densificação urbana com uma solução doméstica extremamente privatizada, com recursos a múltiplos pequenos pátios.

Em terceiro lugar e no que se refere ao interior da habitação salienta-se o interesse que pode ter o desenvolvimento de uma solução que estruture o espaço doméstico em torno de um ou vários espaços exteriores privados e importa pensar um pouco nesta virtualidade, pois em termos de opções globais de concepção é como se o espaço interior doméstico capturasse um pouco do exterior, tornando-o privado e "domesticando-o", o que proporciona uma relação sequencial: nível doméstico exterior privado; nível doméstico interior privado; nível público exterior, mas ainda, desejavelmente de vizinhança; eventual nível comum edificado e interior; e finalmente o nível exterior público.

Esta é uma possibilidade muito completa e "perfeita", quase nunca atingida, que aqui se refere para se poderem entender as virtualidades directas - de uso doméstico efectivo e económico (um pátio exterior não tem cobertura e pode ser ajardinado pelos próprios habitantes) - e indirectas - de estruturação de uma estimulante sequência de níveis habitáveis reais e também estimulantemente simbólicos - proporcionadas por casas-pátio que nem precisam de ser especialmente espaçosas.

Fig. 03: na Malagueira Siza Vieira usou a casa-pátio no sentido da máxima harmonização entre a vida privada doméstica, para lá dos muros "tradicionais" e a continuidade convivial da rua; e trata-se de habitação de interesse social. Neste conjunto as densas aglomerações de casas-pátio geram ricas continuidades urbanas com uma forte escala humana e evocadora da cidade histórica. Na Malagueira aplicam-se soluções domésticas unifamiliares evolutivas centradas em pátios privativos e formando ruas estreitas e densas, mas com baixa altura do edificado. Salienta-se que esta grande intervenção se desenvolveu ao longo de alguns anos sendo acabada já após 1984, com apoio do INH.

Além de tudo isto, há que referir que a casa-pátio e especificamente a que é desenvolvida num único piso é uma tipologia extremamente versátil em termos do seu uso, sendo muito adequada, quer para famílias com crianças, quer para idosos. E naturalmente há que referir aqui as pequenas casas-pátio de Jörn Utzon na Dinamarca e na Suécia, sendo que o conjunto em Fredensborg (1959-62), constitui um exemplo perfeito dos vários níveis acima referidos: pátio bem habitável e com a configuração/dimensão de um grande compartimento (exterior), atraentemente murado, mas permitindo algumas vistas pontuais do interior sobre a vizinhança; rodeado por uma casa térrea em "L", com a sala e um quarto/estúdio de um dos lados, e a cozinha, o quarto e a casa de banho do outro; um espaço de vizinhança afirmado e diversificado, seja no acesso rodoviário, seja no miolo de vizinhança ajardinado; depois um nível de espaços comuns com alguns quartos que podem ser ocupados com marcação, e finalmente a relação com o espaço público/citadino. (4)

Este foi um conjunto de habitação de interesse social (63 habitações mais espaço comum) projectado por Utzon depois de ter estudado em pormenor conjuntos realizados com o mesmo tipo de condicionantes em termos de controlo de áreas (habitação com três quartos e sala, 104m2) e de custos.

Cada uma das habitações de Fredensborg tem uma característica especial que resulta da sua posição e tipo específico de agregação, embora a sua forma geral seja bastante uniforme e construtivamente simples, sendo que as paredes que encerram o pátio proporciom o seu uso de acordo com os desejos de cada habitante/família sem que haja interferências negativas com os vizinhos, ganhando-se, assim, capacidade de adequação e espaço habitável a muito baixo custo. (4)


Fig. 04: esquema de conjunto em Milton Keynes (UK), onde fica evidenciada a capacidade de estruturação doméstica proporcionada pelo pátio.

Neste artigo procuraram-se alguns caminhos para a questão de a casa-pátio poder ser uma maneira de repensar as habitações contemporâneas, oferecendo-lhes um excelente potencial de adaptabilidade. E, a propósito salienta-se que os desenhos que ilustram o texto foram retirados do livro editado pelo LNEC e disponível na sua livraria, intitulado "Habitação evolutiva e adaptável". (5)

Para outros artigos sobre esta temática ficarão pequenas viagens comentadas sobre variadas soluções de casas-pátio realizadas nos últimos anos em Portugal, no âmbito da promoção de habitação de interesse social; o que serão também a prova clara da actualidade da tipologia casa-pátio.


Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18.
(2) Serge Chermayeff e Christopher Alexander, “Intimité et Vie Communautaire – vers un nouvel humanisme architectural“, 1972 (1963), pp. 191 a 197.
(3) Richard Sennet, “El declive del hombre público” (,(The Fall Of Public Man), 1992.
(4) Tobias Faber; Jens Frederiksen, "Jørn Utzon: Houses in Fredensborg", Ernst & Sohn, 1991.
(5) António Baptista Coelho e António Reis Cabrita, "Habitação evolutiva e adaptável", Lisboa, LNEC, ITA 9, 2003.
Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, o conteúdo dos artigos é da exclusiva responsabilidade dos respectivos autores.Infohabitar, Ano VI, n.º 287Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 28 de Fevereiro de 2010

domingo, janeiro 31, 2010

283 - Sobre a casa-pátio: elementos de enquadramento - Infohabitar 283

Infohabitar, Ano VI, n.º 283
Sobre a casa-pátio: elementos de enquadramento
António Baptista Coelho

Nota inicial: o texto que baseia-se nos elementos desenvolvidos pelo autor para o livro "Habitação Humanizada", realizado e editado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e disponível na Livraria do LNEC.

O homem moderno terá, “apenas”, entre 100.000 e 50.000 anos, o pensamento artístico terá sido desenvolvido há cerca de 25.000 anos, antecipando a invenção, primeiro, dos pequenos espaços urbanos constituídos por orgânicos aglomerados de casas, sem ruas (a circulação seria feita pelas coberturas e utilizando escadas, recolhidas em caso de perigo), depois do sistema de casas ligado e separado por ruas e outros espaços de invenção do sentido cívico, sentido este que terá levado, finalmente, à racionalização dos traçados, à criação de espaços públicos específicos, funcionais e representativos, muito provavelmente com pátios públicos e consequentemente à criação dos espaços domésticos mais privatizados e frequentemente também estruturados por pátios.

E em tudo isto a casa-pátio tem um papel protagonista, provavelmente marcando a passagem da consideração do habitar super-individualizado para o habitar agregado que conformou povoações e cidades.




Fig. 01

Aquela que se pode considerar a aldeia mais antiga até agora identificada é Ohalo, habitada há cerca de 20.000 anos e situada no leito seco do Mar da Galileia.

E as primeiras povoações com um carácter mais citadino surgem há cerca de 10.000 a 9.000 anos, em simultaneidade com a agricultura e a pastorícia mais sistematizadas; sendo as primeiras que se conhecem Jericó, com cerca de 5ha, habitada por mais de 2.000 pessoas, e Çatal Höyük, perto de Konya, na actual Turquia, esta um pouco mais tardia mas que parece ter atingido uma muito significativa dimensão urbana, reflectida tanto em área ocupada como em número de habitantes – cerca de 15ha para 8.000 habitantes -, numa soluçao urbana que funcionou sem interrupções durante pelo menos 800 anos e que devia ser construída e ampliada em conjunto, e não admitia acréscimos individuais.

Temos, portanto, cerca de 10.000 anos de urbanidade, e nestes cerca de 60%, portanto 6.000 anos foram marcados pela casa-pátio ou “casa urbana oriental”, como lhe chama Schoenauer (1), que lhe sublinha o seu carácter introvertido com um ou mais pátios privados e o seu uso em quatro antigas civilizações e nas cidades da Grécia Clássica e de Roma e salienta-se que “esta casa é ainda, hoje em dia, a forma tradicional de habitar em muitas cidades da Ásia, África e América do Sul, sendo, tal como sublinha Schoenauer, “uma forma de habitar que perdurou durante mais de 200 gerações”.

Na mesma obra Schoenauer indica que “a mais importante das suas características é o pátio ajardinado, espaço privado central e aberto. o pátio é o coração da casa urbana oriental e não existe em nenhuma outra língua uma expressão mais poética do que a chinesa para definir o pátio, «oferenda do céu», fonte que proporciona luz, ar e água da chuva à habitação… outra característica da casa-pátio é que esta introversão proporciona privacidade visual e acústica não só relativamente à rua, mas também relativamente aos vizinhos." (p.237)

Complementarmente, Schoenauer salienta, ainda no mesmo livro, a flexibilidade do interior destas casas orientais como outra sua importante característica, com a maioria dos seus compartimentos caracterizados como espaços multiusos (p.240); e escreve ainda que ”além de tudo isto há uma natural civilidade ou urbanidade na casa-pátio na qual se fugia da ostentação de uma altura elevada também por recomendações religiosas, com idênticos reflexos na modéstia das fachadas – uma lição de urbanismo, que, ao nível do bairro se associou ao desenvolvimento de comunidades que não têm níveis homogéneos de rendimento”, gerando-se e consolidando-se, assim, uma importante regra de integração social e económica (p.240).

Continuando com Schoenauer (2) este salienta que “o conceito de casa-pátio foi redescoberto por alguns arquitectos modernos”, constituindo um “exemplo a seguir tanto no uso do solo como na conservação da energia e na definição hierárquica das ruas, pois proporciona identificação mais íntima com a comunidade residente, e é um modelo urbano compacto que não desperdiça espaço resultando em distâncias pedonais razoáveis e numa densidade adequada a um eficaz sistema de transportes”. (p.241)

E Schoenauer sublinha ainda, no final da sua extraordinária obra, que “as civilizações orientais, milhares de anos mais antigas do que as ocidentais, evoluíram, através de um longo processo de ensaio e erro, até algumas soluções de desenho habitacional urbano que deram resultados positivos ao longo de muito tempo. Soluções que podem ser adoptadas no cenário urbano ocidental, com a garantia de terem sido viáveis durante pelo menos 6000 anos” (p.369); e a isto podemos acrescentar ter-se hoje a noção clara de que muitos dos modelos de edifícios culturalmente incoerentes ainda mais o são relativamente aos actuais e essenciais critérios de eficácia energética e de poupança de recursos.


Fig. 02

Salienta-se que as influências orientais da casas-pátio ditaram a forma da clássica casa grega e romana e, na Idade Média, o conceito continuou a usar-se em mosteiros e conventos.

A casa-pátio, nas suas mais diversas versões e configuraçõe, foi e é ainda um elemento importante da boa relação entre privacidade habitacional e cidade pública.

E, a propósito, lembro o ambiente de uma domus citada por Ariès e Duby (3), ... “a residência é antes de mais um largo espaço vazio que se adivinha assim que se penetra no coração do edifício, e por vezes apenas no seu limiar, uma fileira não de salas fechadas mas de espaços: pátio coberto, claustro, jardim com os seus jogos de água; são mais os vazios do que os cheios ... À volta deste vazio estão claramente dispostos pequenos quartos cuja pequenez surpreende; cada um se retira para a sua cela para ler ou dormir, mas vive-se nos vazios centrais, sobre os quais se abrem, a todo o seu comprimento, salas de jantar, como caixas a que faltaria um dos seus quatro lados... Seja na residência rica ou não, uma decoração de cores vivas recobre o chão, as paredes os tectos de mosaicos, de estuques, de pinturas decorativas ou mitológicas … aqui reina a imaginação não a pompa. O espaço inútil era outro luxo e a arquitectura tinha sabido combinar a amplidão do conjunto com a possibilidade de retiro nos pequenos quartos … o espaço central permite o afastamento... Um modesto burguês em Paestum numa casa de cerca de 100m2 com cozinha e três pequenos quartos recortados na margem por um largo pátio”.

Para quem viva, intensamente, as matérias do habitar esta descrição tem extraordinário interesse e faz pensar que a casa-pátio tem uma dupla virtude: a de se agregar com alguma facilidade e interesse volumétrico para fazer cidade contínua, protectora e estimulante em termos de imagens e sequências urbanas, de certa forma como que numa relativa qualificação mais “doméstica” ou intimista do espaço público; e a virtude de dar a partes específicas e estratégicas do próprio espaço doméstico valência agradavelmente mutantes ou diversificadas, como que num mitigado e bem controlado prolongamento do espaço público. E esta dupla virtude é muito útil e no (re)desenvolvimento de velhas e novas tipologias do habitar a cidade e a casa.

E lembra-se que a capacidade de compactação urbana e de agregação das habitações desenvolvidas em torno de pátios parece ser uma arma, bem actual e interessante no aprofundamento de uma estratégica densificação urbana, tratando-se de um caminho que não sacrifica as fundamentais privacidades domésticas, e sendo também um caminho claramente associável ao desenvolvimento de tipologias habitacionais intermediárias, entre o unifamiliar e o multifamiliar, numa estimulante transfiguração da ideia da casa-pátio, para soluções de casas-pátio e casa-terraço mutuamente sobrepostas e diversificadamente imbricadas.



Fig. 03

Desenvolve-se, um pouco mais, esta referência ao chamado “habitat intermediário”, com algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet: “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)” (4). E as autoras, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”

E uma prova teórico-prática desta capacidade urbana agregadora da tipologia-base “casa-pátio” foi dada, já há muitas dezenas de anos, num excelente livro de Serge Chermayeff e Christopher Alexander (5), intitulado “Community and privacy, toward a new architecture of humanism”, no qual os autores demonstram a enorme diversidade de densidades – algumas bem elevadas –, que são possíveis apenas com recurso a edifícios unifamiliares de diversos tipos e em diferentes configurações e agrupamentos, articulados por pátios privativos e comuns. E é preciso sublinhar que se trata de uma obra fundamental para todos aqueles que se dedicam ao estudo da fundamental relação entre continuidade urbana e privacidade doméstica.

E, porque se julga oportuno, fazem-se, em seguida, duas citações desse livro, que se consideram estruturantes destas temáticas: (6)

“Acima de todos os outros um elemento precioso da vida de outrora está em risco de extinção: a intimidade, essa maravilhosa combinação de afastamento, confiança em si próprio, solidão, calma, contemplação e concentração” (p. 23)... Uma forma urbana que tomasse em conta correctamente todas as condicionantes e tensões da nossa época seria capaz de manter uma vida equilibrada, que eliminaria grande parte do desejo de evasão” (p. 35).

No que toca ao interior do habitar (edifício e fogo), provavelmente a grande aposta está no (re)inventar de novas tipologias, adequadas às novas famílias e designadamente às cada vez mais numerosas pessoas sós e aos idosos sós; e a casa-pátio num único piso e na qual o pátio configura um verdadeiro compartimento é provavelmente uma das mais adequadas tipologias para idosos; e lembremos aqui bem a propósito as soluções de Jörn Utzon: as suas casas organizadas em redor de pátios, em Fredenborg (1959-62), cujas raizes o projectista encontrou nas suas viagens mas também na própria Dinamarca e que misturam referências das quintas tradicionais dinamarquesas e chinesas e da arquitectura islâmica ... uma espécie de programa-quadro para o habitar individual, e refere Isabel Salema que é uma arquitectura que "vai ao encontro das necessidades modernas maravilhosamente, e contudo Fredensborg quase podia ter sido construído há mil anos.” (7)

Para rematar este texto é preciso sublinhar que nunca será excessivo referir o urgente reforço da perspectiva histórica nos estudos do habitar. O que não faz qualquer sentido é actuar como se nada para trás existisse em termos de experiência acumulada e debatida, e como se um dado edifício de habitação pouco mais fosse do que um conjunto de elementos de construção e de dispositivos mais ou menos elaborados.

E, afinal, a casa-pátio é uma tipologia que, tal como refere Anton Capitel (8), se identifica com a própria arquitectura ao longo de largos períodos da história do habitar.

Notas:(1) Norbert Schoenauer, “6.000 años de hábitat – de los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidente”, 1884 (1981).
(2) Norbert Schoenauer, “6.000 años de hábitat – de los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidente”, 1884 (1981).
(3) Ariès e Duby, "História da Vida Privada I", 1991, pp.303 e 304.
(4) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18.
(5) Serge Chermayeff e Christopher Alexander, “Intimité et Vie Communautaire – vers un nouvel humanisme architectural“, 1972 (1963), pp. 191 a 197.
(6) Serge Chermayeff e Christopher Alexander, “ Intimité et Vie Communautaire – vers un nouvel humanisme architectural “, 1972 (1963).
(7) Isabel Salema, “Jorn Utzon para além da Ópera de Sidney”, Público, 19 Abril 2003.
(8) Anton Capitel, “La arquitectura del pátio”, 2005.

Infohabitar, Ano VI, n.º 283
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 31 de Janeiro de 2010