domingo, fevereiro 28, 2010

“O limite do habitar: o exposto e o recluso”, seguido de "Casa-pátio: uma tipologia muito versátil" - Infohabitar 287

Infohabitar, Ano VI, n.º 287
(dois artigos sobre a casa-pátio: por Décio Gonçalves e António Baptista Coelho)

Na sequência da edição, há poucas semanas, de um artigo sobre a "casa-pátio", aqui no Infohabitar, o colega professor Décio Gonçalves, graduado em Engenharia mecânica e civil, Mestre e doutor em Arquitectura e Urbanismo pela excelente Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, e já colaborador da nossa revista, enviou-nos o seguinte comentário:
"O tema em si da «casa-páteo» é deveras instigante ... a abordagem abrangente da questão ... sucita um leque bastante rico de análises. Por conta de minha pesquisa em obras de madeira, vieram-me à mente as emblemáticas "Usonian Houses" de Frank LLoyd. Predominantemente, na Jacob House da década de 40 do século passado. Wright aplica a meu ver, o conceito de «casa-páteo» como uma tipologia básica, dando-lhe valor e graça,... pareceu-me pertinente um olhar, ainda que de soslaio, sobre este autor de tamanha relevância para Arquitetura Moderna, permeada pelo enfoque orgânico..."
Ao qual respondi nos seguintes termos:
"Concordo inteiramente consigo e muito especificamente na relação entre casa-pátio e casa orgânica, que podendo parecer à primeira vista conceitos relativamente distintos e talvez tendo sido assim nas primeiras casa-pátio, marcadas pela funcionalidade do abrigo quase básico, acabam talvez por constituir hoje em dia um caminho excelente no que toca ao potencial de agregação das casas-pátio e das casas-terraço em conjuntos muito densificados e urbanos.

Aqui poderíamos retomar a questão de Wright e das suas casas honradamente suburbanas, onde provaelmente o pátio talvez surja na descoberta de uma dimensão doméstica do exterior, para a casa basicamente aberta ao jardim e à paisagem, e quem sabe numa influência da forte vivência japonesa do Mestre."

Desta troca de mensagens entre amigos e colegas e, aproveitando para pedir as devidas desculpas ao Décio pela edição de mensagens pessoais, surgiu a ideia de um artigo a quatro mãos sobre o tema, ideia que se concretizou, na presente edição, com dois textos sequenciais, embora tematicamente distintos, que se editam em seguida e que pretendem, apenas, abrir a discussão e a divulgação sobre as contemporãneas potencialidades da casa-pátio, seja em meio yrbano, denso, seja em meio periférico e numa ampla variedade de níveis de desenvolvimento doméstico; e aqui se deixa o desafio amigável para outras contribuições escritas, fotografias e eventualmente desenhos sobre estas matérias.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho
“O limite do habitar: o exposto e o recluso”por Décio Gonçalvesdg@usp.br

A habitação, enquanto espaço pensado para abrigar seres humanos, de forma confortável e digna, teve em Frank Lloyd Wright e Le Corbusier duas relevantes vertentes no ofício de conceber espaços arquitetônicos, a partir da metade do século XIX, mais precisamente pós 1870.
Essas vertentes projetuais assentaram-se conceitualmente, em Wright nas “Usonian houses”, e em Corbusier nas Unités d`habitation. Ambos conceitos foram fruto de um longo e paciente trabalho de pesquisa em adequar, com correção, maneiras de habitar, tendo a sua culminação no século XX.

Estes conceitos foram concebidos dentro de malhas urbanas bem definidas, apresentando a Ville Radieuse por parte de Corbusier, com o artefato arquitetônico l`apartement como contrapartida a Broadacre City e a villa de Wright, todas inseridas, no âmbito das áreas metropolitanas.

Planejadores e pesquisadores debruçaram-se sobre a questão, advindo muitas análises críticas, sobre as vantagens e desvantagens de cada sistema habitacional. No quesito privacidade de seus habitantes, não há dúvida da excelência das residências unifamiliares em relação as multifamiliares.

Mesmo em se considerando apartamentos ditos de “alto padrão”, é inegável a prevalência das “casas”, como forma de habitar com qualidade e conforto de seus moradores. Independentemente do luxo dos condomínios de apartamentos, estes ainda assim, continuam sendo residências superpostas, com todas as suas implicações envolvidas.

No caso das Usonian houses, e mais especificamente da Jacobs house (1936-ano do projeto), Wright emprega características bem delineadas da Arquitetura orgânica das casas tradicionais japonesas em madeira. Vê-se claramente um sincretismo bem nítido de características construtivas das casas japonesas na Jacobs.





Figura 1 – “Jacobs” vista externa posterior – Fonte: Mc Carter (1997)

O sistema esmerado de pré-fabricação, as tramas ou “grids”, determinadas por elementos geométricos (na Jacobs, o retângulo), fazem um paralelo com os tatamis, a varanda, o pátio, configurando o artefato arquitetônico como sendo uma casa-pátio, são algumas das características similares entre estas habitações emblemáticas, entre outras.

As casas tradicionais japonesas caracterizam-se , bem como a Jacobs pela total integração ao entorno (interno e externo se fundem de forma silenciosa sem tensões).



Figura 2 – Antiga casa japonesa assobradada – Fonte: Kishida (1954)
Atualmente, no Japão, um grande número de pessoas trabalha durante o dia em edifícios modernos, ocidentais, e à noite, as que habitam casas isoladas, o fazem à moda antiga, pois estas refletem a personalidade de seu povo, que valoriza a intimidade e o respeito pelo bem estar próprio e do seu semelhante, apresentando áreas bem definidas de viver em comunidade, onde cercas separam a vida pública do privado, entre o exposto e o recluso.


Figura 3 – O limite entre o exposto e o recluso – Fonte: Engel (1983)
A Arquitetura tradicional japonesa teve grande influência nas obras de Wright, e sua Arquitetura orgânica baseou-se nas casas antigas feitas por carpinteiros e marceneiros japoneses.

Wright nos USA, na década de 30 do século passado, quando do crash da bolsa nova-iorquina em 1929, cria as brilhantes resoluções em madeira, as Usonians houses, apresentando à classe média, à época bastante debilitada financeiramente residências unifamiliares de custo compatível, da ordem de US$ 1,000, através projetos inovadores e métodos construtivos, racionais e exemplares.

Dentro desta tipologia projetual se destaca a preocupação da privacidade de seus moradores, propiciando o resguardo da habitação em relação ao ambiente externo, ao mesmo tempo, faz com que a casa se interaja e se integre plenamente com a Natureza do entorno. Wright estabelece em sua Arquitetura limite bem definido entre os mundos: exposto e o recluso.

Esta questão traz em seu bojo uma pergunta, ou seja, não seria esta uma maneira de repensar as habitações contemporâneas?
Referências bibliográficas:
ENGEL, Heinrich. Sistemas Estruturais. Barcelona: G.Gili, 2001.
KISHIDA, Hideto. Japanese architecture. Tokyo: Japan Travel Bureau, 1954.
McCARTER, Robert, Frank Lloyd Wright, Phaidon Press Limited, London, 1997.





"Casa-pátio: uma tipologia muito versátil"
por António Baptista Coelho
abc@lnec.pt

Procurando linhas de resposta estruturantes à questão de a casa-pátio poder ser uma maneira de repensar as habitações contemporâneas, não é possível deixar de relembrar, em seguida, uma ideia mais teórica, uma outra mais prática e finalmente uma outra teórico-prática - e, depois, serão feitos, ainda, alguns outros comentários sobre a aplicabilidade da tipologia na habitação de interesse social, que é uma forma de se defender a possibilidade de uma sua aplicação razoavelmente ampla.

Em primeiro lugar e em termos mais teóricos, embora com base numa ampla investigação tipológica prática, por sinal incidindo muito especificamente em habitações de interesse social, importa relembrar que tal como defendem Monique Eleb e Anne Marie Chatelet o “habitat intermediário”, que é aquele "de fusão" das características de densificação física das soluções multifamiliares com as de autonomia de acesso e de existência de espaços exteriores privativos proporcionadas pelo unifamiliar, caracteriza-se, frequentemente, por “terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas", numa oferta plástica e funcional que proporciona a tal "escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.” (1)

E podemos considerar que será, muito provavelmente, a distribuição neste habitat intemediário de pequenos pátios, mais ou menos interiorizados, e de pátios/terraços também mais ou menos encerrados, uns e outros desenvolvidos em diversos níveis, que poderá assegurar, neste tipo de habitar, uma adequada aliança entre condições de privacidade e de apropriação individualizada, de cada habitação, e de "compactação" e continuidade/densidade urbana do agregado habitacional assim desenvolvido.

Fig. 01: perspectivas e planta dos edifícios unifamiliares evolutivos de habitação de interesse social do Bairro do Alto do Moinho, Plano Integrado do Zambujal, projectado no âmbito do Seviço Ambulatório de Apoio lOcal (SAAL) por Francisco Silva Dias (1975/78).
Em segundo lugar há que relembrar que a prova teórico-prática da capacidade urbana agregadora da tipologia “casa-pátio” foi proporcionada, já há algumas dezenas de anos, no fundamental livro de Serge Chermayeff e Christopher Alexander (2), intitulado “Community and privacy, toward a new architecture of humanism”. E refere-se ser este um livro fundamental pois ele trata, afinal, de um tema de primeira linha na nossa nova e supreendente sociedade mega-urbana: como harmonizar comunidade/convivialidade e privacidade/apropriação no habitar, articulando, assim, aspectos de densificação e continuidade urbana com os, igualmente importantes, aspectos de privacidade e apropriação do espaço doméstico de cada um.

E esta mesma obra é essencial no perspectivar da importância dos espaços e dispositivos mais urbanos, mais de vizinhança e mais privados, responsáveis pelas relações de transição, de limiar e de relação entre os referidos níveis mais urbanos ou mais domésticos; e ao longo de todo o referido livro o "pátio", vai surgindo, seja na sua forma mais urbana da praceta de vizinhanças, seja na sua forma doméstica que proporciona a agregação de múltiplas habitações, em agrupamentos fortemente densificados, mas resguardando-se a referida privacidade de fruição de cada habitação e enriquecendo-a, mesmo, com a dimensão de um exterior privativo significativo.

E lembra-se, aqui Richard Sennet (3), que aborda o desequilíbrio que hoje caracteriza as relações entre usos públicos e privados, e partindo de uma análise com bases históricas destaca, entre outros aspectos, a actual incivilidade que marca muitas das nossas relações desejavelmente comunitárias e públicas/civilizadas, enquanto, por outro lado, há um avolumar de tudo o que a intimidade acaba por impor.

Fig. 02: na proposta de Christopher Alexander para Lima, aqui esquematizada, aprofunda-se, exactamente, a densificação urbana com uma solução doméstica extremamente privatizada, com recursos a múltiplos pequenos pátios.
Em terceiro lugar e no que se refere ao interior da habitação salienta-se o interesse que pode ter o desenvolvimento de uma solução que estruture o espaço doméstico em torno de um ou vários espaços exteriores privados e importa pensar um pouco nesta virtualidade, pois em termos de opções globais de concepção é como se o espaço interior doméstico capturasse um pouco do exterior, tornando-o privado e "domesticando-o", o que proporciona uma relação sequencial: nível doméstico exterior privado; nível doméstico interior privado; nível público exterior, mas ainda, desejavelmente de vizinhança; eventual nível comum edificado e interior; e finalmente o nível exterior público.

Esta é uma possibilidade muito completa e "perfeita", quase nunca atingida, que aqui se refere para se poderem entender as virtualidades directas - de uso doméstico efectivo e económico (um pátio exterior não tem cobertura e pode ser ajardinado pelos próprios habitantes) - e indirectas - de estruturação de uma estimulante sequência de níveis habitáveis reais e também estimulantemente simbólicos - proporcionadas por casas-pátio que nem precisam de ser especialmente espaçosas.

Fig. 03: na Malagueira Siza Vieira usou a casa-pátio no sentido da máxima harmonização entre a vida privada doméstica, para lá dos muros "tradicionais" e a continuidade convivial da rua; e trata-se de habitação de interesse social. Neste conjunto as densas aglomerações de casas-pátio geram ricas continuidades urbanas com uma forte escala humana e evocadora da cidade histórica. Na Malagueira aplicam-se soluções domésticas unifamiliares evolutivas centradas em pátios privativos e formando ruas estreitas e densas, mas com baixa altura do edificado. Salienta-se que esta grande intervenção se desenvolveu ao longo de alguns anos sendo acabada já após 1984, com apoio do INH.
Além de tudo isto, há que referir que a casa-pátio e especificamente a que é desenvolvida num único piso é uma tipologia extremamente versátil em termos do seu uso, sendo muito adequada, quer para famílias com crianças, quer para idosos. E naturalmente há que referir aqui as pequenas casas-pátio de Jörn Utzon na Dinamarca e na Suécia, sendo que o conjunto em Fredensborg (1959-62), constitui um exemplo perfeito dos vários níveis acima referidos: pátio bem habitável e com a configuração/dimensão de um grande compartimento (exterior), atraentemente murado, mas permitindo algumas vistas pontuais do interior sobre a vizinhança; rodeado por uma casa térrea em "L", com a sala e um quarto/estúdio de um dos lados, e a cozinha, o quarto e a casa de banho do outro; um espaço de vizinhança afirmado e diversificado, seja no acesso rodoviário, seja no miolo de vizinhança ajardinado; depois um nível de espaços comuns com alguns quartos que podem ser ocupados com marcação, e finalmente a relação com o espaço público/citadino. (4)

Este foi um conjunto de habitação de interesse social (63 habitações mais espaço comum) projectado por Utzon depois de ter estudado em pormenor conjuntos realizados com o mesmo tipo de condicionantes em termos de controlo de áreas (habitação com três quartos e sala, 104m2) e de custos.

Cada uma das habitações de Fredensborg tem uma característica especial que resulta da sua posição e tipo específico de agregação, embora a sua forma geral seja bastante uniforme e construtivamente simples, sendo que as paredes que encerram o pátio proporciom o seu uso de acordo com os desejos de cada habitante/família sem que haja interferências negativas com os vizinhos, ganhando-se, assim, capacidade de adequação e espaço habitável a muito baixo custo. (4)


Fig. 04: esquema de conjunto em Milton Keynes (UK), onde fica evidenciada a capacidade de estruturação doméstica proporcionada pelo pátio.

Neste artigo procuraram-se alguns caminhos para a questão de a casa-pátio poder ser uma maneira de repensar as habitações contemporâneas, oferecendo-lhes um excelente potencial de adaptabilidade. E, a propósito salienta-se que os desenhos que ilustram o texto foram retirados do livro editado pelo LNEC e disponível na sua livraria, intitulado "Habitação evolutiva e adaptável". (5)

Para outros artigos sobre esta temática ficarão pequenas viagens comentadas sobre variadas soluções de casas-pátio realizadas nos últimos anos em Portugal, no âmbito da promoção de habitação de interesse social; o que serão também a prova clara da actualidade da tipologia casa-pátio.


Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18.
(2) Serge Chermayeff e Christopher Alexander, “Intimité et Vie Communautaire – vers un nouvel humanisme architectural“, 1972 (1963), pp. 191 a 197.
(3) Richard Sennet, “El declive del hombre público” (,(The Fall Of Public Man), 1992.
(4) Tobias Faber; Jens Frederiksen, "Jørn Utzon: Houses in Fredensborg", Ernst & Sohn, 1991.
(5) António Baptista Coelho e António Reis Cabrita, "Habitação evolutiva e adaptável", Lisboa, LNEC, ITA 9, 2003.
Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, o conteúdo dos artigos é da exclusiva responsabilidade dos respectivos autores.
Infohabitar, Ano VI, n.º 287Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 28 de Fevereiro de 2010


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