segunda-feira, junho 24, 2013

COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS E CONHECIMENTO HISTÓRICO - I - Infohabitar 445

Infohabitar 445
NOTAS SOBRE COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS E CONHECIMENTO HISTÓRICO - I
António Baptista Coelho


Na continuidade temática da última edição do Infohabitar, em que se abordaram alguns aspetos relativos ao que designámos como a matéria da “organização e da composição de edifícios habitacionais” e na sequência de alguns comentários que nos chegaram do colega Prof. Hélio Costa Lima sobre este assunto, comentários que muito agradecemos, desenvolvemos na edição, desta semana uma pequena reflexão sobre a concepção de edifícios habitacionais, tendo em conta a influência do conhecimento histórico do habitar urbano e visando-se as suas potencialidades individuais, sociais e urbanísticas.

Este pequeno artigo desenvolve-se, assim, com o recurso, pontual e sistemático, a alguns dos referidos comentários enviados por Hélio Costa Lima, sendo que a partir deles se fez uma reflexão livre sobre o assunto.

Inicia-se, assim, aqui no Infohabitar, uma nova tipologia de artigos resultante de um diálogo direto focado em determinadas temáticas; um tipo de texto que parece poder ter grande interesse e para o qual se convidam outros leitores, designadamente, através de comentários editados no Infohabitar, que depois poderão integrar-se em sequências de reflexão como a que é aqui iniciada.


Aprofundando-se então, mais um pouco, o que se pode considerar como os aspectos fundamentais na estruturação dos edifícios habitacionais, faremos um pequeno recuo para aspetos mais globais de composição, que importa ter em conta antes de serem consideradas a maior ou menor evidenciação: de cada habitação no conjunto edificado; da existência de um espaço exterior directamente associado ao edifício; e da presença dos espaços comuns e equipamentos comuns de circulação/acessibilidade.

A questão está na possibilidade de criação e recriação de “novas” soluções de edifícios, uma excelente matéria, em que, desde já, importa esclarecer que se usaram as aspas na designação de novas soluções, pois considera-se que muitas soluções de edifícios foram já criadas, aplicadas, reaplicadas e reformuladas, inúmeras vezes, resultando esta situação:

- seja de uma lenta e bem consolidada evolução histórico-tipológica, que é já muito longa e rica – afinal a história do habitar urbano tem cerca de 10.000 anos – e cujo conhecimento é ainda reduzido, designadamente em termos das soluções urbanas e habitacionais mais correntes;

- seja de uma busca tipológica intensa e igualmente muito rica, que marcou fortemente o Sèculo XIX, que foi uma das caraterísticas do habitar do Século XX. e que está a marcar e terá de marcar, expressivamente, este nosso ainda novo Século das Cidades e da consolidação de novas formas e novas necessidades de habitar; e aproveita-se para salientar que foi durante este “pequeno” período temporal e designadamente durante o Século XX, que foram geradas tipologias que se tornaram perigosamente influenciadoras de toda a posterior concepção residencial e urbana e que convém criticar de forma sistemática e bem justificada, uma tarefa que precisa ainda de muito trabalho.

- seja de uma situação, mais recente, de reconversão ou adaptação do habitar existente em zonas históricas a novas exigências regulamentares; uma situação que gera problemas e tipologias diversas de intervenção e que, provavelmente, obriga/obrigará a medidas regulamentares específicas.


Por isto se refere, acima, a palavra “recriação”, que está associada a uma noção de reinterpretação de determinadas soluções e da sua adaptação e/ou evolução na resposta a novas necessidades e desejos de habitar a célula habitacional, o edifício, a vizinhança e mesmo a cidade; pois todas estas dimensões têm reflexos seja na reinterpretação de soluções, seja na tradução e no apoio a determinados usos e gostos de habitar e de vivência.

Naturalmente que a “criação” mais livre de “novas” formas de habitar é sempre uma possibilidade e uma realidade, tal não se nega, mas pretende-se, apenas, sublinhar a importância do conhecimento, bem sedimentado, do passado do habitar no espaço urbano e na paisagem como base de inspiração de “novas” soluções caraterizadas por um expressivo capital de adequação potencial, seja a uma grande diversidade de vontades/desejos de habitar, seja a um amplo leque de quadros e cenários urbanos pormenorizados, específicos e desejavelmente bem caraterizados.

Sobre esta temática escreveu Hélio Costa Lima (HCL), na mensagem acima referida: “A invenção do futuro não pode se dar sem a consideração do passado”; e é bem verdade que nos casos em que esta consideração não se verifica provavelmente até poderemos ter um excelente elemento formal/plástico, artístico, mas só termos um habitar adequado talvez por acaso.

E logo de seguida HCL lamenta o negligenciar da tradição arquitetónica “como referência tipológica para a inovação em habitação”; e o mesmo autor afirma, referindo-se ao legado histórico urbano e habitacional: “Não se enxerga o que esse legado nos oferece em termos de conhecimentos organizacionais, ambientais, tectônicos e lúdicos a serem capitalizados a favor de uma habitação socialmente justa, ecologicamente correta, economicamente viável e mais aprazível.”


E recorda-se aqui não ter sido por acaso que, em Portugal, após o grande estudo sobre habitação popular, as novas grandes intervenções de habitação de interesse social ganharam um enorme suplemento de (nova) alma, que evidentemente não se circunscreve a aspetos formais gerais e de pormenor, mas qualifica a solução globalmente, caraterizando-a, promovendo a sua identidade, seja em termos de edifício, seja em termos de elemento que integra o respetivo quadro urbano de vizinhança.

Foram/são novas formas globais marcadas por grandes chaminés verticalizadas; são grandes átrios comuns e elevados que levam o “espaço público” tradicional bem perto das portas dos apartamentos em altura; são varandas formalizadas com o sentido de alpendres tradicionais e bem funcionais em área, dimensões e relações; são acabamentos marcados pela verdade dos materiais, uma verdade que é tão tradicional como racionalista; são soluções de coberturas inclinadas e bem salientes das fachadas, mas realizadas com novas tecnologias. E poderíamos continuar (e em tempo continuaremos) aqui a lembrar o que foi a importância do conhecimento do tradicional na reinvenção de novas formas de habitar em Portugal, depois do estudo “Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal”.

Podemos e devemos, então, beber no riquíssimo habitar "histórico" urbano e habitacional e, designadamente, em soluções históricas bem integradas de habitação e cidade, excelentes fontes de inspiração para um "novo" habitar bem fundamentado e tão bom para as nossas cidades como para o nosso bem-viver; mas atenção que há que desconsiderar as intervenções em zonas históricas onde, tal como refere HCL, acontece uma “obsessão pela conservação do objeto material, mas não do seu conteúdo imaterial.”



O bom caminho passa pela recriação de soluções e tipologias integradas de vizinhança, edifício e habitação, mais adequadas às nossas atuais formas de habitar e viver a cidade, às nossas atuais necessidades humanas, etárias e sociais, e igualmente mais adequadas às nossas atuais e futuras cidades e megacidades, que também têm novas necessidades e novos problemas, que serão muito dificilmente satisfeitos e resolvidos apenas com as tipologias “únicas” racionalistas, pois, afinal: os habitantes mudaram e estão a mudar e as cidades mudaram e estão a mudar.

E provavelmente será, em boa parte, nas cidades históricas e quem sabe até em partes das atuais cidades informais mais sedimentadas e adequadas de hoje, que encontraremos boa inspiração para abordar tais necessidades e problemas, criando "mesmo" ou recriando tipologias, que não será por serem diferentes das habituais que serão mais caras, salientando-se que esta questão do custo é uma matéria específica, que tem as suas próprias exigências e especificações, aliás já bastante bem conhecidas.

E, simultaneamente tenderemos assim a libertamo-nos, nas áreas do habitar e da cidade, da doentia repetição tipológica sem sentido e cada vez com menos sentido, e até dos problemas que a inovação pela inovação provocou, nas últimas dezenas de anos, pois nós não somos máquinas e as cidades também não o são, têm de ser funcionais, naturalmente, mas acima de tudo têm de ser quadros adequados para as pessoas isoladas e em grupos e neste sentido a referida funcionalidade geral tem de estar ao serviço do bem-estar humano.

De certa forma podemos referir que o repensar das soluções e tipologias habitacionais é urgente, tem de integrar soluções de vizinhança, edifício, espaços comuns e espaços privados/familiares, e tem de reconsiderar as atuais estruturas familiares, os atuais e novos desejos habitacionais e as atuais necessidades sociais, familiares e pessoais.

De certa forma podemos avançar e sintetizar que este repensar das soluções e tipologias habitacionais deverá ser feito:

- seja através de espaços urbanos extremamente bem habitáveis (em intensidade e duração de usos);

- seja através de soluções de grande integração entre edifícios de habitação e vizinhanças urbanas com exteriores protagonistas;

- seja explorando “novas” tipologias multifamiliares com dimensão equilibrada e com algum sentido de identidade em cada habitação;

- seja reinventando “novos” edifícios mistos (habitacionais e de equipamento), novos equipamentos residenciais em que o sentido “hoteleiro” terá a sua utilidade;

- seja concebendo novos equipamentos coletivos em que esteja muito reforçado o sentido residencial (desde lares de terceira idade a hospitais e centros de saúde).

Exige-se assim grande diversidade de oferta, expressiva adaptabilidade e reforçada ligação entre habitação e cidade, matérias estas que encontram ricas fontes de referência na longa história do habitar urbano, um caminho que, naturalmente, tem de passar pela formação/informação aos projetistas e pelas escolas de arquitetura, onde, infelizmente, hoje em dia e tal como refere Hélio Costa Lima, “o estudo do "histórico" e o estudo do «contemporâneo» convivem como irmãos siameses: presos num mesmo corpo, mas de costas um pro outro.”

E termina-se este artigo com a ideia de que em vez de se desenvolver uma reflexão razoavelmente completa sobre o tema em questão - COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS E CONHECIMENTO HISTÓRICO – se teram levantado mais uma outra série de aspetos de reflexão, o que se justifica por ser esta, realmente, uma "temática que nos pode e deve levar muito longe ..."

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

(ii) Para proporcionar a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt

INFOHABITAR Ano IX, nº445

COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS E CONHECIMENTO HISTÓRICO - I Edição de José Baptista Coelho

LNEC-Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) e

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

segunda-feira, junho 17, 2013

EDIFÍCIOS HABITACIONAIS: ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO - Infohabitar 444


Infohabitar, Ano IX, n.º 444

- Infohabitar 444
  ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Artigo XXXIII da Série Habitar e Viver Melhor

António Baptista Coelho

Na sequência da reflexão ampla e razoavelmente sistemática sobre um melhor habitar, mais criativo e adequado, que temos estado a tentar fazer nesta Série de artigos intitulada “habitar e viver melhor” – iniciados no espaço urbano e que chegaram agora aos espaços edificados – , vamos desenvolver, neste texto uma pequena reflexão sobre o que se pode considerar como os aspectos fundamentais na estruturação dos edifícios habitacionais, que se relacionam com a sua dimensão geral, a existência afirmada de elevadores e a maior, ou menor, evidenciação de cada habitação no conjunto edificado; um outro aspecto, de certa forma suplementar e que aqui se evidencia, na sua importância tipológica, será a existência evidenciada de um espaço exterior directamente associado ao edifício.

Provavelmente a inovação fundamentada e adequada (na mudança e na adaptabilidade), que se defende para os espaços comuns do habitar e de que se irá falar para a concepção de novas soluções domésticas, encontra e encontrará aqui, na criação e recriação de novas soluções de edifícios, uma excelente matéria, à qual iremos voltar, aqui e ali, nesta Série editorial, ao sabor dos sítios e das ideias de que vamos falando.


No entanto importa, desde já, referir que uma tal inovação deverá ter em conta o enorme leque de soluções que foram sendo experimentadas desde a invenção da povoação, há cerca de 10.000 anos, com um especial enfoque nas soluções mais replicadas e reinterpretadas – nas quais tem presença especial a casa-pátio (ou o pátio-casa) – não fazendo qualquer sentido andar-se, constantemente, a reinventar várias pólvoras; e uma tal reaplicação e reinterpretação tem de ser criteriosa e actual, podendo, na prática, gerar verdadeiros novos modelos de habitar.

E importa também apontar que uma tal inovação pode decorrer, em boa parte, de soluções de (re)articulação e de síntese diversificadas dos diversos elementos constituintes e de composição que se conhecem, visando-se objectivos específicos, quer de melhoria das condições domésticas, quer de melhoria das condições de agregação no edifício, quer de melhoria das condições de vizinhança de proximidade e de continuidade e vitalidade urbanas, quer, naturalmente, de economia de construção e de manutenção.

E julga-se que tudo isto terá muito mais interesse do que continuarmos irredutíveis a defender velhas tipologias de edifícios muitas das quais tiveram origem em processos construtivos e culturais específicos e muitos deles datados e localizados. Uma afirmação que, evidentemente, não pode conflituar com os fundamentais objectivos de justeza e coerência de linguagens formais e construtivas em zonas integradas em paisagens a proteger.

Considerando-se a ideia-base desta Série editorial de tentar identificar aquilo que é potencialmente mais determinante da satisfação residencial e neste caso especificamente nesta temática dos diversos tipos de edifícios poderemos identificar um conjunto bastante limitado de aspectos, entre os quais se identificam (numa listagem vientemente dinâmica) os seguintes:

1. Independência formal da habitação relativamente à sua envolvente e a outras habitações e/ou possibilidades da sua apropriação/identificação.

2. Acesso privativo da habitação ao exterior público.

3. Estimulantes formas de agrupamento de fogos em edifícios…

4. Reduzido número de habitações agregadas num mesmo conjunto servido por acessos comuns.

5. Edifício com baixa altura, tendo em conta especificamente o relacionamento que permite, ou não, com o espaço envolvente; alternativamente uma altura mais elevada poderá associar-se a uma atraente imagem urbana.

6. Existência de elevador(es).

7. Existência de escadas ergonómicas e ambientalmente agradáveis.

8. Espaciosidade, dignidade e orientação nos espaços comuns.

9. Dignidade, identidade e orientação nas entradas comuns.

10. Dignidade, identidade e capacidade de apropriação nas entradas privadas.

11. Existência de boas condições de luz natural, ventilação e vistas nos espaços comuns.

12. Existência de boas condições de conforto térmico nos espaços comuns.

13. Reduzido número de vizinhos por agrupamento horizontal de acessos.

14. Integração do edifício na respectiva vizinhança urbana e paisagística.

15. Pormenorização da imagem pública do edifício com destaque para o seu remate térreo.

16. Existência de espaços privativos fora das habitações, como garagens e arrumações.

17. Existência de espaços de condomínio com desenvolvimento significativo e sem presença negativa no espaço público (não criando descontinuidades no espaço público).

18. Existência de espaços exteriores (privados, comuns ou públicos) cuidados na contiguidade do edifício.

19. Existência de varandas ou terraços.

20. Possibilidade de integração de elementos de vegetação.

Sublinha-se que com estes ingredientes é possível concretizar diversas soluções de edifícios e diversas agregações habitacionais. No entanto e à partida muitas soluções correntes parecm ficar quase imediatamente postas de lado, em termos de potencial de satisfação, como é o caso, por exemplo, de grandes torres habitacionais com imagens públicas monótonas e espaços comuns interiores.

Também se salienta que das diversas misturas dos referidos ingredientes poderão resultar soluções diversificadamente equilibradas; por exemplo um maior número de habitações agregadas em torno de agradáveis e amplos espaços comuns de condomínio.



Para concluir esta reflexão mínima sobre os diversos tipos de edifícios façamos agora um pequeníssimo apontamento sobre o chamado “habitat intermediário”, através de algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet (1); dizem as autoras que “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)”, e, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”

Julga-se que esta matéria é de enorme importância, esta ideia de caldear caracterizações multi e unifamiliares indo, tendencialmente, buscar o que de melhor umas e outras têm para um habitar urbano verdadeiramente agradável e estimulante; quem sabe numa aliança entre um carácter e uma identificação aparentemente independente e expressiva da presença de cada habitação no conjunto da vizinhança e uma disponibilização de um conjunto de serviços úteis e diversificados e mesmo de um ambiente gregário que seja veículo de um sentido de protecção mútua e de apropriação de uma pequena parte da cidade.

Finalmente, considera-se que há um outro aspecto que tem uma insuspeitada importância na geração de soluções ou tipos habitacionais verdadeiramente atraentes e apropriáveis, refiro-me aqui aos aspectos de escala e de ligação, eventual e talvez tendencialmente, telúrica da edificação térrea e das soluções edificadas expressivamente marcadas por habitações térreas.

Soluções estas habitualmente associadas a uma forte perspectiva residencial humanizada, um aspecto que se julga ficar bem evidenciado nas palavras de Isabel Salema, referidas à arquitectura de Jörn Utzon (2003): “as raízes das suas casas organizadas em redor de pátios, visíveis nas casas de Fredenborg (1959-62), encontrou-as nas suas viagens mas também na própria Dinamarca. Misturam referências das quintas tradicionais dinamarquesas e chinesas e da arquitectura islâmica ... uma espécie de programa-quadro para o habitar individual, capaz de criar um espaço colectivo inesquecível, e no entanto sem qualquer sugestão do arquitecto ter imposto a sua personalidade aos outros. Vai ao encontro das necessidades modernas maravilhosamente, e contudo Fredensborg quase podia ter sido construído há mil anos.” (2)

E reparemos aqui que se misturam, e muito bem, aspectos de individualidade e comunidade nestas referências a uma arquitectura residencial chã e/ou expressivamente marcada pela escala humana, aspectos estes que pelos vistos cruzam a Europa de Norte a Sul, da colónia para casais idosos em Fredensborg, feita há poucas dezenas de anos, às tantas habitações térreas e/ou expressivamente humanizadas e mediterrânicas.

Mas esta é temática que nos pode e deve levar muito longe ...

Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18
(2) Isabel Salema, “Jorn Utzon para além da Ópera de Sidney”, Público, 19 Abril 2003.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
(ii) Para proporcionar a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº444
ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Edição de José Baptista Coelho
LNEC-Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) e
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte







segunda-feira, junho 10, 2013

Portugal 10 junho - Infohabitar 443

Infohabitar, Ano IX, n.º 443

Editamos, em seguida, com uma muito especial satisfação, um novo texto daquela que foi uma das primeiras pessoas a escrever no Infohabitar, há já mais de nove anos.
Trata-se da Arq.ª Paisagista Maria Celeste Ramos, a quem aqui saudamos com especial carinho e amizade e que nos permitiu a edição de um seu recente texto, elaborado a convite do editor do “Fri-luso”, um jornal português de Fribourg – Suiça, para ser editado neste jornal; aproveitando também para agradecer a este jornal esta gentileza.
Como verão o texto da colega Maria Celeste Ramos está totalmente ligado à semana que vivemos em Portugal (registando-se que a responsabilidade pela escolha das imagens é do editor da Infohabitar).
Fiquem então com “Portugal 10 junho”, aproveitando-se para enviar um abraço amigo e um agradecimento muito especial à Maria Celeste Ramos,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Portugal 10 junho

Portugal meu país
Pequenino
Onde nasci e cresci e me fiz
Consciente de mim
E do lugar de nascer e de ser o que se é
Assim,
Tu meu querido país nasceste lá para cima em Guimarães que alguém decidiu que fosse
Em 2012 a Capital Europeia da Cultura – e do desporto europeu também
Foste honrado com esse pedido a que respondeste com a dignidade por nós esperada e pelos
outros admirada pois que tão visitada por tantos mundos d’além
E pela primeira vez festejaste tudo o que somos levando para os palcos os habitantes do campo tal
como são e vivem e se enfeitam nas suas vestes e que fizeram as nossas mais belas
paisagens milenares e assim não foram mais esquecidos
E as artes, todas, primordiais de todos os que ainda as guardam na sua inteireza
Gente que parecia ter pertencido sempre a um “palco” que afinal lhe pertence mas nunca tinha
sido, assim, mostrado ao mundo inteiro.


Nasceste nessa Cidade antiga de séculos e de pedra feita
Dura, duradoura, eterna
Até nas casas rurais de granito negro e branco imaculado de cal yin yang
Até nas casas dos animais e desses celeiros empoleirados nas montanhas de pedra únicos no
mundo que denominados de Espigueiros onde não há tecnologias mas apenas o clima e o
nosso ar e sol e calor mas protegidos das chuvas e das intempéries e mesmo dos ratos que
tanto gostam de se alimentar do mesmo que os homens
Criação tão sábia de quem com a natureza rude vive todos os dias e a entente e com ela
dialoga percebendo-a
Casas para guardar os cereais , elas também encimadas por uma cruz
Como nas Catedrais, essa, a de Braga, do séc. III, sede de arcebispado
Quem sabe, a mais velha do mundo

... e sempre a CRUZ que acompanha Portugal

Como tu Cidade, como tu meu País, minha “casa-de-nascer” e
De crescer
Se ser o que cresci e também ser emoções
Em pedra gravadas como vivendo e dizendo-o para sempre
Portugal país pequenino e velho dessa Portus Calle
À procura do Santo Graal aí
Ou talvez naquele Castelo encantado dos Mouros no Monte da Lua implantado
Mouros que também andaram por aqui e deixaram riqueza, riquezas, palavras e
Sabedoria e artes, que aqui ficaram e assimilámos é são parte do sermos o que somos
Porque desde sempre a esta terra tudo vem parar de todos
Os povos do mundo
Até ao mais belo luar que de prata ilumina o Rio inteiro que com o céu se confunde na noite
mais escura
E o sol que em maio é mais luminoso parecendo levar o céu para mais alto e se enche daquelas
montanhas de cúmulos brancos com tanta luz, montanhas celestes tornando-o mais azul
Esse Céu de Buda
Até ao mais belo e prolongado pôr-do-sol do nosso universo e que à tardinha se entrega ao Mar
Para ir descansar até voltar a nascer de todas os tons de rosa e nos faz esquecer que o dia
anterior talvez tivesse sido triste
Mas nos faz de novo re-erguer
E somos assim, país pequenino cheios de luz e de sol e de luar e de poesias e poemas e
poetas grandeza da natureza, dádiva de Deus que criou este lugar e chamou o nosso primeiro
rei para nos governar e guiar e ensinar a honrar o lugar em que nascemos


Poetas que cantam o Amor e as Tágides e o sofrimento com a mesma grandeza
Canta-se a nossa Alma eterna que o Fado sempre cantou e o Mundo reconheceu
E que mesmo com tantas guerras que aqui nos vieram inflingir ou obrigadas a participar e são
motivo de celebração para os países invasores
Mas meu país celebra a Libertação e Liberdade dos verdugos com o 25 abril como celebra o 10
de Junho da Liberdade
E o amor pela Palavra
Que se tornou uma das nossas maiores riquezas
Porque a Minha Pátria é a Língua Portuguesa
Língua que se espalhou pelos 5 continentes e também ela agora humilhada e ofendida e
invadida interessantemente por um único país que por ser populoso se agora poder ser invasor
não pelas
Armas
Mas pelo património que até do Portugal pequenino herdaram porque não tinham sequer língua
A dos seus ancestrais que a Europa desconheciam

Palavra de Luiz Vaz de Camões , poeta, homem das palavras de Amor e de Dor
Que espalharei por toda a parte se a tanto me ajudar Amor e Arte
Poeta fidalgo e infeliz, deportado e humilhado, ofendido mas também celebrado nos lugares
para onde levou a nossa “alma” e esses países ergueram padrões e a sua efígee em pedra e
bronze – as armas e os barões assinalados
Navegador, épico ao lado da mesma grandeza de Virgílio e Homero
Neste Dia Nacional, Dia 10 de Junho, dia do Verbo e da Língua e de Luis de Camões
A ARMA é a PALAVRA
De amor universal e alma levadas e inscritas nas velas Pandas com o desenho da Cruz de Cristo
na dilatação da Fé e do Império
Vela Latina – vela portuguesa – que chegou ao SriLanca e ao Sião, às terras de Prestes João
das Índias
E ao mais recôndito Continente da Austrália que não foi descoberto por Kook mas por um
português que se perdeu no mar
Segundo reza a cartografia descoberta por caso em Biblioteca de Haia
Mar salgado quanto do teu SAL são lágrimas de Portugal
Os 5 continentes desbravados que Fernão de Magalhães mostrou
como Galileu não se enganou
Ah e até mais um mar se descobriu, e se lhe chamou Pacífico,
até ai desconhecido do mundo que nunca perdeu oportunidade
De ir atrás e reivindicar o que não fez
Como faz agora essa terrível e falsa UNIÃO em que mais uma vez é invasora
e demolidora da Honra de Portugal que já era país quando estava em permanentes guerras e
sem fronteiras definidas.
Como demolidora é quando inventa vacas loucas
E porcos e galinhas transgénicas
E crimes contra a humanidade e mesmo os seus, como hoje,
Em que se deu de comer a operários de fábrica alemã
Alimentos envenenados
As nossas fronteiras, as mais velhas do mundo foi país
E povo que não aniquilou Civilizações e qu,e em vez disso levou,
Levou amor para entre todos os irmãos
Com a palavra de o dizer
Junho 10, o dia da Língua e da palavra
Mas qual ?’
A de não importa que país que a tenha
E a use para celebrar e não como arma de matar
Meu querido país pequenino


Onde aprendi o que sei e sou
Já não somos os “donos do mundo” repartido com outros
Mas será que somos de nós mesmos ??
Diz-se que não
Eu país pequenino e já muito velho e já farto de sofrer
Que de novo a PALAVRA caia sobre os homens e sobre nós
Foi no meu país pequenino
Que tudo aprendi
Até que havia muitos outros e que visitei, mas para voltar sempre a casa
Como faz qualquer emigrante
A esta terra de bemfazer e ser investido da Alma que somos
Para voltar e ser


Maria Celeste d’Oliveira Ramos



18 abril 2013

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

(ii) Para proporcionar a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº443
Portugal 10 junho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

segunda-feira, junho 03, 2013

ESPUMA PU DE ÓLEO VEGETAL NA ARQUITETURA: ALTERNATIVA ECOLÓGICA PARA ISOLAMENTO TÉRMICO DE SISTEMAS DE COBERTURA - Infohabitar 442


Infohabitar, Ano IX, n.º 442

Editamos, em seguida, com grande satisfação, mais um artigo apresentado no LNEC em Lisboa, em março de 2013, no 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (2.º CIHEL) e 1.º Congresso da Construção e da Reabilitação Sustentável de Edifícios no Espaço Lusófono (1.º CCRSEEL); e deseja-se que outros colegas e designadamente outros congressistas do 2.º CIHEL e 1.º CCRSEEL, possam disponibilizar os seus trabalhos para edição, aqui, na Infohabitar.
Salienta-se, ainda, que os artigos do Congresso foram devidamente submetidos à análise da respetiva Comissão Científica, havendo todo o interesse na sua máxima divulgação.
A diversidade das temáticas que têm sido editadas nas últimas semanas evidencia o riquíssimo quadro de estudos e experiências práticas que caraterizou o Congresso.

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar

ESPUMA PU DE ÓLEO VEGETAL NA ARQUITETURA: ALTERNATIVA ECOLÓGICA PARA ISOLAMENTO TÉRMICO DE SISTEMAS DE COBERTURA

PU foam from vegetable oil applied to architecture: ecological alternative to thermal insulation in roof systems

Grace Tibério Cardoso (1), Francisco Vecchia (2) e Salvador Claro Neto (3)

(1) Universidade de São Paulo (Aluna de Doutorado da Pós-Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental – USP), Av. Trabalhador Sãocarlense, 400, Pq Arnold Schimidt, CEP 13566-590, São Carlos - SP/Brasil, E-mail: grace.cardoso@usp.br)

(2) Universidade de São Paulo (Prof. Associado do Departamento de Hidráulica e Saneamento, EESC – USP, Av. Trabalhador Sãocarlense, 400, Pq Arnold Schimidt, CEP 13566-590, São Carlos - SP/Brasil, E-mail: fvcchia@sc.usp.br)

(3) Universidade de São Paulo (Pesquisador do Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros, IQSC – USP, Av. Trabalhador Sãocarlense, 400, Pq Arnold Schimidt, CEP 13566-590, São Carlos - SP/Brasil, E-mail: salvador@iqsc.usp.br)

Palavras-chave: espuma PU, óleo vegetal, arquitetura bioclimática, climatologia dinâmica, isolamento térmico, sistemas de cobertura.

Resumo
Este artigo discute o potencial da utilização da espuma poliuretana (PU) de óleo vegetal (Ricinus communis) para isolamento térmico simples de sistemas de cobertura, como alternativa aos materiais convencionais. A espuma PU de óleo vegetal possui a vantagem de ser biodegradável e de fonte abundante no Brasil. Este estudo baseou-se nos conceitos de Arquitetura Bioclimática e Climatologia Dinâmica no processo de análise da resposta do isolamento térmico da espuma PU. A Arquitetura Bioclimática permite projetar edificações com melhores condições de conforto térmico, pois leva em consideração a influência climática sobre os elementos arquitetônicos. Para entender como ocorre essa influência climática sobre a edificação, adota-se a abordagem dinâmica do clima, no qual é possível identificar o ritmo de tipos de tempo sobre determinada localidade. A análise do comportamento térmico da espuma foi realizada através da coleta de dados experimentais de temperatura da superfície interna (TSI) medida por termopares em quatro diferentes sistemas de cobertura. Os resultados levam à conclusão de que a espuma PU de óleo vegetal pode ser utilizada no isolamento térmico de sistemas de cobertura.

1. INTRODUÇÃO
A arquitetura bioclimática permite que o interior de uma edificação tenha condições de conforto conhecendo-se a influência dos fenômenos climáticos sobre os elementos arquitetônicos [1]. Construtores do passado muitas vezes adotaram soluções bioclimáticas sem saber. Enquanto a estabilidade estrutural dependia de grandes massas de material, níveis elevados de isolamento e de inércia térmica foram obtidos por mero acaso [2].

A presente investigação discute o comportamento térmico da espuma rígida poliuretana (PU) derivada de óleo de mamona (Ricinus communis), quando aplicada como revestimento isolante térmico em duas células-teste, em estudo comparativo entre quatro sistemas de cobertura diferentes, utilizando a análise de dados climáticos baseada nos conceitos de climatologia dinâmica. Revestimento que auxiliam o isolamento térmico de sistemas de cobertura tem sido amplamente utilizados, visto que a cobertura de edifícios é responsável pela maior absorção de calor por radiação solar [3], mas o uso de espuma PU derivado de Ricinus communis não tem precedentes e tem a vantagem de ser biodegradável e renovável.

A idéia de utilizar materiais que auxiliam no isolamento térmico teve seu início em 1940, em uma tentativa de reduzir os gastos com aquecimento em países com invernos mais rigorosos. No entanto, foi na sociedade pós-guerra, entre 1970 e 1980, com os alta nos preços do petróleo, que a consciência da necessidade de redução do consumo de energia foi mais difundido. No Brasil, o mercado de produtos de isolamento térmico que integra dois ou mais elementos construtivos surgiu na década de 1980. Nos últimos anos, o país recebeu uma grande variedade de produtos para o isolamento térmico, utilizados em sistemas de cobertura, paredes e pavimentos [4].

Existem muitos materiais utilizados no isolamento térmico, tais como poliestireno, poliuretano derivado de petróleo, lã-de-vidro, lã-de-rocha, entre outros. O poliestireno expandido e o poliuretano são indicados para o isolamento a temperaturas mais baixas, não atingindo 80 ºC ou 90 °C, por sofrerem grande degradação por ação do calor. No caso de altas temperaturas, materiais à base de lã apresentam melhor desempenho. Lã-de-vidro podem ser utilizadas em temperaturas próximas a 250 °C; lã-de-rocha suporta temperaturas mais elevadas e a lã de cerâmica pode suportar temperaturas superiores a 1000 °C [5].

Este trabalho é importante e inovador, pois apresenta o uso potencial da espuma PU derivada de óleo de mamona (Ricinus communis) como revestimento isolante simples de sistemas de cobertura em edificações, como uma alternativa aos materiais atualmente comercializados. Esta espuma PU pode ser considerada um novo tipo de material para "arquitetura sustentável" [6], já que se origina a partir de uma planta facilmente cultivada e utilizada na agricultura para a nitrificação do solo, no processo de rotação de culturas. O cultivo da mamona criou empregos nas áreas rurais, com apoio do governo federal brasileiro, uma vez que o óleo de mamona é usado para produzir biocombustíveis (óleo verde) [7]. Quando usado como espuma apresenta duas propriedades fundamentais: em caso de incêndio não são liberados gases mortais e é completamente biodegradável [8].

Esta espuma PU foi desenvolvida pelo Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros (GQATP) no Instituto de Química de São Carlos, Universidade de São Paulo, e é comercializada pela Cequil - Central Ind. Des. Polímeros Ltda., empresa localizada na cidade de Araraquara, São Paulo, Brasil.

1.1 Arquitetura bioclimática
A evolução da arquitetura reflete as exigências da sociedade na relação entre homem e ambiente construído. O estilo de vida e a maneira de pensar gradualmente transformar a arquitetura vernacular e oficial de qualquer país [9]. A arquitetura tem um papel fundamental na elaboração de espaços internos e externos, determinados pelas necessidades individuais, particularmente no que diz respeito ao conforto humano, com base em princípios naturais de condicionamento.

A dispersão da população e do desenvolvimento das sociedades modernas tem acelerado o processo de troca de idéias e tecnologia. No entanto, deve ser entendido que a implantação generalizada de tipos ocidentais de edifícios deve ser feita com cautela. O uso de materiais locais e processos de construção podem ser perdidos quando há eliminação de tradições regionais. O processo lógico de construção moderna é trabalhar com as forças da natureza e não contra elas, a fim de aproveitar as suas capacidades para criar ambientes mais adequados [10]. Condições climáticas equilibradas são muito raras, no entanto, é possível projetar espaços confortáveis com custos de manutenção baixos, reduzindo o condicionamento térmico artificial. De acordo com Olgyay [10] o processo de criação de espaços adequados para a vida humana pode ser dividida em quatro etapas: 1) análise das condições climáticas locais, 2) avaliação da influência do clima baseada na percepção sensorial humana, 3) busca de soluções tecnológicas apropriadas para a construção de edifícios adequados ao clima local, 4) aplicação de soluções arquitetônicas a partir das três etapas anteriores (Figura 1).

Figura 1 – Sequência da relação entre as quatro etapas

O ambiente é composto por vários elementos, que se inter-relacionam e afetam diretamente o corpo humano, que tenta se adaptar sem grandes perdas de energia. A condição em que o homem pode alcançar um nível confortável por parte da percepção sensorial é chamada de "zona de conforto". A zona de conforto é determinada a partir da necessidade do corpo humano de manter o equilíbrio higrotérmico e depende da condição física humana, o tempo de duração de trabalho, de permanência das atividades, entre outros fatores [11]. O processo de dissipação de calor no ambiente pode causar "desconforto", quando é insuficiente ou exagerada. Portanto, pode-se definir que o condicionamento térmico natural depende principalmente da temperatura do ar exterior e da radiação solar [12]. Para Docherty e Szokolay [12] a sensação de conforto pode ser avaliada por meio da pele, pois a temperatura de sua superfície é aproximadamente 33 ou 34 ° C, ou seja, se a temperatura ambiente estiver muito acima ou abaixo deste valor, aumenta o grau de desconforto térmico.

O papel da edificação é proteger os indivíduos das adversidades do clima. O interior desse ambiente apresenta condições de ocupação diferentes do ambiente externo e, dessa maneira, teoricamente mais adequado às atividades humanas. Quando a edificação não atende aos aspectos de conforto, os indivíduos são expostos às condições de desconforto físico ou mental [13].

Assim, a aplicação da abordagem dinâmica do clima é mais apropriada, porque reconhece os climas zonais e regionais, correlacionando-os com a circulação geral da atmosfera com base em dados meteorológicos coletados em superfície e obtidos automaticamente e em tempo real. A utilização da climatologia dinâmica oferece em menor período de tempo, informações e conceitos necessários à compreensão das condições climáticas e possíveis influências sobre o ambiente construído, no que diz respeito à conservação de energia e comportamento e desempenho térmico dos edifícios.

1.2 Abordagem dinâmica do clima: episódio representativo da realidade climática
Para Monteiro [14] só é possível entender o ritmo do clima por meio da análise conjunta dos dados climatológicos obtidos por unidades de tempo cronológico, pelo menos diariamente, o que corresponde à representação em escala regional da circulação atmosférica, com a sucessão de fenômenos atmosféricos.Os dados climáticos obtidos em superfície e associados aos estados atmosféricos devem ser avaliados de acordo com o vigor de cada frente fria que penetra na área estudada. Dessa maneira, é possível caracterizar os episódios mais representativos para cada situação climática. Esses episódios podem ser denominados de “episódios representativos do fato climático”. Sua maior contribuição é aliar os mecanismos da circulação atmosférica e suas consequências no espaço geográfico, aos valores obtidos por meio do monitoramento climático de dados meteorológicos coletados em superfície, e traduzidos analiticamente por registros de temperartura e umidade do ar, direção e velocidade dos ventos, pressão atmosférica, pluviosidade, valores de radiação solar, entre outros que sejam considerados necessários [15].

De acordo com Vecchia [16], na abordagem dinâmica o que diferencia os episódios é a intensidade e a duração de cada massa de ar que dominante em cada localidade. No caso da região de São Paulo, Brasil, as ações de massas Polares Atlanticas (mPA) ou massas Tropicais Atlânticas (mTA) podem ser mais ou menos vigorosas, levando sempre em consideração também o processo de ganho de calor por radiação solar.

A partir da análise do episódio representativo do clima, pode-se escolher um dia como representante dos eventos climáticos sobre determinada localidade, para a visibilidade do objeto de estudo [17]. Portanto, a utilização da abordagem dinâmica do clima depende do ritmo de Tipos de Tempo, a partir da coleta de dados locais de acordo com as variações diárias e horárias dos elementos do clima e de imagens fornecidos pelos satélites meteorológicos [18]. A análise dos dados climáticos geralmente envolve os padrões anuais dos principais elementos do clima que afetam o conforto humano e a performance térmica dos edifícios [19]. No entanto, o mero acesso a este banco de dados não é suficiente. É necessário a correta interpretação dos valores para a real compreensão dos processos atmosféricos [16].

2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

2.1 Confecção das placas de espuma PU para isolamento térmico
Neste trabalho, optou-se por utilizar a espuma PU em forma de placas para isolamento térmico simples, ou seja, foram aplicadas como forro isolante. A espuma PU composta de poliol formulado à base de óleo de mamona e um pré-polímero à base de MDI (Difenilmetano Diisocianato) foi obtida por mistura desses componentes na proporção em massa de 0,7 de poliol para 1,0 de pré-polímero, vertida para o molde adequado após agitação mecânica durante 20 segundos. Essa proporção garante, após a polimerização, uma espuma PU de 40 kg/ m³ de densidade. Para cada placa foram utilizados 210 g de poliol e 300 g de pré-polímero, totalizando 510 g de material em cada placa. O molde de ferro fundido com dimensões interiores de 50 x,50 x 3 cm foi usado na confecção das placas de espuma PU. Cada placa ficou com peso final de aproximadamente 400 g, 3 cm de espessura e uma área de 0,25 m². A espessura final das placas foi definida com base nos materiais vendidos como isoladores térmicos, que têm espessuras entre 25 mm e 50 mm [20].

2.2 Análise do comportamento térmico da espuma PU

2.2.1 Células-teste: localização e características
A cidade de São Carlos está localizada na região central do Estado de São Paulo, Brasil. O clima é predominantemente tropical [21], marcado pela alternância de duas estações: estação seca, com inverno seco e quente (abril a setembro) e estação chuvosa, com verões quentes e úmidos (outubro a março).

A análise do comportamento térmico da espuma PU foi realizada de maneira experimental e comparativa entre quatro sistemas de cobertura, como se segue:

• Célula-teste 01: cobertura de telhas de fibrocimento, sem laje cerâmica concretada e sem forro de espuma PU;

• Célula-teste 02: cobertura de telhas de fibrocimento e forro de espuma PU;

• Célula-teste 03: cobertura de telhas de fibrocimento e laje de cerâmica concretada.

• Célula-teste 04: cobertura de telhas de fibrocimento, laje de cerâmica concretada e forro de espuma PU.

As células-teste são edificações com dimensões padronizadas, construídas em alvenaria de tijolo maciço sobre radier de concreto armado, diferentes apenas no sistema de cobertura. Esses espaços foram construídos de modo a manter a linearidade dos dados de temperatura coletados semelhantes à situação real. Essa linearidade nas medidas não seria atingida se fossem usadas maquetes no lugar de células-teste [22].

Estas células-teste foram dispostas no terreno de modo a não fazerem sombra umas às outras em relação à trajetória aparente do sol, garantidas as mesmas condições de igualdade frente a qualquer fenômeno atmosférico.

As quatro células-teste deste trabalho tem dimensão interna de 2,20 m x 2,70 m (Figura 2). O telhado possui uma inclinação de 5%, com altura de 2,23 m no ponto mais alto. (Figura 3). Cada célula possui duas aberturas padrão: porta de 2,10 m x 0,60 m na fachada leste e janela de 1,0 m x 0,70 m na fachada norte. Portas e janelas são feitas de embalagem Tetra Pak ®.

Figura 2: Planta baixa de uma célula-teste (desenho esquemático)


Figura 3: Corte A-A’ de uma célula-teste (desenho esquemático)

Os sistemas de cobertura são semelhantes, exceto pela ausência ou não de componentes construtivos (Quadro 1). A célula-teste 01 tem apenas o telhado de fibrocimento. No caso da célula-teste 02, existe a cobertura de fibrocimento e o forro de espuma PU derivada de óleo de mamona apoiado em estrutura de madeira em forma de grade (Figura 4b). Existe um ático entre a cobertura de fibrocimento e o forro de espuma PU (Figura 3). A célula 03 possui o telhado fibrocimento e uma laje cerâmica concretada in loco. Este sistema de cobertura também possui um ático entre a cobertura de fibrocimento e a laje (Figura 3). Já a célula-teste 04 possui o sistema de cobertura mais completo, pois é composto pelo telhado de fibrocimento, pela laje cerâmica concretada e forro de espuma PU. Na célula 04, a laje foi feita seguindo a inclinação do telhado, ou seja, distante 30 cm dele, formando um “colchão” de ar. O forro de espuma PU foi instalado na superfície interior da laje por meio de parafusos (Figura 4a).





                      (a)                                   (b)
Figura 4: (a) Colocação das placas de espuma PU na célula 04; (b) forro de espuma PU na célula 02

As células-teste adotadas neste trabalho estão localizadas no canteiro experimental do Laboratório de Construção Civil (LCC) do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU), Universidade de São Paulo (USP), localizada em São Carlos, São Paulo, Brasil.

2.2.2 Equipamento para coleta de dados experimentais
No canteiro experimental estão localizadas a estação meteorológica automática e as células-teste, com os devidos equipamentos instalados para a aquisição dos dados necessários. Os equipamentos para a coleta e armazenamento de dados meteorológicos, tais como a radiação solar, temperatura e umidade relativa, velocidade e direção do vento, pressão atmosférica e precipitação, são da empresa Campbell Scientific Inc. Outros equipamentos fazem parte da estação para mantê-la em funcionamento, como bateria recarregável de 12 V, painel solar e o datalogger CR10X.

Os dados de temperaturas superfícais internas (TSI) das células-teste foram coletados por meio termopares tipo T (cobre-constantin), 2x24 AWG, com medições em intervalos de 30 minutos, tomadas na superfície interna dos últimos componentes construtivos, que compõem o sistema de cobertura de cada célula-teste. Os termopares foram conectados ao multiplexador e os dados armazenados no datalogger CR10X. Após esse armazenamento, os dados foram transferidos online por meio de modem para o computador do LCC com a utilização do software específico PC208W.

2.2.3 Instalação de termopares nas células-teste
Os termopares foram colocados em cada célula-teste de acordo com os componentes construtivos presentes em cada sistema de cobertura, ou seja, o termopar foi instalado de forma a registrar a TSI do último componente do sistema de cobertura, sendo:

• Célula-teste 01: nesta célula o sistema de cobertura é composto apenas pelas telhas de fibrocimento, sem laje e forro. O termopar neste caso foi colocado na superfície interna de uma das telhas;

• Célula-teste 02: o sistema de cobertura é formado pelas telhas de fibrocimento e pelo forro de placas de espuma PU. Nesta célula, o termopar foi instalado na superfície interna de uma placa;

• Célula-teste 03: neste caso o sistema de cobertura possui as telhas de fibrocimento e a laje cerâmica concretada in loco. A laje sendo o último componente construtivo presente neste sistema de cobertura recebeu o termopar em sua superfície interna;

• Célula-teste 04: esta célula possui o sistema de cobertura mais completo, composto pelas telhas de fibrocimento, laje cerâmica concretada in loco e o forro espuma PU. Também nesta célula o termopar foi colocado na superfície interna de uma placa do forro.

2.2.4 Bases da análise climática
O presente trabalho baseou-se nas considerações de Vecchia [16] a respeito da abordagem dinâmica do clima.

De acordo com Monteiro [14], o clima da região de São Carlos é controlado por massas equatoriais e tropicais, configurando a situação de transição entre uma estação seca de inverno quente e seco, que localmente vai de abril a setembro, e uma estação chuvosa com verão úmido e quente, que abrange o período de outubro a março. A estação seca é caracterizada por baixa precipitação, pouca nebulosidade, baixa humidade relativa e temperaturas médias mais baixas quando comparadas ao período chuvoso, com predomínio das massas Tropical Atlântica e Polar Atlântica sobre a região. A estação chuvosa apresenta temperaturas médias elevadas com precipitações abundantes e alta umidade relativa do ar, pois predomina a massa Equatorial Continental.

Os dados coletados são referentes ao ritmo climático de janeiro a abril de 2010. A escolha dos episódios climáticos foi feita a partir da análise rítmica desse período. Foi possível escolher um dia representativo que possuísse as condições típicas de calor, com radiação solar global máxima, ou seja, o céu nesse dia se manteve claro, com reduzida presença de nuvens, tomando como referência os valores das Normais Climatológicas de 1960 – 1991 [23]. Em sua tese Vecchia [16] enfatiza a qualidade da abordagem dinâmica do clima, pois possibilita a compreensão dos fenômenos climáticos e amplia o conhecimento para além da generalidade da visão clássica das Normais Climatológicas, já que caracteriza mais claramente as variações climáticas que ocorrem em um dado local.

3. RESULTADOS

3.1 O comportamento térmico do forro de espuma PU
Dentro do período de estudo (janeiro a abril de 2010), o episódio representativo do clima escolhido compreende de 06 a 12 de março de 2010. As Figuras 5 e 6 mostram dados de radiação solar global e de temperatura externa do ar x umidade relativa, respectivamente.


Figura 5: Gráfico de Radiação Solar Global para o para o episódio de 06 a 12 de março de 2010


Figura 6: Gráfico de Temperatura externa do ar X Umidade relativa para o episódio de 06 a 12 de março de 2010

A influência do mesmo episódio nas temperaturas superfíciais internas das células-teste é mostrada na Figura 7.


Figura 7: Gráfico de Temperaturas superficiais internas para o episódio de 06 a 12 de março de 2010

Os gráficos anteriores, refrentes ao episódio escolhido, evidenciam a passagem de uma frente fria, que começa a perder força ou a se tropicalizar a partir do dia 07 de março, visto que a temperatura do ar exterior aumenta em relação ao dia anterior e continua a se elevar, devido à influência da radiação solar, uma vez que existe pouca cobertura de nuvens e não ocorre precipitação (Figura 6). Como o objeto de estudo não é a análise completa do episódio, a passagem da frente fria pela região de São Carlos não foi analisada.

Como a análise comparativa do comportamento térmico da espuma PU é em resposta a condições de calor, foi escolhido o dia 9 de Março de 2010 como dia representativo (Figura 8 e Quadro 2). Para este dia o valor máximo da radiação solar global foi 994 W/m2 (às 13h30min) e o valor máximo da temperatura externa do ar foi 30,86 °C (às 15h00).


Figura 8: Gráfico de TSI para o dia 9 de março de 2010



Na célula-teste 01 a radiação sobre as telhas de fibrocimento é rapidamente transmitida ao interior do ambeinte em forma de calor devido à baixa inércia térmica das telhas e por esse tipo de componente construtivo não possuir propriedades de isolamento térmico.

O sistema de cobertura da célula-teste 02 possui um ático entre o telhado e o forro horizontal de espuma PU. Nesta situação, o ático auxilia o forro na isolação térmica, pois o calor será transmitido ao interior por meio da convecção do ar confinado no ático. A Figura 8 e o Quadro 2 mostram que há uma diferença de 6,83 °C entre a temperatura máxima atingida na célula 01 (35,61 °C às 14h00) e na célula 02 (28,78 °C às 16h30min). No período sem radiação solar o forro consegue conter um pouco do calor existente internamente pelo fato da espuma ser muito isolante, mas devido a sua pouca espessura, a inércia térmica é baixa.

A célula-teste 03 representa a tipologia de sistema de cobertura utilizada em grande escala na construção civil na região do Estado de São Paulo, Brasil. O telhado inclinado e a laje construída horizontalmente também criaram um ático. Essa situação assemelha-se ao que acontece na célula 02; a importante diferença é que a laje não é bom isolante térmico, mas no caso apresenta maior espessura que o forro de espuma, portanto, maior inércia térmica. Durante o dia, o comportamento térmico da laje frente ao calor é melhor que o do forro de espuma rígida de poliuretano, devido principalmente à inércia térmica da laje ser maior. No período sem a influência da radiação solar esse comportamento é similar.

No caso da célula-teste 04, a laje foi construída acompanhando a inclinação do telhado, distante dele 0,30 m, conformando um colchão de ar. O forro de espuma PU foi montado sobre a superfície inferior da laje, ou seja, face voltada ao interior da célula, por meio de parafusos. Apesar desse sistema de cobertura ser o mais completo, ele não apresentou maior grau de isolamento térmico, pois a distância entre a laje e o telhado é menor do que nas células que possuem o ático. Assim, a temperatura da superfície interna da espuma PU na célula 04 (28,94 °C às 18h00) foi maior do que a da laje na célula-teste 03 (26,02 °C às 18h30min).

Comparando os valores de TSI dos forros de espuma PU das células 02 e 04, observa-se que a diferença importante está no tempo em que cada superfície levou para atingir a temperatura máxima. Durante o período sem radiação solar o comportamento térmico do sistema de cobertura da célula 04 consegue reter mais o calor dentro do ambiente, comparada à célula 02, pois na célula 04 existem mais componentes construtivos.

Analisando os resultados verificou-se que a característica isolante da espuma PU reduz a entrada de calor durante o dia e a perda à noite. Comparando os resultados das células-teste 01 e 02 constatou-se que houve uma redução no valor da TSI máxima do forro de espuma PU da célula 02 de aproximadamente 6 °C em relação à TSI máxima da telha de fibrocimento da célula 01.

Outro fator que contribuiu para o isolamento térmico foi a presença do ático O ar confinado no interior do ático precisa ser aquecido para poder transmitir o calor através da convecção. Esse processo de transmissão de calor requer mais tempo que o processo de condução de calor. Uma comparação pode ser feita entre as células-teste 02 e 03, pois são as únicas células com esta configuração de sistema de cobertura. A célula 03 obteve melhor comportamento térmico tanto durante o dia, isolando o calor transmitido do exterior para o interior da célula, quanto no período noturno, minimizando as perdas térmicas no sentido interior-exterior. Esse fato deve-se a maior inércia térmica presente na laje, já que o forro de espuma PU possui espessura de 30 cm, o que confere menor inércia térmica ao forro.

4. CONCLUSÃO
Com relação ao estudo comparativo do comportamento térmico da espuma aplicada em forma de placas, que conformaram o forro isolante térmico em dois sistemas de cobertura (células-teste 02 e 04), concluiu-se que a espuma consegue reduzir as trocas térmicas entre exterior e interior do ambiente, diminuindo em aproximadamente 6 oC a TSI máxima do último componente construtivo do sistema de cobertura. Essa característica aliada a outros dispositivos auxiliares na isolação térmica, como no caso do estudo a laje (inércia térmica maior devido à espessura desse elemento construtivo) e o ático (ar confinado), poderá garantir maior eficiência na diminuição das trocas térmicas exterior-interior do ambiente.

5. AGRADECIMENTOS
Agradecimentos ao CNPq, à FAPESP, ao GQATP/IQSC, à empresa Cequil e à equipe de técnicos do Laboratório de Construção Civil (LCC/USP).

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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[22] Vecchia, F.. Comportamento térmico de sistema de cobertura. São Paulo: Eternit S.A. v.01, 2003, 74 p.

[23] BRASIL. Ministério da Agricultura e Reforma Agrária. Normais climatológicas (1961-1990). Brasilia: Departamento Nacional de Meteorologia, 1992.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores, salientando-se, ainda, que os conteúdos das intervenções e dos artigos editados na Infohabitar são da responsabilidade dos respetivos autores.
(ii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

INFOHABITAR Ano IX, nº442
ESPUMA PU DE ÓLEO VEGETAL NA ARQUITETURA: ALTERNATIVA ECOLÓGICA PARA ISOLAMENTO TÉRMICO DE SISTEMAS DE COBERTURA

Lisboa, LNEC, Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Edição www de José Baptista Coelho: Encarnação - Olivais Norte