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segunda-feira, junho 17, 2013

444 - EDIFÍCIOS HABITACIONAIS: ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO - Infohabitar 444


Infohabitar, Ano IX, n.º 444

- Infohabitar 444
  ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Artigo XXXIII da Série Habitar e Viver Melhor

António Baptista Coelho

Na sequência da reflexão ampla e razoavelmente sistemática sobre um melhor habitar, mais criativo e adequado, que temos estado a tentar fazer nesta Série de artigos intitulada “habitar e viver melhor” – iniciados no espaço urbano e que chegaram agora aos espaços edificados – , vamos desenvolver, neste texto uma pequena reflexão sobre o que se pode considerar como os aspectos fundamentais na estruturação dos edifícios habitacionais, que se relacionam com a sua dimensão geral, a existência afirmada de elevadores e a maior, ou menor, evidenciação de cada habitação no conjunto edificado; um outro aspecto, de certa forma suplementar e que aqui se evidencia, na sua importância tipológica, será a existência evidenciada de um espaço exterior directamente associado ao edifício.

Provavelmente a inovação fundamentada e adequada (na mudança e na adaptabilidade), que se defende para os espaços comuns do habitar e de que se irá falar para a concepção de novas soluções domésticas, encontra e encontrará aqui, na criação e recriação de novas soluções de edifícios, uma excelente matéria, à qual iremos voltar, aqui e ali, nesta Série editorial, ao sabor dos sítios e das ideias de que vamos falando.


Fig. 1

No entanto importa, desde já, referir que uma tal inovação deverá ter em conta o enorme leque de soluções que foram sendo experimentadas desde a invenção da povoação, há cerca de 10.000 anos, com um especial enfoque nas soluções mais replicadas e reinterpretadas – nas quais tem presença especial a casa-pátio (ou o pátio-casa) – não fazendo qualquer sentido andar-se, constantemente, a reinventar várias pólvoras; e uma tal reaplicação e reinterpretação tem de ser criteriosa e actual, podendo, na prática, gerar verdadeiros novos modelos de habitar.

E importa também apontar que uma tal inovação pode decorrer, em boa parte, de soluções de (re)articulação e de síntese diversificadas dos diversos elementos constituintes e de composição que se conhecem, visando-se objectivos específicos, quer de melhoria das condições domésticas, quer de melhoria das condições de agregação no edifício, quer de melhoria das condições de vizinhança de proximidade e de continuidade e vitalidade urbanas, quer, naturalmente, de economia de construção e de manutenção.

E julga-se que tudo isto terá muito mais interesse do que continuarmos irredutíveis a defender velhas tipologias de edifícios muitas das quais tiveram origem em processos construtivos e culturais específicos e muitos deles datados e localizados. Uma afirmação que, evidentemente, não pode conflituar com os fundamentais objectivos de justeza e coerência de linguagens formais e construtivas em zonas integradas em paisagens a proteger.

Considerando-se a ideia-base desta Série editorial de tentar identificar aquilo que é potencialmente mais determinante da satisfação residencial e neste caso especificamente nesta temática dos diversos tipos de edifícios poderemos identificar um conjunto bastante limitado de aspectos, entre os quais se identificam (numa listagem vientemente dinâmica) os seguintes:

1. Independência formal da habitação relativamente à sua envolvente e a outras habitações e/ou possibilidades da sua apropriação/identificação.

2. Acesso privativo da habitação ao exterior público.

3. Estimulantes formas de agrupamento de fogos em edifícios…

4. Reduzido número de habitações agregadas num mesmo conjunto servido por acessos comuns.

5. Edifício com baixa altura, tendo em conta especificamente o relacionamento que permite, ou não, com o espaço envolvente; alternativamente uma altura mais elevada poderá associar-se a uma atraente imagem urbana.

6. Existência de elevador(es).

7. Existência de escadas ergonómicas e ambientalmente agradáveis.

8. Espaciosidade, dignidade e orientação nos espaços comuns.

9. Dignidade, identidade e orientação nas entradas comuns.

10. Dignidade, identidade e capacidade de apropriação nas entradas privadas.

11. Existência de boas condições de luz natural, ventilação e vistas nos espaços comuns.

12. Existência de boas condições de conforto térmico nos espaços comuns.

13. Reduzido número de vizinhos por agrupamento horizontal de acessos.

14. Integração do edifício na respectiva vizinhança urbana e paisagística.

15. Pormenorização da imagem pública do edifício com destaque para o seu remate térreo.

16. Existência de espaços privativos fora das habitações, como garagens e arrumações.

17. Existência de espaços de condomínio com desenvolvimento significativo e sem presença negativa no espaço público (não criando descontinuidades no espaço público).

18. Existência de espaços exteriores (privados, comuns ou públicos) cuidados na contiguidade do edifício.

19. Existência de varandas ou terraços.

20. Possibilidade de integração de elementos de vegetação.

Sublinha-se que com estes ingredientes é possível concretizar diversas soluções de edifícios e diversas agregações habitacionais. No entanto e à partida muitas soluções correntes parecm ficar quase imediatamente postas de lado, em termos de potencial de satisfação, como é o caso, por exemplo, de grandes torres habitacionais com imagens públicas monótonas e espaços comuns interiores.

Também se salienta que das diversas misturas dos referidos ingredientes poderão resultar soluções diversificadamente equilibradas; por exemplo um maior número de habitações agregadas em torno de agradáveis e amplos espaços comuns de condomínio.


Fig. 2

Para concluir esta reflexão mínima sobre os diversos tipos de edifícios façamos agora um pequeníssimo apontamento sobre o chamado “habitat intermediário”, através de algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet (1); dizem as autoras que “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)”, e, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”

Julga-se que esta matéria é de enorme importância, esta ideia de caldear caracterizações multi e unifamiliares indo, tendencialmente, buscar o que de melhor umas e outras têm para um habitar urbano verdadeiramente agradável e estimulante; quem sabe numa aliança entre um carácter e uma identificação aparentemente independente e expressiva da presença de cada habitação no conjunto da vizinhança e uma disponibilização de um conjunto de serviços úteis e diversificados e mesmo de um ambiente gregário que seja veículo de um sentido de protecção mútua e de apropriação de uma pequena parte da cidade.

Finalmente, considera-se que há um outro aspecto que tem uma insuspeitada importância na geração de soluções ou tipos habitacionais verdadeiramente atraentes e apropriáveis, refiro-me aqui aos aspectos de escala e de ligação, eventual e talvez tendencialmente, telúrica da edificação térrea e das soluções edificadas expressivamente marcadas por habitações térreas.

Soluções estas habitualmente associadas a uma forte perspectiva residencial humanizada, um aspecto que se julga ficar bem evidenciado nas palavras de Isabel Salema, referidas à arquitectura de Jörn Utzon (2003): “as raízes das suas casas organizadas em redor de pátios, visíveis nas casas de Fredenborg (1959-62), encontrou-as nas suas viagens mas também na própria Dinamarca. Misturam referências das quintas tradicionais dinamarquesas e chinesas e da arquitectura islâmica ... uma espécie de programa-quadro para o habitar individual, capaz de criar um espaço colectivo inesquecível, e no entanto sem qualquer sugestão do arquitecto ter imposto a sua personalidade aos outros. Vai ao encontro das necessidades modernas maravilhosamente, e contudo Fredensborg quase podia ter sido construído há mil anos.” (2)

E reparemos aqui que se misturam, e muito bem, aspectos de individualidade e comunidade nestas referências a uma arquitectura residencial chã e/ou expressivamente marcada pela escala humana, aspectos estes que pelos vistos cruzam a Europa de Norte a Sul, da colónia para casais idosos em Fredensborg, feita há poucas dezenas de anos, às tantas habitações térreas e/ou expressivamente humanizadas e mediterrânicas.

Mas esta é temática que nos pode e deve levar muito longe ...

Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18
(2) Isabel Salema, “Jorn Utzon para além da Ópera de Sidney”, Público, 19 Abril 2003.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº444
ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Edição de José Baptista Coelho
LNEC-Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) e
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte







domingo, abril 14, 2013

435 - EDIFÍCIOS HABITACIONAIS E URBANOS - UMA PRIMEIRA REFLEXÃO - Infohabitar 435

Infohabitar, Ano IX, n.º 435
Artigo XXX da Série habitar e viver melhor

EDIFÍCIOS HABITACIONAIS E URBANOS - UMA PRIMEIRA REFLEXÃO

António Baptista Coelho

Quando chegamos junto à porta do edifício, depois de atravessarmos o respectivo quarteirão e espaço de vizinhança, podemos tentar identificar e apurar os aspectos que, neste nível físico residencial e urbano, marcam soluções residenciais verdadeiramente satisfatórias e, até, antecipar um pouco alguns elementos que são fundamentais no desenvolvimento das soluções domésticas.


O que se pede ao leitor é que se abstraia do que está habituado a viver/ver - as soluções correntes e "tipo" que vão da "moradia" isolada ao prédio de apartamentos com habitações "esquerdo-direito" - e pense um pouco no que poderia ser o edifício habitacional; matéria a que dedicaremos vários dos próximos artigos desta série.


De certa forma trata-se de pensar genericamente o que no edifício residencial mais marca, habitualmente, como aspectos agradáveis e motivadores, e antecipar, um pouco, o que importa considerar no edifício para podermos ter, depois, estimulantes e adequadas habitações.


E depois, e finalmente, ponderar quais as linhas de objectivos que devemos privilegiar no caminho de uma intensa satisfação residencial, que possam ser servidos mais directamente por uma adequada solução de edifício residencial (e urbano); pois há que lembrar, sempre, e tantas vezes o esquecemos, que o edifício habitacional contém habitações e é contido e pode até conter a sua vizinhança específica, o seu espaço urbano mais próximo.


Naturalmente que se dá uma atenção específica ao edifício multifamiliar, pois o unifamiliar isolado constitui uma família/tipologia específicas, a ser tratada em artigo próprio.




Fig. 01: o edifício é protagonista da cidade e espaço privilegiado dos seus habitantes

Um aspecto importante e básico é que a habitação tem aspectos que pouco mudam com as diversas soluções utilizadas e, assim, talvez que se deva estimular um sentido de maximização de identidade de cada habitação, quando esta se integre num edifício multifamiliar e, inversamente, talvez possamos e devamos estimular os aspectos de coesão urbana, quando se opte pelo unifamiliar ou por soluções de transição; talvez que estes dois caminhos de maior apropriação no multifamiliar e de maior gregarismo no unifamiliar sejam caminhos de qualidade, não só para a cidade e a paisagem, mas também para a própria qualidade da vivência oferecida nessas habitações.

E imaginemos casos extremos de grande anonimato, por integração de habitações em grandes edifícios, ou de isolamento expressivo; e mesmo nestes casos, a identidade de cada unidade (ainda que muito sóbria, o que não implica que mão seja bem marcada) e o sentido de pertença a uma dada comunidade (que pode ter diversas formas de registo), são, respectivamente, aspectos a considerar com especial atenção.


Fig. 02: os edifícios residenciais constituem o principal quadro urbano; e tantas vezes são esquecidos nesse seu papel tão sóbrio como importante.

A meio caminho destas soluções “extremas”, ligadas ao favo gregário e à liberdade de cada um ou de cada família, talvez que um caminho recomendável seja o desenvolvimento de agradáveis e protectoras soluções de vizinhança, baseadas numa agregação, diversificada (horizontal e vertical) de “casas”, que proporcione:

(i) uma grande variedade de espaços domésticos;


(ii) uma forte diversidade de relações com o espaço exterior privado e público;


(iii) um amplo leque de relações visuais com outras habitações – que poderão variar da ausência das mesmas até o compartilhar de espaços comuns;


(iv) e um excelente sistema de acessibilidades, que conjugue, designadamente, aspectos de cerimónia e representatividade, aspectos de super-funcionalidade – reflectidas no uso por pessoas com mobilidade condicionada e no abastecimento das habitações – e alternativas de acessibilidade, que são essenciais seja em termos funcionais seja na dinamização das condições de privacidade e de convívio no edifício e na sua vizinhança.


A ideia que fica é que, mais do que uma escolha de tipos de edifícios, considerando a "cartilha" que todos aprendemos e que por vezes repetimos até quae à náusea – moradias, blocos baixos alongados e com galerias, blocos com patins interiorizados, torres, etc., etc. –, importará conceber cada edifício residencial no cuidado de:


• se desenvolverem espaços comuns que possam fomentar, estrategicamente e com um máximo de harmonia, a privacidade e o convívio;


• de se criarem associações de habitações fortemente viáveis, que, em cada andar, ou em cada ala, não integrem um número excessivo de vizinhos (1);


• de se desenvolverem associações de habitações cujas soluções de agregação proporcionem um máximo de condições para o eclodir, com um máximo de naturalidade, de boas relações de vizinhança;


• de se introduzirem soluções edificadas e construídas, que conjuguem habitações, mas que para além disso articulem, verdadeiramente, espaços de vizinhança e de relacionamento urbano.


E para tais condições há importantes aspectos a ter em conta, designadamente, no que se refere às questões globais e bem integradas de funcionalidade, segurança natural e imagem urbana, ligadas ao adequado projecto dos espaços de circulação e em termos de desafogo e formatação espacial, organização clara, adequadas relações de vistas mútuas e oferta estratégica de elementos de apropriação e de identidade, com destaque para elementos naturais e de design de comunicação.


Nesta sequência de ideias, e utilizando um trabalho de Pearl Jephcott, defende-se que é possível e desejável explorar as potencialidades conviviais dos espaços de circulação comum, que são as zonas mais usadas, por todos, no edifício multifamiliar, e exemplifica-se esta matéria com o "átrio do elevador", que a referida autora considera que não deve ser um espaço frio e ventoso de passagens fugidias, mas sim um ponto estratégico de contacto social, bem relacionado, tanto nos patins que ligam ás habitações, como nos principais acessos e na ligação aos estacionamentos de veículos (2).



Fig.03: o enorme leque tipológico residencial e urbano existente; que está aí para ser identificado, estudado e "reaplicado" - mas atenção tratamos de tipologias residenciais e urbanas.

Podemos, de certa forma, considerar que o investimento em edifícios multifamiliares que potenciem condições de verdadeira adequação residencial e urbana deverá ser feito através de uma cuidada solução de agregação de habitações e de um criterioso e desenvolvido projecto dos respectivos espaços comuns.

A questão da escolha tipológica e das soluções de tipologia mista será posteriormente abordada. O que se pretende propor aqui, desde já, é uma forma diferente de considerar a tipologia residencial, associando-a a uma tipologia urbana e de integração que crie laços fortes com o respectivo tecido citadino e com o respetivo quadro paisagístico; uma matéria que carece de desenvolvimento, e que tudo tem a ver, seja com a capacidade de satisfação de uma dada solução habitacional, seja com a respetiva qualidade arquitectónica (e urbana).


E aliás toda esta matéria, que está bem a montante da opção entre uni ou multifamiliar, ou por soluções intermediárias, depende de uma muito significativa qualidade arquitectónica.


Notas:


(1) Pearl Jephcott, comparou níveis de convivialidade em dois edifícios multifamiliares muito diversos, em Glasgow: boas situações de convívio numa torre habitacional com 6 fogos por piso; problemas conviviais num bloco alongado com 14 fogos por piso, onde a vizinhança pouco ultrapassava seis habitações contíguas .


(2) P. Jephcott, "Homes in High Flats", pp. 142 a 144.


Notas editoriais:


(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Editor: António Baptista Coelho

INFOHABITAR Ano IX, nº435
ARTIGO XXX DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR
EDIFÍCIOS HABITACIONAIS E URBANOS - UMA PRIMEIRA REFLEXÃO
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte