Mostrar mensagens com a etiqueta novas tipologias de habitação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta novas tipologias de habitação. Mostrar todas as mensagens

domingo, março 13, 2016

573 - Problemas, apropriação e caraterização do exteriores privado – Infohabitar n.º 573

Problemas, apropriação e caraterização do exteriores privado – Infohabitar n.º 573

António Baptista Coelho
Artigo XC da Série habitar e viver melhor

Problemas correntes no exterior privado

Os problemas mais correntes em espaços exteriores privados ligam-se a aspectos de desconforto ambiental, insegurança no uso por crianças, apropriação indevida desses espaços com marquises envidraçadas e criação de problemas de falta de privacidade relativamente a vizinhos.

Sobre os aspectos de desconforto por negativa exposição solar e reduzida protecção relativamente aos ventos dominantes já se falou acima.

Relativamente à insegurança no uso por crianças e tal como se apontou no estudo do LNEC que tem sido citado, frequentemente (ITA 2), nunca é demais chamar a atenção para o espaço livre mínimo que deve ser previsto nos orifícios ou faixas livres nas guardas dos espaços exteriores privados e elevados (varandas, "loggias" e terraços), para a altura do seus parapeitos, para a inexistência de elementos horizontais nas guardas (facilitando a subida) e para o perigo que representam as guardas opacas, excitando a natural curiosidade das crianças; para não falar já do absurdo obstáculo que constituem às vistas exteriores a partir de posições sentadas, tanto nestes espaços como nos espaços interiores contíguos. E também nunca é demais salientar que tais condições devem ser igualmente cumpridas em todos os vãos exteriores e elevados das habitações.

Nestes aspectos associados ao conforto ambiental e à segurança no uso Dreyfuss e Tribel referem que há que ter em conta que as varandas/balcões (1): diminuem a iluminação natural dos compartimentos contíguos, o que implica a previsão de amplos vãos envidraçados; e podem provocar sensações de vertigem muito negativas, a compensar não só pela altura dos parapeitos e pelo desenho das guardas, mas também por espessuras, recuos e elementos intermédios (ex., floreiras largas). Portanto prever baterias verticais de varandas/balcões implica um cuidado acrescido no desenho dos compartimentos que lhes são contíguos.

É extremamente importante a questão das quedas de altura (ex., de crianças, idosos) devido ao deficiente desenho de guardas de varandas e outros espaços exteriores privados elevados, deve ser devidamente considerado, evitando-se, designadamente, guardas baixas e que as crianças possam usar estas guardas e outros elementos construídos (ex., foreiras) para subir (escalar), ou possam passar entre elementos das mesmas guardas; não faz qualquer sentido que o desenho destes elementos não seja devidamente considerado tendo em conta estes aspetos.



Fig. 01:  é essencial que o exterior privado seja tão agradável como seguro, estimulando-se, assim um seu uso intenso e prolongado como verdadeira extensão do interior doméstico  - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Kim Dalgaard, Tue Traerup Madsen.

Questões de apropriação e de uso do exterior privado

No que se refere à apropriação indevida destes espaços com marquises envidraçadas, considera-se que ou esta ocupação está devidamente programada e prevista em projecto, ou deve ter “tolerância zero”, e há aliás regulamentação específica, pois não faz qualquer sentido o verdadeiro assassínio que se faz de excelentes fachadas com o caos inestético da intervenção livre de cada um nas suas varandas e outros espaços exteriores privativos.

No que toca aos potenciais problemas de privacidade estes são, naturalmente, essenciais para o uso intenso do exterior privado, assim como a matéria associada à regulação e clarificação do seu uso, por exemplo para diversas atividades, como criação de animais e outras atividades com caráter mais rural.

Considera-se que há pormenorizações que tornam mais difíceis tais encerramentos caóticos de varandas e balcões com marquises envidraçadas, assim como há soluções que os facilitam e sublinha-se que com esta tomada de posição não se está a negar o interesse das marquises envidraçadas, mas apenas a sublinhar que elas devem ter uma previsão específica, seja através de uma execução prévia, como elementos activos nos diversos espaços da habitação e, por exemplo, com papel positivo no aproveitamento passivo da energia solar, seja através de um projecto-tipo, obrigatoriamente respeitado por todos aqueles que pretendam encerrar um dos balcões ou varandas do edifício, e sempre que o efeito final de uma tal acção esteja devidamente acautelado.

Naturalmente que esta forma de actuar tem de ter aplicação em todos os tipos de espaços exteriores privativos, não se limitando aqueles mais evidentes a partir dos espaços públicos; tem de haver sempre projectos-tipo que harmonizem as intervenções de ocupação parcial e de apropriação desses espaços exteriores e tem de haver uma estratégia de contínua visibilidade mútua e de vigilância “oficial” periódica mas activa capaz de garantir ordem e civismo na ocupação destes espaços; e frequentemente a razão para não se desenvolverem espaços deste tipo é que eles depois são anarquicamente ocupados, mas, também frequentemente, pouco se faz para garantir ordenamento nessa ocupação.

Fig. 02: a "velha" e extremamente crítica questão da "marquisação" deveria ter respostas perfeitamente claras e "obrigatórias" de modo a salvaguardar-se a dignidade e a qualidade da imagem urbana dos edifícios, por exemplo, através de soluções perfeitamente definidas (pré-definidas)  e bem harmonizadas com os respetivos projetos (realizadas pelos projetistas dos edifícios) - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Johan Nyrén.

Opções essenciais no exterior urbano privado

E ainda sobre esta matéria há que sublinhar que entre rodear edifícios de verdadeiras “manchas de óleo” de espaços públicos quase impermeáveis e desvitalizados – pois é impossível trabalhar para uma vitalização global de uma tal quantidade de espaços públicos – e optar-se por uma ocupação térrea significativamente marcada por quintais e pátios privativos, que concentra o espaço público em continuidades muito mais reduzidas, controláveis, equipáveis e vitalizáveis ( e portanto com um arranjo e uma manutenção mais económicos) e que atribui às habitações do rés-do-chão uma outra dimensão vivencial e de leque de actividades possíveis – desde a horticultura e floricultura ao convívio com animais domésticos.

Esta escolha parece lógica e há formas de controlar e harmonizar a intervenção apropriadora dos habitantes, seja tapando parte da vista pública e privatizando, agradavelmente, tais espaços de pátio ou quintal, seja obrigando à referida disciplina dos projectos-tipo de quaisquer equipamentos e anexos a introduzir, seja dinamizando o arranjo de tais espaços que tenham vista pública, por exemplo, através da participação pública nesse arranjo, e mediante concursos que dinamizem a estima privada e pública de cada rua, de cada praceta e de cada quintal. E sublinha-se o interesse que todas estas medidas acrescentam ao motivo principal desta série que é fazer uma habitação mais apropriável, mais satisfatória e mais estimulante.


Fig. 03: os espaços exteriores privados não podem caracterizar-se por quaisquer características de “residualidade”, têm de ser verdadeiros elementos protagonistas do conjunto integrado dos respectivos espaços domésticos e das suas influências públicas, em termos de uma adequada e rica caraterização da imagem urbana local  - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Henrik Haremst.

Caraterização do exterior urbano privado

Segundo Alexander, os terraços, pátios e jardins contíguos e privativos dos pisos térreos habitacionais devem caracterizar-se sem ambiguidades, por uma clara abertura ao exterior público ou por um forte bloqueio da comunicação visual com esse exterior (2) (mas respeitando a comunicabilidade do interior privado sobre o exterior).

Mas é perfeitamente possível associar uma tal abertura, em zonas frontais, a um recato mais marcado em zonas de traseiras, uma variação que só enriquecerá as respectivas imagens urbanas.

A permanência no exterior privativo pode ser motivada ou pode ser desmotivada e tudo tem a ver com a localização, o dimensionamento e pormenorização de cada espaço exterior privativo. Preverem-se espaços exteriores privativos apenas porque “ficam bem” numa determinada fachada de um dado edifício, não faz qualquer sentido, sendo, provavelmente, muito preferível a opção por janelas de sacada ou mesmo por mínimas varandas de assomar, soluções estas que irão permitir aquela liberdade “mínima” de se poder “sair”, facilmente, do espaço privado doméstico, por exemplo, para fumar um cigarro ou simplesmente para se apreciar o ar exterior, o que é sem dúvida importante como liberdade fundamental no uso de um espaço doméstico.

Mas ao optar-se por se fazer um espaço exterior privativo elevado ou térreo, então há que o projectar com um máximo de atenção e de cuidado, considerando os aspectos que foram aqui apontados e tendo presente que estes espaços não podem caracterizar-se por quaisquer características de “residualidade”, têm de ser verdadeiros elementos protagonistas do conjunto integrado dos respectivos espaços domésticos e das eventuais influências públicas que estes espaços tenham; e acredite-se que havendo aspectos de residualidade e de menor atenção a estes espaços o resultado será a sua transformação em verdadeiros espaços residuais, mal usados e abandonados.

Notas
(1) D. Dreyfuss; J. Tribel, "La Cellule-Logement", p. 29.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 590 e 591.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 573
Artigo XC da Série habitar e viver melhor

Problemas, apropriação e caraterização do exteriores privado – Infohabitar n.º 573


Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



segunda-feira, março 17, 2014

476 - Viver ao nível térreo - II - Infohabitar 476



Infohabitar, Ano X, n.º 476
Artigo L da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Viver ao nível térreo - II

Apontar vol 2 do Dieter Prinz e estudos do TT

Espaço urbano vitalizado pela habitação térrea

A existência de residências térreas, dispondo de espaços exteriores privativos, liga-se a uma oferta, directa, de condições de vida diária potencialmente muito semelhantes ao viver em edifícios unifamiliares e pode, até, ser conveniente para potenciar a continuidade da presença humana e a animação urbana, acima referidas, e por outro lado para as garantir, de modo mais generalizado, "a toda a volta dos edifícios" e, até, de um modo mais alargado, a toda a volta de zonas exteriores privadas dos fogos do rés-do-chão, enquanto também se potencia a qualificação basicamente residencial da zona em causa (caracterizando-a como uma verdadeira "área residencial").


Fig. 01

Adequação da habitação a modos de vida e gostos habitacionais

Por outro lado, ainda, sabendo-se que os fogos térreos podem ter problemas de segurança (relativamente a intrusões) e de reduzido desafogo de vistas (de modo a proteger-se a intimidade doméstica), para não falar já das suas mais fracas condições de conforto ambiental (mais sombra, mais ruído), também parece justo que lhes sejam atribuídas algumas vantagens quanto à autonomia no contacto com o solo; e deste modo conseguem-se substanciais poupanças na manutenção pública do exterior residencial, enquanto se proporciona a um significativo grupo social, o das famílias com filhos pequenos, um meio residencial que é o ideal para o crescimento saudável destas crianças (jogos no exterior em segurança, contacto directo com a terra, etc.).
E para além de tudo isto é essencial a oferta de tipologias habitacionais adequadas, seja a uma ampla diversidade de modos de vida (ex., mais ligados a prática rurais), seja a uma ampla variedade de gostos/desejos de habitar (ex., ligação mais forte ao exterior e ao solo, contato com animais domésticos, etc.).

Cuidados com as habitações térreas



Convém, no entanto, considerar alguns cuidados básicos no desenvolvimento de fogos térreos:
  • Cotas de soleira e de peitoril a alturas adequadas, relativamente aos espaços exteriores públicos, comuns e privados contíguos.
  • Vistas a partir dos espaços pedonais envolventes do edifício, por um lado não devassando os espaços térreos privados e por outro aproveitando, pelo menos em parte, visual e ambientalmente, os "verdes" privados.
  • Relações estimulantes com os espaços exteriores privados e bem aproveitadas em todas as suas potencialidades, com relevo para a forte caracterização da imagem urbana do local (área ou conjunto residencial).
  •  Adequadas (máximas) condições de segurança, tanto por recurso a muros, gradeamentos e vedações previamente projectados e uniformizados, "cobrindo"/protegendo todos os vãos exteriores térreos e quintais privados, como pelo desenvolvimento cuidadoso (não ferindo privacidades domésticas) de uma estratégia generalizada de visibilidades de segurança e de contiguidades de observações naturais e contínuas (ex., contiguidade ou grande proximidade entre as traseiras de certos edifícios e as entradas de outros). 
  • Total controlo do desenvolvimento de anexos nos quintais privados, segundo projectos-tipo e apenas para usos, previamente, bem definidos.

Semelhança entre habitações térreas e moradias

John Noble e Barbara Adams consideram que algumas características das moradias podem ser conseguidas nos pisos térreos de edifícios multifamiliares, tais como acessibilidade a diversos tipos de espaços exteriores, terraços e jardins privados económicos, zonas de serviço exteriores e vistas agradáveis de espaços verdes ou de zonas animadas; no entanto, há que cuidar, atentamente, das relações visuais e acústicas que determinam a privacidade doméstica (essencialmente interior, mas também em parte do exterior privado). (1)

É ainda de considerar a extensão parcial deste tipo de solução às habitações em 1º andar, através de terraços e escadas exteriores funcionais e, por vezes, aproveitando a topografia do terreno.



Fig. 02

Pátios e quintais privados

Uma previsão de pátios ou pequenos quintais privados é um aspecto fundamental neste nível físico da Vizinhança Próxima, que parece não ter sido, ainda, convenientemente considerado na arquitectura urbana residencial mais recente.

Afinal os espaços exteriores privativos e térreos constituem zonas de transição interior doméstico/exterior público ou semi-público com enorme capacidade de apropriação, são elementos de forte compensação face a uma situação habitacional térrea ou pouco elevada (menos privatizada, segura e visualmente desafogada), asseguram boa capacidade de adequação a determinados modos de vida, desejos habitacionais e composições familiares (famílias com crianças) e podem também assegurar um verde privado com forte fruição pública mas sem gastos públicos de manutenção (ao longo de caminhos e passeios pedonais) contíguas, mas assegurando forte demarcação e relativa ou total privacidade. 

Variedade de espaços exteriores privativos

De certo modo a integração de quintais/pátios tem grande versatilidade de aplicação, podendo variar, por exemplo, entre um grande pátio/terraço comum envolvendo uma torre habitacional e um interior de quarteirão associando zonas de recreio semi-públicas centralizadas e uma margem quase contínua de quintais/pátios contíguos a fogos térreos, ligados a fogos em 1º andar (com acesso por escadas) e contíguos a salas de condomínio.

Vantagens dos quintais e pátios privativos

Resumindo as vantagens do desenvolvimento de quintais/pátios, refere-se a sua muito provável influência decisiva na obtenção de condições de intensa utilização e apropriação de grande parte do exterior de proximidade e os consequentes ganhos em boas condições de vigilância natural, bastante contínua e bem disseminada, de todo o território da Vizinhança Próxima.

Não é excessivo reafirmar que estas condições só terão viabilidade se o sistema de quintais/pátios estiver perfeitamente conjugado com o sistema de acessibilidade local (ex., percursos de uso frequente ao logo de bandas de quintais), caso contrário o resultado final até pode agravar situações de insegurança e incomodidade.

Notas:
(1) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 525.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Editor: António Baptista Coelho
INFOHABITAR Ano X, nº476
Artigo L da Série habitar e viver melhor
Viver ao nível térreo - II
Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


domingo, março 09, 2014

475 - Viver ao nível térreo - I - Infohabitar 475


Infohabitar, Ano X, n.º 475

Viver ao nível térreo - I

Habitações térreas e opções domésticas e urbanas

Artigo XLIX da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Habitação ligada ao espaço público          

            Uma das grandes opções de viver o habitar – habitação e vizinhança e vice-versa – joga-se, sempre que tal é possível (e assim foi, frequentemente, ao longo de milénios), na escolha de habitações que tenham relação direta com o espaço público ou de uso público, ou indireta através de espaços exteriores de uso privado (quintais e pátios privativos); uma opção que se sintetiza com a ideia de poder “viver ao nível térreo”, ou bem perto dele e um viver ao nível térreo que é, também, viver mais intensamente a natureza e o exterior de vizinhança.
            Uma tal opção é determinante da adaptabilidade do habitar assim escolhido e vivido, seja numa perspetiva de adequação prévia a determinados modos de vida, eventualmente, mais ruralizados, seja  na perspetiva de resposta a determinados desejos habitacionais e de vivência da respetiva vizinhança de proximidade e do seu eventual potencial de convívio e de contato mais “livre” com o exterior, o “ar-livre”, a natureza e o espaço urbano localmente disponíveis.
            Trata-se, afinal, de um importante fator de adequação e de “liberdade” nas soluções de habitar que se escolhem, e um fator que, infelizmente, tem sido muito desprezado em favor das, tantas vezes “estafadas”, soluções-tipo de edifícios "tipo esquerdo-direito."


Fig. 01

Imagem urbana estimulante

            E sublinha-se o também  muito importante papel que estas soluções cumprem na modelação pormenorizada de uma imagem urbana estimulante, porque diversificada e por vezes orgânica e até lúdica, no acompanhamento visual e físico que proporciona aos percursos pedonais contíguos, fazendo, de certo modo, sentir, mais fortemente, nesses percursos o ambiente residencial envolvente e caraterizador, seja pela quase-contiguidade dos vãos domésticos, seja pela presença evidenciada de zonas de limiar e de proteção ou enquadramento da essencial privacidade doméstica - ex., sebes naturais, muros bem promenorizados, diferenças de nível estratégicas, sequências de vistas bem estruturadas e marcadas pelo verde urbano, que nesta solução de evidenciação de um nível térreo residencial e com exteriores privados, pode ser um verde privado, mas com fruição pública, aspeto este de grande importância na gestão do exterior.

Ligação habitação-rua

            Sobre a ligação habitação-rua importa aprofundar as possibilidades vivenciais e arquitetónicas que uma diversidade de relacionamento entre esses dois mundos de privacidade e convivialidade pode e deve proporcionar com o duplo objectivo de uma cidade mais variada, atraente e mesmo equilibradamente surpreendente, e de uma habitação marcada pela identidade – das características formais da solução (exemplo: volumes, cores e desníveis dos acessos privados, e diferentes agregações dos mesmos).


Fig. 02

Tipologias com acessos diretos ao exterior 

            E a ideia que se quer aqui deixar é ser plenamente possível e social e economicamente bem sustentável apostar em soluções deste tipo, que aplicam média/alta densidade habitacional com edifícios de baixa altura (até eventualmente sem elevadores), em que boa parte das respetivas habitações têm acessos diretos a exteriores privados (exemplo: três pisos em que as habitações térreas têm acesso direto ao exterior e as em 1.º andar também têm acessos por escada a pequenos talhões privativos).

Ligação entre edifício e rua

            Sobre a ligação edifício-rua já desenvolvemos, em outros artigos desta série, um conjunto de ideias que se considera básico, mas falta talvez imaginar o que poderia ser uma entrada comum, provavelmente de um conjunto de habitações não excessivamente dimensionado em termos sociais e físicos, e onde nos sentíssemos tão individualizados e identificados com a proximidade “imediata” da nossa “concha” doméstica, como verdadeiramente estimulados, tanto pela proximidade e uso intensos: (i) dos nossos pequenos espaços exteriores privados, (ii) do espaço público que os contorna e serve, (iii) e da própria vizinhança marcada por um sentido agradável e protegido de um conjunto de vizinhos em que o convívio é claramente apoiado, mas sempre de forma “não imposta”, havendo alternativas de acesso que o garantam.

Identidade e habitação

           Sobre a ligação habitação-edifício e igualmente numa perspectiva do que poderia ser uma tal relação, julga-se que são importantes os aspectos de marcação da identidade da habitação, de segurança maximizada na aproximação à porta da habitação e de vigilância, a partir do interior, quando se acede à habitação, de privacidade dos espaços domésticos relativamente a vistas das vizinhanças envolventes e com uso público (e naturalmente a partir de vãos domésticos alheios), e mesmo de uma equilibrada antecipação dos ambientes exteriores e interiores domésticos, em aspectos que não podem fazer arriscar a dignidade do ambiente comum do edifício e da sua presença na respetiva vizinhança urbana.


Fig. 03

Vantagens do viver ao nível térreo

            Esta matéria do “viver ao nível térreo” e, consequentemente, do habitar de uma forma que, potencialmente, pode estar intimamente ligada ao “exterior”, ao “ar-livre”, “à rua” e, portanto à natureza, à cidade e mesmo à paisagem de proximidade, é matéria que merece aprofundamento e desenvolvimento posteriores e cuidadosos, que serão, apenas minimamente explorados em próximo artigo desta série, mas desde já se sublinham algumas relações a privilegiar no desenvolvimento deste “filão” de reflexão projetual (sobre o “viver ao nível térreo”):
(i)           com a diversificação e adequação tipológica habitacional;
(ii)          com os importantes aspetos de harmonização a necessidades específicas de acessibilidade;
(iii)         com as “novas” preocupações de densificação urbana;
(iv)         com a sustentabilidade ambiental e social urbanas;
(v)          com um urbanismo renovado e mais humano;
(vi)         e com uma oferta habitacional mais caraterizada e potencialmente apropriável  pelos seus habitantes (fisicamente e em termos de identidade).

Editor: António Baptista Coelho
INFOHABITAR Ano X, nº475
Artigo XLIX da Série habitar e viver melhor
Viver ao nível térreo - I
Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, junho 17, 2013

444 - EDIFÍCIOS HABITACIONAIS: ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO - Infohabitar 444


Infohabitar, Ano IX, n.º 444

- Infohabitar 444
  ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Artigo XXXIII da Série Habitar e Viver Melhor

António Baptista Coelho

Na sequência da reflexão ampla e razoavelmente sistemática sobre um melhor habitar, mais criativo e adequado, que temos estado a tentar fazer nesta Série de artigos intitulada “habitar e viver melhor” – iniciados no espaço urbano e que chegaram agora aos espaços edificados – , vamos desenvolver, neste texto uma pequena reflexão sobre o que se pode considerar como os aspectos fundamentais na estruturação dos edifícios habitacionais, que se relacionam com a sua dimensão geral, a existência afirmada de elevadores e a maior, ou menor, evidenciação de cada habitação no conjunto edificado; um outro aspecto, de certa forma suplementar e que aqui se evidencia, na sua importância tipológica, será a existência evidenciada de um espaço exterior directamente associado ao edifício.

Provavelmente a inovação fundamentada e adequada (na mudança e na adaptabilidade), que se defende para os espaços comuns do habitar e de que se irá falar para a concepção de novas soluções domésticas, encontra e encontrará aqui, na criação e recriação de novas soluções de edifícios, uma excelente matéria, à qual iremos voltar, aqui e ali, nesta Série editorial, ao sabor dos sítios e das ideias de que vamos falando.


Fig. 1

No entanto importa, desde já, referir que uma tal inovação deverá ter em conta o enorme leque de soluções que foram sendo experimentadas desde a invenção da povoação, há cerca de 10.000 anos, com um especial enfoque nas soluções mais replicadas e reinterpretadas – nas quais tem presença especial a casa-pátio (ou o pátio-casa) – não fazendo qualquer sentido andar-se, constantemente, a reinventar várias pólvoras; e uma tal reaplicação e reinterpretação tem de ser criteriosa e actual, podendo, na prática, gerar verdadeiros novos modelos de habitar.

E importa também apontar que uma tal inovação pode decorrer, em boa parte, de soluções de (re)articulação e de síntese diversificadas dos diversos elementos constituintes e de composição que se conhecem, visando-se objectivos específicos, quer de melhoria das condições domésticas, quer de melhoria das condições de agregação no edifício, quer de melhoria das condições de vizinhança de proximidade e de continuidade e vitalidade urbanas, quer, naturalmente, de economia de construção e de manutenção.

E julga-se que tudo isto terá muito mais interesse do que continuarmos irredutíveis a defender velhas tipologias de edifícios muitas das quais tiveram origem em processos construtivos e culturais específicos e muitos deles datados e localizados. Uma afirmação que, evidentemente, não pode conflituar com os fundamentais objectivos de justeza e coerência de linguagens formais e construtivas em zonas integradas em paisagens a proteger.

Considerando-se a ideia-base desta Série editorial de tentar identificar aquilo que é potencialmente mais determinante da satisfação residencial e neste caso especificamente nesta temática dos diversos tipos de edifícios poderemos identificar um conjunto bastante limitado de aspectos, entre os quais se identificam (numa listagem vientemente dinâmica) os seguintes:

1. Independência formal da habitação relativamente à sua envolvente e a outras habitações e/ou possibilidades da sua apropriação/identificação.

2. Acesso privativo da habitação ao exterior público.

3. Estimulantes formas de agrupamento de fogos em edifícios…

4. Reduzido número de habitações agregadas num mesmo conjunto servido por acessos comuns.

5. Edifício com baixa altura, tendo em conta especificamente o relacionamento que permite, ou não, com o espaço envolvente; alternativamente uma altura mais elevada poderá associar-se a uma atraente imagem urbana.

6. Existência de elevador(es).

7. Existência de escadas ergonómicas e ambientalmente agradáveis.

8. Espaciosidade, dignidade e orientação nos espaços comuns.

9. Dignidade, identidade e orientação nas entradas comuns.

10. Dignidade, identidade e capacidade de apropriação nas entradas privadas.

11. Existência de boas condições de luz natural, ventilação e vistas nos espaços comuns.

12. Existência de boas condições de conforto térmico nos espaços comuns.

13. Reduzido número de vizinhos por agrupamento horizontal de acessos.

14. Integração do edifício na respectiva vizinhança urbana e paisagística.

15. Pormenorização da imagem pública do edifício com destaque para o seu remate térreo.

16. Existência de espaços privativos fora das habitações, como garagens e arrumações.

17. Existência de espaços de condomínio com desenvolvimento significativo e sem presença negativa no espaço público (não criando descontinuidades no espaço público).

18. Existência de espaços exteriores (privados, comuns ou públicos) cuidados na contiguidade do edifício.

19. Existência de varandas ou terraços.

20. Possibilidade de integração de elementos de vegetação.

Sublinha-se que com estes ingredientes é possível concretizar diversas soluções de edifícios e diversas agregações habitacionais. No entanto e à partida muitas soluções correntes parecm ficar quase imediatamente postas de lado, em termos de potencial de satisfação, como é o caso, por exemplo, de grandes torres habitacionais com imagens públicas monótonas e espaços comuns interiores.

Também se salienta que das diversas misturas dos referidos ingredientes poderão resultar soluções diversificadamente equilibradas; por exemplo um maior número de habitações agregadas em torno de agradáveis e amplos espaços comuns de condomínio.


Fig. 2

Para concluir esta reflexão mínima sobre os diversos tipos de edifícios façamos agora um pequeníssimo apontamento sobre o chamado “habitat intermediário”, através de algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet (1); dizem as autoras que “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)”, e, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”

Julga-se que esta matéria é de enorme importância, esta ideia de caldear caracterizações multi e unifamiliares indo, tendencialmente, buscar o que de melhor umas e outras têm para um habitar urbano verdadeiramente agradável e estimulante; quem sabe numa aliança entre um carácter e uma identificação aparentemente independente e expressiva da presença de cada habitação no conjunto da vizinhança e uma disponibilização de um conjunto de serviços úteis e diversificados e mesmo de um ambiente gregário que seja veículo de um sentido de protecção mútua e de apropriação de uma pequena parte da cidade.

Finalmente, considera-se que há um outro aspecto que tem uma insuspeitada importância na geração de soluções ou tipos habitacionais verdadeiramente atraentes e apropriáveis, refiro-me aqui aos aspectos de escala e de ligação, eventual e talvez tendencialmente, telúrica da edificação térrea e das soluções edificadas expressivamente marcadas por habitações térreas.

Soluções estas habitualmente associadas a uma forte perspectiva residencial humanizada, um aspecto que se julga ficar bem evidenciado nas palavras de Isabel Salema, referidas à arquitectura de Jörn Utzon (2003): “as raízes das suas casas organizadas em redor de pátios, visíveis nas casas de Fredenborg (1959-62), encontrou-as nas suas viagens mas também na própria Dinamarca. Misturam referências das quintas tradicionais dinamarquesas e chinesas e da arquitectura islâmica ... uma espécie de programa-quadro para o habitar individual, capaz de criar um espaço colectivo inesquecível, e no entanto sem qualquer sugestão do arquitecto ter imposto a sua personalidade aos outros. Vai ao encontro das necessidades modernas maravilhosamente, e contudo Fredensborg quase podia ter sido construído há mil anos.” (2)

E reparemos aqui que se misturam, e muito bem, aspectos de individualidade e comunidade nestas referências a uma arquitectura residencial chã e/ou expressivamente marcada pela escala humana, aspectos estes que pelos vistos cruzam a Europa de Norte a Sul, da colónia para casais idosos em Fredensborg, feita há poucas dezenas de anos, às tantas habitações térreas e/ou expressivamente humanizadas e mediterrânicas.

Mas esta é temática que nos pode e deve levar muito longe ...

Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18
(2) Isabel Salema, “Jorn Utzon para além da Ópera de Sidney”, Público, 19 Abril 2003.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº444
ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Edição de José Baptista Coelho
LNEC-Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) e
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte