quinta-feira, fevereiro 22, 2007

A árvore suporte do mundo no espaço urbano (II) – das árvores/jardins, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 127

 - Infohabitar 127

Palavras-chave: ecossistemas globais [alianças florestais mundiais - floresta (mata) - continuum naturale-contínuo edificado]; REN urbana, estrutura verde urbana e corredor verde [pulmões urbanos]; árvore notável, árvore património e árvore viária [na estrada, no passeio de peão e alameda e no jardim público e privado]; água na cidade e fauna urbana; ecossistema urbano versus ecossistema humano [a alma das gentes e da árvore - espaços para a alma, o silêncio, a meditação e o divino - a música do vento e a árvore inspiração do poeta - a árvore que na copa capta o sol e na raiz capta a água]; o espírito da árvore e o espírito do homem

Resumo
Partindo de citação breve dos grandes agrupamentos fitossociológicos planetários a fim de ter uma ideia global das condições geo-edafo-climáticas que os determinam, passando pela caracterização de resinosas e folhosas, centra-se a forma como são "escolhidas" para o espaço urbano e referem-se as mais variadas funções na qualificação do espaço urbano e termina-se com apelo de geo-consciência e geo-cidadania.

Da árvore ao jardim uma excelente e crucial viagem urbana

Se for grande e muito arborizado qualquer jardim ou parque urbano, de tudo isto podemos recolher o prazer e ensinamentos da natureza sem precisar de sair da cidade, mas onde estão, nas cidades, esses grandes jardins? E o hábito de os frequentar?

Onde estão os grandes parques de periferia de equilíbrio ecológico e climático e de sinalização-verde da cidade, de recepção das grandes cargas pluviométricas previsíveis ou "anormais", lugares constantemente ameaçados pelo romper de mais estradas ou arruamentos e gigantescos equipamentos urbanos, e outras coisas da cidade, reduzindo-os a caricaturas de jardim e de espaços de protecção ecológica, que deveriam constituir as "cinturas verdes urbanas”, sobretudo nas grandes metrópoles, áreas também importantes para desporto e lazer, como é Monsanto (Mont Saint) ou o Bois de Bologne?

Fisiografia, solo e clima, determinam a existência das espécies, a não ser que se introduzam "exóticas", de que o melhor exemplo será o da Serra de Sintra de que foi responsável o rei D. Fernando de Sax e Cobourg, que por condição e amor às árvores e sua imensa variabilidade de formas e cor, coleccionou tantas espécies de quase todo o mundo que fez da Feteira da Condessa um verdadeiro Arboretum conhecido no mundo e visitado também por isso, parecendo-me que esse paraíso vegetal está actualmente no total abandono e degradação, sujeito a fogo e vandalismo, como tantas coisas preciosas e únicas do país, que tantos antepassados se preocuparam em trazer e humanizar para depois usufruir, privadamente, e mais tarde publicamente, e de que os melhores exemplos no país serão Serralves e a quinta do Convento de Tibães, com projecto de recuperação feito por arquitecto-paisagista, agraciado com prémio europeu pelo seu magnífico restauro.




Quase todos os climas do mundo

O país de norte a sul contém, também por condição de situação geográfica e orográfica, quase todos os climas do mundo (atlântico, alpino, euro-atlântico e mediterrânico) e, daí, a maior variabilidade do mundo vegetal, tanto na floresta como em culturas agro-fruti-florícolas, e tanto nas áreas de regadio como de sequeiro, que o FOGO, betão e betuminoso, expansão urbana e de Centros Comerciais, vão dizimando. Riqueza a que só alguns, muito poucos, dão valor, como se se tivesse implantado o "ódio à árvore" e aos Jardins e mesmo à terra agricultável – que é, apenas, 36% do território nacional segundo a investigação e execução da cartografia orientada por esse grande agrónomo Ário Lobo de Azevedo –, porque é “prioritária” a construção de equipamento de consumismo popular ou elitista como o golfe, ou é preciso que "o arquitecto" modernize aquela alameda ou outro espaço qualquer, que já fez história e é memória dos lugares e habitantes, mas que interesse tem? Se é preciso fazer e desfazer constantemente, porque a criatividade e desenvolvimento deste e daquele lugar só se faz "modernizando" desta maneira destrutiva e irracional, repetitiva e inútil a que os decisores nos habituaram como se fosse normal e inteligente? Não, não é, porque privado da sua história – paisagem-memória – um povo entra em degradação.

A tal propósito é oportuno citar a imagem que correu na TV1-20h de 12 Novembro 2006, de um milhão de ovelhas que os agricultores de Espanha levaram até à capital a fim de reclamar contra a destruição e o corte das áreas de pastagem, com 125 mil km de estradas e expansão urbana, de que Portugal é vítima não apenas com as famosas IPs, designadas de estradas-criminosas pela UE, por várias razões: local de implantação, desenho de traçado, declives longitudinais, ausência de separadores de trânsito central para a velocidade legal, destruição de pequenos e grandes relevos e respectivos micro-climas e ecossistemas, e, por fim, pelo desmantelamento de ecossistemas.

No país o problema agrícola foi resolvido da forma mais brutal. Pois que se deixou simplesmente de considerar o sector agrícola e a sua população, parte dela obrigada a demandar o litoral, abandonando-se a produção agrícola e tudo o que daí derivava de actos contínuos de âmbito de produção artesanal e cultural, só reanimada pelos emigrantes que nunca, por enquanto, desistem de voltar à sua aldeia, em férias de Verão e de Natal, reavivando tradições e costumes, mas com os dias contados porque seus filhos já construíram suas vidas fora do país.




Nunca vi nada, nada que valha a Pena

"Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto e nunca vi nada, nada que valha a Pena. É a cousa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro Jardim de Klingsor e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal" – Richard Strauss.

Já decorreu muito tempo sobre a acção dos "Monges agrónomos" - os Beneditinos - com o seu amor ao cultivo da videira para produção do vinho de celebração da Missa, e das flores para o Altar, e de árvores de fruta, que deram fama a Alcobaça de que resiste muito pouco, porque os decisores insistem, desde 1986, no país florestal (que ardeu) e não no país agrícola que tem 2 mil anos, porque os produtos agrícolas "alheios", dizem, são mais baratos, embora sejam apenas produtos químicos que há muito põem em perigo a saúde pública, sendo que França já voltou atrás muito recentemente, recuperando a sua agricultura-ecológica.

E ainda assim somos o país mais velho do mundo na delimitação das fronteiras físicas, tendo também, sem ser por acaso, a mais velha zona agrícola demarcada do mundo, a região do Douro, que faz agora 250 anos, mais velha do que alguns países tidos como desenvolvidos e fazendo parte do grupo restrito dos que decidem a vida do resto do mundo. Pobre país que perdeu a sua independência alimentar e de tão alta qualidade, pois que a sua gastronomia continua a ser apreciada mundo fora, e é cartaz turístico associado a saberes respectivos do cultivo da terra, bem como a manifestações culturais ancestrais, que se vão perdendo, quebrando-se uma longa cadeia de interdependências saudáveis, produtivas e autosustentáveis, perdidas nos jogos políticos indecifráveis e empobrecedores da própria cultura primordial nacional, e sabendo-se, contudo, que nenhum país do Clube Europeu, tão recentemente criado, destruiu um único m2 agrícola.

E é, assim, o país obrigado a importar o que "come", sem que se vislumbre qualquer opção até porque, por outro lado, os jovens abandonaram o interior produtivo e não irão mais deixar a cidade, os que ficaram envelhecem e morrem, ou suicidam-se e os poucos resistentes não são bastantes para recuperar e reanimar tudo o que se perdeu em escassas dezenas de anos em que se destruiu o que se construiu em 2 mil anos – pão e história e tradição nunca recicladas ou reabilitadas.




Sobre as velhas árvores e sobre o que não faz qualquer sentido

Pobres as árvores que levaram dezenas e centenas (ou milhares como as oliveiras - Olea sativa ou Sequoias sempervirens) de anos a ser Árvore e a conquistar o seu ecossistema de árvores de sombra que abriga, de árvores e arbustos de orla ou de clareira, e que, em minutos, a serra mecânica corta e transforma em lenha, inútil, dizimando-se o clima e a fertilidade do solo, pobres as árvores de espaço urbano que, igualmente, têm de dar lugar ao betão.

E é interessante focar como as velhas oliveiras que restaram em Lisboa (em Portugal há figueiras e oliveiras de norte a sul e de este a oeste), mesmo milenares, são muitas delas transplantadas, como é o caso do Jardim a que deram o nome “Jardim das Oliveiras”, no CCB; oliveira, a Árvore dos Santos Óleos dos cristãos do Mediterrâneo e ainda hoje respeitada pelos Judeus portugueses, cujo óleo é usado para cerimónias especiais da sua religião, afirmando-se que a qualidade do seu azeite é de valor superior, sobretudo o das oliveiras que ainda persistem em Trás-os-Montes.

Não será que a árvore também sofre? Não será que também a árvore tem alma?

Sobre a árvore centro de vida

E os animais da fauna cinegética (aves e mamíferos) que abriga bem como todas as espécies vegetais que à sua sombra se desenvolvem? E as colmeias? E todos os produtos dela derivados que são vida e economias e património do país e do mundo global? E que são igualmente ecossistemas de áreas ribeirinhas e outras zonas húmidas, que são local privilegiado de aves migradoras que, sem local de alimento e nidificação, se vão extinguindo, e que a UE insiste, através de Directivas, em fazer conservar nos países do sul (e do Sol) tanto as Aves como os Habitats.

E o como se destrói o seu húmus doce (mull), que a chuva ajuda a fazer escorrer encosta abaixo para fertilizar e ajudar a determinar o zonamento agro-silvo-pastoril; para além das sementes que vai "semeando".

Ora desta multiplicidade de árvores produtivas e benfazejas, incluindo árvores de fruto, o homem urbano escolheu algumas para as introduzir no seu espaço de habitar .




A cidade jardim no miolo dos quarteirões

No miolo dos quarteirões, fez pomar e horta-jardim quase como reminiscência da sua origem rural ancestral, plantou figueiras e nespereiras, pessegueiros e amendoeiras e pilriteiros, fez horta de legumes que consome ao longo ao ano, e não se esqueceu de plantas ornamentais como a bouganvillea, a roseira e os jarros, os narcisos e as dálias, e tantas outras espécies de jardim, que há pouco tempo ainda se assomavam aos muros de delimitação do casario nobre ou menos nobre, ou eram por outros vistos de andares mais altos, regalo para o olhar e memória ancestral e, ainda, terra permeável que absorvia grande parte da queda pluviométrica alimentando toalhas freáticas urbanas, e assim amenizava o clima, através da evapo-transpiração no Verão, e permitia respirar ar puro e nunca ozono e que, a seu tempo, impedia as enxurradas, que apenas há uma vintena de anos aumentam de intensidade e gravidade; e que, no Inverno, já sem folhas, deixavam olhar o Sol que aquecia a cidade.

Hoje, esses quarteirões são locais de densificação urbana ou de construções auxiliares para estacionamento automóvel ou, simplesmente, lixeiras colectivas dos materiais mais imprevisíveis, que se abandonam, porque "educação ambiental" é, também, assunto escolar de meninos, para desenhar e aprender a brincar, sem intenção de ir formando cultura e consciência.

Os jardins de traseira, tão importantes como os pequenos jardins de quarteirão, cheios de árvores e arbustos e plantas anuais, que se enchiam na primavera de pássaros de telhado e andorinhas, que voltavam na primavera ao mesmo lugar, já não existem nem fazem história, mas não são merecedores de qualquer manifestação na Avenida da Liberdade; porque qualidade de vida, sobretudo desde a década de 80, não passa de peditório de aumento salarial, porque a tal se resume a exigente cultura urbana portuguesa.


A cidade histórica desmorona de esquecimento e desprezo. A VIDA começa a morrer na Cidade.

A ecologia urbana passa a ser diferente e os habitantes animais são outros, como as formigas, as baratas e as ratazanas e a insalubridade geral, porque os funcionários da CM envenenam os pombos e dizimam cães e gatos "vadios", pois que já nem esses habitantes "tradicionais" existem, porque não é sinal de se ser civilizado nem mesmo nos bairros periféricos e mais "familiares".




A Árvore na Cidade

Assim a ÁRVORE na Cidade, seja a de arruamento (ou alinhamento) em fileira única ou em alameda, em sebe para protecção do vento ou divisão de propriedade, ou maciço em Jardim, isolada como exemplar-património, em enquadramento paisagístico de edifícios singulares, não é mais do que a que foi escolhida nos ecossistemas naturais por poder adaptar-se às mais difíceis condições de poluição e exiguidade de espaço, tendo o "jardineiro" imitado em espaço artificial os ecossistemas naturais de que o mais brilhante exemplo é o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ou quase "torturando" os seres vegetais obrigando-as ao desenho mais geométrico obedecendo à planta do espaço ajardinado ou mesmo domesticando-lhe a forma natural de que Vaux-le-Vicomte será o mais belo exemplo de jardins do mundo, desenhado pelo erudito jardineiro e hidráulico Le Nôtre para o ministro das finanças de Louis XIV, que logo encomendou a construção de Versailles, num pântano, sendo que Villandry, no Vale do Loire, do séc. XVII, é igualmente de grande beleza, sendo duplamente jardim de prazer e de ervas de cozinha, horta e pomar, mas sendo que, em Versailles, continua a existir o "Potager du Roi", embora se tenha destruído, em Serralves, a área de Horta, para construir Museu de Arte Moderna desenhado por altamente premiado arquitecto - sem opção, porque para arquitecto das pedras não há opção para arquitecto-paisagista.

Quando o homem se tornou sedentário e fez agricultura, fez o primeiro jardim

Quando o homem se tornou sedentário e fez agricultura, fez o primeiro jardim. Sempre o homem procurou o divino nas estrelas do céu, mas foi nos jardins que o encontrou e lhe chamou Éden. Dos jardins suspensos da Babilónia chegou-se ao esplendor do jardim formal obrigando as plantas a conterem-se na forma artificial até que o próprio homem se libertou da sua imposição à natureza libertando-a à sua forma natural com o jardim à inglesa.

A árvore na cidade já pouco é indicadora das quatro estações do ano com as suas folhas perenes ou caducas exibindo todas as cores de doirado a castanho e ferrugem de Outono, não dá ninho e alimento aos pássaros e não obriga o cidadão a lembrar-se como é a natureza e o clima e como são os ritmos naturais, como acontece no espaço rural que ainda é habitado, a árvore já não transpira no Verão para equilibrar a humidade relativa do ar, juntamente com a evaporação da terra, que já não há por ter dado lugar ao betuminoso, sendo assim quase nula a evapo-transpiração; e assim a temperatura média urbana alterou-se porque as áreas são de matérias artificiais acumuladoras de calor, a árvore já não é agente de infiltração da chuva através dos orifícios criados pelas suas raízes, porque nos jardins já só há cimento e as caldeiras são calcadas e impermeabilizadas pelo automóvel que sobre ela estaciona.
Há/houve árvores na cidade

Há árvores de folhas persistentes e outras, cujas folhas são caducas.Mas o que me faz confusão, é que andem nuas no invernoe vistam um sobretudo de folhasno verão!
FolhagensJorge Sousa Braga, Herbário (1999)

Era uma árvore no passeio
E fosse tempo claro ou feio
havia uma paz de agasalho
dependurada em cada galho
E foi vivendo. Viveu gasta
músculo e flama de ginasta
quanto mais uma arvorezinha
meio garota de sobrinha


Carlos Drummond d'Andrade, Mola de Bolso


A Árvore já não existe nos separadores de trânsito centrais que foram destruídos para alargar o número de faixas de rodagem ou, nos que existem, a terra foi tapada por betuminoso para servir de estacionamento automóvel, que não pode ficar sujo de lama.

O homem urbano só olha para a árvore quando os seus ramos lhe entram pela janela ou lhe tapam a vista e quer ver cortadas, mas é capaz de se queixar da sua ausência quando o calor de verão aperta.

Com o sol a trepar pelas árvores
Não tardará
que a manhã corra mais limpa
e se possa beber

Véspera de Sol
Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra, 1982




Cidades "plantadas" à beira-rio



São muitas as cidades "plantadas" à beira-rio, mas nem todas têm um rio tão largo, um rio tão belo como o Tejo, que não é apenas ocupado com os transportes públicos como a maioria dos que atravessam a cidade ao meio, partindo-a e desligando-a, porque os serviços tomam conta dela pois que o Tejo separa e une as cidades que se implantaram na borda do seu pequeno "mediterrâneo" - O Mar da Palha -, na cidade-capital que lhe é "sobranceira" do alto das suas colinas, sentinela vigilante de ambas as margens, tão maltratadas e mal aproveitadas para usufruto da população que as invade logo que o tempo seja de sol.

Haverá muitos rios belos como o Tejo mas não há nada mais belo do que o Rio da minha aldeia/cidade e com as áreas verdes, que entram na cidade e se vão ligando aos grandes e pequenos jardins privados e públicos, por ela dispersos, perfaz o Continuum naturale.

Morreu no Tejo a gaivota mais esbelta
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos
Cantos de pescadores, embalai-a!
Versos de poetas embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor de velas, embalai-a


Tejo – elegia para uma gaivota, Sebastião da Gama – Campo Aberto


Tu que passas por mim tão indiferente
no teu correr vazio de sentido,
na memória que sobes lentamente
do mar a nascente
és curso do tempo já vivido
Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo ??

Por isso, à tua beira se demora
aquele que a saudade ainda trespassa
repetindo a lição, que não decora,
de ser, aqui e agora
só um homem a olhar o que passa
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo !

Um voo desferido é uma gaivota
não é o voo da imaginação
gritos não são agoiros, são a lota ...
Vá, não faças batota,
deixa ficar as coisas onde estão
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo

Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade
Saudade tenho sim, mas de perder
as águas vivas da realidade
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu em mim que me vejo !

O Tejo corre no Tejo, Alexandre O’Neill - Feira Cabisbaixa




O fantástico século XX



Depois da II Guerra Mundial o mundo parecia regenerar-se e engrandecer e dar espaço ao enriquecimento material já que à libertação do feminino no virar do século XIX-XX se seguiu, nos anos 60, o movimento juvenil de S.Francisco do flower-power, make love not war, que foi o primeiro "ensaio já de escala mundial" de resposta à liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução francesa, pois que também nasciam novas nações submergidas no colonialismo.

Mas a segunda metade do séc. XX foi, em paralelo, o tempo de maior desenvolvimento, de todos os tempos, de todas as ciências e tecnologias que se por um lado vieram em benefício do Homem, por outro, foram de destruição até ao actual nível de agonia da Terra-Mãe, a Gaia, planeta sagrado. Da individualização imperou o individualismo, mas estando mais uma vez atentos, os jovens que são sempre o sangue novo e a seiva do mundo, construíram a universalidade do amor entre todos sem distinguir nem famílias nem idades, nem mesmo nações, de que vocês são, todos, o produto final como se se tivesse finalmente encontrado o ecossistema global Terra-Homem.

Da grande escuridão do Poder da Igreja e dos Estados, ou mesmo da família, começa-se a ver acenderem-se cada vez mais velinhas no mundo de que vocês já fazem parte e que disso têm de ter consciência e, agora, não apenas em termos de relacionamentos humanos, mas também da relação HOMEM-HABITAT, dando continuidade a esse Geo-instante para construção de uma Geo-consciência de Geo-cidadania, ou não estivéssemos já numa total visão do sentido da globalização, não da selvagem que vigora, mas daquela que vos pertence continuar como tarefa gigantesca, sob pena de estar em perigo não apenas a Terra mas também o homem e a vida global, homem que, apenas em 50 anos, desbaratou o que a Gaia ofereceu depois de se ter engalanado em festa durante 4 mil e 600 milhões de anos para que estivéssemos aqui.



A esperança


Eu que herdei o passado de que vos falo e atravessei a grandeza e queda do Homem e do Planeta só posso, como ser vivo no fim da linha da vida, confio na juventude, e por isso digo que os jovens portugueses não são já só portugueses, mas sim pessoas globais, apenas se distinguem dos outros jovens pela língua-mãe e talvez por uma alma tão diferente das dos restantes países, alma-colectiva e riqueza nacional a preservar neste mundo global mal entendido de estandardização dos gestos da vida.

Que parte cabe a cada cidadão, e a cada jovem, para manter viva a tradição-memória definidora da nossa cultura, e seguir um bom caminho? Cabe às novas gerações tratar, como trata a sua casa, esta Gaia e dela ser vigilante responsável não apenas em termos de local de habitar nem mesmo de território nacional, já que a Natureza não tem as fronteiras que o Homem desenhou para criar países, pelo que, hoje, no mundo global de gestos e costumes semelhantes, aculturados e hibridados, o que fizermos na nossa “casa” reflecte-se além fronteiras próximas e longínquas, porque só há uma Casa, o Planeta Azul.

A função das árvores

Nos cinco continentes, as árvores, na sua maior diversidade têm todas a mesma função de suportar o mundo e o clima e a vida global.

Formas imponentes à beira rio, nas montanhas geladas ou nos vales, e mesmo nos oásis dos desertos de areia. Esculturas vivas definidoras geoestratégicas e geoclimáticas de todas as longitudes e latitudes do planeta.

Lições de vida do ser e no estar no “lugar identificando-o diferenciadamente, dele tomando a identidade e, aqui sim, o termo sustentável colhe a sua maior expressão e significado. Mas multiressistentes e adaptáveis o homem colheu-as de um lugar e levou-as para mais perto de si, mesmo para ao-pé-da-porta e por isso nos permitiram conhecer de perto o que estaria só tão longe.

E se o país pequenino em dimensão física pela sua situação geo-gráfica-climática na ponta mais ocidental da Europa, solo e relevo, é repositório da maior variabilidade de árvores atlânticas e mediterrânicas, também, recebeu as muitas exóticas para aqui trazidas ao longo de séculos por reis ou viajantes, que tão bem se adaptaram não se sentindo “estrangeiras” nesta “nesga de terra rodeada de mar”. E assim sendo é repositório de espécies arbóreas dos cinco continentes, neste rectângulo “quase” de oiro.

Mas riqueza tamanha foi transformada em “achas para a fogueira” e tal que, desprotegidos os solos a chuva os faz aluir e descarnar até às pedras-mãe (rocha-mãe), fazendo jorrar a pouca vegetação que resta e o solo fértil transformado em lama até entrar na habitação e mesmo em património monumental provocando enxurradas catastróficas, pobreza e dor, apesar de chuvadas com queda pluviométrica normal, própria do clima português de características ancestrais de instabilidade.




Fora da cidade e dentro dela à árvore foi roubada a sua função planetária

Fora da cidade e dentro dela à árvore foi roubada a sua função planetária – vida – beleza – livro de leitura e de aprendizagem também das quatro estações do ano e da sua dimensão de abrigo de outros seres que dela dependem. Na área geográfica de clima planetário equatorial e Ásia das Monções, as árvores são eternamente verdes (abundância de calor e chuva todo o ano – duas estações – das chuvas e do cacimbo).

Cada árvore, porém, ao ser deslocalizada, mantém, em outro lugar, as suas características genómicas.


PLANTAI ÁRVORES


PLANTAI VIDA


Lisboa 28 de Outubro a 8 de Novembro - Bairro de Santo Amaro
Maria celeste d'Oliveira Ramos
engª.silvicultora e arquitecta-paisagista

Refere-se, em seguida, um elemento bibliográfico fundamental nestas temáticas:
Contributos para a Identificação e Caracterização da Paisagem em Portugal Continental (+ volume Açores)”
Editado pela DGOTDU-Projecto co-financiado pela Comunidade europeia - FEDER - Programa Interreg II C – Sudoeste europeu
Edição elaborada pela Universidade de Évora - departamento de Ordenamento Biofísico e Paisagistico, 2002
Coordenado pelos professores arquiectos paisagistas - Alexandre Cancela d'Abreu ,Teresa Pinto Correia e Rosário Oliveira
Sete livros: uma caixa de cartografia das unidades de paisagem do país e um CD – preço 100 euros


Texto-base de conferência proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.

Revisto para publicação no Infohabitar e re-ilustrado por António Baptista Coelho, em 11 de Fevereiro de 2007.

Editado por José Baptista Coelho, em 22 de Fevereiro de 2007


Nota do editor:
Acaba aqui este novo excelente e grande artigo de Celeste Ramos que foi editado esta semana e na semana passada aqui no Infohabitar com o título e sub-títulos: “A árvore suporte do mundo no espaço urbano: (I) dos homens-árvore às florestas de resinosas e folhosas; e (II) das árvores/jardins”.
Este artigo corresponde ao texto-base de uma conferência que foi proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.


Alguns sites que “falam” de árvores:

http://www.dias-com-arvores.blogsopt.com/

http://arborday.org/trees/majTreesMain.cfm

http://asiatours.net/press/en/images-laos.html

http://www.europanostra.org/images/awards_2004_winners/buckelwiesen2.jpg

http://fount-k.com/~tomo/sumb/yun_2654.jpg

http://www.owlfish.com/weblog/2004/10/toronto-autumn.jpg

http://www.britishacorn.com/tourism/sandalwood/index.html

http://www.fireflybooks.com/travel/new.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Jakarta_silhouetto.jpg

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

A árvore suporte do mundo no espaço urbano (I) – dos homens-árvore às florestas de resinosas e folhosas, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 126

 - Infohabitar 126

Palavras-chave: ecossistemas globais [alianças florestais mundiais - floresta (mata) - continuum naturale-contínuo edificado]; REN urbana, estrutura verde urbana e corredor verde [pulmões urbanos]; árvore notável, árvore património e árvore viária [na estrada, no passeio de peão e alameda e no jardim público e privado]; água na cidade e fauna urbana; ecossistema urbano versus ecossistema humano [a alma das gentes e da árvore - espaços para a alma, o silêncio, a meditação e o divino - a música do vento e a árvore inspiração do poeta - a árvore que na copa capta o sol e na raiz capta a água]; o espírito da árvore e o espírito do homem

Resumo
Partindo de citação breve dos grandes agrupamentos fitossociológicos planetários a fim de ter uma ideia global das condições geo-edafo-climáticas que os determinam, passando pela caracterização de resinosas e folhosas, centra-se a forma como são "escolhidas" para o espaço urbano e referem-se as mais variadas funções na qualificação do espaço urbano e termina-se com apelo de geo-consciência e geo-cidadania.






A árvore suporte do mundo no espaço urbano

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores
É preciso também não ter filosofia nenhuma
Com filosofia não há arvores - há ideias apenas
Há só cada um de nós, como uma cave
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela

Filosofia de janela fechada
Alberto Caeiro, 1925





A cidade é por excelência o espaço dos homens e há Homens que são como árvores


Da semente virtual de que nasceram, lançaram como vida uma radícula e caulículo, um folículo, flor e fruto, muitas flores que deram fruto e sementes, muitas sementes.
Conheci uma "árvore" dessas, grande, o fundador na universidade técnica de Lisboa, do curso de arquitectura-paisagista em 1942, que votou toda a vida ao seu sonho.

A árvore, a paisagem, a vida, a beleza, a ordem das coisas revalorizando-as num todo holístico, para conforto final do homem integrado no seu meio como se lhe tivesse sempre pertencido em réplica do Éden.

Como homem inteligente e sensível e multicultural, da árvore nasceu um grande tronco, a primeira geração dos seus alunos alguns dos quais ainda vivos, Gonçalo Ribeiro Telles, seu primeiro assistente, António Viana Barreto, Ilídio de Araújo, Álvaro Ponce Dentinho, os primeiros professores, conhecidos no mundo da profissão, tendo eu própria que iniciei a "profissão-no-feminino", testemunhado, em congressos internacionais, como essa semente não só era conhecida, como dava imediatamente "selo de qualidade" a quem quer que tivesse sido seu aluno, facto que reporto como invulgar naquele tempo, não sendo, no entanto, hoje invulgar dizer-se que "estudei canto ou piano com", "fiz doutoramento orientado por" ou, fiz "os meus estudos na universidade de", atestando, assim, a qualidade do conhecimento adquirido.

Esse mundo dos saberes da Terra e dos Homens, não se resumindo porém a esses profissionais, tornou-se prisioneiro-aprisionado dos que tendo apenas aprendido alguns termos lexicais, se julgam possuidores por direito e convicção, fazendo os usos mais nefastos para a Terra e para os Homens, podendo-se observar, nas paisagens urbanas e rurais e sócio-culturais, a apreensão que desses valores fizeram, desmantelando-as; mas não tenhamos medo demais, porque a religião pode ser mal usada por quem a professa, mas continua imutável na sua essência, como todas as verdades da verdade das coisas.

Estes profissionais cujos nomes se citaram, troncos da mesma raiz, apenas em meio século conquistaram o privilégio de ver hoje o trabalho de suas vidas constituir património intelectual nacional, ao ter sido "arquivado" na biblioteca nacional da direcção-geral de edifícios e monumentos no Forte de Sacavém (Jan.2006), património de uma vida de seriedade e de pesquisa pioneira, tornado património público pelo menos nacional.

Como eles, a árvore cujo fuste for cortado transversalmente mostra "anéis de crescimento" vendo-se uns mais claros e frágeis, anéis de crescimento em primavera chuvosa já a aquecer, outros mais escuros e densos, os anéis de crescimento de Inverno de tempo seco e frio, mas não parando de crescer mesmo que cada um, como cada árvore, tenha tempo de vida geneticamente determinado, mas dando sempre semente, porque ninguém extingue a vida por mais desgraçada que a torne.





Dessa árvore nasceram as grandes ramadas

Dessa árvore e do seu tronco que denomino eu própria de primeira geração, nasceram as grandes ramadas, já em pleno feminino, talvez porque essa profissão trata da vida e do fazer nascer e crescer e não pareceria certo que, mais uma vez, fosse gueto exclusivo do mundo masculino, neste tempo em que guetos se desfazem e novos nascem, enquanto os homens não interiorizarem que só há homens num único gueto que é o ser humano e o próprio Planeta e, até lá, uns vão à frente dos outros na destruição de guetos e na re-construção das coisas mais consentâneas com a verdade da Terra e dos Homens.

A preparação intelectual recebida tratava da vida no seu todo em áreas tanto científicas como do mundo das artes e da intuição sensível, saber sem guetos nem descontinuidades, puzzle em pirâmide do conhecimento do Planeta e não apenas de uma "das partes" (já que cada parte contém o todo como o macro contém o micro), perpassando da geologia à geografia e história ou história de Arte dos Jardins, botânica e filosofia e desenho e construção dos espaços concebidos, obra "acabada desde o estudo do espírito do lugar", ao planeamento e projecto até o ver de pé.

Abençoados os homens-árvore que, como esta árvore-pioneira, dão vida à vida e a fazem perpetuar num fluir contínuo passado de geração em geração e lhe vão acrescentando a sua criatividade individualizada sem perder a essência da semente.

A 11 de Março é celebrado o Dia Mundial da Árvore, data na qual a actividade mais importante se confina apenas ao ambiente escolar básico com passeios pela natureza e a plantação de uma árvore nem sequer em espaço escolar, como se as ciências da natureza se resumissem a "coisa de crianças", sem mais significado nem continuidade vida fora, qual semente que não vai dar fruto em idade de adulto e de decisão; esquecendo-se que o ensinamento destas ciências, base da ecologia e do ordenamento das paisagens urbanas e rurais e do ordenamento da vida, permite ficar "marcado" como se fica ao aprender a língua-mãe, nos gestos do quotidiano e para manutenção e fiscalização, natural, da qualidade de vida e do ambiente privado e do todo colectivo.





A terra-mãe agoniza


Por isso a terra-mãe, como a nossa que habitamos, agoniza, e a cidade das pedras e da água, dos jardins e da árvore, continua a revelar o maior desequilíbrio porque se perdeu a mais importante dimensão e função da terra e da árvore e daquilo que dela deriva como sustentáculo do próprio solo e clima (situações edafo-climáticas), de sustentação dos declives, da fauna terrestre e dos pássaros e da flora, da qualidade do ar e da água (e quantidade), dos perfumes, da cor e até da luz e das formas, enfim, da "saúde da terra", fora e dentro da cidade, e por fim das quatro estações do ano que o homem não pode alterar só por se tratar de uma dimensão do céu, mas que até contra elas se rebela dentro do espaço urbano, porque calor sempre lhe agrada, mas, sobretudo chuva, o faz decepcionar e denominar "mau tempo", como se sempre tivesse havido bom e mau tempo, excepto, de facto, agora, em que o homem interveio de forma inconsciente e desastrosa mas continuando, mesmo assim, a acusar "o tempo", sempre o tempo, como se fosse inocentemente autista e recusasse aceitar a parte que lhe cabe e "emendar a mão".

Interessante ver como o homem urbano, mesmo o mais erudito, esqueceu o que aprendeu na idade escolar truncando, a partir daí, a sua existência como um elemento da cadeia global da vida, embora seja o elemento do topo da cadeia alimentar planetária, tornando-se exactamente por isso o grande predador.





A árvore da cidade e as “cidades” das árvores – as florestas

Mas a ÁRVORE da Cidade não nasceu na cidade porque a cidade, mesmo Ur com os seus 6 mil anos, é posterior, como tudo o que o homem fez, porque a árvore é o ser mais velho da terra, sustentáculo do mundo e da vida.

A Árvore faz parte de conjuntos maiores denominados Associações e Alianças (sistemas fitossociológicos), mais comummente designados por ecossistemas, como se a árvore fosse deles a semente que lhes vai dar origem e abrigo a outras espécies vegetais e também os animais, num todo diferenciado de interdependência em interdependências maiores e globais, por regiões planetárias, distinguindo-se assim a floresta do frio e neve ou Boreal, da floresta equatorial e inter-tropical sua derivada e, por fim, a floresta da zona temperada, sobretudo do hemisfério norte de planícies húmidas e savanas, de áreas montanhosas e grandes vales, área e riqueza consumidas ao longo de milénios para se implantar a Ecúmena (20-40ºN), onde é maior a variabilidade de solos e de climas, de fauna e de flora, o Paraíso do homem, o Hemisfério Norte com as Zonas Temperada Quente e Temperada Fria.

Para quem se interessar pela árvore em Portugal e os ecossistemas naturais que determinam, adquira o livrinho simples e bem sistematizado – A Árvore – de autoria de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles e perceberá o que se escreve, apesar de quase ninguém de nenhuma condição sócio-cultural saber nenhum nome das árvores (e arbustos) com que co-habita toda a vida e que até terá ao sair da porta de sua casa, e perguntar-se-á porquê.

No entanto, o espaço nacional possui verdadeiras raridades mundiais, como é o caso do complexo vegetal da Serra da Arrábida, recentemente classificado como Parque Natural e fazendo parte da Rede Natura e da Biosfera, para preservação dos vestígios da floresta mediterrânica, no entanto o local escolhido, pelos decisores, para extracção, com dinamite, de pedra para construção da Expo-98, e do complexo urbano que se lhe seguiu, implantado no leito de máxima cheia do Tejo, privatizando espaço público e entaipando o rio que já não pode ser usufruído como paisagem quando se toma o comboio Lisboa-Porto, ignorando-se completamente os princípios de ética da natureza e direitos colectivos ao património natural global de direito público.

Em contrapartida, ainda se conseguiu salvar, outra raridade igualmente única no mundo, a formação florestal denominada Laurisilva (de Laurus-loureiro + silva-floresta) existente na Ilha da Madeira nas grandes altitudes, floresta higrófila da região sub-tropical húmida com quase 15 mil hectares, ricos em espécies todas perenes como o Till e Vinhático (sempre usados para o magnífico mobiliário de igrejas e conventos e para os mais delicados desenhos de talha), para além do Barbusano, Cedro da Madeira e loureiro que bem conhecemos no nosso quotidiano, floresta com a particularidade de ser de folha perene nas árvores e arbustos, fetos e musgos, líquenes e plantas endémicas, numa massa densa em todos os seus "andares" (perfil da floresta). Esta reserva gigantesca do Conselho da Europa apenas desde 1992, património UNESCO desde Dezembro de 1999, é reserva de valor não apenas botânico, mas de turismo de lazer e científico, algumas das "jóias da coroa do património natural" que só muito tardiamente se protegeu por imposição de Directivas da UE sobre Aves e Habitats Selvagens .





Resinosas e Folhosas


Assim sendo, vejamos a forma mais fácil e pragmática de distinguir dois grandes grupos de árvores – as Resinosas e as Folhosas.

Quanto às primeiras, originárias de latitudes frias e mesmo geladas, as folhas são, principalmente agulhas agrupadas de 2 em duas a 5 em 5, ou escamas imbricadas organizadas em raminhos planos ou "despenteados", com as copas em geral de forma piramidal, por mais variadas que sejam as ordens em que se agrupam várias famílias (taxonomia e nomenclatura) e, portanto, os órgãos de que é formado todo o mundo vegetal e a Árvore (dendrologia).

Das áreas geladas das brancas montanhas de neve do Canadá, faz parte essa escultura do Vidoeiro (Bétula celtiberica), espécie que na última glaciação veio até ao vale do Zêzere e lá ficou, entre as moreias na Serra da Estrela.

Em contrapartida, outras folhosas, de folhas diminutas e perenes, mas de áreas quentes e secas, serão os carvalhos do sul (sobreiro-Quercus suber e azinheira-Quercus ilex spp. rotundifolia), abundantes no habitat próprio de Trás-os-Montes e Alentejo (e na serra algarvia), no norte acompanhadas pelo castanheiro (Castanea sativa), enquanto no sul litoral são acompanhados do pinheiro manso "pin parasol" (Pinus pinea), produtora de magníficos pinhões, espécies votadas ao maior desprezo quando se trata de abrir estradas, ou de implantar urbanizações privadas e turísticas, ou mesmo de as fazer submergir com a faraónica e duvidosa barragem do Alqueva com 60 km de regolfo, que foi sepultura de 4 milhões de árvores da flora natural selvagem (mas altamente produtiva), que não passa do maior lago artificial europeu e que é apenas efluente de todo o tipo de poluição do país vizinho onde está a nascente do Guadiana e alguns afluentes, mesmo que lhe tenha sido retida, a montante da fronteira, alta percentagem do seu alto caudal, logo descarregado em tempo de cheias, no país vizinho, como acontece com o Tejo e o Douro e sendo que, mesmo muito bem "arborizadas as margens de qualquer rio", com os rios internacionais e a capacidade de construção de barragens gigantescas, a tendência dos países onde tem origem a nascente, têm tendência para reter a água em tempo seco e de a expulsar em tempo de grandes chuvadas.

Antes das barragens, os países detentores dos estuários possuíam por geo-direito, essa riqueza e, recentemente, são verdadeiras "ETAR" porque a lei internacional não funciona.

Mas voltando ao sobreiro, essa grande árvore centenária, continua a ser objecto de "orgulho" nacional ao dizer-se que dele se produzem as melhores rolhas do mundo de cuja produção é exportada 70% para o champanhe francês, e embora sendo desde há muito a árvore mais protegida, é diário o noticiário sobre o abate ilegal e legalizado de centenas de sobreiros, mesmo existindo na administração pública ministro do ambiente desde 1975.





Sobre a fundamental investigação agronómica

E destaca-se o actual total desinteresse pela investigação agronómica, que já teve tempos áureos no país a partir da primeira metade do século passado, tanto em solos (primeiras cartas de solos mundiais em paralelo com a classificação americana), de que foi pioneiro no mundo Botelho da Costa, um velho professor meu, como em outras matérias: na Estação de Citricultura de Setúbal (actualmente grande urbanização sem qualquer memória das famosas laranjas de Setúbal) com o director Eng.º Henrique Roovers da Costa Neves; na Estação de Pomicultura (e sobreiro) de Alcobaça com o investigador Eng.º Vieira da Natividade (sem qualquer memória da produção e variabilidade de fruteiras); e ainda na Estação Agronómica Nacional em Oeiras fundada pelo agrónomo Sousa da Câmara. Todas elas com os dias contados desde há apenas 20 anos.

O grande mosaico paisagístico do país desapareceu, correspondente às suas 33 regiões-naturais (classificação de Ribeiro Telles), apesar da diminuta superfície do país, adentro das 11 províncias administrativas, desaparecendo os muitos saberes de muitos homens ilustres a par dos saberes dos habitantes rurais, desaparecendo a grande riqueza da terra (e do mar). Morreram sem direito a Requiem. Deram lugar ao economicismo patético e demolidor dos bens naturais nacionais, riqueza primordial impedida de se desenvolver e de dar continuidade à identidade nacional primordial e a todos nós descendentes desses habitantes nativos que já existiam quando da invasão Romana, resistindo ainda mais de 1000 Castros na região Porto-Braga, mosaico paisagista humanizado não apenas no tratamento da terra mas também na construção desses "cidades" de pedra de planta circular e telhado de colmo e das Ermidas também de granito.





Ainda sobre folhosas e resinosas

Como árvore igualmente folhosa e perene lembremos a Alfarrobeira sobretudo algarvia, que pode ser milenar, de que, igualmente, não se soube retirar proveito excepto na aguardente feita a partir dos seus frutos, que, na Europa, são importados para alimentação, sobretudo na doçaria. Nada português é matéria-prima, ponto de partida de indústrias agro-alimentares, excepto para "lenha para lareira" ou, de preferência, para betuminoso e betão.

O sistema vascular das resinosas, primário, a composição orgânico-mineral e a pequenez desses elementos aéreos de superfície mínima e rija (agulhas e/ou escamas), faz com que necessitem de pouca, muito pouca água e aguentem calor sem transpirar, o que não significa que não sejam frágeis, e tal que não vegetam, em geral, nem em solo demasiado húmido embora precisem de chuva mas com solos de boa drenagem interna para não reterem água originando apodrecimento do sistema radicular (têm como habitat essencial as montanhas e vertentes que as protegem das derrocadas e são o principal responsável pela infiltração das chuvadas).

As resinosas não vegetam em boas condições em espaço urbano, excepto bem acompanhadas em conjuntos em Jardins, ou em áreas urbanas de clima frio e ar puro, como é o caso por exemplo de Trancoso, que acaba, neste mês de Novembro 2006, de ser escolhida para o primeiro projecto europeu, pioneiro, de "cidade-ecológica" – ora que boa notícia.

Quase exclusivamente são árvores de folha perene ou sempre-verde, excepto duas ou três excepções como é por exemplo o caso do Taxodium disticum e da Akea sp. Mas como qualquer indivíduo do mundo vegetal, sem no entanto perder a sua bela copa, deixam ao longo do ano cair na terra folhas, raminhos, frutos e sementes que se vão biodegradando com o auxílio dos microorganismos do solo (terra-viva), sendo que a folhada (elementos separados da planta mãe mas ainda reconhecíveis) se vai decompondo e formando húmus ácido (moor).

A este grande grupo "opõem-se" as folhosas, quase todas de folha caduca (no Outono e de que as magnoleáceas serão excepção porque são sempre-verdes), altamente ricas nos seus componentes minero-orgânicos e cuja folhada ou manta morta constitui um denso e macio tapete que o tempo biodegrada e dá origem ao húmus doce ou alcalino (mull).





Das formas das árvores aos jardins

As copas têm as mais variadas formas bem como as folhas sempre macias e mesmo frágeis, simples ou compostas e mesmo re-compostas, de muito pequena dimensão como as dos belos jacarandás de flor lilás em junho, ou as das magníficas e gigantescas faias de folha verde ou rubra, os plátanos tão acusados de provocar alergias com os seus frutos múltiplos de aquénios, ou as enormes folhas das pequenas Catalpa bignonioides ou, ainda, as esplendorosas tílias de cujas flores nos habituámos a beber chá e a usufruir a sombra à porta de casa ou beneficiar da luz coada como que por abat-jour, e que têm, algumas, folhas em forma de coração (Tília cordata), ou a levar para casa aqueles molhos de frutos com forma estranha de di-sâmaras, que escondem e protegem as suas sementes, muito pequeninas, que precisam daquelas grandes "asas" para que o vento as leve muito longe, para povoar os territórios e a vida se desmultiplique em segurança.

E se por acaso se gostar de ouvir o vento, que melhor ocasião e lugar do que entrar numa floresta (ou mesmo mata ou parque e jardim) e ouvir a música das folhas e ramos que se entrelaçam e quase agridem, bem como não haverá melhor lugar para ouvir a música do total silêncio e ficarmos ali, parados, como que integrados naquele lugar e de alma consolada na companhia daquelas irmãs-de-vida.






Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrada nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do Inverno o vento do verão
o vento é o maior veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

O valor do vento
Ruy Belo - Homem de palavra, 1978


PLANTAI ÁRVORES


PLANTAI VIDA







Lisboa 28 de Outubro a 8 de Novembro - Bairro de Santo Amaro

Maria celeste d'Oliveira Ramos
Engª. silvicultora e arquitecta-paisagista

Revisto para publicação no Infohabitar e re-ilustrado por António Baptista Coelho (figuras), em 11 de Fevereiro de 2007. Editado por José Baptista Coelho em 15 de Fevereiro de 2007

Nota de editor:
Acaba aqui a primeira parte deste novo excelente e grande artigo de Celeste Ramos que, na próxima semana terá conclusão, também aqui no Infohabitar com a “A árvore suporte do mundo no espaço urbano (II) – das árvores/jardins”.
Este artigo corresponde ao texto-base de uma conferência que foi proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.


Alguns sites que “falam” de árvores:

http://www.dias-com-arvores.blogsopt.com/

http://arborday.org/trees/majTreesMain.cfm

http://asiatours.net/press/en/images-laos.html

http://www.europanostra.org/images/awards_2004_winners/buckelwiesen2.jpg

http://fount-k.com/~tomo/sumb/yun_2654.jpg

http://www.owlfish.com/weblog/2004/10/toronto-autumn.jpg

http://www.britishacorn.com/tourism/sandalwood/index.html

http://www.fireflybooks.com/travel/new.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Jakarta_silhouetto.jpg

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007 para projecto europeu SHE e conjunto residencial cooperativo na Ponte da Pedra – José Coimbra e A.B.Coelho - Infohabitar 125

 - Infohabitar 125



Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007

para projecto europeu SHE e conjunto residencial cooperativo na Ponte da Pedra


É com uma muito especial satisfação que, em seguida, se faz o relato da recente atribuição do Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007 a um projecto europeu, o projecto SHE – Sustainable Housing in Europe - http://www.she.coop/ -, no qual se salienta um conjunto habitacional português de habitação de interesse social, portanto apoiada pelo Estado, e promovido por um conjunto de cooperativas de habitação económica, realizado na Ponte da pedra, Leça do Balio, Matosinhos. Trata-se do primeiro empreendimento cooperativo de construção sustentável em Portugal, promovido pela NORBICETA - cooperativas Nortecoop, As Sete Bicas e Ceta.


Há que destacar a parceria assegurada neste projecto europeu, pela parte portuguesa, entre a Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), o Instituto Nacional de Habitação (INH) e a Câmara Municipal de Matosinhos, uma cooperação que foi, aliás, evidenciada numa acção conjunta, realizada a 28 de Novembro de 2006 e designada "Por um Território Sustentável" onde este projecto foi apresentado ao grande público.
"Por um Território Sustentável": Presidente do INH, Eng. Teixeira Monteiro, Presidente da C.M. de Matosinhos, Dr. Guilherme Pinto, Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, Prof. João Ferrão, Presidente da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica, Guilherme Vilaverde, e Vogal do Conselho Directivo do INH, Dr. Ricardo Bexiga

Dá vontade de dizer e diz-se que, quando queremos, fazemos tão bem ou melhor do que os melhores, foi o que aconteceu na Ponte da Pedra, na sua 1ª fase muito bem conseguida e na sua 2ª fase em que se aplicaram ideias de sustentabilidade eficazes e positivamente replicáveis. Dá também vontade de dizer que, para que os bons técnicos possam fazer bem, ajuda muito que os políticos sejam sensíveis à oportunidade e à valia das suas ideias e ao ritmo, por vezes crítico, que se exige em promoções em que há que poupar a cada passo e em cada pormenor.

É ainda essencial referir que as boas obras se fazem com pessoas e nestas há que registar, entre outros, o Presidente da União de Cooperativas promotoras e Presidente da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica, Guilherme Vilaverde, o arquitecto coordenador do Projecto, Arq. Carlos Coelho, o Director Técnico da Obra, Eng. José Coimbra, a empresa construtora, a J. Gomes, e os responsáveis da Câmara Municipal de Matosinhos e do Instituto Nacional de Habitação, designadamente, nas pessoas do seu Presidente Eng. José Teixeira Monteiro e do Director Eng. Defensor de Castro, todos estes agentes que foram peças principais no desenvolvimento e sucesso desta iniciativa pioneira em Portugal, e que contou, ainda, com o apoio académico do Prof. Eduardo Maldonado, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e da Prof. Manuela Almeida, da Universidade do Minho.

Mas ao falar de pessoas, das pessoas responsáveis por esta grande alegria e por este exemplo e orgulho de todos nós, há que lembrar aquele que nos acompanha sempre, mas que, infelizmente, desde há um ano, já não caminha connosco, o grande amigo e grande dirigente cooperativista José Barreiros Mateus, um dos grandes responsáveis por esta grande alegria, porque no projecto europeu SHE soube ver um futuro que hoje está aqui provado com este prémio, e que é ser possível fazer excelente habitação, habitação amiga do ambiente e do habitante e com controlo de custos: deseja-se, sinceramente, que esta linha de inovação fundamentada e fundamental perdure, nestes e em outros aspectos relativos a novas e mais adequadas formas de habitar, e as cooperativas da Fenache estão aí para ajudarem a assegurar um tal caminho.



Em seguida faz-se o relato da atribuição do Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007 ao projecto SHE, sublinhando-se que neste projecto a realização da Norbiceta na Ponte da Pedra constitui um dos exemplos de maior sucesso, designadamente, em termos de inovação, eficácia de realização e cumprimento de prazos de conclusão, remetendo-se os leitores para outros artigos do Infohabitar onde já se abordou este conjunto. Finalmente, deixam-se aqui sinceros parabéns a todos os principais responsáveis por esta excelente aventura, uma aventura que nos deixa cheios de orgulho e de vontade de voltar a fazer tão bem; fiquemos então com a mensagem de José Coimbra e com a continuidade das belas imagens da Ponte da Pedra, onde também se redescobriu um pouco da grande sabedoria do ligar a arte à arquitectura urbana.

António Baptista Coelho – arquitecto, investigador do LNEC, vice-presidente da Nova Habitação Cooperativa (NHC)




Caros Parceiros SHE,Caros colegas, colaboradores e amigos: Tenho, na qualidade de coordenador técnico do projecto português, o maior prazer de vos anunciar que o Consórcio SHE foi premiado com o Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007. O Projecto SHE obteve o prémio de melhor projecto na categoria “Parcerias público-privadas” por permitir a poupança de energia em habitações construídas de forma sustentável.Junta-se, em seguida, a mensagem do coordenador, Arq.º Alain Lusardi, já que se considera que este tipo de destaque e reconhecimento para o nosso País merece ser divulgado tanto particular ou pessoalmente como institucionalmente. Por isso vos agradeço a melhor atenção para o texto que se segue:



Roma, 5 Fevereiro de 2007
Caros parceiros SHE,
Estamos felizes por poder anunciar que o consórcio SHE foi premiado com o Sustainable Energy Europe Awards 2007 (Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007). O Projecto SHE obteve o prémio de melhor projecto na categoria “Parcerias público-privadas” por permitir a poupança de energia em habitações.

Segue-se o relatório do Júri:

“O projecto SHE representa um brilhante exemplo de uma parceira público-privada, na qual as Cooperativas de Habitação Económica conseguiram demonstrar, ao nível local, regional e europeu, e juntamente com empresas de construção, instituições científicas e organizações técnicas, a viabilidade da habitação e de comunidades sustentáveis.

O projecto SHE realça a importância da sensibilização e consciencialização dos utilizadores finais e procurar melhorar o nível de vida dos cidadãos oferecendo ambientes saudáveis e sustentáveis.A parceria está a levar a cabo uma abordagem integrada do desenvolvimento e construção de habitação sustentável, tornando a excepção regra.
No final deste projecto, 600 famílias na Dinamarca, França, Itália e Portugal estarão a viver em habitações sustentáveis.O projecto SHE desenvolverá um guia de boas práticas para que estas habitações sustentáveis sejam replicadas noutras.”
Partindo deste discurso, considero mesmo que a atribuição do prémio realça o facto de:
  • A habitação social ser um elemento chave no desenvolvimento urbano sustentável integrado;
  • A acção pioneira das Cooperativas de Habitação estar a desbravar o caminho para que haja cada vez mais casas ecológicas em cada vez mais comunidades sustentáveis;
  • O nosso projecto ser agora considerado como melhor prática, pelo que será um grande impulsionador para outros promotores habitacionais, bem como para clientes privados e municipais.
Estamos extremamente contentes pelo facto de o Consórcio SHE ter recebido este novo e prestigiado prémio dedicado a um uso mais inteligente da energia sustentável na Europa com o objectivo de sensibilizar e mudar o panorama energético.
Estamos verdadeiramente convencidos de que este feedback positivo é um reconhecimento significativo dos nossos esforços para acelerar a integração dos temas de sustentabilidade no sector habitacional e para criar cidades dinâmicas e amigas do ambiente.
É verdade que, desde que o Projecto SHE começou em 2003, o nosso projecto foi implementado num quadro legislativo extremamente dinâmico, mas ainda assim estou convencido de que contribuiu para estimular e desenvolver as nossas cidades.
Obviamente que tudo foi possível devido ao vosso enorme comprometimento contra as barreiras técnicas e não técnicas e parafraseando um ditado:
“Por detrás de um projecto de sucesso, está um consórcio que o fez acontecer.”
Para concluir, dada a importância crescente do projecto ao nível nacional e Europeu, temos de, cada vez mais, comprometermo-nos a respeitar as obrigações contratuais, especialmente aquelas que ainda não foram respeitadas!
Conto com o vosso apoio para a melhor realização dos desafios do projecto SHE que se avizinham nos próximos…dois anos.
Espero que este importante reconhecimento Europeu seja um elemento chave para viabilizar a extensão do Projecto por um ano por nós solicitada.
Não hesitem em contactar-me se tiverem alguma dúvida ou comentário.Com os melhores cumprimentos,
Alain Lusardi
Arianna Braccioni
Charlotte Pedersen

Discurso de agradecimento na Cerimónia da Entrega do Prémio:
“Gostaríamos de agradecer à Comissão por este importante prémio e à Campanha Por uma Europa Energicamente Sustentável, uma vez que foi um instrumento indispensável na difusão da nossa iniciativa de poupança energética e de habitação sustentável.
O Projecto SHE é coordenado pela Federabitazione e é essencialmente implementado por organizações de habitação social, as quais desempenham uma importante função como promotores de soluções sustentáveis.
De facto, a missão das Cooperativas de Habitação é a de satisfazer as necessidades expressas pelas comunidades locais, contribuindo para a melhoria da qualidade da habitação.
A implementação deste Projecto Europeu conquistou um feedback positivo da parte dos utilizadores finais e dos resultados atingidos, tais como a introdução do tema da poupança energética ao nível das políticas locais, regionais e nacionais, nos países envolvidos.
Este prémio é, em concreto, o reconhecimento dos esforços dos parceiros nos últimos anos e um impulso maior no reforço das acções de inclusão da sustentabilidade na prática do dia a dia.
As barreiras a uma aplicação progressiva dos princípios de sustentabilidade não são de cariz técnico, mas especialmente de natureza cultural.
Estamos a desenvolver actividades de informação dos custos e benefícios a longo prazo da sustentabilidade energética, realçando os efeitos positivos na qualidade de vida dos cidadãos e na protecção do ambiente.
Obrigado!”

Mr. Venturelli Giuseppe – President of Federabitazione Europe
Mr. Tofanelli Giancarlo – Managing Director of Federabitazione Europe
A equipa coordenadora do SHE

Grato pela vossa atenção,
José Coimbra


Faz-se, em seguida, uma pequena síntese do conjunto da Ponte da Pedra, utilizando-se, informalmente, partes de artigos de José Coimbra, já editados no Infohabitar.

O Projecto de Ponte da Pedra surgiu de um concurso de ideias. Entre o desenvolvimento da ideia urbana e residencial (Setembro de 1998) e a conclusão da Obra (Maio de 2004) contaram-se apenas 6 anos, também um factor de sustentabilidade.

A construção do Empreendimento substituiu uma indústria de curtumes deteriorada, valorizando o local de implantação e a sua envolvente.

A primeira fase do Empreendimento conta com 6 Blocos que contemplam 150 habitações, a segunda fase é constituída por 2 blocos com 101 habitações e os necessários equipamentos.

O conjunto residencial proporciona a criação de núcleos de vizinhança bem afirmados, nas suas funções de lazer e de convívio, pedonalmente coesos, estabelecendo simultaneamente uma adequada e valorativa ligação com o meio envolvente.




A segunda fase da Norbiceta na Ponte da Pedra constitui a participação portuguesa no Projecto SHE – Sustainable Housing in Europe.

O Projecto SHE conta com a participação de várias instituições de 4 países europeus – Itália, Dinamarca, França e Portugal, e visa demonstrar a viabilidade real da habitação sustentável do ponto de vista económico, ambiental, social e cultural, utilizando, para tal, construções cooperativas europeias como projectos piloto de disseminação de um novo modelo construtivo que se quer ver adoptado em construções futuras.




Relativamente ao projecto SHE da Ponte da Pedra sublinham-se os seguintes aspectos de concepção e construção:

I – Aprofundar o envolvimento dos vários intervenientes nas diversas fases de desenvolvimento do empreendimento, cumprindo-se uma estratégia integrada de desenvolvimento sustentável.

II – Integração do Empreendimento no local de implantação de forma valorativa,
respeitando as condicionantes de ordenamento do território e os ecossistemas existentes e promovendo melhoria ambiental e a biodiversidade, considerando-se a orientação solar, aproveitando-se a linha de água existente no local e potenciando-se a utilização dos transportes públicos.

III – Selecção de materiais de construção do Edifício que respeitam e protegem o meio ambiente, seja pela sua reduzida intensidade, proveniência de fontes locais e reduzida necessidade de manutenção, seja pelo facto de serem duráveis, reciclados, recicláveis ou reutilizáveis.

IV – Respeito pelo ciclo de água existente e redução/racionalização do consumo de água potável através da utilização de tecnologias e equipamentos que permitam poupar água e através da redução da perda de água infiltrada; nesta matéria sublinha-se a construção de uma cisterna subterrânea de recuperação e armazenamento de águas pluviais para abastecimento das sanitas dos fogos e para assegurar a rega da totalidade dos jardins da urbanização.

V - Gestão adequada de resíduos nas fases de construção e operação.

VI – Construção de um edifício energicamente eficiente, actuando, para tal, a vários níveis: a maximização do potencial solar passivo (orientação do edifício), a minimização dos consumos, o uso de tecnologias de energia renovável, a instalação de equipamentos energicamente eficientes, a selecção de materiais e equipamentos com reduzido nível de energia incorporada e a informação aos utilizadores sobre as melhores práticas de redução das necessidades energéticas; foram implementadas soluções construtivas que asseguram a limitação das necessidades de aquecimento, das necessidades de arrefecimento e das necessidades de energia para aquecimento de águas sanitárias com vista à certificação energética do Edifício.

VII – Gestão da iluminação natural respeitando as especificações legais quanto aos níveis de iluminação natural e artificial a assegurar, executando uma articulação eficiente entre ambas e garantindo uma percentagem elevada dos espaços com iluminação natural.

VIII – Conforto acústico do Edifício, controlando eficazmente o ruído no interior do edifício e do exterior para o interior do edifício.



Finalmente, e com os devidos créditos à Newsletter 2 do projecto SHE, datada de Novembro de 2005, fazem-se citações dos aspectos técnicos de sustentabilidade que caracterizam cada um dos oito projectos-piloto SHE, entre os quais se integra este conjunto na Ponte da Pedra, do qual continuam a ser as imagens que se juntam.


Consórcio Cooperativo - CCICASA, Teramo, Projecto Teramo, 60 eco – residências

- sistemas solares activos (fotovoltaico e térmico);
- alvenaria com elevada inércia e alto isolamento térmico;
- isolamento acústico;
- uso de materiais naturais e não-tóxicos;
- redução de campos eléctricos e electromagnéticos;
- ventilação natural nocturna;
- aquecimento central radiante com caldeira de elevada eficiência;
- reutilização e reciclagem de água;
- iluminação com reduzido consumo de energia.


Consórcio Cooperativo-COIPES, Veneza., Projecto Preganziol , 70 eco – residências:

- orientação dos edifícios;
- sistemas solares activos (fotovoltaico e térmico);
- refrigeração centralizada também com energia geotérmica e sistemas radiantes a baixa temperatura;
- optimização de fluxos de energia com o ambiente por concepção arquitectónica (arq. bioclimática);
- isolamento acústico;
- ausência de viaturas em espaços comuns; vias pedonais e vias para bicicletas distintas e uso de terra compactada em vez de asfalto nos pavimentos para circulação de viaturas;
- reciclagem de água e filtro de depuração de água não potável;
- redireccionamento e utilização de um pequeno curso de água para arrefecimento interior no Verão.



Consórcio Cooperativo - COPALC, Bolonha, Projecto Ozzano, 12 eco – residências:

- sistemas solares activos (fotovoltaico e térmico);
- alvenaria com elevada inércia e alto isolamento térmico;
isolamento acústico;
- uso de materiais naturais e não-tóxicos;
- redução de campos eléctricos e electromagnéticos;
- ventilação natural e ventilação nocturna;
- aquecimento central radiante com caldeira de elevada eficiência;
- reutilização e reciclagem de água;
- iluminação com reduzido consumo de energia;
- protecção solar muito eficaz;
- contadores de consumo de energia térmica em cada habitação.


Organização de Habitação Social – RINGGAARDEN, Aarhus, Projecto Aarhus, 130 eco-residências:

- objectivo energético: consumo inferior a 30kw/m2/ano;
- condições de iluminação natural optimizadas sem problemas de sobreaquecimento;
- varanda interior como zona térmica tampão;
- sistema de armazenamento térmico (material de mudança de fase);
- ventilação natural intensificada com torres de vento;
- materiais renováveis e ambientalmente optimizados;
- utilização de todos os sistemas conhecidos para poupança de água.


Consórcio Cooperativo - COPES, Pesaro, Projecto Villa Fastiggi, 130 eco-residências:

- apoio ao desenvolvimento da nova legislação local sobre arquitectura bioclimática;
- vias pedonais e vias para bicicletas independentes;
- melhoramento das ligações entre vias interiores e exteriores;
- isolamento acústico do edifício e da zona habitacional;
- redução dos campos electromagnéticos;
- gestão do ciclo da água à escala da chuva e da redução de níveis de consumo doméstico;
- controlo do impacto solar: ganhos solares no Inverno e estratégias passivas de arrefecimento para o Verão, dispositivos de sombreamento, ventilação natural, elevada inércia térmica e bom isolamento térmico;
- novo parque urbano que respeita as características da zona envolvente e as hortas familiares;
- evitar níveis de iluminação exterior excessivos e melhorar a iluminação natural no interior dos edifícios;
- sistemas centralizados de aquecimento a baixa temperatura com caldeiras de alta eficiência e com apoio de colectores solares térmicos.


Consórcio Cooperativo-CONSEDI, Brescia, Projecto Mazzano 40 eco – residências:

- sistemas solares activos (fotovoltaico e térmico);
- alvenaria com elevada inércia e alto isolamento térmico;
- isolamento acústico;
- uso de materiais naturais e não-tóxicos;
- redução de campos eléctricos e electromagnéticos;
- aquecimento central radiante com caldeira de elevada eficiência;
reutilização e reciclagem de água;
- iluminação com reduzido consumo de energia;


Consórcio de Cooperativas – NORBICETA, Porto, Matosinhos, 101 eco-residências:

- sistemas solares térmicos activos;
- alvenaria com elevada inércia térmica;
- uso de materiais naturais e não-tóxicos;
- tratamento optimizado da envolvente para minimizar pontes térmicas;
isolamento acústico;
- reutilização e reciclagem de água;
- controlo de resíduos resultantes da construção e processo de recolha selectiva;
- sistemas de poupança de água: dupla descarga de 3/6 litros, redutor de fluxo e colector de água da chuva na cobertura e nos jardins;
- gestão de resíduos com dispositivos de recolha selectiva de lixo produzido prelos habitantes;
- renovação do ar interior por extracção centralizada controlada.
iluminação com reduzido consumo de energia.



Organização de Habitação Social - OPAC38, Grenoble, Projecto Bourgoin-Jallieu, 61 eco-residências:

- relação harmoniosa entre o edifício e a envolvente;
- controlo de resíduos resultantes da construção e processo de recolha selectiva;
- alvenaria com forte inércia térmica, uso de tijolo de argila;
- criação de “estufas” dentro da habitação para captação de energia solar passiva;
- 60m2 de painéis solares térmicos e 20m2 de painéis fotovoltaicos;
- água quente fornecida por sistema centralizado a gás natural;
- ventilação de exaustão controlada;
- sistemas de poupança de energia para área públicas e privadas;
- sistemas de poupança de água: dupla descarga de 3/6 litros, redutor de fluxo e colector de água da chuva na cobertura;
- gestão central de reparação e manutenção;
- gestão de resíduos com dispositivos de recolha selectiva de lixo produzido pelos habitantes;
- conforto visual: iluminação natural em habitações e áreas comuns.



Relembra-se que estes textos-resumo, com citações dos aspectos técnicos de sustentabilidade que caracterizam cada um dos oito projectos-piloto SHE, foram retirados da Newsletter 2 do projecto SHE, de Novembro de 2005.


Nota:
Este artigo foi estruturado e editado por António Baptista Coelho em 7 de Fevereiro de 2007, com base directa na comunicação de José Coimbra sobre a atribuição, no início de Fevereiro de 2007, do Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007 para o projecto europeu SHE no qual se integra o conjunto residencial cooperativo da Ponte da Pedra.
As imagens são de António Baptista Coelho.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Condição de adaptabilidade dos espaços culturais, um caso de estudo: Solar dos Zagallos – artigo de Ana Tomé (1) e Teresa Heitor (2) - Infohabitar 124

 - Infohabitar 124

(1) Arquitecta, Mestre em Construção, Assistente na Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa, investigadora do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção (ICIST), e-mail: anatome@civil.ist.utl.pt

(2) Arquitecta, Doutorada em Engenharia do Território, Professora Associada do Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), investigadora do ICIST, e-mail: teresa@civil.ist.utl.pt – Av. Rovisco Pais, 1049-001 Lisboa, Portugal.

Palavras chave: adaptabilidade, reconversão funcional, reabilitação, espaços habitacionais e culturais, Câmara Municipal de Almada, Solar dos Zagallos – Centro de Artes Tradicionais de Almada em Portugal, Avaliação Pós-Ocupação, métodos de representação e análise espacial, satisfação dos utilizadores, compatibilidade/incompatibilidade entre espaço e usos.

RESUMO

A comunicação reporta-se à análise da reconversão funcional de edifícios e ao desenvolvimento de um instrumento de análise susceptível de caracterizar os pressupostos indutores da adaptabilidade espácio-funcional.
O instrumento analítico apoia-se em metodologias de Avaliação Pós-Ocupação (Preiser, 1996; Sanoff, 2001) e em métodos de representação e análise espacial (Hillier e Hanson, 1984). Com base na sua aplicação a um edifício em situação de uso, identificam-se as regras morfológicas presentes, analisam-se alterações espaciais e funcionais ocorridas após a sua ocupação, avalia-se o grau de satisfação dos utilizadores e identificam-se factores de compatibilidade/incompatibilidade entre espaço e usos.

O trabalho desenvolvido baseia-se no estudo de caso do Solar dos Zagallos – Centro de Artes Tradicionais de Almada em Portugal. Datado do séc. XVIII, foi, na sua origem, a casa-mãe de uma quinta agrícola mais tarde transformada em quinta de recreio. Os diferentes proprietários habitaram o Solar de modos distintos, facto reflectido na evolução da sua forma construída. Nos anos oitenta, o Solar foi adquirido pela Câmara Municipal de Almada. Sujeito a recuperação arquitectónica, foi transformado em equipamento cultural do concelho. Analisando esse processo de reactivação funcional, e os modos de apropriação espacial decorrentes, pretende-se contribuir para a compreensão das regras morfológicas intrínsecas à condição de adaptabilidade do espaço arquitectónico e sua interacção com os padrões de uso suportados pelo edificado.

ABSTRACT
The paper refers to the analysis of buildings reconversion and to development of an instrument of spatial and functional analysis capable of describing the space and functional adaptability inductors.
The analytical instrument is based on Post Occupation Evaluation methodologies (Preiser, 1996; Sanoff, 2001) and on space analysis methods (Hillier and Hanson, 1984). Morphologic rules and functional alterations were analyzed. Users satisfaction was evaluated and adequacy factors between space and use are identified.
The work is based on a case study: Solar dos Zagallos – Almada Center of Traditional Arts (Portugal). The building was built in XVIII century as a farm-house and latter was transformed to housing (recreation farm). Along time households needs have changed. This fact had reflexes on the built form. Late in the XX century it was acquired by the local authority and transformed into cultural center. The analysis of the functional reconvertion process, and the understanding of the morphologic rules concerns space adaptability condition and its interaction with the use patterns.

1. ADAPTABILIDADE DOS EDIFÍCIOS – RAZÃO DE SER E ÂMBITO

A análise do desempenho físico e funcional dos edifícios é um tema de estudo relativamente recente. Os actuais modelos de desenvolvimento urbano e a crescente complexidade e especialização dos grupos sociais induziram a necessidade de novos critérios informadores dos actos de projectar, construir e gerir edifícios.

Sendo as estruturas edificadas o suporte operacional das actividades de organização social devem adequar-se, na concepção e uso, ao devir dessas actividades e dessa organização porque, nas sociedades contemporâneas, as respostas “estacionárias” (Thiel, 1996) não são viáveis e poderão ser contraproducentes. As vicissitudes físicas e funcionais de um edifício têm de ser ponderadas em fases de projecto e devem ser estudadas ao longo da sua vida útil.

Metodologias de análise espácio-funcional de edifícios, e pressupostos projectuais subjacentes, poderiam socorrer-se da teorização de William Peña (1987). Para este autor os edifícios são entendidos como objectos físico-espaciais dos quais interessa avaliar a flexibilidade segundo critérios de extensibilidade (possibilidade de ampliação), convertibilidade (capacidade de modificação da organização interna) e versatilidade (polivalência dos espaços).

Esta sistematização analítica pode ser um expedito auxiliar de projectistas e gestores, mas os edifícios não são, apenas, objectos físicos. Trata-se de objectos sociais. Não nascem dos materiais. Nascem de necessidades sociais. Os edifícios não se constroem para assumirem formas de geometria variável. A flexibilidade espacial será uma propriedade física mas não é a essência, a razão de ser do edifício.

O espaço pressupõe o uso e a relação espaço/usos carece de análise inclusiva do protagonista dessa relação: o utilizador, o grupo social. A alteração do espaço é epifenómeno de alterações de uso decorrentes de alterações de organização social. Para um dado edifício a flexibilidade não será mais do que um valor de circunstância, flutuante segundo a natureza do problema espácio-funcional que interessa resolver.

Outros autores (Hillier e Hanson, 1984) também contribuíram para a análise dos edifícios recorrendo a modelos de análise sintáctica que procuram descrever a estrutura configuracional dos sistemas espaciais (arquitectónicos e urbanos). Na perspectiva sintáctica, a linguagem formal da dinâmica urbana e arquitectónica organiza-se segundo estruturas configuracionais relacionadas com estruturas sociais.

Evidenciaram, aqueles autores, que o espaço adquire uma determinada ordem e expressão formal em resultado de um processo social, e que essa expressão é sistematizável segundo tipos morfológicos. Na visão morfogenética de Hillier e Hanson perpassa uma analogia biológica quanto ao processo de configuração formal: o genótipo, como organização genética, e o fenótipo, como organização derivada, distinta mas decorrente do genótipo.

No estudo de edifícios, o genótipo é o conjunto de valores espaciais abstractos que deverão prevalecer nas formas construídas, fenótipos, que dele derivam. Dalton e Kirsan (2005) consideram que o genótipo de um edifício será o grafo mais similar a todos os outros grafos de uma amostra de edifícios da mesma tipologia. Consideram, também, que será mensurável a convergência/divergência entre o grafo genotípico e um seu grafo fenotípico.

A distância, ou divergência, fenotípica entre estruturas configuracionais tem correspondência na modificação das estruturas sociais com ela relacionadas. Observou Hillier (2002) que essa correspondência poderá ser questionável confinando-se o conceito de tipo morfológico a uma relação biunívoca entre um dado padrão de actividade social e uma dada configuração espacial. Para aquele autor o conceito de “tipo” transcenderia a relação entre um único padrão de actividade e uma única forma espacial.

Segundo Hillier, o nexo entre organização social e organização espacial de um edifício deve ser ponderado no quadro de categorias de organizações sociais possíveis e de categorias de formas espaciais possíveis. Um dado edifício corresponderia à conjugação de elementos específicos de uma das categorias com elementos específicos de outra categoria, organizando-se segundo padrões de uso compreensíveis pelos procedimentos metodológicos da análise sintáctica espacial e da análise pós-ocupacional.

Por outro lado, as tipologias morfológicas (espaciais) não podem deixar de ser relacionadas com homólogas tipologias organizacionais (sociais). Os conceitos de genótipo e de fenótipos espaciais terão correspondência em genótipos e fenótipos de organização social. O equilíbrio inicial não pode ser assumido como estável e perene. A estabilidade dessa relação depende dos valores espaciais e dos valores sociais que estejam em causa.

Num edifício entendido como sistema de sistemas técnicos, albergando sistemas sociais, esse processo de adaptação, essa adaptabilidade, sustenta a possibilidade de sobrevivência desse sistema porque a adaptabilidade não depende, exclusivamente, da espacialidade edificada. É uma propriedade determinada pela relação entre o habitante e o edificado.

O processo evolutivo (ou de mera sobrevivência) de um edifício, depende da sua estrutura (construtiva, espacial, funcional, social) mas depende, também, de relações específicas com um contexto envolvente (implantação geográfica, significado histórico, valor de memória, extensão dos laços comunitários, funcionalidade económica, etc.), pelo que a adaptabilidade será um processo contínuo, enquanto que a flexibilidade é um processo pontual, um particular momento no processo de adaptabilidade.

Como objecto social, o edifício depende de uma área de suporte territorial e de uma envolvente de suporte cultural e económico. Neste sentido a adaptabilidade é uma propriedade inclusiva do edifício no seu contexto. Contrariamente, a flexibilidade é uma propriedade, exclusiva de um edifício, circunscrita ao seu espaço interno (Figura 1).



Figura 1 – Adaptabilidade e flexibilidade: âmbitos de influência

Sendo objectos sociais, os edifícios não podem ser analisados como meros abrigos de sobrevivência e organização dos grupos humanos. Em contrapartida também não são seres naturais. Não podendo evoluir segundo um darwinismo adaptativo têm de ser concebidos e têm de ser geridos por critérios que permitam a coerência da relação espaço/função consoante foi assumida na génese do edifício, na matriz social, espacial e territorial que suportou o acto de construir.

Interpretações sintácticas espaciais, intervenções flexibilizando o edificado, requalificações do grupo social utilizador, são questões que não se esgotam nem se resolvem no edifício em si mesmo. Se, por razões práticas, os edifícios podem ser entendidos como simples abrigos, nas situações como as do Solar dos Zagallos (recuperação/renovação/uso cultural) outros critérios devem prevalecer para que o desempenho dos edifícios não dependa de decisões administrativas, para que possam viver e respirar sem estarem ligados a um ventilador político.

O estudo visou compreender as relações entre o espaço edificado do objecto de estudo e os usos actuais. O estudo efectuado corresponde a uma aproximação ao estudo das condições de adaptabilidade do edifício. A abordagem focou-se no conhecimento da capacidade de resposta do sistema espacial às solicitações decorrentes das actividades culturais implementadas. Permitiu estabelecer conclusões relativamente ao embebimento do Solar dos Zagallos no tecido social e urbano do concelho. Assim, foi possível delinear uma primeira apreciação do processo adaptativo do Solar ao presente estatuto funcional.

O artigo está dividido em cinco partes. Na primeira parte discutiu-se a razão de ser e âmbito do conceito de adaptabilidade; na segunda parte faz-se o enquadramento histórico do caso de estudo e explicita-se o seu desempenho actual; na terceira parte explana-se a metodologia aplicada e enunciam-se as principais conclusões obtidas em cada etapa; na quarta parte estabelece-se o diagnóstico do caso de estudo e discutem-se factores indutores da adaptabilidade do edifício, na quinta e última parte enunciam-se conclusões gerais e indicam-se futuras linhas de desenvolvimento do trabalho.

2. SOLAR DOS ZAGALLOS – REFERÊNCIA HISTÓRICA; DESEMPENHO ACTUAL


A Quinta dos Zagallos está classificada como património municipal. A Quinta integra diversos edifícios de entre os quais se destaca o edifício residencial designado por Solar. É uma construção do século XVIII, constituída por dois pisos organizados em L (Figura 2).

Ao longo da sua existência a Quinta e o Solar atravessaram vicissitudes modeladoras da sua identidade física e social. Utilizadores distintos matizaram a apropriação dos espaços. Na sua génese o Solar foi casa agrícola transformada em quinta de recreio pelos proprietários, a família Zagallos. Nesse período (início do século XIX) foi construído o corpo dos salões complementado com a escadaria de acesso ao pátio. Cerca de um século mais tarde, o declínio financeiro dos proprietários determinou a cedência do Solar a um credor – a família Piano – que lhe reconverteu o uso, transformando-o em habitação alternativa de férias.

Em finais do século XX, dificuldades financeiras da família proprietária determinaram a sua venda à Câmara Municipal de Almada. O Solar foi objecto de um processo de recuperação. A função original foi alterada: a habitação unifamiliar (espaço privado) deu lugar a um equipamento cultural (espaço público). Actualmente o Município procura estabilizar a identidade funcional do edifício como Centro de Artes Tradicionais do concelho.

As novas valências de uso pretendem satisfazer três vertentes: fruição/lazer, criação/formação e pesquisa/formação. A gestão do Solar procura adaptá-lo a suporte de pontuais iniciativas culturais (pequenos espectáculos teatrais; concertos de música; palestras). Como actividade permanente foi instalada uma exposição de olaria relacionada com o passado histórico da região.


Figura 2 – Solar dos Zagallos: localização (Quinta dos Zagallos); piso 0, piso 1 e perspectiva do pátio

No decurso de duzentos anos a relação entre o sistema espacial do Solar e as actividades nele desenvolvidas pelos seus utilizadores-proprietários manteve-se relativamente estável. O carácter residencial do espaço, suporte de uma família economicamente preponderante nos destinos da comunidade, constituiu o traço comum que marcou esse passado do edifício.

O contexto envolvente do Solar e da Quinta também manteve o seu cunho rural. Ainda hoje, apesar da urbanização generalizada e da implantação industrial, subsistem resquícios de práticas remanescentes do amanho da terra. A aquisição do Solar pela entidade camarária corresponde a uma alteração dessa primitiva relação de equilíbrio espácio-funcional. Marca uma nova fase de existência do edifício.

3. ABORDAGEM METODOLÓGICA


A abordagem sistémica da Avaliação Pós-Ocupação (APO) foi o processo metodológico sustentador do objectivo deste estudo. Neste âmbito destacam-se, pela relevância das informações recolhidas, as observações directas. Este método possibilitou a aquisição de informação privilegiada sobre vivências do edifício e do território. O diagnóstico da actual relação espaço-uso incorporou outras metodologias complementares tais como a abordagem sintáctica espacial. A aplicação do modelo sintáctico permitiu identificar, objectivamente, propriedades espaciais e cotejá-las com os modos de apropriação e uso do espaço observados.

As linhas gerais da abordagem metodológica desenvolvida encontram-se sintetizadas no quadro da Figura 3. O objecto de estudo foi caracterizado de acordo com três componentes: físico-construtiva; espácio-funcional e comportamental (Ornstein, 1995). Complementarmente, procedeu-se à caracterização sumária da envolvente no sentido de contextualizar o objecto de estudo. Esta contextualização abrangeu vários aspectos: geo-físicos, históricos, sócio-económicos, espaciais. Considerou não só a caracterização do enquadramento espacial próximo e imediato do Solar – a própria Quinta como, também, a caracterização do enquadramento urbano da vila da Sobreda onde aquele se localiza (acessibilidades, estrutura morfológica, componentes funcionais, etc.).

O processo analítico seguido congregou vários métodos de investigação de acordo com os objectivos específicos de cada componente a caracterizar. As observações directas constituíram-se como uma fonte de informação preferencial comum a todas as componentes consideradas e suporte de todas as fases do trabalho. As entrevistas a entidades significativas quanto ao seu conhecimento sobre o Solar, constituíram outra importante fonte de informação, devido ao número restrito de dados sistematizados sobre o assunto. Por este meio, foi possível aprofundar aspectos concretos da matéria em estudo (por ex. continuidades e descontinuidades das atribuições funcionais do Solar após a sua ocupação pela entidade camarária).

As observações indirectas (consulta de documentação disponível sobre eventos passados, relatos informais, etc.) constituíram informação de natureza complementar que permitiu estender o conhecimento das actividades culturais além do presente imediato. Os questionários permitiram colher informações relativamente ao seu perfil dos visitantes do Solar. Permitiram, também, avaliar outros aspectos: modo de conhecimento dos eventos; conhecimento prévio do espaço e meio de transporte utilizado. Possibilitaram, ainda, estabelecer uma apreciação global dos utilizadores relativamente ao ambiente construído do Solar.

A necessidade de investigar questões de natureza específica requereu o recurso a abordagens especializadas. No âmbito da caracterização físico-construtiva do Solar, foi desenvolvida pesquisa no sentido de procurar as razões subjacentes a um dos principais problemas patológicos detectados na estrutura do Solar – humidade nas paredes evidenciado nos Salões. As acções desenvolvidas implicaram o contacto com especialistas do Laboratório Nacional de Engenharia Civil - LNEC (Lisboa).


Figura 3 – Quadro-síntese: abordagem metodológica (perspectiva geral)

No âmbito da caracterização espácio-funcional, a aplicação do modelo sintáctico desenvolvido por Hillier e Hanson (1984) permitiu aprofundar o conhecimento do sistema espacial e das suas propriedades configuracionais e, em particular, identificar a vocação funcional dos espaços.

Seguidamente, e relativamente a cada componente caracterizada, explanam-se alguns dos procedimentos desenvolvidos no âmbito dos métodos aplicados.

3.1 Caracterização físico-construtiva

O Solar é uma construção tradicional, com paredes exteriores portantes, de alvenaria húmida de pedra e tijolo contemporânea do Terramoto de 1755. Identificaram-se e sistematizaram-se problemas relativos ao estado de conservação do edifício. Elaborou-se um documento, referente às patologias da construção, constituído por três fichas: a primeira, comporta a informação base e as outras duas comportam informação complementar que permite localizar e identificar o problema focado na primeira.

A caracterização patológica assenta em três informações essenciais: os sintomas apresentados pela patologia, (modo como se manifesta); a natureza da patologia, (identificação do tipo de problema em causa); e a sua causa provável, (um diagnóstico definitivo carece, nos casos mais complexos de investigação específica).

Concluiu-se que as patologias que mais afectam o Solar estão relacionadas com condensações e humidades do terreno, que ascendem por capilaridade, resultantes da alteração do comportamento termo-higrométrico das paredes afectadas. As suas causas não são directamente originadas por uso intenso ou desadequado. Antes se conotam com uma reconstrução deficiente, que nem sempre terá tido presente conhecimentos actualizados da problemática específica dos problemas referenciados. A impermeabilização das paredes com a aplicação de rebocos novos, de cimento, ao invés de cal, conjugados com deficiências na execução do corte de humidade das fundações permitiu explicar os sintomas observados.

A reconstrução efectuada, ao repor a aparência do edifício, não terá recuperado a sua lógica construtiva subjacente, cunhada na matriz formativa do objecto. A alteração desse equilíbrio termo-higrométrico poderá vir a comprometer definitivamente o suporte construído do edifício e, deste modo, a sua própria existência.

3.2 Caracterização espácio-funcional
A análise das propriedades espaciais do sistema, e da sua relação com as actividades em curso, recorreu ao método da Análise Sintáctica. Foi aplicado o modelo gama (g) vocacionado para a descrição de objectos arquitectónicos.

As representações gráficas utilizadas baseiam-se no mapa convexo (representa relações de contenção espacial e de contiguidade; é o menor conjunto de espaços convexos de maior área); no mapa axial (representa relações de acessibilidade física e visual; é o menor conjunto de linhas axiais de maior comprimento); e no mapa g (grafo justificado que representa o programa e a fragmentação espacial). Os três tipos de representações do modelo g (piso 1) encontram-se exemplificados na Figura 4.


Figura 4 – mapa convexo, mapa axial e grafo justificado: (piso 1)

As informações do mapa convexo permitiram a análise da dimensão local do sistema. Compreendeu-se a distribuição e a extensão dos sectores funcionais no espaço. O Sector Cultural é aquele que ocupa mais células e as células de maior dimensão, enquanto o Sector Administrativo é mais concentrado no espaço. A contiguidade espacial detectada comporta uma diferença básica: o número de adjacências directas entre células é mais elevado para os gestores e menor para os visitantes. Os primeiros condicionam a evolução espacial dos segundos diminuindo a permeabilidade directa entre células. As células mais condicionadas são aquelas que possuem adjacências directas com o exterior (os salões, por exemplo).

Os mapas axiais permitiram analisar a dimensão global do sistema. Traduzem uma diferença essencial quanto às distintas acessibilidades dos utilizadores: para os gestores a acessibilidade é total; para os visitantes a acessibilidade é condicionada. A rede de acessibilidades caracteriza-se pela sua densidade e é marcada por grandes eixos de desenvolvimento axial. Resultam da profusão de espaços de transição existentes e da elevada adjacência que caracteriza a dimensão local do sistema. Nos salões (piso 1), as acessibilidades geradas permitem estabelecer fluências muito intensas entre interior e exterior. A concentração de acessibilidades exteriores nesta zona possibilita a sua autonomização espácio-funcional relativamente ao todo.

Os grafos justificados permitiram estudar configurações distintas que o sistema espacial pode apresentar, e analisar variações nas propriedades sintácticas do espaço, resultantes dos condicionamentos introduzidos pelos gestores. Os grafos referenciados aos gestores expressam as qualidades do sistema espacial, utilizado em toda a sua extensão; os grafos referenciados aos visitantes constituem derivações do sistema original. Expressam utilizações parciais do espaço. A quantidade de derivações que o sistema original apresenta traduz a versatilidade do sistema espacial implicando, por outro lado, maior dificuldade na sua descodificação e controlo.

Concluiu-se que o sistema se caracteriza por acentuada profundidade espacial marcada por extensas linhas de percurso. A intensa acessibilidade espacial resulta não só da profundidade do sistema mas, também, da sua permeabilidade (interior e interior/exterior).

Como consequência da multiplicação de adjacências directas entre espaços próximos, assiste-se à formação de sub-sistemas cíclicos promotores da dispersão do controlo espacial – fenómeno particularmente sensível nas conexões dentro-fora. Alguns espaços (salas da coordenação) conjugam propriedades espaciais complementares: elevada contiguidade e obrigatoriedade de passagem. Os gestores controlam e acedem rapidamente ao sistema.

A natureza da versatilidade do sistema resulta da possibilidade de condicionamentos diferenciados (embora limitados) do espaço em função das solicitações das actividades acolhidas. As limitações prendem-se, essencialmente, com aspectos de extensibilidade (áreas úteis restritas e indisponibilidade de espaço livre) e de conversibilidade (rigidez do tipo de estrutura portante).

3.3 Caracterização comportamental (usos)

A análise dos modos de apropriação espacial do Solar teve, a montante, o esclarecimento da constituição dos grupos de utilizadores-tipo. Estes abarcam uma variedade de sub-grupos de visitantes que interagem de modos diferenciados com o objecto de estudo. A análise incidiu sobre o sub-grupo atraído ao Solar pelas suas actividades culturais. A sua interacção com o espaço é mais intensa e directa relativamente a outros sub-grupos de visitantes.

A importância das observações directas no conhecimento dos modos de apropriação do espaço justificam o destaque de algumas situações observadas. A informação foi recolhida através de registos fotográficos, desenhados e escritos. Referenciam-se dois eventos ambos caracterizados por ocupação extensiva do espaço e concentração de elevado número de utilizadores. Os acontecimentos descritos implicaram respostas diferenciadas do sistema espacial às cargas de uso a que foram sujeitos. Contribuíram para a compreensão das limitações das capacidades de uso do Solar. Os eventos decorreram durante as festividades natalícias (2002).

A observação de um espectáculo de música com crianças e jovens, do Coro Juvenil e Infantil do Conservatório Regional de Almada, permitiu assistir a uma ocupação do espaço que ultrapassou os limites da sua capacidade (Figura 5). Os grupos actuantes, constítuidos por alunos e professores, e a assistência formada por familiares e amigos, concentraram mais de uma centena de visitantes.

O espectáculo ocorreu no Salão Dourado e demorou cerca de uma hora. Os espectadores tinham acesso através das escadarias do pátio com entrada pelo do Salão Verde. No entanto, os acessos não foram controlados e o público rapidamente abriu as portas do Jardim de Aparato relativas a ambos os salões. O Salão Dourado encontrava-se completamente lotado bem como com o corredor central e periferia do compartimento, ocupados com espectadores de pé.

As salas vizinhas dos salões foram ocupadas pelos artistas como salas de ensaio e camarins. O acesso ao sistema era feito a partir do percurso sul com entrada através da Sala 1. Mais uma vez, não sendo controlados os acessos, foi aberta a porta de ligação com a varanda (entrada do público). Estabeleceu-se grande promiscuidade entre fluxos de espectadores e de artistas. As actuações decorreram num clima de grande perturbação, com muito ruído de fundo, resultante dos movimentos caóticos de atravessamento do espaço, inviabilizando a audição e visualização das apresentações em condições aceitáveis.

O segundo evento observado – cantos populares – corresponde à recriação de uma memória natalícia em que os habitantes da vila, em Janeiro, visitavam as casas senhoriais brindando os donos com cânticos da época. O evento implicou uma ocupação do espaço em toda a sua extensão, por um número bastante alargado de pessoas, durante um período de tempo que decorreu por quatro ou cinco horas (Figura 6).


Figura 5 – Registo: Coro Juvenil Figura 6 – Registo: Janeiras

A Presidente da Câmara, na varanda dos salões, assumia o papel de proprietária recebendo os grupos actuantes que aguardavam sinal de entrada junto do portão do pátio. Ao sinal, avançavam até junto da escada exterior. Faziam uma primeira actuação enquanto o grupo seguinte aguardava junto da fogueira acesa no pátio. Subiam as escadas e faziam uma segunda actuação no Salão Verde. Finalmente, conduzidos por elementos da equipa do Solar, atravessavam o Salão Dourado, as Salas 1 e 2, e todo o corredor, em direcção às salas a nascente onde era servida uma ceia. Terminada a refeição, o grupo descia ao piso 0, pelas escadas interiores, acedendo novamente ao pátio.

Concluiu-se que a estrutura espacial tem alguma capacidade para suportar picos de ocupação concentrados desde que a evolução dos utilizadores no espaço seja muito controlada. Estas observações permitiram aprofundar a compreensão da versatilidade espacial do sistema e dos condicionamentos da sua usabilidade. O contraste estabelecido entre os dois eventos, evidenciou a importância do controlo do sistema para o funcionamento normal das actividades. Foi igualmente evidente o facto de esse controlo ser muito volátil dada a acentuada permeabilidade física e visual do sistema espacial.

4. DIAGNÓSTICO E DISCUSSÃO


A abordagem metodológica seguida permitiu estabelecer o diagnóstico da presente relação entre o espaço do Solar e os seus usos. O programa de actividades culturais implementado, temporalmente descontínuo, não se encontra estabilizado. Assiste-se a ensaios de utilizações (condicionados por limites orçamentais apertados) que procuram dotar o sistema de um sentido de uso perene hesitantemente decorrente da antiga quinta de recreio. Como consequência, o espaço apresenta-se sub-utilizado com dois picos de ocupação localizados na época natalícia e ano novo e na festa do Solar, em Junho.

A modificação dos padrões de uso da antiga habitação (sem ventilação natural resultante da abertura diária de portas e janelas, sem produção de calor na cozinha agora desactivada e com uma ocupação quase sempre residual) contribui, subtilmente, para um processo de degradação potenciado por técnicas de reabilitação não coerentes com a lógica construtiva do edifício.

Embora, devido à delicadeza da estrutura centenária e limitações da sua versatilidade espacial, o uso do Solar deva ser condicionado relativamente ao número de utilizadores e tempo de utilização tal necessidade não deve ponderar apenas factores quantitativos. Deve antes visar uma estratégia de uso assente na qualidade de ocupação subjacente a uma nova ordem funcional. Essa qualidade, questão sensível neste caso, exprimiria a compatibilidade entre o padrão configuracional do espaço e os padrões de actividades dos utilizadores. O uso é o elo a recuperar.

Nos tempos primordiais, o Solar constituia-se como um pólo actuante sobre a envolvente. As relações estabelecidas com o contexto resultavam da sua integração no tecido social da Sobreda, facto potenciado por este ser um meio pequeno. A Quinta dos Zagallos empregava parte da população da vila. O predomínio económico e financeiro da família conferia-lhe influência política nos destinos da Sobreda. Tal relação encontrava paralelo do ponto de vista urbano: a entrada principal da Quinta, situada no antigo Largo do Rio, rematava a rua principal da Sobreda. Hoje, a antiga via apresenta-se segregada na malha urbana subvertida por urbanizações desfiguradoras da paisagem.

A equipa gestora do Solar ensaia alguns usos reportados à memória de usos passados. São exemplos disso certas actividades desenvolvidas. Tratam-se de eventos episódicos que não satisfazem a necessidade de reconstituir consequentemente a natureza da função original e dotar este espaço de uma usabilidade coerente. Outras actividades (como as exposições) nada comportam de identitário relativamente ao espaço que as suporta (nem quanto ao seu conteúdo, nem quanto ao modo como se espacializam no sistema).

O Solar, não obstante o seu aparato cénico, e o investimento na sua recuperação, parece uma entidade sem radiação proporcional ao seu estatuto. Em contrapartida, edifícios vizinhos de análoga tipologia genotípica, recuperados por particulares, apresentam uma notável vitalidade. A estes edifícios foi dado um uso utilitário (celebração de eventos sociais) análogo ao da sua matriz. Ao Solar foi dado um uso institucional pouco consequente. Naqueles casos, foi desenvolvido um processo de adaptação, de compatibilidade das alterações funcionais com as alterações espaciais e sociais. Essas actividades de sucesso não cedem o passo à urbanização mantendo presente a antiga estrutura morfológica do território.

A procura de um conteúdo de uso mais consequente e natural para o invólucro espacial do Solar é uma questão intimamente ligada ao conhecimento das condições de adaptabilidade do edifício. As metodologias existentes, aplicadas a este estudo, permitiram fazer o retrato da actual situação. A APO é vocacionada para o estudo de edifícios em uso; a Análise Sintáctica debruça-se sobre o estudo do espaço e das propriedades decorrentes da sua configuração. No entanto, por si só, estas abordagens não abrangem as questões levantadas pelo conceito da adaptabilidade. As respostas terão de ser procuradas na matriz formativa do objecto. O objectivo será clarificar o carácter desses usos primordiais. Para compreender esses valores será necessário extravasar para além do objecto. Há que fazê-lo no tempo (procurando as razões subjacentes à sua origem) e no espaço (analisando a sua ancoragem morfológica, funcional e social ao território). A pesquisa de outros valores requer instrumentos de análise adequados. Outras abordagens metodológicas serão necessárias para inquirir os valores da adaptabilidade.

5. DESENVOLVIMENTOS FUTUROS


No estudo efectuado procurou-se analisar as capacidades adaptativas do Solar às actividades culturais implementadas. Concluiu-se que o espaço apresenta uma versatilidade moderada resultante da capacidade de compartimentação interna e da autonomização do sistema espacial; suporta ocupações extensivas desde que muito controladas. O espaço solarengo encontra-se sub-utilizado. A reinterpretação autárquica do sentido do uso da antiga quinta de recreio e fruição não estará a ser eficaz na reconversão funcional do edifício.

O aprofundamento das condições de adaptabilidade de espaços culturais terá como referência o Solar e assentará em três vertentes: 1) estudo das questões relacionadas com esse espaço público; 2) comparação com outros exemplos significativos; 3) desenvolvimento de abordagens metodológicas específicas.

O aprofundamento de aspectos relacionados com o caso de estudo do Solar implica a identificação da matriz formativa do objecto sendo relevante analisar o edifício no seu contexto urbano actual. A comparação do grafo genotípico do Solar com os grafos fenotípicos marcantes de cada fase da sua existência contribuirá para o esclarecimento do processo evolutivo do sistema espacial.

Confrontar-se-á esse conhecimento com os perfis dos grupos de utilizadores que, em cada uma dessas fases, habitaram o edifício e com os seus padrões de actividades. A consideração de outros casos de estudo permitirá estabelecer análises comparativas relativamente às condições de adaptabilidade de espaços culturais. Procurar-se-á comparar e analisar as condições de adaptabilidade de edifícios reconvertidos para fins culturais e de edifícios projectados para essas necessidades.

O estudo das condições de adaptabilidade de espaços culturais exige o desenvolvimento de abordagens metodológicas específicas. As técnicas de observação das relações entre espaço e utilizadores recorrem frequentemente a procedimentos de observação directa. As dificuldades e limitações de registo que este tipo de técnicas comporta são evidentes. Dependem das capacidades de quem observa (capacidades de concentração, de decisão, de registo, etc.). Também não permitem registar a simultaneidade/continuidade dos acontecimentos culturais, factores determinantes para o estudo do fenómeno. Por estas razões, procurar-se-á desenvolver técnicas alternativas de observação e registo que permitam ultrapassar as limitações dos procedimentos convencionais da observação directa muito dependentes do factor humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CONROY DALTON, R.; KIRSAN, C. Graph Isomorphism and Genotypical Houses. In: 5th International Space Syntax Symposium. Delft, Techne Press, 2005. p.21-15.
HEITOR, T. A Vulnerabilidade do Espaço em Chelas – Uma Abordagem Sintáctica. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2001.
HILLIER, B.; HANSON, J. The Social Logic of Space. Cambridge, Cambridge University Press, 1984.
PEÑA, William et. al. Problem Seeking: An Architectural Programming Primer. 3 ed. Washington, Aia Press, 1987.
HILLIER, B. “MCS in Advanced Architectural Studies – Introductory course – Seminar 4: Introduction to the study of complex buildings”. Londres, Bartlett School, 2002.
ORNSTEIN, S.; BRUNA, G; ROMÉRO, M. Ambiente Construído & Comportamento. 1 ed. São Paulo, Studio Nobel/FUPAM, 1995.
PREISER, W. POE Training Workshop and Prototype Testing. In: Building Evaluation Techniques. McGraw-Hill, Nova Iorque, 1996. p.98-111.
SANOFF, H. School Building Assessment Methods National. In: Clearinghouse for Educational Facilities. Washington, 2001.
THIEL, P. People, Paths, and Purposes – Notations for a Participatory Envirotecture. Washington, University of Washington Press, 1996.
TOMÉ, A. Avaliação Pós-Ocupação – Solar dos Zagallos, Centro de Artes Tradicionais de Almada. Relatório (Exigências Funcionais das Construções), 11º Mestrado em Construção – Instituto Superior Técnico (IST), Lisboa, 2002.