domingo, fevereiro 21, 2010

Apresentação de "O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950", um livro de Ricardo Costa Agarez editado pela CML - Infohabitar 286

Infohabitar, Ano VI, n.º 286

Com reduzidos comentários faz-se, em seguida, a apresentação do livro:
O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950,

de Ricardo Costa Agarez.

Trata-se de uma excelente e recente (2009) edição da Câmara Municipal de Lisboa, integrada na colecção Lisboa: arquitectura e urbanismo (n.º 5), apresentado há poucos dias e que, desde já, vivamente se recomenda a um amplo leque de potenciais leitores, desde os especialistas no habitar, aos projectistas, e não só os arquitectos, até aos estudiosos e amadores de Lisboa.



Fig. 01: a capa do livro

O livro assegura continuidade à muito meritória actividade de edição de trabalhos de investigação arquitectónica, urbanística e sobre o habitar, por parte do Departamento de Património Cultural, da Direcção Municipal de Cultura do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), um Departamento coordenado pelo Arq.º Jorge Ramos de Carvalho, que assim disponibiliza o 5º volume da colecção "Lisboa:", uma colecção ligada às áreas dos Estudos Sociais e da Arquitectura e Urbanismo na sua relação com o aprofundamento do estudo de uma cidade viva e patrimonial.

Faz-se, em seguida, e para despertar o fundado interesse dos potenciais leitores, uma leitura, apenas minimamente comentada, do índice deste livro do arquitecto Ricardo Costa Agarez, cuja breve resenha biográfica, extraída da badana do seu livro, se junta já de seguida.




Fig. 02: breve resenha biográfica do autor.

Apresentação, brevemente comentada, da estrutura de conteúdos do recente livro:
O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950,
de Ricardo Costa Agarez.

Nota: as imagens juntas são do referido livro e destinam-se a ilustrar e exemplificar o seu excelente aspecto gráfico.

O capítulo 1 intitula-se "Lisboa, anos de 1950".
O primeiro capítulo integra os seguintes temas: a actividade planificadora da CML e o envolvimento camarário no "problema da habitação"; a infraestruturação e o equipamento da cidade; as obras particulares vistas pela Câmara Municipal; e, finalmente, a CML e o "Problema Arquitectónico de Lisboa".



Fig. 03

O capítulo 2 tem o título "Conceitos e instrumentos condicionantes da arquitectura de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".
O segundo capítulo desenvolve duas temáticas fundamentais: "o problema da habitação", numa perspectiva articulada com a abordagem das questões da salubridade e moralidade; e a matéria da regulamentação da construção urbana em Lisboa.
Sendo que esta matéria mais regulamentar é desenvolvida em termos das seguintes temáticas: a salubridade da "edificação em conjunto", a habitabilidade dos espaços interiores, os aspectos construtivos e, concluindo o capítulo, a sempre crítica questão estética integrada nos regulamentos.

O capítulo 3 intitula-se "Premissas de modernidade na habitação multifamiliar".
O terceiro capítulo desenvolve, também, duas temáticas fundamentais: uma abordagem das "características modernas da habitação"; e uma análise da "habitação moderna" em Portugal, considerando-se apontamentos teóricos e exemplos publicados e rematando-se o capítulo com uma abordagem ao "prédio de rendimento".



Fig. 04: exemplo de duas páginas, entre as dedicadas a 115 exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950

O capítulo 4 tem o título "Cento e quinze exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".
O quarto capítulo, que se desenvolve ao longo de cerca de um terço do livro (mais de 100 páginas), dedica-se à apresentação de 115 casos de habitação multifamiliar realizados em Lisboa nos anos de 1950, uma apresentação estruturada pelas diversas zonas da cidade e feita, sistematicamente, para cada um dos casos, através de um texto de síntese e apresentação do edifício, de uma sua imagem actual ou, sensivelmente, à época da respectiva construção - casos em que é naturalmente interessante a relação da imagem do edifício com a respectiva imagem em termos de animação urbana -, e da sua planta original, muito bem reproduzida a partir das cópias heliográficas do respectivo projecto, em tempo submetido à CML.

As partes da cidade consideradas e onde se localizam os edifícios apresentados são as seguintes três zonas:

(i) a zona central norte, incluindo as Avenidas Novas, algumas parcelas e orlas de Alvalade e margens das referidas Avenidas Novas;

(ii) a zona central oriental - os bairros a nascente do eixo Av da Liberdade, Praça Marquês de Pombal e Av. Fontes Pereira de Melo;

(iii) e a zona central ocidental - a poente do eixo Av da Liberdade/Parque Eduardo VII, até aos bairros de Campolide e Campo de Ourique.



Fig. 05: exemplo de duas páginas, entre as dedicadas a 115 exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950

Este capítulo 4 termina com um interessante texto sobre a temática da integração de elementos de artes plásticas em edifícios habitacionais multifamiliares, um texto que faz sequência com a análise, imediatamente anterior, de edifícios na Av. Infante Santo, e que corresponde a uma matéria que se julga ter crítica importância seja na perspectiva de salvaguarda e maior divulgação dos excelentes exemplos que temos em Lisboa, seja no que se julga poder ser um fundamental reatar deste tipo de intervenções na cidade actual.

Mas ainda a título de remate do capítulo e sob a forma de extra-texto são editados, na pág. 222, os muito interessantes "trâmites de apreciação de um projecto apresentado a licenciamento à Câmara Municipal de Lisboa em 1958", numa sequência de 13 "passos" de análise e informação, onde se integra a "análise da solução arquitectónica e do projecto em geral «sob o ponto de vista regulamentar» e «sob o ponto de vista estético» ..."



Fig. 06:

O capítulo 5 intitula-se "Os autores dos exemplos apresentados".

Neste quinto capítulo, ao longo de uma excelentes 50 páginas, faz-se e, muito bem, justiça aos autores das obras que são apresentadas no capítulo anterior, sendo que as análises, projectista a projectista, inclui preciosas considerações tipológicas e ligadas à justificação de várias das soluções edificadas e de habitações desenvolvidas.

Este quinto capítulo, que nos apresenta um conjunto amplo de autores, e que refere muitas das suas associações profissionais, bem como muitas das preocupações, objectivos, procuras e eventuais êxitos ou situações menos conseguidas, é rematado com um conjunto de notas biográficas e curriculares, organizadas alfabeticamente, e que proporcionam uma boa leitura dos "percursos profissionais dos arquitectos autores dos casos de estudo".

O capítulo 6 tem o título "considerações sobre a arquitectura para a habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".

Este sexto e último capítulo, "tradicionalmente" a altura de o autor fazer uma síntese conclusiva, é aproveitado, e bem, para o tratamento sequencial de quatro temáticas, iniciando-se, provavelmente, com um núcleo disciplinar importante:

(i) uma primeira temática refere-se à apresentação do "programa de habitação multifamiliar" e das suas particularidades, abordando-se aqui, sinteticamente, "o promotor", "o projectista", "a construção" e "o destinatário";

(ii) a segunda temática dirige-se para a definição, igualmente sintética, das "categorias da habitação multifamiliar e sua distribuição";

(iii) a penúltima temática deste último capítulo do livro (re)centra-se no "papel da Câmara Municipal de Lisboa"e foca-se na influência dos processos de licenciamento municipal nos aspectos regulamentares e nos aspectos estéticos ou do "partido arquitectónico".

(iv) e, finalmente, a temática com que o livro termina intitula-se "a renovação do prédio de rendimento" e subdivide-se nas matérias ligadas às "dificuldades de inserção na cidade existente" e ao "desempenho dos autores" (naturalmente, títulos do autor).

E desta última parte retiram-se duas citações (pág. 302):

"A par da confirmação ... da mestria de um número reduzido de nomes, surge um conjunto de autores «desconhecidos», ainda ausentes da historiografia nacional, praticantes de uma arquitectura moderna eficaz e discreta, solucionando com competência e cuidado a instalação quotidiana de fogos na cidade existente."

e,

"Se há, como acreditamos, características inerentes ao trabalho do arquitecto moderno - o rigor geométrico racionalista, a consciência volumétrica acentuada, a veracidade da relação entre planta e alçado, a procura de novos atributos e modelos para a configuração e concatenação dos espaços, nesta caso domésticos, a ligação umbilical sem cedências da arquitectura ao «espírito do tempo» seu contemporâneo -, estas são identificáveis em alguns dos projectos assinados por estes autores."

Salienta-se, ainda, que o livro é rematado com uma extensa, bem organizada e muito útil secção de "fontes e bibliogafia".



Fig. 07: o texto de apresentação e comentário de síntese incluído na contra-capa do livro.

Este livro com 324 páginas intensamente ilustradas com imagens fotográficas e reproduções de plantas de pisos de edifícios multifamiliares lisboetas realizados na década de 50 do século passado, constitui um "tijolo" bem "desempenado" e bem assente na urgente, fundamental e aliciante construção dos estudos habitacionais e tipológicos, sobre o habitar português que integra o nosso património, perspectivando quer a sua vital protecção e divulgação patrimonial, quer o seu papel como elementos de base e de referência para a também urgente e bem fundamentada diversificação e renovação de uma oferta tipológica residencial bem embebida na cidade coesa. São contribuições como esta que nos apoiam na luta contra a doentia repetição das mesmas soluções de espaços comuns e privativos habitacionais.

E, mais uma vez, aqui nas páginas do Infohabitar, se sublinha que para se avançar, fundamentadamente, em qualquer área e, especificamente, nestas tão complexas como ricas matérias ligadas a uma boa/melhor cidade bem/melhor habitada, é básico e essencial "fazer o trabalho de casa", estudar e registar o que foi feito, tirar do que foi feito as lições possíveis, em leituras cuidadas e cíclicas, identificando os melhores e os piores caminhos, que nos servirão de referências naquilo que há que fazer, ainda, e nos cuidados de que temos de rodear tudo aquilo que foi bem feito e que contribui, cada vez mais, para a verdadeira alma da cidade e para a valiosa construção do seu carácter. Estudos como este são excelentes "tijolos" numa construção vital para uma boa cidade.

Parabéns, portanto, ao autor e ao editor, a CML e, especificamente, o Departamento de Património Cultural da Direcção Municipal de Cultura do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa.

Mas porque estas realizações editoriais tão cuidadas e pormenorizadas têm realmente "nomes", parabéns também à respectiva Direcção de Projecto, assegurada pelo Arq.º Jorge Ramos de Carvalho, que dirige o referido Departamento de Património Cultural, e também, à coordenação editorial assegurada por Maria Teresa Bispo.

É ainda necessária uma referência às fotografias, do autor do texto e de José Manuel Gema e à cooperação, que foi com certeza preciosa, do Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, com a referência a Cláudia Damas.

E, finalmente, o apontamento do apoio por parte da Fundação Calouste Gulbenkian, do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e do Arquivo Pessoal Arquitecto Manuel Laginha.

Por fim, não queremos deixar de desejar à CML e ao seu Departamento de Património Cultural a continuidade de uma tão meritória acção editorial, pois a cidade tem muias zonas, muitas épocas e muitos autores, que merecem estudos tão sérios, legíveis e construtivos como este; sendo que com esta actividade todos ganhamos, em termos culturais e de divulgação do nosso património, reforçando-se, sem dúvida, a presença patrimonial dos espaços e edifícios estudados, o que constitui, sempre, algo de muito valioso para o seu futuro e o da cidade que integram.

António Baptista Coelho


Notas editoriais:
A presente edição do Infohabitar integrou um artigo de apresentação e comentário de um novo livro, numa iniciativa que terá, no futuro, continuidade, na sequência da edição de obras que nos cheguem e que se revelem de interesse especial nas amplas áreas do habitar.
Julga-se que a obtenção do presente livro será possível na Livraria Municipal da CML, da qual se juntam as respectiva referências: Avenida da República, nº 21 A, 1050-185 Lisboa, Telefone: 21 356 78 69, E-mail: livraria.municipal@cm-lisboa.pt , Horário de Funcionamento: de 2ª a 6ª das 09.30 às 17.00h

Infohabitar, Ano VI, n.º 286
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 21 de Fevereiro de 2010



2 comentários :

jorge.carvalho disse...

Caro António B. Coelho, agradeço as suas simpáticas palavras e registo o desafio de dar continuidade a esta colecção, que corresponde á nossa obrigação de divulgar o património da cidade de Lisboa e por outro lado dar visibilidade a estudos de mestrado ou de doutoramento que por vezes ficam únicamente nas bibliotecas das academias. Espero sinceramente que consigamos manter a qualidade e o interesse que salientou.
Cordialmente Jorge Ramos de Carvalho

RAgarez disse...

Caro Arq. Baptista Coelho
É muito bom encontrar feedback para o meu trabalho no Infohabitar. Li com interesse a recensão que o "Moderno Revisitado" mereceu e congratulo-me por a apresentação deste livro ter dado origem a uma nova rubrica na vossa revista, de que sou leitor assíduo e a que desejo a melhor continuidade.
Ricardo Agarez