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domingo, janeiro 31, 2010

283 - Sobre a casa-pátio: elementos de enquadramento - Infohabitar 283

Infohabitar, Ano VI, n.º 283
Sobre a casa-pátio: elementos de enquadramento
António Baptista Coelho

Nota inicial: o texto que baseia-se nos elementos desenvolvidos pelo autor para o livro "Habitação Humanizada", realizado e editado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e disponível na Livraria do LNEC.

O homem moderno terá, “apenas”, entre 100.000 e 50.000 anos, o pensamento artístico terá sido desenvolvido há cerca de 25.000 anos, antecipando a invenção, primeiro, dos pequenos espaços urbanos constituídos por orgânicos aglomerados de casas, sem ruas (a circulação seria feita pelas coberturas e utilizando escadas, recolhidas em caso de perigo), depois do sistema de casas ligado e separado por ruas e outros espaços de invenção do sentido cívico, sentido este que terá levado, finalmente, à racionalização dos traçados, à criação de espaços públicos específicos, funcionais e representativos, muito provavelmente com pátios públicos e consequentemente à criação dos espaços domésticos mais privatizados e frequentemente também estruturados por pátios.

E em tudo isto a casa-pátio tem um papel protagonista, provavelmente marcando a passagem da consideração do habitar super-individualizado para o habitar agregado que conformou povoações e cidades.




Fig. 01

Aquela que se pode considerar a aldeia mais antiga até agora identificada é Ohalo, habitada há cerca de 20.000 anos e situada no leito seco do Mar da Galileia.

E as primeiras povoações com um carácter mais citadino surgem há cerca de 10.000 a 9.000 anos, em simultaneidade com a agricultura e a pastorícia mais sistematizadas; sendo as primeiras que se conhecem Jericó, com cerca de 5ha, habitada por mais de 2.000 pessoas, e Çatal Höyük, perto de Konya, na actual Turquia, esta um pouco mais tardia mas que parece ter atingido uma muito significativa dimensão urbana, reflectida tanto em área ocupada como em número de habitantes – cerca de 15ha para 8.000 habitantes -, numa soluçao urbana que funcionou sem interrupções durante pelo menos 800 anos e que devia ser construída e ampliada em conjunto, e não admitia acréscimos individuais.

Temos, portanto, cerca de 10.000 anos de urbanidade, e nestes cerca de 60%, portanto 6.000 anos foram marcados pela casa-pátio ou “casa urbana oriental”, como lhe chama Schoenauer (1), que lhe sublinha o seu carácter introvertido com um ou mais pátios privados e o seu uso em quatro antigas civilizações e nas cidades da Grécia Clássica e de Roma e salienta-se que “esta casa é ainda, hoje em dia, a forma tradicional de habitar em muitas cidades da Ásia, África e América do Sul, sendo, tal como sublinha Schoenauer, “uma forma de habitar que perdurou durante mais de 200 gerações”.

Na mesma obra Schoenauer indica que “a mais importante das suas características é o pátio ajardinado, espaço privado central e aberto. o pátio é o coração da casa urbana oriental e não existe em nenhuma outra língua uma expressão mais poética do que a chinesa para definir o pátio, «oferenda do céu», fonte que proporciona luz, ar e água da chuva à habitação… outra característica da casa-pátio é que esta introversão proporciona privacidade visual e acústica não só relativamente à rua, mas também relativamente aos vizinhos." (p.237)

Complementarmente, Schoenauer salienta, ainda no mesmo livro, a flexibilidade do interior destas casas orientais como outra sua importante característica, com a maioria dos seus compartimentos caracterizados como espaços multiusos (p.240); e escreve ainda que ”além de tudo isto há uma natural civilidade ou urbanidade na casa-pátio na qual se fugia da ostentação de uma altura elevada também por recomendações religiosas, com idênticos reflexos na modéstia das fachadas – uma lição de urbanismo, que, ao nível do bairro se associou ao desenvolvimento de comunidades que não têm níveis homogéneos de rendimento”, gerando-se e consolidando-se, assim, uma importante regra de integração social e económica (p.240).

Continuando com Schoenauer (2) este salienta que “o conceito de casa-pátio foi redescoberto por alguns arquitectos modernos”, constituindo um “exemplo a seguir tanto no uso do solo como na conservação da energia e na definição hierárquica das ruas, pois proporciona identificação mais íntima com a comunidade residente, e é um modelo urbano compacto que não desperdiça espaço resultando em distâncias pedonais razoáveis e numa densidade adequada a um eficaz sistema de transportes”. (p.241)

E Schoenauer sublinha ainda, no final da sua extraordinária obra, que “as civilizações orientais, milhares de anos mais antigas do que as ocidentais, evoluíram, através de um longo processo de ensaio e erro, até algumas soluções de desenho habitacional urbano que deram resultados positivos ao longo de muito tempo. Soluções que podem ser adoptadas no cenário urbano ocidental, com a garantia de terem sido viáveis durante pelo menos 6000 anos” (p.369); e a isto podemos acrescentar ter-se hoje a noção clara de que muitos dos modelos de edifícios culturalmente incoerentes ainda mais o são relativamente aos actuais e essenciais critérios de eficácia energética e de poupança de recursos.


Fig. 02

Salienta-se que as influências orientais da casas-pátio ditaram a forma da clássica casa grega e romana e, na Idade Média, o conceito continuou a usar-se em mosteiros e conventos.

A casa-pátio, nas suas mais diversas versões e configuraçõe, foi e é ainda um elemento importante da boa relação entre privacidade habitacional e cidade pública.

E, a propósito, lembro o ambiente de uma domus citada por Ariès e Duby (3), ... “a residência é antes de mais um largo espaço vazio que se adivinha assim que se penetra no coração do edifício, e por vezes apenas no seu limiar, uma fileira não de salas fechadas mas de espaços: pátio coberto, claustro, jardim com os seus jogos de água; são mais os vazios do que os cheios ... À volta deste vazio estão claramente dispostos pequenos quartos cuja pequenez surpreende; cada um se retira para a sua cela para ler ou dormir, mas vive-se nos vazios centrais, sobre os quais se abrem, a todo o seu comprimento, salas de jantar, como caixas a que faltaria um dos seus quatro lados... Seja na residência rica ou não, uma decoração de cores vivas recobre o chão, as paredes os tectos de mosaicos, de estuques, de pinturas decorativas ou mitológicas … aqui reina a imaginação não a pompa. O espaço inútil era outro luxo e a arquitectura tinha sabido combinar a amplidão do conjunto com a possibilidade de retiro nos pequenos quartos … o espaço central permite o afastamento... Um modesto burguês em Paestum numa casa de cerca de 100m2 com cozinha e três pequenos quartos recortados na margem por um largo pátio”.

Para quem viva, intensamente, as matérias do habitar esta descrição tem extraordinário interesse e faz pensar que a casa-pátio tem uma dupla virtude: a de se agregar com alguma facilidade e interesse volumétrico para fazer cidade contínua, protectora e estimulante em termos de imagens e sequências urbanas, de certa forma como que numa relativa qualificação mais “doméstica” ou intimista do espaço público; e a virtude de dar a partes específicas e estratégicas do próprio espaço doméstico valência agradavelmente mutantes ou diversificadas, como que num mitigado e bem controlado prolongamento do espaço público. E esta dupla virtude é muito útil e no (re)desenvolvimento de velhas e novas tipologias do habitar a cidade e a casa.

E lembra-se que a capacidade de compactação urbana e de agregação das habitações desenvolvidas em torno de pátios parece ser uma arma, bem actual e interessante no aprofundamento de uma estratégica densificação urbana, tratando-se de um caminho que não sacrifica as fundamentais privacidades domésticas, e sendo também um caminho claramente associável ao desenvolvimento de tipologias habitacionais intermediárias, entre o unifamiliar e o multifamiliar, numa estimulante transfiguração da ideia da casa-pátio, para soluções de casas-pátio e casa-terraço mutuamente sobrepostas e diversificadamente imbricadas.



Fig. 03

Desenvolve-se, um pouco mais, esta referência ao chamado “habitat intermediário”, com algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet: “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)” (4). E as autoras, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”

E uma prova teórico-prática desta capacidade urbana agregadora da tipologia-base “casa-pátio” foi dada, já há muitas dezenas de anos, num excelente livro de Serge Chermayeff e Christopher Alexander (5), intitulado “Community and privacy, toward a new architecture of humanism”, no qual os autores demonstram a enorme diversidade de densidades – algumas bem elevadas –, que são possíveis apenas com recurso a edifícios unifamiliares de diversos tipos e em diferentes configurações e agrupamentos, articulados por pátios privativos e comuns. E é preciso sublinhar que se trata de uma obra fundamental para todos aqueles que se dedicam ao estudo da fundamental relação entre continuidade urbana e privacidade doméstica.

E, porque se julga oportuno, fazem-se, em seguida, duas citações desse livro, que se consideram estruturantes destas temáticas: (6)

“Acima de todos os outros um elemento precioso da vida de outrora está em risco de extinção: a intimidade, essa maravilhosa combinação de afastamento, confiança em si próprio, solidão, calma, contemplação e concentração” (p. 23)... Uma forma urbana que tomasse em conta correctamente todas as condicionantes e tensões da nossa época seria capaz de manter uma vida equilibrada, que eliminaria grande parte do desejo de evasão” (p. 35).

No que toca ao interior do habitar (edifício e fogo), provavelmente a grande aposta está no (re)inventar de novas tipologias, adequadas às novas famílias e designadamente às cada vez mais numerosas pessoas sós e aos idosos sós; e a casa-pátio num único piso e na qual o pátio configura um verdadeiro compartimento é provavelmente uma das mais adequadas tipologias para idosos; e lembremos aqui bem a propósito as soluções de Jörn Utzon: as suas casas organizadas em redor de pátios, em Fredenborg (1959-62), cujas raizes o projectista encontrou nas suas viagens mas também na própria Dinamarca e que misturam referências das quintas tradicionais dinamarquesas e chinesas e da arquitectura islâmica ... uma espécie de programa-quadro para o habitar individual, e refere Isabel Salema que é uma arquitectura que "vai ao encontro das necessidades modernas maravilhosamente, e contudo Fredensborg quase podia ter sido construído há mil anos.” (7)

Para rematar este texto é preciso sublinhar que nunca será excessivo referir o urgente reforço da perspectiva histórica nos estudos do habitar. O que não faz qualquer sentido é actuar como se nada para trás existisse em termos de experiência acumulada e debatida, e como se um dado edifício de habitação pouco mais fosse do que um conjunto de elementos de construção e de dispositivos mais ou menos elaborados.

E, afinal, a casa-pátio é uma tipologia que, tal como refere Anton Capitel (8), se identifica com a própria arquitectura ao longo de largos períodos da história do habitar.

Notas:(1) Norbert Schoenauer, “6.000 años de hábitat – de los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidente”, 1884 (1981).
(2) Norbert Schoenauer, “6.000 años de hábitat – de los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidente”, 1884 (1981).
(3) Ariès e Duby, "História da Vida Privada I", 1991, pp.303 e 304.
(4) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18.
(5) Serge Chermayeff e Christopher Alexander, “Intimité et Vie Communautaire – vers un nouvel humanisme architectural“, 1972 (1963), pp. 191 a 197.
(6) Serge Chermayeff e Christopher Alexander, “ Intimité et Vie Communautaire – vers un nouvel humanisme architectural “, 1972 (1963).
(7) Isabel Salema, “Jorn Utzon para além da Ópera de Sidney”, Público, 19 Abril 2003.
(8) Anton Capitel, “La arquitectura del pátio”, 2005.

Infohabitar, Ano VI, n.º 283
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 31 de Janeiro de 2010

sexta-feira, novembro 02, 2007

167 - Relação entre o Habitar e a História I - Infohabitar 167

 - Infohabitar 167


Relação entre o Habitar e a História

I

Prólogo:

Edita-se hoje no Infohabitar um pequeno texto sobre a fundamental e tantas vezes desprezada relação entre o Habitar e a História, um texto informal e informalmente ilustrado, que apenas quer inaugurar uma linha editorial nesta temática e lembra-se que esta edição se faz na sequência da 1ª Visita Alargada do Grupo Habitar (GH), realizada com a fundamental cooperação da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, em 12 e 13 de Outubro de 2007, intitulada “O Habitar e História I”, e depois de se ter feito, há cerca de uma semana, também aqui no Infohabitar, o relato informal da extraordinária sessão em que se teve a oportunidade de acompanhar 50.000 anos de história do nosso habitar, em Portugal, através das intervenções dos historiadores e investigadores, Armando Coelho, Lino Tavares Dias e Mário Varela Gomes, ao que se seguiu uma visita pormenorizada e comentada à Citânia de Sanfins.

Sobre a importância da relação entre o Habitar e a História: uma primeira reflexão informal (que muito se gostaria que pudesse ajudar a despoletar outros textos)
António Baptista Coelho

O habitar europeu de hoje, neste início de novo século, tão globalizado, é um habitar sedento de adequadas raízes históricas e culturais e sedento de uma inovação fundamentada; e sobre esta matéria aponto, de seguida e muito brevemente, algumas ideias, sublinhando, desde já, que aqui se considera o habitar com o sentido verdadeiro que vai da sala de estar de cada um, às ruas do nosso bairro e à praça da cidade que é de todos.
Muitos autores estão a convergir em matérias que têm a ver com os assuntos ligados a uma arquitectura caracterizada e viva, seja na matéria do “lugar” seja na matéria das raízes históricas, temas estes bem conjugados em novas e velhas cidades plenas de interesse urbano e de uma vitalidade habitacional bem disseminada e diversificada. Um interesse que até paga, cada vez mais, em termos da chamada indústria cultural.



Fig. 01

Outro aspecto a considerar é que para se desenvolverem uma habitação e um espaço urbano humanizados, que é provavelmente aquilo de que hoje urgentemente precisamos, muito se retira do estudo da história do habitar, em geral, e especificamente da história das tipologias do habitar, designadamente, nas relações entre níveis físicos, entre interior e exterior, e entre habitação, vizinhança e cidade. O caminho poderá ser, assim, o da procura de uma tipologia formal e funcionalmente rica, que seja historicamente consistente, caracterizada por uma perspectiva por um lado extremamente ligada à prática dos habitares e dos sítios habitados, e, por outro lado, muito “construtiva ou orgânica”, solta de preconceitos, mas que integre a experiência da história do habitar.
Sobre estas matérias Escreveu Steen Eiler Rasmussen, na sua “Arquitetura vivenciada” (1), que “só o homem constrói habitações que variam de acordo com requisitos, clima e padrão cultural... ele também avança no jogo da caverna, para métodos cada vez mais refinados de espaços fechados. Pouco a pouco ele empenha-se em dar forma a tudo o que o cerca.”


Fig. 02
E talvez que no agressivo e acelerado mundo de hoje devamos reinventar soluções de protecção e de reforço da individualidade e do sossego vicinal e familiar pois, hoje, os inimigos estão dentro dos muros da cidade; e, no mundo de hoje, onde imperam o individualismo e a falta de oportunidades de convívio, esses caminhos de autodefesa têm de ser muito desenvolvidos com muitos cuidados, pois não podem passar por um autista enclausuramento em recintos exclusivos, anti-cívicos e socialmente estéreis. Há, portanto que (re)inventar soluções que aliem individualidade, sossego, convívio e cidade; e conhecer a história do habitar e da cidade é fundamental nesse (re)inventar de soluções.
Portanto, devemos interiorizar que não podemos saber lidar com o tecido urbano das mega-cidades, em boa parte marcadas pela massificação e pela desumanização. Mas não podemos ficar reféns de uma tal realidade, devemos usá-la no sentido da sistemática aplicação de um conhecimento gradualmente consolidado, duvidando sistemática e sabiamente de falsos profetas cheios de certezas; e temos de aprender constantemente com a prática e com tudo aquilo que pudermos apurar dessa pequena história urbana e do habitar – desde os aspectos mais estruturais aos mais formais e ligados à imagem urbana.
E aqui, por exemplo devemos ter presente a verdadeira magia que se vive, tantas vezes, em velhos bairros, onde as estreitas vielas são determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada; e a pequena rua era e é, assim, directamente referida à escala do homem – a rua ligada à “presença ampliada do homem”, como escreve Rudolf Arnheim. Hoje tudo é bem diferente pois devido às crescentes exigências dos sistemas de transportes a relação espacial entre edifícios e ruas alterou-se; mas será esta uma fatalidade? Será que não é possível reaplicar e, de algum modo, reinventar a relação entre os vitalizadores acessos aos edifícios e os eixos de continuidade urbana?
Nos muitos séculos de cidade pré-industrial o elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas.


Fig. 03
Importa, assim, considerar a(s) história(s) da evolução do habitar (n)a cidade e repensá-la(s) na cidade de hoje, que em muitos casos começa a ser pós-industrial. E nesta forma de pensar e de actuar não faz, evidentemente, qualquer sentido apostar em “tábuas rasas”, quando há informação útil referida a casos tipológicos alguns com muitas centenas e mesmo milhares de anos de vivência e outros, os mais inovadores, com aplicações feitas já praticamente durante um período de cerca de 100 anos. Mas nesta forma de pensar e actuar também não faz sentido optar por inovações pouco coerentes porque mal fundamentadas, pois estamos a avançar em matérias vitais para a cidade habitada e para o verdadeiro bem-estar dos cidadãos.


(i) O “filão” tipológico tem de ser considerado de uma forma completa e historicamente coerente, pensa-se, naturalmente em vizinhanças próximas completas que respondam bem a amplos leques de necessidades habitacionais e urbanas.

(ii) Considerar um futuro marcado por grande diversidade de soluções domésticas e urbanas pormenorizadas; o que tem potenciais vantagens para a visada apropriação e a humanização das soluções de habitar.

(iii) Ter presente quer as necessidades humanas mudam mais superficialmente do que pode parecer, encontrando-se exemplos históricos de tipologias e morfologias habitacionais, que podem ter oportunidade nos dias de hoje. Um exemplo é dado pela “casa urbana oriental” , estruturada por pátios, uma solução com mais de 6.000 anos ainda usada em muitas cidades da Ásia, África e América do Sul; um outro exemplo, este no interior da casa, refere-se às “engenheiras domésticas” que estruturaram muitos dos aspectos da funcionalidade da casa moderna logo em 1850; e depois, o modernismo, com os seus mínimos funcionais.


Fig. 04

(iv) Avançar numa construção tipológica, feita com um “espírito aberto”, e duplamente iniciada: seja na escala do fogo, e seguindo “para cima”; seja na escala da cidade/bairro, e seguindo “para baixo”. Construída com elementos de ligação, limiar, separação e transição e marcada por cada sítio “único”.

(v) Aprofundar a ligação entre densidade, convivialidade e forma urbana com escala humana e apropriável, numa cidade que não seja rígida e automóvel-dependente. Ao nível dos edifícios a apropriação cresce com a redução da dimensão do respectivo conjunto habitacional e urbano e do seu número de fogos, em soluções baixas, densificadas e com continuidade urbana; afinal aquilo que Henri Lefebvre qualifica como sendo desejado por muitos habitantes, e que é o unifamiliar num contexto colectivo, o espaço apropriável com as vantagens práticas e conviviais da vida social organizada.

(vi) Criar tipologias residenciais e urbanas verdadeiramente amigáveis, pois, tal como defende Jaime Lerner, a cidade tem de começar a ser novamente um sítio verdadeiramente amigável (Catarina Selada e Álvaro Santos, “O renascimento do papel das cidades”, Público - Economia, 5 Abril 2004.) E, para tal, uma das principais batalhas tem de ser travada na configuração e caracterização de tipologias residenciais e urbanas.

(vii) Ligar a habitação à vizinhança citadina, pois é muito mais motivador fazer, mais livremente, a ligação entre tipos de fogos e tipos de vizinhanças de proximidade, do que continuar a estar cativo de uma relativa ditadura de tipos de fogos, tipos de edifícios e tipos de vizinhanças, afinal, tal como escreveu Francisco de Gracia “a nova tipologia tende a ligar edifício e morfologia urbana numa fortíssima relação com o lugar unicum”.

(viii) E, por fim, a resposta doméstica deverá ser o desenvolvimento da adaptabilidade e da funcionalidade domésticas, e uma incorporação ponderada das inovações, mas não uma “casa do futuro” que seja, essencialmente, uma casa de “gadgets”
Fiz aqui um breve e imperfeito esboço temático sobre algumas matérias do habitar e sobre a utilidade que o conhecimento da história tem para o seu aprofundamento, desde que se vise uma qualidade do habitar ao serviço de uma cidade culta e uma cidade amiga de quem a habita; e para terminar esta reflexão cito uma recente afirmação de Leonardo Benevolo e Benno Albretch (2) que nos dizem que:
“Os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza.” E os autores apontam, depois, que “só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana, e ajuda a transformar o passado, de prisão ou labirinto, em horizonte aberto a novas criações.”
É isso, afinal, que há a ganhar com o encontro entre gentes da História e do Habitar, avançar um pouco numa perspectiva de transposição do passado num horizonte aberto a novas criações.
Sobre estas matérias que integram o rico e vital filão tipológico da História para o Habitar de hoje não é possível deixar aqui de sublinhar:
- a extraordinária obra de Norbert Schoenauer, “6.000 años de de hábitat: De los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidente” (refiro aqui uma edição espanhola de 1984 a edição original é de 1981 e julgo haver já uma outra edição no Brasil);
- e ainda nesta matéria também sublinho uma obra que terá passado, injustamente, um pouco desapercebida entre nós e que é o Atlas de Arquitectura (1 e 2), de Werner Müller e de Gunther Vogel, que teve uma última edição espanhola na Alianza Editorial, nos Alianza Atlas em 2002.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 1 de Novembro de 2007.
António Baptista Coelho
Edição por José Baptista Coelho, em 2 de Novembro de 2007.
Notas:
(1) Steen Eiler Rasmussen, “Arquitetura Vivenciada”, 1998 (1986), p.32.
(2) Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.