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domingo, março 04, 2012

Notas gerais sobre as origens da cidade e uma pequena introdução à cidade densa e quase sem ruas (i) - Infohabitar 383

Infohabitar, Ano VIII, n.º 383

Notas gerais sobre as origens da cidade e uma pequena introdução à cidade densa
e quase sem ruas (i)
António Baptista Coelho

A razão de ser básica da cidade terá sido a agregação de espaços do habitat humano e designadamente habitacionais, mas também a integração no habitar dos primeiros comércios, indústrias e serviços, com prováveis objectivos gerais e fundamentais de associação tendo em vista a defesa comum e provavelmente a ajuda mútua com sentidos diversos, para além da segurança/protecção.
 Esta protecção e ajuda mútuas baseavam-se, provavelmente, numa perspectiva de união ou de aliança estratégica face a um exterior envolvente ainda fortemente ocupado pela floresta e por um território em boa parte desconhecidos, e considerando-se a mais do que provável existência de frequentes bandos nómadas vivendo da pilhagem, aliás gradualmente estimulada pela própria geração e acumulação de riqueza que decorre da sedentarização; num ciclo contínuo de maior riqueza, maior risco, logo, maior necessidade de protecção e ajuda mútua.

Para além desta necessidade básica, funcional e humana, de segurança, a razão de ser básica da cidade fundamenta-se, talvez, em aspectos funcionais, como a troca de bens e serviços e, depois, no desenvolvimento específico da actividade comercial, mas também em matérias associadas à própria actividade convivial e cultural; uma actividade na qual há que destacar facetas como o estudo, o registo e o arquivo, a expressão artística diversificada, e mesmo as fundamentais e tão urbanas práticas lúdicas e recreativas – matérias que importará aprofundar noutros artigos.

Esta mudança entre o viver “sozinho” na floresta e da floresta e o conviver em companhia na nova pequena cidade corresponde a um evidente salto civilizacional na evolução do viver humano; um salto que hoje em dia revivemos a uma outra escala, quando passamos da cidade corrente à mega-cidade e à cidade-território.

Fig. 01: a floresta

Esta mudança entre o cenário sombrio e natural da floresta e o ambiente humanizado e artificial do novo mundo urbano, estará radicada na própria mistura diária e espacialmente concentrada (aspectos de densificação), que gera encontros e oportunidades frequentes, e parece poder ter decorrido, com naturalidade, de uma nova situação vivencial que começa a marcar as primeiras grandes aldeias e “esboços” cidades pós sedentarização.
 Os espaços urbanos recém inventados, caracterizam-se por uma crescente especialização do trabalho, pela geração de alguns excedentes, pela primeira possibilidade de algum eficaz anonimato/independência, e pela primeiras indústrias criativas (ex., dos colares de conchas ainda pré-cerâmicos, à invenção de uma cerâmica decorada); constituindo todos estes aspectos, razões de atracção de viajantes e comerciantes, num ciclo de desenvolvimento que fará estes primeiros povoados assumirem o papel de entrepostos de passagem e de apoio nos primeiros caminhos/rotas de viagem e mesmo de primeiros pólos comerciais,industriais e de serviços, gradualmente mais caracterizados, específicos e ricos.

E é interessante ponderar aqui, um pouco, a importância dessas indústrias criativas e dessa caracterização identitária e funcional de determinados centros urbanos primordiais como aspectos hoje em dia fundamentais neste ainda novo século das grandes cidades.

Importa, agora, registar que a razão de ser deste texto e de outros que serão elaborados sobre estas matérias, ultrapassa o sempre essencial gosto pelo estudo das raízes da urbanidade para se referir à procura, identificação e compreensão dessas origens como elementos que podem ser de grande utilidade na melhor (re)concepção dos espaços urbanos hoje existentes e designadamente na resolução dos problemas mais graves que aí hoje se colocam,bem como no aproveitamento das enormes potencialidades das grandes cidades e dos espaços urbanos, em geral, em termos de um melhor habitar, doméstico e público.

E, desde já, se comenta, considerar-se que esta matéria muito se liga ao desenvolvimento de uma densidade viva, agradável e estimulante, tanto em termos funcionais como formais,uma densidade em cujas situaçõe/soluções poderemos, talvez, encontrar caminhos úteis, porque muito humanos, para a nova grande cidade de hoje.

De uma forma geral podemos ainda registar que o início de um povoamento globalmente marcado/construído pelo homem, constitui uma acção que estrutura realmente o início do “habitar”, como “marcar e caracterizar” um dado sítio natural; numa humanização da paisagem natural, baseada no aproveitamento de um sítio privilegiado, provavelmente por diversas razões, como a proximidade de uma fonte de água doce, uma boa orientação solar, a existência de terra fértil e de madeira para construção e a relação com outros potenciais meios e fontes de riqueza, como pesqueiros, zonas de extracção de minério e locais estartégicos de contacto com viajantes comerciantes.

A referida humanização da paisagem natural para estabelecimento de um povoado primordial terá sido desenvolvida por regra, sem grande regra ou mesmo com regra nenhuma, numa agregação razoavelmente caótica de casas rudimentares, que foram evoluindo e crescendo e, sequencialmente, e se foram sobrepondo em camadas de vivências domésticas e urbanas.
 E não se resiste aqui a salientar que assim se evidencia o facto de na base da “cidade” estar “o habitar” e especificamente “a habitação” e uma habitação que realmente nos satisfaça, condição esta tão frequentemente “esquecida”: hoje em dia e desde os desvarios “maquinais” e cegamente funcionalistas de meados do século passado.
 Mas mesmo essa quase “nenhuma regra” que terá baseado a densificação do habitar urbano primordial teria bases de concepção embebidas, pois aqui encontramos fequentemente a agregação de habitações rectangulares, muito mais mutuamente imbricáveis do que as cabanas redondas ou arredondadas, que, provavelmente, constituíram a regra do abrigo/habitação ao longo do milhão de anos anterior.




Fig. 02: o abrigo

Importa, agora, fazer um pequeno enquadramento, referindo que estamos aqui a considerar um início de urbanidade que aconteceu “ontem”, porque há, apenas, cerca de 20.000 anos (pequena aldeia) a 10.000 anos atrás (grande aldeia/”cidade”).

E sublinha-se esta extrema juventude do mundo urbano – matéria à qual voltaremos em artigos desta “série” – porque: (i) há, actualmente, registos de um primeiro abrigo ou habitat feito pelo homem há dois milhões de anos na garganta de Olduvai na África Central (e lembra-se que o uso do fogo remonta há cerca de três milhões de anos); e (ii) na zona de Nice foram encontrados vestígios com cerca de meio milhão de anos de uma espécie de tenda dentro de uma gruta, enquanto ainda em Nice, em Terra Amata, se encontraram evidências com cerca de 400.000 anos de uma cabana arredondada com cerca de 8m por 4m, feita de pedras, na base, e de troncos cruzados uns nos outros, tendo uma zona de fogueira/lareira no interior.
 Salienta-se, assim, ter-se desenvolvido uma solução doméstica associada a um povoamento disperso, que terá sido usada durante um impressionante período de cerca de um milhão de anos – e a quem se interesse por estas matérias recomenda-se o seguinte excelente e ilustrado site, intitulado "Stone Age Habitats", criado por W.J.Kowalski em 1997 e em seguida referido:
http://www.afghanchamber.com/history/stoneages.htm

Temos assim dois marcos (pré)históricos e históricos em termos da história da cidade e do habitar:

(i) há cerca de 500.000 anos a criação de um abrigo/cabana estruturado e que terá sido usado num povoamento disperso e relativamente nómada, pois as famílias alargadas iam mudando ou “rodando” entre zonas à medida que estas eram totalmente exploradas em termos de caça, frutos e outros meios de subsistência;

(ii) e talvez à cerca de 25.000, o desenvolvimento das primeiras pequenas povoações neolíticas ligadas à revolução do sedentarismo, da produção agrícola, da criação de animais e do desenvolvimento da cerâmica; uma revolução que terá, provavelmente, raízes mais longínquas, em esboços de povoados que iam também “rodando” entre diversas localizações à medida que os terrenos agrícolas próximos se esgotavam e a respectiva floresta mais próxima era esvaziada dos seus recursos naturais.
 E temos aqui, também uma outra data – sempre de referência, naturalmente – , que importa reter e que se liga ao desenvolvimento da expressão artística, uma matéria que, tal como todas as outras neste artigo, tratamos como sincero amador, mas que consideramos central na evolução e na passagem do habitar disperso para o habitar urbano.
 Sobre este assunto apaixonante limitamo-nos a referir, citando Benevolo e Albretch (obra referida na bibliografia, p. 17) que: “Os achados mais antigos – os depósitos africanos de ocra amarela e vermelha (de há 350.000 -400.000 anos), as pedras inglesas (amigdalóides) lascadas de modo a respeitar as imagens dos fósseis nelas incorporados (de há 250.000 anos) – comprovam a atenção e o interesse em conservar formas e cores insólitas.” E lembremos a coincidência destas datas com o desenvolvimento dos primeiros abrigos claramente estruturados pelo homem.
 Continuando este assunto e citando a mesma página dos mesmos autores, regista-se que: “As primeiras imagens mentais colocadas num suporte – as incisões em forma de losangos feitas em pequenos blocos de ocra encontrados em 1999 perto da Cidade do cabo, datadas de há 77.000 anos – parecem, pelo contrário, de natureza abstracta.”
 Comentamos, aqui, que, na altura, a evolução humana estaria a desenvolver-se já com uma dinâmica muito acrescida, e eventualmente apoiada em formas de habitar e povoamento mais complexas/ricas.

E são ainda os mesmos autores, na mesma obra (pp. 17 a 19), que referem que: “Outras imagens mais recentes (de há 40.000 anos para cá) evocam um modelo fixando de alguma maneira as linhas da sua presença física: os sulcos traçados com os dedos na argila mole, as marcas de mãos em positivo e em negativo encontradas em muitos lugares distantes entre si. Mas imediatamente depois, quando se dá o distanciamento entre a imagem e o modelo, surge a possibilidade de reproduzir, através de formações bidimensionais e tridimensionais, todo o universo dos objectos animados e inanimados. A função destas imagens pode apenas ser conjecturada, mas é secundária. Aquilo que conta é a possibilidade de captar a forma de uma realidade já passada, e de passar de uma forma imaginada a uma nova realidade ainda não existente. A partir desse momento, as evoluções do pensamento concentram-se no ambiente físico, tornando-se operantes no presente e no futuro. Nasce o projecto como ainda hoje o entendemos, …”
 E atente-se que estamos aqui então já sobre as primeiras datas associadas aos primeiros povoados, e numa altura em que, sublinha-se, a criação artística atingiu o nível de uma verdadeira excelência, atestada, por exemplo, na gruta de Chauvet Pont d'Arc, no Sul de França, na qual foram descobertos, em 1994, em excelente estado de conservação, mais de 400 representações de animais, muitas delas caracterizadas por uma extraordinária mestria pictórica e datadas algumas delas de há 36.000 anos.
 Julga-se importante esta referência pois o sentido artístico terá tudo a ver, tal como é atrás referido com recurso a Benevolo e Albretch, com as aptidões para se irem projectando e arquitectando as mais diversas e inovadoras soluções de melhoria da vida diária, geracional e eventualmente comunitária/associativa, entre as quais as ligadas a uma perspectiva de abrigo e de vida em comum, numa evolução e retroacção de conhecimentos e de práticas que, depois, passados cerca de 25.000 anos, e em condições optimizadas de clima e de paisagem natural, no antigo Próximo Oriente, terão proporcionado a gradual "invenção" da povoação/cidade.


Fig. 03: a povoação/cidade

Chegamos, então, a um período, há cerca de 10.000 anos, e a um amplo território fértil e climaticamente agradável, nesse antigo Próximo Oriente, entre as actuais Anatólia e Palestina, bem como, pouco tempo depois, nos aluviões dos rios Tigre e Eufrates, que proporcionaram o desenvolvimento das primeiras grandes povoações humanas, entre as quais se destacam Çatalhöyük, um pouco mais a Norte na Anatólia, e a bíblica Jericó, ainda hoje habitada na Palestina e onde no Neolítico foi descoberta uma importante nascente.
 Passamos então de uma longa tradição de grandes abrigos, com carácter relativamente provisório e dispersos e isolados uns dos outros, adequados a uma vida de caçadores e recolectores, que poderiam ter já animais domésticos e uma prática agrícola com carácter rudimentar, para uma concentração de pequenas casas com carácter definitivo, em sítios estrategicamente localizados e associados à revolução neolítica marcada por um leque de novas actividades, entre as quais uma agricultura mais especializada, organizada e intensiva, uma pesca igualmente estruturada, a criação de animais e toda uma série de outras actividades associadas; sendo que a já referida capacidade criativa, evidenciada na expressão artística, terá, sem dúvida, proporcionado um “projectar mínimo” razoavelmente espontâneo da “nova cidade”.
 Uma nova cidade, ou uma “primeira cidade”feita de casas, “caoticamente” agregadas, uma matéria que tentaremos desenvolver em outro artigo, mas sobre a qual juntamos, desde já, a referência a como era Çatalhöyük há cerca de 10.000 anos – retirada de elementos obtidos em várias fontes, com destaque para uma obra sobre o assunto referida no excelente site, de D. I. Loizos, intitulado "Human Prehistory: An Exhibition", cuja referência se junta: http://users.hol.gr/~dilos/prehis/prerm5.htm

Junta-se, ainda, a referência a um site dedicado à actual intervenção neste sítio arqueológico, intitulado "Çatalhöyük Excavations of a Neolithic Anatolian Höyük": http://www.catalhoyuk.com/mission.html

Çatalhöyük estendia-se por cerca de 13 hectares, os seus habitantes cultivavam o trigo e outros cereais, complementando a sua alimentação com frutas variadas recolhidas localmente e com carne disponibilizada por criação de animais e também pela caça. Era necessário importar boa parte dos materiais usados numa diversificada produção artesanal (ex., obsidiana, cobre, conchas) e a “cidade” tornou-se um importante centro de trocas/comércio, produzindo e comerciando, por exemplo, pontas de flecha, adagas de pedra e obsidiana, martelos de pedra, figurinhas de pedra, texteis e vasos de madeira e cerâmicos e pequenos objectos metálicos de joalharia.

Tal como é indicado na fonte atrás apontada e na bibliografia referida no final do texto, as casas em Çatalhöyük estavam mutuamente agregadas de forma muito densificada, sem o recurso a ruas, e o acesso aos interiores domésticos era feito por escadas de madeira e a partir das respectivas coberturas planas.
 As casas eram feitas de blocos de tijolo secos ao Sol e integravam, por vezes, vários compartimentos o maior dos quais tinha cerca de 4x5m. O principal compartimento, que era o único compartimento em boa parte das habitações, tinha bancos e plataformas feitos na própria alvenaria, incluindo uma bancada para cozinhar e sob algumas das plataformas repousavam os despojos dos antepassados, que assim continuavam a “viver” em família; e refira-se, a propósito, que, na altura, a esperança de vida média era de 34 anos para os homens e de 29 para as mulheres (cf. boa parte destes elementos em Past Worlds, The Times Atlas of Archaeology - N. York, Crescent Books, 1995, pp. 82-83, citado no site, de D. I. Loizos, acima apontado).
 Num próximo artigo tentaremos reflectir especificamente sobre a realidade global de uma “primeira cidade” sem ruas, constituída por um espaço urbano super-densificado onde se passava de certo modo do mundo doméstico para a quase-envolvente da cidade, ou, eventualmente, para pequenos espaços comuns ou públicos e talvez quase residuais, que fariam algum tipo de transição para o espaço desprotegido e exterior a este grande habitat/cidade.

Tentaremos também desenvolver, num próximo artigo, algumas notas sobre como se pode imaginar como essa realidade de um espaço urbano super-densificado terá evoluído para a nossa, hoje já velha, cidade das ruelas e das pracetas à escala humana, a tal cidade ainda expressivamente densificada, que hoje precisamos de resgatar e fazer reviver e onde talvez possamos encontrar os necessários apoios para redensificar de forma sustentável os nossos actuais mundos urbanos e o nosso novo e desconhecido grande mundo urbano, que marca amplos territórios.
 Bibliografia básica (e em desenvolvimento):

. D. I. Loizos - Human Prehistory: An Exhibition, em: http://users.hol.gr/~dilos/prehis/prerm5.htm
. Leonardo Benevolo; Benno Albrecht – As Origens da Arquitectura. Lisboa, Edições 70, col. Arte & Comunicação, n.º 82, 2003 (2002).
. The Friends of Çatalhöyük and the Çatalhöyük Research Project - Çatalhöyük Excavations of a Neolithic Anatolian Höyük", Londres, University College, Institute of Archaeology, Catalhoyuk Research Project, em
http://www.catalhoyuk.com/mission.html
. V. Gordon Childe – A Pré-história da Sociedade Europeia. Mem Martins, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 43, 1974 (1957).
. V. Gordon Childe – Introdução à Arqueologia. Lisboa, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 48, 1961.
. W.J.Kowalski - Stone Age Habitats". 1997, em:
http://www.afghanchamber.com/history/stoneages.htm

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
(iv) Para ser possível a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens - é usado o Photobucket; onde, devido ao grande número de imagens, se torna difícil registar as respectivas autorias. Desta forma salienta-se que, caso se pretenda usar essas imagens, se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as respectivas autorias são registadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor abc@lnec.pt

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Notas gerais sobre as origens da cidade e uma pequena introdução à cidade densa e quase sem ruas (i)
Infohabitar n.º 383, 4 de Março de 2012

sexta-feira, novembro 02, 2007

Relação entre o Habitar e a História I - Infohabitar 167

 - Infohabitar 167

Relação entre o Habitar e a História

I

Prólogo:
Edita-se hoje no Infohabitar um pequeno texto sobre a fundamental e tantas vezes desprezada relação entre o Habitar e a História, um texto informal e informalmente ilustrado, que apenas quer inaugurar uma linha editorial nesta temática e lembra-se que esta edição se faz na sequência da 1ª Visita Alargada do Grupo Habitar (GH), realizada com a fundamental cooperação da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, em 12 e 13 de Outubro de 2007, intitulada “O Habitar e História I”, e depois de se ter feito, há cerca de uma semana, também aqui no Infohabitar, o relato informal da extraordinária sessão em que se teve a oportunidade de acompanhar 50.000 anos de história do nosso habitar, em Portugal, através das intervenções dos historiadores e investigadores, Armando Coelho, Lino Tavares Dias e Mário Varela Gomes, ao que se seguiu uma visita pormenorizada e comentada à Citânia de Sanfins.

Sobre a importância da relação entre o Habitar e a História: uma primeira reflexão informal (que muito se gostaria que pudesse ajudar a despoletar outros textos)
António Baptista Coelho
O habitar europeu de hoje, neste início de novo século, tão globalizado, é um habitar sedento de adequadas raízes históricas e culturais e sedento de uma inovação fundamentada; e sobre esta matéria aponto, de seguida e muito brevemente, algumas ideias, sublinhando, desde já, que aqui se considera o habitar com o sentido verdadeiro que vai da sala de estar de cada um, às ruas do nosso bairro e à praça da cidade que é de todos.
Muitos autores estão a convergir em matérias que têm a ver com os assuntos ligados a uma arquitectura caracterizada e viva, seja na matéria do “lugar” seja na matéria das raízes históricas, temas estes bem conjugados em novas e velhas cidades plenas de interesse urbano e de uma vitalidade habitacional bem disseminada e diversificada. Um interesse que até paga, cada vez mais, em termos da chamada indústria cultural.

Fig. 01

Outro aspecto a considerar é que para se desenvolverem uma habitação e um espaço urbano humanizados, que é provavelmente aquilo de que hoje urgentemente precisamos, muito se retira do estudo da história do habitar, em geral, e especificamente da história das tipologias do habitar, designadamente, nas relações entre níveis físicos, entre interior e exterior, e entre habitação, vizinhança e cidade. O caminho poderá ser, assim, o da procura de uma tipologia formal e funcionalmente rica, que seja historicamente consistente, caracterizada por uma perspectiva por um lado extremamente ligada à prática dos habitares e dos sítios habitados, e, por outro lado, muito “construtiva ou orgânica”, solta de preconceitos, mas que integre a experiência da história do habitar.
Sobre estas matérias Escreveu Steen Eiler Rasmussen, na sua “Arquitetura vivenciada” (1), que “só o homem constrói habitações que variam de acordo com requisitos, clima e padrão cultural... ele também avança no jogo da caverna, para métodos cada vez mais refinados de espaços fechados. Pouco a pouco ele empenha-se em dar forma a tudo o que o cerca.”

Fig. 02
E talvez que no agressivo e acelerado mundo de hoje devamos reinventar soluções de protecção e de reforço da individualidade e do sossego vicinal e familiar pois, hoje, os inimigos estão dentro dos muros da cidade; e, no mundo de hoje, onde imperam o individualismo e a falta de oportunidades de convívio, esses caminhos de autodefesa têm de ser muito desenvolvidos com muitos cuidados, pois não podem passar por um autista enclausuramento em recintos exclusivos, anti-cívicos e socialmente estéreis. Há, portanto que (re)inventar soluções que aliem individualidade, sossego, convívio e cidade; e conhecer a história do habitar e da cidade é fundamental nesse (re)inventar de soluções.
Portanto, devemos interiorizar que não podemos saber lidar com o tecido urbano das mega-cidades, em boa parte marcadas pela massificação e pela desumanização. Mas não podemos ficar reféns de uma tal realidade, devemos usá-la no sentido da sistemática aplicação de um conhecimento gradualmente consolidado, duvidando sistemática e sabiamente de falsos profetas cheios de certezas; e temos de aprender constantemente com a prática e com tudo aquilo que pudermos apurar dessa pequena história urbana e do habitar – desde os aspectos mais estruturais aos mais formais e ligados à imagem urbana.
E aqui, por exemplo devemos ter presente a verdadeira magia que se vive, tantas vezes, em velhos bairros, onde as estreitas vielas são determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada; e a pequena rua era e é, assim, directamente referida à escala do homem – a rua ligada à “presença ampliada do homem”, como escreve Rudolf Arnheim. Hoje tudo é bem diferente pois devido às crescentes exigências dos sistemas de transportes a relação espacial entre edifícios e ruas alterou-se; mas será esta uma fatalidade? Será que não é possível reaplicar e, de algum modo, reinventar a relação entre os vitalizadores acessos aos edifícios e os eixos de continuidade urbana?
Nos muitos séculos de cidade pré-industrial o elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas.

Fig. 03
Importa, assim, considerar a(s) história(s) da evolução do habitar (n)a cidade e repensá-la(s) na cidade de hoje, que em muitos casos começa a ser pós-industrial. E nesta forma de pensar e de actuar não faz, evidentemente, qualquer sentido apostar em “tábuas rasas”, quando há informação útil referida a casos tipológicos alguns com muitas centenas e mesmo milhares de anos de vivência e outros, os mais inovadores, com aplicações feitas já praticamente durante um período de cerca de 100 anos. Mas nesta forma de pensar e actuar também não faz sentido optar por inovações pouco coerentes porque mal fundamentadas, pois estamos a avançar em matérias vitais para a cidade habitada e para o verdadeiro bem-estar dos cidadãos.


(i) O “filão” tipológico tem de ser considerado de uma forma completa e historicamente coerente, pensa-se, naturalmente em vizinhanças próximas completas que respondam bem a amplos leques de necessidades habitacionais e urbanas.

(ii) Considerar um futuro marcado por grande diversidade de soluções domésticas e urbanas pormenorizadas; o que tem potenciais vantagens para a visada apropriação e a humanização das soluções de habitar.

(iii) Ter presente quer as necessidades humanas mudam mais superficialmente do que pode parecer, encontrando-se exemplos históricos de tipologias e morfologias habitacionais, que podem ter oportunidade nos dias de hoje. Um exemplo é dado pela “casa urbana oriental” , estruturada por pátios, uma solução com mais de 6.000 anos ainda usada em muitas cidades da Ásia, África e América do Sul; um outro exemplo, este no interior da casa, refere-se às “engenheiras domésticas” que estruturaram muitos dos aspectos da funcionalidade da casa moderna logo em 1850; e depois, o modernismo, com os seus mínimos funcionais.

Fig. 04

(iv) Avançar numa construção tipológica, feita com um “espírito aberto”, e duplamente iniciada: seja na escala do fogo, e seguindo “para cima”; seja na escala da cidade/bairro, e seguindo “para baixo”. Construída com elementos de ligação, limiar, separação e transição e marcada por cada sítio “único”.

(v) Aprofundar a ligação entre densidade, convivialidade e forma urbana com escala humana e apropriável, numa cidade que não seja rígida e automóvel-dependente. Ao nível dos edifícios a apropriação cresce com a redução da dimensão do respectivo conjunto habitacional e urbano e do seu número de fogos, em soluções baixas, densificadas e com continuidade urbana; afinal aquilo que Henri Lefebvre qualifica como sendo desejado por muitos habitantes, e que é o unifamiliar num contexto colectivo, o espaço apropriável com as vantagens práticas e conviviais da vida social organizada.

(vi) Criar tipologias residenciais e urbanas verdadeiramente amigáveis, pois, tal como defende Jaime Lerner, a cidade tem de começar a ser novamente um sítio verdadeiramente amigável (Catarina Selada e Álvaro Santos, “O renascimento do papel das cidades”, Público - Economia, 5 Abril 2004.) E, para tal, uma das principais batalhas tem de ser travada na configuração e caracterização de tipologias residenciais e urbanas.

(vii) Ligar a habitação à vizinhança citadina, pois é muito mais motivador fazer, mais livremente, a ligação entre tipos de fogos e tipos de vizinhanças de proximidade, do que continuar a estar cativo de uma relativa ditadura de tipos de fogos, tipos de edifícios e tipos de vizinhanças, afinal, tal como escreveu Francisco de Gracia “a nova tipologia tende a ligar edifício e morfologia urbana numa fortíssima relação com o lugar unicum”.

(viii) E, por fim, a resposta doméstica deverá ser o desenvolvimento da adaptabilidade e da funcionalidade domésticas, e uma incorporação ponderada das inovações, mas não uma “casa do futuro” que seja, essencialmente, uma casa de “gadgets”
Fiz aqui um breve e imperfeito esboço temático sobre algumas matérias do habitar e sobre a utilidade que o conhecimento da história tem para o seu aprofundamento, desde que se vise uma qualidade do habitar ao serviço de uma cidade culta e uma cidade amiga de quem a habita; e para terminar esta reflexão cito uma recente afirmação de Leonardo Benevolo e Benno Albretch (2) que nos dizem que:
“Os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza.” E os autores apontam, depois, que “só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana, e ajuda a transformar o passado, de prisão ou labirinto, em horizonte aberto a novas criações.”
É isso, afinal, que há a ganhar com o encontro entre gentes da História e do Habitar, avançar um pouco numa perspectiva de transposição do passado num horizonte aberto a novas criações.
Sobre estas matérias que integram o rico e vital filão tipológico da História para o Habitar de hoje não é possível deixar aqui de sublinhar:
- a extraordinária obra de Norbert Schoenauer, “6.000 años de de hábitat: De los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidente” (refiro aqui uma edição espanhola de 1984 a edição original é de 1981 e julgo haver já uma outra edição no Brasil);
- e ainda nesta matéria também sublinho uma obra que terá passado, injustamente, um pouco desapercebida entre nós e que é o Atlas de Arquitectura (1 e 2), de Werner Müller e de Gunther Vogel, que teve uma última edição espanhola na Alianza Editorial, nos Alianza Atlas em 2002.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 1 de Novembro de 2007.
António Baptista Coelho
Edição por José Baptista Coelho, em 2 de Novembro de 2007.
Notas:
(1) Steen Eiler Rasmussen, “Arquitetura Vivenciada”, 1998 (1986), p.32.
(2) Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.