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domingo, abril 01, 2012

387 - Notas gerais sobre as origens da cidade (ii): quando a rua desceu dos tectos das casas que faziam uma cidade densa - Infohabitar 387

Infohabitar Ano VIII, n.º 387

Notas gerais sobre as origens da cidade (ii): quando a rua desceu dos tectos das casas que faziam uma cidade densa
António Baptista Coelho

Notas prévias
Neste segundo artigo, que aborda as origens da cidade, perspectivando a relação dessa origem com a construção de uma cidade densificada e quase sem ruas, ou com “pequenas” ruas, ou humanizados espaços públicos (matéria esta a desenvolver em outros artigos desta série), faz-se, como nota prévia, a referência ao reduzido conhecimento que o autor destas linhas tem sobre estas matérias, testemunhando-se que muito do que aqui se refere estará muito melhor apontado e justificado em obras especializadas de pré-historiadores e arqueólogos.

E desde já e considerando-se o que acabou de ser apontado, se apresentam desculpas aos leitores por eventuais imperfeições e mesmo erros que possam constar ou decorrer das reflexões feitas nos artigos desta série. Vamos tentar, naturalmente, evitá-los ao máximo, sendo que os objectivos fundamentais destes textos são dois: despertar o interesse por uma matéria verdadeiramente apaixonante e ainda em claro desenvolvimento e que se refere ao perceber melhor a “invenção da cidade”; e procurar retirar, cuidadosamente, destas reflexões algumas ideias úteis e oportunas para o novo século das grandes cidades, dos centros urbanos multiétnicos e da vital redescoberta de uma (re)densificação vitalizadora e potencialmente responsável pelo resgate de um renovado interesse habitacional, funcional, cultural e lúdico com que podemos e devemos reinvestir os nossos espaços urbanos.

Ainda como nota prévia sublinha-se que, mais do que discutir a noção de “invenção” da cidade, talvez fizesse mais sentido referirmo-nos ao estudo do desenvolvimento da idéia de povoado, referido, por exemplo, à excelente definição de “sítio em que habita gente” (retirado do “Novo Dicionário da Língua Portuguêsa – para os estudantes e para o povo”, de Francisco Torrinha, Domingos Barreira Editor, Livraria Simões Lopes, Porto, 1945).

Mas, afinal, a discussão do sentido de “cidade” e de como ele se desenvolve, tem ela própria uma vibração especial, que sintetiza muitos dos aspectos que nos movem nestas reflexões, designadamente, a consideração da relação entre espaços domésticos e públicos e aprópria natureza destes últimos, tendo em conta que as povoações terão nascido, provavelmente, de grupos de famílias alargadas e mutuamente ligadas, sendo que, assim, se poderá considerar que o próprio espaço exterior aos mundos domésticos teria essencialmente um sentido de espaço comum; pelo menos até que a povoação atingisse uma dimensão urbana mais significativa.


 Fig. 01
 
Alguns aspectos a considerar na origem da cidade e do "habitar em companhia"
Voltando um pouco atrás nestas reflexões e para tentar fundamentá-las melhor e perspectivas eventuais evoluções domésticas e urbanas alternativas, referem-se, em seguida, sinteticamente, alguns aspectos considerados importantes nas matérias ligadas a uma possível sequência de acontecimentos e desenvolvimentos que parecem ter estado na origem da cidade e do habitar em companhia/grupo:
  • A melhoria das condições climáticas, que aconteceu depois de uma última pequena glaciação, proporcionou excelentes capacidades de crescimento de ricas e diversificadas flora e fauna, designadamente, no chamado “Crescente Fértil”, uma ampla região que se estendia do delta do Nilo ao actual Kuwait, no Golgo Pérsico, atravessando os actuais Israel, Palestina, Jordânia, Síria, Sul da Turquia, Iraque e parte do Irão.
  • Esta situação terá proporcionado o desenvolvimento de uma tendência de sedentarização por acréscimo de recursos e de alimentação na proximidade das famílias alargadas, reduzindo-lhes a necessidade de se deslocarem quase em continuidade, como acontecia até então, para se ir renovando o cenário de sustento natural em termos de caça/pesca, recolecção e mesmo primeiros aproveitamentos agrícolas das “versões”/selvagens de alguns cereais e gramíneas comestíveis.
  • A tendência de sedentarização parece ter surgido, assim, não directamente, ou pelo menos exclusivamente, associada à designada invenção neolítica da agricultura e à associada domesticação e criação de animais, situação que é reforçada pela recente descoberta de um extraordinário “santuário” megalítico, cujas funções específicas se desconhecem, mas que parece poder ter congregado reuniões de uma grande população de caçadores/recolectores.
  • Este edifício/construção, foi encontrado na actual Síria, em Göbekli Tepe, e terá cerca de 11.000 anos (7000 anos anterior a Stonehenge), e é actualmente considerado como o primeiro verdadeiro “edifício público” da história humana – e já agora e a título meramente suplementar não é possível deixar de referir que esta extraordinária infraestrutura não terá, tido, provavelmente um objectivo estritamente funcional.
  • Sublinha-se que este “santuário” tem uma estrutura construtiva extremamente elaborada, conplexa e com grande extensão, integrando enorme pedras talhadas em “T”, com três a cinco metros de altura, várias toneladas de peso e marcadas por belíssimos relevos esculpidos de animais, constituindo uma obra que terá demorado várias gerações humanas a ser concçuída e que obrigou ao esforço conjunto de cerca de 500 pessoas – os tais caçadores e recolectores nómadas.
    E continuando a nossa reflexão temos assim um primeiro “edifício” humano que não está associado a nenhuma povoação específica que tenha sido encontrada nesse local até agora, e que antecedeu em cerca de 1000 anos o desenvolvimento dos primeiros povoados mais significativos (até agora conhecidos).
  • Uma possibilidade será que a sedentarização tenha começado a ocorrer, ainda em conjugação com a caça/pesca e a apanha de frutas e plantas diversas, naturalmente, a partir do referido acréscimo de fertilidade da natureza envolvente, e que, sequencialmente, a própria fixação das pessoas e o associado crescimento demográfico – era difícil haver muitas crianças quando as famílias estavam em constante movimento –, tenha levado a um crescimento das necessidades de alimentação e outras associadas à vida diária; e, portanto, que este contexto diversificado (ambiental, social e mesmo de engenho humano), tenha levado à referida “invenção” de uma actividade agrícola e de pastorícia gradualmente mais organizadas e dinamizadas.
  • E assim se inicia, de certa forma, um ciclo sem fim: (i) de necessidades, gradual e naturalmente acrescidas/enriquecidas; e (ii) de trabalho, gradualmente mais intenso, para satisfazer essas necessidades. Um ciclo que, por sua vez, ia gerando necessidades de mais mão-de-obra e, portanto, de maior concentração/densificação e cooperação humana, numa perspectiva de desenvolvimento socioeconómico e proto-urbano que o próprio engenho humano logo se terá encarregado de fazer crescer.
  • De certa forma podemos dizer que o homem, levado pela própria riqueza da natureza, terá, assim, terminado um seu estádio de algum equilíbrio entre necessidades diárias e formas de as satisfazer (quem sabe simbolizadas um pouco na figura do Paraíso), e inventou um processo sem-fim de mais necessidades, mais produção, mais exigências, mais excedentes, maior diversificação de actividades, maior criatividade, mais problemas ou novos problemas, etc., etc.

Fig. 02

  • Naturalmente que a tecnologia da construção de abrigos/casas foi acompanhando a evolução referida, e, assim, provavelmente, (i) dos primeiros agrupamentos de famílias alargadas abrigadas em casas/cabanas redondas ou ovais feitas de madeira e/ou terra batida, e dispondo, frequentemente, de embasamentos em pedra, passa-se, a certa altura, (ii) para edifícios com plantas rectangulares, tornados possíveis pela invenção de estruturas de alvenaria portante com cantos ortogonais reforçados.
  • Estas novas casas rectangulares são mais adequadas do que as anteriores arrendondadas, tanto em termos de subdivisão interna, como considerando a sua agregação urbana. Em termos da sua divisão interna as casas rectangulares e realizadas em pequenos elementos de terra argilosa seca ao sol, proporcionam a sua divisão em espaços relativamente modulados (normalmente a partir da dimensão normal dos troncos de árvores usados na construção das coberturas); em termos de agregação proporcionam a sua associação mútua em conjuntos coesos, densos e imbricados de pequenos edifícios, alguns até já com dois pisos. E assim se desenvolveram as ferramentas para constituição de povoados com alguma concentração e dimensão.
  • Voltando à questão da designada “invenção” neolítica da agricultura (selecção/domesticação de plantas encontradas na natureza, como o trigo) e da domesticação e criação de animais (o cão, a cabra), os especialistas consideram, actualmente, que ela poderá ter sido posterior à própria sedentarização, e, quem sabe, possa talvez ter-se desenvolvido numa reacção de procura dos meios de sobrevivência acrescidos, que são necessários a maiores concentrações humanas. Uma situação que poderá ajudar a explicar que a “invenção” da rua terá sido posterior à do conglomerado de habitações e outros edifícios que integram as primeiras grandes povoações conhecidas; pois enquanto o homem se deslocava, com relativa facilidade, através dos terraços/coberturas dos conjuntos imbricados das primeiras povoações, podendo, a partir desses terraços, aceder por escadas ao interior das habitações; não havia já essa facilidade, seja no transporte das mais diversas mercadorias e instrumentos associados à agricultura, seja na circulação e na guarda dos primeiros pequenos rebanhos.
  • No entanto, outros pré-historiadores e arqueólogos referem um outro caminho alternativo e racional no processo de sedentarização/urbanização, apontando que teria sido o próprio desenvolvimento da agricultura e as suas exigentes necessidades de transporte de bens e utensílios (ex., grandes cestos e recipientes de barro cheios de sementes), que terão levado os nossos antepassados a fixarem-se mais na vizinhança dos respectivos campos, levando ao desenvolvimento dos primeiros espaços ditos urbanos.
  • Provavelmente a verdade estará numa mistura de relações de causa-efeito, associadas a situações locais e regionais específicas. E sobre esta matéria é interessante lembrar que, por exemplo, a evolução neolítica na Europa foi bastante distinta e muito tardia relativamente ao que aconteceu no Crescente Fértil; uma zona do mundo que, na prática, marcou tanto nas primeiras povoações, como depois, passados cerca de 4.000 ou mesmo 5.000 anos, na promoção, concepção e desenvolvimento das primeiras verdadeiras cidades.
Mas interessa ainda aqui comentar que, por essa altura, há cerca de 10.000 anos, na parte do mundo cujo clima e fertilidade ajudaram nesta primeira revolução civilizacional, tínhamos então algumas pequenas “cidades” super-densificadas, ou até povoados onde a densidade não tinha propriamente razão de ser considerada, pois, na prática, haveria apenas uma “grande casa” feita de casas e abrigos privados, rodeada de eventuais florestas e de alguns campos e orlas de cultivo e pastorícia, espaços estes que talvez cumprissem, em parte, a função de espaço partilhado e público; sendo “a cidade feita apenas de casas” uma espécie de reinvenção humana do próprio cenário denso, multiforme e natural/selvagem da “floresta” (termo que é aqui referido, essencialmente, à ideia de espaço natural desconhecido ou pelo menos pouco conhecido e sempre perigoso).


Fig. 03

E foi assim que, nesta fase inicial da história do habitar e da cidade, neste conglomerado orgânico e relativamente caótico de pequenas casas, a circulação comum ou pública se fez pelas respectivas coberturas em terraços, numa solução natural, quando associada a um quadro físico de edifícios mútua, multilateral e densamente encostados e mesmo imbricados uns nos outros. Uma solução espontânea de agregação e de acessibilidades, também excelente em termos de segurança face ao exterior ainda provavelmente muito bravio e desconhecido, pois facilmente as escadas móveis de acesso eram retiradas ou colocadas, consoante as necessidades do momento (ex., acesso rápido, bloqueio de acesso). E é interessante registar que por esta altura, talvez há cerca de 10.000 anos, até a religião, ou o sagrado e o mistério, “morava” nestas casas acedidas por cima, pela cobertura, e “morava” em perquenas casas como as outras, sendo apenas o recheio específico da actividade de “culto” (culto cuja natureza naturalmente é muito difícil de conhecer), e até os familiares mortos continuavam a habitar com os vivos nas suas velhas casas – e assim foi em Çatal Huyuk, na actual Turquia, talvez durante mais de 1000 anos. E é bem interesante sublinhar que as casas de Çatal Huyuk e de outras primeiras povoações tinham pinturas nas paredes, não sendo portanto apenas abrigos funcionais.

Podemos então considerar que, no princípio da invenção do espaço urbano, referido a um conjunto de casas/fogos/famílias, acontecia que, de certa forma, a casa de cada um era a unidade básica e exclusiva da povoação, sendo o espaço de uso comum ou público provavelmente residual; e, numa primeira fase da vida urbana, “em companhia”, este espaço talvez mais comum do que público, estava, em boa parte, sobreposto aos espaços domésticos, como que numa leitura dupla do agregado urbano primordial e no que podemos comentar ter sido uma “modernidade” nunca verdadeiramente igualada no futuro das cidades.

Retomando a nossa principal sequência de reflexão, neste texto, podemos salientar que, provavelmente, ao longo de muitas centenas de anos e de inúmeros ciclos de construção e reconstrução, terá provavelmente acontecido que, no estrato superior e relativamente contínuo constituído pelas coberturas dessa “cidade feita apenas de casas”, a troca e o convívio terão transbordado os muros e os compartimentos domésticos (casas constituídas, frequentemente, por um único espaço amplo) e passado a ter uma faceta mais comum e, talvez, tanto mais “pública” e espacialmente exigente, quanto maior era a povoação.

Caberá ainda aqui considerar que a essa referida e relativa continuidade de coberturas, ao serviço de usos comuns/públicos, se terão associado, gradual e naturalmente, alguns outros terraços e, provavelmente, alguns outros espaços (residuais?), que foram sendo deixados entre os edifícios e construções.

Nesta perspectiva, um outro aspecto que convém ter em conta refere-se ao uso nas habitações de uma tecnologia construtiva que obrigaria, devido ao seu carácter pouco durável – elementos de terra cota portantes, estruturas de madeira e outros elementos com origem natural (vimes e folhas) - a frequentes acções de reabilitação e mesmo de reconstrução, numa sequência de desenvolvimento da massa edificada urbana que, naturalmente, iria proporcionando evoluções em extensão, criação de espaços vazios residuais ou estratégicos (deixados por exemplo pelo abandono ou colapso de determinados edifícios), e a estruturação de novas relações de acessibilidade.

Ciando-se, assim, um processo de desenvolvimento urbano que, associado às referidas novas/emergentes necessidades de trânsito de mercadorias e animais domésticos, terá começado a gerar continuidades de espaços comuns/públicos térreos mais eficazes, estruturadas com as acessibilidades ao exterior destas primeiras povoações e, simultânea e gradualmente, marcadas por preocupações de controlo do acesso a partir do exterior do povoado – um povado que, imagina-se, estaria a ficar gradualmente mais próspero e, portanto, sujeito a maior cobiça por parte de pessoas estranhas e exteriores à respectiva comunidade.

Esta é uma evolução sempre difícil de acompanhar pois as muitas centenas de anos passadas não deixaram grandes vestígios na alvenaria de terra/tijolo seca ao Sol, mas uma evolução do espaço de convívio, ou pelo menos do espaço partilhado e comum, que podemos imaginar terá começado ela própria a solicitar o maior desenvolvimento desses primeiros espaços de uso público, talvez também por conta de crescentes exigências comerciais e industriais associadas ao próprio desenvolvimento de actividades agrícolas e de pastorícia mais estruturadas, assim como ligadas à circulação de forasteiros comerciantes e ao gradual e natural desenvolvimento dos primeiros mercados.


Fig. 04

De certa forma o convívio e a troca tarão, assim, transbordado do mundo doméstico para um mundo comum/público, primeiro, quase inexistente, forçando, provavelmente ao crescimento específico deste último mundo, que acabou, talvez, por ir convivendo “entre” espaços específicos do habitar, numa natural descida ao plano térreo do povoado, que talvez tenha razões funcionais e decorra do espaço a mais que vai sendo conquistado à envolvente natural e que se vai sedimentando entre crescimentos de novos edifícios, talvez eles próprios gradualmente mais especializados.

E lembra-se que o outro aspecto a considerar em tudo isto, poderá referir-se ao uso de animais domesticados e talvez, gradualmente, de maior dimensão, associados, primeiro, simplesmente à pastorícia,mas também, depois, gradualmente ao transporte de bens, ao comércio e à viagem; quem sabe numa primeira revolução urbana dos transportes, que terá trazido a vida das povoações para o solo e terá dado origem à abertura das primeiras continuidades de espaços públicos nas primeiras agregações multiformes e densas de casas, muros e outras construções.

E aqui alvez tenha nascido a primeira vontade de ordenar/urbanizar, numa reacção natural ao mais que provável desordenamento da “jovem cidade”, caracterizada, provavelmente, por uma desordem ou “caos” inicial, revelado pouco funcional e gerador de novos problemas (por exemplo de saúde e de insegurança, associados a maiores concentrações humanas em espaços tendenciamente reduzidos e mesmo mais “fechados”).

E já que se referiu um relativo “caos” urbano inicial, que é matéria interessante a abordar noutras oportunidades, importa entreabrir, apenas, uma nova frente de reflexão ligada à arte, a arte que os nossos antepassados traziam consigo há mais de vinte mil anos, e com a qual “habitaram/marcaram” as cavernas e, depois, as paredes das primeiras casas, numa necessidade ou numa vontade de expressão que muito ultrapassa as razões funcionais e que, provavelmente, foi ferramenta básica da posterior reflexão sobre o tão jovem espaço urbano, prestes a ser (re)ordenado pela primeira vez na história do homem.

Perdoem-me os especialistas nestas áreas, mas parece ser uma evolução racional/sentimental, e uma evolução na qual o papel da cerâmica decorada/marcada terá tido provavelmente grande importância, talvez quase num sentido de possível representação e miniaturização daquela nova realidade urbana; matérias de grande interesse e que foram já abordadas por muitos autores.

Retomando o passar, aqui tão sintetizado, de muitos séculos na sequência deste desenvolvimento habitacional e urbano primordial, podemos considerar que depois, depois provavelmente talvez se tenham desenvolvido iniciativas de “ordenamento”, que talvez não devam ser restringidas aos últimos milénios da história humana, pois quem em Chauvet pintava e desenhava ao mais alto nível da técnica e da concepção, teria sem dúvida a capacidade e o suplemento de alma adequados ao desenvolvimento de uma ideia de cidade, que tinha então de passar, como vários milénios depois, pelo desafogar do espaço de uso colectivo ou público, um desafogar até facilitado pela própria autonomia unitária e exterior/interior da casa pátio, que desde sempre integrou boa parte das grandes cidades orientais e norte-africanas.


Fig. 05

E assim se terão criado as bases primordiais dos impasses/becos, das ruelas e das ruas, mais os seus respectivos alargamentos em “largos”, pracetas e praças...

E assim chegamos à cidade que vive, basicamente, das/nas suas ruas e restantes espaços públicos, e vários autores urbanistas referem mesmo que a rua decorre teórica e directamente da escala física e funcional do homem e das suas actividades urbanas correntes, retomando-se, assim, a origem da rua e da cidade.

E assim se pode redescobrir e dar sentido profundo à forma histórica de se fazer cidade, tal como aponta Rudolf Arnheim (1), quando defende que «… o desfiladeiro da rua é o reino da presença ampliada do homem, sendo por isso apreendido como forma …», citando, depois, Heide Berndt, quando esta autora aponta que «… a rede de ruas, estreita e relativamente confusa, era funcionalmente apropriada a ruas que só serviam para dar acesso aos edifícios. Poucas ruas eram largas o suficiente para permitir a passagem de veículos. O elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas. As estreitas vielas eram determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada.. .» Mas «… na era industrial a relação espacial entre edifícios e ruas altera-se. Com as crescentes exigências dos sistemas de transportes, as ruas tornam-se mais importantes que a disposição dos edifícios na determinação do plano geral da cidade e do centro desta.»

E ficamos, para já, neste série editorial, sobre as origens da cidade e a introdução à cidade densa e quase sem ruas, nesta fase do desenvolvimento urbano, em que muitas ruas se “autonomizaram”, de certa forma, da sua promordial relação com os respectivos edifícios, num esquecimento talvez crítico de uma fundamental necessidade do homem urbano, sintetizada por Elias Canetti, quando refere que (2) : «para nos sentirmos confiantes numa cidade estranha precisamos de um espaço fechado sobre o qual exerçamos um certo direito e onde possamos estar sós... . Nada, como desaparecer num beco sem saída, nada como ficar parado diante de um portão, do qual guardamos a chave no bolso... . Entramos na frescura da casa. Fechamos o portão atrás de nós. Está escuro e por instantes nada vemos... . Mas rapidamente recuperamos a visão. Avistamos então as escadas de pedra que conduzem ao andar de cima, e onde encontramos um gato. Gato que incarna o silêncio pelo qual ansiávamos. E ficamos-lhe gratos por estar assim tão silenciosamente vivo.”

Nota complementar e Páscoas Felizes:
E será, muito provavelmente, com esta mesma citação que retomaremos esta série editorial sobre a origem das cidades, após a Páscoa.

E aproveita-se para desejar uma Páscoa Feliz e em família a todos os leitores, da parte do Grupo Habitar, da edição do Infohabitar e do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC.
E desde já se refere que no próprio Domingo de Páscoa o Infohabitar editará, com todo o gosto, mais um conto do seu colaborador Adriano Rosa, intitulado "O homem que não morreu".

Notas do artigo:

(1) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitetónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p. 70.

(2) Citação de Elias Canetti, em “As vozes de Marraquexe – Notas de uma viagem”, Lisboa, Publicações Dom Quixote, trad. Isabel Ramalho, 1991 (1988), p. 43 e 44

Bibliografia básica do artigo e da série editorial (e em desenvolvimento):

. AAVV - Les Cahiers de Science & Vie - Les Racines du Monde: Aux Origines du Sacré et des dieux, n.º 124 Aout-Septembre 2011.

. D. I. Loizos - Human Prehistory: An Exhibition, em: http://users.hol.gr/~dilos/prehis/prerm5.htm

. Leonardo Benevolo; Benno Albrecht – As Origens da Arquitectura. Lisboa, Edições 70, col. Arte & Comunicação, n.º 82, 2003 (2002).

. The Friends of Çatalhöyük and the Çatalhöyük Research Project - Çatalhöyük Excavations of a Neolithic Anatolian Höyük", Londres, University College, Institute of Archaeology, Catalhoyuk Research Project, em


. V. Gordon Childe – A Pré-história da Sociedade Europeia. Mem Martins, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 43, 1974 (1957).

. V. Gordon Childe – Introdução à Arqueologia. Lisboa, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 48, 1961.

 . W.J.Kowalski - Stone Age Habitats". 1997, em:


Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.

(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.

(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

Infohabitar n.º 387

domingo, março 04, 2012

383 - Notas gerais sobre as origens da cidade e uma pequena introdução à cidade densa e quase sem ruas (i) - Infohabitar 383

Infohabitar, Ano VIII, n.º 383

Notas gerais sobre as origens da cidade e uma pequena introdução à cidade densa
e quase sem ruas (i)
António Baptista Coelho

A razão de ser básica da cidade terá sido a agregação de espaços do habitat humano e designadamente habitacionais, mas também a integração no habitar dos primeiros comércios, indústrias e serviços, com prováveis objectivos gerais e fundamentais de associação tendo em vista a defesa comum e provavelmente a ajuda mútua com sentidos diversos, para além da segurança/protecção.
 Esta protecção e ajuda mútuas baseavam-se, provavelmente, numa perspectiva de união ou de aliança estratégica face a um exterior envolvente ainda fortemente ocupado pela floresta e por um território em boa parte desconhecidos, e considerando-se a mais do que provável existência de frequentes bandos nómadas vivendo da pilhagem, aliás gradualmente estimulada pela própria geração e acumulação de riqueza que decorre da sedentarização; num ciclo contínuo de maior riqueza, maior risco, logo, maior necessidade de protecção e ajuda mútua.

Para além desta necessidade básica, funcional e humana, de segurança, a razão de ser básica da cidade fundamenta-se, talvez, em aspectos funcionais, como a troca de bens e serviços e, depois, no desenvolvimento específico da actividade comercial, mas também em matérias associadas à própria actividade convivial e cultural; uma actividade na qual há que destacar facetas como o estudo, o registo e o arquivo, a expressão artística diversificada, e mesmo as fundamentais e tão urbanas práticas lúdicas e recreativas – matérias que importará aprofundar noutros artigos.

Esta mudança entre o viver “sozinho” na floresta e da floresta e o conviver em companhia na nova pequena cidade corresponde a um evidente salto civilizacional na evolução do viver humano; um salto que hoje em dia revivemos a uma outra escala, quando passamos da cidade corrente à mega-cidade e à cidade-território.


Fig. 01: a floresta

Esta mudança entre o cenário sombrio e natural da floresta e o ambiente humanizado e artificial do novo mundo urbano, estará radicada na própria mistura diária e espacialmente concentrada (aspectos de densificação), que gera encontros e oportunidades frequentes, e parece poder ter decorrido, com naturalidade, de uma nova situação vivencial que começa a marcar as primeiras grandes aldeias e “esboços” cidades pós sedentarização.
 Os espaços urbanos recém inventados, caracterizam-se por uma crescente especialização do trabalho, pela geração de alguns excedentes, pela primeira possibilidade de algum eficaz anonimato/independência, e pela primeiras indústrias criativas (ex., dos colares de conchas ainda pré-cerâmicos, à invenção de uma cerâmica decorada); constituindo todos estes aspectos, razões de atracção de viajantes e comerciantes, num ciclo de desenvolvimento que fará estes primeiros povoados assumirem o papel de entrepostos de passagem e de apoio nos primeiros caminhos/rotas de viagem e mesmo de primeiros pólos comerciais,industriais e de serviços, gradualmente mais caracterizados, específicos e ricos.

E é interessante ponderar aqui, um pouco, a importância dessas indústrias criativas e dessa caracterização identitária e funcional de determinados centros urbanos primordiais como aspectos hoje em dia fundamentais neste ainda novo século das grandes cidades.

Importa, agora, registar que a razão de ser deste texto e de outros que serão elaborados sobre estas matérias, ultrapassa o sempre essencial gosto pelo estudo das raízes da urbanidade para se referir à procura, identificação e compreensão dessas origens como elementos que podem ser de grande utilidade na melhor (re)concepção dos espaços urbanos hoje existentes e designadamente na resolução dos problemas mais graves que aí hoje se colocam,bem como no aproveitamento das enormes potencialidades das grandes cidades e dos espaços urbanos, em geral, em termos de um melhor habitar, doméstico e público.

E, desde já, se comenta, considerar-se que esta matéria muito se liga ao desenvolvimento de uma densidade viva, agradável e estimulante, tanto em termos funcionais como formais,uma densidade em cujas situaçõe/soluções poderemos, talvez, encontrar caminhos úteis, porque muito humanos, para a nova grande cidade de hoje.

De uma forma geral podemos ainda registar que o início de um povoamento globalmente marcado/construído pelo homem, constitui uma acção que estrutura realmente o início do “habitar”, como “marcar e caracterizar” um dado sítio natural; numa humanização da paisagem natural, baseada no aproveitamento de um sítio privilegiado, provavelmente por diversas razões, como a proximidade de uma fonte de água doce, uma boa orientação solar, a existência de terra fértil e de madeira para construção e a relação com outros potenciais meios e fontes de riqueza, como pesqueiros, zonas de extracção de minério e locais estartégicos de contacto com viajantes comerciantes.

A referida humanização da paisagem natural para estabelecimento de um povoado primordial terá sido desenvolvida por regra, sem grande regra ou mesmo com regra nenhuma, numa agregação razoavelmente caótica de casas rudimentares, que foram evoluindo e crescendo e, sequencialmente, e se foram sobrepondo em camadas de vivências domésticas e urbanas.
 E não se resiste aqui a salientar que assim se evidencia o facto de na base da “cidade” estar “o habitar” e especificamente “a habitação” e uma habitação que realmente nos satisfaça, condição esta tão frequentemente “esquecida”: hoje em dia e desde os desvarios “maquinais” e cegamente funcionalistas de meados do século passado.
 Mas mesmo essa quase “nenhuma regra” que terá baseado a densificação do habitar urbano primordial teria bases de concepção embebidas, pois aqui encontramos fequentemente a agregação de habitações rectangulares, muito mais mutuamente imbricáveis do que as cabanas redondas ou arredondadas, que, provavelmente, constituíram a regra do abrigo/habitação ao longo do milhão de anos anterior.




Fig. 02: o abrigo

Importa, agora, fazer um pequeno enquadramento, referindo que estamos aqui a considerar um início de urbanidade que aconteceu “ontem”, porque há, apenas, cerca de 20.000 anos (pequena aldeia) a 10.000 anos atrás (grande aldeia/”cidade”).

E sublinha-se esta extrema juventude do mundo urbano – matéria à qual voltaremos em artigos desta “série” – porque: (i) há, actualmente, registos de um primeiro abrigo ou habitat feito pelo homem há dois milhões de anos na garganta de Olduvai na África Central (e lembra-se que o uso do fogo remonta há cerca de três milhões de anos); e (ii) na zona de Nice foram encontrados vestígios com cerca de meio milhão de anos de uma espécie de tenda dentro de uma gruta, enquanto ainda em Nice, em Terra Amata, se encontraram evidências com cerca de 400.000 anos de uma cabana arredondada com cerca de 8m por 4m, feita de pedras, na base, e de troncos cruzados uns nos outros, tendo uma zona de fogueira/lareira no interior.
 Salienta-se, assim, ter-se desenvolvido uma solução doméstica associada a um povoamento disperso, que terá sido usada durante um impressionante período de cerca de um milhão de anos – e a quem se interesse por estas matérias recomenda-se o seguinte excelente e ilustrado site, intitulado "Stone Age Habitats", criado por W.J.Kowalski em 1997 e em seguida referido:
http://www.afghanchamber.com/history/stoneages.htm

Temos assim dois marcos (pré)históricos e históricos em termos da história da cidade e do habitar:

(i) há cerca de 500.000 anos a criação de um abrigo/cabana estruturado e que terá sido usado num povoamento disperso e relativamente nómada, pois as famílias alargadas iam mudando ou “rodando” entre zonas à medida que estas eram totalmente exploradas em termos de caça, frutos e outros meios de subsistência;

(ii) e talvez à cerca de 25.000, o desenvolvimento das primeiras pequenas povoações neolíticas ligadas à revolução do sedentarismo, da produção agrícola, da criação de animais e do desenvolvimento da cerâmica; uma revolução que terá, provavelmente, raízes mais longínquas, em esboços de povoados que iam também “rodando” entre diversas localizações à medida que os terrenos agrícolas próximos se esgotavam e a respectiva floresta mais próxima era esvaziada dos seus recursos naturais.
 E temos aqui, também uma outra data – sempre de referência, naturalmente – , que importa reter e que se liga ao desenvolvimento da expressão artística, uma matéria que, tal como todas as outras neste artigo, tratamos como sincero amador, mas que consideramos central na evolução e na passagem do habitar disperso para o habitar urbano.
 Sobre este assunto apaixonante limitamo-nos a referir, citando Benevolo e Albretch (obra referida na bibliografia, p. 17) que: “Os achados mais antigos – os depósitos africanos de ocra amarela e vermelha (de há 350.000 -400.000 anos), as pedras inglesas (amigdalóides) lascadas de modo a respeitar as imagens dos fósseis nelas incorporados (de há 250.000 anos) – comprovam a atenção e o interesse em conservar formas e cores insólitas.” E lembremos a coincidência destas datas com o desenvolvimento dos primeiros abrigos claramente estruturados pelo homem.
 Continuando este assunto e citando a mesma página dos mesmos autores, regista-se que: “As primeiras imagens mentais colocadas num suporte – as incisões em forma de losangos feitas em pequenos blocos de ocra encontrados em 1999 perto da Cidade do cabo, datadas de há 77.000 anos – parecem, pelo contrário, de natureza abstracta.”
 Comentamos, aqui, que, na altura, a evolução humana estaria a desenvolver-se já com uma dinâmica muito acrescida, e eventualmente apoiada em formas de habitar e povoamento mais complexas/ricas.

E são ainda os mesmos autores, na mesma obra (pp. 17 a 19), que referem que: “Outras imagens mais recentes (de há 40.000 anos para cá) evocam um modelo fixando de alguma maneira as linhas da sua presença física: os sulcos traçados com os dedos na argila mole, as marcas de mãos em positivo e em negativo encontradas em muitos lugares distantes entre si. Mas imediatamente depois, quando se dá o distanciamento entre a imagem e o modelo, surge a possibilidade de reproduzir, através de formações bidimensionais e tridimensionais, todo o universo dos objectos animados e inanimados. A função destas imagens pode apenas ser conjecturada, mas é secundária. Aquilo que conta é a possibilidade de captar a forma de uma realidade já passada, e de passar de uma forma imaginada a uma nova realidade ainda não existente. A partir desse momento, as evoluções do pensamento concentram-se no ambiente físico, tornando-se operantes no presente e no futuro. Nasce o projecto como ainda hoje o entendemos, …”
 E atente-se que estamos aqui então já sobre as primeiras datas associadas aos primeiros povoados, e numa altura em que, sublinha-se, a criação artística atingiu o nível de uma verdadeira excelência, atestada, por exemplo, na gruta de Chauvet Pont d'Arc, no Sul de França, na qual foram descobertos, em 1994, em excelente estado de conservação, mais de 400 representações de animais, muitas delas caracterizadas por uma extraordinária mestria pictórica e datadas algumas delas de há 36.000 anos.
 Julga-se importante esta referência pois o sentido artístico terá tudo a ver, tal como é atrás referido com recurso a Benevolo e Albretch, com as aptidões para se irem projectando e arquitectando as mais diversas e inovadoras soluções de melhoria da vida diária, geracional e eventualmente comunitária/associativa, entre as quais as ligadas a uma perspectiva de abrigo e de vida em comum, numa evolução e retroacção de conhecimentos e de práticas que, depois, passados cerca de 25.000 anos, e em condições optimizadas de clima e de paisagem natural, no antigo Próximo Oriente, terão proporcionado a gradual "invenção" da povoação/cidade.



Fig. 03: a povoação/cidade

Chegamos, então, a um período, há cerca de 10.000 anos, e a um amplo território fértil e climaticamente agradável, nesse antigo Próximo Oriente, entre as actuais Anatólia e Palestina, bem como, pouco tempo depois, nos aluviões dos rios Tigre e Eufrates, que proporcionaram o desenvolvimento das primeiras grandes povoações humanas, entre as quais se destacam Çatalhöyük, um pouco mais a Norte na Anatólia, e a bíblica Jericó, ainda hoje habitada na Palestina e onde no Neolítico foi descoberta uma importante nascente.
 Passamos então de uma longa tradição de grandes abrigos, com carácter relativamente provisório e dispersos e isolados uns dos outros, adequados a uma vida de caçadores e recolectores, que poderiam ter já animais domésticos e uma prática agrícola com carácter rudimentar, para uma concentração de pequenas casas com carácter definitivo, em sítios estrategicamente localizados e associados à revolução neolítica marcada por um leque de novas actividades, entre as quais uma agricultura mais especializada, organizada e intensiva, uma pesca igualmente estruturada, a criação de animais e toda uma série de outras actividades associadas; sendo que a já referida capacidade criativa, evidenciada na expressão artística, terá, sem dúvida, proporcionado um “projectar mínimo” razoavelmente espontâneo da “nova cidade”.
 Uma nova cidade, ou uma “primeira cidade”feita de casas, “caoticamente” agregadas, uma matéria que tentaremos desenvolver em outro artigo, mas sobre a qual juntamos, desde já, a referência a como era Çatalhöyük há cerca de 10.000 anos – retirada de elementos obtidos em várias fontes, com destaque para uma obra sobre o assunto referida no excelente site, de D. I. Loizos, intitulado "Human Prehistory: An Exhibition", cuja referência se junta: http://users.hol.gr/~dilos/prehis/prerm5.htm

Junta-se, ainda, a referência a um site dedicado à actual intervenção neste sítio arqueológico, intitulado "Çatalhöyük Excavations of a Neolithic Anatolian Höyük": http://www.catalhoyuk.com/mission.html

Çatalhöyük estendia-se por cerca de 13 hectares, os seus habitantes cultivavam o trigo e outros cereais, complementando a sua alimentação com frutas variadas recolhidas localmente e com carne disponibilizada por criação de animais e também pela caça. Era necessário importar boa parte dos materiais usados numa diversificada produção artesanal (ex., obsidiana, cobre, conchas) e a “cidade” tornou-se um importante centro de trocas/comércio, produzindo e comerciando, por exemplo, pontas de flecha, adagas de pedra e obsidiana, martelos de pedra, figurinhas de pedra, texteis e vasos de madeira e cerâmicos e pequenos objectos metálicos de joalharia.

Tal como é indicado na fonte atrás apontada e na bibliografia referida no final do texto, as casas em Çatalhöyük estavam mutuamente agregadas de forma muito densificada, sem o recurso a ruas, e o acesso aos interiores domésticos era feito por escadas de madeira e a partir das respectivas coberturas planas.
 As casas eram feitas de blocos de tijolo secos ao Sol e integravam, por vezes, vários compartimentos o maior dos quais tinha cerca de 4x5m. O principal compartimento, que era o único compartimento em boa parte das habitações, tinha bancos e plataformas feitos na própria alvenaria, incluindo uma bancada para cozinhar e sob algumas das plataformas repousavam os despojos dos antepassados, que assim continuavam a “viver” em família; e refira-se, a propósito, que, na altura, a esperança de vida média era de 34 anos para os homens e de 29 para as mulheres (cf. boa parte destes elementos em Past Worlds, The Times Atlas of Archaeology - N. York, Crescent Books, 1995, pp. 82-83, citado no site, de D. I. Loizos, acima apontado).
 Num próximo artigo tentaremos reflectir especificamente sobre a realidade global de uma “primeira cidade” sem ruas, constituída por um espaço urbano super-densificado onde se passava de certo modo do mundo doméstico para a quase-envolvente da cidade, ou, eventualmente, para pequenos espaços comuns ou públicos e talvez quase residuais, que fariam algum tipo de transição para o espaço desprotegido e exterior a este grande habitat/cidade.

Tentaremos também desenvolver, num próximo artigo, algumas notas sobre como se pode imaginar como essa realidade de um espaço urbano super-densificado terá evoluído para a nossa, hoje já velha, cidade das ruelas e das pracetas à escala humana, a tal cidade ainda expressivamente densificada, que hoje precisamos de resgatar e fazer reviver e onde talvez possamos encontrar os necessários apoios para redensificar de forma sustentável os nossos actuais mundos urbanos e o nosso novo e desconhecido grande mundo urbano, que marca amplos territórios.
 Bibliografia básica (e em desenvolvimento):

. D. I. Loizos - Human Prehistory: An Exhibition, em: http://users.hol.gr/~dilos/prehis/prerm5.htm

. Leonardo Benevolo; Benno Albrecht – As Origens da Arquitectura. Lisboa, Edições 70, col. Arte & Comunicação, n.º 82, 2003 (2002).
. The Friends of Çatalhöyük and the Çatalhöyük Research Project - Çatalhöyük Excavations of a Neolithic Anatolian Höyük", Londres, University College, Institute of Archaeology, Catalhoyuk Research Project, em
http://www.catalhoyuk.com/mission.html
. V. Gordon Childe – A Pré-história da Sociedade Europeia. Mem Martins, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 43, 1974 (1957).
. V. Gordon Childe – Introdução à Arqueologia. Lisboa, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 48, 1961.
. W.J.Kowalski - Stone Age Habitats". 1997, em:
http://www.afghanchamber.com/history/stoneages.htm


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Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Notas gerais sobre as origens da cidade e uma pequena introdução à cidade densa e quase sem ruas (i)
Infohabitar n.º 383, 4 de Março de 2012