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domingo, abril 01, 2012

387 - Notas gerais sobre as origens da cidade (ii): quando a rua desceu dos tectos das casas que faziam uma cidade densa - Infohabitar 387

Infohabitar Ano VIII, n.º 387

Notas gerais sobre as origens da cidade (ii): quando a rua desceu dos tectos das casas que faziam uma cidade densa
António Baptista Coelho

Notas prévias
Neste segundo artigo, que aborda as origens da cidade, perspectivando a relação dessa origem com a construção de uma cidade densificada e quase sem ruas, ou com “pequenas” ruas, ou humanizados espaços públicos (matéria esta a desenvolver em outros artigos desta série), faz-se, como nota prévia, a referência ao reduzido conhecimento que o autor destas linhas tem sobre estas matérias, testemunhando-se que muito do que aqui se refere estará muito melhor apontado e justificado em obras especializadas de pré-historiadores e arqueólogos.

E desde já e considerando-se o que acabou de ser apontado, se apresentam desculpas aos leitores por eventuais imperfeições e mesmo erros que possam constar ou decorrer das reflexões feitas nos artigos desta série. Vamos tentar, naturalmente, evitá-los ao máximo, sendo que os objectivos fundamentais destes textos são dois: despertar o interesse por uma matéria verdadeiramente apaixonante e ainda em claro desenvolvimento e que se refere ao perceber melhor a “invenção da cidade”; e procurar retirar, cuidadosamente, destas reflexões algumas ideias úteis e oportunas para o novo século das grandes cidades, dos centros urbanos multiétnicos e da vital redescoberta de uma (re)densificação vitalizadora e potencialmente responsável pelo resgate de um renovado interesse habitacional, funcional, cultural e lúdico com que podemos e devemos reinvestir os nossos espaços urbanos.

Ainda como nota prévia sublinha-se que, mais do que discutir a noção de “invenção” da cidade, talvez fizesse mais sentido referirmo-nos ao estudo do desenvolvimento da idéia de povoado, referido, por exemplo, à excelente definição de “sítio em que habita gente” (retirado do “Novo Dicionário da Língua Portuguêsa – para os estudantes e para o povo”, de Francisco Torrinha, Domingos Barreira Editor, Livraria Simões Lopes, Porto, 1945).

Mas, afinal, a discussão do sentido de “cidade” e de como ele se desenvolve, tem ela própria uma vibração especial, que sintetiza muitos dos aspectos que nos movem nestas reflexões, designadamente, a consideração da relação entre espaços domésticos e públicos e aprópria natureza destes últimos, tendo em conta que as povoações terão nascido, provavelmente, de grupos de famílias alargadas e mutuamente ligadas, sendo que, assim, se poderá considerar que o próprio espaço exterior aos mundos domésticos teria essencialmente um sentido de espaço comum; pelo menos até que a povoação atingisse uma dimensão urbana mais significativa.


 Fig. 01
 
Alguns aspectos a considerar na origem da cidade e do "habitar em companhia"
Voltando um pouco atrás nestas reflexões e para tentar fundamentá-las melhor e perspectivas eventuais evoluções domésticas e urbanas alternativas, referem-se, em seguida, sinteticamente, alguns aspectos considerados importantes nas matérias ligadas a uma possível sequência de acontecimentos e desenvolvimentos que parecem ter estado na origem da cidade e do habitar em companhia/grupo:
  • A melhoria das condições climáticas, que aconteceu depois de uma última pequena glaciação, proporcionou excelentes capacidades de crescimento de ricas e diversificadas flora e fauna, designadamente, no chamado “Crescente Fértil”, uma ampla região que se estendia do delta do Nilo ao actual Kuwait, no Golgo Pérsico, atravessando os actuais Israel, Palestina, Jordânia, Síria, Sul da Turquia, Iraque e parte do Irão.
  • Esta situação terá proporcionado o desenvolvimento de uma tendência de sedentarização por acréscimo de recursos e de alimentação na proximidade das famílias alargadas, reduzindo-lhes a necessidade de se deslocarem quase em continuidade, como acontecia até então, para se ir renovando o cenário de sustento natural em termos de caça/pesca, recolecção e mesmo primeiros aproveitamentos agrícolas das “versões”/selvagens de alguns cereais e gramíneas comestíveis.
  • A tendência de sedentarização parece ter surgido, assim, não directamente, ou pelo menos exclusivamente, associada à designada invenção neolítica da agricultura e à associada domesticação e criação de animais, situação que é reforçada pela recente descoberta de um extraordinário “santuário” megalítico, cujas funções específicas se desconhecem, mas que parece poder ter congregado reuniões de uma grande população de caçadores/recolectores.
  • Este edifício/construção, foi encontrado na actual Síria, em Göbekli Tepe, e terá cerca de 11.000 anos (7000 anos anterior a Stonehenge), e é actualmente considerado como o primeiro verdadeiro “edifício público” da história humana – e já agora e a título meramente suplementar não é possível deixar de referir que esta extraordinária infraestrutura não terá, tido, provavelmente um objectivo estritamente funcional.
  • Sublinha-se que este “santuário” tem uma estrutura construtiva extremamente elaborada, conplexa e com grande extensão, integrando enorme pedras talhadas em “T”, com três a cinco metros de altura, várias toneladas de peso e marcadas por belíssimos relevos esculpidos de animais, constituindo uma obra que terá demorado várias gerações humanas a ser concçuída e que obrigou ao esforço conjunto de cerca de 500 pessoas – os tais caçadores e recolectores nómadas.
    E continuando a nossa reflexão temos assim um primeiro “edifício” humano que não está associado a nenhuma povoação específica que tenha sido encontrada nesse local até agora, e que antecedeu em cerca de 1000 anos o desenvolvimento dos primeiros povoados mais significativos (até agora conhecidos).
  • Uma possibilidade será que a sedentarização tenha começado a ocorrer, ainda em conjugação com a caça/pesca e a apanha de frutas e plantas diversas, naturalmente, a partir do referido acréscimo de fertilidade da natureza envolvente, e que, sequencialmente, a própria fixação das pessoas e o associado crescimento demográfico – era difícil haver muitas crianças quando as famílias estavam em constante movimento –, tenha levado a um crescimento das necessidades de alimentação e outras associadas à vida diária; e, portanto, que este contexto diversificado (ambiental, social e mesmo de engenho humano), tenha levado à referida “invenção” de uma actividade agrícola e de pastorícia gradualmente mais organizadas e dinamizadas.
  • E assim se inicia, de certa forma, um ciclo sem fim: (i) de necessidades, gradual e naturalmente acrescidas/enriquecidas; e (ii) de trabalho, gradualmente mais intenso, para satisfazer essas necessidades. Um ciclo que, por sua vez, ia gerando necessidades de mais mão-de-obra e, portanto, de maior concentração/densificação e cooperação humana, numa perspectiva de desenvolvimento socioeconómico e proto-urbano que o próprio engenho humano logo se terá encarregado de fazer crescer.
  • De certa forma podemos dizer que o homem, levado pela própria riqueza da natureza, terá, assim, terminado um seu estádio de algum equilíbrio entre necessidades diárias e formas de as satisfazer (quem sabe simbolizadas um pouco na figura do Paraíso), e inventou um processo sem-fim de mais necessidades, mais produção, mais exigências, mais excedentes, maior diversificação de actividades, maior criatividade, mais problemas ou novos problemas, etc., etc.

Fig. 02

  • Naturalmente que a tecnologia da construção de abrigos/casas foi acompanhando a evolução referida, e, assim, provavelmente, (i) dos primeiros agrupamentos de famílias alargadas abrigadas em casas/cabanas redondas ou ovais feitas de madeira e/ou terra batida, e dispondo, frequentemente, de embasamentos em pedra, passa-se, a certa altura, (ii) para edifícios com plantas rectangulares, tornados possíveis pela invenção de estruturas de alvenaria portante com cantos ortogonais reforçados.
  • Estas novas casas rectangulares são mais adequadas do que as anteriores arrendondadas, tanto em termos de subdivisão interna, como considerando a sua agregação urbana. Em termos da sua divisão interna as casas rectangulares e realizadas em pequenos elementos de terra argilosa seca ao sol, proporcionam a sua divisão em espaços relativamente modulados (normalmente a partir da dimensão normal dos troncos de árvores usados na construção das coberturas); em termos de agregação proporcionam a sua associação mútua em conjuntos coesos, densos e imbricados de pequenos edifícios, alguns até já com dois pisos. E assim se desenvolveram as ferramentas para constituição de povoados com alguma concentração e dimensão.
  • Voltando à questão da designada “invenção” neolítica da agricultura (selecção/domesticação de plantas encontradas na natureza, como o trigo) e da domesticação e criação de animais (o cão, a cabra), os especialistas consideram, actualmente, que ela poderá ter sido posterior à própria sedentarização, e, quem sabe, possa talvez ter-se desenvolvido numa reacção de procura dos meios de sobrevivência acrescidos, que são necessários a maiores concentrações humanas. Uma situação que poderá ajudar a explicar que a “invenção” da rua terá sido posterior à do conglomerado de habitações e outros edifícios que integram as primeiras grandes povoações conhecidas; pois enquanto o homem se deslocava, com relativa facilidade, através dos terraços/coberturas dos conjuntos imbricados das primeiras povoações, podendo, a partir desses terraços, aceder por escadas ao interior das habitações; não havia já essa facilidade, seja no transporte das mais diversas mercadorias e instrumentos associados à agricultura, seja na circulação e na guarda dos primeiros pequenos rebanhos.
  • No entanto, outros pré-historiadores e arqueólogos referem um outro caminho alternativo e racional no processo de sedentarização/urbanização, apontando que teria sido o próprio desenvolvimento da agricultura e as suas exigentes necessidades de transporte de bens e utensílios (ex., grandes cestos e recipientes de barro cheios de sementes), que terão levado os nossos antepassados a fixarem-se mais na vizinhança dos respectivos campos, levando ao desenvolvimento dos primeiros espaços ditos urbanos.
  • Provavelmente a verdade estará numa mistura de relações de causa-efeito, associadas a situações locais e regionais específicas. E sobre esta matéria é interessante lembrar que, por exemplo, a evolução neolítica na Europa foi bastante distinta e muito tardia relativamente ao que aconteceu no Crescente Fértil; uma zona do mundo que, na prática, marcou tanto nas primeiras povoações, como depois, passados cerca de 4.000 ou mesmo 5.000 anos, na promoção, concepção e desenvolvimento das primeiras verdadeiras cidades.
Mas interessa ainda aqui comentar que, por essa altura, há cerca de 10.000 anos, na parte do mundo cujo clima e fertilidade ajudaram nesta primeira revolução civilizacional, tínhamos então algumas pequenas “cidades” super-densificadas, ou até povoados onde a densidade não tinha propriamente razão de ser considerada, pois, na prática, haveria apenas uma “grande casa” feita de casas e abrigos privados, rodeada de eventuais florestas e de alguns campos e orlas de cultivo e pastorícia, espaços estes que talvez cumprissem, em parte, a função de espaço partilhado e público; sendo “a cidade feita apenas de casas” uma espécie de reinvenção humana do próprio cenário denso, multiforme e natural/selvagem da “floresta” (termo que é aqui referido, essencialmente, à ideia de espaço natural desconhecido ou pelo menos pouco conhecido e sempre perigoso).


Fig. 03

E foi assim que, nesta fase inicial da história do habitar e da cidade, neste conglomerado orgânico e relativamente caótico de pequenas casas, a circulação comum ou pública se fez pelas respectivas coberturas em terraços, numa solução natural, quando associada a um quadro físico de edifícios mútua, multilateral e densamente encostados e mesmo imbricados uns nos outros. Uma solução espontânea de agregação e de acessibilidades, também excelente em termos de segurança face ao exterior ainda provavelmente muito bravio e desconhecido, pois facilmente as escadas móveis de acesso eram retiradas ou colocadas, consoante as necessidades do momento (ex., acesso rápido, bloqueio de acesso). E é interessante registar que por esta altura, talvez há cerca de 10.000 anos, até a religião, ou o sagrado e o mistério, “morava” nestas casas acedidas por cima, pela cobertura, e “morava” em perquenas casas como as outras, sendo apenas o recheio específico da actividade de “culto” (culto cuja natureza naturalmente é muito difícil de conhecer), e até os familiares mortos continuavam a habitar com os vivos nas suas velhas casas – e assim foi em Çatal Huyuk, na actual Turquia, talvez durante mais de 1000 anos. E é bem interesante sublinhar que as casas de Çatal Huyuk e de outras primeiras povoações tinham pinturas nas paredes, não sendo portanto apenas abrigos funcionais.

Podemos então considerar que, no princípio da invenção do espaço urbano, referido a um conjunto de casas/fogos/famílias, acontecia que, de certa forma, a casa de cada um era a unidade básica e exclusiva da povoação, sendo o espaço de uso comum ou público provavelmente residual; e, numa primeira fase da vida urbana, “em companhia”, este espaço talvez mais comum do que público, estava, em boa parte, sobreposto aos espaços domésticos, como que numa leitura dupla do agregado urbano primordial e no que podemos comentar ter sido uma “modernidade” nunca verdadeiramente igualada no futuro das cidades.

Retomando a nossa principal sequência de reflexão, neste texto, podemos salientar que, provavelmente, ao longo de muitas centenas de anos e de inúmeros ciclos de construção e reconstrução, terá provavelmente acontecido que, no estrato superior e relativamente contínuo constituído pelas coberturas dessa “cidade feita apenas de casas”, a troca e o convívio terão transbordado os muros e os compartimentos domésticos (casas constituídas, frequentemente, por um único espaço amplo) e passado a ter uma faceta mais comum e, talvez, tanto mais “pública” e espacialmente exigente, quanto maior era a povoação.

Caberá ainda aqui considerar que a essa referida e relativa continuidade de coberturas, ao serviço de usos comuns/públicos, se terão associado, gradual e naturalmente, alguns outros terraços e, provavelmente, alguns outros espaços (residuais?), que foram sendo deixados entre os edifícios e construções.

Nesta perspectiva, um outro aspecto que convém ter em conta refere-se ao uso nas habitações de uma tecnologia construtiva que obrigaria, devido ao seu carácter pouco durável – elementos de terra cota portantes, estruturas de madeira e outros elementos com origem natural (vimes e folhas) - a frequentes acções de reabilitação e mesmo de reconstrução, numa sequência de desenvolvimento da massa edificada urbana que, naturalmente, iria proporcionando evoluções em extensão, criação de espaços vazios residuais ou estratégicos (deixados por exemplo pelo abandono ou colapso de determinados edifícios), e a estruturação de novas relações de acessibilidade.

Ciando-se, assim, um processo de desenvolvimento urbano que, associado às referidas novas/emergentes necessidades de trânsito de mercadorias e animais domésticos, terá começado a gerar continuidades de espaços comuns/públicos térreos mais eficazes, estruturadas com as acessibilidades ao exterior destas primeiras povoações e, simultânea e gradualmente, marcadas por preocupações de controlo do acesso a partir do exterior do povoado – um povado que, imagina-se, estaria a ficar gradualmente mais próspero e, portanto, sujeito a maior cobiça por parte de pessoas estranhas e exteriores à respectiva comunidade.

Esta é uma evolução sempre difícil de acompanhar pois as muitas centenas de anos passadas não deixaram grandes vestígios na alvenaria de terra/tijolo seca ao Sol, mas uma evolução do espaço de convívio, ou pelo menos do espaço partilhado e comum, que podemos imaginar terá começado ela própria a solicitar o maior desenvolvimento desses primeiros espaços de uso público, talvez também por conta de crescentes exigências comerciais e industriais associadas ao próprio desenvolvimento de actividades agrícolas e de pastorícia mais estruturadas, assim como ligadas à circulação de forasteiros comerciantes e ao gradual e natural desenvolvimento dos primeiros mercados.


Fig. 04

De certa forma o convívio e a troca tarão, assim, transbordado do mundo doméstico para um mundo comum/público, primeiro, quase inexistente, forçando, provavelmente ao crescimento específico deste último mundo, que acabou, talvez, por ir convivendo “entre” espaços específicos do habitar, numa natural descida ao plano térreo do povoado, que talvez tenha razões funcionais e decorra do espaço a mais que vai sendo conquistado à envolvente natural e que se vai sedimentando entre crescimentos de novos edifícios, talvez eles próprios gradualmente mais especializados.

E lembra-se que o outro aspecto a considerar em tudo isto, poderá referir-se ao uso de animais domesticados e talvez, gradualmente, de maior dimensão, associados, primeiro, simplesmente à pastorícia,mas também, depois, gradualmente ao transporte de bens, ao comércio e à viagem; quem sabe numa primeira revolução urbana dos transportes, que terá trazido a vida das povoações para o solo e terá dado origem à abertura das primeiras continuidades de espaços públicos nas primeiras agregações multiformes e densas de casas, muros e outras construções.

E aqui alvez tenha nascido a primeira vontade de ordenar/urbanizar, numa reacção natural ao mais que provável desordenamento da “jovem cidade”, caracterizada, provavelmente, por uma desordem ou “caos” inicial, revelado pouco funcional e gerador de novos problemas (por exemplo de saúde e de insegurança, associados a maiores concentrações humanas em espaços tendenciamente reduzidos e mesmo mais “fechados”).

E já que se referiu um relativo “caos” urbano inicial, que é matéria interessante a abordar noutras oportunidades, importa entreabrir, apenas, uma nova frente de reflexão ligada à arte, a arte que os nossos antepassados traziam consigo há mais de vinte mil anos, e com a qual “habitaram/marcaram” as cavernas e, depois, as paredes das primeiras casas, numa necessidade ou numa vontade de expressão que muito ultrapassa as razões funcionais e que, provavelmente, foi ferramenta básica da posterior reflexão sobre o tão jovem espaço urbano, prestes a ser (re)ordenado pela primeira vez na história do homem.

Perdoem-me os especialistas nestas áreas, mas parece ser uma evolução racional/sentimental, e uma evolução na qual o papel da cerâmica decorada/marcada terá tido provavelmente grande importância, talvez quase num sentido de possível representação e miniaturização daquela nova realidade urbana; matérias de grande interesse e que foram já abordadas por muitos autores.

Retomando o passar, aqui tão sintetizado, de muitos séculos na sequência deste desenvolvimento habitacional e urbano primordial, podemos considerar que depois, depois provavelmente talvez se tenham desenvolvido iniciativas de “ordenamento”, que talvez não devam ser restringidas aos últimos milénios da história humana, pois quem em Chauvet pintava e desenhava ao mais alto nível da técnica e da concepção, teria sem dúvida a capacidade e o suplemento de alma adequados ao desenvolvimento de uma ideia de cidade, que tinha então de passar, como vários milénios depois, pelo desafogar do espaço de uso colectivo ou público, um desafogar até facilitado pela própria autonomia unitária e exterior/interior da casa pátio, que desde sempre integrou boa parte das grandes cidades orientais e norte-africanas.


Fig. 05

E assim se terão criado as bases primordiais dos impasses/becos, das ruelas e das ruas, mais os seus respectivos alargamentos em “largos”, pracetas e praças...

E assim chegamos à cidade que vive, basicamente, das/nas suas ruas e restantes espaços públicos, e vários autores urbanistas referem mesmo que a rua decorre teórica e directamente da escala física e funcional do homem e das suas actividades urbanas correntes, retomando-se, assim, a origem da rua e da cidade.

E assim se pode redescobrir e dar sentido profundo à forma histórica de se fazer cidade, tal como aponta Rudolf Arnheim (1), quando defende que «… o desfiladeiro da rua é o reino da presença ampliada do homem, sendo por isso apreendido como forma …», citando, depois, Heide Berndt, quando esta autora aponta que «… a rede de ruas, estreita e relativamente confusa, era funcionalmente apropriada a ruas que só serviam para dar acesso aos edifícios. Poucas ruas eram largas o suficiente para permitir a passagem de veículos. O elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas. As estreitas vielas eram determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada.. .» Mas «… na era industrial a relação espacial entre edifícios e ruas altera-se. Com as crescentes exigências dos sistemas de transportes, as ruas tornam-se mais importantes que a disposição dos edifícios na determinação do plano geral da cidade e do centro desta.»

E ficamos, para já, neste série editorial, sobre as origens da cidade e a introdução à cidade densa e quase sem ruas, nesta fase do desenvolvimento urbano, em que muitas ruas se “autonomizaram”, de certa forma, da sua promordial relação com os respectivos edifícios, num esquecimento talvez crítico de uma fundamental necessidade do homem urbano, sintetizada por Elias Canetti, quando refere que (2) : «para nos sentirmos confiantes numa cidade estranha precisamos de um espaço fechado sobre o qual exerçamos um certo direito e onde possamos estar sós... . Nada, como desaparecer num beco sem saída, nada como ficar parado diante de um portão, do qual guardamos a chave no bolso... . Entramos na frescura da casa. Fechamos o portão atrás de nós. Está escuro e por instantes nada vemos... . Mas rapidamente recuperamos a visão. Avistamos então as escadas de pedra que conduzem ao andar de cima, e onde encontramos um gato. Gato que incarna o silêncio pelo qual ansiávamos. E ficamos-lhe gratos por estar assim tão silenciosamente vivo.”

Nota complementar e Páscoas Felizes:
E será, muito provavelmente, com esta mesma citação que retomaremos esta série editorial sobre a origem das cidades, após a Páscoa.

E aproveita-se para desejar uma Páscoa Feliz e em família a todos os leitores, da parte do Grupo Habitar, da edição do Infohabitar e do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC.
E desde já se refere que no próprio Domingo de Páscoa o Infohabitar editará, com todo o gosto, mais um conto do seu colaborador Adriano Rosa, intitulado "O homem que não morreu".

Notas do artigo:

(1) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitetónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p. 70.

(2) Citação de Elias Canetti, em “As vozes de Marraquexe – Notas de uma viagem”, Lisboa, Publicações Dom Quixote, trad. Isabel Ramalho, 1991 (1988), p. 43 e 44

Bibliografia básica do artigo e da série editorial (e em desenvolvimento):

. AAVV - Les Cahiers de Science & Vie - Les Racines du Monde: Aux Origines du Sacré et des dieux, n.º 124 Aout-Septembre 2011.

. D. I. Loizos - Human Prehistory: An Exhibition, em: http://users.hol.gr/~dilos/prehis/prerm5.htm

. Leonardo Benevolo; Benno Albrecht – As Origens da Arquitectura. Lisboa, Edições 70, col. Arte & Comunicação, n.º 82, 2003 (2002).

. The Friends of Çatalhöyük and the Çatalhöyük Research Project - Çatalhöyük Excavations of a Neolithic Anatolian Höyük", Londres, University College, Institute of Archaeology, Catalhoyuk Research Project, em


. V. Gordon Childe – A Pré-história da Sociedade Europeia. Mem Martins, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 43, 1974 (1957).

. V. Gordon Childe – Introdução à Arqueologia. Lisboa, Publicações Europa-América, colecção SABER, n.º 48, 1961.

 . W.J.Kowalski - Stone Age Habitats". 1997, em:


Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.

(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.

(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

Infohabitar n.º 387

domingo, maio 31, 2009

249 - Quando o ambiente é hostil: leituras da cidade brasileira contemporânea - Artigo e sessão de divulgação de livro no LNEC em 8 de Junho de 2009 - Infohabitar 249

Infohabitar, Ano V, n.º 249

Cidade hostil – Lúcia Leitão no Infohabitar e no LNEC
Artigo e palestra de Lúcia Leitão

Hoje é um dia feliz na edição do Infohabitar pois podemos oferecer aos nossos leitores um excelente artigo da Profa. Dra. Arq.ª Lúcia Leitão, associado a uma temática, infelizmente, na ordem do dia, a da violência urbana, mas que, naturalmente, não se esgota nessa matéria, reflectindo sobre a configuração urbanística da cidade brasileira.

A colega Lúcia Leitão integra o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, no Recife, e estará, entre nós, em Lisboa, na Sala 2 do Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), às 16h 00m da segunda-feira dia 8 de Junho de 2009 (entrada livre, não implica inscrição, apenas depende da capacidade da sala), numa organização conjunta do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC e do Grupo Habitar (GH) – constituindo a 15ª Sessão Técnica do GH.

A arquitecta Lúcia Leitão é autora de diversos livros sobre as temáticas do habitar e do urbanismo, destacando-se, por exemplo, um excelente livro organizado em cooperação com Luiz Amorim e intitulado “A casa nossa de cada dia” – editado em 2007 pela Editora Universitária UFPE – e irá apresentar no LNEC o seu último e recente livro intitulado:

"Quando o ambiente é hostil - uma leitura urbanística da violência à luz de Sobrados e Mucambos", cujo sumário e parte do capítulo introdutório são anexados a seguir à edição do artigo realizado pela autora, especialmente, para o nosso Infohabitar.




Fig. 01: capa do novo livro

Estão, desde já todos convidados para o encontro na Sala 2 do LNEC, às 16h 00m da segunda-feira dia 8 de Junho de 2009, e fiquem, agora, com o artigo de Lúcia Leitão: MARCAS IDENTITÁRIAS E CONFIGURAÇÃO ESPACIAL DA CIDADE BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
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António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar





MARCAS IDENTITÁRIAS E CONFIGURAÇÃO ESPACIAL DA CIDADE BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
por Lúcia LeitãoPrograma de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano, Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Recife, Brasil, e-mail: luleitao@hotlink.com.br

Resumo:
O objetivo do texto ora proposto é mostrar como a casa-grande, centro da organização social do Brasil patriarcal, espaço essencialmente privado, repercutiu na configuração urbanística da cidade brasileira. Trabalha-se com a hipótese de que o nascimento desprestigiado da rua —o espaço público por excelência— no Brasil colônia, e mesmo no Império, produziu um ambiente hostil, com repercussões sócio-espaciais ainda pouco consideradas pelo urbanismo brasileiro. As referências teóricas vêm da sociologia gilberteana (Sobrados e Mucambos, 1936) e da psicanálise. Nesta, considera-se o conceito de identificação (Freud, Psicologia das massas e análises do eu, 1920-21) e a idéia de ambiente hostil de Mitscherlich (Psychanalyse et urbanisme, 1970). Sob essas referências, argumenta-se que, edificada em torno do espaço privado — cuja manifestação atual são os shopping centers e os condomínios fechados contra a rua, à semelhança da casa-grande— a cidade brasileira ainda não construiu o seu espaço público, circunstância que favorece a manifestação da violência que assola o país. Conclui-se o texto argumentando que o modo como produzimos e como usufruímos a cidade constitui-se num elemento importante quando se busca enfrentar a questão da violência em suas múltiplas e complexas faces.


Em texto publicado originalmente em 1965, o psicanalista alemão Alexander Mitscherlich escreveu assim: “A maneira como damos forma ao nosso ambiente é a expressão do que somos internamente” (p. 62). Com essas palavras, surpreendentes para a arquitetura, certamente, o autor citado chama a atenção para a dimensão subjetiva do espaço edificado.

É essa ideia, pois, o ponto de partida para as reflexões esboçadas aqui. Ao longo do texto, argumenta-se, ainda que sucintamente, que o espaço edificado na cidade contemporânea brasileira — fechado, segregador e excludente como poucos — reproduz, espacialmente, os valores mais caros da sociedade brasileira, da colônia aos nossos dias.

Para construção do argumento, toma-se como ponto de partida a casa-grande do Brasil patriarcal, o ambiente onde “até hoje melhor se expressou [inclusive espacialmente] o caráter brasileiro” (Freyre, 1933, p. XXXI). Com isso, busca-se fazer ver que menos o medo da violência urbana que assola o Brasil e mais as marcas identitárias constituintes da sociedade brasileira definem a forma hostil que o ambiente construído apresenta no País.

Gilberto Freyre, ao longo de sua vasta obra, chama a atenção para o fato de que a sociedade brasileira se constituiu em torno do privativismo, da domesticidade e do centralismo. É evidente que a discussão dessas categorias sociológicas excede os objetivos e limites deste texto. Assim sendo, explora-se, a seguir, a manifestação desses elementos no ambiente construído que o Brasil apresenta desde o período colonial.

Três elementos basilares na produção do espaço edificado, a meu ver, materializam, nesse espaço, os elementos constitutivos da sociedade brasileira mencionados anteriormente. O primeiro diz respeito à localização do edifício no sítio, o segundo refere-se à forma que a edificação apresenta. Por fim, o terceiro elemento trata da função do edifício na produção do ambiente construído no País.

No que diz respeito à localização, importa lembrar que o espaço de morar, no Brasil, sempre deixou clara a ideia de poder, de distinção, de privilégios, própria do centralismo que caracteriza o modo de viver dos donos do poder no País. Assim, não é à toa, nem fruto apenas das condições topográficas, que a casa-grande patriarcal se localizava no mais alto lugar do sítio. Muito ao contrário, essa localização era em si mesma uma evidência do poder, do comando do senhor patriarcal sobre todos que estavam à sua volta.

É verdade que, do ponto de vista racional, essa localização possibilitava a supervisão, pelo senhor do engenho, da produção que se dava a seus pés. Mas é também verdadeiro que, do ponto de vista dos valores sociais, essas casas sublinhavam o poder e a distinção inerentes aos que habitavam as casas-grandes brasileiras, um fato que não passou despercebido a Louis Vauthier, o perspicaz observador da sociedade local nos tempos idos do Brasil Império. Diz Vauthier:

Se, afastando os olhos da beira-mar, estender a vista além, distinguirá [...] sobre a encosta de alguma colina [...] uma casa branca erguendo-se à altura de muitos degraus acima do nível do chão e situada de modo a permitir a observação fácil de tudo que se passa no interior do vasto pátio da usina. Ele [o viajante] lerá nos traços dessa arquitetura que existem ali senhores [...] (citado por Freyre, 1960, p. 807, destaques meus).

Como se vê, a localização do edifício era um fator essencial ao exercício do mando, próprio da casa-grande patriarcal. Uma escolha situacional em tudo compatível com o centralismo que nela tinha lugar. Afinal, como se sabe, nenhum fato relevante da vida nacional acontecia fora do raio de influência daquele ambiente socioespacial.

No que diz respeito à forma, convém sublinhar que o acesso a essas casas se dava por meio de muitos degraus, como bem anotou Vauthier no texto citado. Assim, era preciso subir para se chegar ao lugar do poder. Era, pois, esse poder, ou esse valor social, que encontrava sua forma no edifício que se erguia muito acima do rés do chão. Uma ideia perfeitamente aprendida pelos escravos que se referiam “respeitosamente” a esse espaço como a casa-grande, ainda de acordo com as anotações do arguto engenheiro francês na obra mencionada.

No sobrado, a forma que a casa-grande assumiu quando se fez urbana, essa marca de distinção própria da configuração espacial no Brasil se mantém. Afinal, habitar o sobrado era símbolo inequívoco de poder e prestígio. Tanto e em tal medida que até as prostitutas da época eram distinguidas pelo espaço que ocupavam: as “aristocráticas” habitavam o sobrado, enquanto a “escória” ocupava o andar térreo, anotou Freyre (1990, p. 159, citando o médico Lassance Cunha).

A opção pela forma vertical para a habitação, o sobrado, como se vê, não se deveu apenas à escassez de terrenos ou a condições topográficas desfavoráveis à construção de edificações horizontais. Essa é apenas a face racional da moeda. A outra face sugere que a busca por status, por assinalar poder e mando — herança do centralismo patriarcal —, é o elemento propulsor desse modo de habitar. Uma evidência disso aparece no fato de que, no sobrado, os espaços térreos jamais eram utilizados pela família patriarcal. Neles, acomodavam-se escravos, produtos que vinham do engenho, viajantes, etc., mas nunca a família patriarcal.

Assim, merece reparo o argumento de que a verticalidade excessiva dos espaços de morar na cidade brasileira contemporânea é pura decorrência do medo de habitar espaços térreos, difundida na afirmativa de que “morar num edifício é mais seguro”. Na verdade, essa opção de morar expressa um valor social, uma marca identitária, que encontra sua expressão formal na medida em que associa verticalidade e distinção, altura e poder. Não é por acaso, pois, tampouco por razões puramente econômicas, que os apartamentos custam mais à medida que se situam nos andares mais altos de cada edifício.

Um outro elemento próprio da arquitetura brasileira, ainda no que se refere à forma, diz respeito ao fato de que o espaço edificado se volta para dentro, fecha-se em si mesmo. Dessa feita, é a domesticidade o elemento a determinar o arranjo formal que o espaço materializa.

Na casa-grande, essa ideia se expressa nos ambientes onde a vida acontece, ou seja, nos espaços realmente utilizados pela família patriarcal, todos eles voltados para dentro, afastados espacialmente do ambiente externo. Mas é no sobrado que essa domesticidade, tida como marca identitária ou como expressão do que somos internamente, conforme queria Mitscherlich, acentua-se.

Dessa vez, a planta baixa é o elemento que deixa à mostra as marcas identitárias da sociedade no modo de produzir o seu espaço edificado. No sobrado brasileiro, a sala de viver, uma denominação por si mesma significativa, o espaço onde a família efetivamente vivia, sobretudo a dona da casa e suas filhas, situava-se no fundo, voltada para o quintal. A sala de visitas, o espaço supostamente voltado para a rua, para o que não é doméstico, familiar, permanecia vazia, subutilizada, inacessível até para as mulheres da casa, como assinala Vauthier no texto já citado.

Ainda no que diz respeito à forma do sobrado brasileiro, chama a atenção o fato de que até mesmo as janelas eram muitas vezes falsas. Compunham a fachada, mas não se abriam para a rua. Assinalavam, desse modo, uma vez mais, a força da domesticidade na sociedade — e na cidade — brasileira de então. No que diz respeito ao urbanismo, Freyre registra o fato de que esses ambientes eram espaços fechados contra a rua (1990) — o espaço público, não doméstico, portanto —, tida como espaço vulgar, destinado ao pobre, ao socialmente bastardo.

Esse modo de morar, na verdade um modo de pensar e de viver, expressão do que somos internamente, como diria Mitscherlich, repita-se, causou espanto a muitos viajantes que por aqui passaram e que estavam acostumados a outros modos de viver. Fechada para a rua, presa à domesticidade, tida como um valor a preservar, a família patriarcal mantinha-se no cárcere privado que, para si mesma, havia edificado. E não por medo, mas, sim, por pretensa fidalguia. Um registro feito pelo médico Lima Santos, publicado pelo Diario de Pernambuco nos anos idos de 1855, não deixa dúvidas quanto a isso:

Verdade é que o grande luxo da terra — um dos sinais de fidalguia, de grandeza e de grande distinção — é o sair à rua o menos possível, ser o menos visto possível e se confundir o menos possível com essa parte da população que os grandes chamam de povo e que tanto abominam (citado por Freyre, 1990, p. 39).

Outra vez, constitui-se apenas como meia verdade a justificativa de que se evita a rua porque a cidade brasileira contemporânea é violenta e insegura. Na verdade, a recusa da “elite” em frequentá-la faz desses ambientes espaços mais e mais violentos, precisamente pelo processo de desertificação que eles vivem (Jacobs, 2000). Nesse ponto particular, muros altos, fechados contra a rua, edificados em excesso na cidade atual são literalmente tiros dados no pé. Não apenas não garantem segurança — como se constata com a divulgação frequente pela mídia de assaltos realizados em prédios seguros, murados, eletrificados e bem guardados, etc. —, como fazem da rua um ambiente mais e mais hostil. Na verdade, esses muros são elementos que mais segregam do que protegem, uma vez que permitem aos moradores “ser o menos visto possível e se confundir o menos possível com essa parte da população que os grandes chamam de povo e que tanto abominam”, essa, sim, sua real função, de onde se tem a hostilidade que expressam.

Destarte, na cena urbanística da cidade do Brasil contemporâneo, o espaço que dá forma à domesticidade se manifesta na escolha por erguer e habitar espaços frequentados apenas pelos iguais, por aqueles que pertencem ao mesmo agrupamento social, a versão atualizada da família patriarcal brasileira.





Fig. 02, casas fechadas contra a rua em bairro “nobre” do Recife contemporâneo; Foto: Diogo Barretto.






Fig. 03, casas fechadas contra a rua em bairro “nobre” do Recife contemporâneo; Foto: Diogo Barretto.


Por fim, chega-se ao derradeiro elemento, a função do espaço edificado. Mais um elemento a explicitar a produção de espaços compatíveis com o que somos internamente. Agora, é o gosto pelo que é privado que parece definir a produção do espaço, ou seja, o privativismo, em linguagem gilbertiana.

A casa-grande patriarcal era um espaço múltiplo, destinado a abrigar todas as funções requeridas pela sociedade de então em um único e mesmo edifício. Freyre registrou isso ao assinalar que essa casa era de fato um “[...] bloco repartido em muitas especializações — residência, igreja, colégio, botica, hospital, hotel, banco” (1990, p. XLVI). Ainda nessa direção, diz Freyre:

[...] lembre-se de que, durante anos, esteve ligada à casa a figura do médico da família. No seu cabriolé, vinha às casas ver doentes [...]. Além do que, quase todo menino nascia em casa [...].Também vinha a casa o cabeleireiro cortar o cabelo e fazer a barba de ioiôs e comodistas. A professora ou o professor particular de piano. A de canto. A de francês. A de inglês. A costureira. [...] A vendedora de renda ou bico. O vendedor de bugingangas: sabonetes, loções, perfumes. O de galinhas. O de verduras. O de vassouras. O de espanadores. O de milho verde. O de melaço. O italiano da macaca: que no portão fazia dançar a sua macaca (Freyre, 1979, p.14-15).

Como se vê, todos os eventos que faziam a vida da família patriarcal tinham lugar num único e mesmo edifício. O uso múltiplo dado a um mesmo edifício cumpria perfeitamente, nesse caso, o papel que esse edifício deveria desempenhar, o de manter a “aristocracia” brasileira bem longe da rua.

Não é difícil, pois, perceber que, associada à forma, a função múltipla da casa brasileira — ou do espaço edificado no Brasil, a versão ampliada dessa casa — também se constitua em um elemento que consolidava espacialmente o centralismo, a domesticidade e o privativismo como marcas identitárias da civilização que se ergueu nos trópicos, como diria Freyre. Inconscientes por definição (Freud, 1929–1930), essas marcas têm perpetuado um mesmo modo de edificar, reproduzido indefinidamente por gerações sucessivas de brasileiros.

Na cidade contemporânea, a reprodução desse caráter definidor do espaço aparece, por exemplo, em dois tipos particulares de edificações: o shopping center e os condomínios residenciais, ambos espaços fechados para a rua, ambos ambientes que encontraram sua forma de ratificar o centralismo, a domesticidade e o privativismo próprios da sociedade brasileira.

O texto a seguir ratifica essa ideia quando comparado com o que anotou Freyre sobre a função da casa-bloco patriarcal, fechada para a rua, registrado antes:

Em um dia comum, a dona de casa Adriana, 39, sai de manhã para a sua aula de ginástica, passa pelo salão de beleza para fazer as unhas, leva o filho ao curso de inglês e compra no mercadinho algum ingrediente que falta para o almoço. Ao fim do dia, ainda acompanha os treinos da filha na quadra de tênis e, se der, assiste a um filme com as amigas. Para fazer todas essas atividades, porém, nem ela nem os filhos precisam colocar um pé que seja para fora do condomínio [...] (Folha de S.Paulo, jun. 19, 2005, destaques meus).

Como se vê, o medo e a insegurança urbana são meros pretextos, socialmente aceitos, para um modo de edificar privativista ao extremo. Afinal, falar em distinção, em status, em privilégios, pode soar “politicamente incorreto”, enquanto o medo pode ser facilmente compreendido e aceito. De fato, continuamos a edificar o ambiente construído brasileiro com a intenção explícita de impedir que os usuários desse ambiente sejam confundidos “com essa parte da população que os grandes chamam de povo e que tanto abominam” e de modo a facilitar a vida daqueles que pensam que “sair à rua o menos possível” é sinal de distinção e de pretensa fidalguia.

À guisa de conclusão
A arquitetura nunca foi neutra. É ingênua a ideia de que a forma espacial resulta do acaso ou de meras circunstâncias conjunturais ou, ainda, a impressão de que a forma edilícia decorre somente da inspiração e do talento pessoais dos desenhadores do espaço. Muito ao contrário: o objeto arquitetônico é marcadamente um fato cultural. Materiais empregados, técnicas construtivas, forma espacial, etc. são definidos de acordo com a época e com os valores mais caros a cada sociedade.

Dessa forma, a produção contínua de “cárceres privados” na cena urbanística brasileira expressa não apenas uma busca legítima por ambientes mais seguros, mas também, e talvez principalmente, o modo como somos internamente, as marcas identitárias que definem a sociedade brasileira — da colônia aos nossos dias.

Erguemos edifícios altos, fechados para a rua, porque temos um profundo desprezo pela rua, o espaço público por excelência. Edificamos muros altos, com guaritas e cercas, não apenas para nos proteger de um ambiente hostil, mas porque somos uma sociedade segregadora como poucas. Fechamos-nos em condomínios e em shopping centers não apenas por comodidade ou porque nos sentimos inseguros em outros espaços, mas antes porque tais ambientes, de longe, anunciam a todos, como diria Vauthier, que são esses os espaços onde estão os senhores que se não querem confundir com a plebe (Leitão, 2009).

Assim, para além da forma a partir da qual o espaço edificado é mais facilmente percebido, nele está inscrito todo um conjunto de valores e enunciações culturalmente definidos, valores subjetivos que nos fazem brasileirinhos da silva, como anotou Freyre.

Referências bibliográficas
FREYRE, Gilberto. [1933]. Casa-grande e senzala: formação da família patriarcal brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: Maia & Schmidt, 1933.
FREYRE, Gilberto. [1936]. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 1990.FREYRE, Gilberto. Um engenheiro francês no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.
FREUD. S. Obras completas de Sigmund Freud. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1973.
JACOBS, J.Morte e vida nas grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
LEITÃO, Lúcia. Quando o ambiente é hostil: uma leitura urbanística de Sobrados e Mucambos e outros ensaios gilbertianos. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2009.


Apresentam-se em seguida o sumário e parte do capítulo introdutório do novo livro de Lúcia Leitão, que será apresentado dia 8 de Junho no LNEC e intitulado:
"Quando o ambiente é hostil - uma leitura urbanística da violência à luz de Sobrados e Mucambos"





Fig. 04: capa do novo livro

Sumário
Palavras Introdutórias


1 Da Casa-Grande à Cidade Contemporânea
Anotações preliminares

2 O Reinado da Casa
A casa como obra coletiva
A casa como centro social
Uma casa brasileira

3 A Negação da Rua
O sobrado diz não à rua
Um espaço plebeu

4 Brasileirinha da SilvaUm espaço rejeitado
Mostra-me teu espaço

5 Um Traço Identitário
Anotações finais

Da hostilidade

Para o acolhimento

Referências Bibliográficas




Fig. 05: imagens do novo livro

Vende-se huma preta de bons costumes, muito ágil para todo o serviço de uma casa, tem 16 annos de idade e sempre tem sido criada sem sahir á rua [...] para todo o serviço de uma casa de portas a dentro.
Anúncio publicado no Diario do Rio de Janeiro em 28 de outubro de 1821, reproduzido por FREYRE, G. 1990, p. 47, destaques meus.

Dois pintores brasileiros de hoje podem ser apresentados como poetas [...]. Num, sobrevive principalmente um menino de casa-grande — o de Jundiá — com as lembranças ou relembranças pungentes de carinhos de mãe por filho, de chamegos de primo com primas, de amores de ioiôzinho com negras, de aventuras com animais — tudo dentro de salas, de alcovas, de alpendres, de restos de senzalas. Tudo à sombra da casa. Noutro, sobrevive um menino criado em sobrado de pai rico, comissário de açúcar, residente na Madalena do Recife: casa de azulejo dando para o rio, portão de ferro rendilhado separando o filho mimado da rua, dos perigos da rua, das vulgaridades da rua.
FREYRE, G. 1979, p. 68, destaques meus.





Fig. 06: imagens do novo livro

Palavras Introdutórias
Na introdução de Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre explica as razões que o levaram a debruçar-se sobre o tema que o envolveu durante toda a sua vida. A necessidade de melhor entender a civilização que nascia nos trópicos foi o mote que o fez empreender a aventura intelectual da qual deriva sua obra.

Seguindo-lhe os passos, nesse sentido em particular, chama-se a atenção do leitor, logo de partida, para as razões que fizeram surgir o texto que ora se apresenta. Tal como em Freyre, também uma inquietação está na origem das notas aqui esboçadas. O mote, no entanto, foi dado por uma pergunta feita à queima-roupa a um candidato a prefeito, durante uma das últimas campanhas eleitorais realizadas no Brasil: Por que não há parques públicos na cidade?, quis saber o entrevistador.

A indagação ficou mais instigante quando se atentou para o fato de que a cidade em questão dispõe de diversos parques, mais de duas centenas de áreas oficialmente reconhecidas como espaços públicos, além do sistema viário, naturalmente. A questão era outra, portanto. Na verdade, a pergunta apontava para um não reconhecimento, como tal, do espaço público que a cidade apresenta. Nasciam, desse modo, naquele momento, as primeiras ideias que dariam origem a este ensaio.

A dificuldade do entrevistado, assim como a própria pergunta formulada, apontava para o fato de que a escrita gilbertiana ainda não se havia esgotado, como, aliás, convém aos textos que se tornam clássicos. Tanto é assim que representantes do grupo que se assenta no topo da nossa pirâmide social desconheciam, aparentemente, elementos básicos da cultura que nos faz brasileirinhos da silva. Como consequência, ignoravam, em particular ― como indica tanto a pergunta quanto a tentativa de resposta ―, as implicações espaciais do modo como se deu o desenvolvimento do urbano na vida brasileira.

Este texto decorre, pois, da questão anotada sumariamente acima. Com ele, pretende-se oferecer ― à luz da escrita gilbertiana, e sob o foco do urbanismo e com apoio em alguns conceitos-chave da teoria psicanalítica ― uma contribuição para que se possam melhor compreender as razões que talvez estejam na origem do ambiente claramente hostil que muitas cidades brasileiras apresentam.

Erguida privilegiando o espaço privado, tido como nobre, distinto, vip, a cidade brasileira não pode ainda consolidar o seu espaço público, ou mesmo edificá-lo ― hipótese a partir da qual se constrói o argumento central deste texto. Ao contrário, edificou um ambiente hostil que segrega, que exclui, que separa, com todas as consequências sociourbanísticas decorrentes desse modo de edificar.

Elaborado como uma escrita livre, destinado ao público em geral, este ensaio é um texto eminentemente opinativo. Não se trata, portanto, de uma tese produzida com o rigor conceitual e metodológico que caracteriza esse tipo de produção acadêmica. Aqui não se verá a angústia da prova ― essa palavra carregada de ansiedade, segundo assertiva feliz de Richard Sennet ― mas, sim, uma ideia a compartilhar. É nesse sentido que ele deve ser lido.

As referências teóricas vêm notadamente de Gilberto Freyre e, em menor medida, da teoria psicanalítica. A escolha por Freyre se justifica pela riqueza de detalhes sobre a arquitetura e o urbanismo do Brasil patriarcal ao longo da sua obra, e não por se minimizar a importância de outros autores que se debruçaram, com muito brilho, sobre a formação da sociedade brasileira. Com relação à teoria freudiana, alguns conceitos ajudam a compreender que motivações subjetivas podem ditar o modo como produzimos o ambiente construído.

Cinco capítulos compõem o texto. No primeiro deles, estão as anotações preliminares redigidas com o objetivo de indicar as questões principais que estiveram na origem das reflexões que ora se apresentam ao leitor, as primeiras definições conceituais, bem como os objetivos e limites disciplinares deste ensaio.

No segundo capítulo, apresentam-se três idéias da obra de Gilberto Freyre consideradas fundamentais para que se tenha uma melhor compreensão do modo como se deu o reinado da casa no Brasil patriarcal, ponto de partida para o argumento que se desenvolve neste texto. Em outras palavras, apontam-se as razões que fizeram a sociedade brasileira organizar-se no abrigo do espaço privado ― da colônia aos nossos dias ―, conforme se quer mostrar aqui.

No terceiro, tem-se como objetivo mostrar como e em que medida a paisagem social existente durante o tempo em que se deu o desenvolvimento do urbano ― como se refere Freyre àquele momento da história nacional ― definiu um ambiente urbano usufruído um tanto a contragosto pela sociedade brasileira de então. Um espaço edificado onde essa sociedade expressou, claramente, uma profunda negação da rua, com repercussões importantes na configuração espacial que definiria a cidade brasileira desde então.

Em brasileirinha da silva, expressão gilbertiana que nomeia o quarto capítulo, pretende-se mostrar como as razões que definiram e consolidaram o reinado da casa e, consequentemente, a negação da rua, perduram na sociedade brasileira assim como no espaço que essa sociedade edifica. E como essas mesmas razões, revistas e atualizadas, continuam a determinar, ainda nos dias que correm, o papel menor, secundário, desprestigiado, que o espaço público desempenha ― quer na forma, quer no uso, quer nas funções ― nestas terras tropicais, independentemente dos custos sociais e urbanísticos que se paga por isso.

Em Um traço identitário, apresentam-se as anotações finais, onde estão esboçadas as conclusões a que se chegou com as questões que nortearam o processo reflexivo.

A segunda razão a justificar a publicação que ora vem às mãos do leitor é que as ideias aqui apresentadas na forma de um breve ensaio obteve, em 2006, o prêmio Antônio Carlos Escobar - Construindo alternativas em segurança pública, promovido pelo Instituto Antônio Carlos Escobar – Iace , com sede no Recife. Com sua publicação, em versão ampliada em relação ao texto premiado, cumpre-se o compromisso de divulgação do texto assumido com aquela instituição.

Por fim, uma outra informação relevante é que as ideias ora apresentadas deram origem a uma pesquisa acadêmica, atualmente em curso, aprovada e financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, com a qual se pretende aprofundar a investigação das hipóteses formuladas. Essa pesquisa, denominada Da casa à cidade: expressão da subjetividade e configuração espacial, vem sendo desenvolvida no Núcleo de Estudos da Subjetividade na Arquitetura – NusArq, grupo de pesquisa integrante do Laboratório de Estudos Avançados em Arquitetura – lA2, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco.

Notas:
(1) SÁ CARNEIRO, A. e MESQUITA, L. Espaços livres do Recife. Recife: Prefeitura do Recife/UFPE, 2000.

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Infohabitar: Lisboa e Encarnação – Olivais Norte
Edição de José Baptista Coelho
1 de Junho de 2009