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segunda-feira, julho 02, 2018

647 - Sobre o habitar - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar” - Infohabitar 647

Infohabitar, Ano XIV, n.º 647
Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º II

Sobre o habitar - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar”

Infohabitar 647


Nota prévia editorial sobre a nova Série: “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”

Com este artigo dá-se continuidade a uma linha editorial da Infohabitar, intitulada  “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”, desejada desde há muito, aqui na Infohabitar, e referida a uma apresentação, desenvolvida e, em alguns casos, comentada, de livros recentes e/ou considerados significativos nas áreas temáticas da nossa revista.

Não vai haver grandes limites relativamente ao ano de edição, havendo, naturalmente, um relativo privilegiar de livros recentes e, portanto, provavelmente, menos conhecidos dos leitores, e sendo, sempre, de ter em conta a desejável disponibilidade editorial dos livros apresentados e comentados; mas os “velhos clássicos”, conhecidos, mal conhecidos ou injustamente pouco ou nada referidos não serão esquecidos, pelas razões óbvias e, até, porque há, sempre, as bibliotecas ...

Como os leitores sabem, tem havido já apresentações de livros na nossa revista, mas realizadas de modo eventual e sem periodicidade, ou sem um desenvolvimento ou comentário, decorrentes de uma sua leitura completa e atenta, por um dado autor, que, naturalmente, apresenta a sua opinião pessoal sobre a obra que é apresentada.

Julga-se que a actualidade é marcada pela enorme riqueza do acesso directo e indirecto à informação, através do muito de que descobrimos e do que lemos na WWW, mas também por uma expressiva “velocidade” e, por vezes, alguma ligeireza na consideração e na reflexão sobre o praticamente infinito campo de documentação existente (também na WWW) sobre uma dada temática. Esta velocidade parece ser incontornável face à quantidade da referida documentação e informação, mas, por vezes, talvez não nos proporcione um adequado “respiro” e salutar e relativo distanciamento no pensar, aprofundada e pacientemente, sobre um dado tema, dificultando a geração de ideias bem sedimentadas e desenvolvidas; e tudo isto ainda influenciado por uma actualidade em que mesmo as livrarias dificilmente disponibilizam um adequado acervo editorial, substituído pelo leque de edições mais recentes e continuamente renovadas; mas há, sempre, as bibliotecas ...

Parece ser, assim, altura para poder reduzir um pouco essa velocidade de “absorção de ideias/informação”, concentrando-nos, também, com algum detalhe e tempo sobre a sequência de ideias que um dado autor desenvolve num dado livro; neste caso, evidentemente, em matérias referidas às temáticas abordadas aqui na nossa revista – e quando estava a escrever esta “justificação” lembrei-me que será um pouco como resgatar o “slow-reading”, conceito este aqui reinventando um pouco à imagem da “slow-food” e das “slow-cities”, numa perspectiva que não põe em causa, nem o podia fazer, a velocidade do tempo e da investigação atuais, mas que deseja não dar a perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, o que parece ser até bem oportuno quando se está a (re)pensar, profunda e diversificadamente, sobre o atual e futuro quadro do habitat humano pormenorizado, urbano e habitacional.

A partir de agora a Infohabitar irá, assim, procurar manter uma periodicidade mensal relativamente a esta sua nova linha editorial de apresentação comentada de livros na grande temática do habitat humano.

O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Habitar no espaço e no tempo - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar” - Infohabitar 647

por António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com


Breves notas explicativas
No texto que se segue faz-se uma reflexão livre e uma apresentação comentada relativamente ao livro de Juhani Pallasmaa (*) intitulado Habitar”, editado pela Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, em 2016 (**).
Salienta-se que o livro tem, já, uma edição em português, também da mesma editora, de 2017 – ver https://ggili.com/habitar-livro.html

Importa desde já clarificar que os comentários desenvolvidos são, evidentemente, pessoais, designadamente, quando se apresentam reflexões que decorreram da respectiva leitura.
Na parte inicial do texto incluem-se aspectos mais objectivos, referidos à constituição, estrutura e conteúdos do livro, embora possa acontecer que as respectivas traduções não sejam as mais correctas e/ou adequadas à intenção do autor; e por este facto e desde já se apresentam as devidas desculpas – isto porque a leitura se fez sobre a referida tradução em castelhano.
Nas reflexões e notas que se seguem procurou-se um perfil de natural contenção, seja porque se considera que a apresentação de um livro não será o local adequado para maiores desenvolvimentos, seja porque de forma alguma se pretende substituir a leitura directa do livro; cuidado este que também esteve presente na apresentação da sua estrutura geral, que não integra todas as temáticas presentes no livro.
E desde já se recomenda a leitura desta obra de Juhani Pallasmaa.


Apresentação geral
Em primeiro lugar apetece referir a cuidada edição deste “pequeno” livro, com a sua atraente e simples ilustração de capa (parece ser o perfil esquematizado do autor), praticamente um “livro de bolso”, bem manuseável, e que, assim, nos desafia a levá-lo connosco para o irmos lendo, calma e agradavelmente; numa atitude que está bem de acordo com os ensaios que nele estão compilados.
O livro tem 127 páginas e a sua organização geral proporciona: (i) seja uma leitura sequencial a partir do respetivo e sintético prólogo, seguindo-se cinco temas/ensaios específicos, mas expressivamente sequenciais, também em termos cronológicos (desde 1994 a 2015); (ii) seja uma leitura tema/ensaio a tema/ensaio, que se recomenda seja feita após a leitura do referido prólogo; e, considerando a dimensão da obra e o seu interesse, considera-se que uma leitura inicial global irá permitir, posteriormente, o agradável retornar aos seus diversos temas.
Interessa ainda sublinhar tratar-se de um livro com um muito amplo leque de potenciais leitores, que, muito claramente, e embora tratando-se de ensaios teóricos e com grande relação com a prática elaborados por um arquitecto, poderão ser pessoas com perfis disciplinares muito diversos, desde que interessadas pela temática do habitat humano.
E julga-se que é sempre de saudar e sublinhar a gradual construção de um verdadeiro corpo teórico-prático, neste caso da disciplina da Arquitectura, a partir de consolidadas contribuições de investigadores e pensadores do respetivo ramo teórico, pois Juhani Pallasmaa é arquiteto.


Estrutura e principais temas
Depois de um prólogo pouco extenso, com grande interesse e expressiva autonomia, intitulado “habitar no espaço e no tempo”, e no qual o autor também introduz, minimamente, os ensaios que são, depois, apresentados; temos, cronologicamente, os seguinte temas/ensaios: Identidade, intimidade e domicílio (1994, 31 pg.); O sentido da cidade (1996, 10 pg.); O espaço habitado (1999, 27 pg.); A metáfora vivida (2002, 21 pg.); Habitar no tempo (2015, 13 pg.); concluindo-se com a referência à origem dos referidos ensaios.


Notas elaboradas a partir da leitura do livro “Habitar” de Juhani Pallasmaa
Apontam-se, em seguida, alguns aspetos e ideias que resultaram da leitura do livro e para uma mais fiel relação com a obra do autor vão sendo realizadas numerosas citações, entre aspas, de frases de Pallasmaa, lidas no seu livro; relembrando-se as já apresentadas desculpas relativamente a eventuais deficiências na tradução.

Registam-se e salientam-se, desde já, as palavras com que Juhani Pallasmaa inicia este livro, e nas quais cita o Arq.º Wang Shu (Prémio Pritzker 2012), quando este refere que “para mim qualquer tipo de arquitetura, seja qual for a sua função, é uma casa. Só projeto casas, não arquitetura. As casas são simples. Mantêm sempre uma relação interessante com a verdadeira existência,  com a vida”.
Há aqui, portanto, um grande enfoque na importância do habitar na arquitetura, numa perspetiva que alarga esse sentido de habitar a todas as ações arquitetónicas, e portanto a todas as marcas humanas expressivamente caraterizadas e qualificadas.
Para Juhani Pallasmaa o habitar “é fundamentalmente um intercâmbio e uma extensão; por um lado o habitante situa-se no espaço e o espaço situa-se na consciência do habitante, e, por outro lado, esse lugar converte-se numa exteriorização e numa extensão do seu ser , tanto do ponto de vista mental como físico.”
Uma perspetiva que põe em relevo  papel da humanização na ação arquitetónica ou numa arquitetura, basicamente, (mais) humanizada – preocupada com o homem que é, sempre, o seu habitante.

E, sequencialmente, Pallasmaa avança para a caraterização do que pode/deve ser uma Arquitetura, desejavelmente, tão sensível como “simples” (aspas minhas), e citando Ludwig Wittgenstein, defende que “não pode haver arquitetura onde não há nada a sublimar”.
E remata defendendo que “no mundo obscenamente materialista de hoje a essência poética da arquitetura está ameaçada simultaneamente por dois processos opostos: a funcionalização e a estetização.”
Processos estes que parecem afastar-se dessa (sempre difícil) simplicidade e humanização arquitetónica, esse novelo de qualidades que estão bem presentes nas cidades e nos edifícios antigos, pois:
“As cidades e os edifícios antigos são acolhedores e estimulantes [...], incorporam e evidenciam as marcas/pegadas de um momento diferente do nosso sentido de tempo contemporâneo, nervoso, apressado e liso; projetam um tempo «lento», «espesso» e «táctil».”
E não seria possível deixar aqui de lembrar, a propósito, a noção de “slow-cities”, já apontada no início deste artigo, uma noção que não põe em causa a velocidade do tempo actual, mas que deseja não perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, que marca, em profundidade, tantas das cidades e dos edifícios que mais nos marcam/marcaram e de que mais gostamos.

Depois, mais à frente, Pallasmaa defende que “na nossa cultura da abundância chegámos a converter-nos em pessoas sem lar/hogar.”
E, a propósito, não poderia deixar de referir que, há já alguns anos, numa sessão de apresentação de um livro fui questionado, depois de defender um habitat humano verdadeiramente caraterizado e apropriável, por uma pessoa do público que defendia que a habitação atual não deveria ter nada a ver com isso, sendo , sim, um simples produto de consumo.
Mas, afinal, quem sabe se tudo isto não tem, também, a ver com a real dificuldade de se desenvolver essa verdadeira expressividade e humanização no habitat humano, que se liga, tal como aponta Pallasmaa, aos “aspetos mais subtis, emocionais e imprecisos do lar."
E, consequentemente, e tal como aponta o autor, a arquitetura actual caracteriza-se por uma gradual “perda de empatia para com o habitante”, num afastamento da visão social e/ou empática da vida, procurando “encarniçadamente evitar ou eliminar a imagem onírica” [da casa/do lar].
E sobre esta importante matéria que marca (pode marcar) a caraterização do habitat humano e, naturalmente, a sua conceção arquitetónica, esse sonhar a casa/o lar, Pallasmaa questiona se os arquitetos o fazem, ou será que serão os artistas a fazê-lo, mais naturalmente; e incuindo, aqui (digo eu), alguns arquitetos artistas, que concebem “também” (aspas minhas) com arte, sistemática ou excepcionalmente – isto porque, evidentemente, a obra de arte vai acontecendo, julga-se, de forma não sistemática.
E por isso e tal como refere Pallasmaa, “as obras artísticas que tratam o espaço, a luz, os edifícios e o habitar podem proporcionar lições valiosas aos arquitetos sobre a própria essência da arquitetura.”

Depois, sobre a essência do lar/fogo, o autor refere que “não é um simples objeto, ou um edifício, mas um estado difuso e complexo que integra recordações e imagens” e que se tem de caraterizar, tanto por um sentido de estabilidade/permanência – referindo-se Pallasmaa  a Bachelard –, como por um cuidado equilíbrio entre comunidade e privacidade – referindo-se o autor ao livro de Alexander e Chermayeff, “Comunidade e Privacidade” (e não posso aqui de referir que, desde há muito tempo, não registava uma referência específica a esta obra, que também considero fundamental).

Pallasmaa desenvolve, em seguida, as estimulantes matérias da imagem, da nostalgia, da identidade e da intimidade no lar/habitação, passando, depois, para o que designa de “ingredientes do lar/casa”, sendo alguns deles mais genéricos e outros mais específicos e, por vezes, simbólicos (ex., a chaminé, a mesa).

E finalmente, nesta matéria da caraterização do habitar/lar aborda a relação da respetiva conceção arquitetónica com objetivos de tolerância, mas também de estímulo e de um forte relacionamento com a vida; e aqui aponta que a arquitetura contemporânea de vanguarda tende a abandonar a problemática do habitar, e que a arquitetura actual “parece ter abandonado por completo a vida e ter-se dirigido para a pura invenção arquitetónica”; e sobre esta matéria cita um famoso arquiteto bem conhecido, que defende que, atualmente, a arquitetura deve abrigar e não romantizar essa função de abrigo.

Juhani Pallasmaa passa depois para um ensaio sobre o sentido da cidade – a cidade percebida, recordada e imaginada.
Poderíamos nós dizer: a cidade bem habitada e sentida. Apontando interessantes aspetos, como os que são, em seguida, registados: que “a cidade contém mais do que se pode descrever”;  que “a imagem de uma cidade acolhedora não é uma expressão visual, mas sim um princípio integrado que se baseia numa dupla e peculiar fusão: habitamos a cidade e a cidade habita-nos.”
E depois fala/escreve sobre as cidades que se visitam e nos visitam continuamente, sobre as cidades multisensoriais, sobre os remansos verdes e apaziguadores que marcam as cidades, sobre as cidades “afortunadas” junto à agua, e sobre as cidades velozes na sua perceção; rematando, de certa forma, com algumas ideias:
“ Temos uma capacidade inata para recordar e imaginar lugares. A perceção, a memória e a imaginação estão em constante interação;”
“há cidades que permanecem como meras imagens visuais ao ser recordadas, e cidades que se recordam em toda a sua vivacidade/animação.”   
E parece ser , aqui, tão interessante como oportuno ensaiar a aplicação destas últimas noções ao habitar no seu conjunto e lembrando o lar/casa: e tudo se aplica, praticamente da mesma forma; recordar e imaginar/recriar lugares, lembrar ativamente sítios verdadeiramente habitados/vivos e expressivamente caraterizados.

Depois, naturalmente, Pallasmaa avança para a temática global do “espaço habitado”, num extenso ensaio em que aborda diversos subtemas, entre os quais se salientam os seguintes: o mundo e a mente, o espaço existencial (“vivemos um mundo onde o material e o mental, o experimentado, o recordado e o imaginado, se fundem completamente entre si”); a realidade da imaginação; a realidade da arte; utilidade e inutilidade (“na opinião de Alvar Aalto a arquitetura não é em absoluto uma área da tecnologia; é uma forma de «arqui-tecnologia».” Pallasmaa citando Göran Schildt, em “Alvar Aalto Luonnoksia”); novidade e eternidade; arte e emoção; a tarefa da arte; o conhecimento através da arte; o pensamento sensorial; a mão que pensa,
e aqui chegado Pallasmaa cita (a partir de “The Sculptor Speaks” de Philip James) o que julgo ser uma extraordinária frase do grande escultor Henry Moore sobre como o escultor deve “«agarrar» simultaneamente múltiplos pontos de vista na sua obra” – e citando o princípio da frase de Moore, que podemos usar no que considero ser uma excelente aproximação também à conceção arquitetónica:
“Isto é o que o escultor deve fazer. Deve esforçar-se continuamente em pensar a forma, e utilizá-la, na sua completa totalidade espacial[...] Visualiza mentalmente uma forma complexa a partir tudo o que a rodeia; enquanto olha de um lado sabe como é o outro; identifica-se com o seu centro de gravidade, a sua massa, o seu peso; está consciente do seu volume e do espaço que a forma move/subtrai no ar.”
E Pallasmaa termina este ensaio com um texto que salienta a importância da imaginação para uma vida plena e digna.

O ensaio que se segue intitula-se “a metáfora vivida” e nele o autor contrapõe a actual cultura materialista e racional, que considera os edifícios como elementos apenas instrumentais e utilitários e que os “equipa”, estrategicamente, com imagens visualmente estimulantes mas não radicadas na nossa experiência existencial, a  uma arquitetura onde “as casas da nossa memória e imaginação estruturam as nossas experiências” – relativas ao habitar casa e cidade, de certa forma, intermediando e estruturando essa mútua relação.
E, sequencialmente, no ensaio aborda variados temas, entre os quais se apontam os seguintes: a arquitetura como matáfora; a imagem poética; a imagem arquitetónica (“a arquitetura humaniza o mundo ao dar-lhe uma medida e um horizonte”); a casa e o corpo; a historicidade das imagens; imaginário da janela e da porta; tradição e novidade (“a tradição é uma impressionante sedimentação de imagens e não pode inventar-se, só se pode viver-se. A tradição constitui uma escavação sem fim de mitos, recordações e experiências comuns.”).

Juhani Pallasmaa conclui este seu livro com um ensaio recente (2015) sobre o “habitar no tempo” e nele, de certa forma, parece estabilizar uma série de ideias anteriormente apontadas no livro, citando-se, aqui, algumas delas.
. “Ao mediar entre o mundo e nós próprios a arquitetura proporciona marcos e horizontes diferenciados para a experiência, o conhecimento e o significado. Essa visão que hoje prevalece da arquitetura como simples objeto e estrutura visual estetizada é, portanto, significativamente errónea.”
. “No entanto, para além de vivermos no espaço também habitamos o tempo, e a arquitetura medeia igualmente a nossa relação com a passagem do tempo, dando assim uma medida humana ao tempo interminável. “
E, a propósito, não seria possível deixar de referir mais uma daquelas obras sobre arquitetura que deveriam marcar, sempre, a formação em arquitetura: trata-se, naturalmente, do livro de Kevin Lynch “What time is this place?” (1972).
. “Para além de criar a experiência de um espaço único e diferenciado a tarefa fundamental da arquitetura é conservar e definir um sentido de continuidade cultural e salvaguardar a nossa experiência do passado;”
. “As identidades não aderem a coisas isoladas, mas sim à continuidade da cultura e da vida.”
E, “finalmente” (aspas minhas), Juhani Pallasmaa sublinha o caráter e a importância dos sítios/lugares antigos:
“ Um cenário sofisticado, com a sua autoridade e profundidade históricas, coloca-nos em sintonia com as qualidades sensoriais/sensíveis e de entendimento tanto do caráter humano como do cultural”; uma afirmação que, na minha opinião, se aplica com toda a adequação a qualquer obra relevante de arquitetura.

Juhani Pallasmaa termina este seu "Habitar" com a seguinte frase: “La arquitetura relevante permite experimentarnos a nosotros mismos como seres completamente corpóreos y espirituales.”

Boa leitura, é o que se deseja,

António Baptista Coelho


(*)Juhani Pallasmaa  (Hämeenlinna, 1936) é arquitecto em Helsínquia, foi professor de Arquitectura na Universidade de Tecnologia de Helsínquia, director do Museu de Arquitectura da Finlândia e professor convidado em diversas escolas de arquitectura em todo o muno; é autor de numerosos artigos sobre filosofia, psicologia e teoria da arquitectura e da arte, e de um conjunto de livros bem conhecidos.
(notas retiradas da apresentação do autor na badana do livro)

Outros livros de Juhani Pallasmaa  na Gustavo Gili:
. La imagen corpórea. Imaginación e imaginário en la arquitectura.
. La mano que piensa. Sabiduria existencial y corporal en la arquitectura
. Los ojos de la piel. La arquitectura y los sentidos
  Prólogo de Steven Hall y epílogo de Peter Mackeith

(**) Juhani Pallasmaa, "Habitar", Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, 2016
Tradução de Àlex Giménez Imiralzadu
127 pg., sem figuras.
ISBN: 978-84-252-2923-7

Página do site da editora dedicado ao livro, na sua edição em português:
https://ggili.com/habitar-livro.html

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 647
Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º II
Habitar no espaço e no tempo - a propósito do livro de Juhani Pallasmaa “Habitar” - Infohabitar 647
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista da GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



segunda-feira, janeiro 18, 2016

566 - A renovada importância das zonas de refeições domésticas – Infohabitar n.º 566


Infohabitar, Ano XII, n.º 566

A renovada importância das zonas de refeições domésticas – Infohabitar n.º 566

Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

Depois de um significativo intervalo editorial retomamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor" (o último artigo da série foi o n.º 543), na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos agora a abordar, com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e passamos, agora, a uma reflexão sobre a importância das zonas de refeições domésticas, considerando matérias diversas que lhes estão associadas.

A renovada importância das zonas de refeições domésticas

Numa civilização urbana marcada pela falta de tempo e de convívio, tudo o que se faça para privilegiar o encontro familiar é muito positivo; e como todos temos a noção que as refeições estimulam o encontro e o convívio, então não deve haver quaisquer dúvidas sobre o interesse de se privilegiarem condições domésticas estimulantes para a prática de refeições familiares potencialmente alargadas e conviviais, importando pouco se tais condições são possíveis na sala-comum, na cozinha ou, eventualmente, num espaço específico próximo da cozinha; importa, sim, que em cada habitação sejas bem aparentes condições específicas de integração de um desafogado espaço de refeições e não que se consiga, apenas, uma tal integração, em condições espaciais, funcionais e ambientais exíguas.

Refeições domésticas: associações interessantes

As refeições especiais realizam-se num espaço específico ou numa zona da sala-comum, mas também podem ser desenvolvidas numa grande cozinha familiar, numa sala de família e, até, numa grande varanda protegida, ou numa zona específica de um pátio ou quintal privado.
A “tradicional” exigência de proximidade entre este espaço de refeições e a zona de preparação de refeições, poderá ser compensada por uma posição muito agradável do espaço de refeições, por exemplo junto a uma grande janela. Já a exigência associada à ausência de ruídos e cheiros incómodos deverá manter-se o mais possível.
Nesta perspectiva Claude Lamure considera que a proximidade entre zonas de refeições e de preparação é secundarizada devido às seguintes razões (1): necessidade de um quadro formal representativo para certas refeições e funções festivas/comemorativas; necessidade de separação, pelo menos visual, entre as funções de recepção e de preparação de refeições; e necessidade de uma protecção sensorial (vistas, ruídos, cheiros e vapores) relativamente às zonas de preparação de refeições e de depósito de louça e apetrechos sujos.
No caso de uma forte integração entre a principal zona de refeições e o espaço de preparação, haverá que cuidar com grande atenção dos aspectos de ventilação e de redução de ruídos.

Fig. 01: Zona de refeições informais das Habitações H21 – 24 da Exposição BO01 (ver notas abaixo); Arq.ºs Mario Campi, Arne Jönsson e Jan Telving. A informalidade das refeições e a sua funcional proximidade às diversas zonas da cozinha pode ser "equilibrada" por um aspeto muito digno e formalmente depurado (ou, por exemplo, afirmadamente rústico) da mesa/cadeiras de refeições.

Refeições domésticas: hábitos interessantes

Claude Lamure sublinha que ver televisão, durante as refeições, é uma situação real e frequente, de tal forma que é devidamente assinalada pela definição dos "horários nobres" da programação, precisamente durante as horas das refeições, e nomeadamente à hora do jantar. (2)
Embora não se aprecie a actual estratégia e qualidade televisiva, que provavelmente se manterá por muitos anos, considera-se que numa habitação com dimensões correntes será aceitável considerar a relação entre televisão e espaço de refeições …

Refeições domésticas: aspectos motivadores

O ambiente da zona de jantar deve ser aprazível e cómodo, produzindo um sentimento de união, sem nada a ver com um carácter de "comer rápido" para depois ir descansar para outro lado, deve, assim, caracterizar-se, segundo Alexander, por (3): mesa centrada, ampla e forte; luz sobre a mesa; recinto de instalação relativamente fechado por paredes ou diferentes tonalidades de sombras contrastantes; suficiente espaço para se poder puxar a cadeira para trás e ficar à vontade a conversar; bancadas/aparadores e prateleiras envolventes proporcionando objectos ao alcance da mão, enquanto se está à mesa, uso de tons de cor escuros e confortáveis, especialmente de noite; assentos cómodos instalados na proximidade da mesa.
Ainda nesta perspectiva de identificação de aspectos motivadores do uso, até multifuncional, do principal espaço e da respectiva mesa de refeições sublinha-se a importância de se poder ter uma grande proximidade a um amplo vão sobre o exterior, o que permitirá tomar refeições com abundante luz natural e alguma vista; aponta-se esta ideia porque há, frequentemente, dúvidas entre que zona da sala-comum deve ser mais beneficiada pela luz natural, numa opção que poderá assim conciliar mais luz na zona de refeições e menos no espaço de estar, onde se situará, frequentemente a televisão, o que parece ser uma condição adequada para a ausência de reflexos no respectivo monitor.

Refeições domésticas: problemas correntes

Os problemas correntes em zonas de refeições têm a ver, frequentemente, com a falta de espaço próprio e na sua envolvente, obrigando a condições pouco motivadoras, quer do convívio à mesa, quer do respectivo serviço, que, nas actuais condições de ausência de pessoal de serviço doméstico, deve ser facilitado e agilizado ao máximo; e este é um problema que tem de ser resolvido na própria concepção do espaço doméstico, aproveitando-se, eventualmente, a contiguidade com espaços de circulação para se desafogar a envolvente da mesa. Tal como referi há alguns anos, num trabalho do LNEC, tem de se garantir grande funcionalidade nas actividades de pôr e levantar a mesa e de servir as várias pessoas à mesa, devendo ser possível aceder a boa parte da mesa com as pessoas sentadas e ser razoavelmente cómodo o sentar e o levantar-se da mesa nessas condições, e há que proporcionar um espaço de refeições adequado às potenciais necessidades da família com uma folga de ocupação – espaço à mesa e número de cadeiras para os habitantes da casa (considerando o número de quartos) mais alguns convidados.
Fig. 02: Zona de refeições formais/informais das Habitações H21 – 24 da Exposição BO01 (ver notas abaixo); Arq.ºs Mario Campi, Arne Jönsson e Jan Telving. Uma zona de refeições muito cuidada pode constituir como que um elemento de transição formal/informal entre uma bancada de cozinha e a zona de estar (na imagem em primeiro plano).

Refeições domésticas: questões levantadas (dimensionais e outras)

Numa habitação mínima as questões levantadas pela principal zona de refeições domésticas têm a ver com a sua eventual, mas provável, exiguidade para um grupo convivial alargado; uma questão que poderá ter uma solução razoável concentrando-se espaço para uma mesa razoavelmente espaçosa, alternativamente, na sala-comum ou na cozinha – por exemplo a cozinha poderá ser tornada mais ampla de forma a aceitar uma mesa de refeições corrente, enquanto na sala-comum poderá ser arrumada, estrategicamente, num canto, uma mesa de abas fechada, que em situações festivas será aberta, centrada na sala, após uma re-arrumação provisória dos restantes elementos de mobiliário. Fig
As questões levantadas, numa habitação corrente, são, essencialmente, de natureza dimensional e “ambiental”, e geradas pela situação de poder existir uma mesa ampla, apenas periodicamente usada, por exemplo, ao jantar e no final da semana. Situação que não parece ser negativa desde que a mesa esteja estrategicamente situada de modo a permitir que nela se desenrolem outras variadas actividades domésticas. Numa habitação corrente pode colocar-se a questão do posicionamento único ou múltiplo da(s) zona(s) de refeições domésticas, uma questão que se resolve na ideia de que uma mesa é sempre um pólo potencial de convívio e um local de múltiplas actividades e, portanto, nunca está a mais – por exemplo na cozinha uma pequena mesa central será útil para refeições rápidas e também oferece um plano de trabalho suplementar para a preparação de refeições e o apoio diversificado às refeições.

Refeições domésticas: novidades, dúvidas e tendências (ex., trabalho em casa; idosos, etc.)

Claude Lamure (4) estudou as vantagens e desvantagens de diversos tipos de posicionamentos, únicos ou múltiplos, das zonas de refeições domésticas e concluiu que as disposições mais interessantes articulam cozinha e zona de estar em torno de um espaço de refeições bem aberto tanto sobre a sala, como sobre a cozinha; e aponta que a distinção entre diversos tipos de refeições poderá realizar-se, simplesmente, pelo cuidado posto no seu arranjo e desenvolvimento (ex., toalhas e louças especiais), pelo uso específico de elementos de “cenário” e encerramento (ex., cortinas, portas de correr) e/ou pela variada disposição e extensão da mesa (chegada mais à parede e à cozinha ou mais centrada e integrada com a sala).

Notas
(1) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 201.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 200.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 741 e 742.
(4) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 202.


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XI, n.º 566
Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor

A renovada importância das zonas de refeições domésticas - Infohabitar n.º 566

Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, maio 15, 2011

346 - A casa e a habitação - artigo de José Forjaz - Infohabitar 346

por José Forjaz

Infohabitar, Ano VII, n.º 346

Nota do editor:


É com uma muito especial satisfação que se edita, esta semana, um artigo do arquitecto José Forjaz, uma pessoa que não precisa de apresentações e que nos deu a oportunidade óptima de podermos editar um conjunto precioso de reflexões sobre a natureza e a importância do tema "a casa e a habitação"; e é sempre muito importante podermos ter palavras escritas de projectistas de Arquitectura, palavras que, por exemplo, podem ser lidas e comentadas em escolas de Arquitectura e em outras escolas que se dediquem ao Habitar.


É uma honra para o Infohabitar poder contar com o arquitecto José Forjaz na sua galeria de colaboradores, desejando-se que esta seja a primeira de muitas participações e aproveita-se para fazer, aqui mesmo, uma ligação para um artigo não há muito tempo editado no Infohabitar sobre a última e excelente exposição deste projectista, sempre cívica e socialmente empenhado, que tem uma arquitectura do habitar que para além de um desenho, desde sempre, muito apurado, está sempre plena de referências humanas calorosas e de relações com "modos de fazer" tão ligados aos habitantes, quanto ao clima, quanto a quem pode fazer as obras localmente, contribuindo-se, assim, para a vitalização do meio social e económico de cada sítio - a ligação é a seguinte:

http://infohabitar.blogspot.com/2011/01/ideias-e-projectos-de-jose-forjaz.html

Em anexo a este artigo continua a divulgar-se a próxima sessão técnica no LNEC, dedicada à temática do conforto higrotérmico e visual habitacional: dia 23 de Maio no LNEC, o WORKSHOP - Conforto, Satisfação, Energia e Sustentabilidade.

António Baptista Coelho



A casa e a habitação

A habitação é, para o arquitecto, o que anatomia é para o medico ou o desenho da figura humana era para o pintor o escultor e… o arquitecto.


A habitação é arquétipo do espaço habitável


É o espaço que contem todas as dimensões da arquitectura que é, por definição, a dimensão construída do habitat humano.


O espaço da habitação é o referencial essencial de todos os espaços: do sacro ao áulico, do lúdico ao didáctico, do cénico ao comercial, do sensual ao ascético.


Disse-se que a casa é uma dimensão comprimida ou simplificada da cidade e, vice versa que a cidade é a dimensão expandida e complexa da casa.


Duas verdades por antinomia ou, talvez apenas, por simetria cujo significado dá a dimensão universal do espaço domestico.


A casa é o refúgio primordial.


A habitação deve ser o factor de contrabalanço dos desequilíbrios que a erosão da paciência impõe ao homem moderno.


Nesse sentido a casa é o útero consciencializado e revisitado.


Mas a casa é também a expressão da cota social da pessoa e da família, onde perde o seu sentido intimista a se torna num meio de promoção, voire o estatuto económico e cultural dos seus moradores.


De todas as espécies animais superiores a espécie humana é a que maior diferenciação apresenta quanto às formas do seu habitat e da sua habitação.


As diferenças são em primeiro lugar quanto á sua posição na escala da riqueza pessoal; quanto ao seu estatuto na escala da importância politica; quanto à iluminação da cultura que reflecte; quanto às tradições do habitar, quanto às características do meio ambiente e, certamente, quanto às idiossincrasias pessoais de quem a encomenda e a realiza.


Estes condicionamentos afectam e definem igualmente clientes e arquitectos, o meio sócio - cultural e o meio ambiente.


Não é, portanto, estranho que as formas de habitar sejam tão diversas quanto o são as possíveis combinações daqueles factores e que se vejam formas tão diversas de habitar em climas idênticos e tão semelhantes em diferentes climas.


Com a evolução dos meios de comunicação e informação e com a generalização das ferramentas tecnológicas; com a diluição do valor das tradições espaciais e formais; com a criação de novas classes oligárquicas e a explosão da correspondente miséria urbana a uma escala nunca vista no planeta, acontece, agora, uma generalização única e sem precedentes de novas formas desumanas de habitar, ao mesmo tempo que se realizam, por todo o lado, habitações que banalizam dimensões de desperdício e luxo nem sonhadas sequer no império romano ou na India dos maharajahs.



De um extremo ao outro vai a dimensão da nossa consciência.


Qual será então a posição do arquitecto?


Quais os termos, a justa medida, o referencial correcto, o contributo válido?



Na evolução da função social do arquitecto a competência técnica e a criatividade artística são parâmetros insuficientes para uma tabela de valores a considerar.


A validade social do projecto, tão difícil de medir, deve ser, cada vez mais, um dos valores essenciais na avaliação da sua qualidade.


O debate sobre se tudo é válido, sendo tudo possível, deverá ou não ser refrescado?


A potência mobilizadora se uma literatura cada vez mais insidiosa, alimentada de heroicidades expressivas baseadas no efeito hipnotizador do diferente, consegue, hoje, vender, a um público snob e cinicamente manipulado, as propostas mais irracionais, quer em aspectos ambientais quer em aspectos primários de conforto, quer em aspectos de habitabilidade básica, quer, simplesmente, em termos da sua integração no ambiente natural ou urbano.


A arquitectura não é o “jogo sábio dos volumes...etc ”, da afirmação corbusiana ... ou não é só isso.


É, de facto, muito mais que isso.


É a arte de criar espaços habitáveis, entenda-se: física e psicologicamente saudáveis e equilibrados, indutores da sensação de protecção ( no sentido do “shelter” ), tectonicamente racionais, ambientalmente sustentáveis e, consequentemente, económicos no sentido mais amplo do conceito.


A arquitectura vale pelo espaço que encerra e pela sua inserção contextual no espaço natural ou urbano.


Nesta base, e só nesta base, toda a criatividade mobilizada para a concepção da casa é não só possível mas necessária e obrigatória.


Só assim o habitat se torna casa.



José Forjaz

Maputo, Moçambique
28 de Abril de 2011

O editor do Infohabitar junta, em seguida, a ligação para o site do atelier do arquitecto José Forjaz
Site do Atelier de José Forjaz: "José Forjaz Arquitectos"


http://www.joseforjazarquitectos.com/



Anexo: divulgação de uma próxima sessão técnica no LNEC , dedicada à temática do conforto higrotérmico e visual habitacional

23 de Maio no LNEC: WORKSHOP - Conforto, Satisfação, Energia e Sustentabilidade, integrado no Projecto “Desenvolvimento de modelos de conforto térmico evisual sustentáveis” (PTDC/ECM/71914/2006) co-financiado pelaFundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).


Participantes

Eng.º C. Pina Santos (LNEC)

Dr.ª Margarida Rebelo (LNEC)

Dr. Luís Matias (LNEC)

Dr. António Santos (LNEC)

Dr.ª Sílvia Almeida (FCT)

Doutor Hélder Gonçalves (LNEG)

Eng.º Ehsan Asadi (FCTUC/DEM)

Eng.º António Costa Brás (Philips Iluminação)

ENTRADA LIVRE


Inscrições para email: cursos@lnec.pt


fax: 21 844 30 14

Lisboa. LNEC

23 de Maio de 2011

Notas editoriais:


(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


Infohabitar, Ano VII, n.º 346, 15 de Maio de 2011

domingo, junho 20, 2010

301 - 1.º CIHEL – Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono 22 a 24 de Setembro 2010 Lisboa ISCTE-IUL, - Infohabitar 301

Infohabitar, Ano VI, n.º 301
1.º CIHEL – Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófonosobre o tema: Desenho e realização de bairros para populações com baixos rendimentos - 22, 23 e 24 Setembro 2010, Lisboa, Centro de Congressos do ISCTE – IUL - de 20 a 22 de Setembro decorrerá um Workshop sobre o tema
autoria dos textos de divulgação do 1.º CIHEL
António Baptista Coelho (Grupo Habitar e LNEC)
Paulo Tormenta Pinto (ISCTE-IUL e CIAAM)
António Reis Cabrita (Coordenador da Comissão Científica)



Prezados leitores,

Na continuidade da edição nº 300 do Infohabitar, a revista do Grupo Habitar, e na sequência de uma extraordinária 19.ª Sessão Técnica, com mais de 120 inscritos em 16 de Junho de 2010, sobre Reabilitação Urbana e Habitacional, com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e da CidadeGaia SRU - Sessão à qual dedicaremosuma próxima reportagem - é com uma satisfação e um entusiasmo muito especiais que hoje, aqui, fazemos a primeira divulgação do 1.º CIHEL – Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono, a realizar entre 22 a 24 Setembro 2010, em Lisboa, no centro de Congressos do ISCTE – IUL.

Em próximas edições do Infohabitar daremos a devida divulgação às temáticas específicas que irão ser abordadas nas cerca de duas dezenas de palestras a apresentar no Congresso, e às entidades e empresas que apoiam este 1.º CIHEL.

Em seguida faz-se a apresentação da temática do congresso e dos seus principais objectivos, bem como dos conferencistas previstos, salientando-se, desde já, que as inscrições estão abertas e que o primeiro prazo de inscrição termina no próximo dia 30 de Junho.



Fig. 01: o 1.º CIHEL – 1.º Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono


1.º CIHEL – Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono
Desenho e realização de bairros para populações com baixos rendimentos
22, 23 e 24 Setembro 2010, Lisboa, Centro de Congressos do ISCTE – IUL
de 20 a 22 de Setembro decorrerá um Workshop sobre o tema

INSCRIÇÕES ABERTAS, CONSULTE O ENDEREÇO
http://cihel01.wordpress.com/

1.ª data de inscrição até dia 30 de Junho - Pede-se uma especial atenção para o cumprimento das indicações referidas no site do 1.º CIHEL, essenciais para se identificarem, rigorosamente, os pagamentos realizados no âmbito das incrições no Congresso.

Organização do Congresso: Grupo Habitar - Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional (GH); Centro de Investigação em Arquitectura e Áreas Metropolitanas (CIAAM); Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE – IUL Instituto Universitário de Lisboa.

Presidente do Congresso: Arq.ª Helena Roseta, Vereadora da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa

Comissão de Honra do Congresso: Dr. António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa; Dr. Domingos Simões Pereira, secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP); Arq. João Rodeia, Presidente da Ordem dos Arquitectos; Eng.º Carlos Matias Ramos, Bastonário da Ordem dos Engenheiros; Prof. Luís Reto, Presidente do ISCTE-IUL; Presidente do Conselho Directivo do IHRU; Presidente do Conselho Directivo do LNEC.

Direcção do Congresso: António Baptista Coelho - Grupo Habitar (GH) e NAU/LNEC; Paulo Tormenta Pinto - ISCTE-IUL e CIAAM

Comissão Científica do Congresso: Prof. Arq.º António Reis Cabrita (coordenador) - GH e LNEC ap.; Prof.ª Arq.ª Ana Vaz Milheiro - ISCTE-IUL e CIAAM; Eng.º Defensor de Castro - GH e CidadeGaia – SRU; Prof. Arq.º José António Bandeirinha - UC e CES; Investigador Coordenador, Eng.º José Vasconcelos Paiva - GH e LNEC ap.; Prof. Arq.º Manuel Correia Fernandes - GH e FAUP; Prof. Arq.º Manuel Correia Guedes - DECA/IST; Prof.ª Arq.ª Sheila Walbe Ornstein - FAU/USP

Este 1.º CIHEL é realizado pelo Grupo Habitar (GH) em parceria com o Centro de Investigação em Arquitectura e Áreas Metropolitanas (CIAAM) e com o Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE – IUL Instituto Universitário de Lisboa.



Fig. 02: Grupo Habitar (GH) em parceria com o Centro de Investigação em Arquitectura e Áreas Metropolitanas (CIAAM) e com o Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE – IUL

O 1.º CIHEL Conta, desde já, com a cooperação institucional de diversas entidades destacando-se o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (NAU – LNEC) e o Centro de Estudos Africanos do ISCTE – IUL, mas também o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, a Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), o Centro de Investigação Arquitectura e Modos de Habitar da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (CIAMH-FAUP), o Instituto para a Inteligência Territorial e Urbana (IITU) e professores e investigadores do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Aveiro e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).

Em termos dos apoios existentes destacam-se, nesta fase de preparação dos trabalhos, os do ISCTE – IUL Instituto Universitário de Lisboa, com as cedências do seu Grande Auditório (com 500 lugares) e de outras salas para reuniões e acções complementares.

Outros apoios e patrocínios encontram-se, actualmente, em diversas fases de estruturação e serão devidamente referidos em próximos artigos do Infohabitar dirigidos para a divulgação do 1.º CIHEL – Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono.




Fig. 03: salienta-se que a linha gráfica do 1.º CIHEL e designadamente o seu símbolo foram realizados por alunos do 12.º ano do Curso Profissional de Design Gráfico da Escola Secundária de Sacavém, incluindo um concurso de ideias para o respectivo símbolo.




Apresenta-se, em seguida, sinteticamente, o 1.º Congresso Internacional Habitação no Espaço Lusófono, o 1.º CIHEL.

Com este Congresso pretende-se alargar o debate sobre a Habitação, em sentido amplo, a outras realidades sociais fisicamente distantes mas afectivamente próximas, em que se destaca o mundo dos países lusófonos em geral e os de África em particular, incluindo-se uma reflexão sobre soluções muito económicas para situações especiais.

Dada a dimensão e complexidade do tema a debater no Congresso o Grupo Habitar rodeia-se de um conjunto de entidades nacionais, com destaque para o Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE-IUL, ligadas ao conhecimento e realização das múltiplas áreas do habitar, numa perspectiva que quer iniciar um processo de discussão e divulgação desta matérias, de uma forma expressivamente participada, visando-se criar um sítio de abordagem destas áreas temáticas, em português, de uma forma multidisciplinar e multi-institucional.
Visa-se, também, a obtenção de resultados práticos úteis e bem fundamentados, numa altura em que, já no século das cidades, encaramos, provavelmente, também, uma fase de grandes carências habitacionais, motivadas não só pela actual tendência de concentração urbana, como também pelo fortíssimo acréscimo populacional que acontece em países em desenvolvimento e, naturalmente, pela actual escassez de recursos financeiros; todos estes aspectos que recomendam procurar-se aproveitar todos os recursos disponíveis em termos de se poder habitar melhor e considerando-se a enorme importância desse melhor habitar em termos de desenvolvimento humano e social.

Este 1.º CIHEL é um Congresso que se debruça sobre a qualidade do habitat residencial promovido para populações com baixos rendimentos e mobilizando portanto recursos modestos.
Trata-se portanto de um desafio porque não abdica de satisfazer as necessidades essenciais ao pleno desenvolvimento social das populações, nomeadamente em termos de habitabilidade e de serviços urbanos e sociais, mas pretende fazê-lo com sustentabilidade e dignidade, e, portanto, com qualidade em termos de uma expressivamente positiva arquitectura urbana.



Fig. 04: ... sobre a qualidade do habitat residencial promovido para populações com baixos rendimentos e mobilizando portanto recursos modestos ...

O campo de aplicação de tal objectivo tanto pode ser o das pequenas comunidades urbanas periféricas da Europa, nomeadamente mediterrânica, que lutam com problemas de isolamento e escassez de recursos, como pode ser o de todas as comunidades urbanas dos países em desenvolvimento (não incluindo, por ora, as comunidades rurais destes países que poderão ter especificidades complexas). Afinal, as futuras exigências de sustentabilidade ambiental, social e económica aproximam cada vez mais estes dois grupos de populações.

A abordagem através de um evento amplo sobre tais desafios recomenda realismo, humildade e sentido prático, mas também ambição. Estes desafios têm diversas vertentes disciplinares, científicas, sociais, políticas, económicas, mas entre elas avulta a da concretização do habitat, nomeadamente do habitat residencial, a do desenho e realização dos bairros para populações com baixos rendimentos. É sobre este tema central, que é, ou deve ser, concretizado através da arquitectura e do projecto urbano, envolvendo o desenho do espaço público, das habitações e dos equipamentos colectivos de proximidade, que se pretende desenvolver o 1º CIHEL.

Este tema central do desenho e realização de bairros e agrupamentos residenciais para populações com baixos rendimentos será abordado, no 1.º CIHEL, em 5 conferências e 16 a 20 comunicações/palestras práticas e pouco extensas, por um grupo de oradores provenientes de diversos países da lusofonia, organizadas nas seguintes temáticas mais específicas, que serão objecto de adequado desenvolvimento em próxima circular de divulgação:

• Tema A: políticas e programas – considerando situações de escala relativamente reduzida e a importância da reabilitação e da gestão, tudo isto numa perspectiva de desenvolvimento marcado, frequentemente, por necessidades críticas.

• Tema B: infraestruturas e equipamentos locais – considerando perfis de habitabilidade e de infraestruturação, funções e potencialidades do espaço público e dos serviços urbanos e sociais.

• Tema C: soluções habitacionais e modos de vida – considerando velhas e novas formas de habitar, desejos e necessidades e relações entre família e vizinhança e entre vizinhança e cidade.

• Tema D: materiais e tecnologias – considerando aspectos ligados à escassez de recursos, às técnicas disponíveis e à adequação tipológica, bem como a associação às diversas facetas da sustentabilidade – ambiental, económica e sociocultural.

De forma integrada com o Congresso decorrerá uma Exposição, organizada com painéis ilustrativos de casos práticos e de estudo integrados nas referidas temáticas e que assim terão a devida divulgação, também por contacto com os respectivos responsáveis, sendo que nesta exposição será dado relevo a casos/estudos considerados especialmente significativos.

Simultaneamente e em contiguidade com 1º CIHEL decorrerá uma pequena exposição de materiais e serviços direccionados para as temáticas da concepção e da construção do habitar.

Na véspera e/ou na sequência do Congresso poderão decorrer outras actividades, a definir, como será, por exemplo, o caso de visitas técnicas a instituições, indústrias e casos de referência dentro da temática do 1º CIHEL.

O congresso irá, assim, abranger contribuições de arquitectura residencial associadas aos diversos níveis físicos do habitat e às suas relações mais importantes, considerando, sempre que possível, a satisfação dos habitantes: da cidade e, designadamente, do pequeno bairro às vizinhanças urbanas, edifícios residenciais e habitações. Os trabalhos do congresso deverão poder ser úteis no apoio à concepção arquitectónica e na análise de um amplo leque de espaços residenciais, do bairro à pequena banda de edifícios e ao espaço doméstico, servindo como catalizador de ideias sobre grande conjunto dos espaços do habitat humano, e no âmbito do habitat humano que fala português.


Fig. 05: ... painéis sobre casos práticos e de estudo integrados nas referidas temáticas ...

Há, no entanto, neste 1.º CIHEL, e tal como foi já apontado, uma circunscrição temática em áreas urbanas ou peri-urbanas relativamente recentes, numa limitação prática decorrente da grande especialização requerida por zonas urbanas antigas e por zonas rurais ou semi-ruralizadas, umas e outras exigindo abordagens específicas e urgentes reabilitações. Outra razão para esta circunscrição temática é o objectivo de uma mais intensa utilidade desta discussão no apoio ao desenvolvimento de habitações com qualidade e custos controlados, cujos empreendimentos se situam, correntemente, em zonas urbanas ou peri-urbanas recentes.

Trata-se, assim, fundamentalmente, de apresentar e discutir, em português, neste 1.º CIHEL, opções e ideias sobre espaços residenciais e urbanos, considerando a sequências vivas entre os pequenos mundos domésticos, as nossas casas, e os nossos bairros ou partes de cidade, percorrendo e parando nas ruas e pracetas onde moramos e convivemos, num estimulante ritmo de cenários urbanos vivos e bem projectados à escala da arquitectura urbana, mas nunca arriscando quaisquer tipos de "receitas" formais e funcionais, e tendo-se mesmo o cuidado de se salientar que cada realidade é específica, cada sítio é um sítio único e cada novo empreendimento, para além desta sua identidade básica, deve ter intenções de projecto e vivência específicas, integrando identidade e intenções num carácter único e bem apropriável.

Não há dúvida que este tema cheio de desafios e de uma certa aventura onde o trabalho comunitário de jovens ou de experientes arquitectos se combina com a imaginação, a racionalidade e a inovação técnica. Para enriquecer e animar um evento desta natureza está previsto mobilizar os seguintes tipos principais de intervenientes:

• arquitectos que tiveram uma vida cheia de acções de pioneirismo e de criatividade, com obras que são marcos históricos, e que nos podem dar o seu testemunho, directamente ou por interposta pessoa;
• jovens, ou talvez mesmo muito jovens, arquitectos que estão, fora dos grandes centros urbanos, a fazer trabalho básico para o habitat residencial e urbano;
• técnicos que em actividades de projecto de edifícios habitacionais e de bairros e suas infra-estruturas e equipamentos, mas também na actividade de planeamento e de gestão, estão a resolver problemas e a concretizar obras com qualidade apesar de poucos recursos;
• técnicos e investigadores que estudam e promovem soluções inovadoras para a habitação, para o habitat residencial e para o meio urbano em termos de sustentabilidade.

O Congresso a realizar em Setembro de 2010 nas instalações do ISCTE-IUL, em terá a duração de três dias, mas apenas com uma sessão no final do primeiro dia. Tem-se promovido a adesão e participação de entidades portuguesas e dos países de língua portuguesa ligados à problemática da habitação de baixo custo, bem como de escolas e associações profissionais nomeadamente as de arquitectura.

Pretende-se neste 1º Congresso uma especial adesão de jovens arquitectos e de alunos e por isso o Congresso será antecedido por um “Workshop” prático dirigido a eles sobre este tema, a realizar em cooperação com a licenciatura em Arquitectura do ISCTE - IUL e, eventualmente, com outras unidades de ensino e investigação que queiram cooperar. Este Workshop decorrerá entre o início do Congresso e a segunda-feira que o antecede, terá o seu âmbito e condições de inscrição adequada e atempadamente definidas. Os resultados deste Vorkshop serão apresentados no Congresso. O Workshop será iniciado com Conferências de projectistas e/ou estudiosos nas matérias objecto do 1º CIHEL.

Mais de 60 comunicações/palestras passaram já um primeiro crivo de análise, das quais 16 a 20 serão seleccionadas para apresentação oral, sendo que as outras serão editadas nas actas e apresentadas em posters; em próximos artigos de divulgação do 1.º CIHEL, aqui no Infohabitar, daremos a devida divulgação aos temas abordados nessas comunicações/palestras.

Os cinco conferencistas previstos são os seguintes:

• Conferência de abertura na tarde de dia 22 de Setembro, pelo Arquitecto João Filgueiras Lima (Lelé) ; sobre o tema do congresso.

Professor Doutor Arquitecto António Gameiro, Bastonário da Ordem de Arquitectos de Angola, Consultor do Ministro do Urbanismo e Habitação da República de Angola e Presidente da Junta Directiva do CIALP, Conselho Internacional de Arquitectos de Língua Portuguesa – conferência sobre o actual desenvolvimento urbano e habitacional em Angola.

Professor Arquitecto Paulino Pires, professor da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane, Director-Adjunto de Infra-estruturas para a área de Estudos e Projectos do Conselho Municipal de Maputo – conferência sobre a problemática habitacional em Moçambique.

Arquitecto Estanislau da Silva Ferreira, Assessor do Ministro das Infra-estruturas da Guiné-Bissau e Director do Serviço de Viabilização de Terrenos e da Habitação Social, coordenou o projecto de Habitação Social SERVITAS – conferência sobre a problemática da habitação sob o ponto de vista social na Guiné-Bissau.

Arquitecto José Dias, em Moçambique foi consultor municipal em várias cidades e director da Empresa Estatal de Projectos de Arquitectura, durante cerca de 20 anos desenvolveu actividades na área da habitação social no Instituto da Habitação de Macau– conferência sobre o tema pensar a habitação a partir da experiência de habitação social em Macau.



Fig. 06: este é um 1º CIHEL, a que, sem dúvida, se seguirão outros ...


Este é um 1º CIHEL, a que, sem dúvida, se seguirão outros sobre outros enfoques complementares (mais sociais, metodológicos, políticos, económicos ou produtivos, etc.), ou com o mesmo tema mas tratado de forma mais abrangente.
Pretende-se criar, na sequência deste 1º Congresso, um grupo, uma rede, e/ou um Secretariado Permanente, para assegurar o próximo CIHEL e desenvolver outros eventos de discussão, divulgação e aprofundamento destas matérias.

O CIHEL corresponde, assim, a uma iniciativa que poderá e deverá acontecer, em edições posteriores, eventualmente, em outros locais do espaço lusófono, dentro e fora de Portugal, com os mesmos e/ou com outros parceiros; esta é uma ideia que resulta da própria natureza participativa, aberta e multidisciplinar que marca o Grupo Habitar e que, desde o início desta ideia, marcou a razão organizativa e os objectivos do CIHEL.

Todas as informações sobre o Congresso constam do site do 1.º CIHEL:
http://cihel01.wordpress.com/

Informações complementares serão dadas pelo Secretariado do 1.º CIHEL:

Departamento de Arquitectura e Urbanismo ISCTE – IUL
Ala Autónoma, Sala 335
Avenida das Forças Armadas
1649-026 Lisboa

ou pelo telefone
+351 21 7903060

ou pelo mail
cihel01@gmail.com

(Congresso Habitação Espaço Lusófono)
Infohabitar, Ano VI, n.º 301
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 19 de Junho de 2010