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terça-feira, dezembro 03, 2019

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 711

Ligação direta (clicar) para:  700 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - Infohabitar 705 (36 temas e mais de 100 autores)


Infohabitar, Ano XV, n.º 711

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 711

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Nota prévia:
A Série “Habitar e Viver Melhor”, assim como outras temáticas teórico-práticas nas áreas específicas da “arquitectura do habitar”, com destaque para os assuntos associados a uma habitação intergeracional bem integrada  - matérias, como sabemos, “centrais” na edição da Infohabitar - serão retomadas em 2020, salientando-se que, por agora, a nossa revista continuará a dedicar-se a uma edição comentada de esquissos/desenhos, seja numa perspectiva da própria prática do desenho livre, seja considerando, especificamente, os aspectos de arquitectura e de habitar que estejam, eventualmente, associados a cada tema desenhado.
O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos  – Infohabitar 711

Por António Baptista Coelho (imagens e textos)

Introdução e nota prévia
Alerta-se o leitor para um artigo que se inicia com uma reflexão textual, que se procurou não fosse excessivamente longa, seguida de uma reflexão informalmente ilustrada, em que alguns desenhos ( 6 desenhos coloridos) são apresentados e minimamente comentados, salientando-se matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às matérias tratadas no artigo, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.
Salienta-se, ainda, a título de nota prévia e justificativa, eventualmente desnecessária mas cuidadosa, que as ideias que são seguidamente apontadas correspondem a uma reflexão estritamente pessoal sobre a matéria.
Enquadramento da temática dos velhos/novos espaços urbanos
A temática referida no título do presente artigo, através da frase “velhos/novos espaços urbanos”, refere-se, essencialmente, à ideia de que, nos tempos de hoje, numa época (desejavelmente) marcada pelo uso pedonal e “suave” (modos suaves de movimentação: em bicicletas; em transportes públicos eléctricos; em veículos partilhados, etc.) do espaço público urbano, será talvez altura de podermos reavaliar e reintroduzir soluções de Arquitetura urbana, que integrem, e profundamente – portanto, no “pleno uso” dos respetivos e muito amplos leques de tipologias de espaços e aspetos de pormenor – morfologias de edifícios e de espaços públicos, sendo ambas, expressivamente, marcadas pela escala humana, e pela diversidade e mutação de agradáveis e atraentes sequências de imagens, verdadeiramente catalizadoras do movimento e da permanência.
Cabe aqui atentar em que uma tal integração profunda e morfológica de edifícios e de espaços públicos, levará a projetos globais e bem conjugados, em que, verdadeiramente, os alçados do edificado sejam, também, alçados de ruas e pracetas, e em que os pisos térreos, por exemplo, eventualmente utilizados para equipamentos coletivos, possuam um projeto, e uma previsão de arranjo, uso e manutenção que, verdadeiramente, associe cuidados privados, comuns e públicos, prevendo-se e procurando-se influenciar o que ali irá acontecer nos espaços de “rua” contíguos.
Uma perspetiva de reflexão projetual que será, portanto, associável, globalmente, a soluções urbanas,  habitacionais e funcionalmente mistas, formalmente variadas, multipontualmente marcadas pela escala e pelo uso humanos e que apresentarão, com naturalidade, alguma similitude com as soluções que marcaram boa parte das nossas povoações e bairros “históricos”.
Uma nota importante a considerar
Importa, no entanto, dizer, desde já, que esta possibilidade não encerra em si qualquer tipo de criticável saudosismo arquitetónico, mas sim, basicamente, a ideia de podermos usar um léxico amplo e extremamente variado de soluções de arquitetura urbana, reinterpretadas, naturalmente, à luz de novas e atuais exigências funcionais e de novos modos de habitar, e não continuarmos a usar o catálogo, comparativamente, muito limitado e pobre de soluções que poderemos designar de “funcionalistas”, ainda por cima, tantas vezes empobrecidas, nos seus aspetos estruturantes e numa frequente ausência de adequada pormenorização, por projetos de Arquitetura que não souberam e/ou “puderam” usar esse “funcionalismo” de forma expressivamente adequada e marcante, e que, tantas vezes se limitaram a repetir, sem verdadeira racionalidade, receitas funcionais, habitacionais e de equipamentos que foram espartilhando a cidade em zonas e microzonas funcionalmente quase estanques, frequentemente bloqueadoras da natural acessibilidade mútua, e, ainda por cima, tantas vezes vazias de qualquer marca de arte urbana ou de coerente e motivadora paisagem urbana.
Alguns desenvolvimentos recentes e de referência
Chegados aqui, regista-se que num recente estágio orientado pelo autor destas linhas (de um mestrando do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), dedicado, globalmente, às matérias associadas ao uso do espaço público e à respetiva satisfação com o espaço público em conjuntos de habitação de interesse social brasileiros, e no âmbito das visitas práticas realizadas a diversos conjuntos urbanos e residenciais, aconteceu uma natural vontade de visitar também um dos principais bairros históricos de Lisboa, Alfama (considerado um dos mais antigos bairros da Europa), exatamente porque há, hoje em dia, a ideia, naqueles que ocuparam boa parte das suas vidas a estudarem o espaço urbano, que as “doutrinas” racionalistas não têm, frequentemente, o necessário “suplemento de alma” que faz de um bairro o “nosso bairro”, de uma rua a “nossa rua” e de um edifício e de uma habitação a “nossa casa”.
Considerando tudo isto, precisamos de exigir mais dos nossos espaços urbanos e de vida e há que procurar, designadamente, onde tais espaços de vida parecem “invadir”, positivamente, um relativo conjunto de estimulantes e curiosas sequências urbanas – sequências estas integradas por espaços bem pormenorizados e mais de “andar” ou mais de “estar”.
Atente-se que a crítica aqui colocada à doutrina urbana modernista ou racionalista é no sentido de ela não incluir “frequentemente” esse suplemento de alma urbano e habitacional, porque quando tais conjuntos urbanos são bem projetados eles têm essa qualidade; mas tais casos muito positivos são, infelizmente, raros e entre os quais, em Portugal, sobressai o excelente bairro de Olivais Norte em Lisboa.
E a propósito de toda esta temática sugere-se a leitura de um recente artigo do arquiteto e gestor David Galbraith, intitulado “A New Approach to Designing Smart Cities”, que está disponível na WWW e que se inicia com a seguinte frase, que é bem clara e sintética: “One day, I’d like to design a truly modern, functional city with the character of a medieval hill town”. 
Sobre uma estratégica variabilidade urbana
Por fim, para rematar a parte de texto deste artigo, salienta-se nesta temática que designámos dos “velhos/novos espaços urbanos”, um aspeto ligado à organicidade urbana, e a uma designável “taxa de variabilidade da paisagem urbana e  da paisagem edificada” – uma ideia que aqui se avança – e sublinham-se os resultados que poderão ser obtidos com uma tal estratégia:
(i) Seja em termos de diversidade e associada adequabilidade de espaços privados disponibilizados – por exemplo dos  pequenos aos grandes fogos; das habitações com acesso directo à rua, àquelas com acesso através de galerias comuns ou semi-públicas; das grandes lojas e oficinas não poluentes aos muito pequenos estabelecimentos “boutique” com temáticas e/ou finalidades muito específicas e estimulantes da curiosidade pública (ex., pequena olaria artística com venda direta).
(2) Seja em termos de estimulante organicidade, global e pormenorizada, do tecido urbano que assim se desenvolve, marcado por inúmeros potenciais percursos tão funcionais como verdadeiramente lúdicos, através de “camadas” de preocupações de projeto de Arquitetura Urbana em que os aspetos se segurança e de funcionalidade dos serviços urbanos serão devidamente salvaguardados, mas sobrepostos com os, já referidos, aspetos de uso pedonal – funcional e lúdico/passeios (o flanar) – e com o adequado planeamento de meios de deslocação, ditos, “suaves” no espaço público (incluído transportes públicos “suaves”); ainda sobrepostos com aspetos estruturantes do uso da zona em relação com transportes públicos estruturadores ao nível do bairro e da cidade e com “bolsas” e “pontos” estratégicos de estacionamento de veículos privados.
(3) Seja, também, em termos de uma estimulante organicidade global da relativa “continuidade”, ou no mínimo, sequencialidade edificada, garante de cenários que acompanham e vão motivando o peão ao longo dos seus diversificados percursos: mais funcionais ou mais lúdicos; mais conviviais ou mais pessoais.
(4) Seja, ainda, em termos da estratégica e ampla diversidade de organizações e dimensões habitacionais que, assim, poderão ser disponibilizadas, destacando-se nesta matéria a diversidade de opções de acesso e relação com o espaço público, a diversidade de localizações e a adequação a variadíssimos modos, gostos e necessidades habitacionais; numa opção bem distinta daquela que se liga a um parque habitacional com quase globais características de uniformidade associada a um regulamento com muitas dezenas de anos e a opções de planeamento rígidas e pouco ligadas à evolução da realidade urbana.
Ferramentas de projeto
Confessando que o meu perfil actual não é de projetista, mas que o foi há algumas décadas, julga-se que as atuais ferramentas de apoio informatizado ao projeto permitem uma gestão e um “manuseamento” dessa referida desejada globalidade e diversidade de Arquitetura Urbana – visando-se esses objetivos de visão simultânea de verdadeiros “complexos” de espaços edificados, públicos e semi-públicos, e a sua estratégica, respetiva e relativa continuidade de variação – muito mais adequada e potente do que aquela que havia há algumas dezenas de anos, quando tudo se fazia “a lápis e tinta” sobre folhas de papel vegetal, em que qualquer pequena alteração levava a muito complexas e dimensionalmente sensíveis operações (ex., raspar, cortar, colar) ou ao redesenhar de muitas peças de projeto; e o que poderemos dizer das atuais ferramentas de apoio ao rigoroso levantamento dos espaços a intervencionar?
Tudo, julga-se, ferramentas que, desde que bem usadas e nunca substituindo a vital fase de esquisso das ideias e de verdadeira reflexão gráfica (sempre muito pessoal) sobre as mesmas, serão excelentes para se ir obtendo uma nova ou renovada paisagem urbana , vibrantemente construída por espaços cheios e vazios, sem monotonia e sem anonimato, capazes de nos proporcionarem os sítios próprios de vida que qualificam a nossa identidade e que nos orientam e sugerem comportamentos positivos nas nossas movimentações.
Alguns desenhos minimamente comentados

Conclui-se, aqui, a parte mais textual do artigo e avança-se, tal como foi apontado, logo de início, para a apresentação de alguns desenhos ( 6 desenhos coloridos), que são minimamente comentados, salientando-se matérias da Arquitetura do habitar, associáveis às temáticas abordadas no artigo, mas não se descurando alguns brevíssimos comentários relativos ao desenvolvimento dos respetivos desenhos.


Fig. 01: A propósito de um “recanto urbano” que esboça uma situação caraterística de um bairro histórico lisboeta, evidencia-se a proximidade entre os vãos habitacionais e a potencial vivência do espaço público contíguo, uma proximidade que marca a continuidade perspetivada desse espaço público (vista em perspetiva e minimamente antecipada) e que “pontua” a diversidade orgânica de volumes edificados visíveis. Em termos de desenho trata-se de um esboço a tinta, que foi depois aguarelado e tratado com sombras azuis.


Fig. 02: Um “quadro” urbano que marca uma potencial sequência de deslocação ou passeio com o “objetivo”
(“inantigível”) de uma linha de horizonte marítima, bem enquadrada pelas edificações que vão assinalando, expressivamente, a descida da rua; um tecido urbano “micro” que sublinha esses aspetos de denteado que apontam a descida e que, com os seus aspetos de pormenor – vãos de porta e de janela – acentuam a escala humana que invade todo o “quadro”; e um potencial de escolha entre duas ruas que se juntam em primeiro plano, proporciona estimulantes alternativas e escolhas. Em termos de desenho, trata-se de um assinalar da própria importância do esboço no desenho final, com traços de lápis, ainda bem visíveis e que, praticamente, “saltam” para as aguadas de cor, que evidenciam ocres alaranjados num adequado equilíbrio com os azuis do rio/mar e do céu. 


Fig. 03: A esquematização de um “complexo” edificado norte-africano que evoca a forma de geração e de consolidação das primeiras povoações, quando edifícios/habitações multifuncionais se juntavam a outras habitações multifuncionais, quase sem ruas; os tons de ocre também se referem ao sentido primordial da terra como elementos de geração desta “colina habitada”; e é esta conjugação de formas edificadas, interligadas, continuadas ao longo das “frestas/ruas”, que se evidencia numa qualidade bem distinta dos modernistas e isolados edifícios racionalistas, bem separados uns dos outros e, afinal, nada solidários. O lápis de cor aguarelável é sempre um meio “sereno”, simples de manobrar, dependendo o efeito final do tempo que lhe dedicamos e que pode dar-nos, logo, um dado efeito, ou, com uns borrifos de água (bem controlados: atenção, pois há que dar tempo à água para se misturar na tinta), ser uma agradável surpresa (em textura e tonalidades).


Fig. 04: Um pouco a mesma lógica, apontada na figura 3, quando edifícios/habitações multifuncionais se juntavam a outras habitações multifuncionais, neste caso já com algumas ruas que se percebem existir pelas sombras que as ocupam; e em vez do ocre a tendência para o branco da cal e para o branco azulado das sombras; e o pontuar dos telhados alaranjados; um sentido de conjunto urbano que carateriza os bairros históricos, que ao perto se penetram em curiosas sequências e que, ao longe, são “presépios”. Um desenho a lápis de cor muito aguarelado.


Fig. 05: Ainda a mesma ideia de uma parte de bairro urbano que se mostra com um assinalável efeito de conjunto, como se cada edifício/”casa” pouco importasse por si próprio, mas sim como peça de um puzzle, mas um puzzle que não é um quebra-cabeças, mas sim uma entidade conjunta e afirmativa, em que as unidades de cada edifico se articulam com unidades de outros edifícios contíguos ou próximos e com parcelas unitárias do respetivo espaço público intersticial. Um desenho direto a tinta (sem preparação de lápis) onde os vãos de janela adquirem assinalável protagonismo, habitando tudo; e assim se volta à temática urbana com a grande família de vãos de janela humanizadores e de relação com o espaço público.


Fig. 06: E, por fim, neste artigo, a chegada à margem, ao final do percurso, vista, neste caso, do lado do mar, e sublinhando-se formalmente os variados edifícios esboçados nos mesmos tons, com idêntica escala geral, mas formalmente bem identificáveis; numa opção em que a unidade formal do bairro ou conjunto urbano significativo, pode conviver com a identidade de cada elemento/ edifício. E, novamente, o simples lápis aguarelado.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XV, n.º 711

Uma primeira reflexão sobre velhos/novos espaços urbanos – Infohabitar 711


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, em Lisboa


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

segunda-feira, maio 21, 2018

642 - Uma rua bem habitada - A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Artigo da Série “Apresentação comentada de livros sobre o Habitat Humano", n.º I


Uma rua bem habitada 


A propósito do livro de Xavier Monteys (*) “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642


Nota prévia editorial sobre a nova Série: “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”

Com este artigo inicia-se uma linha editorial da Infohabitar, intitulada  “Apresentação comentada de livros sobre habitat humano”, desejada desde há muito e referida a uma apresentação, desenvolvida e, em alguns casos, comentada, de livros recentes e/ou considerados significativos nas áreas temáticas da nossa revista.


Não vai haver grandes limites relativamente ao ano de edição, havendo, naturalmente, um privilegiar de livros recentes e, portanto, provavelmente, menos conhecidos dos leitores, e sendo, sempre, de ter em conta a desejável disponibilidade editorial dos livros apresentados e comentados; havendo, sempre, as bibliotecas...


Como os leitores sabem tem havido já apresentações de livros na nossa revista, mas realizadas de modo eventual e sem periodicidade, ou sem um desenvolvimento ou comentário, decorrentes de uma sua leitura completa e atenta, por um dado autor, que, naturalmente, apresenta a sua opinião pessoal sobre a obra que é apresentada.


Julga-se que numa actualidade marcada pela enorme riqueza do acesso directo e indirecto à informação, através do muito que lemos na WWW e do muito que descobrimos na mesma WWW, mas uma actualidade também marcada por uma expressiva “velocidade” e, por vezes, alguma ligeireza na consideração e na reflexão sobre o praticamente infinito campo de documentação existente sobre uma dada temática, velocidade essa que é incontornável face à quantidade da referida documentação e informação, mas que, por vezes, talvez não nos proporcione um adequado “respiro” no pensar sobre um dado tema, dificultando pensamentos bem desenvolvidos sobre o mesmo, e aliás numa actualidade em que mesmo as livrarias dificilmente disponibilizam um adequado acervo editorial, substituído pelo leque de edições mais recentes e continuamente renovadas,


será altura para poder reduzir um pouco essa velocidade de “absorção de ideias/informação”, concentrando-nos, também, com algum detalhe e tempo sobre a sequência de ideias que um dado autor desenvolve num dado livro; nesta caso, evidentemente, em matérias referidas às temáticas abordadas aqui na nossa revista – e quando estava a escrever esta “justificação” lembrei-me que será um pouco resgatar o “slow-reading”, conceito este aqui inventando um pouco à imagem da “slow-food” e das “slow-cities”, numa perspectiva que não põe em causa, nem o podia fazer, a velocidade do tempo actual, mas que deseja não perder a riqueza de uma velocidade mais lenta, e eventualmente talvez mais fundamentada e ponderada, o que parece ser até bem oportuno quando se está a (re)pensar sobre o actual quadro do habitat humano pormenorizado, urbano e habitacional.


A partir de agora a Infohabitar irá procurar manter uma periodicidade mensal relativamente a esta sua nova linha editorial de apresentação comentada de livros na grande temática do habitat humano.


O editor da Infohabitar
António Baptista Coelho


Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys intitulado “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”

por António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Notas explicativas

No texto que se segue faz-se uma reflexão livre e uma apresentação comentada relativamente ao livro de Xavier Monteys (*) intitulado “La calle y la casa. Urbanismo deinteriores”, editado pela Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, em 2017 (**).
Importa desde já clarificar que os comentários desenvolvidos são, evidentemente, pessoais, designadamente, quando se apresentam reflexões que decorreram da respectiva leitura.
Na parte inicial do texto incluem-se aspectos objectivos referidos à constituição, estrutura e conteúdos do livro, embora possa acontecer que as respectivas traduções não sejam as mais correctas e/ou adequadas à intenção do autor; e por este facto e desde já se apresentam as devidas desculpas.
Nas referidas reflexões procurou-se um perfil de natural contenção, seja porque se considera que a apresentação de um livro não será o local adequado para maiores desenvolvimentos, seja porque de forma alguma se pretende substituir a leitura directa do livro; cuidado este que também esteve presente na apresentação da sua estrutura geral, que não integra todas as temáticas presentes no livro.
E desde já se recomenda a leitura desta obra de Xavier Monteys.

Apresentação geral

Nas palavras de Xavier Monteys: “este livro aspira a integrar uma trilogia sobre o espaço que habitamos – com os meus livros anteriores Casa collage (2001, com Pere Fuertes) e La habitación (2014)”; livros estes também já disponíveis na mesma coleção da Editorial Gustavo Gili.
Embora não seja este o objectivo deste texto apetece referir a cuidada e atraente edição deste livro, agradavelmente quadrangular e bem manuseável, com uma capa a duas cores, bem ilustrada com um desenho esboçado de Louis Khan, que, tal como aponta o autor do livro procura “ajudar a tornar visível uma dimensão poliédrica da rua, mas com a atenção centrada em tudo aquilo que a relaciona mais intensamente com a casa”; objectivo este que, segundo o autor, é o objectivo deste seu livro.
Um objectivo que, cruzado com a excelente e desenvolvida “Introdução” de reflexão teórico-prática com cerca de 15 pp, e uma estratégia de apresentação agradavelmente comentada, bem fundamentada (ver as úteis e quase constantes, mas bem legíveis, notas de pé de página) e muito bem ilustrada (todo o livro é extensamente ilustrado a preto/branco), nos leva a uma sua leitura estimulante; pois quando se termina a introdução estamos, praticamente, dentro do “miolo” temático da obra e está bem ganha a embalagem para se ir, com gosto, até ao fim.
O livro tem 168 pp. e a sua organização geral proporciona: (i) seja uma leitura sequencial a partir da referida introdução de apresentação teórica e prática, seguindo-se os 24 subtemas de reflexão; (ii) seja uma leitura subtema a subtema, que se recomenda que seja feita após a leitura da introdução; (iii) seja uma leitura inicial mais global e que proporciona um prático guia de (re)leitura posterior.
Interessa ainda sublinhar tratar-se de um livro com um muito amplo leque de potenciais leitores, naturalmente, bem marcado por arquitectos interessados no urbanismo de pormenor e no habitat humano, mas igualmente apetecível por todos aqueles profissionais e cidadãos que se interessem por essas matérias; a agradabilidade formal da escrita de Xavier Monteys, o seu encadear de ideias bem claras e ricas, a referida extensa ilustração, que acompanha a par e passo o texto, e o tema geral referido a como podemos ter uma cidade feita de ruas e habitações mutuamente vitalizadas, assim o proporciona.

Estrutura

Depois de uma introdução com grande interesse e expressiva autonomia como texto, o autor abre para 24 subtemas ilustrados, que em seguida se exemplificam na sua diversidade e oportunidade e que podem ser lidos, sequencialmente ou, isoladamente, um a um.
Exemplos dos subtemas abordados: entrar!; as ruas de Piranesi; ruas cobertas; ruas como palácios, janelas singulares, o que fazemos na rua, as extensões da rua, ruas de celulóide, a rua de Corbusier, a rua como escola, ruas no espaço, a pintura as ruas e a chuva, a casa praça e a casa rua, etc.

Conteúdos

Apontam-se, agora, algumas ideias que vão sendo revisitadas ao longo do livro de Xavier Monteys, seja mais directamente, na introdução, seja, bem a propósito, à medida que se dedica aos diversos subtemas, alguns dos quais acima apontados; e para uma mais fiel relação com a obra do autor vão sendo citadas, entre aspas, algumas das suas frases; lembrando-se as já apresentadas desculpas relativamente a eventuais deficiências na tradução.
Este livro aborda a rua e o habitar a rua numa perspectiva ampla, considerando-a e comentando-a como “um espaço mental, mas também um espaço mental, um estado de ânimo.”
Refere-se que terá havido um certo privilegiar da praça urbana, designadamente, em termos do seu papel na promoção do convívio, enquanto que “a rua não teve a mesma sorte”.
E salienta-se algo que ficou muito presente depois da leitura do livro: a ideia de se dever assumir a rua como verdadeiro lugar e para além da rua com infraestrutura; uma ideia que se considera ser de grande oportunidade, pois “a rua não é o resto [...], é o que mantém juntos os edifícios.” E decorrendo destes aspectos a bem útil ideia de “rua como espaço servido e não apenas espaço servidor.”
Há, depois, um privilegiar, bem oportuno, em diversas das subtemáticas (itens que estruturam o livro) de uma reflexão sobre a actual e futura diversidade, inovação e “matização” dos usos associados à rua e à habitação (à “casa”), em “contaminações mútuas”, que podem e poderão gerar desenvolvimentos da convivialidade e mesmo de um uso público dos espaços domésticos e, inversamente, de usos mais privados e/ou domésticos do espaço público, enquanto e simultaneamente podem também ser gerados interessantes e diversificados “espaços ambíguos que assumem inegável interesse na actualidade”.
E aqui, com certeza, poderão ser feitas interessantes pontes temáticas com as matérias que o autor desenvolveu nas suas obras anteriores –Casa collage, com Pere Fuertes e La habitación.
Conjugadamente com estas ideias o autor lança a noção, que se partilha, de que a função de circulação não é elemento determinante de uma habitação e, sequencialmente, pensa-se, de um espaço de habitar que integre edifícios e espaços públicos (vizinhança urbana); e simultaneamente lança-se a noção da importância que numa rua bem habitada/habitável tem o “espacio compartido” e “negociável” [entre peões e condutores], que o próprio autor refere ter sido proposta pelo Eng.º de tráfego Hans Mondermann; e aqui há que comentar que se trata de mais uma interessante noção proposta pela engenharia de tráfego e lembro que nas minhas reflexões sobre o tema foi também na engenharia de tráfego que encontrei, há bastantes anos, as primeiras referências destacadas à importante noção de vizinhança próxima.
Importa, agora, salientar a fluidez e a riqueza da leitura deste livro, que nunca fica “aprisionado” (aspas minhas) nas matérias arquitectónicas, mas que aborda e exemplifica ideias e conceitos com noções, imagens e textos, bem a propósito e bem claros, não só de arquitectos, mas, frequentemente, de outros artistas e escritores, como é o caso Orhan Pamuk e George Perec; e o resultado ganha muito na clareza discursiva e exemplificativa, fica, afinal, tal como acima referi, um livro para todos sobre um assunto que a todos nos interessa, o de uma rua mais viva e, muitas vezes, até agradavelmente doméstica.
Um aspecto cumulativo do interesse deste livro é basear-se, em parte, na vivência urbana de duas cidades: Barcelona e Lisboa. Lisboa relativamente à qual o autor aponta: a luz, a variedade, o dramatismo, etc. Muitos aspectos a ter em conta no (re)fazer da rua, num “olhar por cima da racionalidade ou funcionalidade”, que o autor considera determinante.
Ao longo do livro e sempre tendo em contas estas perspectivas, abordam-se e desenvolvem-se 24 subtemas de reflexão; iniciados com o tema “entrar” – entrar no edifício e sair da rua e vice-versa –, abordando-se aspectos físicos de “acompanhamento” e marcação das diversas acções desempenhadas na rua e dando-se o devido relevo à própria experiência humana do viver a rua e as suas margens edificadas de uma forma rica e o mais possível completa; o que, portanto, nos leva muito para além dos aspectos funcionais aplicáveis.
Desenvolvem-se e ilustram-se, assim, reflexões: (i) tanto sobre aspectos mais ligados à paisagem urbana, como as perpectivas; (ii) como sobre elementos concretos urbanos como são, por exemplo,  as pequenas ruas/ruelas e as ruas verdes/arborizadas, (iii) e como sobre as ligações destas temáticas às interpretações amplas e sintéticas que delas são feitas por quadros artísticos diversificados, designadamente, ligados ao cinema e à pintura; mas sempre interpretações centradas na rua, e no seu sentido de paisagem urbana humanizada e estrategicamente confinada.
Trabalham-se, depois, neste livro, as margens das ruas, na sua ligação/fusão com os edifícios e as habitações e, ainda, os espaços ambíguos, que não se sabe se serão ruas, tal como aponta e comenta o autor.
Sobre as margens da rua aborda-se uma “primeira coroa” dos edifícios e suas habitações que deve ser influenciada por esse seu papel dialogante com a rua e com as respectivas habitações – pois, tal como aponta o autor, a cidade molda a envolvente mais pública dos quarteirões e, designadamente, os compartimentos e outros elementos edificados que integram essa primeira coroa mais pública, na qual surgem vãos com diversas funções, de protecção, de ligação, de estadia e de relação.
E, em seguida, o autor oferece-nos outras reflexões bem a propósito, entre as quais e a título de exemplo se apontam as seguintes:
E as catedrais e as grandes galerias comerciais o que são?
E as muito discutidas galerias habitacionais, suas origens e desenvolvimentos; como se ligam à natureza das ruas?
E a evolução actual da rua, gradualmente a esvaziar-se dos serviços que a basearam?
Abordam-se, ainda, aspectos particulares mas muito estimulantes do uso da rua e da sua caracterização, desde as montras, aos espaços em que a rua, praticamente, entra no seu edificado marginal, àqueles espaços que se estendem sobre a rua a partir dos edifícios marginais e a outras tipologias fisicamente marginais.
Desenvolve-se, ainda, no livro uma pausada reflexão sobre a rua pensada como um cenário e não só como sítio de trânsito e de actividades, tendo-se em conta a rua de hoje, que propicia e acolhe actividades e comportamentos de hoje e não se esquecendo que a rua e a casa  “intercambiam coisas” e têm fronteiras entre ambas que “parecem por vezes diluir-se e outras afirmar-se com clareza.”
Matérias estas que constroem a riqueza e a humanização da rua.
Lembra-se a rua citadina sem horários, que serve bem a cidade das muitas pessoas sozinhas e dos casais, pois “cada vez mais a rua parece ser um serviço doméstico [...]”.
Avança-se, depois, no livro, na rua das “anomalias” (elementos de arquitectura urbana) positivas, que transformam algumas ruas em lugares mais habitáveis do que outras, pois “há algo nos acidentes/circunstâncias físicas de uma rua, nas suas irregularidades, que concede a esses espaços uma qualidade quase doméstica.”
E, sequencialmente, lembram-se as ruas que convidam a sentar, que estimulam relações de proximidade e que favorecem o lazer e o passeio; e as ruas que se prolongam por outras ruas, mais pequenas, por becos (sem saída) e que de certo modo pertencem já em boa parte, também, aos edifícios envolventes, criando-se uma unidade urbana muito estimulante e localmente caracterizada, onde as esquinas têm uma importância bem real.
Paralelamente a estas reflexões sobre espaços urbanos reais o autor regista e ilustra outras matérias, entre as quais as ligadas à presença da rua na arte e especificamente no cinema, sublinhando que esta arte procura sempre “transmitir a ideia de uma cidade habitada e real” e marcada pelo peso/presença da habitação/da casa e da rua como cidade habitada.; e que a pintura procura representar a rua “na sua totalidade e, portanto, e ainda que com os seus erros, recriar o seu espaço e a sua atmosfera. ”
E considera-se ser muito interessante e oportuna esta procura da representação e caracterização da rua na sua máxima totalidade; uma procura que nos pode ajudar a resgatar tantos fracassos urbanos.
Mais no final do livro e de certa forma abrindo a reflexão para outros níveis físicos, abordam-se interessantes e inovadoras novas formas de habitar a rua e a casa .
E termina-se lembrando, e desenvolvendo, extensamente, a noção, que “há ruas em que o mais importante são as árvores.” E considera-se muito significativo que, praticamente no remate deste livro, Xavier Monteys dedique a sua atenção à relação entre natureza e cidade, ou verde urbano e rua citadina. 

Reflexões a propósito

Seriam muitas, mas ficarão, essencialmente, para os leitores aos quais se recomenda a leitura deste livro; e que, caso o queiram poderão, até, depois dessa leitura, dialogar sobre ele nesta nossa revista, bastando para tal que nos enviem esses comentários, que poderão ficar ligados a este artigo, e aí disponíveis para quem os queira ler.
Julgou-se, no entanto, interessante lembrar, aqui, como minha reflexão pessoal e de síntese sobre este livro (portanto, salienta-se ser uma escolha muito pessoal), a ideia, lançada, pelo autor, e com contribuições de Alejo Carpentier e Alexander Humboldt, de que por vezes um “mau traçado” urbano nos oferece “uma impressão de paz e frescura, que dificilmente encontraríamos onde os urbanistas conscientes exerceram a sua ciência.”

Breves notas de remate e sobre uma importante característica suplementar deste livro

Já vai longa esta apresentação comentada, mas este livro merece-a bem; e apenas para concluir sublinha-se que, para aqueles que, como eu, procuram, por regra e naturalmente, em cada livro caminhos para outras reflexões, livros e fontes, associadas ao que trata cada livro, então não tenham dúvida porque este “La calle y la casa. Urbanismo de interiores”, de Xavier Monteys, nos oferece esse importante suplemento de alma e interesse suplementar de abertura e aprofundamento temáticos, através de um rico e diversificado manancial de indicações relativamente a muitas outras leituras e referências sobre este excelente tema da relação entre rua e habitar.


Boa leitura é o que se deseja,

António Baptista Coelho



(*)Xavier Monteys é catedrático da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), na qual dirige o grupo de investigação Habitar e é professor na Escola Tècnica Superior d’Arquitectura de Barcelona (ETSAB).


(**) Xavier Monteys, "La calle y la casa. Urbanismo de interiores", Editorial Gustavo Gili (GG), Barcelona, 2018
Espanhol, ISBN/EAN: 9788425229756

Página do site da editora dedicado ao livro:


https://ggili.com/la-calle-y-la-casa-libro.html



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 642

Uma rua bem habitada

A propósito do livro de Xavier Monteys “La calle y la casa. Urbanismo de interiores” - Infohabitar 642

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, fevereiro 27, 2011

335 - A Rua — será que a podemos perder? - Infohabitar 335

Infohabitar, Ano VII, n.º 335
Breves notas de introdução

É com um gosto muito especial que voltamos a contar, no Infohabitar, com um artigo de Wilson Zacarias, um gosto que tem um sabor muito especial quando a temática abordada neste novo texto, relativa à importância da rua, numa perspectiva ampla e bem fundamentada, tudo tem a ver com os interesses que estruturam a edição do Infohabitar e a própria actividade do Grupo Habitar.
E note-se a oportunidade e o perfil dos temas tratados no artigo, designadamente, na sequência de textos sobre segurança urbana e residencial, que tem marcado a edição do Infohabitar nas últimas três semanas. Afinal, podemos afirmar que será a manutenção de uma rua viva - a rua, a tal "grande " ou "maior" invenção do urbanismo, segundo Jaime Lerner -, estruturando um novo urbanismo ou um urbanismo renovado, que nos permitirá garantir a melhor segurança urbana, aquela que decorre, com naturalidade, dos edifícios vivos que são parte integrante da rua e de continuidades citadinas estimulantes.

Fiquemos, então, com o novo artigo do arquitecto Wilson Zacarias, realizado por este autor no âmbito do seu doutoramento no Instituto Superior Técnico, numa disciplina coordenada pelo Prof. Pedro Brandão; e lembremos que este programa de doutoramento é participado pelo Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC.


De certa forma é tratar o tema da segurança urbana, a partir de um ponto de vista específico da arquitectura urbana, considerando-se que a boa qualidade urbana e residencial é, provavelmente, o principal pilar da segurança no espaço urbanizado.


António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar

A Rua — será que a podemos perder?
por Wilson Zacarias


RESUMO: Uma série de eventos e notícias referenciadas na imprensa portuguesa sobre insegurança, certos factos e as suas similitudes, junto com a minha vivência pessoal das cidades Ibero-americanas, permite-nos levantar as seguintes questões; é que os mesmos padrões, embora em contextos diferentes, poderiam produzir os mesmos resultados nas cidades europeias?, é a perca da rua uma possibilidade real?

Este artigo endereça estas questões apresentando primeiro uma pequena revisão histórica da evolução da cidade e da rua para fornecer um enquadramento da situação actual. Apura-se como os problemas causados pelo medo e a insegurança, acontecem tanto na rua do centro da cidade como nas ruas da periferia, apesar das diferentes realidades históricas e socioeconómicas.

Usando as posições e propostas de Jane Jacobs e de alguns outros pensadores do urbanismo, descreve-se como esta problemática foi resolvida com sucesso noutras cidades. Finalmente, com base na premissa de que é melhor prevenir do que remediar, propõe-se formas de alertar e sensibilizar para evitar a perca da rua antes que seja tarde demais.


ABSTRACT: A series of events and news reported in the Portuguese press about insecurity, some facts and their similarities, along with my personal experience of Ibero-american cities, allows raising the following questions: do the same patterns, although in different contexts, could produce the same results in European cities? is there a real chance of loosing the street?

This article addresses these issues by presenting the as well as a short historical review of city and street evolution to provide a background for the current situation. The article summarizes how the problems caused by fear and insecurity, both happen on streets of both downtown and suburbs, despite their different historical and socio-economic contexts. Using Jane Jacobs positions and proposals, as well as ideas of other urbanism researchers, it is described how these problems have been successfully solved in other cities. Finally, based on the premise that it is better to prevent than to cure, means for raising awareness and preventing the loss of the street before it is too late are proposed.

A Rua — será que a podemos perder?
Índice
1. INTRODUÇÃO
2. A RUA, CONCEITOS E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
3. PROBLEMÁTICA ACTUAL
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
5. CONCLUSÕES
Bibliografia
Notas

1. INTRODUÇÃO

“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós…
…, a rua é um factor da vida das cidades, a rua tem alma!”
(João do Rio, A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS) (1)

Em 1908 João do Rio mostra-nos a sua paixão e particular visão da cidade; o bom, o mau, tudo o que na rua acontece. Da mesma maneira, Jane Jacobs (2009) (2) no seu livro “Morte e Vida das grandes cidades”, faz as suas observações das “coisas comuns e quotidianas”, e do que acontece nas ruas em varias grandes cidades americanas. Jacobs indica-nos a sua solução para evitar a morte das cidades, usando a rua como cenário principal.

Para quem foi testemunha da perda das ruas em algumas cidades da América do Sul, a possibilidade de que isso venha acontecer nas cidades europeias e nomeadamente as portuguesas, não deixa de ser causa de inquietação. Apesar da realidade social e estrutura fundacional serem diferentes, as cidades Ibero-americanas são culturalmente descendentes de Espanha e Portugal. A possível perca da posse; da vivencia; do fruir da rua é a temática que será discutida, baseada na experiência pessoal e na apreensão dos factos que hoje nos ameaçam.

Este artigo endereça estas questões apresentando uma pequena revisão histórica da evolução da cidade e da rua para fornecer um enquadramento da situação actual. Apura-se como os problemas causados pelo medo e a insegurança, acontecem tanto na rua do centro da cidade como nas ruas da periferia, apesar das diferentes realidades históricas e socioeconómicas.

Usando as posições e propostas de Jane Jacobs e de alguns outros pensadores do urbanismo, descreve-se como esta problemática foi resolvida com sucesso noutras cidades. Finalmente, propõe-se formas de alertar e sensibilizar para evitar a perca da rua antes que seja tarde demais.

Na secção 2 do artigo resume-se algumas definições da rua e a sua evolução histórica. Na secção 3 apresenta-se a problemática actual da Venezuela e Portugal, e de como a situação venezuelana resultou na perca da fruição da rua. Na secção 4 discute-se possíveis soluções com base em propostas da Jane Jacobs e outros autores do urbanismo. Para finalizar, na secção 5 apresenta-se as conclusões deste trabalho.

2. A RUA, CONCEITOS E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Esta discussão requer antes definir não só quê é a rua, mas também de quais ruas estamos a falar. As definições de rua que com facilidade encontramos, vão desde os dicionários convencionais ou online, até as mais legislativas, académicas ou interpretativas conceptualizações.

Rua (do lat. «ruga», sulco, caminho), s.f. caminho orlado de casas, muros, ou árvores, numa povoação; casas que ladeiam esse caminho; os moradores de essas casas; (fig.) as classes populares; plebe; (Brasil) o espaço compreendido entre as filas de qualquer plantação; interj. Fora! vá-se! gire!. (3)

Na Wikipedia em português - a enciclopédia livre da Web; uma rua é normalmente entendida como um espaço público no qual o direito de ir e vir é plenamente realizado. Entretanto, o conceito também é aplicado a espaços que se assemelhem a ela, como ruas internas em condomínios de acesso privado ou mesmo em corredores internos de centros comerciais.

Popularmente uma rua é entendida pela presença nela de duas ou mais calçadas (ou passeios, destinadas ao trânsito de pedestres) e um ou mais leitos de tráfego de veículos (normalmente automóveis). A rua também costuma ser imaginada como o vazio configurado pelas construções presentes em cada um de seus lados. Ruas de grandes dimensões transversais e que suportam grandes quantidades de tráfego são chamadas popularmente de avenidas, embora este título oficialmente varie de acordo com a legislação local. (4)

Alguns PDM´s ou regulamentos de Câmaras Municipais em Portugal (5) encontramos; Rua: espaço urbano constituído por, pelo menos uma faixa de rodagem, faixas laterais de serviço, faixas centrais de atravessamento, passeios, corredores laterais de paragem e estacionamento que assumem as funções de circulação e de estrada de peões, circulação, paragem e estacionamento de automóvel, acesso a edifícios da malha urbana, suporte de infra-estruturas e espaços de observação e orientação: constitui a mais pequena unidade ou porção urbano com forma própria, e em regra delimita quarteirões.

Na exposição itinerante “A rua é nossa… de todos nós!”, estabelece que “a rua é um lugar partilhado cada dia por numerosos usuários em movimento, para circular, residir o trabalhar”. (6)

Na visão de Jane Jacobs (Jacobs, 2009: 29) “As ruas e as suas calçadas, principais locais públicos de uma cidade, são os seus órgãos mais vitais. Ao pensar numa cidade, o que lhe vem à cabeça? As suas ruas. Se as ruas de uma cidade parecerem interessantes, a cidade parecerá interessante; se elas parecem monótonas, a cidade parecerá monótona.” Daí que, a rua é capaz de mostrar a identidade da cidade e da sociedade que a conforma.

Portanto, a rua está delimitada, tem dimensões variáveis, é fluxo de pessoas e veículos, é o suporte do acontecer da cidade, estabelece ligação, é movimento, e é o acesso aos prédios, as vivendas. A rua é o elemento fundamental da organização da cidade e da vida urbana. Quando ela não cumpre esta função estamos perante uma disfuncionalidade urbana que provoca, a consequência, problemas estruturais e sociais na cidade e na própria sociedade.

Assim como as cidades, a rua tem sofrido ao longo do tempo uma série de evoluções, transformações e adaptações. Um pequeno e rápido olhar pelas diferentes formas de cidade ao longo do tempo, sem querer nem pretender fazer um rigoroso estudo histórico, há de permitir-nos enquadrar a sua condição actual.

Deixemos para trás Babilónia, Egipto, Grécia e o império Romano. Tomemos como ponto de partida a cidade Medieval, delimitada pela muralha como protecção do perigo externo e sob o poder do senhor feudal, génese da cidade compacta, com a suas ruas irregulares e tortuosas, vocacionadas para o intercâmbio comercial. Vinculo entre o privado e o público entre a vivenda e o mercado.

No Renascimento, aparece a figura do Arquitecto para executar o projecto da cidade. Com eles aparecem os grandes tratados de arquitectura, e assumem-se quatro tipos urbanos; a cidade em colina, a cidade em planura, as cidades fluviais e as cidades marítimas. Com a incorporação da perspectiva, a rua junto da praça é objecto de estudo e projecto, e elas começam a ser rectas, amplas, com definições geométricas e matemáticas, tudo na procura de utopias e da “cidade ideal”, e com ela, da rua ideal. “A primeira modernidade gerou uma verdadeira revolução urbana. A cidade medieval dá lugar a uma cidade “clássica”…Esta primeira cidade é moderna porque ela é concebida para indivíduos diferenciados” (7) afirma François Ascher (Ascher, 2010: 26-27). Está etapa é a primeira das três revoluções urbanas modernas que atribui o autor na nossa história urbanística e que qualifica como “paleourbanismo” (Ascher, 2010: 60).

No Barroco surge a necessidade do “embelezamento” e de gerar mais espaços livres, surge o bairro residencial, há uma maior ligação com a natureza, o verde e os jardins. Se estabelece a cidade capital como sede do poder do Rei. As muralhas agora passam a ser lugares para o desfrute, o lazer e o tempo livre fazendo a ligação da cidade e o campo. Aparecem as regulamentações e que como no caso particular de Espanha são extensivas as suas colónias, como “Las Leyes de Indias” (8), que ordenam, regulam e regem as formas das novas cidades; das praças; das ruas; da vida das pessoas; em fim, todo o comportamento da sociedade, quase com o mesmo rigor de uma Constituição Nacional.

Com a revolução industrial chegou o aumento da produtividade, aumenta a qualidade de vida junto dos avances da medicina e dos hospitais, cresce a população. Melhoram as vias e os sistemas de transporte, os sistemas de comunicação (telégrafo), os sistemas de águas e esgotos. Aparece a disponibilidade da energia (gás, vapor). Começa a deslocação do campo para a cidade, inicia-se uma concentração desordenada em núcleos que originam as cidades perto dos rios, minas de carvão, altos-fornos, etc. A proximidade com a linha do comboio garante a sobrevivência das cidades existentes. Como diz François Ascher; “As formas urbanas desta segunda revolução certamente que variam conforme as cidades e os países, tanto no plano prático como no plano teórico.

Todos os pais fundadores do urbanismo, pelas práticas e pelo seu pensamento, nomeadamente Haussmann, Cerdà, Sitte, Howard e, claro, Le Corbusier, foram impelidos, apesar das diferenças que os distinguem, por esta mesma preocupação de adaptação das cidades à sociedade industrial”. (Ascher, 2010: 29-30). Mais ainda, nesta desmedida afirmação que em 1933 os arquitectos se auto-atribuem na carta de Atenas; “A arquitectura, após a derrota, desses últimos cem anos, deve ser recolocada a serviço do homem. Ela deve deixar as pompas estéreis, debruçar-se sobre o indivíduo e criar-lhe, para sua felicidade, as organizações que estarão à volta, tornando mais fáceis todos os gestos de sua vida. Quem poderá tomar as medidas necessárias para levar a bom termo essa tarefa, senão o arquitecto, quem possui o perfeito conhecimento do homem, quem abandonou os grafismos ilusórios, e quem, pela justa adaptação dos meios aos fins propostos, criará uma ordem que tem em si sua própria poesia?” (9).

Para fechar o ciclo da transformação da cidade o François Ascher assinala “A terceira modernidade e a sua revolução urbana começaram a fazer emergir novas atitudes em relação ao futuro, novos projectos, modos diferentes de pensamento e de acção: é o que daqui em diante qualificaremos de neo-urbanismo ou de “novo urbanismo” (ainda que esta formula tenha ganho um sentido particular nos últimos anos, nomeadamente nos Estados Unidos (10)). Esta terceira revolução urbana está já amplamente instalada; numa trintena de anos as evoluções foram consideráveis nas práticas quotidianas dos citadinos, nas formas das cidades, …”(Ascher, 2010: 60-61)

As cidades acabam por ser uma sequência de adições históricas amalgamadas pelas sucessivas circunstâncias, naturais ou sócio-económicas, e esse processo de crescimento usualmente, deixa as marcas patentes. Melhor ainda:” Em todos os estratos da cidade estão sobrepostos os momentos relevantes da sua história, vão ficando ilhas de objectos, resistências fragmentárias que referem as globalidades passadas, impossíveis de compor. Toda cidade viva tem como missão servir de ponte entre o passado e o futuro, não pode existir futuro sem memória do passado” (Wim Wenders) (11) ou como bem diz o próprio Joseph María Montaner, no artigo referido, “o futuro tem um coração antigo”.

Até agora temos falado da rua física. Mas a rua também é sentimentos e sensações. É aquilo que experimentamos quando estamos e transitamos nela. Nesta perspectiva, as ruas não são todas iguais, há ruas mais intensas, ruas com identidade, ruas para morar, para trabalhar o para ir as compras, ruas de vitrinas, ruas para a política, para nos expressar, ruas criativas, ruas para a arte, ruas de comunicação, ruas exóticas, ruas sensuais, ruas religiosas e ruas profanas, ruas para os transportes e suas trocas. Ruas para o anonimato e para nos mostrar, a rua nos oferece, por vezes, significados contrários, segundo cada quem. Essa é a riqueza que dá-nos a rua, mas só quando temos liberdade para estar nela e para percorrê-la.

3. PROBLEMÁTICA ACTUAL
A rua admite um sem número de acontecimentos e actividades, mas a sua ressalva está quando o medo e o crime é o elemento dominante. A rua, actor excepcional do espaço público, como já temos indicado, tem vindo a ficar fragilizada, e cada vez mais, esta rua da centralidade “da cidade compacta” esta a perder seus atributos. A outra rua, a da cidade extensa e dispersa, também corre o risco de desaparecer como espaço público de livre utilização.
PPS
Nesta discussão tentar-se-á explorar as causas desta situação e mostrar também alguns exemplos que contrariaram este processo noutras cidades.

Uma primeira razão para a perca dessa rua que todos queremos, no caso das ruas da cidade compacta, é a sua progressiva desertificação e o abandono da residência no centro da cidade. Recentemente escutámos notícias como estas; ”mais de metade das casas de Lisboa e Porto degradadas”; ”congelamento de rendas não ajuda a proprietários a recuperar casas”; “Lisboa em perigo de derrocada” (12) o que vem a sustentar a nossa apreensão. Uma vez esgotados e encarecidos os lotes para vivenda dentro da cidade tradicional, só ficam nela habitantes agora envelhecidos, assim como arrendatários com baixos valores de renda. Começa uma forte migração das camadas de população economicamente em ascendência para os novos empreendimentos e vivendas localizadas nas novas urbanizações da periferia (Produtos Urbanos), “com planificação”, que vão a o encontro da necessidade de usufruir de maior espaço, privacidade, comodidades e menores custos. Um modelo de desenvolvimento que acaba por construir a “urbanização difusa e dispersa”. (13)

Uma outra razão é a aparição de novos e melhores meios de transporte, públicos e privados que permitem e favorecem o enunciado anterior. O carro permite aproximar e facilita o deslocamento da vivenda da periferia com o trabalho e outras actividades do centro. Como resultado, as ruas começam a ficar esvaziadas, despovoadas, sem os “olhos” que a salvaguardam. Passam a ser controladas por elementos alheios e indesejados. O medo toma posse dela.
Esta imagem exprime o que acontece nas cidades de Sul América e que poderia vir a acontecer nas ruas de Portugal e de outras cidades europeias. Como enquadramento, usaremos de referência as cidades da Venezuela e também a cidade de Bogotá na Colômbia.





Fig. 01: população urbana na Venezuela de 1950 a 2005, Fonte: Briceño-León, R., 2007

Um factor inicial e importante neste processo foi a grande migração das zonas rurais para a área urbana, como já foi indicado, transfigurando as cidades muito rapidamente. No caso da Venezuela duplicasse a população urbana em 55 anos (14) (ver evolução no “Cuadro 1”), e Portugal também duplica sua população urbana em só 27 anos entre 1975 e 2002, sendo inclusive a maior de Europa como verificar-se-á no quadro adjacente. (15) Só que em Portugal essa população representa o 54,1% da população total do país e na Venezuela é o 88,1%. As cidades foram incapazes de acolher urbanamente dito crescimento, pelo que aparece as favelas de génese ilegal como única solução de habitacional de grande alcance.





Fig. 02: População Urbana vs Rural entre 1975-2002, Fonte: UN-Human Development Report 2004 15

Todas as condições positivas até aqui expostas sobre a cidade e as suas ruas bem podia dizer-se que não fogem do que acontecia nas principais cidades de Venezuela entre a década dos anos trinta até os oitenta. Contudo, nas décadas dos anos 70 e 80 iniciar-se-ia um período caracterizado pela opulência exagerada e de dissipação, que resultaram em anos brutalmente recheados de entradas de dinheiro fácil (ver apêndice A o PIB per capita na Venezuela), sem esforço nenhum, quase fora de controlo, como quem ganha o premio único da lotaria e acha que aquilo nunca acabará. Vinha milagrosamente do subsolo, o petróleo (o ouro preto) ou como bem disse um dia, o ex-ministro de Minas e Hidrocarbonetos e fundador da OPEC, Dr. Juan Pablo Pérez Alfonzo, “o excremento do diabo”, para referir o efeito perverso que estava causando na economia e no comportamento social dos venezuelanos.

Como nada é eterno, depois das vacas gordas chegou a época das vacas magras. No primeiro quinquénio dos anos oitenta iniciar-se-ia um processo de recuo no valor do petróleo com a consequente desvalorização progressiva da moeda. O gasto público exagerado é incomportável, incrementa a dívida pública e privada, e as condições de vida pioram substancialmente. Origina-se uma marcada assimetria social que resulta numa pobreza de 80% da população.





Fig. 03: Homicídios na Venezuela, Fonte: Briceño-León, R., 2007 .

Como consequência da perca da capacidade aquisitiva das pessoas e do desemprego, começam a ser mais frequentes os assaltos na rua aos peões, os roubos nas lojas, nas viaturas, nos transportes públicos, os homicídios, inacreditavel situação de como em 16 anos passa de 2.474 homicídios/ano para 12.257 homicídios/ano (ver a evolução no ”Cuadro 2 Homicidios en Venezuela 1990-2006”). Actualmente, Caracas esta entre as três cidades mais perigosas do mundo. (16)

O processo anterior de riqueza, essa época dourada, tinha afastado os moradores das ruas do centro, os prédios mantiveram o comércio no rés-do-chão mas mudaram para escritórios nos pisos superiores produto da demanda do crescimento económico, causando que já nas primeiras horas da noite a rua fica desolada, um lugar onde não há ninguém por perto. A insegurança e o medo tomam controlo total da rua. Vemos notícias que dão conta de esse facto “A debandada começa às seis, o centro histórico de Caracas é um lugar morto por falta de opções” (17).





Fig. 04: “A debandada começa as seis, o centro histórico de Caracas é um lugar morto por falta de opções”Esta foto foi tomada as 8:15 da noite da quarta-feira 9 de Fevereiro 2010 em Caracas e da conta da desolação que existe no centro apenas desaparece a luz do sol - Fonte: (Foto de Oswer Díaz). El Universal (17)

No caso de Bogotá, na década dos noventa, a famosa “Zona Rosa” (18) tinha um horário de funcionamento para os estabelecimentos comercias que só permitia estar abertos até a meia-noite. Neste caso misturava-se a delinquência com a guerrilha e os sequestros eram a circunstância dominante. Uma grande actividade de lazer e convívio estava interdita aos cidadãos para além das consequências económicas que significa para o comércio da zona.





Fig. 05: “Zona Rosa” em Bogotá (esq.); “Buhoneros” em Caracas (dir.)
Fonte: para-viajar.com ; codigovenezuela.com
Como factor agravante, durante o dia acontece um outro facto urbano muito particular das cidades sul americanas, também produto da mesma situação de empobrecimento e desemprego; a presencia dos vendedores/feirantes ilegais, chamados “buhoneros” (19).

A difícil situação de emprego e a necessidade de ganhar algum dinheiro para sobreviver, obriga a essa grande massa de desempregados vir para rua na tentativa de colmatar a difícil situação que confrontam e tentam incorporar-se à tal “economia informal”. O jornal “El Universal” de Caracas, em 2005, apontava que os “buhoneros” representavam uma força laboral de 1.500.000 pessoas (20) num país com 23.570.000 de habitantes.

Como é fácil de imaginar, este volume de “buhoneros” ocasiona um verdadeiro caos no centro das cidades, os quais tomam por assalto os passeios e inclusive algumas das faixas das ruas, obrigando aos peões a circularem junto das viaturas e a lutarem pelo mesmo espaço de movimento.

Perante este situação os donos das lojas ao verem o acesso às suas lojas ser impedido por uma aglomeração de tendas acabam, eles próprios, por também colocar as suas mercadorias no passeio, na tentativa de concorrer com os buhoneros nos mesmos termos. Trava-se literalmente, uma luta pelo controlo da rua e dos potenciais clientes que nela transitam. É de referir nesta situação a pertinência da afirmação de Jordi Borja ”não há civismo, sem tolerância e sem respeito para o outro, ao quem é diferente” (21), aqui sem dúvida entramos no âmbito da cidadania e do civismo, da sociologia comportamental, onde a componente educacional/cultural é fundamental.





Fig. 06: Ocupação dos passeios e das faixas pelos “buhoneros” em Caracas, uma luta pela mobilidade e o controlo da rua entre os peões e as viaturas - Fonte: http://carloszombie.blogspot.com/2007_12_01_archive.html
http://www.flickr.com/photos/76235984@N00/255924561

Neste cenário coloca-se a dicotomia de se estamos frente à degradação e o colapso da rua como espaço físico/urbano e como experiencia da vivência e de sensações, ou se simplesmente fazem parte da diversidade das ruas de uma cidade cosmopolita como exprime João do Rio (1908) quando diz; “Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de una cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, esplénicas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…”.

A extensa vivência pessoal destas ruas, conduz a pensar que é o caos quem ali esta posicionado, e não alguma outra circunstância, contrariando a visão romântica do João do Rio,

Por outro lado, também cabe destacar que há ocupações que antes pelo contrário, fazem animações extraordinárias da rua e dai-lhe uma dinâmica extraordinária e desejável. Podemos-lhe chamar “arte de rua”? eventos e actores do género como; os mímicos, músicos, malabaristas, estátuas viventes, teatro de rua, pintores, caricaturistas, etc., que fomentam a revitalização da rua são, sem dúvida, bem-vindos. O problema prendesse quando há uma invasão maciça e acaba por ser agredido o peão e todos os utilizadores. A rua admite ser ocupada, mas não invadida, para tudo existe uma medida. Talvez possa apresentar-se então a questão, qual é essa medida?

Ao olhar para o que acontece nas cidades ibero-americanas, estou mais perto do pensamento de Jacobs, como indicamos ao princípio, que afirma que as cidades são o reflexo do que são suas ruas. Extrapolando esta ideia, estamos na presença de países caóticos, porque suas cidades são caóticas, já que suas ruas são caóticas. Esta é triste realidade dos países de Sul e Centro América, os quais têm sido levados pela mão da corrupção dos governos para uma vida de pobreza e miséria.

Na Ibero América, a outra cidade, a re-urbanizada, a “dispersa”, aquela que cresceu na expansão para a periferia, que fugiu do centro, fragmentada, a cidade das zonas e ordenações, desconcentração e com separação de usos. A cidade adaptada ao conforto do automóvel, a cidade da Carta de Atenas, também foi alvo da insegurança e provocou uma situação particularmente invulgar.

A insegurança espalhou-se igual que a cidade, obrigou que as casas das urbanizações começaram com a colocação de grades nas janelas e portas. Depois muros e vedações a volta dos lotes. Finalmente aparecem os fechos das ruas com a colocação de cancelas, e postos de guardas armados nas entradas. As ruas ficam, por tanto, sem livre circulação, são inclusive um perigo para as emergências. Mas deixa em tranquilidade os moradores, embora só por enquanto.




Fig. 07: Exemplos de portagens ou cancelas para controlo do acesso a ruas que eram públicas - Fontes: Plataforma urbana
Las voces del futuro


Para alguns juristas estes controlos de acesso às ruas, inclusive, atentam contra a Constituição da Republica que estabelece o direito de livre circulação em qualquer parte do território. É que estamos a falar de ruas públicas e não de condomínios fechados. Esta disfuncional situação observa-se desde México até Argentina, uma epidemia endémica.

Infelizmente, começa a observar-se em Europa situações similares, especificamente pode-se referenciar o caso de Madrid, onde os vizinhos barram os acessos de entrada às urbanizações através da colocação de cancelas em todas as entradas à urbanização, com auxílio de videovigilância (22).

O progredir desta conjuntura muda substancialmente a forma e costumes de vida das pessoas. Aqueles com maior capacidade aquisitiva, quando já as ruas controladas não dão suficiente garantia de segurança, decidem deixar as casas e trocam para apartamentos, também em condomínios fechados cujos controlos de acesso e privacidade proporcionam uma maior sensação de segurança. Inicia um processo de desertificação em algumas urbanizações, mais problemas para a cidade dispersa.

O factor dominante até agora explanado tem sido o medo, a necessidade das pessoas de se sentirem seguras fisicamente junto do grupo familiar. Mas é rigorosamente o mesmo medo sentido nas cidades sul e centro americanas, que o medo das cidades europeias?. Europa não apresenta na sua sociedade alguns outros medos de carácter; étnicos, religiosos, etários, de género, culturais? E o terrorismo, qual é seu lugar no comportamento e a sensibilidade do cidadão? Está isto a criar dentro das cidades discriminações, marginalidade, guetos, gangs, estigmas que poder-se-iam virar contra nos próprios? No nosso ver, seja a causa do medo que for, o efeito sobre a cidade será em tudo semelhante.

De facto, J. Jacobs atribui às culpas da morte das cidades principalmente à insegurança e o medo. Para a autora, embora necessária, mais importante que a utilização da polícia na guarda da rua, são os olhos dos moradores; dos comerciantes; dos que trabalham, a permanência e a presencia de pessoas do bairro (do sitio), veladores do que acontece, comprometidos com a segurança e compartida por todos quem consegue manter a desejada vida da rua.

Quando Portugal tem notícias em diferentes meios de comunicação (23) (24) (25) “Mais de metade dos portugueses sente aumento da insegurança” e que são suportados pelos inquéritos que o indicam. (26)

“ O 4.º Barómetro “Segurança, Protecção de Dados e Privacidade em Portugal 2009”.

"47,4% dos portugueses consideram que as ruas são o local, dos quais frequentam diariamente, onde se sentem menos seguros, um aumento de 11,5% face a 2008;

8 em cada 10 portugueses abdicaria de parte da sua privacidade em função da instalação de videovigilância nas ruas para fornecer uma maior sensação de segurança;

Pela primeira vez, os portugueses consideram o aumento do número de efectivos das Forças de Segurança (49,1%) a melhor forma de melhorar o clima de segurança em Portugal,

A terceira acção apontada para melhorar o clima de segurança é a melhoria das condições socioeconómicas (45,6%);

Os factores que contribuem para o sentimento geral de insegurança, de acordo com a análise dos dados, são o desemprego (58,9%), a imigração (45,1%) e as novas formas de criminalidade (38,3%), enquanto os comportamentos anti-sociais afectam o sentimento de segurança de 54,4% dos entrevistados."

Um dado curioso deste inquérito do 4º Barómetro “Segurança, protecção de dados e privacidade em Portugal”, é verificar como as pessoas estão dispostas a perder sua privacidade a troca de mais segurança, os tais “olhos” que apontava J. Jacobs. Mais, admitem que esses olhos sejam de outros e até virtuais, através de “videovigilância”, assume-se a perca de privacidade como aceitável em troca de uma maior sensação de segurança. Isto também sustenta a tese da comodidade pessoal. Não assumir a responsabilidade de algo que é obrigação e compromisso de todos.





Fig. 08: Venezuela: sensação de medo em diversas zonas da cidade (1996, 2004 e 2007) - Fonte: Briceño-León, R., 2007

Notícias como “Mais, homicídios, raptos e violações… aumento da criminalidade violenta” (27) vai conformando um sentimento, uma sensação nas pessoas que acaba condicionando a sua actividade na rua e marca o princípio do problema: Entrar-se por caminhos errados que podem conduzir a cenários semelhantes aos das cidades americanas e correr-se-á o risco de produzir os mesmos resultados da Venezuela (ver “Cuadro3”) (28). A sensação de medo tem a ver com o lugar e no caso venezuelano a maior refere-se quando o uso dos transportes públicos. Em casa e na rua do bairro são sensivelmente iguais e um pouco menor. È importante assinalar que a utilização dos transportes públicos e na maioria dos casos só utilizado pelas classes sociais de menores posses.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O grande desafio é portanto, o quê fazer de forma a evitar a perca dos espaços urbanos. Como verificamos nos diferentes quadros, existem situações no processo venezuelano que parecem convergir com Portugal. Isto deve alertar-nos, agora é o momento de tomar previsões e realizar acções no sentido de rectificar. Embora o Governo tem uma importante palavra a dizer no relativo a segurança e controlo dos crimes, é nessa área existe uma grande diferença, todos podemos e devemos dar contributos enquanto cidadãos se quisermos continuar na posse deste privilégio tão aparentemente banal como; fruir a rua.

Reabitar e repovoar a cidade sem dúvida deve de ser o primeiro passo. A seguir, como bem o assinala Jacobs, é fundamental a diversidade de actividades para garantir presença de pessoas o maior tempo possível, quando as pessoas desaparecem da rua, aparece a insegurança. A autora está convicta de que a sua fórmula para garantir a “diversidade exuberante” esta dada por quatro condições indispensáveis que devem ter as ruas e os distritos;

“1. O distrito, e sem dúvida o maior número possível de segmentos que o compõem, deve atender a mais de uma função principal; de preferência, a mais de duas. Estas devem garantir a presença de pessoas que saiam de casa em horários diferentes e estejam nos lugares por motivos diferentes, mas sejam capazes de utilizar boa parte da infra-estrutura.

2. A maioria das quadras deve ser curta; o seja, as ruas e as oportunidades de virar esquinas devem ser frequentes.

3. O distrito deve ter uma combinação de edifícios com idades e estados de conservação variados, e incluir boa percentagem de prédios antigos, de modo a gerar rendimento económico variado. Essa mistura deve ser bem compacta.

4. Deve haver densidade suficientemente alta de pessoas, sejam quais forem seus propósitos. Isso inclui concentração de pessoas cujo propósito é morar lá.” (Jacobs, 2009: 165)


Em termos gerais, podemos afirmar que concordamos com seus postulados. Acredito na diversidade como elemento fundamental para assim manter o factor mais importante na vida da rua; que é assegurar o maior número de pessoas possível nela. Também acredito na necessidade de integração e na tolerância requerida na sociedade para assumir este facto.

Só com um trabalho de conjunto tal coisa é viável. As autoridades devem fazer tudo o possível para garantir as infra-estruturas, as políticas, as leis e os encargos para a reabilitação, assim como, dar segurança pessoal. Estes exemplos que referimos a seguir, são evidência dessa hipótese ser certa.

No caso de Bogotá, Colômbia, com a criação de uma associação de proprietários que junto de todos os restantes actores sociais, cidadãos, turistas, Câmara, Governo central e forças de segurança foram capazes de dar a volta por cima e recuperar a Zona Rosa para o desfrute de todos na cidade. Hoje não existe nenhum tipo de restrições, a não ser o controlo da idade dos jovens menores de 18 anos para estar sozinhos na rua.

Outra grande referência da possibilidade de reverter situações extremas é o caso da cidade de Nova Iorque que em 1990 era uma das cidades mais perigosas dos Estados Unidos. O presidente da Câmara Rudolph Giuliani junto do chefe da polícia William Bratton com o programa “tolerância zero” fez de Nova Iorque a cidade grande mais segura dos Estados Unidos, sensivelmente em dez anos de trabalho.

Temos, ainda, o caso espanhol de Barcelona, onde também está a ser aplicada uma legislação restritiva de utilização do espaço público na procura de resguardar a vida pública urbana. Uma tentativa de suprimir do cenário público elementos que consideram nocivos (prostitutas, pedintes, jovens do “botellón”, etc.), mas alimentando estigmas que podem abrir espaço para avaliações subjectivas, questionadas por uns apoiados por outros.

5. CONCLUSÕES

Partindo do princípio de que “melhor prevenir do que remediar”, o ideal seria evitar chegar a situações extremas, muito mais difíceis de as reverter. O conhecimento dos factos e das circunstâncias que provocaram a perca da rua nas cidades ibero-americanas são os alertas necessários para evitar que as nossas cidades europeias, e particularmente as portuguesas, corram a mesma sorte. Com a participação de toda a comunidade; as autoridades, as forças de segurança, os políticos, os profissionais “fazedores de cidade” e os cidadãos, é mais fácil atingir o objectivo. Diversificar, densificar e revitalizar é fundamental no combate ao medo e a insegurança.

No caso da “cidade dispersa” é necessário melhorar os níveis de urbanidade, não basta morar no mesmo lugar, é essencial a promoção dos encontros sociais. Incorporar actividades que possam permitir intercâmbio, comunicação, aproximação e cumplicidade entre vizinhos, seja do género que for; desportivos, culturais, educacionais, associativos, comemorativas, etc. é basilar para encontrar causas comuns que os acheguem.

Prova é como hoje existem inúmeras entidades a volta do mundo nesse sentido. Para juntar a volta desta problemática todos os actores da cidade e da sociedade já existem organizações do género de; Project for Public Spaces (29) (USA) e Placecheck (30) (UK), ajudando a coordenar o trabalho que todos devemos ter no processo e estabelecendo inclusive metodologias de participação e acção. Poderemos em Portugal construir ou adaptar uma entidade de este género? Vale a pena tentar, como actores activos estamos comprometidos e obrigados a fomentar esse esforço.

A descentralização, participação e autogestão são valores essenciais nos tempos que correm, a nossa “keynessiana” legislação deve aceitar novos modelos de gestão para podermos evoluir com a globalização e a participação local, ambíguo mas real. A classe política deve assumir o risco desta tentativa junto do contributo que “os fazedores de cidade” podem e devem dar.

O futuro da cidade passa pelo futuro da rua. Salvando a rua, salvamos a cidade. Só conseguiremos se todos estamos dispostos a participar activamente, seja na rua da “cidade compacta” ou na rua da “cidade dispersa”. Acredito que é possível repor os erros e reencontrarmos o caminho perdido, os exemplos o confirmam.



Bibliografia
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Referências On-line utilizadas

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Câmara Municipal de Lourinhã: consultado 01-03-10

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consultado: 15-03-10

Zona Rosa Bogotá:
http://www.ciao.es/Centro_Andino_Bogota__Opinion_1022343
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http://es.wikipedia.org/wiki/Buhonero
consultado: 08-03-10

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http://in3.dem.ist.utl.pt/portalinovacao/page.asp?id=112
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Diario El Universal 1: consultado: 12-02-10

Diario El Universal 2: consultado: 08-03-10

ElPais: consultado: 08-03-10

RTP: inq aumento de insegurança consultado: 03-02-10

TSF: tomado: 03-02-10

Jornal O Publico: sentimentos de insegurança 1 consultado: 03-02-10
outros aspectos consultado: 03-02-10

PPS: http://www.pps.org/

Placecheck: http://www.placecheck.info/

Pordata:
http://www.pordata.pt/azap_runtime/?n=4
consultado: 06-04-10

PIB: consultado: 06-04-10


Apêndice A





Fig. 09: PIB per capita efectivo e tendência de Venezuela 1970-2000 (31)







Fig. 10: PIB per capita de Portugal 1960-2008 (32)






Estes dois gráficos permitem ver alguma similitude entre Venezuela e Portugal no comportamento histórico do PIB per capita efectivo. A grande diferença esta que na actualidade o PIB per capita da Venezuela é de $ 11.230 e o de Portugal é $ 22.841, segundo o Banco Mundial. (33)

Apêndice B
O compendio de “Las Leyes de India” foi editado pela primeira vez no ano 1690 sob o comando de sua Majestade Carlos II de Espanha,

Transcrição de parte do conteúdo: (Em espanhol)

Libro III,
Título 7. De la población de las ciudades, villas, y pueblos

Lj. Que las nuevas poblaciones se funden con las calida¬des de esta Ley.
El Emperador D. Cárlos Ordenanza 11 de 1523. D. Felipe II Ordenanza 39 y 40 de Poblacio¬nes. D. Cárlos II y la Reyna Gobernadora.
Habiéndose hecho el descubrimiento por Mar ó Tierra, conforme a las leyes y órdenes que de él tratan, y elegida la provincia y comarca, que se hubiere de poblar, y el sitio y los lugares donde se han de hacer las nuevas poblaciones, y tomando asiento sobre ello, los que fueren a su cumplimiento guarden la forma siguiente: En la costa o mar sea el sitio levantado, sano, y fuerte, teniendo consideración al abrigo, fondo y defensa del puerto, y si fuere posible no tenga el mar al mediodía, ni poniente: Y en estas, y demás poblaciones de tierra dentro, elijan el sitio de los que estuvieren vacantes, y por disposición nuestra se pueda ocupar sin perjuicio de los Indios y Naturales, o con su libre consentimiento: Y cuando hagan la planta del Lugar, reparando por sus Plazas, calles y solares a cordel de regla, comenzando desde la Plaza mayor, y sacando desde ella las ca¬lles a las puertas y caminos principales y dejando tanto compas abierto, que aunque la población vaya en gran crecimiento, se pueda siempre proseguir y dilatar en la misma forma. Procuren tener el agua cerca, y que se pueda conducir al pueblo y heredades, derivándola si fuere posible, para mejor aprovecharse de ella, y los materiales necesarios para edificio, tierras de labor, cultura y pasto, con que excusarán el mucho trabajo y costas, que se siguen de la distancia. No elijan sitio para poblar en lugares muy altos, por la molestia de los vientos y dificultad del servicio y acarreo, ni en lugares muy ba¬jos, porque suelen ser enfermos: Fúndese en los medianamente levantados, que gocen des¬cubiertos los vientos del Norte y Mediodía: Y si hubieren de tener sierras, ó cuestas, sea por la parte de levante y poniente: y si no se pudieren excusar de los lugares altos, funden en parte donde no esten sujetos a nieblas, haciendo observación de lo que mas con¬venga a la salud, y accidentes, que se pueden ofrecer: Y en caso de edificar a la rivera de algún rio, disponga la población de forma que saliendo el sol dé primero en el pueblo que en el agua.

Lviii-j. Que el sitio, tamaño y disposición de la plaza sea como se ordena.
Ordenanza 112,113,114 y 115.
La Plaza mayor donde se ha de comenzar la población, siendo en Costa de Mar, se debe ha-cer al desembarcadero del puerto, y si fuere lugar mediterránea, en medio de la población: Su forma en cuadro prolongada, que por lo menos tenga de largo una vez y media de su ancho, por que sea más a propósito para las fiestas de á caballo, y otras: Su gran¬deza proporcional al número de vecinos, y teniendo consideración a que la gente pueda ir en aumento, no sea menos, que de doscientos pies en ancho, y trescientos de largo, ni ma¬yor á ochocientos pies de largo y quinientos treinta y dos de ancho, y quedará de mediana y buena proporción, si fuere de seis cientos pies de largo, y cuatro cientos de ancho: De la Plaza salgan cuatro calles principales, una por medio de cada costado; y demás de es¬tas dos por cada esquina: las cuatro esquinas miren á los cuatro vientos principales porque saliendo así las calles de la Plaza no estarán expuestas á los cuatro vientos que será de mucho inconveniente: toda en contorno, y las cuatro calles principales, que de ella han de salir, tengan portales para comodidad de los tratantes, que suelen concurrir; y las ocho calles que saldrán por las cuatro esquinas, salgan libres, sin encontrarse en los portales, de forma que hagan la acera derecha con la plaza y la calle.

Lx. De la forma de las calles.
D. Felipe II Ordenanza 116 y 117
En lugares fríos sean las calles anchas, y en los calientes angostas; y donde hubiere ca¬ballos convendrá que para defenderse en las ocasiones sean anchas y se dilaten en la forma susodicha, procurando que no lleguen a dar en algún inconveniente, que sea causa de afear lo reedificado, y perjudique a su defensa y comodidad…

NOTAS:

(1) Rio, J.do., 1908. A alma encantadora das ruas: Departamento Nacional do Livro, Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional.

(2) Jacobs, J., 2009. Morte e Vida das Grande Cidades 2ª edição., São Paulo: WMF Martins Fontes

(3) Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo II, Texto Editores, p. 1311

(4) Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Rua consultado: 01-03-10

(5) Do site da Câmara Municipal de Lourinhã, consultado 01-03-10

(6) Ascher, F.(2007) Texto e Dossier de apresentação da Exposição “la rue est à nous… tous”, Paris Março/Abril. Consultado 26/01/10 e disponível em:
E que já percorreu: Paris, Xangai, Pequim, Toronto, Montreal, Buenos Aires, Rosário, Bogotá; Rio de Janeiro, Montevideu, Santiago de Chile.

(7) Ascher, F., 2010. Novos princípios do urbanismo, Lisboa: Livros Horizonte.

(8) O compendio de “Las Leyes de India” foi editado pela primeira vez no ano 1690 sob o comando de sua Majestade Carlos II de Espanha, Ver com maior pormenor no “Apêndice B” parte da transcrição relativa a formação das cidades, praças e ruas.

(9) Das Conclusões, Artigo 87, Carta de Atenas 1933 no Congresso Internacional de Arquitectura Moderna.

(10) Nota explicativa do livro (Ascher 2010,p.60): “O New Urbanism norte-americano remete, de facto, para três tipos de práticas; estilo estético, desenho urbano e modos de urbanização. A estética proposta é uma arquitectura do tipo contextual; o desenho urbano privilegia um urbanismo de ruas, de espaços públicos, de altas densidades; o modo de urbanização baseia-se em princípios de mistura funcional e social, no uso de transportes públicos e na luta contra a expansão urbana”.

(11) Cineasta alemão citado por Josep María Montaner no artigo “El lugar metropolitano del arte - Idea, imagen y símbolo de la ciudad” disponível em: http://www.revistacontratiempo.com.ar/montaner.htm
consultado: 04-02-10

(12) Disponível em TSF 1, 2 e 3, consultado: 15-03-10

(13) Termo utilizado por Jordi Borja no seu artigo “las ciudades ante la globalización: entre la sumisión y la resistencia” disponível em http://www.cafedelasciudades.com.ar/tendencias_31.htm
consultado: 02-03-2010

(14) Briceño-León, R., 2007. Violencia , Ciudadanía y Miedo en Caracas. Foro Internacional, 2007(3), 551-576.. Consultado: 04-04-10

(15) Disponível em:
http://in3.dem.ist.utl.pt/portalinovacao/page.asp?id=112
consultado:06-04-10

(16) Disponível em
http://www.wonders-world.com/2010/03/top-5-most-dangerous-cities-for-live-of.html
consulta: 08-03-10

(17) Disponivel em
http://www.eluniversal.com/2010/02/12/ccs_art_la-estampida-comienz_1760673.shtml consultado: 12-02-10

(18) Diponível em
http://www.ciao.es/Centro_Andino_Bogota__Opinion_1022343
consultado: 01-03-10

[“Hoje, descrito como um lugar cheio de movimento, cor e som; as noites Bogotanas, a Zona Rosa é um espaço urbano único para a interacção social, reuniões e "Rumba" (marcha), que oferece uma série de possibilidades e atende os diversos gostos.
No começo (da década dos anos 80), a Zona Rosa era apenas uma rua, Calle 82 que tinha os restaurantes e bares de moda que durante horas juntava os estudantes universitários. Apesar do clima de savana, tornou-se de moda os jardins e esplanadas, o plano era estar na conversa, beber, ouvir musica com os amigos toda a noite. Alguns locais também ofereceram algo para comer, pequenas salas de dança e pouco mais.
A zona oferecia uma animada vida nocturna, mas a rua durante o dia era para fantasmas.
No final a Câmara inverteu uma considerável quantidade de dinheiro para renovar o espaço público que constituía a zona, alargou passeios, ruas com calçadas e algumas ficaram só pedestres.
A sua volta desenvolveu-se comércio e hotéis, assim como lojas que oferecem artesanatos, antiguidades, peças de decoração, artigos de mão, roupas de grandes marcas e lembranças, tornando-se obrigatório para os turistas".]

(19) Disponível em
http://es.wikipedia.org/wiki/Buhonero consultado: 08-03-10
[“Buhonero” é um trabalhador da economia informal, que negocia com bens de consumo diversos. Geralmente, se desloca em pequenos quiosques (embora por vezes, uma pequena mesa é suficientes o uma manta no chão, onde expor as mercadorias) nos passeios das ruas mais movimentadas em diferentes partes de uma cidade. Da mesma forma, o “buhonero” também pode passear sem um local específico carregando consigo a mercadoria que pretende vender. Vestuário, música, livros e filmes compõem o grosso do comércio.
Devido à sua qualidade de informal e sua capacidade para estender-se em vários locais públicos da cidade, os “buhoneros” são vistos por certos sectores da sociedade como elementos problemáticos e perturbadores. No entanto, os preços baixos e fácil acesso aos diversos produtos oferecidos pelos “buhoneros” torna-lhes uma alternativa rentável e eficiente para a maior parte do mercado consumidor.
O “buhonero” actualmente é amplamente criticado porque ele não é obrigado a pagar impostos ao contrário das empresas. Portanto, há uma luta constante entre a economia formal e a economia informal.”]

(20) Diario El Uiniversal
http://caracas.eluniversal.com/2005/11/21/ccs_art_21401A.shtml
consultado: 08-03-10

(21) Jordi Borja, artigo “Urbanismo y ciudadania” Disponível em: http://www.bcn.es/publicacions/b_mm/ebmm_civisme/043-050.pdf
consultado: 03-02-2010

(22) Disponível em consultado: 08-03-10

(23) Disponível em RTP consultado: 03-02-10

(24) Disponível em TSF http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1508567 tomado: 03-02-10

(25) Disponível em Jornal O Publico consultado: 03-02-10

(26) Disponível em
http://www.adt.pt/default.aspx.locid-0jfnew02s.htm
consultado: 03-02-10

(27) Correio da Manhã 11 de Março de 2010, pag.12

(28) Disponível em:
http://revistas.colmex.mx/?BUSCAR=1111&numero=1219&scope=7
Artigo “Violencia, ciudadanía y miedo en Caracas” de Briceño-León, Roberto. Revista mexicana “Foro internacional” volumen XLVII, nº 3 pag.551-576. Consultado: 04-04-10 e já citado

(29) PPS Disponível em http://www.pps.org/

(30) Placecheck Disponível em http://www.placecheck.info/

(31) Barros, A., Gustavo, L. & Vivanco, C., 2005. Ciclos de Negócios na América do Sul e no Leste da Ásia: Uma Introdução., 2(2), 179-189. Disponível em http://www.alexbcunha.com/research/pub/paper05.pdf
cons.: 06-04-10

(32) Disponível em
http://www.pordata.pt/azap_runtime/?n=4
consultado: 06-04-10

(33) Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_países_por_PIB_nominal_per_capita
consultado: 06-04-10

Notas editoriais: (i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 335, 27 de Fevereiro de 2011