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segunda-feira, julho 30, 2018

651 - MELHOR HABITAÇÃO COM MELHOR ARQUITECTURA - Infohabitar 651

INFOHABITAR N.º 651
MELHOR HABITAÇÃO COM MELHOR ARQUITECTURA
Conjunto de 22 artigos

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma nova tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 22 artigos, editados entre 2010 e 2011, e que têm em comum a abordagem do grande tema da QUALIDADE NO HABITAR NUMA PERSPECTIVA ARQUITECTÓNICA ou, por outras palavras, a temática de uma melhor habitação com melhor arquitectura.

E lembra-se que esta matéria de uma melhor habitação com melhor arquitectura constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

E chamamos a atenção para a ideia, cada vez mais presente, de que melhores espaços habitacionais – e há quem defenda que todo o espaço construído pelo homem é espaço de habitar – são determinantes de uma melhor qualidade de vida diária e a médio e longo prazos; e mesmo que se critique esta perspectiva não parece ser discutível que uma melhor e mais ampla qualidade arquitectónica é uma condição que facilita e apoia essa qualidade de vida; e trata-se de matéria que esteve e está aí bem na ordem do dia das áreas de investigação sobre habitat humano – e a título de exemplo cita-se, aqui uma pequena frase que integra uma das muitas páginas ligadas ao “Design Council CABE team” e lembra-se que o Design Council foi fundado em 1944 por Winston Churchill e que a sigla CABE se refere à Commission for Architecture and the Built Environment .

“The quality of the built environment around us has a significant impact on our lives. It can transform people’s quality of life, stimulate the economy and enhance the environment. Good design plays a vital role in creating better places that enrich the local community. “


Fiquem, então, com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial,

Boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)
MELHOR HABITAÇÃO COM MELHOR ARQUITECTURA

Habitação e Arquitectura XVI: A integração e a arquitectura do habitar - António Baptista Coelho (n.º 367, 31 Out. 11, 21 págs., 9 figs.).

Habitação e Arquitectura XV: A caracterização doméstica do habitar - António Baptista Coelho (n.º 366, 23 Out. 11, 19 págs., 9 figs.).

Habitação e Arquitectura XIV: A atractividade na arquitectura do habitar - António Baptista Coelho (n.º 365, 16 Out. 11, 17 págs., 9 figs.).

Habitação e Arquitectura XIII: A apropriação e a arquitectura do habitar - António Baptista Coelho (n.º 364, 9 Out. 11, 18 págs., 10 figs.). 

Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte I - António Baptista Coelho (n.º 332, 6 Fev. 11, 11 págs., 6 figs.).

Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II - António Baptista Coelho (n.º 333, 13 Fev. 11, 9 págs., 3 figs.).

Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: a Agradabilidade Residencial - António Baptista Coelho (n.º 319, 7 Nov. 10, 16 págs., 6 figs.).

Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: a Funcionalidade Residencial - António Baptista Coelho (n.º 318, 1 Nov. 10, 12 págs., 6 figs.).

Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: a Capacidade Residencial - António Baptista Coelho (n.º 316, 18 Out. 10, 13 págs., 6 figs.).

Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: a Espaciosidade - António Baptista Coelho (n.º 297, 9 Mai. 10, 9 págs., 6 figs.).

Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: a Comunicabilidade - António Baptista Coelho (n.º 295, 25 Abr. 10, 10 págs., 6 figs.).

Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: a Acessibilidade - António Baptista Coelho (n.º 291, 28 Mar. 10, 10 págs., 6 figs.).

Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução - António Baptista Coelho (n.º 290, 21 Mar. 10, 7 págs., 2 figs.).

Há que referir que todas estas matérias estão aboradas em livros editados pela Livraria do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) na Colecção Informação Técnica Arquitectura (ITA), e designadamente no trabalho intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise", que foi discutido e aprovado na sua forma de tese de doutoramento na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995 e cuja capa se apresenta na Fig. 1 do lado esquerdo; sendo, mais tarde, o mesmo tema revisitado, numa perspectiva mais "livre" e talvez mais baseada na prática e, designadamente, numa reflexão mais pessoal, no lvro intitulado "Habitação e Arquitetura Contributos para um habitar e um espaço urbano com mais qualidade", cuja capa se apresenta na Fig. 2.  


 (Fig. 1)


(Fig. 2)

Notas finais:
Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos

Infohabitar, Ano XIV, n.º 651
MELHOR HABITAÇÃO COM MELHOR ARQUITECTURA
 Conjunto de 22 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, outubro 07, 2013

456 - Qualidade e criatividade nos espaços comuns habitacionais - Infohabitar 456

Infohabitar, Ano IX, n.º 456
Nota da edição: com o apoio dos leitores, que agradecemos, a Infohabitar acabou de ultrapassar a "barreira" das 400.000 consultas; e aproveita-se para referir que, devido a ausências em trabalho, o próximo número será publicado em 21 de outubro de 2013.

ARTIGO XXXVII da Série Habitar e Viver Melhor 

A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (II) - os perfis de qualidade e de criatividade nos espaços comuns habitacionais

António Baptista Coelho

A razão de ser de um edifício habitacional é conter um determinado conjunto de habitações, e podemos considerar que, mesmo quando “evoluímos”, por exemplo,  para soluções mais próximas dos equipamentos hoteleiros, onde há, portanto, mais extensas e diversificadas áreas comuns, mesmo nestes casos o uso de tais espaços se concentra nos pólos de acessibilidade e nos principais equipamentos, ligados à restauração (ex., restaurante, bar) e ao lazer (ex., ginásio, piscina).
No entanto, quando, hoje em dia, começamos, finalmente e ainda bem, a pôr em causa as organizações domésticas mais correntes, pensando a casa, seja numa perspectiva de forte potencial de adaptabilidade a diversas formas de vivência doméstica, seja ao serviço de formas de habitar muito específicas, então fará, também, todo o sentido pensar os espaços comuns do multifamiliar (do pequeno ao grande multififamiliar) com idêntica abertura de espírito; embora não esquecendo, tal como se apontou, que a razão de ser deste edifício é proporcionar uma boa agregação de habitações.
Mas nesta última afirmação, do edifício multifamiliar como “uma positiva agregação de habitações”, resulta, diretamente, que tal associação deve servir, o melhor possível, as condições de conforto ambiental, de identidade e apropriação e de dignidade e de atractividade, que são possíveis em cada uma das suas habitações, e, cumulativamente, deve servir pela sua dimensão, configuração e formas organizativas e de acessibilidade específicas, aos seus habitantes, designadamente, em tudo o que tenha a ver com as condições de agradabilidade, segurança e sociabilidade no uso, aplicáveis nos respectivos espaços comuns ou coletivos; e, naturalmente, estas e aquelas condições não são fáceis de cumprir, se o objectivo é fazer, realmente, bem.
Na reflexão sobre os aspectos qualitativos gerais que podemos privilegiar nos espaços comuns e na respectiva pormenorização é possível considerar alguns temas, que, em seguida, se lançam, sinteticamente, e um pouco como sugestões para posteriores e estimulantes desenvolvimentos do tema.
O sentido comum ou coletivo pode e deve ser investido, especificamente, na organização geral, na “ambientalização”, no dimensionamento e no recheio funcional e pormenorizado dos espaços comuns. De nada vale visar-se uma determinada ideia que, depois, não encontra suporte nos respectivos espaços de concretização, e há que ter bem presente que o objectivo mais corrente é, sem dúvida, a criação de espaços comuns, pelos quais se chega às habitações privadas e nos quais nos devemos sentir confortáveis, tudo o resto serão objetivos específicos que obrigarão a condições funcionais e ambientais específicas; não faz, por exemplo, qualquer sentido prever uma sala de condomínio afastada das principais zonas de circulação, com pouco espaço e mal acabada e equipada e dizer que se trata de um espaço que irá estimular a convivialidade e o sentido de comunidade, trata-se apenas de um sítio para reuniões e, mesmo assim, até pode nem ter condições adequadas para essa finalidade.
São muito diversas as soluções possíveis de “ambientalização” de um dado conjunto de espaços comuns, mas para que funcionem, realmente, importa que tais espaços constituam uma verdadeira mais-valia funcional, formal e ambiental para os seus habitantes, caso contrário mais vale reduzi-los a uma sua mínima expressão espacial e a uma máxima funcionalidade de manutenção.
Fig. 1 - espaços comuns estratégica e adequadamente reduzidos em Alvalade, Lisboa .

E uma tal mais-valia obriga a um projecto exigente e realizado com grande precaução e alguma coragem pois fazer um verdadeiro edifício de “habitação colectiva” é necessário programar espaços e prever uma adequada gestão local de proximidade. Afinal, tal como referem Eleb e Chatelet  “os "Locais Comuns Residenciais" têm uma longa história de alguns êxitos e numerosas falhas, que alimentam a demonstração que a sociabilidade não se pode programar ... para fazer funcionar um LCR é necessário um responsável”. (1)
Fazer espaços comuns residenciais deve passar por fazer verdadeiros espaços de fruição comum, com imagens e funcionalidades que podem ser idênticas, por xemplo, às que caraterizam os espaços sociais de estabelecimentos hoteleiros, o que será, sem dúvida, uma opção, por exemplo, em residências que associem habitações privativas, com diversos dimensionamentos, a um amplo conjunto de espaços e serviços comuns.
Mas fazer espaços comuns residenciais pode também passar pela criação de espaços comuns exteriores nos quais é possível qualquer pessoa entrar, mas para quando aí entrarmos sentirmos a sensação de estarmos, de certo modo, a “invadir” um espaço que não nos pertence, porque é próprio apenas daquele conjunto residencial a que está directamente ligado - e refere-se, aqui, "de certo modo", pois a ideia não é criar condomínuios privados e exclusivos, mas sim espaços de vizinhança onde se percebe ser a respetiva vizinhança quem comanda na respetiva gestão, sendo ideial que nos sintamos bem-vindos - e em tudo isto tem de haver mestria no projeto, na obra e na gestão diária e de proximidade.
E a título de exemplo do que aqui se visa lembram-se mais algumas palavras do excelente livro de Eleb e Chatelet:, “F. Soler e J Bernard  propõem ... um pátio central muito amplo em torno do qual se organizam os apartamentos … a sua ambição foi prolongar a cidade até ao âmago das casas através de espaços intermediários, escavados no coração dos edifícios, verdadeiros locais de convivialidade, interstícios indispensáveis entre a cidade e a família.” (2)

Fig. 2 - um espaço deste tipo no excelente Alvalade, que cada vez mais se dá a descobrir; os "segredos de Alvalade" (nas palavras do escritor Cardoso Pires), são muitos e ricos (opinião pessoal).

E, depois, e ainda muito nesta estimulante perspectiva de “prolongar a cidade até ao âmago das casas através de espaços intermediários”, que é, na prática, não mais do que simular as relações ainda hoje encontradas entre tantas habitações e ruas de zonas históricas, e tal como também apontam as referidas autoras (Eleb e Chatelet) as galerias de acesso comum podem ser “tratadas como espaços de encontro e recreio” e a principal escada pode constituir “pela sua arquitectura, um local de encontro à escala do edifício”; (3)  afinal nada que um bom projectista não saiba, mas infelizmente sabedoria muito pouco praticada, há que o dizer, exceptuando excelentes e numerosos exemplos que marcam a história da habitação de interesse social.

Fig. 3 - espaços de vizinhança naturalmente conviviais, encontrados em zonas históricas e que tardam a ser "reinterpretados" pelas novas arquiteturas urbanas e habitacionais.

Um outro aspecto a ter, especificamente, em conta na conceção dos espaços comuns (e como se verá, em futuros artigos esta série, na conceção dos espaços domésticos e não domésticos privatizados) é a força e a importância que aí tem a integração da natureza, numa primeira linha pela fundamental, disseminada e estratégica introdução da luz natural; uma força que fica bem evidenciada no mesmo livro de Eleb e Chatelet, que referem que: “Quando se sai do elevador e há luz natural, pode-se conversar. Favorece-se a convivialidade pela qualidade do espaço que se desenvolve, o resto está ligado à cultura especial de cada sítio." (4)
E uma tal introdução da natureza prolonga-se, naturalmente, de forma essencial pela diversificada e introdução de pátios ajardinados, floreiras, espaços para vasos e vãos amplos e estratégicos sobre elementos naturais exteriores.
Importa termos presente que estamos aqui, verdadeiramente, em presença de um verdadeiro “motor” da apropriação e da satisfação residencial e talvez por esta razão se assiste, hoje em dia, à concretização de alguns edifícios praticamente fundidos com a vegetação. E trata-se de uma matéria que tem, evidentemente, (i) uma razão ambiental, no sentido mais físico do termo, pois, como é sabido, as zonas verdes integradas e contíguas proporcionam frescura ambiental, (ii) mas que tem também uma razão funcional associada a importantes aspectos de melhoria das condições de privacidade e de marcação espacial, e que tem, igualmente, (iii) uma razão bem efetiva, embora não quantificável, no que se refere ao desenvolvimento de excelentes influências psicológicas, afetivas e sensoriais capazes de melhorar, objectivamente, estados de depressão e de stress, constituindo, objectivamente, um factor determinante na caracterização dos espaços comuns residenciais como espaços potencialmente geradores de paz e de satisfação; e não será por acaso que grandes empresas e hospitais psiquiátricos favorecem a integração de espaços naturais, que possam ser intensamente vistos e vividos.
Ainda um outro aspecto a considerar, especificamente, nesta reflexão sobre as qualidades a privilegiar nos espaços comuns residenciais tem a ver com o equilíbrio, que aqui sé desejável, entre condições de apropriação (pessoal ou familiar) e de dignidade ou de apropriação comum/colectiva.
A ideia que se deixa é que nem é recomendável uma situação em que o ambiente interior do edifício seja expressivamente marcado, na sua globalidade, pelas intervenções e pelos gostos específicos de cada um, nem será desejável um ambiente comum “frio”, descaraterizado e impessoal; e podemos mesmo referir que, hoje em dia, um ambiente deste tipo nem é bem-vindo num edifício de escritórios.

Fig. 04: os excelentes espaços comuns da Cooperativa de habitação Caselcoop no velho Bairro Económico de Caselas em Lisboa - projeto do Arq.º Justino Morais (na imagem, de branco).

Provavelmente o equilíbrio estará em espaços comuns estrategicamente marcados por uma dignidade servida por um gosto eventualmente “neutro”, mas expressivamente presente, em zonas mais usadas por todos os vizinhos, e, à medida que nos aproximamos das portas das habitações, mais marcados por elementos de apropriação afirmados, embora, sempre, com claros traços comuns. E aqui é interessante comentar que as galerias comuns exteriores proporcionam excelentes condições deste último tipo, devido à sua evidente relação com o espaço exterior, que é público.
Finalmente, nesta breve reflexão sobre as qualidades a privilegiar nos espaços comuns residenciais, registam-se, apenas algumas poucas ideias sobre um tema, que, só ele, poderia e poderá estimular um percurso de investigação: trata-se da forma como podemos lidar com o respeito pelo sentido comum, ou pelo carácter unificado do edifício.
Nesta matéria há que apontar, pelo menos, dois temas, sendo um deles que deve ser obrigatório este respeito ou este “partido”, como era costume dizer-se entre arquitectos, ainda que ele se possa diluir, seja numa assinalável afirmação da identidade de cada habitação, seja numa cívica afirmação de um expressivo anonimato urbano, numa perspectiva que, em vez de fazer o edifício impor-se, integra o edifício, expressivamente, na continuidade da sua vizinhança urbana; mas engana-se que achar que opções como esta não têm em conta a força e a “personalidade” do edifício com um todo. E o outro aspecto tem a ver, natural e especificamente, com a dimensão do desenho de Arquitetura, e nesta dimensão espera-se que muito longe esteja o tempo em que o caráter unitário da obra não tenha atenções específicas, reflexões específicas e, depois, mensagens específicas, na imagem urbana da respetiva vizinhança urbana.
E fica por abordar a dimensão "maior ou menor", mais afirmada ou quase ausente, dos espaços comuns habitacionais de conjuntos residenciais, tendo-se em conta as mais diversas dimensões e afirmações de conjugação do respetivo conjunto de habitações (matéria a tartar em futuros artigos).
Notas:
(1) Monique Eleb; Anne Marie Chatelet – Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui.  Paris : Éditions de l’Épure, 1997 (Col. Recherche d’Architecture), pp. 90 e 91.
(2) Idem p. 85.
(3) Idem, p. 74.
(4) Idem, p. 85.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº456
A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (II) - os perfis de qualidade dos espaços comuns habitacionais
Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


domingo, maio 29, 2011

348 - A adaptabilidade arquitectónica no habitar - I - Infohabitar 348

Infohabitar, Ano VII, n.º 348

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial: Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII:
A adaptabilidade arquitectónica no habitar - I

Artigo de António Baptista Coelho

Nota prévia à presente edição:

Retomando uma série editorial cujo último “capítulo”, sobre a privacidade arquitectónica residencial, foi editado, há já algumas semanas, com os n.ºs 341 e 342 deste Infohabitar, publicam-se agora e serão publicadas na próxima semana algumas reflexões sobre a matéria da ADAPTABILIDADE  arquitectónica residencial, uma matéria sempre muito "arquitectónica" e na primeira linha dos debates sobre o habitar e a habitação.

Introdução geral

Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão cerca de 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).

Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que, repete-se, será, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados):
Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução
A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.

Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais
.
A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 337  e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º  341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 348 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade I – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar.

Infohabitar n.º 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade II – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: Domesticidade – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.

Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.




Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, às matérias da adaptabilidade, enquanto qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.

Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais.


Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC

Salienta-se, ainda, que o autor realizou e editou, também no LNEC, em parceria com o Arq.º António Reis Cabrita, um estudo sobre a evolução e a adaptabilidade habitacional, cuja capa se edita, em seguida, acompanhada pelo respectivo link para a Livraria do LNEC.


Fig. 03: capa da edição do LNEC "Habitação evolutiva e adaptável" - ITA 9, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC

NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM CERCA DE 20 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES E SERÁ EDITADO ESTA SEMANA E NA PRÓXIMA, JUNTANDO-SE UM ÍNDICE PARA ORIENTAÇÃO:  A BOLD/NEGRITO A PARTE DO ARTIGO EDITADA ESTA SEMANA.

Habitação e Arquitectura XII: A adaptabilidade arquitectónica no habitar - I
Índice
1          Soluções urbanas e residenciais versáteis e adaptáveiS
2          Aspectos estruturadores da adaptabilidade
3          A adaptabilidade, da habitação, à vizinhança e ao bairro
4          Estratégias de adaptabilidade
5          A adaptabilidade nos espaços públicos e edificados
5.1      A adaptabilidade nos espaços públicos
5.2      A adaptabilidade na VP e na relação VP/Ed
5.3      A adaptabilidade nos espaços edificados
5.4      Adaptabilidade doméstica
6          Carácter e importância da adaptabilidade
7          Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a adaptabilidade arquitectónica residencial


Fig. 04

1. Soluções urbanas e residenciais versáteis e adaptáveis

Embora versatilidade e adaptabilidade sejam conceitos muito próximos ou, até, praticamente coincidentes, podemos, desde já, salientar que a versatilidade é a qualidade referida ao que se adequa a diversos usos e utentes, talvez sem necessidade de intervenções específicas nesse sentido, enquanto  a adaptabilidade é talvez mais a qualidade do que se pode acomodar e adequar, com alguma facilidade, a diversos usos e utentes, mediante algumas intervenções específicas e tendencialmente simples.

No entanto também podemos considerar que a adaptabilidade engloba um sentido de adaptabilidade mais passiva, quando nos referimos à versatilidade ou flexibilidade funcional e mesmo de aspecto de espaços e elementos do habitar exteriores e interiores (por exemplo um compartimento que pode ser sala ou quarto de dormir e uma unidade construída que pode ser loja ou habitação), ou mais num sentido de adaptabilidade activa, que, no limite, engloba, por exemplo, os conhecidos processos de evolução habitacional (por extensão ou por subdivisão).

Numa perspectiva genérica a “adaptabilidade” residencial e urbana refere-se à capacidade de flexibilização e mutação de uma determinada organização, ou de um dado elemento residencial, a outras condições, relativamente distintas das iniciais e que devem ser, no mínimo, sempre compatíveis com o meio residencial. Os novos condicionalismos podem ser a mutação ou recombinação de usos, a substituição ou a variação das características de comportamento e de composição dos grupos de utentes (habitantes), as mudanças no mobiliário e no equipamento, as variações nos tipos de decoração/arquitectura de interiores e até as alterações mais significativas nos gostos/modas dominantes.

Um outro aspecto a salientar, desde já, é o papel fulcral da adaptabilidade urbana e residencial como uma das principais ferramentas de sustentabilidade social e humana nesses doimínios, pois afinal uma solução adaptável é adequada a muitas pessoas e a muitas famílias e sendo-o é factor directo de satisfação urbana e residencial, seja numa perspectiva de versatilidade inicial dessa solução à aceitação, por exemplo, de múltiplos modos de vida e de diversas constituições familiares, seja numa perspectiva de eventual abertura dessa solução a processos simples de adaptação a esses modos de vida e a essas constituições familiares, e note-se que tais processos de adequação “básica”/inicial ou activa são fundamentais em termos de apropriação dos espaços da cidade e do habitar pelas pessoas e famílias, num processo essencial em termos da respectiva sustentabilidade social e que põe em relevo as relações muito fortes que existem entre adaptabilidade e apropriação.

Afinal e tal como refere Agnès Lozonczi: "O modo de vida é o como e o porquê da acção do homem, partindo do que ele come e como o faz, onde e como se aloja, até às sua necessidades de alto nível.  O modo de vida demonstra (ou devia demonstrar) uma unidade com duas faces; de um lado os aspectos da vida que são socialmente mais determinados, exteriores e condicionantes das possibilidades de como viver; do outro lado os aspectos interiorizados, subjectivos, que revelam o modo como o homem tolera esses quadros de possibilidades e é capaz de os compreender, viver e explorar, transformando-os ou desistindo deles" (1).

E a abertura ao papel e à importância da adaptabilidade urbana e residencial aqui apontada por esta autora é, por um lado, pormenorizada, e, por outro, generalizada, num pequeno texto retirado de um livro coordenado por Chombart de Lauwe e onde se refere que: "Quando estudamos, numa planta habitacional, a separação entre a sala e a cozinha, chegamos à conclusão que esses dois elementos deveriam estar, simultaneamente, próximos e separados.  Quando observamos as relações entre pais e crianças, também constatamos que o quarto dos pais deve estar próximo do das crianças pequenas, para que eles as possam vigiar, particularmente, de noite, mas que para os pais é indispensável poderem isolar-se das crianças em certas alturas...  Entretanto, este tipo de estudos de arranjos habitacionais deve ter em conta a verificação dos comportamentos segundo as características socioprofissionais e segundo as regiões.  A observação das relações sociais no espaço familiar deve ser desenvolvida tendo em conta o conjunto da vida social e do contexto cultural" (2).

Será, portanto, o potencial de adaptabilidade de uma dada solução de habitar a principal ferramenta para a sua abertura ao grande leque de necessidades e exigências que lhe serão colocadas pela sua, muito provável, grande diversidade de futuros utentes; até porque não nos podemos esquecer que a cidade e o habitar têm de se caracterizar por uma longa vida útil ao serviço de um elevado número de gerações.

Fig. 05

2. Aspectos estruturadores da adaptabilidade

A adaptabilidade ou versatilidade é a qualidade do que se pode acomodar a diversos usos e condicionalismos e, consequentemente, apropriar, ao longo do tempo, por uma população, por famílias e por pessoas  que terão também características dinâmicas.

Afinal, tal como indica Ricardo Carvalho (2003) (3), “a arquitectura procura responder às oscilações culturais do espaço doméstico contemporâneo marcado pelo efémero e transitório” de formas distintas, por exemplo, tal como aponta o mesmo Ricardo Carvalho, seja com a Domus Demain de Yves Lyon – uma casca de máquinas “filtros de transparências e opacidades que protegem o núcleo central de salas e quartos”, seja, como na casa Rudin, de H&deM, através de uma casca de betão com a forma da casa “infantil” de todos nós, que contém “espaços domésticos não fixos e não hierarquizados.”

A adaptabilidade possui uma diversificada natureza básica que se liga, quer à capacidade dos espaços e funções se adequarem a determinadas condições de contexto (ambiental, físico e social), quer à capacidade de eles aceitarem, simultaneamente, usos diversificados e frequentemente com uma margem de caracterização relativamente pouco definível, quer à capacidade desses mesmos espaços e funções “encaixarem”, positivamente – sem alterações muito significativas e/ou sem más influências graves nos seus utentes -, mudanças de configuração, pormenorização e conteúdo funcional que sejam ditadas pela natural evolução dos usos e das necessidades dos habitantes e da própria cidade ao longo de significativos períodos temporais.

A adaptabilidade como potencial de "encaixe" das mutações ambientais e dos usos previstos, com um maior ou menor grau de probabilidade, pode apresentar vários níveis de potência/capacidade, mediante o recurso a diversos dispositivos e características dimensionais e funcionais; consequentemente, implica variados níveis de custos de construção iniciais, que são responsáveis pela previsão e posterior desenvolvimento dos respectivos trabalhos de adaptação.

Podem considerar-se três grande grupos de aspectos estruturadores da adaptabilidade arquitectónica residencial:

- Diferentes situações físicas e socioculturais – considerando aspectos de adaptabilidade activa, passiva e nula e aplicando-se essencialmente no exterior residencial.

- Diferentes modos de vida e de uso da habitação e diferentes tipos de agregados familiares. Considerando-se, aqui, a adaptabilidade por: habituação, aprendizagem, escolha condicionada, participação, e escolha livre.

- Diversos desejos habitacionais, associados a: alteração do agregado familiar, rearranjo interior e mesmo à simples e sempre salutar vontade de mudar,

Consoante os níveis físicos assim se vai estruturando a daptabilidade residencial e arquitectónica:

No exterior residencial, que deve ser, basicamente, versátil e consensual, mas cuidando-se da eventual invasão por veículos e prevendo-se acertos e correcções periódicas.

No edifício: por densificação urbana cuidadosa com edifícios diferenciados e com exteriores usáveis e positivamente apropriados e bem responsabilizados; por extensões domésticas térreas e elevadas devidamente programadas; por uma estratégia de acessibilidade; pelo aproveitamento de desvãos; pela facilitação da subdivisão e da fusão de fogos; e pela facilitação da conversão de usos térreos entre habitação e comércio/serviços.

Na habitação: pela facilitação de diferentes arranjos gerais e de pormenor; pela possibilidade de adição ou subtracção de elementos ao respectivo programa funcional; pela flexibilidade da compartimentação; pela mobilidade de encerramentos; pela versatilidade espacial oferecida pela solução estrutural; e pela evolução de áreas domésticas, sempre que tal seja possível (por exemplo, nas soluções unifamiliares ou de baixa altura e média densidade e, portanto, em forte relação com o solo).

Na pormenorização do habitar: por adequação ergonómica evolutiva; por adequação comportamental flexível; por neutralidade funcional na organização e na compartimentação; por versatilidade funcional e de imagens na pormenorização, garantindo-se uma adequação básica/mínima a diferentes modos de vida e diferentes gostos em termos de decoração; e por adequadas condições de durabilidade e de facilidade de manutenção, pois será sempre muito difícil harmonizar processos de adaptabilidade passiva e activa a diversos usos e gostos de habitar em meios basicamente pouco duráveis e que obriguem a cuidados de manutenção complexos.

Fig. 06

3. A adaptabilidade, da habitação, à vizinhança e ao bairro

A adaptabilidade arquitectónica e residencial refere-se à capacidade de flexibilização e mutação de um determinado sistema/conjunto de elementos ou de um dado elemento residencial específico, a outras condições, relativamente distintas das iniciais e que devem ser sempre compatíveis com o meio residencial, combatendo-se, assim, e sempre, as mutações nocivas a um meio residencial verdadeiramente satisfatório, uma condição que afasta assim, em princípio, o desenvolvimento de todas as transformações nocivas em termos ambientais, funcionais e de aspecto.

Os novos condicionalismos que despoletam o processo de adaptabilidade urbana e residencial podem ser a mutação ou recombinação de usos, a substituição ou a variação das características de comportamento e de composição dos grupos de utentes (habitantes), as mudanças no mobiliário e no equipamento, as variações nos tipos de decoração/arquitectura de interiores e até as alterações mais significativas nos gostos/modas dominantes em termos do habitar casa e cidade.

Naturalmente que à medida que subimos no velho “jogo da glória” do habitar, no sentido que nos leva do nosso espaço doméstico privado e mais expressivamente apropriado, até aos espaços citadinos mais públicos e mesmo mais representativos de uma dada cidade, ainda que sempre necessariamente, habitáveis, o sentido de adaptabilidade passiva dos espaços aos mais diversos modos de vida diária e às mais diversas exigências humanas funcionais e sociais, terá de ir crescendo, e sendo que a partir de certos limiares urbanos mais representativos, talvez se recomende mesmo um relativo distanciamento entre a imagem dos espaços e elementos e a sua capacidade de uso e de apropriação, desde que esta condição esteja ao serviço do carácter e da dignidade urbana e cívica da cidade em geral e de algumas das suas partes específicas, como praças e avenidas, por exemplo.

Mas é, também igualmente interessante reflectirmos que no sentido contrário do referido “jogo da glória” do habitar, e à medida que nos aproximamos dos espaços mais “pessoais” e/ou íntimos - aqueles que nos rodeiam como verdadeiras “segundas peles” -, também algum distanciamento ao potencial de adaptabilidade passiva pode acontecer, com eventuais e prováveis caminhos favorecidos para uma adaptabilidade activa desses mesmos espaços para serem, por exemplo, reconfigurados, remobilados e redecorados ao gosto de cada um, ou eventualmente ao gosto comum de um dado grupo (e esta última perspectiva será sempre um pouco relativa).

Mas neste “jogo da glória” do habitar e nesta aplicabilidade de um potencial de adaptabilidade que não ponha em risco e, até, possa reforçar uma dupla caracterização citadina e doméstica - sempre difícil, mas sempre desejável -, podem evidenciar-se soluções elementares com expressiva versatilidade de agregação de espaços, com sinal/sentido superior (citadino) e com sinal/sentido inferior (doméstico); e nesta perspectiva fica naturalmente evidenciado o potencial da casa-pátio ou “casa urbana oriental”, na designação que lhe foi dada por  Norbert Schoenauer.
  
Sobre a “casa urbana oriental” Schoenauer sublinha o seu carácter introvertido com um ou mais pátios privados e o seu uso em quatro antigas civilizações e nas das cidades da Grécia Clássica e de Roma, e Schoenauer salienta que “esta casa é ainda a forma tradicional de habitar em muitas cidades da Ásia, África e América do Sul o que é muito significativo considerando-se os seus mais de 6.000 anos de existência contínua, mas hoje está ameaçada por formas incongruentes de habitação urbana”  (4), embora seja, tal como sublinha   Schoenauer, “uma forma de habitar que perdurou durante mais de 200 gerações no Oriente.”

E Schoenauer  indica que “a mais importante das suas características é o pátio ajardinado, espaço privado central e aberto, o pátio é o coração da casa urbana oriental e não existe em nenhuma outra língua uma expressão mais poética do que a chinesa para definir o pátio, «oferenda do céu», fonte que proporciona luz, ar e água da chuva à habitação… outra característica da casa-pátio é que esta introversão proporciona privacidade visual e acústica não só relativamente à rua, mas também relativamente aos vizinhos” … “a flexibilidade do interior das casas orientais é outra característica importante. A maioria dos compartimentos são espaços multiusos” . E  fugia-se da ostentação de uma altura elevada também, como sublinha   Schoenauer, “por recomendações religiosas, com idênticos reflexos na modéstia das fachadas – uma lição de urbanismo, que, ao nível do bairro se associou ao desenvolvimento de comunidades que não têm níveis homogéneos de rendimento”, gerando-se uma importante regra de integração social e económica (5).

Fig. 07


4. Estratégias de adaptabilidade

Em primeiro lugar e de forma destacada , nestas matérias da adaptabilidade residencial e urbana, temos de considerar as suas relações com os aspectos sociais do habitar e nesta área da adequação entre espaços do habitar e diferentes grupos sociais Amos Rapoport (1977) sublinha que “a forma urbana afecta o controlo da própria privacidade … as áreas homogéneas protegem-se melhor e não necessitam estar sempre alerta, comunicam melhor o que querem e desenvolvem filtros mais eficazes... Mais do que desenhar para um pluralismo cultural, o que é altamente complexo … a única solução é a heterogeneidade a uma escala e a homogeneidade a outra, com zonas neutras intermediárias…mas entre estes dois extremos, de 100% de homo ou hetero, tem que existir uma zona intermédia de harmonização entre ambas.” (6) .

Teremos, assim, de considerar diversos potenciais de adaptabilidade e/ou versatilidade consoante o nível físico em que actuamos e os grupos socioculturais envolvidos, havendo que articular esses cenários activos através de espaços e sistemas de relacionamento e transição realizados com uma dignidade e neutralidade maximizadas.

Tal como também refere Rapoport, é importante que a diversidade cultural citadina existente e futura – e aqui devemos considerar “a cidade” numa perspectiva de espaço urbano amplo, diversificado e habitado – tenha em conta os seguintes três factores na relação com um desenho do habitar adequado ao modo de vida familiar: (7)

- O afastamento cultural e "de capacidade de comunicação" entre habitante e projectista.

- A grande variedade de culturas em mutação rápida.

- A existência, em cada grupo sociocultural, de muitos níveis de aculturação e de mutação sociocultural.

Devemos registar aqui que Rapoport se refere no seu texto a um “desenho da habitação”, mais do que ao “desenho do habitar”, mas julga-se que faz todo o sentido esta perspectiva de habitar que transborda claramente do espaço doméstico para a vizinhança e para o espaço público urbano, e que ao fazê-lo o faz/fará de diversos modos, consoante os habitantes que somos/seremos; e aqui tem toda a pertinência a referida capacidade de versatilidade e adaptabilidade de todo o “jogo da glória” do habitar.

Considerando o que acabou de ser referido, Rapoport defende o máximo cuidado no conhecimento das características socioculturais da população a alojar, aliado a um tipo de desenho habitacional estruturado de um modo "aberto", não pré-determinado (cá estão as características de versatilidade e adaptabilidade). E o referido autor aponta, também, como medida de adequação habitação/família, ou habitação/características socioculturais, a existência de uma possibilidade máxima de escolhas, tanto em termos de tipo de fogo, como de tipo mais geral de habitar, condição esta também determinante nesta matéria tipológica que está a ser abordada; e registe-se, assim, a enorme importância que deve ter esta diversificação tipológica para uma adequada sustentabilidade do habitar.

Entre os diversos modos de promoção da adaptabilidade da família à sua habitação e podemos dizer ao seu habitar (habitação, vizinhança e espaço urbano), destacam-se, ainda, as indicações de Claude Lamure sobre este assunto (8):

- A adaptabilidade por habituação, que enfraquece com a idade, a doença, a pobreza de recursos materiais, a frequência das mudanças, o desenraizamento sócio-cultural e o impacto de equipamentos e ambientes residenciais sofisticados ou pouco habituais;

- A adaptabilidade por aprendizagem, em que deve haver especial cuidado relativamente aos idosos e aos habitantes culturalmente desenraizados;
- A adaptabilidade por participação activa dos habitantes, que tem limitações quanto à capacidade para suscitar o interesse e a adesão dos diversos grupos sócio-culturais, sendo maior naqueles mais favorecidos, embora havendo, neste caso, frequentes dificuldades em termos de tempo disponível;

- A adaptabilidade por escolha entre diversas soluções residenciais e entre diversos tipos de vizinhança; nomeadamente no caso dos vizinhos "de patim" e de condomínio, parece-me que deveria haver, no mínimo, opções alternativas;

- E a adaptabilidade por escolha livre, que não se aplica à grande maioria dos recursos materiais das famílias.

E no início/fim do “jogo da glória” do habitar, quando nos centramos na nossa “célula” doméstica, importa aprofundar as estratégias de adaptabilidade, que são fundamentais veículos de apropriação e satisfação, e nesta perspectiva sai evidenciada a estratégia de adaptabilidade “passiva”, caracterizadora de conteúdos funcionais e imagens domésticas globalmente adequadas e expressivas, considerando-se oportuno e interessante, nesta perspectiva, a seguinte pequena descrição, feita por  Ariès e Duby (9), de uma “domus“ (a casa romana):

“Algumas camas de sono ou de refeição, pequenas mesas redondas com três pés, alguns armários, assentos, guarda-roupas... a residência é antes de mais um largo espaço vazio que se adivinha assim que se penetra no coração do edifício, e por vezes apenas no seu limiar, uma fileira não de salas fechadas mas de espaços: pátio coberto, claustro, jardim com os seus jogos de água; são mais os vazios do que os cheios... À volta deste vazio estão claramente dispostos pequenos quartos cuja pequenez surpreende; cada um se retira para a sua cela para ler ou dormir, mas vive-se nos vazios centrais, sobre os quais se abrem, a todo o seu comprimento, salas de jantar, como caixas a que faltaria um dos seus quatro lados... Seja na residência rica ou não, uma decoração de cores vivas recobre o chão, as paredes os tectos de mosaicos, de estuques, de pinturas decorativas ou mitológicas … aqui reina a imaginação não a pompa. O espaço inútil era outro luxo e a arquitectura tinha sabido combinar a amplidão do conjunto com a possibilidade de retiro nos pequenos quartos … o espaço central permite o afastamento... Um modesto burguês em Paestum numa casa de cerca de 100m2 com cozinha e três pequenos quartos recortados na margem por um largo pátio”.

Ficarão, assim, ideias de adaptabilidade doméstica, até na respectiva relação com uma espaciosidade equilibrada e num apontamento, que há que ter sempre presente, sobre a cada vez menos duvidosa importância dos aspectos organizativos muito mais ligados à sensibilidade do que à “simples”, já "velha" e antes quase omnipresente "funcionalidade" doméstica.

Notas:
1          Agnès Lozonczi, "Conflits d'Adaptation et Rôle Promoteur des Aspirations", in "Transformation de l'Environnement des Aspirations et des Valeurs", Ed. CNRS, p. 25.
2          Chombart de Lauwe, et al, "Famille et Habitation II, Un Éssai d'Observation Experimentale", p. 276.
3 Ricardo Carvalho , “Habitar – Percurso em Via Rápida”, Ano Nacional da Arquitectura: Newsletter 01, Março, 2003.
4 Norbert Schoenauer, "6000 años de hábitat - de los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidebte, Gustavo Gili, 1984, pg. 114.
5 Norbert Schoenauer, "6000 años de hábitat - de los poblados primitivos a la vivienda urbana en las culturas de oriente y occidebte, Gustavo Gili, 1984, pg. 237 e 240.
6 Amos Rapoport, “Aspectos humanos de la forma urbana – Hacia una confrontación de las Ciências Sociales com el diseño de la forma urbana”, 1978 (1977), pp.293 e 307.
7 Amos Rapoport, “Housing Ecology”, p.149.
8          Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 1 a 10.
9 Ariès e Duby, "História da Vida Privada I", 1991, pp.303 e 304.

Por hoje terminamos, aqui; na semana que vem será editada, no Infohabitar, a segunda parte deste artigo sobre a adaptabilidade no habitar.

Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 349, 29 de Maio de 2011