sexta-feira, dezembro 16, 2005

O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade – um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 59

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O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade

um artigo de Celeste Ramos
Imagens de A.B.Coelho

Nunca nenhum acontecimento na História das Civilizações marcou tanto os homens como o nascimento de Jesus em Belém da Palestina, como se a partir daí a História passasse a ser re-escrita, perdurando até hoje esse "marco" ao longo de dois mil anos e que se tornou imaterial.
O próprio Império Romano que marcou sobretudo o mundo mediterrânico e europeu com a Pax Romana e a sua cultura técnica e estética poderia ser o primeiro gesto de globalização e unificação do "estar em paz e simultaneamente em desenvolvimento" dos povos e lugares conquistados. Porém, o avanço das legiões romanas Germânia fora, e o seu contacto com os Teutões, que se previa poderem ser, igualmente, absorvidos, levaria à última etapa da queda lenta do longo e grande Império de Roma.

Interessante entretanto os adoradores de muitos deuses pagãos, que nos deixaram para sempre essa ímpar faceta cultural da mitologia romana tão paralela à grega, terem tido como último Imperador Constantino, que, ao instalar-se uma nova religião – o cristianismo – a ela aderiu a ponto de mandar pintar nos escudos dos soldados e centuriões das suas Legiões os símbolos desse Deus único (Jesus "O" Cristo), cujos sinais teria visto em sonho, passando as guerras de conquista a ser a partir daí levadas a cabo em seu nome, o do Menino que nasceu em Belém.

Foi assim que em honra ao "novo deus" fundou com a maior grandeza e fausto Constantinopla (antes Bizâncio), a nova Roma, que seria o centro do Império Romano do Oriente, em que igrejas, monumentos e palácios teriam riqueza de formas de arquitectura exterior e interior, e fausto de ornamentos, jamais visto, império que cairia em definitivo, com a invasão dos Otomanos, mas depois de ser a capital do Império Bizantino de 330 a 1453, portanto durante mais de mil anos.

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Em comemoração do nascimento de Jesus Cristo e da visita dos Reis Magos, representou-se o estábulo em que Jesus nasceu – talvez feito de barro, provavelmente complementando uma saliência ou pequena gruta na rocha (segundo S. Jerónimo) –, desde o século IV, embora os presépios com figuras esculpidas se baseiem em reconstituições do pré-renascentista São Francisco de Assis.

O Natal passaria a ser comemorado por todo o Mundo onde há um cristão, sendo o Presépio e a Missa do Galo seguidos pela Consoada, todos símbolos fortes da comemoração actual do Natal de Jesus, Natal também dos homens cristãos que celebram a festa da "sagrada família" e da sua família também, nessa "noite fria e a mais longa do ano", a noite do solstício de inverno, e, aliás, natal significa "nascimento de novo sol".

E o Natal é celebrado por muitos homens que se intitulam pagãos, rasgando fronteiras físicas e étnicas, sociais e culturais, como se o "natal" e esse novo "sol" existisse e renascesse em cada homem, não importando qual a sua motivação interior.

O Natal é um acontecimento na aldeia, na vila, na cidade e na família. Assim não há rua de qualquer lugar que não assinale a festa do Natal. E parece que há mais leveza e alegria no rosto de toda a gente, que se pacifica, e também o rosto da cidade se veste dos mais variados e cada vez mais perfeitos enfeites de luz, que sendo embora obras de arte pública efémera, tornam os espaços habitados tão diferentes que convidam até a ir à rua ver o que os homens fizeram para proporcionar e partilhar alegria colectivamente.

Este tempo marca toda a gente de todas as idades e condições sociais, e as ruas estão mais vivas como se participassem dessa azáfama. Da mesma forma muda a gastronomia e a doçaria, tão rica e gulosa, como muda até o interior de cada habitação que se torna mais festiva e adornada.

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Afinal, por dentro da casa e na rua, a cidade muda porque muda a atitude dos homens. Há mais luz, mais arte, mais solidariedade e mais união entre os humanos, que pelo menos por estes instantes se despojam um pouco do seu quotidiano e das suas guerras, e dão um lugar maior à paz.

Os ritmos da Cidade e dos seus habitantes mudam com as estações do ano e, no solstício de Inverno, há paragem e meditação sobre o nosso sol interior e para encontro do homem com o melhor de si mesmo, como preparação para se celebrar o novo ano que se aproxima com toda a renovação possível para se "entrar com o pé direito", e se renascer, mesmo antes do renascimento da natureza na primavera, que a seguir vem, porque estamos também ainda num tempo de repouso e despojamento da natureza e de hibernação da vida.

E será frio só por fora, pois a terra conserva o seu calor interior, para mais tarde nos dar a emoção de tudo voltar a reflorescer, porque por amor tudo recomeça. Como se a própria Terra parasse a sua azáfama, o solo descansasse da sua produção, as árvores se despissem de folhas porque já entregaram os seus frutos no verão, e tudo se "recolhesse", preparando o que virá a seguir, em ciclos contínuos da natureza e dos homens, ciclos cósmicos a que o homem responde e se realizam de acordo com cada estação do ano, e como se o sítio do habitar, a Cidade, do mais pequeno povoado à maior urbe, fosse o eterno espaço-espelho-e-testemunho de toda a acção humana.

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Seja em honra dos deuses ou de um só Deus, dos seus heróis, ou santos da sua devoção, sempre os homens festejaram as datas dos seus calendários históricos e culturais, misturando o sagrado e o profano sem complexos.

É ainda uma das grandes riquezas deste País onde nascemos, que ainda não esqueceu a tradição concretizada nas festas e romarias em terra de vale ou de montanha, no rio e no mar, as festas das estações; e, entre elas, uma há que é sempre muito especial, porque é a festa do nascimento e do renascimento, a festa do Natal.

E a cidade, que teima em desfazer-se e desmoronar-se numa ânsia tantas vezes cega de modernização, não pode deixar de perpetuar a celebração das suas festas sagradas e populares que, se morrerem, arrastarão consigo mais pedaços da vida urbana e da identidade urbana.

Santo Natal, com muita paz, para todos os "visitadores" do infohabitar e o desejo mais sincero de que o Ano Novo seja, de facto, NOVO e renovador.


Lisboa, Bairro de Santo Amaro, Dezembro de 2005
Maria Celeste d'Oliveira Ramos – arquitecta-paisagista

Imagens de A.B.Coelho

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