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domingo, março 20, 2011

338 - O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte II - Infohabitar 338

Infohabitar, Ano VII, n.º 338
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial
Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X:

O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte IIArtigo de António Baptista Coelho
NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM MAIS DE 20 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES - A PRIMEIRA PARTE EDITADA NA SEMANA PASSADA (EMBORA SEMPRE DISPONÍVEL ON-LINE) E A SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE ESTA SEMANA, JUNTANDO-SE UM ÍNDICE PARA ORIENTAÇÃO: A BOLD/NEGRITO A PARTE DO ARTIGO EDITADA ESTA SEMANA.

Habitação e Arquitectura X: O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte II

Índice

1 - Entre convivialidade e privacidade, um equilíbrio vital
2 - Introdução à convivialidade arquitectónica residencial
3 - Aspectos estruturadores da convivialidade
4 - A convivialidade: da habitação, à vizinhança e ao bairro
5 - Estratégias de convivialidade
6 - A rua convivial: matéria base do bom urbanismo
7 - A convivialidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados
(i) A convivialidade nos espaços públicos
(ii) A convivialidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
(iii) A convivialidade nos espaços edificados
8 - Carácter e importância específica da convivialidade
9 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a convivialidade arquitectónica residencial




Fig. 08

5 - Estratégias de convivialidade arquitectónica residencial e urbanaProvavelmente a principal estratégia de convivialidade será a dinamização do uso dos espaços públicos por inúmeras actividades potenciais, contíguas às habitações e residentes no próprio espaço público; actividades essas que se caracterizem por um expressivo sentido de atractividade e de potencial de afectividade, pois estamos a lidar com eventuais espaços de "expansão" da vida doméstica.

Para se desenvolver uma efectiva afectividade citadina e residencial é importante favorecer, como defende Larry Ford (2000) (11), “uma cidade com fachadas permeáveis e com grande variedade de acessos ao nível da rua, que é muito mais dinamizadora da vida cívica do que uma cidade caracterizada por estruturas do tipo fortalezas com paredes cegas e portas invisíveis”, porque “a vida nas ruas é definida e guiada pelas características dos edifícios envolventes.” E lembremos, a propósito, que as ruas são praticamente impossíveis de formatar com grandes edifícios relativamente isolados.

Visa-se, assim, uma rua cívica, humanizada e diversificada, pois, tal como é apontado por Rapoport (1977) (12): “o desenho deveria gerar a maior variedade possível de signos de actividade humana. O uso de canais de informação polisensoriais aumenta a capacidade de congruência", enquanto… "a predominância de signos automóveis reduz e empobrece a referida congruência … outras razões" (de incongruência residencial) "são a falta de jardins, a densidade excessiva, a regulamentação exagerada… (Sieverts 1967) ... Para os adolescentes e as crianças as áreas com signos de actividade humana são elementos centrais da percepção urbana, os edifícios…recordam-se com facilidade se estiverem relacionados com alguma actividade vital.”

Temos, assim, caminhos estratégicos de dinamização do uso do espaço público e, consequentemente, da convivilidade no habitar, mas a montante desta estratégia de diversificação e, especialmente, intensificação do uso das desejáveis continuidades de espaços públicos, aplicável sistematicamente numa escala micro-urbana, está uma preocupação de ordenamento que podemos definir como de multifuncionalização e vitalização do espaço urbano.

Visa-se um desenho humanizado e diversificado, configurado numa aliança de objectivos de vitalidade urbana e de vitalidade e agradabilidade residencial, tal como foi defendido por Jane Jacobs (1961): “Planeamento para a vitalidade: a maior diversidade de meios, usos e pessoas em cada bairro; interpenetração contínua de vizinhanças com segurança nos espaços públicos o mais possível dada pelos seus usuários; combater a existência nociva de zonas de fronteira desertas e ampliar a identidade dos bairros; recuperar cortiços convencendo assim seus moradores a ficarem; transformar a autodestruição da diversidade em forças construtivas; explicitar a ordem visual das cidades.” (13)

E Jane Jacobs sublinha que para se favorecer uma positiva diversidade nas ruas e nos bairros: “o bairro deve atender a mais de uma função principal e de preferência a mais de duas; a maioria dos quarteirões devem ser curtos; as ruas e as oportunidades de virar esquinas devem ser frequentes; o bairro deve integrar edifícios com diferentes idades e estados de conservação (diferentes rendimentos e oportunidades) numa mistura que deve ser compacta; e numa densidade suficientemente alta de pessoas” (Jacobs, p.165).

Mas, provavelmente, a melor estratégia para se dinamizar a convivialidade residencial é continuar a apostar em boas ruas, pois, afinal, e como defende Jaime Lerner, a rua deve ser a melhor invenção no que se refere a um espaço urbano vivo e eficaz; e sobre a rua convivial apontamos, em seguida alguns aspectos.


Fig. 09

6 - A rua convivial: matéria base do bom urbanismoCitando Hertzberger (1991) (14), “o conceito da rua de convivência está baseado na ideia de que os moradores têm algo em comum, que têm expectativas mútuas… (p. 54)... Casas e ruas são complementares! A qualidade de uma depende da qualidade da outra (p.63). …Dar igual atenção à casa e à rua significa tratar a rua não apenas como espaço residual …, mas sim como elemento fundamentalmente complementar” (p.64).


A rua urbana com continuidade constitui o cenário básico para a integração de equipamentos colectivos muito diversos, não apenas na sua perspectiva funcional, mas também numa perspectiva integrada, tanto em termos de aspecto (quadro de fundo, composição variada, etc.), como em termos sociais de animação e de apropriação – equipamentos mais frequentados que são usados como animadores das cenas urbanas (exº, paragens de transportes públicos, jardins urbanos colaborando fortemente na integração entre edifícios).

Diferentes tipos de habitar e de gostos de habitar encontram, também, na rua o seu espaço público comum, lugar de consenso possível, elo de continuidade urbana, sítio de conciliação entre o lazer e o trabalho, espaço de ligação entre vizinhanças, que, cada vez mais, não se agregam e usam em torno dos tradicionais equipamentos colectivos de bairro ou de "célula" (escola do bairro em que se reside, comércio local, etc.).

As funções da rua podem constituir-se no principal elemento de adequação entre diversas vontades de convívio, que são expressas por muitas pessoas; desde aquelas que pretendem fortes laços de convívio, entre vizinhos, nos próprios edifícios habitacionais, até às outras, que nos devem merecer idêntico respeito, e que pretendem uma extrema condição de privacidade e anonimato no edifício urbano (escolhendo, por vezes, o "grande multifamiliar", exactamente para obter tais condições). Mas a rua, como sabemos, teve ultimamente muitas das suas funções menorizadas.

Para além da rua mais “corrente”, se é admissível utilizar uma tal expressão, há outros convívios bem possíveis e desejáveis em outras arquitecturas expressivamente “conviviais”, que importa aprofundar na extensa complexidade e riqueza das suas caracterizações, entre as quais é possível, desde já, apontar algumas – faz-se notar que não foi possível identificar o autor do excelente artigo referido e do qual se retiraram grande parte dos elementos que são, em seguida, apontados: (15)

- Ruela: se a rua que limita quarteirões é o espaço de animação por excelência a ruela tem a vocação à escala da vizinhança; mais que uma passagem pode ter algumas das funções da rua, tolerando alguns automóveis.

- Passagens e impasses privativos: agrupamento em torno de uma pequena rua privativa com habitações unifamiliares em banda ou pequenos multifamiliares com escala reduzida, sempre sob a forma de intervenções pontuais na organização urbana tradicional, relacionadas com situações de preenchimento urbano.


- Pátio: forma de agrupamento semelhante à “passagem”, mas com uma escala mais pequena, convindo quer a situações menos urbanas, quer a certas disposições do terreno.

- Pequenos multifamiliares com escala humana: tipo de habitar ligado à rua e ao quarteirão urbano, constituindo o centro de todas as pequenas povoações; soluções mais isoladas ou mais em banda e nestas mais rígidas ou menos rígidas e estruturadoras do espaço colectivo.

- Edifícios de cidade: condições idênticas às anteriores mas agrupando maior número de fogos, participa de uma certa convivialidade no modo como se integra na cidade, e a sua concepção designadamente a nível dos seus espaços comuns pode incitar à criação de relações estreitas entre os habitantes.

- Conjuntos de casas: alusão à tradição de certas regiões, numa tentativa de recuperar o potencial poético das casas individuais mas (re)inventando instrumentos ao serviço de uma prática colectiva do conjunto graças à disposição das escadas e aos arranjos que as acompanham.

- Entrada: transição entre a rua pública e o espaço aberto e o interior do fogo, essencialmente, privado e fechado, usa elementos situados entre a rua e o edifício (ex., jardinetas privadas, tratamentos de pequena escala); depois são as entradas com os seus prolongamentos exteriores, como por exemplo: murete de sentar e falar, iluminação nocturna, garagem para bicicletas, revestimento de solo mais cuidado relacionado com o do próprio hall, efeitos de luz, etc. Sítio muito frequentado de encontro, mais ou menos fortuito, entre vizinhos e de agrupamento dos adolescentes. Sítio importante para os habitantes porque dá do edifício uma imagem “de primeira linha”.

- Escada e patim: o arranque da escada pode, ou não, convidar a subir, é importante que a escada e sobretudo os patins tenham luz natural, que se tenha vista exterior e que os patins tenham um bom tamanho para suscitarem paragem e, potencialmente, algum convívio, podem ser também integrados elementos que suscitem a integração de plantas e/ou o estar sentado e a observação, por exemplo, da rua.

- Galeria: bem tratada e dimensionada pode ser um prolongamento elevado da rua, para isso tem de ter adequadas dimensões e ser tratada com uma certa transparência, mas também tem de ser um sítio abrigado e agradável, e que sirva um número reduzido de fogos.

- Superfícies comuns: na proximidade dos átrios comuns para os adolescentes, em posições elevadas para jogos de crianças ou actividades comuns (lavagem, passatempos, etc.), ou eventualmente apropriáveis por pessoas de certos fogos (ex., quartos para estadas curtas); tudo isto exige como base uma boa estrutura de gestão local.


Fig. 10

7 - A convivialidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificadosWilliam Mitchell (2000) (16) lembra a história do homem, quando o espaço junto ao poço perdeu a sua função e se inventaram outros sítios urbanos conviviais como o café, e defende que a história se repete, hoje, pois antes tínhamos de sair de casa para trabalhar e para ir ao cinema e ver os amigos e hoje tudo isto se pode fazer na nossa casa. Isto é bom, por um lado, mas, por outro, Mitchell sublinha que as organizações e os sistemas citadinos fragmentam-se e dispersam-se e a vida nos espaços públicos parece disseminar-se e perigar. E William Mitchell defende que, mais uma vez, devemos (re)inventar os espaços públicos, os povoados e as cidades deste novo século.

A convivialidade tem, assim, uma importante presença ao nível dos espaços públicos, quer mais intensamente urbanos, quer vicinais; no entanto também há uma convivialidade doméstica e, entre uma e outra, até, alguma convivialidade condominial poderá fazer todo o sentido, tanto em condições habitacionais correntes, como em condomínios socialmente específicos: será o caso de residências para seniores, estudantes e pessoas isoladas, será o caso de edifícios para famílias monoparentais; será o caso de soluções para determinados grupos socioculturais; e afinal poderá ser o caso de apostas específicas em “segundas e/ou terceiras vias” de convívio (urbano, vicinal, condominial e doméstico)...

(i) A convivialidade nos espaços públicos

O espaço público é por natureza gregário, havendo definições de territórios e pólos de actividade e animação dos mesmos que serão, sem dúvida, favorecedores de uma predisposição para o convívio....fazer espaços predispostos para o convívio assumidamente urbano ou de um grupo de vizinhos são situações bem diferentes.

Não se trata de fazer condomínios de convívio obrigatório, mas sim de configurar troços urbanos estratégicos e recintos de vizinhança próxima que sejam naturais geradores de convivência informal, por exemplo, á volta da mesa do café ou da esplanada, a participar num jogo de grupo ou simplesmente a assistir ao mesmo. Mas que fique bem claro que tal “naturalidade” tem de ser cuidadosamente projectada (ex. no interior de quarteirões ou em pracetas residenciais).

(ii) A convivialidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifíciosUma bem afirmada e agradável vizinhança de proximidade (ex. interior de quarteirão, impasse ou praceta residencial), como o nome indica, é um local muito favorável para a geração de laços de convívio, que por vezes nascem entre crianças e depois se prolongam a outros residentes.

Em termos de uma reflexão geral sobre esta matéria apuram-se, para já, os seguintes aspectos retirados de um artigo do pediatra Mário Cordeiro e do colega Tiago Queiroz (17):

"O melhor ambiente vivido nas cidades teve um impacto muito positivo na saúde das populações ... Actualmente, o conceito de cidade e a sua prática sofreram algumas distorções e desvios, criando novos e intensos problemas, no cerne do qual estão os sistemas de transportes, a poluição, a perda de identidades e de sentimentos de pertença, e a descaracterização do espaço público, designadamente a «perda da rua» enquanto espaço lúdico, relacional e estético. As crianças e jovens são os primeiros, a par dos idosos, a sofrer com isso. Não se creia, contudo, que a culpa está nas cidades, mas sim na forma como por vezes estão a ser planeadas e geridas.

E os autores apontam o caminho: Há que "Redimensionar os espaços de habitação, a sua articulação e a multiculturalidade e carácter transgeracional, redimensionar os espaço comercial, lúdico e laboral, e fazer cada vez mais da cidade um aglomerado de «pequenas aldeias» (bairros), como ainda existem em tantas delas, em que as grandes deslocações sejam muito mais limitadas e os percursos a pé sejam privilegiados, e em que as hipóteses de encontro de pessoas da família, amigos.”
E Mário Cordeiro e Tiago Queiroz sublinham, assim, a importância da construção e reconstrução de vizinhanças de proximidade bem definidas e agradáveis, tornando-se a cidade um espaço estrategicamente mais compartimentado, apropriado, diversificado e atraente.

(iii) A convivialidade nos espaços edificados

Ao nível do edificado é possível conceber um edifício, mais ou menos, convivial. É possível sugerir o interesse de se passar por um espaço de estar e lazer que é de todos antes de nos recolhermos aos nossos mundos privativos e é possível, mesmo nestes mundos, sugerir, física e ambientalmente diversas opções de convívio doméstico. Mas tais sugestões não podem ser mais do que isso, pois sendo imposições, sem alternativas, terão maus resultados.
E há que ponderar as formas e modos de habitar em termos da sua compatibilidade com as soluções de estruturação dos espaços comuns e do seu respectivo relacionamento com as habitações.

(iv) A convivialidade na habitação
Ao nível do fogo é possível e muito desejável criar pólos diversificados e articulados de convivialidade no mesmo espaço doméstico e/ou em espaços distintos.
E não tenhamos dúvida de que é fundamental cuidar especificamente da existência de condições propícias ao convívio doméstico estrategicamente distribuídas pela habitação e designadamente: na cozinha, na sala comum e na zona de entrada.


Fig. 11

8 - Carácter e importância específica da convivialidadeA convivialidade é uma qualidade apenas em parte subjectiva, que se liga a distâncias inter-pessoais e à percepção territorial, sendo essencial para a coesão citadina, vicinal, condominial e doméstica.

A convivialidade tem de ser uma qualidade expontânea ainda que sugerida pelos espaços e ambientes, pois do seu excessivo enquadramento só resultarão, em situações correntes, efeitos perversos e opostos aos desejados; até porque há diversos níveis de convivialidade e alguns deles têm de ser objectivamente desejados pelos próprios habitantes.

Ficam para ponderação situações especiais eventualmente adequadas a grupos socioculturais muito específicos, e mesmo neste caso ficará por resolver a respectiva integração urbana.

Tal como se salientou no início detes ítem, convivialidade e privacidade são aspectos fortemente complementares e que interagem muito positivamente, numa gradação de territórios e de limiares que, entre os extremos da cidade animada e do recanto doméstico individual, têm forte expressão ao nível do convívio em locais de passagem, transição e paragem natural, como são o café na esquina, o espaço de recreio no interior do quarteirão e o átrio exterior que antecede a entrada no edifício.


Fig. 12

9 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a convivialidade arquitectónica residencial
Como notas de reflexão sobre a convivialidade urbana e residencial, salientam-se os seguintes aspectos.
A convivialidade numa perspectiva arquitectónica e residencial tem a ver com o viver em comum, com o ter familiaridade e camaradagem, com a entreajuda natural, a sociabilidade entre vizinhos e o trato diário espontâneo e fácil em unidades de convizinhança. Através do viver em comum relaciona-se com a convizinhança, que é o estado ou situação de quem é vizinho com outrem, de quem está próximo e/ou é semelhante.

A convivialidade relaciona-se com o conceito de comunidade, entendida como sociedade, agremiação e lugar onde vivem indivíduos agremiados, que se "ajuntam" em assembleias; e devemos ter presente que há diferentes graus e diversas expressões físicas de convivialidade.

Deve sempre destacar-se que a condição de convivialidade residencial tem de ser inteiramente espontânea e natural; o desenvolvimento de qualquer tipo de convivialidade fisicamente imposta é, basicamente, um factor negativo, a combater, porque tem como consequência o arrastar dos indivíduos obrigados ao convívio para posições extremadas de isolamento e de rejeição desse mesmo convívio.

Há no entanto que afirmar, com clareza, a importância de uma convivialçidade reforçada ao nível do habitar, com todas as implicações a ela associadas – espaciais, conforto, etc. - pois, afinal, e como escreveu Joaquín Arnau (2000) (18): “É na convivência, e não na simples vivência, que Vitrúvio refere estar a origem da cabana primitiva” (p. 30).

E a convivlidade é tão pública como privada, sendo que provavelmente aquilo em que muitas casas/habitações falham é na iexist~encia de adequadas condições de convivialidade doméstica, condições que promovam um encontro diário, consistente e securizador, do tipo daquele a que se refere José Gomes Ferreira (“Poesia VI”, Lisboa, Diabril, col. Obras de José Gomes Ferreira, 1976, 255p): “À tardinha acendemos o fogo na lareira/ e é como se fosse de novo o princípio do mundo / quando o silêncio / ainda criava pedras / para depois haver tempo concreto,/ tempo alheio” (p. 50).

Em termos dos desenvolvimentos considerados mais interessantes nestas matérias da convivialidade urbana e residencial, salientam-se os seguintes temas de estudo.

- A convivialidade liga-se ao viver numa relativa ou afirmada comunidade, ao ter familiaridade ou camaradagem vicinal, à entreajuda natural ou à simples e civilizada sociabilidade entre vizinhos, bem como ao trato diário espontâneo e fácil em unidades de convizinhança.

- O convívio urbano e na vizinhança é um trunfo essencial para a construção e reconstrução de espaços urbanos vitalizados e motivadores e, actualmente, um trunfo urgente mas difícil de lançar, quer porque o espaço urbano é residual e não comporta determinados elementos constituintes, quer porque o projecto é incompleto e defeituoso e/ou o promotor não considera que tal qualidade é importante.

- O convívio doméstico, em espaços alternativos, por exemplo à volta da mesa e com a possibilidade de fuga à poluição televisiva, é um trunfo valioso para a coesão familiar, mas colide, frequentemente, com espaços unifuncionais, relativamente apertados e dominados pela “caixa mágica”.
- O convívio condominial é mais complexo e, eventualmente, discutível, mas um número reduzido de fogos e a possibilidade de uma ou outra actividade de vizinhança, que pode ser até a conversa breve de circunstância, serão sempre aspectos positivos....há muito a aprender com soluções experimentadas, embora entre nós e infelizmente a tendência seja sempre para uma renovada tábua rasa.

Notas:(11) Larry Ford, “The Spaces between Buildings”, 2000.
( 2) RAPOPORT, Amos Rapoport, “Aspectos humanos de la forma urbana – Hacia una confrontación de las Ciências Sociales com el diseño de la forma urbana”, 1978 (1977), p. 320.
( 3) Jane Jacobs, “Morte e vida das grandes cidades” , trad. Carlos Mendes Rosa, 2001 (1961), pp. 454 e 455.
( 4) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, trad. Eduardo Lima Machado, 1996 (1991), várias pp.
( 5) Autor não definido, “Architectures conviviales”, in Habitat Social, Paris, s.d., pp.9 a 22.
( 6) William J. Mitchell, “E-topía - Vida urbana, Jim, pero no la que nosotros conocemos”, 2001 (2000).
( 7) Mário Cordeiro e Tiago Queiroz, "A cidade, a criança e a saúde: contributos para uma mudança de paradigmas", em Cadernos edifícios, n.º 4, "Humanização e vitalização dos espaços públicos", pp. 83 a 108.
( 8) Joaquín Arnau, “72 Voces para un Diccionario de Arquitectura Teórica”, 2000.

Notas editoriais:(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 338, 20 de Março de 2011

segunda-feira, dezembro 12, 2005

58 - QUEM SABE COMEÇAMOS POR NÓS? Artigo de Marilice.Costi - Infohabitar 58

 - Infohabitar 58

QUEM SABE COMEÇAMOS POR NÓS?

Artigo de Marilice Costi

“Pensar nas palavras ditas para pensar
as pessoas que as proferem...
e aquelas a quem respeitam”

Paulo.Machado
(Os idosos na cidade e a cidade envelhecida. http://infohabitar.blogspot.com/ 05.dez. 2005)


A lama que, todo os dias em vários meses, vem sendo jogada pela televisão e pelas letras repetidas nos jornais, só faz aumentar a nossa descrença nos homens e num mundo melhor. Mesmo que muitos digam que estamos purgando anos de história corrupta e de forma visceral – o que pode significar um tratamento radical e eficaz – não se justifica o sofrimento que o país (leia-se gente) passa. Nada justifica. Matar a utopia de um povo é tapar o final do túnel, apagar a luz. E isto é um dos crimes mais sórdidos ao meu ver.

Tenho lido textos de autores renomados como Arnaldo.Jabor ou João.Ubaldo.Ribeiro, circulando na Internet. Eles mexem com a gente, tentam estimular a nossa auto-estima e a nossa responsabilidade frente aos acontecimentos. Uma forma de mostrar que temos a obrigação de virar a página e virar de forma adequada, abrindo novas saídas para o túnel e removendo o que é espúrio. Mesmo assim muito me entristecem.

Mas um ato simples e delicado de uma pessoa num clube desportivo de Porto.Alegre fez com que me sentisse melhor. Ambas saímos da aula de ginástica – Pilates é um tipo de exercício que mexe muito com o corpo e, consequentemente, movimenta os líquidos – e nos dirigimos ao sanitário. Quando chegamos, percebi que a colega nova – eu não a tinha encontrado anteriormente – estava na minha frente, portanto, certamente, a vez era dela: aliviar-se antes de mim. Ela me perguntou: Você está em que condições? Tem pressa? Respondi-lhe, mais ou menos. Ela disse, eu estou na mesma. Vá primeiro. E eu argúi: Você chegou antes, eu aguardo. Mas ela insistiu: Que idade você tem? – e eu, sem me dar conta, lasquei a minha. Ela, a recém-conhecida, categoricamente, ordenou: Você vai primeiro. Tem mais idade que eu. E ainda observou que o papel higiênico estava no fim, foi buscá-lo e me alcançou.

Sem argumento e mediante o seu critério, sucumbi dando-me conta que eu estava sendo respeitada pela idade que eu tinha, apenas quatro anos mais que ela.




A caminho de casa, depois de um dia turbulento, cheio de problemas a resolver, como tem sido o dia-a-dia das famílias brasileiras, pensei: uma coisa tão singela me deu tanto bem-estar. Conheci uma pessoa respeitosa, ao redor dela existem outras tantas que também devem respeitar as pessoas da mesma forma. Ainda existem critérios de valor na sociedade. Sorri sozinha.

A complexidade do século XXI perpetua a fragmentação e degradação do século XX, destruindo os valores humanos... Nossa sociedade tão carente de valores... Valores, critérios. Qual vivenciei naquele final de tarde? O respeito à idade e à experiência dos outros. O respeito aos mais velhos. Um simples critério que não só parece ser simples. É simples, assim como são poucos e básicos os Dez Mandamentos.

Vale lembrar que ouvi dizer que os tais mandamentos, se fossem escritos hoje, teriam um mais: Não consumirás sem critérios. Tudo que frequentemente não fazemos, porque não suportamos a avalanche de estímulos ao consumo jogados nas nossas retinas, mobilizando nosso sistema nervoso...

Respeito aos outros – como foi o caso da minha colega desconhecida -, e por nós mesmas - como é o caso de não sucumbirmos à mídia - não são tão complicados.

A nossa capacidade de discernimento precisa ser resgatada, a crítica e a autocrítica devem ser exercitadas desde sempre. Mas mais que isto, é preciso olhar o próximo como a nós mesmos. Mas isto pode doer muito. Daí que nos entupimos de presentes, mesmo que nem precisemos deles.

Vale lembrar o direito do consumidor, não só como algo que dever ser relacionado à aquisição de bens e serviços, que devem ser bem feitos e pagos devidamente, mas como algo que vem de nós, de nossa ética, da nossa capacidade de discernir, de respeitar os outros.





A pessoa que me cedeu lugar talvez nem saiba o quanto me fez bem sentir que envelhecendo ainda sou alguém. Foi o que pensei enquanto aguardava o semáforo abrir ao voltar para casa. Sempre poderemos fazer alguma coisa para possibilitar que o outro se sinta melhor. Mesmo que isto seja simplesmente ceder lugar num banco de ônibus ou na fila de um sanitário. É simples. Começar por nós mesmos. O que pode ser o início de uma mudança de hábito, o início do resgate de valores, o início do clima natalino, que tal?

Porto.Alegre, Dezembro de 2005

Marilice.Costi


Nota do editor:
Na sequência desta primeira abordagem da fundamental temática dos idosos na cidade, é com muito gosto que novamente acolhemos um artigo de grande humanidade e oportunidade, escrito pela arquitecta e escritora Marilice.Costi e, já agora, visitem o seu site www.sanaarquitetura.arq.br

(fotografias de A.B.Coelho)

segunda-feira, dezembro 05, 2005

56 - Os idosos na cidade e a cidade envelhecida - um artigo de Paulo Machado - Infohabitar 56

 - Infohabitar 56

Os idosos na cidade e a cidade envelhecida

um artigo de Paulo Machado, Sociólogo, Investigador Auxiliar no LNEC, onde integra o Núcleo de Ecologia Social.

Pensar nas palavras ditas para pensar as pessoas que as proferem... e aquelas a quem respeitam.

Na nossa sociedade é sensível uma alteração vocabular que importa reter: aos velhos de antigamente sucederam os homens e as mulheres da 3ª Idade e da 4ª Idade, os idosos de hoje. A expressão velho ou velha, enquanto designativo, caiu em desuso, salvo quando se pretende caracterizar alguém do ponto de vista do seu estado presente, por comparação ao passado ou por comparação com outrém: “envelheceu de repente”; “está a ficar velho”; “ele está mais velho do que ela”. Caso contrário, a designação socialmente correcta é amaciada (idoso, a mais usada, de preferência a ancião, sénior, geronte, velhote), e o termo velho ganha um sentido quase pejorativo.

A alteração vocabular deixa perceber uma mudança social com um significado próprio. Esta nova opção vocabular não se aplicou aos tecidos inertes (à habitação), embora eles possuam “vida”, façam viver a cidade e preservem a vida de quem neles se abriga. Daqui resulta que um idoso possa ser referenciado numa velha casa, sendo improvável ouvir dizer que um idoso apartamento é morada de uma mulher velha. Sem pruridos, dizemos que um edifício está velho quando revela sinais de deterioração. Mas é afirmação socialmente menos consentida se essa senescência for de alguém que estimamos e respeitamos.

Esta deferência vocabular introduzida nas sociedades Ocidentais contemporâneas quando nos referimos aos mais velhos espelha a nossa própria posição sobre essa condição humana e social (a velhice). É questão que não cabe aqui esmiuçar. Mas pode ter implicações sobre o modo como compreendemos a relação do homem e da mulher idosos com o seu espaço vivido. Por exemplo, pode levar-nos a pensar em soluções residenciais assistidas, dos próprios (apoio domiciliário) ou especialmente construídas para o efeito. Nestes casos, a gama existente vai das pequenas unidades residenciais (condominiais, agrupamento de famílias) aos grandes equipamentos (lares, casas de repouso), numa lógica de descontinuidade geracional mais ou menos radical.

A questão do alojamento das pessoas de maior idade, quando entendida como tal (isto é, questão de uma geração e não da nossa organização social) acaba por ser tributária do mesmo processamento social, que categoriza etariamente e favorece uma estereotipia social baseada na idade. Esse processamento é um fenómeno social normalizador (e normativo) que reduz a complexidade do real e homogeneíza as pessoas e os seus grupos de pertença. As ‘crianças’, os ‘adolescentes’, ‘os jovens adultos’, os ‘adultos’, os ‘idosos’ são produto desse processo, e a organização da vida social é determinada por estas categorizações, retroagindo incessantemente.




Imagem 1: A cidade e os seus equipamentos exigem atenção redobrada para um usufruto em condições adequadas. O “típico” pode ser adverso ao idoso.

As cidades, expoentes máximos da concentração humana e da civilização urbanocêntrica, reproduzem na sua ordem social e espacial este modo segmentado de ver a sociedade. Enquanto as urbes se confundiram com crescimento populacional, pujança económica, sorvedouros de mão-de-obra jovem e espaços de elevada atractibilidade, poucos foram os que imaginaram (e se preocuparam) com os velhos que nelas habitavam, e a questão do envelhecimento demográfico não lhes dizia directamente respeito.

Desenganem-se, porém, aqueles que pensam que as cidades não envelhecem demograficamente, em estreita relação com o envelhecimento do seu edificado e das demais infra-estruturas. Provámo-lo à saciedade em estudos recentes. Entre nós, por exemplo, a maioria da população com mais de 65 anos de idade já não residia, em 2001, maioritariamente, em lugares com menos de 2.000 habitantes (apenas 47,6%, contra 53% dez anos antes), e o maior aumento nas últimas décadas tem-se verificado nos centros urbanos, quer de média, quer de grande dimensão. No início deste século XXI, mais de ⅓ (35%) dos idosos vive em aglomerados considerados urbanos (> 10.000 habitantes). Mais precisamente: 592 mil pessoas idosas.

As cidades, nomeadamente as de maior dimensão, reflectem nas suas estruturas populacionais esta tendência demográfica para o envelhecimento, embora a expressão do peso relativo da população idosa se faça sentir ainda mais, dado que a própria transformação urbana se encarrega de proceder a uma segregação demográfica que expulsa para as periferias as gerações mais novas, criando as condições para o aparecimento de áreas dentro da cidade (freguesias, quarteirões, bairros) em que a proporção de idosos é elevadíssima, em muitos casos ultrapassando 30% da população aí residente. A Cidade de Lisboa reflecte bem este fenómeno.



Imagem 2: A secularização crescente e a desparoquialização das práticas religiosas têm contribuído para o isolamento progressivo do idoso, mesmo na “sua “ Igreja.

A segregação demográfica (ou dissociação etária), entendida neste duplo sentido do envelhecimento populacional das cidades e rejuvenescimento das suas periferias, pode ser definida como a desigual repartição dos diferentes grupos sexo-etários no seio das aglomerações urbanas, e é um fenómeno gerador de importantes disfunções sociais e urbanas. A elas nos poderemos vir a referir em outras ocasiões.

Por agora, fiquemo-nos por uma breve caracterização da cidade de Lisboa e do seu envelhecimento, acompanhada de comentários que sugerem aberta discussão.




Os factos da cidade envelhecida que já foi de muitas e desvairadas gentes.


1. Cidade de pouco mais de meio milhão de habitantes (564 mil em 2001), em Lisboa residem cerca de 134 mil idosos (pessoas com mais de 65 anos de idade). Para que se compreenda a reconfiguração demográfica da cidade-capital, são mais 10.000 do que há dez anos, quase mais 20.000 do que há vinte anos.


NENHUM PROJECTO PARA LISBOA PODE FICAR INDIFERENTE AO FACTO DE A CIDADE REGISTAR, ANUALMENTE, UM ACRÉSCIMO DE SENSIVELMENTE MAIS 1.000 PESSOAS IDOSAS, QUANDO O VOLUME TOTAL DE POPULAÇÃO NÃO PÁRA DE DIMINUIR.


2. O total de residentes idosos em 2001 correspondia, numericamente, e grosso modo, ao volume de residentes de todas as idades que a cidade deixou escapar desde 1940. Parte considerável das suas freguesias perdeu diversidade geracional, envelheceu e não apresenta sinais de “retoma” demográfica sustentada.



O PROBLEMA SOCIAL EM MUITAS FREGUESIAS DA CIDADE NÃO É APENAS O FACTO DE ESTAREM ENVELHECIDAS.
É TAMBÉM, E SOBRETUDO, O FACTO DE CADA VEZ SEREM MENOS OS HABITANTES QUE NÃO SÃO IDOSOS.


3. Dos 134 mil idosos residentes, aproximadamente 43% têm mais de 75 anos de idade. E destes muito idosos, quase 40 mil são mulheres.



NÃO BASTA DIZER QUE A CIDADE ESTÁ ENVELHECIDA. É PRECISO TOMAR CONSCIÊNCIA DE QUE OS IDOSOS ESTÃO MAIS VELHOS, O QUE SIGNIFICA QUE OS CUIDADOS DE QUE CARECEM AUMENTAM E PROLONGAM-SE NO TEMPO.


4. Das 53 freguesias, só em 5 existem mais jovens (até aos 15 anos) do que idosos. Essas freguesias são a Ameixoeira, Carnide, Charneca, Lumiar e Marvila.


5. Estes factos explicam porque Lisboa é a cidade portuguesa mais envelhecida, a capital europeia com maior proporção de idosos e uma das cidades europeias com maior envelhecimento demográfico.


No conjunto da cidade, o número de idosos é o dobro dos jovens (134 mil vs. 66 mil).






6. As projecções demográficas indicam que a tendência para o envelhecimento se manterá e acentuará nas próximas décadas. Lisboa não escapará a esse desígnio demográfico.



A DINÂMICA SOCIAL E DEMOGRÁFICA IMPÕE RESPOSTAS POLÍTICAS QUE NÃO PODEM SER ADIADAS.


7. Mas também a própria Área Metropolitana conhecerá um fenómeno de envelhecimento. Estimam-se que sejam hoje cerca de 326 mil os idosos residentes na AML, mas dentro de 10 anos serão quase 400 mil.



AS QUESTÕES DO ENVELHECIMENTO NÃO DIZEM APENAS RESPEITO A LISBOA MAS A TODA A SUA ÁREA METROPOLITANA E É TAMBÉM NESSE CONTEXTO QUE DEVERÃO SER PENSADAS.


A estes factos demográficos, outros indicadores sociais se podem associar:

8. Pelo menos 34.000 idosos da Cidade (dos 134 mil residentes, i.e., 25%) vivem sós em casa.


9. Pelo menos mais 50.000 viverão apenas com o seu cônjuge, o que significa que cerca de 62% viverão sós ou acompanhados com outro idoso.



O TOTAL ISOLAMENTO OU A DEPENDÊNCIA DE OUTRO IDOSO SÃO FACTOS A QUE NÃO PODEMOS FICAR INSENSÍVEIS E QUE SUGEREM POLÍTICAS SOCIAIS ACTIVAS PARA OS MAIS VELHOS.


10. A relação entre a idade das pessoas e a idade dos alojamentos e as suas más condições habitacionais é fortíssima (e estatisticamente irrefutável), denunciando que a precaridade das condições em que habitam será, em muitos caso, muito elevada.



O PROBLEMA DAS MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS NÃO ADAPTADAS ÀS NECESSIDADES DOS MAIS VELHOS PODE SER ATACADO.


11. Nem todos vivem no centro da Cidade. Grande parte vive nas avenidas novas, em Alvalade, em Benfica, muitos (cerca de 6.500) em bairros sociais de realojamento.



É ERRADO PENSAR-SE QUE SÓ EXISTEM IDOSOS NAS ZONAS HISTÓRICAS DA CIDADE.


12. Mais de 3.000 vivem em lares e residências para idosos (2 em cada 100).


13. O índice de risco rodoviário (nomeadamente no atravessamento das ruas) é várias vezes superior à média (de todas as idades).


14. O medo (sentimento de insegurança) gerado pelos furtos e roubos de que são alvo é o maior de entre todos os cidadãos.


15. A mobilidade (uso do transporte próprio ou público) é a mais baixa de entre todos os moradores.



OS RISCOS RELACIONADOS COM A UTILIZAÇÃO DA VIA PÚBLICA, O MEDO DE SER ASSALTADO, A AUSÊNCIA DE UMA REDE DE TRANSPORTES ADEQUADA, A FALTA DE RECURSOS MATERIAIS EXIGEM RESPOSTAS.


16. O rendimento mensal médio é dos mais baixos.


17. Pela óptica mais restrita dos índices de pobreza (i.e., em que o critério assegura que as pessoas identificadas nesta categoria possuem rendimentos correspondentes a 60% da mediana do valor da receita líquida total por adulto equivalente), obtém-se um nicho de idosos pobres residentes na Cidade em torno dos 50 mil, ou seja, cerca de 37% do total de idosos residentes.


alguém poderá ficar indiferente a uma estimativa que admite que o número de idosos pobres na cidade ronde os 50 mil?

18. Deverá ter-se em consideração que 92% dos homens e mulheres com mais de 65 anos e residentes na cidade são “inactivos” (o que significa serem reformados, aposentados ou domésticos, não exercendo uma actividade remunerada), e que os 8% que ainda trabalham, a maioria fá-lo apenas até aos 69 anos de idade, predominando (nestes casos), por ordem decrescente de importância, os seguintes grupos sócio-económicos:


Trabalhadores não qualificados (de diferentes sectores) (21%)

Quadros intelectuais e científicos (15,4%)

Empregados administrativos do comércio e serviços (15%)

Pequenos patrões do comércio e serviços (7%)

Directores e quadros dirigentes do Estado e empresas (5,5%)


A INACTIVIDADE PROFISSIONAL DA VELHICE URBANA, SOBRETUDO DAQUELES QUE SE ENCONTRAM PSICOLOGICAMENTE E FUNCIONALMENTE APTOS, PODERIA SER A MAIOR FORÇA DE TRABALHO SOCIAL DISPONÍVEL AO SERVIÇO DE UMA CIDADE SOLIDÁRIA


19. Deverá ter-se também em consideração que 43% das pessoas residentes em Lisboa que foram identificadas como portadores de uma qualquer deficiência e independentemente do grau de incapacidade (motora, auditiva, visual, mental ou outra, cfr. dados de 2001) tinham mais de 65 anos de idade. Aliás 43% dos idosos estavam nessa situação.


Comente você mesmo!





Imagem 3: Há alguma inconvencionalidade no modo de vida do idoso urbano, que o cosmopolitismo não esbate, e pelo contrário acentua.

segunda-feira, novembro 28, 2005

55 - Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Sessão Técnica do Grupo Habitar - um artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 55

 - Infohabitar 55

Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Sessão Técnica do Grupo Habitar

um artigo de António Baptista Coelho

A 22 de Novembro de 2005 decorreu no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, a 3.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar (GH). Foi uma primeira incursão do GH numa temática que é, hoje em dia, crucial para todos nós e para os nossos próprios projectos de vida, mas também para a vida das nossas cidades, pois o envelhecimento da população e o envelhecimento do seu quadro de vida são processos que se influenciam, mútua e muito negativamente.




Após uma introdução sobre a dinâmica do GH, a intervenção de base da sessão foi realizada pelo doutor Paulo Machado, sociólogo, Investigador do Núcleo de Ecologia Social do LNEC. Em seguida, e com as palavras do próprio Paulo Machado faz-se a síntese da sua intervenção:

“Num quadro de profundas transformações demográficas, sociais, culturais, políticas e económicas, as cidades portuguesas acordam, a cada dia que passa, mais envelhecidas.

Causa e efeito dessas mesmas transformações, o envelhecimento urbano não surpreende mas faz pensar sobre:
  • a sustentabilidade dos tecidos urbanos num contexto de esgotamento intergeracional,
  • a capacidade de corresponder à satisfação das exigências técnicas (mais ligadas ao edifício e ao fogo), funcionais (de segurança, de mobilidade, de acessibilidade aos bens e serviços) e avaliativas (qualidade de vida auto-percepcionada) dos idosos residentes,
  • a humanização possível da cidade como património cultural/civilizacional.
A intervenção proposta procura situar a mudança social que induz as transformações, caracterizá-la no que em relação a Lisboa respeita, identificar alguns dos problemas já sinalizados e desafios sugeridos por essa mudança, discutindo soluções num quadro de reflexão técnico-científica alimentada pela intervenção cívica.”



Levantaram-se nesta intervenção variadas e interessantíssimas questões, e entre estas destacam-se e ficam para próximo debate e aprofundamento:
  • A satisfação relativa a um dado espaço de vivência alarga-se da casa, à rua, ao bairro e à cidade; e a compreensão da relação entre as pessoas e os espaços exige um grande esforço interdisciplinar e metodológico, designadamente, no sentido de se poder e dever reinventar o lugar onde se envelhece – da cidade, ao bairro e à célula doméstica.
  • A inversão da antiga “pirâmide” etária é algo de irreversível e temos de saber/fazer viver (n)uma sociedade/cidade com um número muito grande de idosos (cada vez mais idosos), de pessoas que vivem sozinhas, de idosos que vivem sós e de idosos cuja solidão se associa à pobreza. E este é um problema muito crítico em zonas do interior do País; e aqui o meio citadino até pode proporcionar alguns aspectos positivos.
  • A satisfação das exigências técnicas não corresponde à satisfação das necessidades de bem-estar. Há excelentes equipamentos de apoio a idosos, em termos de funcionalidade conforto ambiental, em que as pessoas se sentem menos bem porque estão fora do seu espaço de habitar conhecido e “familiar”. Acabam por se sentir estranhos num ambiente que lhes é estranho. Os equipamentos deviam ser das comunidades e não apenas da cidade; e além disto a cidade transformou-se, tal como disse Paulo machado, “essa nova cidade que é a minha cidade, mas que eu já não reconheço.”
  • E uma nova cidade que é muito pouco amiga do natural vagar dos idosos na circulação e no uso dos espaços públicos, e, generalizando-se, uma cidade muito pouco amiga do peão. Um questão que tem uma visibilidade clara nos terríveis números dos atropelamentos, mas que tem uma raiz profunda, ainda nas palavras de Paulo Machado, ”numa dissociação entre a casa e a rua que primeiro se estranhou e, depois, se entranhou.” Mas uma questão que também se liga a uma cidade que já não é marcada, como devia ser, pela civilidade.
  • Mas é possível e essencial intervir na cidade e nos seus espaços públicos e nos seus elementos de vitalização, como são os pólos de comércio diário. É possível mas há que ter presente que o tempo de intervenção necessário é muito longo, “o médio prazo da cidade é muito longo” (P. Machado).
Note-se que estes apontamentos são apenas, isso mesmo, apontamentos de uma exposição com grande interesse, ligada a tantas outras matérias do habitar com tanto interesse e que gerou questões e intervenções da plateia que nos teriam levado bem longe, houvesse tempo para tal.




Em seguida o Eng.º Duarte Nuno Ribeiro Gonçalves, Presidente da Direcção da Cooperativa Colmeia, apresentou um inovador e recém—inaugurado equipamento para idosos e crianças na zona do Parque das Nações , em Lisboa, projectado pelos arquitectos do gabinete SerraAlvarez.

Neste conjunto, merecedor de uma visita, associa-se um quarteirão urbano atraente e agradavelmente densificado, destinado a habitação, com um piso térreo quase inteiramente destinado a dois equipamentos “gémeos”, acessíveis a partir de uma entrada comum, ligada a um serviço de gestão central e também comum aos dois equipamentos:
  • um deles destinado a crianças (a “Casa das Abelhinhas”);
  • e o outro destinado à estadia prolongada de idosos (a “Casa dos Mestres”), onde se integram 30 quartos individuais e duplos, para 45 residentes, com excelentes condições de privacidade, funcionalidade e convívio;
  • entre um e outro equipamento, no miolo do quarteirão, um espaço exterior de lazer constitui, de certa forma, um espaço de relação entre as crianças e os idosos.
Naturalmente, salienta-se a possibilidade que aqui se oferece de uma “parceria” no habitar, entre uma família com uma habitação integrada no quarteirão e um membro idoso desta mesma família, que possa eventualmente necessitar de cuidados especiais e/ou que queira morar perto mas independentemente, e que poderá residir na “Casa dos Mestres.”




Nesta mesma linha de Intervenção seguiram-se as palavras de Guilherme Vilaverde, Presidente da FENACHE (Federação das Cooperativas de Habitação Económica) e da Cooperativa As Sete Bicas, de Matosinhos, sobre um novo equipamento misto, residencial e de apoio a idosos, actualmente a ser iniciado por esta cooperativa.

É também de grande interesse a perspectiva desta cooperativa, que depois de ter proporcionado excelentes condições de habitação a muitas famílias, acompanha a evolução das necessidades destas famílias, agora muitas delas já idosas, e propõe uma nova tipologia de habitar, do tipo “residência assistida”, em que se associam 30 quartos com todo um leque completo de serviços de apoio a “seniores”, a um conjunto relativamente corrente de habitações (40 fogos).

Nos quartos da “residência assistida” vai haver idosos que irão pagar uma mensalidade “social” ao lado de outros quartos cujas mensalidades são ao nível “do mercado”.




Sublinha-se que esta experiência “mista” de habitação e habitação assistida está já a ser repetida pela Cooperativa noutros empreendimentos em fase de programação. Pode-se, assim, salientar, tal como disse G. Vilaverde, que a iniciativa cooperativa, depois do apoio à infância, ao convívio, e ao equipamento diário e social está, agora, a seguir no sentido do apoio diversificado aos idosos, mas sempre de uma forma integrada, integradora e muito positivamente caracterizada em cada sítio de intervenção.




Finalmente o arquitecto e Investigador António Reis Cabrita, da Direcção do Grupo Habitar, associou a temática dos idosos na cidade envelhecida às respostas que podem ser proporcionadas pelas novas tipologias de habitação.

Não se irá aqui fazer, naturalmente, uma síntese adequada desta intervenção, tal ficará para o próprio em artigo próprio, que terá, sem dúvida, grande actualidade. Referem-se, apenas, e informalmente, alguns temas de interesse que foram apontados:
  • A grande diversidade de respostas para o habitar dos idosos, ligada à grande diversidade das condições exigidas por: idosos sós mas autónomos, agregados familiares envelhecidos, idosos com necessidade de apoios específicos, idosos com necessidades de apoios críticos, etc.
  • A urgente necessidade de se considerarem grandes aspectos estratégicos, tais como:
. a importância do percurso residencial;
. a importância do apoio/enquadramento social;
. a grande expressão numérica dos idosos na sociedade actual;
. a crescente semelhança entre família nuclear e família de idosos;
. a actual e crescente valorização do espaço do habitar individual (o que tem grande interesse na problemática dos idosos);
. o “fechamento territorial” que caracteriza o nosso envelhecimento – mas que se associa a outros aspectos de relação e caracterização territorial (ex., “eu transporto comigo o meu mundo”, “eu tenho o meu recanto”);
. a possibilidade de fazer o espaço do habitar e designadamente o espaço doméstico adaptar-se ao envelhecimento da família e aos mundos dos idosos – situação que pode concretizar-se numa perspectiva que privilegie, por exemplo, “não mudar o idosos, mas mudar a casa”;
. e a preocupação, que tem de ser constante, de fazer o espaço doméstico prolongar-se, natural e agradavelmente, pela vizinhança, pelo bairro e pela cidade.
  • A afirmação que um serviço humanizado é mais importante do que uma estrutura física muito boa – mas contudo é muito importante esta mesma qualidade. E a afirmação que a integração social, comunitária e familiar do idoso é ainda mais importante do que esse serviço humanizado.
  • Relativamente ao projecto destaca-se:
. a importância dos aspectos simbólicos e afectivos;
. a valorização da adaptabilidade e a grande importância da acessibilidade (com sentido amplo);
. o desenvolvimento de níveis de satisfação ergonómica: (i) gerais, (ii) para idosos e (iii) para situações-limite (que provavelmente podem ter ainda um dado escalonamento);
. a aplicação de soluções de arquitectura moderna consideradas muito adequadas para idosos (ex., compartimentação adaptável, abertura ao exterior, exterior privado e acessibilidade urbanas);
. e o desenvolvimento de soluções tipológicas específicas (ex., sub-divisão, geminação e “suites”).




Tal como referiu Reis Cabrita, o idoso vai assumir, cada vez mais, um papel activo e muito diversificado na sociedade, papel este bem distinto do corrente estereotipo que ainda temos do mesmo idoso.

Sendo assim há que pensar de forma integrada na problemática dos idosos e das cidades, provavelmente focando os aspectos de envelhecimento de uns e outras, mas aproveitando todas as virtualidades e especificidades que possam contribuir para a melhoria das condições de vida dos idosos – que serão cada vez mais – e das condições de vida nas cidades, onde cada vez mais pessoas viverão. E tal como foi referido pelo Arq. José Bicho não podemos, de forma alguma, criar “guetos” para idosos, tal como, infelizmente, criámos alguns “guetos” de “habitação social.”

O debate marcou todas as intervenções havidas e generalizou-se no final da sessão. A ideia que fica é que é uma temática que exige um aprofundamento cuidadoso, uma discussão extensa e um sistemático confrontar entre os estudos e a prática, e tudo isto com um carácter de urgência e prioritário. E sendo assim o GH está já a preparar uma nova sessão técnica sobre esta temática noutra cidade do País.


Lisboa e Encarnação/Olivais N, 28 Novembro 2005

Contactos do Grupo Habitar: Porto, José Clemente Ricon, Arq. - jroliveira@inh.pt - Tel. 226079670 / Fax. 226079679; Lisboa: António Baptista Coelho, Arq. - abc@lnec.pt - Tel. 218443679 / Fax. 218443028