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domingo, março 20, 2011

338 - O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte II - Infohabitar 338

Infohabitar, Ano VII, n.º 338
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial
Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X:

O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte IIArtigo de António Baptista Coelho
NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM MAIS DE 20 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES - A PRIMEIRA PARTE EDITADA NA SEMANA PASSADA (EMBORA SEMPRE DISPONÍVEL ON-LINE) E A SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE ESTA SEMANA, JUNTANDO-SE UM ÍNDICE PARA ORIENTAÇÃO: A BOLD/NEGRITO A PARTE DO ARTIGO EDITADA ESTA SEMANA.

Habitação e Arquitectura X: O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte II

Índice

1 - Entre convivialidade e privacidade, um equilíbrio vital
2 - Introdução à convivialidade arquitectónica residencial
3 - Aspectos estruturadores da convivialidade
4 - A convivialidade: da habitação, à vizinhança e ao bairro
5 - Estratégias de convivialidade
6 - A rua convivial: matéria base do bom urbanismo
7 - A convivialidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados
(i) A convivialidade nos espaços públicos
(ii) A convivialidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
(iii) A convivialidade nos espaços edificados
8 - Carácter e importância específica da convivialidade
9 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a convivialidade arquitectónica residencial




Fig. 08

5 - Estratégias de convivialidade arquitectónica residencial e urbanaProvavelmente a principal estratégia de convivialidade será a dinamização do uso dos espaços públicos por inúmeras actividades potenciais, contíguas às habitações e residentes no próprio espaço público; actividades essas que se caracterizem por um expressivo sentido de atractividade e de potencial de afectividade, pois estamos a lidar com eventuais espaços de "expansão" da vida doméstica.

Para se desenvolver uma efectiva afectividade citadina e residencial é importante favorecer, como defende Larry Ford (2000) (11), “uma cidade com fachadas permeáveis e com grande variedade de acessos ao nível da rua, que é muito mais dinamizadora da vida cívica do que uma cidade caracterizada por estruturas do tipo fortalezas com paredes cegas e portas invisíveis”, porque “a vida nas ruas é definida e guiada pelas características dos edifícios envolventes.” E lembremos, a propósito, que as ruas são praticamente impossíveis de formatar com grandes edifícios relativamente isolados.

Visa-se, assim, uma rua cívica, humanizada e diversificada, pois, tal como é apontado por Rapoport (1977) (12): “o desenho deveria gerar a maior variedade possível de signos de actividade humana. O uso de canais de informação polisensoriais aumenta a capacidade de congruência", enquanto… "a predominância de signos automóveis reduz e empobrece a referida congruência … outras razões" (de incongruência residencial) "são a falta de jardins, a densidade excessiva, a regulamentação exagerada… (Sieverts 1967) ... Para os adolescentes e as crianças as áreas com signos de actividade humana são elementos centrais da percepção urbana, os edifícios…recordam-se com facilidade se estiverem relacionados com alguma actividade vital.”

Temos, assim, caminhos estratégicos de dinamização do uso do espaço público e, consequentemente, da convivilidade no habitar, mas a montante desta estratégia de diversificação e, especialmente, intensificação do uso das desejáveis continuidades de espaços públicos, aplicável sistematicamente numa escala micro-urbana, está uma preocupação de ordenamento que podemos definir como de multifuncionalização e vitalização do espaço urbano.

Visa-se um desenho humanizado e diversificado, configurado numa aliança de objectivos de vitalidade urbana e de vitalidade e agradabilidade residencial, tal como foi defendido por Jane Jacobs (1961): “Planeamento para a vitalidade: a maior diversidade de meios, usos e pessoas em cada bairro; interpenetração contínua de vizinhanças com segurança nos espaços públicos o mais possível dada pelos seus usuários; combater a existência nociva de zonas de fronteira desertas e ampliar a identidade dos bairros; recuperar cortiços convencendo assim seus moradores a ficarem; transformar a autodestruição da diversidade em forças construtivas; explicitar a ordem visual das cidades.” (13)

E Jane Jacobs sublinha que para se favorecer uma positiva diversidade nas ruas e nos bairros: “o bairro deve atender a mais de uma função principal e de preferência a mais de duas; a maioria dos quarteirões devem ser curtos; as ruas e as oportunidades de virar esquinas devem ser frequentes; o bairro deve integrar edifícios com diferentes idades e estados de conservação (diferentes rendimentos e oportunidades) numa mistura que deve ser compacta; e numa densidade suficientemente alta de pessoas” (Jacobs, p.165).

Mas, provavelmente, a melor estratégia para se dinamizar a convivialidade residencial é continuar a apostar em boas ruas, pois, afinal, e como defende Jaime Lerner, a rua deve ser a melhor invenção no que se refere a um espaço urbano vivo e eficaz; e sobre a rua convivial apontamos, em seguida alguns aspectos.


Fig. 09

6 - A rua convivial: matéria base do bom urbanismoCitando Hertzberger (1991) (14), “o conceito da rua de convivência está baseado na ideia de que os moradores têm algo em comum, que têm expectativas mútuas… (p. 54)... Casas e ruas são complementares! A qualidade de uma depende da qualidade da outra (p.63). …Dar igual atenção à casa e à rua significa tratar a rua não apenas como espaço residual …, mas sim como elemento fundamentalmente complementar” (p.64).


A rua urbana com continuidade constitui o cenário básico para a integração de equipamentos colectivos muito diversos, não apenas na sua perspectiva funcional, mas também numa perspectiva integrada, tanto em termos de aspecto (quadro de fundo, composição variada, etc.), como em termos sociais de animação e de apropriação – equipamentos mais frequentados que são usados como animadores das cenas urbanas (exº, paragens de transportes públicos, jardins urbanos colaborando fortemente na integração entre edifícios).

Diferentes tipos de habitar e de gostos de habitar encontram, também, na rua o seu espaço público comum, lugar de consenso possível, elo de continuidade urbana, sítio de conciliação entre o lazer e o trabalho, espaço de ligação entre vizinhanças, que, cada vez mais, não se agregam e usam em torno dos tradicionais equipamentos colectivos de bairro ou de "célula" (escola do bairro em que se reside, comércio local, etc.).

As funções da rua podem constituir-se no principal elemento de adequação entre diversas vontades de convívio, que são expressas por muitas pessoas; desde aquelas que pretendem fortes laços de convívio, entre vizinhos, nos próprios edifícios habitacionais, até às outras, que nos devem merecer idêntico respeito, e que pretendem uma extrema condição de privacidade e anonimato no edifício urbano (escolhendo, por vezes, o "grande multifamiliar", exactamente para obter tais condições). Mas a rua, como sabemos, teve ultimamente muitas das suas funções menorizadas.

Para além da rua mais “corrente”, se é admissível utilizar uma tal expressão, há outros convívios bem possíveis e desejáveis em outras arquitecturas expressivamente “conviviais”, que importa aprofundar na extensa complexidade e riqueza das suas caracterizações, entre as quais é possível, desde já, apontar algumas – faz-se notar que não foi possível identificar o autor do excelente artigo referido e do qual se retiraram grande parte dos elementos que são, em seguida, apontados: (15)

- Ruela: se a rua que limita quarteirões é o espaço de animação por excelência a ruela tem a vocação à escala da vizinhança; mais que uma passagem pode ter algumas das funções da rua, tolerando alguns automóveis.

- Passagens e impasses privativos: agrupamento em torno de uma pequena rua privativa com habitações unifamiliares em banda ou pequenos multifamiliares com escala reduzida, sempre sob a forma de intervenções pontuais na organização urbana tradicional, relacionadas com situações de preenchimento urbano.


- Pátio: forma de agrupamento semelhante à “passagem”, mas com uma escala mais pequena, convindo quer a situações menos urbanas, quer a certas disposições do terreno.

- Pequenos multifamiliares com escala humana: tipo de habitar ligado à rua e ao quarteirão urbano, constituindo o centro de todas as pequenas povoações; soluções mais isoladas ou mais em banda e nestas mais rígidas ou menos rígidas e estruturadoras do espaço colectivo.

- Edifícios de cidade: condições idênticas às anteriores mas agrupando maior número de fogos, participa de uma certa convivialidade no modo como se integra na cidade, e a sua concepção designadamente a nível dos seus espaços comuns pode incitar à criação de relações estreitas entre os habitantes.

- Conjuntos de casas: alusão à tradição de certas regiões, numa tentativa de recuperar o potencial poético das casas individuais mas (re)inventando instrumentos ao serviço de uma prática colectiva do conjunto graças à disposição das escadas e aos arranjos que as acompanham.

- Entrada: transição entre a rua pública e o espaço aberto e o interior do fogo, essencialmente, privado e fechado, usa elementos situados entre a rua e o edifício (ex., jardinetas privadas, tratamentos de pequena escala); depois são as entradas com os seus prolongamentos exteriores, como por exemplo: murete de sentar e falar, iluminação nocturna, garagem para bicicletas, revestimento de solo mais cuidado relacionado com o do próprio hall, efeitos de luz, etc. Sítio muito frequentado de encontro, mais ou menos fortuito, entre vizinhos e de agrupamento dos adolescentes. Sítio importante para os habitantes porque dá do edifício uma imagem “de primeira linha”.

- Escada e patim: o arranque da escada pode, ou não, convidar a subir, é importante que a escada e sobretudo os patins tenham luz natural, que se tenha vista exterior e que os patins tenham um bom tamanho para suscitarem paragem e, potencialmente, algum convívio, podem ser também integrados elementos que suscitem a integração de plantas e/ou o estar sentado e a observação, por exemplo, da rua.

- Galeria: bem tratada e dimensionada pode ser um prolongamento elevado da rua, para isso tem de ter adequadas dimensões e ser tratada com uma certa transparência, mas também tem de ser um sítio abrigado e agradável, e que sirva um número reduzido de fogos.

- Superfícies comuns: na proximidade dos átrios comuns para os adolescentes, em posições elevadas para jogos de crianças ou actividades comuns (lavagem, passatempos, etc.), ou eventualmente apropriáveis por pessoas de certos fogos (ex., quartos para estadas curtas); tudo isto exige como base uma boa estrutura de gestão local.


Fig. 10

7 - A convivialidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificadosWilliam Mitchell (2000) (16) lembra a história do homem, quando o espaço junto ao poço perdeu a sua função e se inventaram outros sítios urbanos conviviais como o café, e defende que a história se repete, hoje, pois antes tínhamos de sair de casa para trabalhar e para ir ao cinema e ver os amigos e hoje tudo isto se pode fazer na nossa casa. Isto é bom, por um lado, mas, por outro, Mitchell sublinha que as organizações e os sistemas citadinos fragmentam-se e dispersam-se e a vida nos espaços públicos parece disseminar-se e perigar. E William Mitchell defende que, mais uma vez, devemos (re)inventar os espaços públicos, os povoados e as cidades deste novo século.

A convivialidade tem, assim, uma importante presença ao nível dos espaços públicos, quer mais intensamente urbanos, quer vicinais; no entanto também há uma convivialidade doméstica e, entre uma e outra, até, alguma convivialidade condominial poderá fazer todo o sentido, tanto em condições habitacionais correntes, como em condomínios socialmente específicos: será o caso de residências para seniores, estudantes e pessoas isoladas, será o caso de edifícios para famílias monoparentais; será o caso de soluções para determinados grupos socioculturais; e afinal poderá ser o caso de apostas específicas em “segundas e/ou terceiras vias” de convívio (urbano, vicinal, condominial e doméstico)...

(i) A convivialidade nos espaços públicos

O espaço público é por natureza gregário, havendo definições de territórios e pólos de actividade e animação dos mesmos que serão, sem dúvida, favorecedores de uma predisposição para o convívio....fazer espaços predispostos para o convívio assumidamente urbano ou de um grupo de vizinhos são situações bem diferentes.

Não se trata de fazer condomínios de convívio obrigatório, mas sim de configurar troços urbanos estratégicos e recintos de vizinhança próxima que sejam naturais geradores de convivência informal, por exemplo, á volta da mesa do café ou da esplanada, a participar num jogo de grupo ou simplesmente a assistir ao mesmo. Mas que fique bem claro que tal “naturalidade” tem de ser cuidadosamente projectada (ex. no interior de quarteirões ou em pracetas residenciais).

(ii) A convivialidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifíciosUma bem afirmada e agradável vizinhança de proximidade (ex. interior de quarteirão, impasse ou praceta residencial), como o nome indica, é um local muito favorável para a geração de laços de convívio, que por vezes nascem entre crianças e depois se prolongam a outros residentes.

Em termos de uma reflexão geral sobre esta matéria apuram-se, para já, os seguintes aspectos retirados de um artigo do pediatra Mário Cordeiro e do colega Tiago Queiroz (17):

"O melhor ambiente vivido nas cidades teve um impacto muito positivo na saúde das populações ... Actualmente, o conceito de cidade e a sua prática sofreram algumas distorções e desvios, criando novos e intensos problemas, no cerne do qual estão os sistemas de transportes, a poluição, a perda de identidades e de sentimentos de pertença, e a descaracterização do espaço público, designadamente a «perda da rua» enquanto espaço lúdico, relacional e estético. As crianças e jovens são os primeiros, a par dos idosos, a sofrer com isso. Não se creia, contudo, que a culpa está nas cidades, mas sim na forma como por vezes estão a ser planeadas e geridas.

E os autores apontam o caminho: Há que "Redimensionar os espaços de habitação, a sua articulação e a multiculturalidade e carácter transgeracional, redimensionar os espaço comercial, lúdico e laboral, e fazer cada vez mais da cidade um aglomerado de «pequenas aldeias» (bairros), como ainda existem em tantas delas, em que as grandes deslocações sejam muito mais limitadas e os percursos a pé sejam privilegiados, e em que as hipóteses de encontro de pessoas da família, amigos.”
E Mário Cordeiro e Tiago Queiroz sublinham, assim, a importância da construção e reconstrução de vizinhanças de proximidade bem definidas e agradáveis, tornando-se a cidade um espaço estrategicamente mais compartimentado, apropriado, diversificado e atraente.

(iii) A convivialidade nos espaços edificados

Ao nível do edificado é possível conceber um edifício, mais ou menos, convivial. É possível sugerir o interesse de se passar por um espaço de estar e lazer que é de todos antes de nos recolhermos aos nossos mundos privativos e é possível, mesmo nestes mundos, sugerir, física e ambientalmente diversas opções de convívio doméstico. Mas tais sugestões não podem ser mais do que isso, pois sendo imposições, sem alternativas, terão maus resultados.
E há que ponderar as formas e modos de habitar em termos da sua compatibilidade com as soluções de estruturação dos espaços comuns e do seu respectivo relacionamento com as habitações.

(iv) A convivialidade na habitação
Ao nível do fogo é possível e muito desejável criar pólos diversificados e articulados de convivialidade no mesmo espaço doméstico e/ou em espaços distintos.
E não tenhamos dúvida de que é fundamental cuidar especificamente da existência de condições propícias ao convívio doméstico estrategicamente distribuídas pela habitação e designadamente: na cozinha, na sala comum e na zona de entrada.


Fig. 11

8 - Carácter e importância específica da convivialidadeA convivialidade é uma qualidade apenas em parte subjectiva, que se liga a distâncias inter-pessoais e à percepção territorial, sendo essencial para a coesão citadina, vicinal, condominial e doméstica.

A convivialidade tem de ser uma qualidade expontânea ainda que sugerida pelos espaços e ambientes, pois do seu excessivo enquadramento só resultarão, em situações correntes, efeitos perversos e opostos aos desejados; até porque há diversos níveis de convivialidade e alguns deles têm de ser objectivamente desejados pelos próprios habitantes.

Ficam para ponderação situações especiais eventualmente adequadas a grupos socioculturais muito específicos, e mesmo neste caso ficará por resolver a respectiva integração urbana.

Tal como se salientou no início detes ítem, convivialidade e privacidade são aspectos fortemente complementares e que interagem muito positivamente, numa gradação de territórios e de limiares que, entre os extremos da cidade animada e do recanto doméstico individual, têm forte expressão ao nível do convívio em locais de passagem, transição e paragem natural, como são o café na esquina, o espaço de recreio no interior do quarteirão e o átrio exterior que antecede a entrada no edifício.


Fig. 12

9 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a convivialidade arquitectónica residencial
Como notas de reflexão sobre a convivialidade urbana e residencial, salientam-se os seguintes aspectos.
A convivialidade numa perspectiva arquitectónica e residencial tem a ver com o viver em comum, com o ter familiaridade e camaradagem, com a entreajuda natural, a sociabilidade entre vizinhos e o trato diário espontâneo e fácil em unidades de convizinhança. Através do viver em comum relaciona-se com a convizinhança, que é o estado ou situação de quem é vizinho com outrem, de quem está próximo e/ou é semelhante.

A convivialidade relaciona-se com o conceito de comunidade, entendida como sociedade, agremiação e lugar onde vivem indivíduos agremiados, que se "ajuntam" em assembleias; e devemos ter presente que há diferentes graus e diversas expressões físicas de convivialidade.

Deve sempre destacar-se que a condição de convivialidade residencial tem de ser inteiramente espontânea e natural; o desenvolvimento de qualquer tipo de convivialidade fisicamente imposta é, basicamente, um factor negativo, a combater, porque tem como consequência o arrastar dos indivíduos obrigados ao convívio para posições extremadas de isolamento e de rejeição desse mesmo convívio.

Há no entanto que afirmar, com clareza, a importância de uma convivialçidade reforçada ao nível do habitar, com todas as implicações a ela associadas – espaciais, conforto, etc. - pois, afinal, e como escreveu Joaquín Arnau (2000) (18): “É na convivência, e não na simples vivência, que Vitrúvio refere estar a origem da cabana primitiva” (p. 30).

E a convivlidade é tão pública como privada, sendo que provavelmente aquilo em que muitas casas/habitações falham é na iexist~encia de adequadas condições de convivialidade doméstica, condições que promovam um encontro diário, consistente e securizador, do tipo daquele a que se refere José Gomes Ferreira (“Poesia VI”, Lisboa, Diabril, col. Obras de José Gomes Ferreira, 1976, 255p): “À tardinha acendemos o fogo na lareira/ e é como se fosse de novo o princípio do mundo / quando o silêncio / ainda criava pedras / para depois haver tempo concreto,/ tempo alheio” (p. 50).

Em termos dos desenvolvimentos considerados mais interessantes nestas matérias da convivialidade urbana e residencial, salientam-se os seguintes temas de estudo.

- A convivialidade liga-se ao viver numa relativa ou afirmada comunidade, ao ter familiaridade ou camaradagem vicinal, à entreajuda natural ou à simples e civilizada sociabilidade entre vizinhos, bem como ao trato diário espontâneo e fácil em unidades de convizinhança.

- O convívio urbano e na vizinhança é um trunfo essencial para a construção e reconstrução de espaços urbanos vitalizados e motivadores e, actualmente, um trunfo urgente mas difícil de lançar, quer porque o espaço urbano é residual e não comporta determinados elementos constituintes, quer porque o projecto é incompleto e defeituoso e/ou o promotor não considera que tal qualidade é importante.

- O convívio doméstico, em espaços alternativos, por exemplo à volta da mesa e com a possibilidade de fuga à poluição televisiva, é um trunfo valioso para a coesão familiar, mas colide, frequentemente, com espaços unifuncionais, relativamente apertados e dominados pela “caixa mágica”.
- O convívio condominial é mais complexo e, eventualmente, discutível, mas um número reduzido de fogos e a possibilidade de uma ou outra actividade de vizinhança, que pode ser até a conversa breve de circunstância, serão sempre aspectos positivos....há muito a aprender com soluções experimentadas, embora entre nós e infelizmente a tendência seja sempre para uma renovada tábua rasa.

Notas:(11) Larry Ford, “The Spaces between Buildings”, 2000.
( 2) RAPOPORT, Amos Rapoport, “Aspectos humanos de la forma urbana – Hacia una confrontación de las Ciências Sociales com el diseño de la forma urbana”, 1978 (1977), p. 320.
( 3) Jane Jacobs, “Morte e vida das grandes cidades” , trad. Carlos Mendes Rosa, 2001 (1961), pp. 454 e 455.
( 4) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, trad. Eduardo Lima Machado, 1996 (1991), várias pp.
( 5) Autor não definido, “Architectures conviviales”, in Habitat Social, Paris, s.d., pp.9 a 22.
( 6) William J. Mitchell, “E-topía - Vida urbana, Jim, pero no la que nosotros conocemos”, 2001 (2000).
( 7) Mário Cordeiro e Tiago Queiroz, "A cidade, a criança e a saúde: contributos para uma mudança de paradigmas", em Cadernos edifícios, n.º 4, "Humanização e vitalização dos espaços públicos", pp. 83 a 108.
( 8) Joaquín Arnau, “72 Voces para un Diccionario de Arquitectura Teórica”, 2000.

Notas editoriais:(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 338, 20 de Março de 2011

sábado, março 12, 2011

337 - O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte I - Infohabitar 337

Infohabitar, Ano VII, n.º 337
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial
Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X:

O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte I
Artigo de António Baptista Coelho
Nota prévia: retomando uma edição cujo último “capítulo”, sobre a segurança arquitectónica residencial, foi editado, há algumas semanas, com o n.º 333 deste Infohabitar, publicam-se agora e serão publicadas na próxima semana, algumas reflexões sobre a matéria da convivialidade arquitectónica residencial - numa perspectiva naturalmente aberta ao desenvolvimento dessa reflexão.

Introdução geral
Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido constante e sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa todos os artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão cerca de 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).
Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que, repete-se, será, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução

A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.

Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: Convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: Domesticidade – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.


Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.




Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php


Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, às matérias da convivialidade, enquanto qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.

Refere-se, ainda, que em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais.


Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php

NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM MAIS DE 20 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES E SERÁ EDITADO ESTA SEMANA E NA PRÓXIMA, JUNTANDO-SE UM ÍNDICE PARA ORIENTAÇÃO: A BOLD/NEGRITO A PARTE DO ARTIGO EDITADA ESTA SEMANA.

Habitação e Arquitectura X: O convívio no habitar e no espaço urbano - Parte I


Fig. 03

Índice

1 - Entre convivialidade e privacidade, um equilíbrio vital
2 - Introdução à convivialidade arquitectónica residencial
3 - Aspectos estruturadores da convivialidade
4 - A convivialidade: da habitação, à vizinhança e ao bairro
5 - Estratégias de convivialidade

6 - A rua convivial: matéria base do bom urbanismo
7 - A convivialidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados
(i) A convivialidade nos espaços públicos
(ii) A convivialidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
(iii) A convivialidade nos espaços edificados
8 - Carácter e importância específica da convivialidade
9 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a convivialidade arquitectónica residencial


Fig. 04

1 - Entre convivialidade e privacidade, um equilíbrio vital

Em primeiro lugar importa salientar que as condições de convívio e de privacidade são complementares, uma condição que tanto é verdade em cada nível físico do habitar, embora com os respectivos reforços de potencial de convívio e de privacidade - por exemplo é importante que a habitação propicie o convívio doméstico e que a cidade proporcione consições de razoável "privacidade" nos espaços públicos -, como é fundamental nos equilíbrios entre reforços de privacidade nos espaços mais residenciais e reforços de convivialidade nos espaços mais citadinos, sendo que tais reforços têm de coexistir nas mesmas relidades urbanas e devem matizar as sequências do habitar, numa perspectiva de variadas misturas de privacidade e de convívio, marcando, expressivamente, os diversos cenários dessas sequências, e caracterizando de forma estimulantemente ambígua certas zonas de transição entre elas, mas nunca resultando em falta de clareza sobre quem é reponsável pela gestão e manutenção de cada um deses cenários de actividade.


Portanto não haverá convivialidade num dado espaço urbano, sem que noutros locais do mesmo espaço existam boas condições de privacidade, e vice-versa; e podemos mesmo referir que o próprio exercício de determinadas condições - eventualmente muito activas - de convivialidade poderá influenciar na tolerância de condições de privacidade eventualmente mais críticas ou pelo menos mais sensíveis; uma situação que caracteriza, por exemplo, zonas urbanas tradicionais, com ruas estreitas e uma forte relação entre elas e a vvência de muitos espaços domésticos.

Um outro aspecto fundamental a considerar, logo à partida, quando tratamos do convívio no habitar e dos seus aspectos arquitectónicos, é que uma das razões básicas da "cidade", do aglomerado de espaços domésticos, é exactamente esse convívio, seja por razões de segurança mútua, seja por razões económicas, seja talvez mesmo por razões gregárias, ligadas ao sentirmo-nos bem em grupo.

E, infelizmente, nos dias de hoje, e tal como lembra Eduardo Prado Coelho (2005) (1), “há cidades onde os dias morrem... Procuro um jornal num domingo em Lisboa. Nos domingos as ruas estão vazias... A cidade é uma cidade morta. Cada hora de uma cidade morta é uma hora morta. Cada minuto de uma cidade morta é um minuto que morre como um insecto à nossa frente... Há dias em que a cidade está adormecida e vai morrendo lentamente.”

Temos, assim, nos dias de hoje, muitas cidades e zonas "urbanizadas" onde o convívio praticamente não existe ou então acontece de forma muito condicionada e débil, uma situação que põe em risco a viabilidade do espaço urbano exactamente numa altura em que somos cada vez mais aqueles que vivem em zonas urbanas: temos, portanto, um problema grave a considerar nestas matérias.

Nas sábias palavras de Amos Rapoport (1977),“a habitação e as suas envolventes são regiões privadas por excelência contrastando com a natureza pública da cidadania com uma totalidade. O Bairro (se realmente existe, como deveria ser) proporciona-nos um elemento mediatizador semi-público, semi-privado, etc, e se estes elementos falham, o sistema pode falhar.”(2)

Rapoport fala-nos aqui das tais sequências de cenários de actividade que têm de integrar espaços urbanos vivos e bem ligados, seja a pólos de forte convivilidade, seja a remansos de sossego e privacidade, seja a limiares intermediários de vizinhança e de estratégica possibilidade de "ficar ou de partir".

É sobre isto que escreve Daniel Filipe, no seu “Discurso sobre a cidade”, quando se refere a: (3) : “ uma cidade onde acontecem coisas ...(p.51)" onde "de vez em quando apetece a gente tomar por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios ... (p.70)", e onde o autor sublinha o seu gosto por certos espaços naturalmente conviviais, como os “«cafés» de bairro: esses pequenos “cafés” sonolentos, onde todos se conhecem e os empregados tratam os clientes pelo nome de baptismo...(p.71)", e onde ... "na cidade tranquila, há um jardim que só os namorados sabem...”; e aqui está um daqueles espaços "conviviais" e "privados", que também têm de integrar um habitar urbano adequado.

E assim se entende e desde já se sublinha que um habitar humanizadamente convivial, para além de uma desejada e muito cuidadosa e voluntária expressão de vizinhanças residenciais socializadoras, deve disponibilizar um outro nível/lugar estratégico e privilegiado para a convivialidade mais urbana ou mais vicinal, nos tais espaços de transição entre mundos privados e públicos.

Trata-se, como defende Ray Oldenburg (1989) (4) , desse “grande e bom lugar” que é o café da esquina, a livraria, o bar, etc.: o inspirado “terceiro sítio”, de Oldenburg, que é um sítio bem real, porque é aquele que existe para além do sítio de trabalho e do sítio doméstico, e que é, talvez, um sítio verdadeiramente comum, nem público nem bem privado. E, como sabemos, muitos conjuntos residenciais não têm tais “terceiros sítios” ali perto da habitação, como tem de ser para serem “terceiros sítios” vivos e complementares do habitar doméstico e do habitar público.

Convivialidade e privacidade são, assim, no meio residencial e urbano, faces da mesma moeda, e assim pode dizer-se que conjuntamente com a privacidade, a convivialidade residencial é responsável pelo expressivo desenvolvimento de adequadas condições, simultaneamente, estimulantes da interacção social e da expressão individual.


Fig. 05

2 - Introdução à convivialidade arquitectónica residencialEscreveu D. José Policarpo (2005), que (5) “O homem é um ser social, chamado a conviver. A cidade é o lugar da convivência dos homens, onde nenhum ser humano pode viver a sua vida desligado da vida dos seus irmãos.”

Ainda num perspectiva geral de enquadramento deste conceito de convivialidade arquitectónica residencial e urbana com um referência a um dos trabalhos realizados no CSTB por Patrice Séchet, Michel Bonetti e Jean-Didier Laforgue (1998) (6), em que estes autores salientam que “a afabilidade/disponibilidade tem duas esferas semânticas distintas: um eixo sobre a polidez, o bom tom, as boas maneiras; e outro eixo sobre a proximidade de espíritos, a disponibilidade” (p.16), apontando o que designam como “Caderno de Encargos da Urbanidade” (pp.42 a 45).

E poderemos considerar que o que pretendemos com o referido conceito de convivialidade é poder influenciar nessas duas esferas, de boas maneiras e de convívio possível (e tantas vezes ele é ímpossível no nosso mundo urbano actual):
- privilegiando soluções de arquitectura urbana que reforcem os aspectos de “con-vivência”, polida e até positivamente cerimoniosa, no sentido de um afirmado respeito mútuo, mas num quadro geral marcado por esse mesmo respeito mútuo (e aqui a segurança urbana passiva tem importante papel), o que permitirá a expressão de todos sem dominâncias sem qualquer sentido;
- enquanto também visamos quadros de arquitectura urbana e residencial que favoreçam, física e ambientalmente, o exercício específico da possibilidade do convívio, que se baseia na referida disponibilidade e eventual proximidade de espíritos, uma proximidade que poderá ser, até, por vezes, marcada pela proximidade física entre vizinhos, mas pode ter variados outros tipos de “motivos”; e nesta matéria é oportuno lembrar o Arq.º Michel Sablet, quando este salienta que “é a capacidade dos locais para gerar trechos de vida colectiva o factor em boa parte responsável pela coesão social da cidade” (7).


Fig. 06:

3 - Aspectos estruturadores da convivialidade
Um dos principais aspectos estruturadores da convivialidade é a segurança urbana, pois convivemos mais em espaços onde nos sentimos seguros e, por outro lado, ao convivermos mais nos espaços públicos e de vizinhança estamos a propiciar excelentes condições de segurança nesses espaços, num círculo virtuoso de intensidade e qualidade de uso, que tem de ter início numa cuidadosa programação física e social do espaço urbano.

Tal como escreveu Jane Jacobs: “Uma boa vizinhança urbana consegue um equilíbrio e tanto entre a determinação das pessoas de ter um mínimo de privacidade e o seu desejo concomitante de poder variar os graus de contato, prazer e auxílio mantidos com as pessoas que as rodeiam... Esse equilíbrio é em grande parte constituído de pequenos detalhes manejados com sensibilidade e aceitos e praticados de maneira tão informal que normalmente nem são percebidos... Aparentemente despretensiosos, despropositados e aleatórios, os contatos nas ruas constituem a pequena mudança a partir da qual pode florescer a vida pública exuberante da cidade” (Jacobs, pp. 64 e 78) (8).

A cidade e as sequências urbanas diversificadas e desejavelmente estimulantes são sempre o sítio privilegiado do anonimato, do “homem na sombra”, conhecido ou desconhecido, este homem na sombra, pode ser o citadino que passeia ou o estranho mal-intencionado e por isso o enquadramento dos níveis de habitar tem de considerar que são as pessoas que tornam a cidade insegura, mas que também são elas que tornam os bairros, as ruas, os jardins e as pracetas vivas e seguras. Se as pessoas não conhecem os seus vizinhos haverá problemas, e, tal como sublinham Hazel Conway e Rowan Roenisch, “problemas estes ainda agravados se as áreas comuns tais como galerias, elevadores, átrios e os espaços de vizinhança imediata são sítios onde qualquer um se pode introduzir, e se existirem ligações entre edifícios contíguos, que são fugas ideais para utentes ilegítimos.” (9)

E assim se colocaram, novamente, os aspectos de um desenho que clarifique uros e responsabilidades de gestão, sem zonas "mortas" e abandonadas, invisíveis e não apropriadas, agora numa perspectiva virada para o potenciar, com naturalidade, de diversos níveis de convívio.

Uma outra perspectiva estruturante da convivialidade no habitar e no espaço urbano é que ela só será possível/viável se houver tempo para conviver e se o espaço urbano providenciar cenários de actividade adequados a uma vivência “com tempo” das cidades na cidade; uma matéria que se radica na frequente ausência de tempo de convívio nas "cidades" periféricas, cujos habitantes gastam o dia que lhes sobra nas deslocações casa/trabalho, e que, depois, junto à sua habitação não têm frequentemente condições mínimas para um convívio natural e estimulante, sendo assim levados à reclusão doméstica, ou a novas deslocações a centros comerciais/"conviviais".

Lança-se, assim a ideia de que o convívio no habitar se liga, também a uma possibilidade de viver/habitar com vagar e razoável plenitude e diversidade nos sítios que habitamos.

Como início de desenvolvimento, ao nível urbano, desta temática do viver/habitar devagar e numa perspectiva humana, que é, cada vez mais, essencial na cidade de hoje, que nos quer arrastar numa confusão esmagadora e numa ausência de convívio sem saídas, podemos considerar duas opções bem distintas: uma delas que sirva cegamente uma sociedade da rapidez, da máquina, da frieza ambiental, do stress, da ausência de convívio e da funcionalidade estrita; e outra que tudo faça pelo convite ao fruir da cidade em paz e com tempo, a pé (o flanar), que promova a calma, a protecção ambiental e a oferta de pontos de atenção e de estada fortuita ou periódica, que providencie ocasiões e cenários naturais e quase espontâneos de observação (da cidade e da paisagem), de estada (sob o céu) e de convívio; e que para além das funcionalidades (“a função”) ofereça realmente “a forma” e o ambiente, mas uma boa forma e um bom ambiente.

Nisto tudo se destaca a perspectiva que se poderia definir como uma cidade com cariz estruturalmente direccionado para o gozo da cidade e do espaço público intensa e prolongadamente, não numa oposição às medidas gerais que têm de garantir o melhor funcionamento da cidade, mas sim em defesa de uma das qualidades fundamentais do mundo citadino, o flanar, o estar e o convívio nos espaços públicos, que é também um complemento salutar e vital dessa funcionalidade.

Uma cidade de uso visualmente vagaroso, onde se pode andar ao sabor de tantos motivos, e que se baseia em vários aspectos qualitativos entre os quais se salienta a estratégica disponibilização das referidas “ilhas de paragem”, o estímulo à estada e à circulação no exterior e a aposta numa atraente qualidade da paisagem urbana. Sublinha-se ainda que um tal uso visualmente vagaroso e marcante deverá estar sempre, naturalmente, aliado à funcionalidade das acessibilidades públicas e apto para situações de emergência.

Ainda um outro aspecto estruturador da convivialidade no habitar é a possibilidade de aliança estratégica entre conjuntos distintos, mas bem relacionados, de aspectos socioculturais e físicos, ligados:
- às bases socioculturais do convívio, através da identificação e do aproveitamento de elementos comuns ou unificadores de grupos: conhecimentos, necessidades, situações específicas, relações/situações tendencialmente gregárias, e aspectos socioculturais e conviviais que sejam específicos de determinados grupos;
- e aos cenários propiciadores de convivialidade (intencionalmente desenvolvidos nesse sentido): por clareza e identificação/marcação; por qualidade visual evidenciada; por aspectos expressivamente adequados ao convívio; e por relações estratégicas físicas e sociais que suscitem interacção.

Finalmente, há que ter em conta que as relações de amigabilidade vão sendo diversificáveis nos diversos níveis físicos do habitat humano, considerando-se, designadamente, os seguintes aspectos:

- Na envolvente do bairro ou vizinhança alargada: diversidade controlada; heterogeneidade contrlada nas franjas.
- Na vizinhança alargada: homogeneidade celular; proximidade física e de interesses; relações pedonais articulando equipamentos concentrados e vivos, desenvolvidos numa continuidade expressiva; controlos de concentração e de dispersão do potencial de animação; consideração dos raios de influência reais.
- Na vizinhança Próxima: controlo do número de vizinhos visíveis; convivialidade induzida por características físicas de acessibilidade e de agrupamento; expressão de residencialidade, agradabilidade e domesticidade; espaciosidades controladas; números gerais de vizinhos em proximidade (cerca de 60 agregados).
- No edifício: com atractividade e funcionalidade adequada ao combate ao isolamento no fogo; combate ao anonimato excessivo e imposto e ao relativo esmagamento no conjunto de vizinhos e no mega-edifício; combate a relações únicas e decerta forma impostas; equilíbrio estartégico na espaciosidade e acessibilidade comuns; controlo do número de fogos total e em cada nível (20 a 6); soluções com significativas componentes colectivas.
- Na habitação: importância das condições de recepção; relação com os diferentes modos de vida em situação de multifamiliaridade e considerando especificamente aspectos de privacidade; pontos focais de convivialidade protegidos e bem desenvolvidos; adaptabilidade que proporcione convívio mais longo e intenso, sem más consequências domésticas e no edifício.


Fig. 07

4 - A convivialidade: da habitação, à vizinhança e ao bairroSe não existir uma “escada” de convivialidade potencial muita coisa irá falhar, desde o mundo doméstico, ao urbano, passando pelas relações de vizinhança próxima, pois o espaço de habitar não pára na soleira da porta da habitação, ele deve estender-se por espaços públicos e de uso público vivos e agradáveis.

Numa casa pequena, por exemplo, a existência próxima de bons espaços exteriores de estar, de um seguro parque infantil, e de um agradável "café de esquina", melhoram muito a vivência interior, dando mais espaço, sossego e à-vontade, tanto aos adultos como aos mais jovens, participando tanto na formação das crianças, como no bem-estar dos idosos.

Nesta matéria e para nos aproximarmos de soluções tipológicas residenciais e urbanas humanizadas e citadinas impõe-se, designadamente, tal como defende Henri Gaudin (2000), “uma reflexão sobre a arquitectura urbana alimentada pelas lições do passado medieval, expressão da proximidade e da troca, numa reacção contra a moral da distância, da separação e das exclusões, herdada da modernidade.“ (10)

Uma reflexão marcada pela urgente redescoberta do sentido de convivialidade/comunidade, mesmo quando embebido em condições físicas urbanas de acentuada dispersão, mas também pelo renovar da importância da relação ampla do homem com os outros homens, mas também com a paisagem; e e de como tais relações se influenciam e têm suporte na proximidade.

NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM MAIS DE 20 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES, SENDO A SEGUNDA PARTE EDITADA NA PRÓXIMA SEMANA, AQUI NO INFOHABITAR.

Notas:

(1) Eduardo Prado Coelho, “Dias mortos”, Público – O fio do horizonte, 25 Janeiro 2005.

(2) Amos Rapoport, “Aspectos humanos de la forma urbana – Hacia una confrontación de las Ciências Sociales con el diseño de la forma urbana”, 1978 (1977), p.265.
(3) Lisboa, Editorial Presença, Colecção Forma n.º 8, 1977 (1956).
(4) Ray Oldenburg, “The Great Good Place : Cafes, coffee shops, bookstores, bars, hair salons and other hangouts at the heart of a community”, 1999 (1989).
(5) D. José da Cruz Policarpo, “Carta Pastoral – «A Igreja na Cidade»”, Congresso Internacional para a Nova Evangelização”, 2005.
(6) Patrice Séchet, Michel Bonetti e Jean-Didier Laforgue, “Urbanités nantérriennes “, 1998, pp. 16 a 45.
(7) Michel de Sablet, “Des espaces urbains agréables à vivre – places, rues, squares et jardins“, 1991, p. 43.
(8) Jane Jacobs, “Morte e vida das grandes cidades” , trad. Carlos Mendes Rosa, 2001 (1961), pp. 454 e 455.
(9) Idem, p. 139.
(10) Henri Gaudin, “La cabane et le labyrinthe“, 2000.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 337, 11 de Março de 2011

domingo, janeiro 10, 2010

280 - Uma cidade de vizinhanças conviviais - Infohabitar 280

artigo de António Baptista Coelho
Infohabitar, Ano VI, n.º 280
Nota: a ilustração deste artigo foi circunscrita a alguns exemplos de habitação de interesse social portuguesa que se candidataram ao Prémio IHRU 2008 de construção e reabilitação.
Série habitar e viver melhor, VIII:
"Uma cidade de vizinhanças conviviais"


Kevin Lynch defende que "qualquer boa cidade é um tecido contínuo e não um tecido celular; e, sendo assim, é possível eleger os seus próprios amigos e serviços e mudar de residência livremente...".

Há que comentar que esta é provavelmente, uma fundamental vantagem da cidade, e o mesmo autor, consequentemente, considera ser pouco adequado organizar a cidade, por exemplo, em torno de escolas básicas, pois os citadinos, muito frequentemente, fazem as suas compras num sítio, usam as escolas de outro, vão ao café noutro, etc. (1).

Mas, neste caso, dá vontade de comentar que há um sentimento especial de paz e de identificação que nos é dada por uma organização urbana estruturada, por exemplo, nesses moldes, nos “velhos” moldes das unidade de vizinhança, em que a vida parece poder-se fazer, calmamente, em torno a determinados estabelecimentos de ensino básico, em torno a determinados jardins e outros espaços de vizinhança próxima, e isto sem obrigatoriedades, pois será sempre possível a quem não os queira usar, usar outros noutros sítios da cidade. E e em situação inversa, quando não há uma indicação de vizinhanças funcionais, sociais e de lazer, então é que mais dificilmente será possível construir positivas relações de vizinhança, pois afinal não há uma estrutura física afirmada de uma vizinhança desenvolvida em torno desse(s) equipamentos(s) locais, de proximidade e mesmo de potencial convívio, e/ou abrigada e conformada por uma dada configuração, frequentemente côncava, do respectivo conunto de edifícios integradores dessa vizinhança.

Como afirmei, há alguns anos, num estudo realizado e publicado no LNEC (2), pode ser que a nossa vontade seja habitar/pernoitar apenas, ou habitar sem marcar não nos ligando, afectivamente, ao desenvolvimento de uma qualquer unidade bem caracterizada e afirmada feita entre edifícios e espaços exteriores contíguos de “vizinhança próxima” ou de proximidade, e é, naturalmente, importante que a solução de arquitectura urbana responda bem a esse legítimo gosto de razoável anonimato, que não obriga a convivências obrigatórias e que não impõe, nem até sugere, um qualquer protagonismo urbano, marcado por um qualquer destaque pessoal basicamente indesejado. Mas esta vontade de anonimato urbano não parece ser regra, enquanto muitas pessoas se ressentem, exactamente, do contrário, da ausência de possibilidades de estar e actuar afirmadamente fora de casa, mas junto dela, fora do edifício, mas estrategicamente perto dele, em espaços não excessivamente públicos, bem identificáveis, abrigados e globalmente bem apropriados. E é perfeitamente possível conciliar a frequente vontade de ter tais espaços de vizinhança com o desejo de viver em habitações que, estando fisicamente integradas nessas proximidades activa e afectivas, proporcionam, no entanto, grande e estratégica autonomia no seu uso e mesmo na sua imagem exterior; e podemos até referir que tais misturas são extremamente urbanas na diversidade de usos e de imagens que produzem.

Mas há que sublinhar que, tal como se apontou no referido estudo, que na altura relançou o conceito de “vizinhança próxima” – que tinha, anteriormente, apurado em estudos de engenharia de tráfego –, muitos de nós ou quase todos nós sentimos realmente necessidade de um espaço de transição entre o espaço predominantemente comum e encerrado do edifício que habitamos, espaço este muito ligado ao espaço privado do nosso fogo, e o espaço urbano vincadamente público. Quase todos precisamos desse equilíbrio transitório, dessa gradação bem caracterizada, dessa relação tantas vezes compensatória de insatisfações urbanas ou domésticas.

E precisamos desse espaço de Vizinhança Próxima, não muito público nem muito comum e delimitado, de uma forma alternativa, natural e assumidamente voluntária, protegendo as vontades de autonomia e anonimato, enquanto se estimulam com idêntica força e intenção as vontades de convívio, participação e mesmo de comunidade.


Fig. 01: conjunto de 21 habitações nas Fontainhas, Porto, promovidas pela C. M. do Porto, com projectos dos arquitectos Helder Ribeiro e Amândio Cupido (2007).

Nestas matérias é ainda fundamental evidenciar que certos grupos etários e socioculturais são extremamente sensíveis às potencialidades da “vizinhança próxima” ou da “vizinhança de proximidade”, tanto nos aspectos de grande autonomia como nos de forte convívio local e territorializado, basta lembrar as crianças e os jovens, por um lado, os idosos, por outro, e ainda todos aqueles que em casa encontram graves barreiras geracionais ou relacionadas com a diversidade das formações pessoais e culturais, problemas estes muitas vezes acentuados por condições espaciais e funcionais domésticas pouco desafogadas e adequadas.

E tal como tenho tido a possibilidade de sentir ao longo de mais de duas dezenas de anos de visitas a conjuntos habitacionais, é aqui, ao nível da “vizinhança de proximidade”, que mais se sente a presença ou a ausência de um exterior que também seja verdadeiramente espaço de habitar: um espaço exterior que possa ser habitável e que convide mesmo a ser habitado. E isto acontece, porque "à porta de casa" é possível fazer muita coisa, considerando-se desde as crianças mais pequenas aos mais idosos; e, globalmente, o nosso clima muito ajuda e estimula essa diversidade de actividades.

Importa ainda referir um outro novelo e aspectos nesta matéria, que se refere ao exterior de proximidade poder assegurar uma verdadeira ampliação do habitar doméstico sobre o exterior com uso público, com o natural enriquecimento global da qualidade do habitar que é assim proporcionada. E a importância de um tal enriquecimento não se circunscreve à disponibilização de mais espaços, de mais equipamentos, de mais alternativas funcionais e de mais possibilidades de convívio e mesmo de privacidade (pois é possível, desejável e excelente estar "sozinho no espaço público") e à natural "descompressão" que assim se proporciona, em termos funcionais e de privacidade. em habitações com áreas controladas.

Naturalmente que uma tal complementaridade de espaços habitacionais é extremamente valiosa, designadamente no caso de habitações espacialmente pouco folgadas, mas a oferta clara de uma rica dimensão de um exterior habitável ou de um rico habitar exterior á habitação e dela bem próximo - pensa-se aqui tanto nos exteriores como nos equipamentos de vizinhança - qualifica muito positivamente o sítio que se habita e de certa forma contribui, muito decisivamente, para a sua vitalização urbana e para a construção da sua identidade como sítio urbano onde se vive.

Nesta matéria há que ponderar que esta caracterização de vizinhança exterior bem identificada, viva e aliada das habitações e dos equipamentos de proximidade que nela se integram, também depende da existência de uma adequada continuidade urbana com o resto da cidade - continuidade directa/pedonal e através de transportes públicos pelo menos minimamente eficazes e confortáveis -, pois de outra forma a riqueza urbana das vizinhanças será sempre mais difícil de obter e de sustentar, obrigando a outros tipos de cálculos onde se entra com a possibilidade de se conseguir uma vida de vizinhança ou de bairro com alguma autonomia.
Na altura em que se desenvolveu o referido estudo (“Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA n.º 2, LNEC, 1998) em que proponho uma viagem comentada e sistemática no amplo “jogo da glória” diário que liga o nosso percurso entre o centro das cidades e os seus e nossos bairros e vizinhanças, um estudo em que se integram e divulgam opiniões técnicas de um muito amplo leque de estudiosos e projectistas, tinha acabado de realizar uma ampla viagem teórico-prática pela caracterização da qualidade arquitectónica residencial (“Qualidade arquitectónica residencial”, LNEC, ITA nº 8, 2000) e não tinha ainda desenvolvido o estudo das matérias ligadas à humanização do habitar. Actualmente, depois deste aprofundamento temático e de um número significativo de visitas a bairros e conjuntos habitacionais conseguimos ter uma noção mais real da grande importância de uma positiva qualificação das nossas “vizinhanças de proximidade”, os sítios que habitamos dentro e fora de casa; e, designadamente da importância que têm tais sítios e matérias para a criação de espaços urbanos e residenciais que contribuam, claramente, para uma nossa vida diária verdadeiramente mais funcional, agradável e estimulante.


Fig. 02: pormenor de uma das vizinhanças do Bairro da Boa Esperança, Beja, promovido pela empresa Hagen, com projecto do atelier de arquitectura Saraiva & Associados (2007).

Porque importa deixar, sempre, algumas pistas sobre a “fórmula mágica” que ajudará na criação de uma adequada vizinhança residencial de proximidade apontam-se, em seguida, diversas opiniões técnicas sobre o assunto, que tiveram por base a pesquisa que realizei para a elaboração do livro intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação” (ITA n.º 2, LNEC, 1998):
Chistopher Alexander indica que para as pessoas pertencerem a unidades espaciais identificáveis, baseadas no reconhecimento mútuo, na domesticidade/bom acolhimento ambiental, na segurança, no sossego e na identificação com o sítio (3), são necessárias vizinhanças com um máximo de cerca de 300m de largura/diâmetro e integrando não mais de 400/500 habitantes (4) (cerca de 100 fogos). Nestas vizinhanças Alexander defende que só deve existir tráfego local.

Kevin Lynch defende que as verdadeiras vizinhanças devem construir-se por grupos de fogos que encorajem as pessoa a serem mutuamente amigáveis, em parte porque vivem próximas; tais vizinhanças, defende este autor, devem ser muito mais da escala dos 10 aos 40 fogos do que as convencionais "unidades" na casa dos milhares.

Kevin Lynch defende, ainda, que os arranjos físicos podem ajudar na formação da vizinhança, especialmente se a população for socialmente homogénea, mas salienta que os factores de personalidade e de pertença a um dado grupo sociocultural são os mais influentes; e Lynch considera que as verdadeiras comunidades só existem quando os residentes compartilham interesses comuns e vitais de trabalho, crença ou comunidade familiar e/ou étnica: então, tal como indica este autor, a expressão física da comunidade tem sentido e a unidade espacial deve ser muito mais profundamente integrada do que numa vizinhança convencional (5).

Segundo Chirtopher Alexander, a análise estatística prova que são necessárias 54 crianças para que qualquer uma delas tenha grandes possibilidades (cerca de 95%) de contactar com outras cinco, que possam ser potenciais companheiros de brincadeiras (idades semelhantes e grupo desejável de "companheiros"); 54x4=216 habitantes : 3.4 habitantes/fogo = 64 fogos (número mínimo). Este número pode corresponder a unidades de vizinhança ou grupos de edifícios, que podem estar ligados, entre si, por terrenos comuns, caminhos e jardins e que, por sua vez, se componham de subgrupos residenciais mais íntimos (ex., 10 a 12 fogos), conjugados em torno de bolsas de terreno de jogos, livres do tráfego de veículos (6).


Fig. 03: conjunto de 64 habitações no Areal, Santa Maria da Feira, promovidas pela empresa Efimóveis em cooperação com a C.M. de S.M. da Feira, e com projecto do arquitecto J. J. Silva Garcia (2007).

Segundo Claude Lamure, "ao nível do edifício colectivo ou do conjunto de edifícios unifamiliares poderíamos ao menos reter as unidades de 10 a 20 famílias. A capacidade do homem para se localizar/reconhecer em grupos de 10 a 15 pessoas é citada pelos etologistas como geneticamente determinada ..., o homem caçador pré-histórico é também o jogador de futebol ou de rugby. Observámos realmente que nos imóveis com 10 a 20 alojamentos as relações de vizinhança são mais frequentes do que nas grandes torres. No entanto estes conjuntos de relações dentro de um grupo podem depender também da posição do sub-grupo num conjunto mais vasto" (7).

Com algumas opiniões do Eng.º Matos Cardoso (8) remata-se, agora, este conjunto de indicações, num sentido contrário, partindo da célula familiar como base e visando o desenvolvimento de contactos sociais entre as famílias, este especialista considera 3 grupos residenciais distintos: o pequeno agrupamento de habitações, 10 a 20 no máximo, onde as famílias constituintes devem ter interesses e níveis sociais e económicos semelhantes, que deverá possuir o seu espaço livre comum e situar-se preferencialmente numa rua de pequena extensão ou num recinto aconchegado; o grupo intermédio de 40 a 100 habitações, que ainda não admite misturas sociais, e que é o elemento básico de promoção da homogeneidade social, mediante a promoção de contactos frequentes, nomeadamente, em zonas comuns de reunião e convívio; é ainda de referir que este grupo deve caracterizar-se por um aspecto exterior uniforme; e o terceiro grupo constitui-se por integração dos anteriores e dá forma ao bairro composto por 400 a 500 famílias, admitindo, já, alguma heterogeneidade social e económica e é a base da unidade de vizinhança.
Naturalmente, que não se trata de aplicar quaisquer “fórmulas mágicas” que assegurem vizinhanças de proximidade verdadeiramente consistentes e motivadoras em termos sociais e individuais, mas o assunto tem tal importância para a criação de soluções residenciais mais satisfatórias, que importa ter em conta opiniões que, como estas, resultam de vidas dedicadas ao estudo destas matérias.
Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Notas
(1) Kevin Lynch, "La Buena Forma de la Ciudad", p. 278.
(2) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA n.º 2, LNEC, 1998.
(3) Alexander refere o comentário de um habitante: "A vida da rua não se mete em casa...só entra a alegria da rua...tenho a sensação que a minha casa se estende a todo o quarteirão".
(4) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 95 a 98.
(5) Kevin Lynch, "Site Planning", p. 321.
(6) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 317 a 321.
(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 74.
(8) Matos Cardoso, in "Colóquio sobre Urbanismo", Ministério das Obras Públicas, Direcção Geral dos Serviços de Urbanização, pp. 91 e 92.
Infohabitar, Ano VI, n.º 280
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 9 de Janeiro de 2010