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segunda-feira, novembro 11, 2013

460 - Escadas comuns e elevadores residenciais - Infohabitar 460



Infohabitar, Ano IX, n.º 460


Artigo XL da Série habitar e viver melhor


Escadas comuns e elevadores residenciais


António Baptista Coelho


Aprofundando-se o percurso comentado por uma adequada programação do edifício habitacional e visando-se, por regra, a solução multifamiliar mais, ou menos, "coletiva" abordam-se, sinteticamente, neste artigo, (i) as escadas comuns, (ii)  e os elevadores habitacionais.


Não se pretende, de forma alguma, esgotar a abordagem destes elementos constituintes de um habitar em comum, mas sim contribuir para uma discussão renovada sobre matérias que, infelizmente, parecem ser, por vezes, pouco alteráveis e previamente definidas, como se as tipologias mais correntes fossem uma espécie de fatalidade.

 

Escadas comuns


Todos sabemos que as escadas podem ser elementos extremamente atraentes numa solução residencial, seja em termos de uso, seja na sua visibilidade exterior e interior. E esta afirmação é verdadeira, seja para edifícios baixos, seja no caso de edifícios com altura elevada; e o mesmo se aplica a determinadas soluções de integração em que as escadas se integram com os elevadores.

Mas, voltando à escada, todos conhecemos casos de soluções cheias de luz se converteram em verdadeiros jardins verticais – é verdade, levantando problemas de acessibilidade, mas havendo mais espaço talvez tais problemas já não se levantassem; e também conhecemos casos em que mesmo quase sem luz os habitantes tentaram converter a escada comum de um edifício residencial em algo mais do que "um instrumento funcional para vencer desníveis", condição à qual, frequentee infelizmente, se reduzem as escadas comuns.

E há um outro aspecto, além da luz natural, que pode caracterizar uma excelente escada comum, que é a sequência de vistas que é possível da escada.

Mas além de espaço de jardim vertical e de percurso de vistas sobre a envolvente, a escada pode ainda conter, nos seus patins, pequenos espaços de acolhimento do convívio informal; pode não ser frequente, pode não ter resultados muito garantidos, mas sem haver condições adequadas e estimulantes de apropriações como estas, de certeza que nada acontecerá, mas se elas existirem pode ser que aí se passe alguma coisa.

Para se reforçar estas considerações lembra-se um estudo de Ekambi-Schmidt  (1), que salienta, num conjunto de oito qualificações espontâneas, dadas por moradores, relativamente às escadas comuns habitacionais, as três primeiras seguintes qualificações, em ordem decrescente de importância: escada ampla, grande e espaçosa; escada clara e iluminada; escada não excessivamente inclinada.

O que acima se destacou na caraterização da escada comum residencial são as suas condições de desafogo espacial, luz natural e conforto no uso. E, afinal, o que se defende é que a escada habitacional seja plenamente recuperada como espaço ativo e nesta perspectiva lembra-se que Alexander considera que a escada deve ser qualificada como etapa, pois ela não é apenas um simples elemento funcional de comunicação vertical, mas também um verdadeiro espaço que integra o edifício residencial, e se não se lhe proporcionar que nela surja vida "será um espaço morto que fará deslizar entre si os diversos pisos do edifício". (2)



E, tal como aponta Charles Moore, e bem sabemos, pela experiência de ver e usar excelentes escadas, elas "têm conotações básicas de coreografia e de cerimónia, tanto quando as usamos, como quando as observamos ou observamos desde elas”, e Moore aponta mesmo que na concepção das as escadas é possível a escolha “entre um movimento vertical amplo e atraente ou tecido na substância dos compartimentos, ou, até, oculto para ser quase secreto..." (3)



Fig. 01: as excelentes escadas comuns do edifício habitacional em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)


Naturalmente que há aspetos funcionais vitais a considerar e que nas escadas comuns assumem especial importância, entre os quais se destacam, designadamente, os seguintes - numa listagem não exaustiva, sublinha-se:

·         os posicionamentos e dimensionamentos adequados em termos de apoio à acessibilidade e à evacuação de emergência no âmbito da segurança contra risco de incêndio;

·         a adequada proteção relativamente ao risco de incêndio, possibilitando-se a proteção relativamente ao incêndio e a ausência de fumos durante o tempo necessário à evacuação do edifício;

·         a distribuição de patins, a boa geometria dos degraus e a sua adequada pormenorização em termos de "espelho" e "cobertor" adequadamente dimensionados, proporcionando excelente conforto no uso;

·         degraus e patins com superfícies não derrapantes ou mesmo anti-derrapantes;

·         corrimãos com continuidade ao longo de todo o percurso e a alturas convenientes para todos os tipos de utentes;

·         grande cuidado com a proximidade e a posição em relação a vãos exteriores;

·         e condições adequadas de visibilidade de modo a proporcionar o uso em agradáveis condições de segurança contra eventuais problemas de segurança relativamente a terceiros.



Fig. 02: as excelentes escadas comuns do edifício habitacional em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



E há que salientar que uma escada com degraus e lanços verdadeiramente confortáveis e bem cheia de luz natural é um verdadeiro convite para o uso do edifício e certos autores e projetistas, como Hertzberger, avançam ainda mais neste convite e alargam patins intermédios transformando-os em pequenos e apetecíveis espaços de convívio informal.

E conclui-se esta reflexão, de certa forma preliminar; sobre as escadas comuns referindo que a sua evidente importância funcional não pode de forma alguma fazer esbater a sua vital importância formal e no que se refere à múltipla apropriação e à identidades das soluções.

Elevadores


Se o elevador é necessário ou recomendável parece ser de boa prática que a sua instalação se caraterize por um conjunto de critérios que visem a sua transformação em espaços atraentes e estimulantes e não claustrofóbicos e formalmente muito pouco integrados na intervenção.

Quando são regulamentarmente exigidos ou quando são considerados como desejáveis em termos de melhoria de condições de conforto parece ser possível um trabalho de escolha dos elevadores a instalar que respeite alguns aspectos de que se destacam os seguintes:

·       Levar em conta a demora no acesso ao exterior, que depende da velocidade, número e caraterísticas do automatismo dos elevadores, bem como da sua proximidade aos fogos, em cada nível do edifício. (4)

·      Adequação maximizada entre tipo de condomínio social servido, tipos de elevadores aplicados e cuidados de manutenção regular e de emergência; certos casos deverão exigir elevadores com excecionais características de resistência ao vandalismo e de visibilidade relativamente aos seus patins de acesso (devido a aspectos de visibilidade de segurança).

·      Considerar que um pouco mais de espaço por pessoa, no interior do elevador, será um investimento que se reflecte, diretamente, em melhores condições de satisfação no uso, fazendo muito pouco sentido, até por razões de segurança e bem-estar, certas situações de verdadeira acumulação humana num espaço fechado muito limitado; afinal, se usamos o elevador diariamente, várias vezes, não será que este equipamento não deve ser mais exigente em termos de conforto real e de uma aparência mais cuidada e associada à restante Arquitectura, não surgindo como uma espécie de elemento mecânico mínimo e descaraterizado ou, por vezes, totalmente desintegrado do respectivo conjunto de espaços e acabamentos?

·      Considerar que o átrio dos elevadores não tem de ser, obrigatoriamente, um espaço fechado, sem luz natural, sem plantas e sem vistas exteriores. Afinal, quando entramos em casa, ou quando saímos de casa, seria natural e muito agradável que pudéssemos dar uma olhadela sobre o exterior, isto enquanto esperamos pelo elevador, e, assim, teríamos algum prazer suplementar no uso dessa máquina, que, funcionalmente, não tem de estar relegada para o miolo do edifício; sabe-se que é uma questão de escolher o que se aplica longe da fachada, mas não será que há alguns equívocos sobre a importância que tem, para um habitar mais agradável, a possibilidade de se ter uma relação com o exterior mais efectiva e frequente? E, neste caso, uma relação que pode antecipar, agradavelmente, o contacto com o exterior que iremos ter no átrio de entrada.



Fig. 03: a excelente integração dos elevadores em um dos edifícios em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



Finalmente, aflora-se, aqui, apenas um pouco, a questão da previsão de elevadores, no sentido de julgar que não fará muito sentido a tendência atual de uma previsão quase generalizada destas instalações. Nesta perspectiva afirma-se que um edifício de pouca altura poderá ser muito bem servido, em termos de conforto, por uma escada com boa luz natural e com degraus construídos com uma boa relação entre o respectivo “cobertor” e “espelho”; uma relação dimensional/funcional e ergonómica que - está provado - proporcionará excelentes condições de acessibiliodade a muitas pessoas, incluindo idosos.

Vale a pena sublinhar, aqui, que uma escada bem desenhada – e basta ir ao “velho” Neufert para tirar a fórmula (5) – é um meio de subir desníveis mais adequado do que uma rampa, porque o movimento do corpo se harmoniza melhor com a subida do degrau do que com a subida do mesmo desnível em rampa.

Naturalmente que se pensa, aqui, em edifícios baixos e onde, eventualmente, possa ser previsto um elevador como recurso possível de ser usado em condições de mobilidade reduzidas; e uma outra opção é mesmo a previsão de espaço para a futura instalação de um elevador – situação esta que não se recomenda porque, posteriormente, será muito difícil conseguir um consenso financeiro entre os condóminos que suporte uma tal decisão. No entanto não devemos deixar de ter em conta o “obstáculo” que uma escada constitui em termos de acessibilidade no uso corrente e, especificamente, para pessoas condicionadas na sua mobilidade, sendo interessante ter presente a equivalência que Alexander fez: entre subir um piso e percorrer 30m ao mesmo níve; e entre subir dois pisos e percorrer 90m ao mesmo nível. (6) Mas sialienta-se que se defende também a existência de edifícios multifamiliares baixos, servidos apenas por escadas muito agradáveis.

O que se visou e visará, aqui, nesta série de artigos, é uma defesa do elevador e da escada como elementos muito positivos e protagonistas de uma solução residencial que verdadeiramente nos agrade. Basta de soluções, que parecem de recurso, onde os elevadores são mínimos e dão para átrios doentiamente interiorizados e mal pormenorizados – muito seguros, parece, mas ambientale visualmente muito negativos (parecem entradas de serviço) – e onde as escadas estão escondidas, mal pormenorizadas e remetidas a uma função de reserva em termos de uma acessibilidade de recurso ou de emergência. Afinal, nada disto faz, realmente, sentido numa solução residencial que faça “viver” elevadores e escadas comuns como elementos adequadamente protagonistas da solução residencial geral onde se integram; escadas e elevedores comuns não podem ser elementos negativos que contribuem para o encerramento dos vizinhos nas suas células habitacionais individuais, antes pelo contrário devem ser elementos que apoiem no convívio natural entre quem vive próximo e por isso merecem adequado e pormenorizado projeto.



Notas:

(1) Ekambi-Schmidt, "La Percepción del Habitat".

(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 567 e 568.

(3) Charles Moore; Gerald Allen; Donlyn Lyndon, "La Casa: Forma y Diseño", p. 108.

(4) P. Jephcott, "Homes in High Flats", p. 134.

(5) Neufert refere algumas características fundamentais para o desenho dos degraus das escadas (Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", pp. 120, 121 e 123): os degraus mais cómodos têm 0.17m de espelho por 0.29m de cobertor (dois espelhos mais um cobertor=0.63m, que corresponde ao comprimento do passo normal, permitindo-nos subir os degraus "dois a dois" quando estamos apressados); cada centímetro de aumento da altura do espelho deve implicar a diminuição da profundidade do cobertor em dois centímetros.

(6)  Considera-se que uma escada entre dois pisos equivale a cerca de 30.00m de distância num percurso ao mesmo nível, passando este valor para uma dimensão estimada de cerca de 90.00m, quando a equivalência se faz com duas escadas vencendo dois pisos de desnível - Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 372.



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº460
Artigo XL da Série habitar e viver melhor

Escadas comuns e elevadores residenciais

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, novembro 13, 2011

369 - Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte II - Infohabitar 369

Infohabitar, Ano VII, n.º 369


ÚLTIMO ARTIGO DA SÉRIE
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII:
Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte II

Artigo de António Baptista Coelho

Nota prévia à presente edição:

Concluindo uma série editorial que relaciona a qualidade arquitectónica, a qualidade residencial e a satisfação dos habitantes, publica-se agora a segunda e última parte de algumas algumas reflexões de síntese sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar.

Considerando a extensão do texto, este foi dividido em duas partes, tendo sido a primeira editada no Infohabitar na semana passada – o respectivo índice marca a bold/negrito os itens editados em cada edição.

Introdução geral (à série de artigos)

Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total são 17, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade, editado em duas partes).

Regista-se, em seguida, o plano editorial cumprido no Infohabitar, que foi, até agora, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados), mas que se pretende que, nesta ponta final da edição da série, mantenha agora um máximo de continuidade (dentro da normal periodicidade semanal do Infohabitar):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução

A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.

Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º 341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 348 e 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar (final de Maio e início de Junho de 2011).

Infohabitar n.º 364 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado - 9 de Outubro de 2011.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:

(o presente artigo) Infohabitar n.º 365 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção – 16 de Outubro de 2011.

Infohabitar n.º 366 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: A domesticidade e a arquitectura do habitar – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.

Infohabitar n.º 367 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: A integração e a arquitectura do habitar – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.

Infohabitar n.º 368 e n.º 369 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: reflexões finais.

Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.


Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, e que se tem feito nesta série editorial às matérias da qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.

Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais. Esta abordagem foi editada pela Livraria do LNEC no livro "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2 (fig. 02)


Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php

Habitação e Arquitectura XVII:
Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte II

Índice (a bold os itens que integram a presente edição, Parte II)

1. Equilíbrios e desequilíbrios entre quantidades e qualidades no habitar

2. A Análise Retrospectiva Habitacional desenvolvida no NAU do LNEC

3. O habitar humanizado como um serviço diversificado na cidade

4. A habitação que falta, onde falta: densificar, mas com cuidado


5. Espaços públicos e vizinhanças amigáveis, um desígnio fundamental


6. Urgentes caminhos qualitativos nas tipologias residenciais


7. Comentários finais: da objectividade à humanização no habitar


8. Notas de conclusão

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte II


4. A habitação que falta, onde falta: densificar, mas com cuidado

Ao falarmos de como fazer melhor o habitar estamos, naturalmente, a falar de como fazer o habitar que ainda está em falta, mas também de como refazer melhor o habitar que foi mal concebido e executado e de como fazer melhor o habitar de que a cidade de hoje precisa nos seus interstícios e nas suas zonas desvitalizadas e mesmo, por vezes, comatosas; isto para que uma outra cidade mais viva e bem caracterizada possa ganhar forças e imagens que atraiam.

E não é pouco importante esta diversificada necessidade de espaços habitacionais numa perspectiva de positivo preenchimento e de regeneração dos espaços urbanos e mesmo numa perspectiva de construir no construído, porque em tais contextos, potencialmente tão ricos como diversificados e complexos, salientam-se exactamente as matérias menos objectivas do habitar como elementos por vezes fulcrais na concepção e na intervenção, e por vezes as matérias mais objectivas devem mesmo subordinar-se a determinados aspectos de integração e de consistência cultural; assunto este que merece desenvolvimento específico.

Mas mesmo considerando a questão da habitação que falta numa perspectiva quantitativa importa ter em conta o constante crescimento da necessidade, quantitativa e qualitativa, de mais habitação, associada:

(i) à contínua desagregação da grande família tradicional;

(ii) ao aumento da esperança de vida;

(iii) ao desenvolvimento do trabalho em casa;

(iv) ao desenvolvimento das actividades domésticas ligadas ao lazer;

(v) à “necessidade” que parece haver de cada vez mais (e/ou melhor) espaço doméstico (tema que merecerá cuidadoso desenvolvimento);

(vi) às carências, ainda existentes, em termos de espaços de habitar mais adequados a modos de vida específicos e ao evidente despontar de um crescente desejo por habitar de formas mais específicas, diversificadas e ligadas a determinados modos e desejos habitacionais - numa linha de desenvolvimento que é muito alimentada pela comunicação social;

(vii) à circunstância de se contabilizarem como habitações disponíveis grandes números de habitações sazonais, eventuais e muitas outras velhas habitações longe dos centros urbanos, carentes de uma reabilitação profunda e muitas delas localizadas em núcleos urbanos desvitalizados;

(viii) às necessidades de habitações nas grandes zonas urbanas que continuam em crescimento (e o nosso é o século das cidades);

(ix) às graves carências habitacionais que ainda persistem em grupos sociais desfavorecidos e precariamente alojados em edifícios sem condições e em fogos sobre-ocupados;

(x) ao renascer de problemas graves de carência habitacional por parte de pessoas e famílias com meios financeiros muito reduzidos ou quase inexistentes;

(xi) e finalmente à cíclica e próxima necessidade de substituição de um parque habitacional sem viabiliodade de reabilitação e sem interesse cultural que justifique essa mesma reabilitação e até de um parque habitacional que, embora recente, não tem um mínimo de condições de durabilidade e/ou de atractividade e e/ou de coesão urbana.

E este aumento da necessidade de mais/melhor habitação/habitar, que irá continuar e provavelmente agudizar-se nos próximos decénios, embora dirigido a uma necessidade de mais habitação, tipológica e funcionalmente diversificada e amplamente qualificada – tal como temos vindo a defender neste texto – é uma condição que irá (re)centrar muitos interesses e muitas preocupações numa cidade, que para viver, realmente, tem de ser habitada e para ser habitada tem de ser humana, motivadora e protectora.

E tudo isto se liga à possibilidade dos habitantes entenderem e/ou serem devidamente informados que, gastando o mesmo ou até menos, poderiam viver/habitar com muito mais qualidade e que esta possibilidade se irir traduzir numa sua vida diária muito mais agradável e estimulante; uma matéria informativa que deveria ser tratada em termos de serviço público, numa perspectiva de que mais do que o direito à habitação, há que desenvolver o direito à boa habitação e ao bom habitar a "casa", a vizinhança e a cidade.

De certa forma teremos de fazer a habitação que falta na cidade e não mais em periferias sem vida e carácter, e a própria cidade de hoje precisa dessa habitação “suplementar” para reganhar uma vida e uma coesão perdidas nos últimos decénios. E é muito interessante referir que todas essas prementes necessidades habitacionais se referem a “grandes nichos” de procura cuja caracterização está em boa parte por fazer e que pouco se revêem nos programas habitacionais para o famoso e objectivo “consumidor médio” (que, muitas vezes, até parece que não existe).

Muitas destas linhas de acção confluem, com alguma naturalidade, em intervenções estrategicamente densificadas, matéria que se julga ser ela própria digna de adequado aprofundamento e que se liga igualmente a este “confronto” amigável entre a importância do que é mais e menos objectivo em termos de intervenção habitacional, pois densificar estrategicamente e diversificadamente ajuda a sair da regra uniformizadora que diz que boas partes das cidades devem ser funcionalmente semelhantes e formalmente uniformizadas.

Sobre esta matéria da densificação estratégica recomenda-se a consulta de um recente livro de Javier Mozas e Aurora Fernández Per (“Nueva vivienda colectiva – densidad”, 2004) no qual os autores chegam a um conjunto de conclusões que são, aqui, apenas muito sumariamente sintetizadas e comentadas:

- a tendência para se reduzir a ocupação dispersa do território, densificando-se, sim, de modo a consumir solo de uma forma criteriosa e associada a preocupações ecológicas;

- a tendência de grande inovação tipológica, privilegiando-se um verdadeiro trabalho com as tipologias, também numa resposta directa à multiplicidade e ao grande número de necessidades e de desejos de habitar a casa, o edifício e a cidade

- a ideia que mais altura não leva, obrigatoriamente, a mais densidade, que é possível fazer cidade coesa, densa e sem edifícios altos e que, afinal, são possíveis muitas misturas que resultam em excelentes soluções quando baseadas em bons projectos gerais e de pormenor;

- a ideia que a opção por determinados tipos de espaços públicos carece de muito mais do que de uma simples multiplicação de m2/habitante, pensando-se em termos humanos e de convívio, ambientais, económicos e de gestão;

- a consideração da cada vez maior diversificação de actividades ligadas ao funcionamento da cidade, grande parte delas até não exigindo condições funcionais especiais;

- e a consideração da estratégia de densificação, seja numa perspectiva de vitalização pontual de zonas pouco coesas, seja na perspectiva de “fazer respirar”, equipar e fazer habitar estrategicamente zonas centrais muito concentradas.


Fig. 03
5. Espaços públicos e vizinhanças amigáveis, um desígnio fundamental

Centrando-nos, agora, embora apenas estrategicamente, na importãncia do bem habitar a cidade e a vizinhança salienta-se que se continua a notar, de forma crítica, nos espaços públicos uma expressiva carência ao nível da sua essencial qualificação, desde o projecto urbano e paisagístico a uma adequada execução e equipamento, visando a sua durabilidade e o estímulo a uma ampla diversidade de actividades exteriores, numa perspectiva de aliança entre cidade viva e vizinhanças residencia bem integradas e agradavelmente sossegadas.

E o que importa salientar é que, hoje em dia, não parece haver ainda um conhecimento verdadeiramente adequado, porque bem divulgado, e até, por vezes, indevidamente sedimentado sobre como fazer, por exemplo, uma praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável e apropriável.

E aqui se sublinha que os conhecimentos continuam a estar, a este nível, mais dirigidos e mal dirigidos, designadamente, para os aspectos funcionais do tráfego de veículos. Estamos agora apenas a começar a ultrapassar a medo uma tal estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens; e é neste caminho que se encontrarão muitas das virtualidades em termos de novas ou renovadas soluções tipológicas aqui numa perspectiva urbana.

Embora haja aspectos fundamentais quantitativos a considerar na previsão dos equipamentos – ex., distâncias desejáveis para crianças até 9 anos, 100/200m, vigilância natural a partir das habitações só é eficiente em grupos de 20/30 alojamentos e na contiguidade de zonas pedonais muito usadas – nesta matéria é interessante considerar que mesmo numa perspectiva de previsão de acessibilidades e de raios de influência há diferenças “abissais” de qualidade arquitectónica e de satisfação dos habitantes entre soluções de vizinhanças residenciais que respeitam os mesmos aspectos regulamentares e recomendativos. Uma situação que só será alterada com um desenvolvimento muito sensível, aprofundado, qualitativo e intimamente relacionado com a prática do respectivo enquadramento.

Afinal áreas de jogos atraentes evitam que as crianças usem espaços viários para brincar; as crianças estão sentadas com frequência e são atraídas pelas escadas; há que servir os gostos das crianças e não um objectivo de decoração espacial e as zonas de circulação pedonal devem considerar o recreio livre das crianças usando variados tipos de elementos. E todas estes exemplos de constatações são basicamente qualitativos.

E tudo isto até levanta a questão objectiva de para quem se fazem conjuntos residenciais e com que objectivos fundamentais? E nestas matérias não devia haver quaisquer dúvidas, pois há que proteger ao máximo e incentivar ao máximo o uso do exterior público por crianças e por idosos, seja porque isso é fundamental para esses usos e designadamente para a formação da criança e para o lazer diário do idoso, mas também porque são eles os habitantes que mais vitalizam o exterior público; e será que as funcionalidades previstas são as funcionalidades de que os idosos e as crianças realmente precisam?

Ainda outro aspecto eminentemente qualitativo e crucial nesta escala da vizinhança é a questão da presença do verde urbano, e aqui não devemos ter quaisquer tipos de dúvidas nem resvalar para qualquer tipo de desculpa, até, porventura, formal: a cidade e a vida na cidade e o habitar na cidade precisam de um verde urbano efectivo e afectivo, portanto intenso e apropriável, pois tratamos aqui de uma matéria cuja importância dita funcional, em termos de amenização e de conforto ambiental e cuja importância para a saúde física e psíquica do habitante não merecem discussão; e atente-se que nem se referiu a importância em termos visuais e estéticos, aliás uma importância que está na própria razão de ser do jardim urbano.

Há ainda que considerar que tipos de equipamentos são os mais desejados e os mais eficazes nas vizinhanças? Equipamentos conviviais, como pequenos cafés, ou equipamentos funcionais como lojas de comércio diário, ou outro tipo de equipamentos? Esta é, novamente, um matéria expressivamente qualitativa, pois uma opção é programar metros quadrados de equipamentos de apoio diário ou ocasional, e outra será privilegiar equipamentos que, pelas suas condições de localização, configuração, imagem e funcionamento, possam constituir verdadeiros pólos de convívio natural e, simultanemente, de dinamização do uso do exterior público; não se indica aqui que não são necessários equipamentos de apoio “diário e ocasional”, de que nos lembramos dos velhos “planeamentos” dos anos setenta do Século. XX, só que não deve ser possível fazer mais frentes de equipamentos vazias e tendencialmente deterioradas e é, de facto, especialmente importante prever os “terceiros espaços” conviviais dispostos entre a casa e a rua pública, pois são eles que fazem muita da vivência da cidade.

Quanto à estruturação do edifício é muito grande o leque de serviços e de actividades que são difíceis, caras ou mesmo quase impossíveis de proporcionar exclusivamente a cada fogo; há aqui, assim, um grande potencial de adequação e, mais uma vez, se evidencia que um tal leque de soluções fica muito deficientemente representado numa perspectiva quantitativa, pois a dimensão, o carácter e o equipamento dos espaços comuns variará consoante os objectivos de cada solução.


Fig. 04
6. Urgentes caminhos qualitativos nas tipologias residenciais

Num caminho de desenvolvimento qualitativo dos conjuntos residenciais não há tipologias a descartar, há, sim, tipologias mais, ou menos, adequadas, e há um riquíssimo campo para o aprofundamento da qualidade do projecto arquitectónico, num repensar de funcionalidades domésticas e de relacionamentos urbanos e num judicioso “construir no construído”, ligado à regeneração de espaços urbanos e edificados. Pode dizer-se que muito de tudo isto tem a ver com um jogo de agregação tipológica com sentido amplo, que privilegia o micro-urbanismo e a flexibilidade na conjugação entre células habitacionais – inovação esta muito ligada aos possíveis serviços comuns –, elas próprias também potencialmente muito diversificadas, adaptáveis e mutantes.

Importa salientar que, cada vez mais, há diversos modos de vida e que, como resposta, tem de haver, cada vez mais, uma maior diversidade de oferta tipológica residencial; opção esta que constitui, sublinha-se, um específico e importante factor de sustentabilidade no habitar da casa e da cidade. E é de grande importância esta disponibilização de formas diversas de habitar a casa e a cidade, afastando-se o fantasma do modelo único de habitar – o tal omnipresente em muitas operações residenciais marcadas pela quantidade – e desenvolvendo-se tipologias que prolonguem o exterior público, mas também o exterior caracterizadamente comum e potencialmente convivial e mesmo o exterior privativo.

Nesta matéria das tipologias habitacionais as lições de arquitectura de Hertzberger (Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”) são fundamentais, pois ele traça uma linha de concepção dos espaços residenciais extremamente ligada à pormenorização coerente e fundamentada da casa, do edifício e da rua/zona de proximidade, privilegiando a humanização do habitar e sublinhando aspectos verdadeiramente “construtores” de tipologias e de variações tipológicas residenciais. Há aqui, portanto, todo um amplo léxico de “pequenos” elementos de composição do habitar que podem ser os verdadeiros protagonistas da composição de variadíssimas tipologias de habitar, como se dos fogos e de uma sua aturada pormenorização passássemos, por exemplo, para a rua, a praceta, o pequeno quarteirão, sem uma nota de importância especial para o edifício.

Quanto ao nível do espaço doméstico o campo da adaptabilidade passiva e activa oferece desde uma flexibilidade quase total de compartimentação ao desenvolvimento de fogos apropriados a determinados grupos de habitantes particularizados e mesmo a soluções profundamente marcadas pelos mundos pessoais de cada um de nós. E não é possível deixar aqui de referir que esta matéria é mais uma daquelas em que a menor objectividade não é problema, antes pelo contrário.

Fica, assim, para já, apenas apontada a enorme riqueza de um tão amplo e diversificado leque de soluções em termos de potencial de adequação a uma grande diversidade de modos e desejos de vida residencial e urbana, assim como de potencial funcional e formal em termos de desenho de arquitectura urbana e, como é evidente, tudo isto tem pouco a ver com a “quantificação” do habitar e da sua transformação em mais um produto de consumo, mas sim com projectos feitos especificamente para determinadas famílias e pessoas em determinados locais de determinadas cidades; e que ninguém se refugie na dificuldade do projecto, pois longe está o tempo das grandes folhas de vegetal trabalhosa e manualmente desenhadas, traço a traço, a tinta da china, e que, depois, eram muito difíceis de emendar, alterar, quanto mais darem origem a novas versões parcialmente alteradas e re-adequadas; hoje é possível, naturalmente também com muito trabalho, produzir soluções-base domésticas capazes de gerarem, com alguma facilidade de desenho informatizado, uma grande variedade de soluções variantes e dimensional e funcionalmente compatibilizadas entre si – portanto há que aproveitar tais capacidades de concepção.

Concluindo esta matéria é possível afirmar que há que pensar muito menos em tipos de edifícios e muito mais em tipos de fogos muito diversos, tipos de agregações de fogos muito diversos e mesmo tipos de vizinhanças vivas e citadinas também muito diversas; um pensamento mais “elementar” e, novamente, mais qualitativo, pois reduzem-se as “muletas” da tipificação edificada e fica o que realmente interessa: o mundo privado, o mundo de vizinhança e o mundo urbano.

Mas a tenção a dois aspectos: que essas diversidades não sejam consideradas e tomadas como qualidades próprias, pois ser "diverso" e, por vezes, "inovador", não é nem nunca será sinónimo de qualidade, quando tal diversidade e eventual inovação não for devida e consistentemente fundamentada, em termos físicos, funcionais, económicos, sociais, humanos e culturais.

O mundo tipológico é enorme e muito rico e a ele voltaremos noutros estudos, mas ainda a propósito deste assunto não posso deixar de apontar, desde já, que é, por exemplo, bem interessante poder visitar habitações muito racionalizadas e espacialmente contidas, por exemplo, com condições mínimas nos espaços comuns de circulação e zonas domésticas muito racionalizadas, mas onde nos espaços comuns é possível olhar, com pormenor, o pequeno jardim de vizinhança, onde na sala há lugar para um recanto de trabalho, onde na cozinha há sítio agradável para uma pequena mesa e cadeiras, e onde foi possível criar uma pequena varanda multifuncional.

De certa forma o que parece interessar e que aqui se propõe é considerar na oferta tipológica residencial e urbana muito mais dos que o que está dentro das “quatro paredes” de cada fogo, disponibilizando condições domésticas espacialmente contidas, mas plenamente agradáveis, e ligando, sempre que possível, à vizinhança envolvente e até, pontualmente, à cidade.

De certa forma o que devemos fazer são conjuntos habitacionais em que cada fogo tenha uma “única” identidade, mas que continue agradavelmente anónimo, tais como verdadeiros “lugares escolhidos para aí se viver, residências invisíveis que construímos para nós à margem do tempo .... (tal como escreveu Marguerite Yourcenar nas suas “Memória de Adriano). (2)


Fig. 05

7. Comentários finais: da objectividade à humanização no habitar

Neste novo século assistimos a uma gradual reorientação das exigências habitacionais e urbanas de uma perspectiva dominantemente quantitativa, frequentemente, de má memória, para uma nova perspectiva que tem especial atenção aos aspectos globais de qualidade de vida, às múltiplas exigências de ordem funcional, ambiental e cívica e às fundamentais exigências de uma sistemática constituição de um meio urbano e residencial marcado por um desenho arquitectónico coerente e muito positivamente qualificado em termos culturais e humanizadores.

No entanto, quando se desenvolvem análises técnicas de arquitectura habitacional há ainda uma tendência natural para dar grande importância aos aspectos considerados mais objectivos e menos associáveis à temática da forma arquitectónica, enquanto os aspectos ligados ao desenho, à capacidade de atracção, ao conteúdo emocional e até simbólico, bem como às diversas opções de integração e de apoio a distintos modos de viver a casa e a cidade, que são possíveis numa obra residencial, são, ainda, frequentemente menosprezados.

É, portanto, necessário, identificar caminhos de saída deste conhecido impasse, replicando, de certa forma, o leque/crivo qualitativo que naturalmente já se aplica à concepção de edifícios unifamiliares às restantes tipologias, tendo-se bem presente que não é por se tratar de uma solução de um conjunto de habitações, que ela não deve merecer o mesmo cuidado que dirigimos para a casa para uma família – mais uma daquelas reflexões óbvias mas essenciais.

Em termos globais trata-se visar a concepção multifamiliar e do habitar para o grande número harmonizando-se a qualidade da concepção arquitectónica, com a qualidade física e funcional do espaço habitacional e com a qualidade da imagem urbana e residencial proporcionada, considerando-se essenciais aspectos de identidade, adaptabilidade, satisfação e mais-valia cultural. E note-se que todas estas opções servem, de forma óptima, o caminho que é hoje essencial de desenvolvimento de pequenas intervenções (micro)urbanas e residenciais bem integradas na cidade existente, servindo-se, simultânea e estrategicamente, outros cruciais objectivos de preenchimento, de aliança com acções de reabilitação do quadro citadino e paisagístico preexistente, e de revitalização e reforço da urbanidade.

E mesmo em quadros sociopolíticos, distintos da actual realidade portuguesa, e ainda marcados por graves carências residenciais expressivamente quantitativas há que aproveitar todos estes ensinamentos e aplicar a já velha ideia do pensar grande - em termos de quadros recomendativos e exigenciais estritos - e fazer "o habitar" em pequenas "doses", bem integradas e bem controláveis em termos de resultados sociourbanísticos, de satisfação residencial e de contributo positivo para uma melhor paisagem urbana e global.

E lembremos, por fim, uma recente e magistral afirmação de Benevolo e Albretch: “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza. Só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana...” (3)

E como nota complementar não faria sentido deixar de referir aqui os últimos estudos do LNEC sobre as amplas matérias da humanização do habitar, que se apontam em seguida:


Fig. 06


Fig. 07


8. Notas de conclusão à aproximação à qualidade arquitectónica residencial

A área de estudo da qualidade arquitectónica residencial é vasta, pois o âmbito do habitat cada vez menos se deve limitar, porque vivemos na conhecida "aldeia global", e há cada vez menos barreiras entre o habitar da habitação, o habitar dos espaços de trabalho, o habitar dos transportes e o próprio habitar dos espaços públicos em termos práticos e de lazer.

E a área de estudo da qualidade arquitectónica residencial é pouco materializável, porque boa parte das qualidades arquitectónicas residenciais dos níveis físicos do habitat são pouco palpáveis, circunscritas e mensuráveis, mas, no entanto, "existem" (ex., limiares de transição, ligação e demarcação entre níveis físicos), sendo fundamentais na nossa fruição residencial; e nesta última problemática importa salientar que não só uma parte da qualificação arquitectónica residencial é, naturalmente, pouco objectiva e quantificável (ex., a apropriação, a capacidade e as facetas de atracção, etc.), pois mesmo boa parte dos aspectos mais concretízáveis em termos quantitativos e dimensionais específicos (ex. a acessibilidade, a espaciosidade e o conforto ambiental), dependem de uma importante caracterizaçação qualitativa, que os marca e os envolve, produzindo-se inúmeras situações em que, por exemplo, uma acessibilidade pouco funcional a um dado edifício é considerada muito adequada, em que uma espaciosidade doméstica mínima é qualificada como positivamente envolvente e estimulante, e em que situações de temperatura relativamente baixa ou elevada são sentidas de forma diversa, por várias pessoas e em diversos contextos.


Fig. 08

De certa forma podemos considerar que não basta haver qualidade arquitectónica residencial, ela tem de ser adequadamente caracterizada, visualizada e estimulante, um pouco como refere Witold Rybczynski, quando aponta que a qualidade da "domesticidade tem a ver com a família, a intimidade e uma consagração ao lar, assim como uma sensação de que a casa incorpora esses sentimentos e não lhes dá apenas abrigo" (Witold Rybczynski, "La Casa Historia de Una Idea", p.84).

E daqui poderíamos generalizar que o habitat humano tem de ter uma dimensão qualitativa intimamente associada à dimensão quantitativa, e que, devido a uma frequente reduzida ou mesmo nula percepção desta dualidade qualitativa no habitar, há que desenvolver processos demonstrativos e exemplificativos desta realidade e há que prover a que ela se verifique, por regra, quando se faz e refaz o habitar, salientando-se que fazer bem nesta dupla dimensão é até muito provavelmente mais barato do que continuar a fazer sítios de habitar qualitativamente deficientes, pois o fazer bem, em termos globais, implica também fazer-se bem construtivamente e em termos de um adequado processo de promoção, assim como implica fazer-se bem a médio e longo prazo, conjugando-se o habitar com a respectiva gestão e visando-se sempre a satisfação de quem habita e o desenvolvimento de uma cidade com mais valia cultural.

Naturalmente, esta completa e exigente perspectiva qualitativa obriga a projectos de Arquitectura muito positivos e obriga a sociedade a exigir esse nível elevado de concepção e a municiar-se para o poder garantir.

É esta uma ideia que se pretende generalizar na abordagem qualitativa que foi realizada neste estudo, na sequência do trabalho já feito há alguns anos. Não basta isolarem-se e detectarem-se qualidades e níveis, é essencial que tais atributos qualitativos e tipológicos incorporem o meio residencial numa perspectiva inteiramente integrada e natural, sendo desta condição que resultam núcleos habitacionais realmente acolhedores e motivadores. O que menos importa é se tal conjunto terá 1/15 avos de cada tipo de qualificação aqui desenvolvida, pois pode até ter, por exemplo, uma excepcional qualificação pontual num deles, aplicando-se os outros como que em torno deste motivo “polarizador” de qualidade residencial.

Esta temática remete-nos, exactamente, para uma outra futura linha de pesquisa, que poderá associar a continuidade do aprofundamento da importância e natureza específicas de cada um dos rumos qualitativos aqui indicados, com uma busca dos seus “novelos” relacionais, ou motivos centrais de aplicação, e/ou níveis físicos de aplicabilidade preponderante ou privilegiada. Linha esta que foi já iniciada e que deverá trilhar caminhos articulados, por um lado com as intenções expressas , subjacentes e estruturantes em projectos e exemplos práticos qualificados, por outro lado com a cuidadosa ponderação dos mecanismos e das tendências da satisfação residencial – acessíveis nas chamadas “análises de pós-ocupação” -, e, naturalmente, ainda por outro lado, com as aproximações que determinados tipos de meios, certos interlocutores privilegiados e muitos autores desde sempre têm feito a estas temáticas.

De certa forma é, em boa parte, de uma falta de diálogo com os habitantes, relativamente, àquilo em que eles são os verdadeiros especialistas, o seu habitar, que decorrem graves inadequações entre necessidades e desejos dos habitantes e intervenções no habitar e designadamente nos espaços públicos. E nesta matéria Michel Sablet já em 1991 apontava os principais problemas criados por intervenções exteriores mal concebidas, (4), concluindo este autor que uma adequada intervenção no espaço público, embora não seja um factor que tudo resolve, é um aspecto muito importante na luta contra a “insidiosa, pouco definida e impalpável desagregação das cidades modernas.”

Entre espaço público e habitação balança o coração dos habitantes, que privilegiam este seu mundo privado, escapando-lhes a igual importância daquele mundo público, que, afinal, propicia ou inibe, e estimula naturalmente ou obriga a um uso quase obrigatório dos espaços domésticos – e quando um uso é quase obrigatório estamos próximos de se gerarem tensões desagradáveis e círculos viciosos de abandono, mau uso e isolamento doméstico; mas esta é mais uma matéria que terá de ficar para outras páginas.

Em tudo isto há sempre que salientar a importância de não se voltarem a cometer, periodicamente, os mesmos erros e para isso é fundamental começar a estabelecer um consenso ou consensos básicos sobre determinados aspectos habitacionais fundamentais (mais qualitativos ou mais físicos); um pouco como fazem os médicos acerca de determinados tratamentos que parecem ser, numa dada época e em determinados contextos, os mais indicados para certas doenças; importa realmente estudar e falar sobre o que se estuda.. e rever periódica e objectivamente os resultados desses estudos.

E a liberdade de concepção apenas aparentemente pode sofrer com um aprofundamento disciplinar deste tipo. Basta olhar a cidade para se começar a perceber a riqueza que reside em todas as constelações de pormenores e soluções habitacionais encontradas e aperfeiçoadas ao longo dos tempos. É uma riqueza imensa e praticamente inesgotável cuja banalidade, muitas vezes apenas aparente, é um dos seus principais trunfos de integração e perenidade.

De certo modo, pretendeu-se desenvolver como que uma estrutura fundamental de leitura e análise arquitectónica residencial, propondo-se um esquema coerente, simplificado e eventualmente adaptável a vários tipos de análise.


E assim se conclui a SÉRIE EDITORIAL

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII


Notas bibliográficas:

(2) Marguerite Yourcenar “Apontamentos sobre as Memórias de Adriano”, Lisboa, Ulisseia, col. Clássicos da Literatura Contemporânea, trad. Maria Lamas, 2002 (1974), p. 244

(3) Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.

(4) Michel de Sablet, “Des espaces urbains agréables à vivre – places, rues, squares et jardins“, 1991.

Notas editoriais:


(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte II

Infohabitar, Ano VII, n.º 369, de 13 Novembro de 2011