Infohabitar, Ano VII, n.º 368
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII:
Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte I
Artigo de António Baptista Coelho
Nota prévia à presente edição:
Concluindo uma série editorial cujo último “capítulo”, sobre a integração e a qualidade arquitectónica residencial foi editado, há apenas uma semana, com o n.º 367 deste Infohabitar, publicam-se agora algumas reflexões sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar.
Considerando a extensão do texto, este foi dividido em duas partes, sendo a segunda editada no Infohabitar na próxima semana – o respectivo índice marca a bold/negrito os itens editados em cada edição.
Introdução geral (à série de artigos)
Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).
É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total são 17, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade, editado em duas partes).
Regista-se, em seguida, o plano editorial cumprido no Infohabitar, que foi, até agora, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados), mas que se pretende que, nesta ponta final da edição da série, mantenha agora um máximo de continuidade (dentro da normal periodicidade semanal do Infohabitar):
Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução
A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.
Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.
A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.
Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.
Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.
A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.
Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.
Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).
A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.
Infohabitar n.º 341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.
A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 348 e 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar (final de Maio e início de Junho de 2011).
Infohabitar n.º 364 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado - 9 de Outubro de 2011.
A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 365 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção – 16 de Outubro de 2011.
Infohabitar n.º 366 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: A domesticidade e a arquitectura do habitar – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.
Infohabitar n.º 367 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: A integração e a arquitectura do habitar – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.
(o presente artigo) Infohabitar n.º 368 e n.º 369 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: reflexões finais.
Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.
Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php
Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, e que se tem feito nesta série editorial às matérias da qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.
Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais. Esta abordagem foi editada pela Livraria do LNEC no livro "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2 (fig. 02)
Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php
Habitação e Arquitectura XVII:
Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte I
Índice (a bold os itens que integram a presente edição, Parte I)
1. Equilíbrios e desequilíbrios entre quantidades e qualidades no habitar
2. A Análise Retrospectiva Habitacional desenvolvida no NAU do LNEC
3. O habitar humanizado como um serviço diversificado na cidade
4. A habitação que falta, onde falta: densificar, mas com cuidado
5. Espaços públicos e vizinhanças amigáveis, um desígnio fundamental
6. Urgentes caminhos qualitativos nas tipologias residenciais
7. Comentários finais: da objectividade à humanização no habitar
8. Notas de conclusão
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte I
1. Equilíbrios e desequilíbrios entre quantidades e qualidades no habitar
Com alguma frequência acontece que aquilo de que os arquitectos gostam é rejeitado, mais ou menos intensamente, por quem habita. São os espaços mal amados de conjuntos habitacionais e urbanos, que associam, por vezes, qualidade de desenho a uma discutível ou mesmo negativa qualidade vivencial; e aqui há que lembrar a noção que a Arquitectura para além de arte é técnica e para além de valia estética tem de ter valia vivencial.
Mas se, numa perspectiva oposta, privilegiamos, essencial ou exclusivamente, a satisfação “simples” de quem habita, num sentido de redução da habitação à disponibilização de um abrigo funcionalmente adequado, acaba por ser criticamente afectado o nosso património urbano, paisagístico e cultural; trata-se da pobre arquitectura urbana de tantos subúrbios e das aberrações que comprometem a imagem dos centros históricos e da paisagem natural.
Estas reflexões têm como fronteiras bem distintas as seguintes duas situações-limite:
A situação de grave carência habitacional, quando esta afecta um grande número de famílias, que pode e até talvez deva obrigar a uma ponderação de mínimos de habitabilidade quantitativos, mas que não deve levar ao encurtamento dos respectivos níveis qualitativos, pois, caso contrário, para além de se disponibilizarem, por exemplo, pequenas habitações construtivamente baratas e frequentemente pouco duráveis, vão disponibilizar-se habitações carismaticamente marcadas pela pobreza, ou até por alguma tristeza e que quase nenhum contributo trazem à cidade que as deveria acolher, criando-se guetos – uma situação-limite que exige muito da qualidade do projecto arquitectónico, que terá de fazer “maravilhas” com meios financeiros muito reduzidos.
A situação de carência habitacional relativamente reduzida, mas muito disseminada e associada a faltas e procuras muito particularizadas e diversificadas, que é uma situação naturalmente associada a uma elevada qualificação arquitectónica, ligada à melhoria de cada local de intervenção e à sua positiva caracterização, e que é uma situação frequentemente coincidente com acções de preenchimento e revitalização urbana de periferias e centros históricos, estando, muitas vezes, associada a intervenções de reabilitação.
Um aspecto que nunca será excessivo salientar é que toda e qualquer acção de introdução, na cidade, de nova habitação ou de habitação reabilitada: (i) deve contribuir, sempre, para a melhoria dos respectivos locais de implantação; e (ii) não pode tender a criar novos problemas sociais nos novos habitantes. Esta é uma nota de evidente bom senso, mas quantas foram as intervenções de realojamento e de habitação de mercado livre suburbana que foram realizadas sem se consideraraem as respectivas influências nos respectivos sítios de implantação? E quantas as acções de realojamento que resolveram problemas de sanidade e higiene no habitar do dia-a-dia e ajudaram a manter ou criaram, mesmo, novos problemas sociais na respectiva população?
Estas reflexões gerais sobre como perseguir a harmonização, no habitar e sob o ponto de vista arquitectónico, de uma qualidade bem quantificada e qualificada, indicam a oportunidade de se poderem seguir opções intermediárias em termos do privilegiar do “desenho” e de uma designável “satisfação bruta”, opções estas atentas à aprendizagem com as boas práticas – um caminho sempre positivo e bom de aplicar -, e que tem de ser marcado, quer pela escolha cuidadosa e criteriosa dos projectistas e dos projectos de habitar mais adequados nessas duplas perspectivas (desenho e satisfação, qualidade e quantidade), quer pela aplicação sistemática de processos e ferramentas de avaliação prática dessa capacidade de projecto e da valia real (em termos de desenho e de satisfação), que é atingida na obra feita, sobressaindo, aqui, a importância da designada análise retrospectiva ou avaliação pós-ocupação (APO).
Avançando-se, agora, um pouco mais, nesta matéria da procura de alianças entre bom desenho e soluções que satisfaçam os seus habitantes há que privilegiar alianças de imagem e de conteúdo: que não sejam exclusivas de determinados “desenhos”; que não sejam associáveis a determinados grupos socioculturais, constituindo, assim, e desde logo, valiosas ferramentas de integração cívica; e que estejam ligadas a um exterior público com conteúdo e imagem urbanas que possam ser verdadeiramente estimados.
É, ainda, necessário um aprofundamento duplo e articulado, da matéria disciplinar da qualidade arquitectónica residencial e dos processos ligados à satisfação do habitante, aprofundamento que deve ser realizado em duas linhas de certa forma distintas mas globalmente aliadas:
Uma linha “A”, de aprofundamento disciplinar da qualidade arquitectónica residencial, através da investigação dos respectivos rumos qualitativos; e do desenvolvimento de Programas de Qualidade pormenorizados. Salienta-se, por exemplo, que o Programa de Qualidade de um novo grande bairro de Malmö vai até ao diâmetro das árvores.
E uma linha “B”, de aprofundamento da satisfação habitacional, que deverá estar ligada à consolidação dos processos de Análise e Avaliação retrospectiva ou de Pós-Ocupação com diversos graus de pormenorização e, portanto, capazes de fornecer diferentes análises das respectivas situações em presença.
O caminho que foi feito no presente estudo, decorre de caminhos anteriores de investigação com o mesmo perfil de análise, tal como foi registado no primeiro capítulo, e integra-se, totalmente na referida linha “A” de aprofundamento disciplinar da qualidade arquitectónica residencial, através da investigação dos respectivos rumos ou temas de análise essencialmente qualitativa; decorrendo da síntese que foi, até agora, possível, entre a investigação mais teórica e “bibliográfica”, e um conjunto de informação prática e teórico-prática, que resultou das várias centenas de conjuntos urbanos e habitacionais (cerca de 700) que têm sido visitados, revisitados e estudados, desde há mais de 20 anos, numa actividade que resultou na edição de dois livros de apresentação e de análise sobre estes conjuntos. (1)
Mais se refere que a designada linha “B”, de aprofundamento da satisfação habitacional, através da consolidação dos processos de Análise e Avaliação retrospectiva ou de Pós-Ocupação (APO), foi igualmente desenvolvida desde há cerca de 20 anos, em três grandes campanhas de APO multidisciplinares; e evidentemente que as tendências de conhecimento e os aspectos práticos decorrentes destas análises também interagiram com o referido conhecimento prático de muitos exemplos de habitar e designadamente de habitação de interesse social, que é aquela onde fica mais aparente o potencial de ligação entre o positivo desenho de arquitectura e os caminhos da satisfação dos respectivos habitantes – concretizando-se, assim, mais uma matéria específica que será muito interessante de aprofundar.
E, finalmente, há que salientar que toda esta matéria teórico-prática confluiu, há poucos anos, num estudo aprofundado sobre os aspectos, considerados mais significativos, numa desejável humanização do habitar; uma matéria que aparece de certa forma na sequência de, e dialogando com, uma matéria ligada aos aspectos habitualmente considerados como mais objectivos de uma qualificação habitacional (ex., as matérias dimensionais, funcionais e programáticas).
Ainda nesta matéria não poderia deixar aqui de introduzir como mais um tema de reflexão associado ao desenvolvimento deste estudo e que fica, estratégica e premeditadamente, para reflexões e discussões posteriores, que é importante ter em conta que essas questões de qualidade habitacional consideradas como mais objectivas, talvez não tenham assim uma importância relativa tão evidenciada no "bolo" global da qualidade residencial e urbana e da respectiva satisfação dos habitantes. Esta é uma matéria naturalmente sensível e até um pouco perigosa em quadros sociopolíticos marcados por graves carências habitacionais e, portanto exigirá abordagens específicas, que aqui não serão feitas; mas no entanto há que salientar que esses aspectos mais objectivos/quantificáveis da qualidade residencial são basicamente importantes em quadros sociotécnicos com elevadas carências em termos de meios devidamente qualificados para a concepção e a análise de conjuntos urbanos e habitacionais, e que os outros aspectos, considerados menos objectivos, dessa qualidade residencial obrigam a acções muito exigentes e até sensíveis em termos de estudo, formação, sensibilização e discussão técnica e política, e elevada capacidade de análise e de implementação de um exigente crivo de exigências qualitativas.
Dito isto, parece estar situada a posição deste estudo na sequência dos trabalhos que o antecederam, consistindo, assim, numa abordagem aprofundada do que se pode entender por uma aprofundada e real qualidade arquitectónica urbana e residencial, que reflecte uma linha de pensamento influenciada pela teoria e pela prática e visando, tanto o esclarecimento possível dessa qualidade, como a sua possível compatibilização com a satisfação dos habitantes, e reflectindo uma experiência pessoal e de estudo da matéria já registada numa sequência de outros trabalhos, numa linha de reflexão que chega, agora, a um momento já bastante mais autonomizado do que quando se iniciou este caminho, há cerca de 20 anos.
2. A Análise Retrospectiva Habitacional desenvolvida no NAU do LNEC
Tal como se acabou de apontar, uma das formas de se procurar a aproximação entre o que os arquitectos projectam, em termos de habitar, e as características habitacionais mais apreciadas e desejadas por todos nós habitantes é avançar na aplicação de processos multidisciplinares de de análise retrospectiva ou Avaliação Pós-Ocupação de conjuntos residenciais já habitados há alguns anos, procurando-se conhecer o grau de satisfação atingido nos diversos níveis físicos em presença. Estes processos são também essenciais na identificação das melhores soluções – a divulgar, depois, como casos de referência – e no estudo e avaliação dos programas residenciais existentes.
Em seguida faz-se uma brevíssima apresentação comentada do processo de Análise Retrospectiva/Avaliação Pós-Ocupação (APO) Habitacional desenvolvido e já, várias vezes, aplicado sob a coordenação do NAU do LNEC.
Desde o final dos anos 60 foram desenvolvidos pelo LNEC estudos sobre o uso da habitação, através de inquéritos e associando diversas especialidades sob a orientação do arqº Nuno Portas. Em meados dos anos 90 decorreram no Departamento de Edifícios do LNEC, e no seu Núcleo de Arquitectura, já na altura coordenado pelo Arqº Reis Cabrita, sistemática e periodicamente, por iniciativa do Instituto Nacional de Habitação, análises multidisciplinares à qualidade de espaços habitacionais "a custo controlado" recém-concluídos e financiados pelo Instituto, incidindo, portanto, fortemente sobre as diversas facetas da qualidade construtiva, mas incorporando, já, uma importante componente de análise arquitectónica.
A mais recente fase de desenvolvimento dos estudos de avaliação residencial no LNEC assumiu a forma de análises retrospectivas ou de pós-ocupação (APO), sobre um parque já habitado há, pelo menos, cinco anos, distinta, portanto, das anteriores análises ao projecto e à obra concluída ou em curso.
Este tipo de análise/avaliação apreciou a arquitectura urbana, o comportamento da construção e a satisfação residencial dos moradores através de uma forte integração interdisciplinar, entre a Arquitectura/Urbanismo (Núcleo de Arquitectura do LNEC), as Ciências Sociais (Grupo de Ecologia Social do LNEC) e a Engenharia/Construção (Núcleo de Arquitectura do LNEC com a colaboração de outros Núcleos do Departamento de Edifícios do LNEC).
Tal análise/avaliação abordou os diversos níveis residenciais (do pequeno Bairro ao compartimento do fogo), constituindo uma aproximação aprofundada à satisfação dos habitantes de conjuntos residenciais desenvolvidos com controlo de custos e segundo um determinado quadro recomendativo (Recomendações Técnicas de Habitação Social), que tem assinaláveis reflexos nas áreas domésticas.
Especialidades envolvidas: Arquitectura, Engenharia e Ciências Sociais:
A análise arquitectónica teve como principal objectivo, a avaliação da qualidade das características físicas, funcionais e ambientais dos empreendimentos, numa sequência de níveis físicos: envolvente alargada, envolvente próxima, edifícios, habitações e respectivos compartimentos.
A análise construtiva teve como objectivo, fundamental, a avaliação do comportamento das soluções construtivas, componentes e instalações, e a caracterização de casos de patologia existentes.
A análise sociológica teve como principal objectivo a avaliação da satisfação residencial dos residentes, associada às características de uso e apropriação dos espaços interiores e exteriores e aos fenómenos de mobilidade social e residencial.
Faseamento
O estudo contempla cinco fases de trabalho:
Fase 1 - Preparação do estudo: definição da amostra representativa, elaboração de instrumentos de análise, planeamento do trabalho de campo, apreciação preliminar dos elementos de projecto.
Fase 2 - Trabalho de campo: realização de visitas aos empreendimentos e recolha de informação.
Fase 3 - Compilação da informação obtida: elaboração do primeiro documento que reúne em volumes individualizados as fichas de análise arquitectónica, construtiva e sociológica e respectivo levantamento fotográfico a cada empreendimento.
Fase 4 - Análise da informação obtida: apuramento de resultados, elaboração de quadros comparativos, análise informática das respostas aos questionários.
Fase 5 - Elaboração do documento final: generalização ponderada dos resultados da análise à amostra representativa do parque habitacional financiado pelo INH no período a que se refere a APO e elaboração das principais conclusões e recomendações.
Instrumentos de recolha de informação
Para o desenvolvimento da análise retrospectiva elaboraram-se e foram utilizados os seguintes instrumentos de recolha de informação:
Ficha de Identificação do Empreendimento: integrando determinados elementos do projecto.
Guiões de Entrevistas semi-directivas: utilizados junto de interlocutores privilegiados e alguns residentes.
Questionário destinado ao "Levantamento da Qualidade Habitacional": a aplicar a todos os moradores.
Fichas de Observação Técnica:
de Análise Arquitectónica no local e ao projecto;
de Análise Construtiva.
das Ciências Sociais.
Caracterização da amostra
Os empreendimentos estudados resultaram dos três tipos de promoção de Habitação a Custos Controlados realizada em Portugal e caracterizam-se por diversas tipologias residenciais e localizações:
Tipos de promoção: cooperativa, municipal e privada.
Tipologias residenciais: unifamiliares em zonas pouco densificadas; bi a tetrafamiliares em zonas pouco densificadas; pequenos multifamiliares em zonas pouco densificadas ou de periferia de cidades médias; multifamiliar com galerias exteriores comuns em periferia citadina; multifamiliares em zonas citadinas periféricas ou centrais.
Tipos gerais de localização: zonas próximas ou integrando grandes centros urbanos do litoral; zonas integradas em grandes centros urbanos do interior; zonas integrando pequenos centros urbanos.
Trabalho prático
Identificação do Empreendimento (através da colaboração dos seus responsáveis).
Observações significativas sobre o desenvolvimento dos conjuntos residenciais seleccionados para a análise (com a colaboração dos responsáveis pelo empreendimento e respectivo projecto).
Visitas técnicas aos conjuntos residenciais:
Reuniões com os responsáveis pelos conjuntos residenciais;
Observação e análise técnica, integrando levantamento fotográfico e em vídeo;
Entrevistas semi-directivas à população e outros interlocutores privilegiados locais;
Entrega dos Questionários a todos os moradores.
Algumas notas para posterior desenvolvimento
Considerando-se que as três “campanhas” de APO habitacional coordenadas pelo NAU do LNEC foram, como se referiu, desenvolvidas praticamente pelos mesmos técnicos e com as mesma ferramentas (naturalmente aperfeiçoadas), foi possível extrair de uma comparação global entre os resultados globais obtidos, considerando-se que as futuras campanhas de APO do LNEC merecem desenvolvimento:
Na habitação, relativamente à temática do conforto ambiental – nas áreas da iluminação natural, da ausência de ruído e do conforto higrotérmico.
Ainda na habitação, no que se refere à matéria dimensional e funcional, tendo em conta novos evelhos modos de vida e de uso do espaço doméstico.
Da habitação ao exterior público relativamente ao aprofundar da qualidade construtiva e da durabilidade.
Ao nível do urbanismo de pormenor os aspectos ligados às imagens do edifício e da vizinhança próxima, procurando entender as motivações que regem as apreciações dos habitantes nesta matéria. Ainda neste nível há que investir na concepção “estratégica” do exterior residencial, considerando o seu conteúdo funcional e a sua gestão integrada, e dirigindo à gestão do espaço público uma atenção redobrada.
E é ainda vital assegurar exigentes, fundamentados e oportunos processos de análise do projecto.
Mais diversidade e mais qualidade no habitar
Há caminhos, desejavelmente aliados, e associados seja à concepção arquitectónica, seja à vivência arquitectónica. E quando se trata do habitar, considerado numa perspectiva real/ampla que vai da casa à rua citadina, então a influência das matérias de matérias tão diversas como a apropriação, a adaptabilidade, a atractividade e a própria caracterização residencial, entre outras, pesam ainda mais fortemente numa natureza qualitativa residencial em que, muitas vezes, os aspectos quantitativos e considerados mais objectivos têm a sua importância, mas, globalmente, em pé de igualdade com aquelas matérias; caso contrário estaremos condenados a repetir erros, ciclicamente a coberto de novas capas, erros esses frequentemente responsáveis por graves situações de desintegração urbana e/ou social.
Não mais, portanto, aquela ideia que o que importa – ou o que é possível fazer – é “apenas” medir e pesar, que o que importa é aplicar “fórmulas” de indicação de necessidades de equipamento urbano e de necessidades de áreas domésticas, que o que importa é regulamentar cada vez mais tudo o que se refere ao habitar e à cidade; e que “depois”, depois, separadamente destas matérias, haverá o mundo da concepção e da criatividade o qual não se deve “beliscar” e que tratará de assuntos “não objectivos” e portanto muito difíceis ou mesmo impossíveis de apreciar.
É assim fundamental reafirmar a importante natureza qualitativa do aprofundamento da qualidade arquitectónica residencial, nunca se esquecendo que tal condição não pode ser factor de menor atenção e de menor enquadramento relativamente a uma tal qualificação, seja devido à necessidade de se caminhar, cada vez mais, para uma mais aprofundada e ampla satisfação residencial e urbana, seja devido à necessidade de se contemplar, cada vez mais, uma mais consistente e valorizadora qualidade cultural e citadina na arquitectura residencial e cívica que tem de ser factor fulcral na regeneração e na aprofundada (re)caracterização das grandes cidades e dos bairros deste novo século.
Haverá, portanto, que identificar caminhos e processos de aprofundamento de uma tal qualidade, que se liga, naturalmente, a aspectos dimensionais e funcionais, mas que se desenvolve e se afirma, também, paralelamente a estes aspectos, em matérias qualitativas para as quais é fundamental ir identificando e melhorando, gradual mas efectivamente, processos de observação e de análise capazes de garantir a melhor satisfação de quem habita e o maior valor cultural do espaço urbano que vai sendo criado; será, sem dúvida, mais complexo e sensível do que verificar dados quantitativos, mas é uma linha de actuação fundamental para que possamos iniciar e desenvolver com eficácia a urgente melhoria das nossas cidades.
E lembremos que, felizmente, é já a própria UE que se tem preocupado com o desenvolvimento de intervenções arquitectónicas marcadas, cada vez mais, por uma perspectiva qualitativa ampla e culturalmente fundamentada, e por isso se regista aqui a importância que UE dirige a várias matérias desta grande área temática e designadamente “a criação arquitectónica e a qualidade das construções, e a sua integração harmoniosa na envolvente, no respeito das paisagens naturais e urbanas “ (Directiva 85/384/CEE).
Este sublinhar da “área” do “desenho”, da concepção caracterizadora, não pode, de qualquer forma, ajudar a esquecer aspectos tão fundamentais como a persistência de condições sub-humanas no habitar de um amplo grupo de cidadãos, que ainda habitam barracas, casas abarracadas, habitações ambiental e construtivamente degradadas e habitações e compartimentos sobre-ocupados; um problema que é bem mais grave e persistente, entre nós, do que pode parecer numa primeira análise geral.
Pelo contrário, o bom desenho do habitar tem de procurar ser directamente útil na procura, na experimentação e na análise de soluções que, simultaneamente, ajudem a resolver tais carências, mas que sejam também soluções adequadas em termos de um positivo desenho de arquitectura urbana, correspondendo, assim, a um acréscimo patrimonial com influência directa na melhoria da paisagem, que tão necessitada está desta melhoria.
Importa ainda registar que a necessidade imperiosa de se acorrer, com urgência, a tais situações de grande carência, não pode fazer esquecer que vivemos um tempo marcado por crescentes e muito diversificadas exigências de qualidade no habitar, que caracterizam os diversos tipos de promoção e que se ligam à diversificação dos modos de vida, e à natural tendência de melhoria gradual do nível de vida, à introdução de novos campos exigenciais (ex., urbanismo ecológico e durável), e à fundamental melhoria da formação e informação sobre como é possível habitar a custos equilibrados.
Nestas matérias, que são muito sensíveis, fiquemos, para já, com uma nota sobre a relação umbilical que as duas noções (distintas) de servir mais pessoas e de servir melhor mais pessoas, parecm ter com os aspectos da qualidade arquitectónica residencial. De certa forma vivemos, hoje, um tempo marcado por crescentes e diversificadas exigências de qualidade no habitar, e salienta-se que será, sem dúvida, este caminho da diferenciação e da diversificação de modos de habitar uma cidade, que poderá assegurar uma melhor adequação residencial e a resultante erradicação dos tantos erros de massificação, de uniformização, e de uma insana imitação de soluções, que se baseiam em regulamentos como se estes fossem guias de desenho.
Afinal, é possível e útil considerar que, por exemplo, as opções por mais quantidade de espaço interior e exterior e por mais quantidade de equipamento colectivo e doméstico ou comum, no respeito de perspectivas que foram e são, tantas vezes, perigosamente uniformizadoras, não são condições directamente associáveis a mais qualidade de vida residencial e urbana; constatação que é mais uma forma de clarificar a importância dos aspectos considerados menos objectivos numa verdadeira qualidade do habitar, que contemple e harmonize satisfação residencial e qualidade de desenho de arquitectura.
Hoje em dia, neste século das cidades, o coração da solução para um espaço urbano vivo e rico é que a cidade se tem de regenerar através da estratégica, afirmada e muito cuidada integração de espaços de habitar, que incluam habitação e “terceiros espaços” conviviais e de transição/coesão, que são tanto residenciais como urbanos, uma integração que, por sua vez, depende em grande parte de uma apurada capacidade de pormenorização, desenhando-se plenamente cada sítio.
É, assim, fundamental (re)compor a cidade com habitação, (re)constituindo-se ruas e praças ordenadas, variadas e humanizadas, privilegiando-se a identidade de cada conjunto urbano significativo, integrando-se edifícios e espaços livres, proporcionando-se boas ligações físicas e sociais e criando-se espaços públicos viáveis e culturalmente bem qualificados pela sua arquitectura urbana; qualidade e mais qualidade, porque nunca será possível encontrar e aplicar simples “fórmulas“ que garantam ruas, ruelas e pracetas com sucesso urbano e humano, que é o que realmente interessa, porque é o que realmente irá criar um pouco mais de cidade verdadeiramente habitada, “marcada” e, portanto, de cidade viva.
Neste desígnio, que se impõe com urgência, de trabalhar para favorecer o desenvolvimento sustentado de bairros únicos e de vizinhanças únicas em cidades que se irão distinguindo por tais singularidades e por uma fundamental vitalidade, há que lembrar, ainda, outro fundamental papel da cidade habitada, que é a cidade como espaço de lazer e de cultura, porque a cidade não é, nem nunca foi, uma mera “máquina” de vantagens funcionais; parece, até, que não foi apenas por isso que ela nasceu, pois na sua génese houve também importantes matérias culturais daquelas menos palpáveis como são os caminhos da religião, da arte e do afecto.
Fig. 03: o excelente Alvalade, em Lisboa: aliança entre boa arquitectura e satisfação habitacional
3. O habitar humanizado como um serviço diversificado na cidade
Complementarmente a estas matérias, e, designadamente, quando falamos do habitar como elemento que pode e deve ser redentor numa cidade que tem o centro e as periferias em crise, há que considerar a habitação como um serviço, que satisfaz, de uma forma continuada, exigências e necessidades dos moradores e os satisfaz numa perspectiva de mutação contínua – seja das necessidades e exigências, seja dos próprios moradores.
Além de um serviço “funcionalizado” o habitar terá de começar a ser um serviço “caracterizado”, uma noção que é sem dúvida complexa mas que hoje é fundamental, seja por razões “estruturais”, seja no serviço directo a necessidades e desejos específicos de minorias socioculturais e da própria maioria, tão marcada pelo individualismo – um serviço caracterizado que faz, ele próprio, a diferença clara entre “utilizadores de alojamentos” e verdadeiros “moradores”.
Os caminhos a este nível da habitação considerada como um serviço adequado, diversificado e bem integrado na cidade, estão e estarão, cada vez mais, numa oferta habitacional intensamente marcada seja pela diversidade básica e “inicial”, nos mais variados níveis do habitar – da vizinhança urbana ao recanto doméstico –, seja por uma aprofundada, bem integrada e eficaz adaptabilidade posterior ao momento da ocupação, uma adaptabilidade que tem a ver com os fundamentais aspectos de apropriação e, também, naturalmente, com os elementares aspectos de adequação ao modo de vida, sempre tão falados e tão pouco ou quase nada estudados e “solucionados” – e por vezes e nestas matérias as soluções são realmente simples e de verdadeiro “bom senso”.
Neste caminho de cuidada disponibilização de soluções diversificadas, versáteis e agradavelmente apropriáveis importa aprofundar, realmente, a perspectiva do habitar como um serviço e um serviço caracterizadamente urbano, que de forma alguma se esgota no espaço que se pode dizer “corrente” da habitação, e, assim, lá vamos nós sair novamente de casa, pensar no edificado e na vizinhança de proximidade e pensar na tal fundamental cidade do pormenor, aquela que também habitamos, seja em locais específicos de lazer livre e de actividades específicas, seja em percursos que se querem verdadeiramente interactivos e claramente de lazer e de flanar urbanos; mais uma matéria onde os caminhos da objectividade do urbanismo do pormenor, seguidos numa perspectiva fundamentalista, se debatem, naturalmente, com bastantes problemas, pois, muitas vezes, e por exemplo, não é a largura funcional de um dado passeio pedonal que realmente interessa, é eventualmente a sua grande largura convivial e a sua caracterização em termos de tecto arbóreo e de diversidade de equipamentos marginais, que são as característica que o fazem “único” e muito apetecível. E o “serviço habitar” pode e deve encontrar, urgentemente, um amplo e diversificado guião de exemplos e de elementos de referência prática.
Em todas estas facetas de um urgente aprofundamento qualitativo da arquitectura do “serviço habitar” também se sublinha a importância e a urgência da sensibilização dos habitantes/utentes na procura e na escolha de um tal grande rumo qualitativo, pois são e serão eles que podem criar uma procura sustentada de habitação e de cidade caracterizadas por rumos qualitativos desse tipo. E nesta matéria há que sublinhar que muita gente nem imagina que é possível habitar a cidade com amplos aspectos qualitativos e com custos bem equilibrados; e aqui o problema está, igualmente, na crítica falta de divulgação de casos de referência e na crítica falta de aprendizagem com esses casos, numa crítica falta de um vaivém corrente e natural entre o que se faz bem e o que se discute, para que, ao se fazer de novo se melhore, repetindo-se o que se fez bem e evitando-se os erros passados.
Talvez mais do que definir mais standards e regras quantitativas seja tempo de ir à realidade procurar e recolher exemplos de boas práticas e fazê-lo com o espírito aberto.
Disse Christian Norberg-Schulz que “hoje em dia o homem sente uma necessidade urgente de reconquistar a arquitectura como um fenómeno concreto.” E é interessante pensarmos um pouco sobre isto, no sentido em que esta ideia pode referir-se a uma tendência de se tornar a arquitectura mais discutível por toda a gente, mais “tocável”, mais legível. Uma tendência identificável noutros autores, que parecem ir convergindo em matérias que muito têm a ver com uma arquitectura caracterizada e viva, onde sobre os evidentes e necessários aspectos dimensionais e quantitativos se “sobreponham”, complementar e suplementarmente, diversas camadas de aspectos qualitativos ligados a diversos assuntos mais humanos ou mais urbanos, assuntos cuja natureza muito sensível e pouco ou nada quantificável em nada lhes reduz a sua enorme importância para a qualidade residencial e urbana, que está tão evidente em tantos daqueles conjuntos que sempre apetece visitar e onde se deseja, realmente, viver.
Traduz-se este novelo de qualidades, que são identificáveis em tantos sítios que conhecemos e que estão ausentes em muitos outros, como uma habitação humanizada, portanto, feita para o homem considerado na plenitude e multiplicidade das suas necessidades e dos seus desejos.
Naturalmente que se trata de uma ideia, que nem é original, mas julga-se ser uma ideia adequada e fundamental pois talvez o que faça a verdadeira diferença e contsrua o verdadeiro suplemento de alma nos sítios feitos para o homem é tudo aquilo que está para além da estrita funcionalidade, e isto, evidentemente, sem qualquer menorização da importância da funcionalidade; só que já começa a ser a altura de sublinhar que no habitar, considerado na sua verdadeira amplitude, há “mais vida e mais qualidades” para lá dos espaços funcionais, e diria mesmo que a verdadeira qualidade habitacional e urbana está muito para lá das simples considerações espaciais e funcionais.
Não iremos aqui desenvolver este tema mas apenas apontar que num jogo de camadas mais superficiais, ou mais profundas, relativas a uma qualidade residencial com amplo espectro, como tem de ser, teremos, esquematicamente, mais à superfície, as matérias mais objectivas, depois as matérias associadas ao fazer arquitectónico do espaço residencial, que não têm a ver apenas com aspectos objectivos, e depois, sequencialmente, as matérias ligadas à satisfação diversificada do habitante e, portanto, seja à satisfação prática que ele retira de um dado conjunto de espaços residenciais, seja à satisfação qualitativa que ele aí também poderá, desejavelmente, encontrar, e nesta camada mais profunda e complexa estão as matérias ligadas a uma adequada humanização do seu habitar, uma humanização que tem a ver com o revestir o habitar de atributos associados às mais diversas ideias, desejos, memórias e referências culturais e pessoais.
Sobre esta matéria dá vontade de comentar que estamos aqui a pensar em assuntos com enorme sentido prático, ao contrário do que poderia julgar-se face à sua natureza que é, por vezes, pouco palpável, embora, há que o reconhecer, seja, quase sempre, fotografável e questionável; e conhecem-se muitos casos habitacionais e urbanos exemplares nestas matérias, até por vezes caracterizados por áreas e dimensões reduzidas e até, por vezes, por uma funcionalidade questionável nas suas relações mais imediatas, mas plenamente conseguida numa perspectiva mais completa que englobe a fruição de toda a casa e da casa na sua envolvente urbana de integração.
O artigo e a série concluem-se, com a Parte II, na edição da próxima semana do Infohabitar
Notas bibliográficas
(1) Destaca-se um último livro: COELHO, António Baptista; COELHO, Pedro Baptista - Habitação de Interesse Social em Portugal: 1988 – 2005. Livros Horizonte, Horizonte Arquitectura, Lisboa, 2009.
Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 368,
6 de Novembro de 2011
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII:
Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte I
revista semanal sobre o habitat humano ligada à GHabitar - APPQH
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domingo, novembro 06, 2011
368 - Sobre a aproximação à qualidade arquitectónica do habitar – Parte I - Infohabitar 368
domingo, outubro 23, 2011
366 - A caracterização doméstica do habitar - Infohabitar 366
Infohabitar, Ano VII, n.º 366
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar
Artigo de António Baptista Coelho
Nota prévia à presente edição:
Retomando uma série editorial cujo último “capítulo”, sobre a importância da atractividade na qualidade arquitectónica residencial, editado, há apenas uma semana, com o n.º 365 deste Infohabitar, publicam-se agora algumas reflexões sobre a matéria da DOMESTICIDADE arquitectónica residencial, uma matéria sempre tão sensível, como estimulante e discutida, quando se debate o habitar e a habitação, numa dupla perspectiva de qualidade de “desenho” e de relação com a satisfação dos habitantes.
Índice
Introdução geral
1. A caracterização doméstica do habitar
2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial
3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário
4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade
5. Aspectos estruturadores da domesticidade
6. Ainda sobre a natureza da domesticidade
7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção
8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados
a) A domesticidade nos espaços públicos
b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
c) A domesticidade nos espaços edificados
d) A domesticidade nas habitações
9. Carácter e importância específica da domesticidade
10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial
Introdução geral
Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).
É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão 17 ou 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e, provavelmente, outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).
Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que foi, até agora, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados), mas que se pretende que, nesta ponta final da edição da série, mantenha agora um máximo de continuidade (dentro da normal periodicidade semanal do Infohabitar):
Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução
A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.
Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.
A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.
Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.
Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.
A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.
Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.
Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).
A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.
Infohabitar n.º 341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.
A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 348 e 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar (final de Maio e início de Junho de 2011).
Infohabitar n.º 364 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado - 9 de Outubro de 2011.
A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 365 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção – 16 de Outubro de 2011.
(o presente artigo) Infohabitar n.º 366 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: A caracterização doméstica do habitar – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.
Infohabitar n.º XXX - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: reflexões finais.
Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.
Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php
Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, e que se tem feito nesta série editorial às matérias da qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.
Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais. Esta abordagem foi editada pela Livraria do LNEC no livro "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2 (fig. 02)
Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php
Habitação e Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar
Fig. 03
1. A caracterização doméstica do habitar
Tal como se considerou ao abordarem-se as matérias associadas à atractividade residencial, o que se refere a uma caracterização residencial expressiva, que também se pode sintetizar como “doméstica”, é uma qualificação parceira, ou, quando muito, alternativa/opcional da atractividade residencial, podendo mesmo corresponder a uma determinada opção de atractividade; mas pelo seu interesse específico e pelas questões que tem levantado, desde há muitos anos, considerou-se importante fazer aqui uma sua abordagem específica.
Mas convém delimitar e definir, minimamente, a temática doméstica que é aqui visada, considerando-se que, por exemplo, entre o âmbito bem identificável da “Casa Portuguesa” de Raul Lino, plena de beirados, vãos ornados e chaminés evidenciadas, entre outros pormenores considerados como radicados na tradição do que seria a arquitectura doméstica portuguesa e a radical ausência de imagens gerais, pormenores e signos de domesticidade, patente em muitas intervenções racionais e depuradas, houve e haverá múltiplos e estimulantes caminhos:
(i) uns mais orgânicos, na excelente tradição deste tipo de partido arquitectónico, que sempre vai sobrevivendo a outras linhas mais formais;
(ii) outros até muito influenciados por um equilibrado sentido vernáculo e verdadeiro, que decorre do enorme leque de elementos coligidos no fundamental estudo que deu origem à Arquitectura Popular Portuguesa;
(iii) e ainda outros em boa parte baseados numa atitude de estimulante simplicidade programática e de pormenorização, que acaba por expressar, com naturalidade, sítios de vivência e sítios de paisagem bem caracterizados, sendo, assim, veículos formais naturais destes conteúdos, neste caso, essencialmente, domésticos.
Estivemos aqui a referir os caminhos mais sólidos e julgados coerentes de expressão do sentido doméstico, pois há, como bem sabemos, uma linha que resulta de vários “guias de desenho urbano” ingleses e franceses e, mais recentemente, do designado “Novo Urbanismo”, e que nos USA, mas igualmente em várias localizações europeias e asiáticas, desenvolve conjuntos residenciais, alguns com grande dimensão, caracterizados por uma arquitectura expressivamente residencializada e tradicionalista, muitas vezes inspirada em verdadeiros cenários cinematográficos, e que, de certa forma, estiliza e reinterpreta formas de viver sonhadas e idealizadas, associando estes aspectos formais a verdadeiras cartilhas de gestão, baseadas na rigorosa manutenção desses “cenários” e mesmo numa relativa encenação da vida diária que aí acontece.
Salienta-se, ainda, que esta última pequena análise foi feita de uma forma moderadamente crítica, pois considera-se haver interesse em vários aspectos deste tipo de intervenções, no que se refere a uma humanização da escala formal e da vivência diária nessas zonas, por exemplo, predominantemente pedonais, isto desde que os espaços criados sejam caracterizadamente públicos e sem quaisquer delimitações e controlos condominiais; mas como não houve ainda a oportunidade de uma vivência real dessas soluções, não podemos aprofundar esta análise.
Naturalmente que devem ficar fora desta abordagem da domesticidade, como caminho de qualidade arquitectónica muito associável à satisfação dos respectivos habitantes, todas aquelas soluções mais ou menos negativamente “festivas” ou mesmo “carnavalescas”, de pífia e triste interpretação da arquitectura tradicional e doméstica. Que fique, portanto, aqui salientado que neste estudo estamos a encarar a expressão evidenciada da residencialidade no habitar, apenas nos casos em que tal caminho foi realizado com fundamentação, seriedade, sobriedade e sentido de integração física e social.
2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial
Tal como se apontou, já alguns anos, num estudo sobre estas matérias, a domesticidade ou a residencialidade assinalável de uma dada área habitacional ou de um dos seus elementos, significa que estão presentes e, eventualmente, evidenciadas características habitualmente associadas a espaços sedes de aprazível viver diário, relativas à protecção, ao conforto e à dignidade de espaços de residência e de cidadania.
Sobre a “razão de ser” e a actualidade prática de pensarmos nestes termos salienta-se a utilização que tem sido feita, desde talvez mais de 10 anos, deste conceito associado à caracterização doméstica, em operações de “residencialização” e requalificação de conjuntos franceses de “habitação social”. E há mesmo casos em que é referida a ideia de “domesticação” das “velhas” soluções pobremente racionalistas; e refere-se, aqui, a ideia de uma certa pobreza racionalista, porque a economia de meios e o sentido depurado em termos de materiais e pormenores pode ser extremamente rica na configuração de soluções urbanas e residenciais.
É claramente oportuno colocar-se a questão de ser, ou não ser, viável realizar espaços residenciais caracterizadamente “adomésticos”, sem quaisquer conotações residenciais, “amenizadas”, envolventes e transparecendo o respectivo conteúdo habitacional.
Será que basta aos espaços residenciais uma adequada capacidade de atractividade própria e de integração na respectiva envolvente paisagística (urbana ou ruralizada), considerando, isoladamente, os factores mais ligados ao aspecto? Sem qualquer “imagem” de se tratar de um local predominantemente usado como espaço de habitar, interior e exterior? E é importante ter presente esta dualidade interiorizada, bem conhecida, e pública/comum exterior do sentido doméstico, pois julga-se que ela pode ajudar a responder a esta possibilidade.
Esta questão remete-nos para ser, eventualmente, a domesticidade uma qualidade talvez de “opção suplementar”, mas importa aprofundar esta questão, designadamente dos pontos de vista de quem visita/observa (..e como..?) e de quem habita (...”e como” ?); e não podemos deixar de referir a evidente satisfação que é, frequentemente, proporcionada por conjuntos urbanos e residenciais expressivamente marcados por um “sentido” doméstico.
Um outro aspecto sensível a estudar, que aliás já foi aqui anotado, refere-se à capacidade de associação entre diversas linguagens de arquitectura, designadamente contemporâneas, e espaços expressivamente residencializados; uma constatação verdadeira que importa ter sistematicamente presente. E decorrendo desta perspectiva, quais serão os aspectos globais e caracterizadores que qualificam determinados cenários urbanos e determinadas soluções de pormenor, em simultaneidade, como expressivamente residenciais, urbanas, culturalmente consistentes e motivadores? E será que é eticamente legítimo avançar neste sentido? E não será que este caminho é apenas um entre vários percursos de concepção?
São questões para as quais aqui, neste estudo, não se encontrarão respostas cabais, apenas sugestões, ligadas à noção de que uma domesticidade equilibrada e de bom senso, pouco ou nada tem a ver com uma opção “obrigatória” por partidos formais negativamente tradicionalistas e/ou pitorescos, e tem sempre a ver com a disponibilização de ambientes de proximidade e privados amigáveis e estimulantes de um habitar que transborda, estimulantemente, de dentro da nossa habitação, para a vizinhança e depois mesmo para as ligações à cidade. É como que havendo um sentido doméstico e um sentido urbano, ambos influenciando, potencial e positivamente, as principais casas (extremas) do tal jogo da glória diário do habitar e da cidade; e quando uma destas “casas” é defeituosa há sempre problemas.
Fig. 04
3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário
Como a domesticidade arquitectónica e residencial é uma qualidade fluida e dinâmica ela ganha muito, em termos de definição e clarificação com a interpretação que dela fazem, com bastante frequência, os escritores e ficcionistas (tema este bem digno de posterior e específico desenvolvimento), citando-se, a propósito e já de seguida, um texto de Simenon, que se julga exemplar nesta perspectiva:
"À sua volta, a atmosfera era de uma frescura agradável, tanto mais que, apenas a dois metros, para além da fronteira de sombra e de sol, tudo parecia uma fornalha em que as moscas zumbiam ruidosamente... O lugar da casa que Maigret mais apreciava era aquele em que se encontravam: um lugar sem nome, uma espécie de pátio entre a cozinha e o jardim, parcialmente coberto e que, a pouco e pouco, tinham mobilado, até instalado um fogão e um bufete, para aí tomarem a maior parte das refeições estivais. Fazia lembrar um pátio espanhol, com o chão de tijoleira vermelha que dava à sombra uma tonalidade especial" (1).
Traçou-se aqui, em pinceladas largas, uma imagem escrita de um ambiente habitacional, que para além de o ser em termos “funcionais”, é também marcadamente doméstico, porque nos rodeia de referências a cenários, pormenores e sequências de espaços afectuosos e envolventes, que suscitam afinidade e apropriação, e que evidenciam protecção e ligações com as bases da vida, como a terra, o fogo, o vento, o Sol e a natureza.
Numa outra perspectiva, distinta desta talvez mais pessoal/individual e “perceptiva”, importa referir que a qualidade do que é doméstico deve possuir uma base fundamentalmente consensual, que seja capaz de estruturar fortemente e até de motivar tanto as diferentes construções interiorizadas dos espaços domésticos particulares, como a difícil construção comum, embora sempre pessoalmente interpretada, do espaço doméstico global do condomínio ou conjunto de residências, que é de todos os vizinhos e com o qual todos eles se devem poder identificar, pelo menos minimamente.
Referindo-se à descrição feita por Júlio Dinis da Casa da família Whitestone (em "Uma Família Inglesa") Marina de Almeida Ribeiro proporciona-nos uma ampla e metódica definição de domesticidade, que se julga ser adequada nessa perspectiva mais comum/ou de grupo também associada à domesticidade:
"Nesta casa, penetramos suavemente como a própria luz, e é lentamente que a vamos descobrindo. É um espaço de alegria e bem-estar e conhecê-la bem exige um ritual de disponibilidade, que não se compadece com pressas, nem com atrevimentos. Vamos vendo e observando o que nos vai sendo franqueado. Qualquer falta de gosto, de pudor, de confiança, poderia impedir ou retardar uma intimidade que desejamos estabelecer... Este espaço, cuidado por uma mulher...aquecido por fogões cuidadosamente acesos e rodeado de jardins, é aureolado pelo prestígio da fortuna e da cultura...” (2).
É um certo sentido agradável e “repousada”/seguramente formal que aqui se marca, um pouco como se “a casa” tivesse um carácter/alma que vive por si, com as suas regras e com as quais temos de contar, pois fazendo-o sabemos que iremos ter vários benefícios, imediatos e a prazo, pois somos/fomos acolhidos pela “casa”, que nos protege e apoia; uma perspectiva que também nos pode levar longe.
4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade
Witold Rybczinski, no seu importante estudo, intitulado, exactamente, "Domesticity" (3), faz-nos uma belíssima perspectiva do desenvolvimento desse conceito ao longo da nossa história (Ocidental e Europeia), considerando-o como elemento central perspectiva essa que, em seguida, se cita, globalmente, num longo texto, cuja citação é, em seguida, entrecortada por breves comentários:
"Casa é uma palavra do interior, de confortáveis lareiras e íntimos quartos, de cadeiras agradáveis e privacidade, de ambiente cálido e conforto. Mas não foi sempre assim. Antes do século dezoito à casa faltavam quase todos estes atributos. A casa do final da idade média, por exemplo uma casa burguesa, era espaçosa dentro dos padrões modernos, mas continha muitos habitantes. Era, em primeiro lugar, um local público... A casa tinha alguns, poucos, compartimentos amplos, que serviam muitas funções: dormir, comer, cozinhar, lazer, fazer negócios. O mobiliário era essencialmente utilitário e não decorativo, limitando-se a camas, mesas e bancos. Cadeiras reservavam-se para pessoas de posição...”
Rybczinski aponta matérias de grande pertinência no que se refere, por exemplo, numa primeira linha, ao papel convivial do espaço doméstico e das suas ligações com a vizinhança e com cidade – um papel que tem sido, quase sempre, esquecido quando não desprezado – e, também, no sublinhar da importância dos aspectos funcionais que devem ser devidamente apoiados pelo espaço doméstico.
“No século dezassete, com a crescente prosperidade e a melhoria das técnicas dos artífices, o mobiliário tornou-se mais variado e elaborado. As camas de casal chegaram a fazer lembrar pequenas casas e a ornamentação tornou-se comum... Durante o século dezoito a atmosfera doméstica mudou bastante. Com o crescimento da importância atribuída à família... As pessoas ligaram-se às suas casas, e devotaram-se mais à vida doméstica. Este novo sentimento precisou de uma nova palavra: domesticidade... Uma consciência crescente da família e de si próprio produziu uma vontade de privacidade, primeiro em relação ao exterior, depois relativamente aos criados e mais tarde, ainda, relativamente aos outros membros da família...”
O autor sublinha, aqui, o avolumar da importância do espaço habitado, relativamente ao qual se desenvolve, gradualmente, uma consciência que se liga ao sentido de privacidade e de identidade de cada família, com a especialização e o simbolismo que irão marcar peças de mobiliário e mesmo elementos de decoração do interior, sendo que, provavelmente, esta evolução na domesticidade irá, ela própria, influenciar a própria estruturação e composição espacial das habitações; isto também por haver peças de mobiliário extremamente volumosas e difíceis de mudar de local.
“As casas começaram a ser divididas em diversos compartimentos, alguns para o uso íntimo familiar, outros para funções sociais. Os corredores permitiram aos arquitectos desenvolverem casas de modo a que ninguém mais passasse através de compartimentos, mas ao lado deles. Diferentes compartimentos adquiriram usos permanentes - dormir, comer e conviver - e a mobília dentro desses espaços foi disposta em posições permanentes. Escadas de serviço e passagens mantinham os criados à distância. E mesmo no interior da família, o «layout» da casa proporcionava distinções - bibliotecas para os cavalheiros, «withdrawing rooms» para as senhoras e creches («nurseries») para as crianças...”
Rybczinski aponta depois a gradual e cada vez mais fina especialização doméstica, que teve lugar nas grandes casas e que, naturalmente, influenciou todas as outras sob diversas formas e com diversas intensidades, seno muito interessante lermos estas reflexões do autor também numa perspectiva de comentário a uma renovada prospectiva de organização da habitação e espaço de recreio e de trabalho dos dias de hoje.
“Os princípios do século vinte viram incríveis desenvolvimentos na maquinaria doméstica, que reduziram a necessidade do apoio por criados e tornaram a casa um espaço ainda mais privativo da família. Para além disso a introdução da luz eléctrica e do aquecimento central aumentaram imenso as condições de conforto ambiental no fogo, enquanto os telefones reduziram o isolamento e os gramofones e rádios enriqueceram os lazeres domésticos... Mas começou-se a olhar para fora das casas confortáveis. Para o cinema e para a praia, para o centro comercial, para os passeios de automóvel...”
Finalmente o autor aborda as grandes invenções maquinais domésticas, que afinal marcaram desde o início do Século XX à actualidade, sendo que há ainda trabalho a fazer em vários aspectos da integração doméstica desses elementos, assim como na racionalização funcional das tarefas domésticas obrigatórias.:
Mas temos, também nesta fase do relato de Rybczinski a importante referência, por um lado aos passos de gigante feitos nas formas de lazer doméstico e, por outro lado, na expansão do “habitar”, num sentido lato de vida no dia-a-dia, ao exterior da habitação; num equilíbrio ou desequilíbrio de “pólos” de atracção que tem marcado, sob diversas formas e em diversas alturas, o habitar a cidade, talvez nos últimos 100 anos: desde o tempo do “Passeio Público”, ao tempo do intervalo no Foyer do Cinema (tão ou mais importante do que o próprio filme), aos tempos da rua comercial viva, ao tempo do crescimento do trânsito privado de veículos, Centros Comerciais essencialmente rodoviários e excelentes condições de “cinema em casa”. E tudo isto tem a ver com o possível papel urbano e privado da domesticidade, que não existe na cidade rodoviária e existe naturalmente quando a família se reúne para ver um filme em casa ...
Rybczinski fala-nos, depois, do sentido vincadamente “não doméstico”, que marcou o racionalismo arquitectónico, de certa forma em contraste com a profusão formal das “artes decorativas” e das colecções de arte em equena escala (“doméstica”) que povoaram os cabinets londrinos, verdadeiros museus domésticos ...; e, assim, escreveu o autor:
“A atmosfera conscientemente «adoméstica» (indoméstica) da arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas, tal e qual como o que aconteceu com o mobiliário despojado e inconfortável que intencionalmente a acompanhava... O interesse renovado pelos interiores «Victorianos» representa um fascínio com a idade dourada da domesticidade. Não que esse tipo de vida doméstica possa alguma vez voltar, muita coisa mudou, e acima de tudo o papel da mulher em casa e na sociedade... mas a devoção à casa e à família parece continuar tão forte como era então. As delícias burguesas da domesticidade provaram ser surpreendentemente resilientes".
Será que é verdade que “a arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas”? Será que a arquitectura moderna e a sua componente de interiores despojados e minimalistas estava, de certa forma, em excessiva antecipação ao modo como a maioria das pessoas viviam? Ou será que houve diversas “arquitecturas modernas”, sendo que muitas delas aliaram as marcas da sua modernidade a uma caracterização residencial por vezes muito forte e envolvente, como aconteceu, por exemplo, com tantas soluções das escolas nórdicas e, designadamente, de Aalto?
E hoje em dia, já noutro século, como experimentamos a racionalidade e a austeridade de determinadas soluções? Como “habitamos”? Como “preenchemos” determinados espaços extremamente “crus” e austeros? E não será que entre espaço de recepção e enquadramento e os respectivos “recheios” se jogam situações bem distintas, sendo estes últimos muito mais adequados ao reflectir e expressar estas ideias de “domesticidade”? Desde que o espaço de base aceite, realmente, e facilite a sua própria, efectiva e diversificada apropriação, condição esta que por vezes não se verifica.
E é ainda interessante considerar que certas soluções domésticas marcada e genuinamente racionalistas, por exemplo aplicadas em Portugal na Encarnação - Olivais Norte, continuam a proporcionar, seja um expressivo potencial de adaptabilidade e de apropriação interior, seja um quadro/cenário global doméstico extremamente positivo para a integração das mais variadas soluções e opções de mobiliário e de “decoração”, produzindo-se, potencialmente, ambientes intensamente marcados pelo sentido de domesticidade.
E no que se refere a este último aspecto uma das explicações possíveis será a qualidade arquitectónica básica e pormenorizada desses espaços domésticos, que são extremamente racionalizados, mas não visualmente marcados por esta condição, e, também, a grande relação que esses projectos estabeleceram, então, com aspectos essenciais do conforto ambiental, designadamente, em termos de relação e transição interior/exterior, protecção da insolação e excelentes condições de iluminação natural.
Fig. 05
5. Aspectos estruturadores da domesticidade
De certa forma ao estarmos aqui a reflectir sobre a natureza da expressão da residencialidade, considerada esta expressão como uma possível qualidade arquitectónica, as matérias associadas à respectiva estruturação serão mais “fluidas” e, sem dúvida, mais geradoras de diversas opiniões e perspectivas de abordagem, do que noutras temáticas que têm vindo a ser aqui visadas. Por esta razão considera-se que a possível estruturação da domesticidade encontrará linhas de desenvolvimento nos variados aspectos já referidos, no entanto, e de forma prática, comentam-se, com brevidade, o que se julga serem quatro importantes aspectos ou facetas caracterizadoras, que podem ser usados como “motivos” de concepção na expressão evidenciada da residencialidade:
A primeira faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade está ligada e evidencia o que podemos definir como um expressivo “enraizamento”de um dado elemento ou espaço urbano e residencial: (i) em termos locais – servindo-nos de e servindo um local com expressivo carácter; (ii) em termos regionais, uma opção mais sensível e complexa, pois pode “cair” para aspectos de “regionalismo” pouco fundamentado, mas que tem sempre “boa moeda”, por exemplo, na utilização de materiais locais, soluções pormenorizadas locais e cores locai; e (iii) em termos culturais, numa opção ainda mais sensível e complexa, mas que podemos exemplificar aqui pela negativa, considerando que, por exemplo, um “chalé suíço”, por muito “doméstico” que seja será sempre um intruso em Portugal.
A segunda faceta aqui considerada refere-se ao desenvolvimento de uma forte base simbólica, através de formas e elementos com esse tipo de conotação, designadamente, ligada ao mundo doméstico real e histórico, e que podem ser relativamente singulares – como são, por exemplo, os casos de uma chaminé evidenciada (onde até, quem sabe, possamos quase entrar ou entrar mesmo) e de uma janela expressivamente marcada e contendo ela própria um certo sentido de espaço (lugar-janela) - ou serem bastante globais e aqui um óbvio exemplo é o de uma habitação unifamiliar com a forma geral directamente associada à ideia vernácula/infantil que fazemos de “uma casa”; mas há muitos mais exemplos destes tipos particulares ou globais de elementos e são exemplos que podem cobrir também o estender do habitar sobre o espaço público e a própria formalização de partes pormenorizadas da cidade.
A terceira faceta aqui considerada como potencialmente caracterizadora da domesticidade, é, como tinha de ser, essencialmente humana, tendo a ver com uma auto-caracterização humana efectiva, que é frequentemente servida por ambientes domésticos e vizinhanças residenciais muito tratadas, “povoadas”, marcadas e apropriadas, sendo que talvez o principal tema deste desenvolvimento seja um sentido “doméstico”, que se considera por natureza embebido ou associado a um enorme leque de objectos e elementos de mobiliário e decoração – o que configura mais um tema com grande potencialidade de desenvolvimento.
A quarta faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade é, naturalmente, sociocultural e decorre de todo um amplo leque de continuidades de relacionamentos humanos, físicos e paisagísticos: relações geracionais; relações aprofundadas e/ou dinamizadas entre pessoas, locais e ambientes; raízes socioculturais; aplicação de escalas adequadas e ligadas às “dimensões” humanas de corpo e de usos; e, por fim, o manejar de ambientes muito caracterizados e específicos, marcados por elementos fortes e/ou local e/ou regionalmente típicos/caracterizadores (por exemplo, grande árvore, bosque denso, grandes pedras, vista ampla, vista urbana íntima, enfiamento urbano estimulante, etc.).
Pode levantar-se a questão se muitos destes “motivos” não serão, tanto ou mais, elementos de atractividade do que de caracterização residencial? A ideia que tenho, por agora, é que realmente há conotações domésticas em muitos destes temas, que são bastante evidentes quando experimentamos as respectivas situações, embora sejam dificilmente recionalizáveis e portanto explicáveis ...
Fig. 06
6. Ainda sobre a natureza da domesticidade
Pegando nesta última questão, chegamos, novamente, ao tema da principal natureza da domesticidade, e nesta matéria Rybczynski (4) defende que ela corresponde “a um conjunto de emoções sentidas, e não a um único atributo. Ela está relacionada à família, à intimidade, à devoção ao lar, assim como a uma sensação da casa como incorporadora – e não somente contentora – desses sentimentos. Foi a atmosfera da domesticidade que permeou as pinturas de de Witte e de Vermeer. O interior não era só um ambiente para atividades domésticas – como sempre havia sido – mas os cômodos, os seus objetos, agora adquiriam vida própria... .... O verdor inglês, a cultura inglesa, o conforto inglês, vistos sob o sol claro, que não era opressivo.» O conforto não deveria ser dramático, mas calmante. Ele deveria parecer «natural», mas, como o jardim inglês ou a casa inglesa, era cuidadosamente arquitetado” (p.129).
Na mesma obra Rybczynski defende que o “conforto doméstico envolve toda uma gama de atributos – conveniência, eficiência, lazer, bem-estar, prazer, domesticidade, intimidade e privacidade –... Esta percepção envolve uma combinação de sensações – muitas subconscientes – não só físicas, mas também emocionais e intelectuais, o que torna o conforto difícil de se explicar e impossível de se medir. Mas isto não o torna menos real...”. (p. 236)
E o citado autor conclui que “precisamos redescobrir por nós mesmos o mistério do conforto, pois, sem ele, as nossas casas realmente serão máquinas em vez de lares”, e podemos aproveitar o actual tempo de mudança na própria natureza do nosso habitar interior – incluindo lazer e trabalho – e exterior – compatibilizando a cidade rodoviária e a pedonal – para irmos cuidadosamente reinventando as tipologias domésticas e edificadas (multifamiliar), contemplando nelas o que considerarmos ser de recuperar do “velho” sentido de ambiente doméstico.
7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção
Sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar, no entanto, uma riquíssima expressão urbana e ambiental, marcando os espaços públicos ou de uso público que preenchem núcleos residenciais de vizinhança próxima bem caracterizados; e não se trata aqui, novamente de um estímulo cénico e ambiental ao convívio na proximidade do habitar, mas tão somente de uma marcação da cidade habitada, da cidade onde começam os nossos pequenos mundos privados e onde apreciamos que estas nossas capas de identidade se misturem, com alguma ordem, com a identidade da parte da cidade ou bairro que habitamos. Nesta perspectiva alguns dos melhores exemplos portugueses, em termos desta evidenciação pública e natural de um conteúdo expressivamente residencial, são encontrados nos Bairros de Alvalade (respectivas “células sociais”) e Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa; sendo que, tal como chegou a referir Teotónio Pereira há vários pequenos “Alvalades” espalhados pelo País.
Esta possibilidade de uma cidade incluir espaços urbanos caracterizadamente domésticos é muito rica em termos das imagens que podem ser produzidas e dos seus contrastes com outros tipos de imagens urbanas mais comerciais, mais institucionais, mais naturais, etc. E trata-se, também, de mais uma maneira de negar uma uniformidade urbana descaracterizadora e nada emocionante. No entanto, e tal como se tem vindo a repetir, estamos a tratar com uma matéria muito sensível e que pode resvalar, rapidamente, para soluções negativamente marcadas por aspectos “gratuitamente” visuais e sem consistência humna, cultural e citadina; pelo que há que actuar de forma muito cuidadosa e com a participação de projectistas capazes de garantir sínteses equilibradas no que se refere a este tipo de intenções.
Ainda ao nível urbano e igualmente nesta perspectiva estrategicamente residencializadora importa sublinhar o importante papel do designado “verde urbano”, que pode e deve ser usado de forma tão intensa como devidamente ponderada no sentido de uma total harmonização com os partidos de concepção arquitectónica aplicados em cada local. E a referência a uma desejável “intensidade” na introdução do verde urbano justifica-se pois só assim ele pode ter presença activa e protagonista em termos visuais e ambientais, sendo que é infelizmente muito frequente uma sua introdução “envergonhada” e ridiculamente pontual, assim como também, por vezes, acontece uma sua introdução pouco adequada e fundamentada em termos de participação equilibrada nas respectivas imagens urbanas.
O uso adequado do verde urbano tem múltiplas vantagens para a saúde, para o ambiente do dia-a-dia, para a fixação de carbono e, tal como é aqui apontado, para uma forte expressão residencial das zonas urbanas onde é introduzido, e sem dúvida assume um papel efectivo, mas habitualmente secundário – ou, quem sabe, secundarizado –, na concepção arquitectónica residencial, podendo, eventualmente ter uma importância mais efectiva em casos específicos de tipologias menos massivas e mais tradicionais em termos de continuidade urbana; mas atenção tais caminhos obrigam a um adequado trabalho profissional de “arquitectura” paisagista no seu desenvolvimento e um trabalho realizado em grande conjugação com a concepção urbana global e pormenorizada de cada zona, caso contrário será evidente uma “manta de retalhos” conceptual muito pouco digna no seu efeito final.
Nestas matérias e sublinhando a importância do verde urbano como factor de expressão residencial evidenciada dos espaços públicos registam-se as actuais acções de requalificação, designadas de “residencialização”, das massivas operações de HLM francesas, operações estas dispendiosas, que exigem grande capacidade profissional e têm forte sensibilidade conceptual, mas onde fica bem evidente a forte e positiva influência da aplicação cuidada e completa de “verde” urbano na humanização de conjuntos residenciais, basicamente, sem continuidades urbanas e constituídos por edifícios altos e isolados; uma lição que pode ser replicada noutras situações do tipo, embora eventualmente menos graves, e existentes em Portugal.
Fig. 07
8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados
a) A domesticidade nos espaços públicos
A domesticidade no espaço citadino é factor de escala humana e condição contrária a uma massificação monótona e anónima que marca, infelizmente, sólida presença em muitos espaços públicos.
Para além deste importante papel a domesticidade pode ser responsável pelo desenvolvimento de agradáveis e vitalizadoras “ilhas” ou “oásis” residenciais em meios urbanos menos propícios para um viver calmo e gratificante; e nesta perspectiva a domesticidade pode ser uma qualidade estratégica nos espaços públicos de conjuntos residenciais integrados em zonas urbanas “centrais” e/ou muito animadas.
Em todos estes aspectos a domesticidade joga com elementos básicos de composição urbana, destacando-se o equilíbrio da escala edificada e da integração global e especificada (“leque” de diversos aspectos), a escala humana evidenciada, o verde urbano bem integrado, expressivo e estruturador (com a sua influência real e que pode e deve ser devidamente justificada) , e a ligação a naturais elementos simbólicos ou fortemente característicos de espaços habitados e acolhedores (ex. chaminés, beirados, etc.), evidenciados como caracterizadores das respectivas imagens urbanas.
Ainda sobre a relação entre o verde urbano e a domesticidade, podemos comentar e apontar, em seguida, e em termos de exemplos talvez significaticos: que ele suaviza globalmente os espaços edificados; que ele assegura “pontes” e relações de continuidade em sítios onde existiam hiatos entre edifícios e construções; que ele preenche espaços públicos antes criticamente vazios; que ele caracteriza e regista a relação da escala humana um pouco por todo o lado no espaço público, pois os principais troncos/bases das árvores e muitos arbustos têm aproximadamente a dimensão da altura de uma pessoa; que ele forra e reveste grandes superfícies que sem estas condições estariam “nuas” e agrestes em terra à vista; que ele diversifica o ambiente urbano com múltiplas imagens de pormenor (enorme diversidade de espécies com enorme diversidade formal) que serão muito adequadas a uma grande diversidade de gostos dos habitantes e assim positivamente apropriadas, numa perspectiva de amigabilidade das intervenções que é outra faceta da domesticidade; que ele é capaz de nos oferecer verdadeiras “casas” naturais cheias de sentido simbólico, através de pequenos bosques e túneis de vegetação; e, finalmente, que o verde será sempre associado à terra, à produção de alimentos e, assim, também ao sentido doméstico.
Importa ainda referir aqui que outros elementos naturais, e designadamente as rochas aparentes, a madeira, a areia e as superfícies aquáticas ou mesmo a simples presença de água, também participam na construção de espaços expressivamente marcados por um sentido residencial, de estadia, de calma, de apropriação e de protecção. Mas temos de sublinhar que em termos de custo-benefício há soluções mais, ou menos, viáveis, e provavelmente o verde urbano será ainda a ferramenta mais disponível, a não ser quando o contexto, ele próprio, proporcione outro tipos de elementos naturais e conotados com um certo sentido rústico ou vernáculo, muito associado à referida residencialização.
E ainda neste tipo de perspectiva há que sublinhar o interesse da aplicação de elementos em betão armado à cor natural e com marcas visíveis das respectivas cofragens, e, de forma geral, a estratégia de se mostrar a verdade dos materiais, que é também um caminho privilegiado de uma adequada expressão de residencialidade e de habitat humano, que tem forte potencial de aplicação nos espaços públicos e na envolvente dos edifícios.
b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
No que se refere à expressão evidenciada da presença da habitação e dos múltiplos “contornos”, “cenários” e pormenores domésticos nas vizinhanças de proximidade há que salientar, desde já e naturalmente, que será aqui, neste nível físico, que será mais adequada e potencialmente preponderante a aplicação dos aspectos que acabaram de ser referidos para a domesticidade nos espaços públicos.
Mas no entanto e a este nível da vizinhança de proximidade das habitações, nestas ruas, ruelas e pracetas residenciais, expressiva ou dignamente domésticas, há um aspecto que marcará tanto esse sentido doméstico, como os elementos embebidos no espaço público: trata-se da diversidade de delimitações exteriores entre público e privado e de transparências de vãos domésticos sobre o exterior público.
Esta é mais uma daquelas matérias que, por si só, pode dar lugar a desenvolvimentos específicos e muito estimulantes, sendo uma perspectiva que, sublinha-se mais uma vez, praticamente nada tem a ver com as opções formais da respectiva concepção arquitectónica e urbana, sendo tão válida numa zona relativamente vernácula e tradicional, como numa zona modernista; dependendo naturalmente e sempre da respectiva qualidade arquitectónica.
Realmente a domesticidade é uma qualidade que impressiona e caracteriza uma vizinhança e mesmo um bairro: nos muros a média altura ou expressivamente altos, na sua constituição e aberturas neles praticadas; nas vedações naturais ou semi-naturais e nas respectivas vistas proporcionadas sobre os espaços exteriores privados; e na rica complexidade de conteúdos privados estrategicamente visíveis a partir dos caminhos públicos que servem as entradas “secretas” e alternativas das habitações térreas.
E a domesticidade ou expressiva caracterização residencial impressiona também nas vistas que são possíveis relativamente a varandas, terraços e vãos privativos, e onde é expressa a identidade e alguns conteúdos seleccionados dos respectivos espaços domésticos; sendo que há varandas e há vãos cujas “profundidades” e pormenorizações proporcionam elevados potenciais de apropriação e de expressão dos referidos elementos domésticos – pormenorizações essas nada complexas e que podem passar, seja por pequenos “poiais”, que aceitam alguns elementos decorativos e identificadores, seja por vãos que aceitem bem cortinas e até, eventualmente, pequenos espaços de transição e de relação entre essas cortinas e o vidro exterior, tal como acontecia nas velhas habitações com paredes espessas, que são espaços excepcionais para se evidenciar a domesticidade e para se criarem, simultaneamente, limiares de privacidade e pequenas “câmaras” de “descompressão” que ajudam ao próprio conforto ambiental.
E nesta envolvente directa do espaço privado interior, na pele do edificado, o verde urbano encontra um óptimo e diversificado pano de fundo, proporcionando-se um grande leque de soluções de fusão entre edifício e verde, desde os terraços e as coberturas, ajardinadas, às varandas transformadas em pequenos jardins, aos pátios semi-urbanos e semi-privados e marcados pelo verde (até pontualmente), às simples mas efectivas soluções com floreiras e mesmo com vasos de plantas nas fachadas. E em todos estes casos a carácter doméstico ai realçado.
E assim, sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar uma riquíssima expressão urbana e ambiental em núcleos residenciais de vizinhança próxima, que acabam por transparecer essa qualidade na sua envolvente, proporcionando até que tais agrupamentos possam situar-se na vizinhança indirecta de espaços urbanos muito vitalizados.
Tudo isto tem a ver com a possibilidade de um urbanismo feito de escalas e relações mútuas harmonizadas, humanizadas e pormenorizadas; um urbanismo residencial feito ao serviço da pessoa, do habitante, redescobrindo e reinterpretando a forma histórica de se fazer cidade, tal como aponta Rudolf Arnheim (5), quando defende que “o desfiladeiro da rua é o reino da presença ampliada do homem, sendo por isso apreendido como forma”, citando, depois, Heide Berndt, quando este diz que “a rede de ruas, estreita e relativamente confusa, era funcionalmente apropriada a ruas que só serviam para dar acesso aos edifícios. Poucas ruas eram largas o suficiente para permitir a passagem de veículos. O elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas. As estreitas vielas eram determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada”... Mas “na era industrial a relação espacial entre edifícios e ruas altera-se. Com as crescentes exigências dos sistemas de transportes, as ruas tornam-se mais importantes que a disposição dos edifícios na determinação do plano geral da cidade e do centro desta.”
E citemos novamente o mesmo trabalho de Arnheim (6), quando este transcreve mais uma essencial afirmação de Christian Norber-Schulz sobre a forma da rua: “Para se tornar uma verdadeira forma, a rua tem de possuir um «carácter figural»”; o que se refere, sem dúvida, à tal “presença ampliada do homem”, apontada por Arnheim, ainda que seja, eventualmente, uma presença/”sombra.” E serão estas sombras positivas que deverão ajudar a configurar as vizinhanças tão expressivamente urbanas como residenciais.
Fig. 08
c) A domesticidade nos espaços edificados
A domesticidade é natural no interior das habitações e pode, a partir delas, e designadamente dos seus prolongamentos, invadir os espaços comuns, transparecer em fachadas e empenas e prolongar-se por locais exteriores privativos e/ou com imagem pública, acentuando, neste caso, a influência de um afirmado carácter residencial – acolhedor, humanizado, intimista e mesmo parcialmente interiorizado – nas vizinhanças de proximidade.
A domesticidade nos espaços edificados tem de ser aproximada, tanto na pesquisa e no desenvolvimento de tipologias humanizadas, ligadas com a máxima identidade em cada habitação e com a máxima relação entre cada habitação e a sua envolvente comum e pública, como com a pesquisa de espaços comuns que harmonizem funcionalidades com uma activa expressão residencial e sentido equilibrado de comunidade com apropriação individual e familiar, espaços comuns que contenham um verdadeiro e confortável sentido de habitar (exemplo, luz natural, acabamentos, arte, etc.), não se reduzindo a meras ligações funcionais no estrito sentido de funcionalidade, e ainda com relacionamentos atraentes e estimulantes entre estes espaços comuns e as respectivas envolventes térreas e paisagísticas, relacionamentos que podem se apenas ambientais, ou também funcionais e espaciais, inventando-se “novos” pequenos territórios; e tudo isto, no seu conjunto irá dar corpo a um sentido agradavelmente residencial associado, por exemplo, a um edifício multifamiliar que pode até uma dimensão relativamente significativa – mas sem se ultrapassarem limites de bom senso.
Numa perspectiva de contraste, relativamente, aos apontados caminhos da humanização e expressão residencial dos edifícios habitacionais, registam-se, em seguida, os aspectos negativos, em termos de saúde física e psicossocial, que são habitualmente associados a grandes edifícios, sem escala humana e sem identidade, cruzados por “infindáveis e anónimos” espaços comuns:
A saúde das crianças ressente-se, tanto por doenças respiratórias motivadas pela habitual insuficiência de espaço nos apartamentos, como por incidência de desordens psiconeuróticas resultantes do confinamento e do isolamento social. As crianças confinadas têm de brincar e fazem ruído, que nos espaços pequenos dos apartamentos, provocam incómodos e embaraços, tanto na vida familiar, como nas relações entre vizinhos; aumentando, mesmo, a sensibilidade relativamente aos níveis de ruído considerados aceitáveis (até porque se teme que o ruído perturbe os vizinhos).
As pessoas que vivem nos andares mais altos tendem a sair menos à rua do que as que vivem em andares onde podem prescindir do uso dos elevadores; a demora e a pouca vontade de privar com vizinhos desconhecidos na apertada cabina do elevador e eventuais considerações ligadas a possíveis situações de insegurança no percurso (especialmente se este for longo e pouco visível/antecipável), podem ser mais do que suficientes para que não se vença a inércia natural de quem está confortavelmente no seu lar; e, mais uma vez, fortemente prejudicados estão os muito novos, porque não devem usar sozinhos os elevadores, e os muito idosos, que se deslocam com dificuldade.
A solidão nos enormes blocos de apartamentos incide, também, basicamente, sobre as pessoas que não trabalham fora de casa, a não ser que estejam instaladas perto de familiares e de pessoas amigas ou conhecidas; de outro modo, a obrigação de passar à frente de muitas portas fechadas e de atravessar longos e inóspitos espaços comuns, aliadas à visão miniatural que se tem, a partir das janelas da casa, sobre a envolvente exterior, resulta num forte efeito de isolamento e afastamento, que se faz sentir, essencialmente, sobre quem não tem de abandonar, diariamente esse meio. Mas o isolamento acaba por se generalizar, quando qualquer necessidade/vontade de comprar algo tão corrente como, por exemplo, um jornal, obriga a percursos horizontais e verticais longos e inesperados, em termos de encontros, para, finalmente, e com frequência, se ter de pegar no carro e ir longe, afinal, tantas vezes por causa de uma “ninharia”; motivo este que, em outras condições habitacionais mais humanizadas, estava quase sempre associado à sã oportunidade de um convívio natural e esporádico.
E tudo isto se liga a uma quase total negação de um sentido de habitação devidamente humanizado e expressivamente doméstico, que é aqui erradicado ao serviço de verdadeiros “armazéns habitacionais” em que o único cuidado com os utentes serão aspectos regulamentares de acessibilidade e segurança; e o resultado ficou à vista, desde há bastantes anos, nos motins nas “cités” francesas entre os arrabaldes de Lyon e de Paris, numa situação que, naturalmente, não resulta apenas desta situação – há toda uma falta de lógica em termos de localização, acessibilidades urbanas e vida urbana (só para falar das matérias de Arquitectura) –, mas que é agravada pelo desamor e mesmo pelo desprezo com que se trata muito realojamento, e não só nessas periferias, naturalmente.
d) A domesticidade nas habitações
Quando tratamos de edifícios unifamiliares e, globalmente, quando abordamos o espaço privado da habitação estamos, evidentemente, no “santuário” da expressão residencial e identitária, fortemente associada à respectiva capacidade de apropriação.
E no interior doméstico como é possível humanizar e caracterizar domesticamente uma unidade/fogo? Como é que o “alojamento” se torna “habitação”, no sentido de espaço habitado/marcado por quem o vive diariamente, e que vai marcando, desejavelmente, de forma positiva esses seus habitantes?
Com que elementos e composições de elementos (por exemplo: uma lareira evidenciada, a organização expressiva de uma grande cozinha, a evidenciação de uma escada em madeira)? Com que acabamentos e cores? Com que relações interior/exterior (por exemplo lugares/janela)? Com que ...?
As condições para um aumento da domesticidade, como fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer, veja-se o vídeo, a televisão panorâmica, os equipamentos de alta fidelidade, as consolas de jogos, os computadores pessoais, os elaborados equipamentos de telecomunicação que permitem fazer muitos trabalhos em casa, os serviços de entrega de compras e de refeições prontas ao domicílio, a TV por cabo e as antenas parabólicas ligando o lar ao mundo, os variados e aperfeiçoados equipamentos de auxílio nos trabalhos domésticos, etc.
Sendo assim talvez que a batalha deva ser tanto a de proporcionar excelentes mundos domésticos, daqueles dos quais não nos apatecerá sair, como enriquecer e tornar extremamente útil e atraente a envolvente directa e de uso público desses mundos pessoais e familiares, levando-nos a sair deles com frequência, pois logo ali podemos continuar a encontrar uma outra forma de caracterização residencial e doméstica, que nos continua a apoiar e a fazer-nos sentir “em casa”, mas que também nos propicia um convívio mais alargadao e a relação estimulante com a cidade, numa oferta que tornará o nosso jogo da glória diário, entre trabalho e casa, muito interessante.
E para tal interesse também contribuirão: a caracterização doméstica de partes do ambiente de trabalho; e a caracterização equilibradamente profissional de partes do ambiente doméstico.
Fig. 09
9. Carácter e importância específica da domesticidade
As margens da domesticidade ligam-se a aspectos marcantes de conforto ambiental e de presença de aspectos elementares da criação como o fogo, a água e uma natureza dominada, a conjugações especiais de funções e espaços domésticos, e nelas a relações marcantes entre interior e exterior, a imagens pontuadas por símbolos de privacidade e apropriação, a pormenorizações ligadas a conteúdos telúricos e simbólicos, e a uma envolvência gradual mas forte por ambientes cálidos e expressivamente confortáveis, onde a luz e o sol, o verde e os seus reflexos forram suavemente espaços interiores ou interiorizados que nos protegem e amparam nas nossas relações com o exterior público, e que tornam a nossa vida doméstica mais rica e significante.
A domesticidade liga-se, basicamente, à interioridade e ao conforto, será também, frequentemente, uma certa e bem equilibrada intimidade, muitas vezes difícil de caracterizar, mas claramente aparente.
Faz-se notar que condições para um aumento da domesticidade, como a fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer com a ampla disponibilidade de serviços ao domicílio e com o rápido crescimento do trabalho doméstico.
Ao nível público fica o desafio, que se julga importante, no sentido do desenvolvimento de ambientes de vizinhança residencializados/domésticos como factores de dinamização da apropriação pelos habitantes e da identificação com o sítio que habitamos.
10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial
Em termos de reflexão geral apuram-se, para já, os seguintes aspectos.
Estamos, assim, entre a casa e o bairro, desejando uma cidade habitada – humana e vitalizada – e um sítio de trabalho humanizado, pois neste passamos quase um terço da nossa vida. E se estamos entre a casa e o bairro estamos em mundos potencialmente muito envolventes e expressivos de domesticidade. E desta forma chegamos, desde já, a uma ideia que aponta a incoerência de tudo o que aposte em escalas físicas que “esmaguem” a escala humana e de tudo aquilo que não integre um essencial conjunto de serviços de proximidade adequados ao nosso dia-a-dia.
E se formos às ruas deste mundo de proximidade, a dois passos do nosso quarto e da nossa sala, não há qualquer razão para que tudo o que aí se passa não se passe com o vagar, o cuidado e a protecção que gostamos de ter em nossas casas.
E nesta lógica de “habitar a cidade”, que se considera vital para a urgente teabilitação urbana, chega-se, naturalmente, ao potencial surgimento de novas espécies de espaços e de novos tipos de escalas de habitar, em que a casa se torna pólo de comunicação com o mundo (7), podendo a cidade começar a funcionar um pouco como a extensão do espaço doméstico, e , quem sabe, vice-versa; isto numa perspectiva potencialmente bem ligada a uma reforçada activação da funcionalidade dos espaços públicos e domésticos; aspectos que merecem uma urgente reflexão e discussão.
Em termos dos desenvolvimentos que são, desde já, possíveis nestas matérias da domesticidade urbana e residencial, sintetizam-se os seguintes temas de estudo.
O interesse em se aprofundarem os aspectos que marcam uma expressão residencial reforçada em zonas específicas do espaço público e na envolvente próxima das habitações, estamos a pensar, por um lado nas questões organizativas e “estruturais”, que têm a ver com a escala geral da intervenção, com a organicidade ou com a depuração e racionalidade das suas principais formas edificadas e “vazias”, e com a opção funcional em termos de uma expressiva predominância pedonal, embora funcionalmente bem sustentada, e, por outro lado, estamos a visar as questões de preenchimento e pormenorização, ligadas por exemplo, ao partido de verde urbano escolhido, ao “menu” de texturas e cores apurado e à própria “família” de elementos de design de equipamento (exemplo, luminárias) e de comunicação (exemplo, elementos informativos) escolhida – e, por exemplo, este “povoamento” do exterior tem grande importância na respectiva residencialização, ou, pelo contrário, constitui um erro de palmatória que põe em risco a referida expressão residencial.
O interesse que tem a identificação daquelas “famílias” de aspectos associáveis a uma expressão residencial intensificada da envolvente dos edifícios e que não tenham qualquer tipo de conotação com partidos formais específicos – por exemplo as expressões residenciais evidenciadas de um embasamento, de uma chaminé e de um vão de janela, podem ser “desenhadas” em diversas linguagens formais, sendo o resultado idêntico em termos de evidenciação da respectiva domesticidade.
E, finalmente: Será que temos verdadeira legitimidade na utilização destas “ferramentas” de expressão residencial reforçada? Uma questão que se pode ir sempre colocando, até para estarmos preparados para as situações em que tal expressão tem evidentes objectivos comerciais, mas sobre a qual há que referir, desde já, que se não se considerasse que é legítimo usar este tipo de elementos, não se teria abordado aqui a temática, que se julga ser bem distinta e, muitas vezes, complementar da atractividade, mas ligada, também a outras facetas qualitativas, com destaque apara a apropriação e a própria integração; sendo esta a última faceta qualitativa que é objecto deste estudo e que será, em seguida, abordada.
Gostaria, no entanto, de concluir esta reflexão sublinhando a efectividade e a significância em termos de “sentido de estar em casa na rua”, de “atmosfera” envolvente e de certa forma protectora – talvez porque ampliando verdadeiramente o ambiente doméstico sobre o exterior – que fica provada ao visitarmos, com um mínimo de calma e sentido de observação natural (imaginando-nos, verdadeiramente, habitantes), certas vizinhanças urbanas e residenciais, que são fortemente marcadas, cumulativamente e de forma mutuamente harmonizada, por um sentido global de ordenamento, por elementos directamente referidos à escala humana, por elementos da natureza e designadamente por árvores e arbustos e por sinais naturais de apropriação por parte dos respectivos habitantes; aqui, nestes locais, marcados pelos mais diversos “desenhos” arquitectónicos, sentimo-nos um pouco em casa numa rua que nem é a nossa, o que acaba por se constituir numa alavanca de excelente predisposição para se viver essa rua e eventualmente nela se poder conviver.
Mas há mais: há um certo sentimento de que aquelas habitações nos acompanham e protegem positivamente, que aquela escala edificada é realmente a nossa, como uma outra pele, e que aquelas janelas e portas, ali tão perto e que nos são, na prática “estranhas”, equilibram eventuais intrusões à nossa liberdade/privacidade no exterior por um agradável sentido de acompanhamento – e, na prática, tanto mais isto se sente, quanto mais aproximado a um unifamiliar densificado ou a um uni/multifamiliar for a solução, sendo muito importante a presença de acessos privados directamente ligados ao exterior público.
Mas salienta-se que, depois, quando passamos a soluções estritamente unifamiliares, ainda que, por exemplo, geminadas, esse tipo de sentido de convizinhança que abriga e integra bem a individualidade de cada habitação, desaparece para dar lugar, frequentemente, a um sentimento de alguma “crispação” entre a presença dos limites das “moradias” e o uso do exterior público que lhe é contíguo.
Notas bibliográficas:
(1) Georges Simenon, "Maigret e os Cães Ferozes", pp. 7 e 8.
(2) Marina de Almeida Ribeiro, "O Simbolismo da Casa em Júlio Dinis", p. 93.
(3) Witold Rybczinski, "Domesticity", in "Housing: Symbol, Structure, Site", Lisa Taylor (ed).
(4) Witold Rybczynski, “Casa – Pequena história de uma idéia”, trad. Betina Von Staa, 2002 (1986).
(5) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.
(6) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.68.
(7) Farè e Silvia Piardi (dir.), “Nuove specie di spazi”, 2004.
Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
A caracterização doméstica do habitar
Infohabitar, Ano VII, n.º 366, 23 e Outubro de 2011
Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar
Artigo de António Baptista Coelho
Nota prévia à presente edição:
Retomando uma série editorial cujo último “capítulo”, sobre a importância da atractividade na qualidade arquitectónica residencial, editado, há apenas uma semana, com o n.º 365 deste Infohabitar, publicam-se agora algumas reflexões sobre a matéria da DOMESTICIDADE arquitectónica residencial, uma matéria sempre tão sensível, como estimulante e discutida, quando se debate o habitar e a habitação, numa dupla perspectiva de qualidade de “desenho” e de relação com a satisfação dos habitantes.
Índice
Introdução geral
1. A caracterização doméstica do habitar
2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial
3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário
4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade
5. Aspectos estruturadores da domesticidade
6. Ainda sobre a natureza da domesticidade
7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção
8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados
a) A domesticidade nos espaços públicos
b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
c) A domesticidade nos espaços edificados
d) A domesticidade nas habitações
9. Carácter e importância específica da domesticidade
10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial
Introdução geral
Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando, essencialmente, os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial, realizada num estudo do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, apresentado e discutido numa prova de doutoramento em Arquitectura que teve lugar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1995, e posteriormente editado pela Livraria do LNEC (ver Fig. 01).
É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa boa parte dos artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão 17 ou 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e, provavelmente, outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).
Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que foi, até agora, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados), mas que se pretende que, nesta ponta final da edição da série, mantenha agora um máximo de continuidade (dentro da normal periodicidade semanal do Infohabitar):
Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução
A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.
Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.
A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.
Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.
Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.
A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.
Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.
Infohabitar n.º 332 e n.º 333 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).
A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 337 e n.º 338 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: A convivialidade no habitar e no espaço urbano – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.
Infohabitar n.º 341 e n.º 342 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.
A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 348 e 349 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar (final de Maio e início de Junho de 2011).
Infohabitar n.º 364 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado - 9 de Outubro de 2011.
A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 365 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção – 16 de Outubro de 2011.
(o presente artigo) Infohabitar n.º 366 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: A caracterização doméstica do habitar – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.
Infohabitar n.º XXX - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVII: reflexões finais.
Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado "Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php
Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, e que se tem feito nesta série editorial às matérias da qualidade arquitectónica residencial e urbana, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma, mais pessoal, mais marcada pela prática e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.
Em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais. Esta abordagem foi editada pela Livraria do LNEC no livro "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2 (fig. 02)
Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php
Habitação e Arquitectura XV:
A caracterização doméstica do habitar
Fig. 03
1. A caracterização doméstica do habitar
Tal como se considerou ao abordarem-se as matérias associadas à atractividade residencial, o que se refere a uma caracterização residencial expressiva, que também se pode sintetizar como “doméstica”, é uma qualificação parceira, ou, quando muito, alternativa/opcional da atractividade residencial, podendo mesmo corresponder a uma determinada opção de atractividade; mas pelo seu interesse específico e pelas questões que tem levantado, desde há muitos anos, considerou-se importante fazer aqui uma sua abordagem específica.
Mas convém delimitar e definir, minimamente, a temática doméstica que é aqui visada, considerando-se que, por exemplo, entre o âmbito bem identificável da “Casa Portuguesa” de Raul Lino, plena de beirados, vãos ornados e chaminés evidenciadas, entre outros pormenores considerados como radicados na tradição do que seria a arquitectura doméstica portuguesa e a radical ausência de imagens gerais, pormenores e signos de domesticidade, patente em muitas intervenções racionais e depuradas, houve e haverá múltiplos e estimulantes caminhos:
(i) uns mais orgânicos, na excelente tradição deste tipo de partido arquitectónico, que sempre vai sobrevivendo a outras linhas mais formais;
(ii) outros até muito influenciados por um equilibrado sentido vernáculo e verdadeiro, que decorre do enorme leque de elementos coligidos no fundamental estudo que deu origem à Arquitectura Popular Portuguesa;
(iii) e ainda outros em boa parte baseados numa atitude de estimulante simplicidade programática e de pormenorização, que acaba por expressar, com naturalidade, sítios de vivência e sítios de paisagem bem caracterizados, sendo, assim, veículos formais naturais destes conteúdos, neste caso, essencialmente, domésticos.
Estivemos aqui a referir os caminhos mais sólidos e julgados coerentes de expressão do sentido doméstico, pois há, como bem sabemos, uma linha que resulta de vários “guias de desenho urbano” ingleses e franceses e, mais recentemente, do designado “Novo Urbanismo”, e que nos USA, mas igualmente em várias localizações europeias e asiáticas, desenvolve conjuntos residenciais, alguns com grande dimensão, caracterizados por uma arquitectura expressivamente residencializada e tradicionalista, muitas vezes inspirada em verdadeiros cenários cinematográficos, e que, de certa forma, estiliza e reinterpreta formas de viver sonhadas e idealizadas, associando estes aspectos formais a verdadeiras cartilhas de gestão, baseadas na rigorosa manutenção desses “cenários” e mesmo numa relativa encenação da vida diária que aí acontece.
Salienta-se, ainda, que esta última pequena análise foi feita de uma forma moderadamente crítica, pois considera-se haver interesse em vários aspectos deste tipo de intervenções, no que se refere a uma humanização da escala formal e da vivência diária nessas zonas, por exemplo, predominantemente pedonais, isto desde que os espaços criados sejam caracterizadamente públicos e sem quaisquer delimitações e controlos condominiais; mas como não houve ainda a oportunidade de uma vivência real dessas soluções, não podemos aprofundar esta análise.
Naturalmente que devem ficar fora desta abordagem da domesticidade, como caminho de qualidade arquitectónica muito associável à satisfação dos respectivos habitantes, todas aquelas soluções mais ou menos negativamente “festivas” ou mesmo “carnavalescas”, de pífia e triste interpretação da arquitectura tradicional e doméstica. Que fique, portanto, aqui salientado que neste estudo estamos a encarar a expressão evidenciada da residencialidade no habitar, apenas nos casos em que tal caminho foi realizado com fundamentação, seriedade, sobriedade e sentido de integração física e social.
2. Uma aproximação à domesticidade arquitectónica residencial
Tal como se apontou, já alguns anos, num estudo sobre estas matérias, a domesticidade ou a residencialidade assinalável de uma dada área habitacional ou de um dos seus elementos, significa que estão presentes e, eventualmente, evidenciadas características habitualmente associadas a espaços sedes de aprazível viver diário, relativas à protecção, ao conforto e à dignidade de espaços de residência e de cidadania.
Sobre a “razão de ser” e a actualidade prática de pensarmos nestes termos salienta-se a utilização que tem sido feita, desde talvez mais de 10 anos, deste conceito associado à caracterização doméstica, em operações de “residencialização” e requalificação de conjuntos franceses de “habitação social”. E há mesmo casos em que é referida a ideia de “domesticação” das “velhas” soluções pobremente racionalistas; e refere-se, aqui, a ideia de uma certa pobreza racionalista, porque a economia de meios e o sentido depurado em termos de materiais e pormenores pode ser extremamente rica na configuração de soluções urbanas e residenciais.
É claramente oportuno colocar-se a questão de ser, ou não ser, viável realizar espaços residenciais caracterizadamente “adomésticos”, sem quaisquer conotações residenciais, “amenizadas”, envolventes e transparecendo o respectivo conteúdo habitacional.
Será que basta aos espaços residenciais uma adequada capacidade de atractividade própria e de integração na respectiva envolvente paisagística (urbana ou ruralizada), considerando, isoladamente, os factores mais ligados ao aspecto? Sem qualquer “imagem” de se tratar de um local predominantemente usado como espaço de habitar, interior e exterior? E é importante ter presente esta dualidade interiorizada, bem conhecida, e pública/comum exterior do sentido doméstico, pois julga-se que ela pode ajudar a responder a esta possibilidade.
Esta questão remete-nos para ser, eventualmente, a domesticidade uma qualidade talvez de “opção suplementar”, mas importa aprofundar esta questão, designadamente dos pontos de vista de quem visita/observa (..e como..?) e de quem habita (...”e como” ?); e não podemos deixar de referir a evidente satisfação que é, frequentemente, proporcionada por conjuntos urbanos e residenciais expressivamente marcados por um “sentido” doméstico.
Um outro aspecto sensível a estudar, que aliás já foi aqui anotado, refere-se à capacidade de associação entre diversas linguagens de arquitectura, designadamente contemporâneas, e espaços expressivamente residencializados; uma constatação verdadeira que importa ter sistematicamente presente. E decorrendo desta perspectiva, quais serão os aspectos globais e caracterizadores que qualificam determinados cenários urbanos e determinadas soluções de pormenor, em simultaneidade, como expressivamente residenciais, urbanas, culturalmente consistentes e motivadores? E será que é eticamente legítimo avançar neste sentido? E não será que este caminho é apenas um entre vários percursos de concepção?
São questões para as quais aqui, neste estudo, não se encontrarão respostas cabais, apenas sugestões, ligadas à noção de que uma domesticidade equilibrada e de bom senso, pouco ou nada tem a ver com uma opção “obrigatória” por partidos formais negativamente tradicionalistas e/ou pitorescos, e tem sempre a ver com a disponibilização de ambientes de proximidade e privados amigáveis e estimulantes de um habitar que transborda, estimulantemente, de dentro da nossa habitação, para a vizinhança e depois mesmo para as ligações à cidade. É como que havendo um sentido doméstico e um sentido urbano, ambos influenciando, potencial e positivamente, as principais casas (extremas) do tal jogo da glória diário do habitar e da cidade; e quando uma destas “casas” é defeituosa há sempre problemas.
Fig. 04
3. A domesticidade e os seus caminhos escritos: um breve comentário
Como a domesticidade arquitectónica e residencial é uma qualidade fluida e dinâmica ela ganha muito, em termos de definição e clarificação com a interpretação que dela fazem, com bastante frequência, os escritores e ficcionistas (tema este bem digno de posterior e específico desenvolvimento), citando-se, a propósito e já de seguida, um texto de Simenon, que se julga exemplar nesta perspectiva:
"À sua volta, a atmosfera era de uma frescura agradável, tanto mais que, apenas a dois metros, para além da fronteira de sombra e de sol, tudo parecia uma fornalha em que as moscas zumbiam ruidosamente... O lugar da casa que Maigret mais apreciava era aquele em que se encontravam: um lugar sem nome, uma espécie de pátio entre a cozinha e o jardim, parcialmente coberto e que, a pouco e pouco, tinham mobilado, até instalado um fogão e um bufete, para aí tomarem a maior parte das refeições estivais. Fazia lembrar um pátio espanhol, com o chão de tijoleira vermelha que dava à sombra uma tonalidade especial" (1).
Traçou-se aqui, em pinceladas largas, uma imagem escrita de um ambiente habitacional, que para além de o ser em termos “funcionais”, é também marcadamente doméstico, porque nos rodeia de referências a cenários, pormenores e sequências de espaços afectuosos e envolventes, que suscitam afinidade e apropriação, e que evidenciam protecção e ligações com as bases da vida, como a terra, o fogo, o vento, o Sol e a natureza.
Numa outra perspectiva, distinta desta talvez mais pessoal/individual e “perceptiva”, importa referir que a qualidade do que é doméstico deve possuir uma base fundamentalmente consensual, que seja capaz de estruturar fortemente e até de motivar tanto as diferentes construções interiorizadas dos espaços domésticos particulares, como a difícil construção comum, embora sempre pessoalmente interpretada, do espaço doméstico global do condomínio ou conjunto de residências, que é de todos os vizinhos e com o qual todos eles se devem poder identificar, pelo menos minimamente.
Referindo-se à descrição feita por Júlio Dinis da Casa da família Whitestone (em "Uma Família Inglesa") Marina de Almeida Ribeiro proporciona-nos uma ampla e metódica definição de domesticidade, que se julga ser adequada nessa perspectiva mais comum/ou de grupo também associada à domesticidade:
"Nesta casa, penetramos suavemente como a própria luz, e é lentamente que a vamos descobrindo. É um espaço de alegria e bem-estar e conhecê-la bem exige um ritual de disponibilidade, que não se compadece com pressas, nem com atrevimentos. Vamos vendo e observando o que nos vai sendo franqueado. Qualquer falta de gosto, de pudor, de confiança, poderia impedir ou retardar uma intimidade que desejamos estabelecer... Este espaço, cuidado por uma mulher...aquecido por fogões cuidadosamente acesos e rodeado de jardins, é aureolado pelo prestígio da fortuna e da cultura...” (2).
É um certo sentido agradável e “repousada”/seguramente formal que aqui se marca, um pouco como se “a casa” tivesse um carácter/alma que vive por si, com as suas regras e com as quais temos de contar, pois fazendo-o sabemos que iremos ter vários benefícios, imediatos e a prazo, pois somos/fomos acolhidos pela “casa”, que nos protege e apoia; uma perspectiva que também nos pode levar longe.
4. Sobre a história do habitar ... e da domesticidade
Witold Rybczinski, no seu importante estudo, intitulado, exactamente, "Domesticity" (3), faz-nos uma belíssima perspectiva do desenvolvimento desse conceito ao longo da nossa história (Ocidental e Europeia), considerando-o como elemento central perspectiva essa que, em seguida, se cita, globalmente, num longo texto, cuja citação é, em seguida, entrecortada por breves comentários:
"Casa é uma palavra do interior, de confortáveis lareiras e íntimos quartos, de cadeiras agradáveis e privacidade, de ambiente cálido e conforto. Mas não foi sempre assim. Antes do século dezoito à casa faltavam quase todos estes atributos. A casa do final da idade média, por exemplo uma casa burguesa, era espaçosa dentro dos padrões modernos, mas continha muitos habitantes. Era, em primeiro lugar, um local público... A casa tinha alguns, poucos, compartimentos amplos, que serviam muitas funções: dormir, comer, cozinhar, lazer, fazer negócios. O mobiliário era essencialmente utilitário e não decorativo, limitando-se a camas, mesas e bancos. Cadeiras reservavam-se para pessoas de posição...”
Rybczinski aponta matérias de grande pertinência no que se refere, por exemplo, numa primeira linha, ao papel convivial do espaço doméstico e das suas ligações com a vizinhança e com cidade – um papel que tem sido, quase sempre, esquecido quando não desprezado – e, também, no sublinhar da importância dos aspectos funcionais que devem ser devidamente apoiados pelo espaço doméstico.
“No século dezassete, com a crescente prosperidade e a melhoria das técnicas dos artífices, o mobiliário tornou-se mais variado e elaborado. As camas de casal chegaram a fazer lembrar pequenas casas e a ornamentação tornou-se comum... Durante o século dezoito a atmosfera doméstica mudou bastante. Com o crescimento da importância atribuída à família... As pessoas ligaram-se às suas casas, e devotaram-se mais à vida doméstica. Este novo sentimento precisou de uma nova palavra: domesticidade... Uma consciência crescente da família e de si próprio produziu uma vontade de privacidade, primeiro em relação ao exterior, depois relativamente aos criados e mais tarde, ainda, relativamente aos outros membros da família...”
O autor sublinha, aqui, o avolumar da importância do espaço habitado, relativamente ao qual se desenvolve, gradualmente, uma consciência que se liga ao sentido de privacidade e de identidade de cada família, com a especialização e o simbolismo que irão marcar peças de mobiliário e mesmo elementos de decoração do interior, sendo que, provavelmente, esta evolução na domesticidade irá, ela própria, influenciar a própria estruturação e composição espacial das habitações; isto também por haver peças de mobiliário extremamente volumosas e difíceis de mudar de local.
“As casas começaram a ser divididas em diversos compartimentos, alguns para o uso íntimo familiar, outros para funções sociais. Os corredores permitiram aos arquitectos desenvolverem casas de modo a que ninguém mais passasse através de compartimentos, mas ao lado deles. Diferentes compartimentos adquiriram usos permanentes - dormir, comer e conviver - e a mobília dentro desses espaços foi disposta em posições permanentes. Escadas de serviço e passagens mantinham os criados à distância. E mesmo no interior da família, o «layout» da casa proporcionava distinções - bibliotecas para os cavalheiros, «withdrawing rooms» para as senhoras e creches («nurseries») para as crianças...”
Rybczinski aponta depois a gradual e cada vez mais fina especialização doméstica, que teve lugar nas grandes casas e que, naturalmente, influenciou todas as outras sob diversas formas e com diversas intensidades, seno muito interessante lermos estas reflexões do autor também numa perspectiva de comentário a uma renovada prospectiva de organização da habitação e espaço de recreio e de trabalho dos dias de hoje.
“Os princípios do século vinte viram incríveis desenvolvimentos na maquinaria doméstica, que reduziram a necessidade do apoio por criados e tornaram a casa um espaço ainda mais privativo da família. Para além disso a introdução da luz eléctrica e do aquecimento central aumentaram imenso as condições de conforto ambiental no fogo, enquanto os telefones reduziram o isolamento e os gramofones e rádios enriqueceram os lazeres domésticos... Mas começou-se a olhar para fora das casas confortáveis. Para o cinema e para a praia, para o centro comercial, para os passeios de automóvel...”
Finalmente o autor aborda as grandes invenções maquinais domésticas, que afinal marcaram desde o início do Século XX à actualidade, sendo que há ainda trabalho a fazer em vários aspectos da integração doméstica desses elementos, assim como na racionalização funcional das tarefas domésticas obrigatórias.:
Mas temos, também nesta fase do relato de Rybczinski a importante referência, por um lado aos passos de gigante feitos nas formas de lazer doméstico e, por outro lado, na expansão do “habitar”, num sentido lato de vida no dia-a-dia, ao exterior da habitação; num equilíbrio ou desequilíbrio de “pólos” de atracção que tem marcado, sob diversas formas e em diversas alturas, o habitar a cidade, talvez nos últimos 100 anos: desde o tempo do “Passeio Público”, ao tempo do intervalo no Foyer do Cinema (tão ou mais importante do que o próprio filme), aos tempos da rua comercial viva, ao tempo do crescimento do trânsito privado de veículos, Centros Comerciais essencialmente rodoviários e excelentes condições de “cinema em casa”. E tudo isto tem a ver com o possível papel urbano e privado da domesticidade, que não existe na cidade rodoviária e existe naturalmente quando a família se reúne para ver um filme em casa ...
Rybczinski fala-nos, depois, do sentido vincadamente “não doméstico”, que marcou o racionalismo arquitectónico, de certa forma em contraste com a profusão formal das “artes decorativas” e das colecções de arte em equena escala (“doméstica”) que povoaram os cabinets londrinos, verdadeiros museus domésticos ...; e, assim, escreveu o autor:
“A atmosfera conscientemente «adoméstica» (indoméstica) da arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas, tal e qual como o que aconteceu com o mobiliário despojado e inconfortável que intencionalmente a acompanhava... O interesse renovado pelos interiores «Victorianos» representa um fascínio com a idade dourada da domesticidade. Não que esse tipo de vida doméstica possa alguma vez voltar, muita coisa mudou, e acima de tudo o papel da mulher em casa e na sociedade... mas a devoção à casa e à família parece continuar tão forte como era então. As delícias burguesas da domesticidade provaram ser surpreendentemente resilientes".
Será que é verdade que “a arquitectura moderna nunca esteve no coração das pessoas”? Será que a arquitectura moderna e a sua componente de interiores despojados e minimalistas estava, de certa forma, em excessiva antecipação ao modo como a maioria das pessoas viviam? Ou será que houve diversas “arquitecturas modernas”, sendo que muitas delas aliaram as marcas da sua modernidade a uma caracterização residencial por vezes muito forte e envolvente, como aconteceu, por exemplo, com tantas soluções das escolas nórdicas e, designadamente, de Aalto?
E hoje em dia, já noutro século, como experimentamos a racionalidade e a austeridade de determinadas soluções? Como “habitamos”? Como “preenchemos” determinados espaços extremamente “crus” e austeros? E não será que entre espaço de recepção e enquadramento e os respectivos “recheios” se jogam situações bem distintas, sendo estes últimos muito mais adequados ao reflectir e expressar estas ideias de “domesticidade”? Desde que o espaço de base aceite, realmente, e facilite a sua própria, efectiva e diversificada apropriação, condição esta que por vezes não se verifica.
E é ainda interessante considerar que certas soluções domésticas marcada e genuinamente racionalistas, por exemplo aplicadas em Portugal na Encarnação - Olivais Norte, continuam a proporcionar, seja um expressivo potencial de adaptabilidade e de apropriação interior, seja um quadro/cenário global doméstico extremamente positivo para a integração das mais variadas soluções e opções de mobiliário e de “decoração”, produzindo-se, potencialmente, ambientes intensamente marcados pelo sentido de domesticidade.
E no que se refere a este último aspecto uma das explicações possíveis será a qualidade arquitectónica básica e pormenorizada desses espaços domésticos, que são extremamente racionalizados, mas não visualmente marcados por esta condição, e, também, a grande relação que esses projectos estabeleceram, então, com aspectos essenciais do conforto ambiental, designadamente, em termos de relação e transição interior/exterior, protecção da insolação e excelentes condições de iluminação natural.
Fig. 05
5. Aspectos estruturadores da domesticidade
De certa forma ao estarmos aqui a reflectir sobre a natureza da expressão da residencialidade, considerada esta expressão como uma possível qualidade arquitectónica, as matérias associadas à respectiva estruturação serão mais “fluidas” e, sem dúvida, mais geradoras de diversas opiniões e perspectivas de abordagem, do que noutras temáticas que têm vindo a ser aqui visadas. Por esta razão considera-se que a possível estruturação da domesticidade encontrará linhas de desenvolvimento nos variados aspectos já referidos, no entanto, e de forma prática, comentam-se, com brevidade, o que se julga serem quatro importantes aspectos ou facetas caracterizadoras, que podem ser usados como “motivos” de concepção na expressão evidenciada da residencialidade:
A primeira faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade está ligada e evidencia o que podemos definir como um expressivo “enraizamento”de um dado elemento ou espaço urbano e residencial: (i) em termos locais – servindo-nos de e servindo um local com expressivo carácter; (ii) em termos regionais, uma opção mais sensível e complexa, pois pode “cair” para aspectos de “regionalismo” pouco fundamentado, mas que tem sempre “boa moeda”, por exemplo, na utilização de materiais locais, soluções pormenorizadas locais e cores locai; e (iii) em termos culturais, numa opção ainda mais sensível e complexa, mas que podemos exemplificar aqui pela negativa, considerando que, por exemplo, um “chalé suíço”, por muito “doméstico” que seja será sempre um intruso em Portugal.
A segunda faceta aqui considerada refere-se ao desenvolvimento de uma forte base simbólica, através de formas e elementos com esse tipo de conotação, designadamente, ligada ao mundo doméstico real e histórico, e que podem ser relativamente singulares – como são, por exemplo, os casos de uma chaminé evidenciada (onde até, quem sabe, possamos quase entrar ou entrar mesmo) e de uma janela expressivamente marcada e contendo ela própria um certo sentido de espaço (lugar-janela) - ou serem bastante globais e aqui um óbvio exemplo é o de uma habitação unifamiliar com a forma geral directamente associada à ideia vernácula/infantil que fazemos de “uma casa”; mas há muitos mais exemplos destes tipos particulares ou globais de elementos e são exemplos que podem cobrir também o estender do habitar sobre o espaço público e a própria formalização de partes pormenorizadas da cidade.
A terceira faceta aqui considerada como potencialmente caracterizadora da domesticidade, é, como tinha de ser, essencialmente humana, tendo a ver com uma auto-caracterização humana efectiva, que é frequentemente servida por ambientes domésticos e vizinhanças residenciais muito tratadas, “povoadas”, marcadas e apropriadas, sendo que talvez o principal tema deste desenvolvimento seja um sentido “doméstico”, que se considera por natureza embebido ou associado a um enorme leque de objectos e elementos de mobiliário e decoração – o que configura mais um tema com grande potencialidade de desenvolvimento.
A quarta faceta potencialmente caracterizadora da domesticidade é, naturalmente, sociocultural e decorre de todo um amplo leque de continuidades de relacionamentos humanos, físicos e paisagísticos: relações geracionais; relações aprofundadas e/ou dinamizadas entre pessoas, locais e ambientes; raízes socioculturais; aplicação de escalas adequadas e ligadas às “dimensões” humanas de corpo e de usos; e, por fim, o manejar de ambientes muito caracterizados e específicos, marcados por elementos fortes e/ou local e/ou regionalmente típicos/caracterizadores (por exemplo, grande árvore, bosque denso, grandes pedras, vista ampla, vista urbana íntima, enfiamento urbano estimulante, etc.).
Pode levantar-se a questão se muitos destes “motivos” não serão, tanto ou mais, elementos de atractividade do que de caracterização residencial? A ideia que tenho, por agora, é que realmente há conotações domésticas em muitos destes temas, que são bastante evidentes quando experimentamos as respectivas situações, embora sejam dificilmente recionalizáveis e portanto explicáveis ...
Fig. 06
6. Ainda sobre a natureza da domesticidade
Pegando nesta última questão, chegamos, novamente, ao tema da principal natureza da domesticidade, e nesta matéria Rybczynski (4) defende que ela corresponde “a um conjunto de emoções sentidas, e não a um único atributo. Ela está relacionada à família, à intimidade, à devoção ao lar, assim como a uma sensação da casa como incorporadora – e não somente contentora – desses sentimentos. Foi a atmosfera da domesticidade que permeou as pinturas de de Witte e de Vermeer. O interior não era só um ambiente para atividades domésticas – como sempre havia sido – mas os cômodos, os seus objetos, agora adquiriam vida própria... .... O verdor inglês, a cultura inglesa, o conforto inglês, vistos sob o sol claro, que não era opressivo.» O conforto não deveria ser dramático, mas calmante. Ele deveria parecer «natural», mas, como o jardim inglês ou a casa inglesa, era cuidadosamente arquitetado” (p.129).
Na mesma obra Rybczynski defende que o “conforto doméstico envolve toda uma gama de atributos – conveniência, eficiência, lazer, bem-estar, prazer, domesticidade, intimidade e privacidade –... Esta percepção envolve uma combinação de sensações – muitas subconscientes – não só físicas, mas também emocionais e intelectuais, o que torna o conforto difícil de se explicar e impossível de se medir. Mas isto não o torna menos real...”. (p. 236)
E o citado autor conclui que “precisamos redescobrir por nós mesmos o mistério do conforto, pois, sem ele, as nossas casas realmente serão máquinas em vez de lares”, e podemos aproveitar o actual tempo de mudança na própria natureza do nosso habitar interior – incluindo lazer e trabalho – e exterior – compatibilizando a cidade rodoviária e a pedonal – para irmos cuidadosamente reinventando as tipologias domésticas e edificadas (multifamiliar), contemplando nelas o que considerarmos ser de recuperar do “velho” sentido de ambiente doméstico.
7. A domesticidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção
Sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar, no entanto, uma riquíssima expressão urbana e ambiental, marcando os espaços públicos ou de uso público que preenchem núcleos residenciais de vizinhança próxima bem caracterizados; e não se trata aqui, novamente de um estímulo cénico e ambiental ao convívio na proximidade do habitar, mas tão somente de uma marcação da cidade habitada, da cidade onde começam os nossos pequenos mundos privados e onde apreciamos que estas nossas capas de identidade se misturem, com alguma ordem, com a identidade da parte da cidade ou bairro que habitamos. Nesta perspectiva alguns dos melhores exemplos portugueses, em termos desta evidenciação pública e natural de um conteúdo expressivamente residencial, são encontrados nos Bairros de Alvalade (respectivas “células sociais”) e Olivais Norte – Encarnação, em Lisboa; sendo que, tal como chegou a referir Teotónio Pereira há vários pequenos “Alvalades” espalhados pelo País.
Esta possibilidade de uma cidade incluir espaços urbanos caracterizadamente domésticos é muito rica em termos das imagens que podem ser produzidas e dos seus contrastes com outros tipos de imagens urbanas mais comerciais, mais institucionais, mais naturais, etc. E trata-se, também, de mais uma maneira de negar uma uniformidade urbana descaracterizadora e nada emocionante. No entanto, e tal como se tem vindo a repetir, estamos a tratar com uma matéria muito sensível e que pode resvalar, rapidamente, para soluções negativamente marcadas por aspectos “gratuitamente” visuais e sem consistência humna, cultural e citadina; pelo que há que actuar de forma muito cuidadosa e com a participação de projectistas capazes de garantir sínteses equilibradas no que se refere a este tipo de intenções.
Ainda ao nível urbano e igualmente nesta perspectiva estrategicamente residencializadora importa sublinhar o importante papel do designado “verde urbano”, que pode e deve ser usado de forma tão intensa como devidamente ponderada no sentido de uma total harmonização com os partidos de concepção arquitectónica aplicados em cada local. E a referência a uma desejável “intensidade” na introdução do verde urbano justifica-se pois só assim ele pode ter presença activa e protagonista em termos visuais e ambientais, sendo que é infelizmente muito frequente uma sua introdução “envergonhada” e ridiculamente pontual, assim como também, por vezes, acontece uma sua introdução pouco adequada e fundamentada em termos de participação equilibrada nas respectivas imagens urbanas.
O uso adequado do verde urbano tem múltiplas vantagens para a saúde, para o ambiente do dia-a-dia, para a fixação de carbono e, tal como é aqui apontado, para uma forte expressão residencial das zonas urbanas onde é introduzido, e sem dúvida assume um papel efectivo, mas habitualmente secundário – ou, quem sabe, secundarizado –, na concepção arquitectónica residencial, podendo, eventualmente ter uma importância mais efectiva em casos específicos de tipologias menos massivas e mais tradicionais em termos de continuidade urbana; mas atenção tais caminhos obrigam a um adequado trabalho profissional de “arquitectura” paisagista no seu desenvolvimento e um trabalho realizado em grande conjugação com a concepção urbana global e pormenorizada de cada zona, caso contrário será evidente uma “manta de retalhos” conceptual muito pouco digna no seu efeito final.
Nestas matérias e sublinhando a importância do verde urbano como factor de expressão residencial evidenciada dos espaços públicos registam-se as actuais acções de requalificação, designadas de “residencialização”, das massivas operações de HLM francesas, operações estas dispendiosas, que exigem grande capacidade profissional e têm forte sensibilidade conceptual, mas onde fica bem evidente a forte e positiva influência da aplicação cuidada e completa de “verde” urbano na humanização de conjuntos residenciais, basicamente, sem continuidades urbanas e constituídos por edifícios altos e isolados; uma lição que pode ser replicada noutras situações do tipo, embora eventualmente menos graves, e existentes em Portugal.
Fig. 07
8. A domesticidade nos espaços públicos versus a espaciosidade nos espaços edificados
a) A domesticidade nos espaços públicos
A domesticidade no espaço citadino é factor de escala humana e condição contrária a uma massificação monótona e anónima que marca, infelizmente, sólida presença em muitos espaços públicos.
Para além deste importante papel a domesticidade pode ser responsável pelo desenvolvimento de agradáveis e vitalizadoras “ilhas” ou “oásis” residenciais em meios urbanos menos propícios para um viver calmo e gratificante; e nesta perspectiva a domesticidade pode ser uma qualidade estratégica nos espaços públicos de conjuntos residenciais integrados em zonas urbanas “centrais” e/ou muito animadas.
Em todos estes aspectos a domesticidade joga com elementos básicos de composição urbana, destacando-se o equilíbrio da escala edificada e da integração global e especificada (“leque” de diversos aspectos), a escala humana evidenciada, o verde urbano bem integrado, expressivo e estruturador (com a sua influência real e que pode e deve ser devidamente justificada) , e a ligação a naturais elementos simbólicos ou fortemente característicos de espaços habitados e acolhedores (ex. chaminés, beirados, etc.), evidenciados como caracterizadores das respectivas imagens urbanas.
Ainda sobre a relação entre o verde urbano e a domesticidade, podemos comentar e apontar, em seguida, e em termos de exemplos talvez significaticos: que ele suaviza globalmente os espaços edificados; que ele assegura “pontes” e relações de continuidade em sítios onde existiam hiatos entre edifícios e construções; que ele preenche espaços públicos antes criticamente vazios; que ele caracteriza e regista a relação da escala humana um pouco por todo o lado no espaço público, pois os principais troncos/bases das árvores e muitos arbustos têm aproximadamente a dimensão da altura de uma pessoa; que ele forra e reveste grandes superfícies que sem estas condições estariam “nuas” e agrestes em terra à vista; que ele diversifica o ambiente urbano com múltiplas imagens de pormenor (enorme diversidade de espécies com enorme diversidade formal) que serão muito adequadas a uma grande diversidade de gostos dos habitantes e assim positivamente apropriadas, numa perspectiva de amigabilidade das intervenções que é outra faceta da domesticidade; que ele é capaz de nos oferecer verdadeiras “casas” naturais cheias de sentido simbólico, através de pequenos bosques e túneis de vegetação; e, finalmente, que o verde será sempre associado à terra, à produção de alimentos e, assim, também ao sentido doméstico.
Importa ainda referir aqui que outros elementos naturais, e designadamente as rochas aparentes, a madeira, a areia e as superfícies aquáticas ou mesmo a simples presença de água, também participam na construção de espaços expressivamente marcados por um sentido residencial, de estadia, de calma, de apropriação e de protecção. Mas temos de sublinhar que em termos de custo-benefício há soluções mais, ou menos, viáveis, e provavelmente o verde urbano será ainda a ferramenta mais disponível, a não ser quando o contexto, ele próprio, proporcione outro tipos de elementos naturais e conotados com um certo sentido rústico ou vernáculo, muito associado à referida residencialização.
E ainda neste tipo de perspectiva há que sublinhar o interesse da aplicação de elementos em betão armado à cor natural e com marcas visíveis das respectivas cofragens, e, de forma geral, a estratégia de se mostrar a verdade dos materiais, que é também um caminho privilegiado de uma adequada expressão de residencialidade e de habitat humano, que tem forte potencial de aplicação nos espaços públicos e na envolvente dos edifícios.
b) A domesticidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
No que se refere à expressão evidenciada da presença da habitação e dos múltiplos “contornos”, “cenários” e pormenores domésticos nas vizinhanças de proximidade há que salientar, desde já e naturalmente, que será aqui, neste nível físico, que será mais adequada e potencialmente preponderante a aplicação dos aspectos que acabaram de ser referidos para a domesticidade nos espaços públicos.
Mas no entanto e a este nível da vizinhança de proximidade das habitações, nestas ruas, ruelas e pracetas residenciais, expressiva ou dignamente domésticas, há um aspecto que marcará tanto esse sentido doméstico, como os elementos embebidos no espaço público: trata-se da diversidade de delimitações exteriores entre público e privado e de transparências de vãos domésticos sobre o exterior público.
Esta é mais uma daquelas matérias que, por si só, pode dar lugar a desenvolvimentos específicos e muito estimulantes, sendo uma perspectiva que, sublinha-se mais uma vez, praticamente nada tem a ver com as opções formais da respectiva concepção arquitectónica e urbana, sendo tão válida numa zona relativamente vernácula e tradicional, como numa zona modernista; dependendo naturalmente e sempre da respectiva qualidade arquitectónica.
Realmente a domesticidade é uma qualidade que impressiona e caracteriza uma vizinhança e mesmo um bairro: nos muros a média altura ou expressivamente altos, na sua constituição e aberturas neles praticadas; nas vedações naturais ou semi-naturais e nas respectivas vistas proporcionadas sobre os espaços exteriores privados; e na rica complexidade de conteúdos privados estrategicamente visíveis a partir dos caminhos públicos que servem as entradas “secretas” e alternativas das habitações térreas.
E a domesticidade ou expressiva caracterização residencial impressiona também nas vistas que são possíveis relativamente a varandas, terraços e vãos privativos, e onde é expressa a identidade e alguns conteúdos seleccionados dos respectivos espaços domésticos; sendo que há varandas e há vãos cujas “profundidades” e pormenorizações proporcionam elevados potenciais de apropriação e de expressão dos referidos elementos domésticos – pormenorizações essas nada complexas e que podem passar, seja por pequenos “poiais”, que aceitam alguns elementos decorativos e identificadores, seja por vãos que aceitem bem cortinas e até, eventualmente, pequenos espaços de transição e de relação entre essas cortinas e o vidro exterior, tal como acontecia nas velhas habitações com paredes espessas, que são espaços excepcionais para se evidenciar a domesticidade e para se criarem, simultaneamente, limiares de privacidade e pequenas “câmaras” de “descompressão” que ajudam ao próprio conforto ambiental.
E nesta envolvente directa do espaço privado interior, na pele do edificado, o verde urbano encontra um óptimo e diversificado pano de fundo, proporcionando-se um grande leque de soluções de fusão entre edifício e verde, desde os terraços e as coberturas, ajardinadas, às varandas transformadas em pequenos jardins, aos pátios semi-urbanos e semi-privados e marcados pelo verde (até pontualmente), às simples mas efectivas soluções com floreiras e mesmo com vasos de plantas nas fachadas. E em todos estes casos a carácter doméstico ai realçado.
E assim, sendo a domesticidade uma qualidade essencialmente interior e íntima, ela pode ganhar uma riquíssima expressão urbana e ambiental em núcleos residenciais de vizinhança próxima, que acabam por transparecer essa qualidade na sua envolvente, proporcionando até que tais agrupamentos possam situar-se na vizinhança indirecta de espaços urbanos muito vitalizados.
Tudo isto tem a ver com a possibilidade de um urbanismo feito de escalas e relações mútuas harmonizadas, humanizadas e pormenorizadas; um urbanismo residencial feito ao serviço da pessoa, do habitante, redescobrindo e reinterpretando a forma histórica de se fazer cidade, tal como aponta Rudolf Arnheim (5), quando defende que “o desfiladeiro da rua é o reino da presença ampliada do homem, sendo por isso apreendido como forma”, citando, depois, Heide Berndt, quando este diz que “a rede de ruas, estreita e relativamente confusa, era funcionalmente apropriada a ruas que só serviam para dar acesso aos edifícios. Poucas ruas eram largas o suficiente para permitir a passagem de veículos. O elemento básico de uma planta urbana não era a rua ou estrada, mas as unidades de habitação e as praças públicas. As estreitas vielas eram determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada”... Mas “na era industrial a relação espacial entre edifícios e ruas altera-se. Com as crescentes exigências dos sistemas de transportes, as ruas tornam-se mais importantes que a disposição dos edifícios na determinação do plano geral da cidade e do centro desta.”
E citemos novamente o mesmo trabalho de Arnheim (6), quando este transcreve mais uma essencial afirmação de Christian Norber-Schulz sobre a forma da rua: “Para se tornar uma verdadeira forma, a rua tem de possuir um «carácter figural»”; o que se refere, sem dúvida, à tal “presença ampliada do homem”, apontada por Arnheim, ainda que seja, eventualmente, uma presença/”sombra.” E serão estas sombras positivas que deverão ajudar a configurar as vizinhanças tão expressivamente urbanas como residenciais.
Fig. 08
c) A domesticidade nos espaços edificados
A domesticidade é natural no interior das habitações e pode, a partir delas, e designadamente dos seus prolongamentos, invadir os espaços comuns, transparecer em fachadas e empenas e prolongar-se por locais exteriores privativos e/ou com imagem pública, acentuando, neste caso, a influência de um afirmado carácter residencial – acolhedor, humanizado, intimista e mesmo parcialmente interiorizado – nas vizinhanças de proximidade.
A domesticidade nos espaços edificados tem de ser aproximada, tanto na pesquisa e no desenvolvimento de tipologias humanizadas, ligadas com a máxima identidade em cada habitação e com a máxima relação entre cada habitação e a sua envolvente comum e pública, como com a pesquisa de espaços comuns que harmonizem funcionalidades com uma activa expressão residencial e sentido equilibrado de comunidade com apropriação individual e familiar, espaços comuns que contenham um verdadeiro e confortável sentido de habitar (exemplo, luz natural, acabamentos, arte, etc.), não se reduzindo a meras ligações funcionais no estrito sentido de funcionalidade, e ainda com relacionamentos atraentes e estimulantes entre estes espaços comuns e as respectivas envolventes térreas e paisagísticas, relacionamentos que podem se apenas ambientais, ou também funcionais e espaciais, inventando-se “novos” pequenos territórios; e tudo isto, no seu conjunto irá dar corpo a um sentido agradavelmente residencial associado, por exemplo, a um edifício multifamiliar que pode até uma dimensão relativamente significativa – mas sem se ultrapassarem limites de bom senso.
Numa perspectiva de contraste, relativamente, aos apontados caminhos da humanização e expressão residencial dos edifícios habitacionais, registam-se, em seguida, os aspectos negativos, em termos de saúde física e psicossocial, que são habitualmente associados a grandes edifícios, sem escala humana e sem identidade, cruzados por “infindáveis e anónimos” espaços comuns:
A saúde das crianças ressente-se, tanto por doenças respiratórias motivadas pela habitual insuficiência de espaço nos apartamentos, como por incidência de desordens psiconeuróticas resultantes do confinamento e do isolamento social. As crianças confinadas têm de brincar e fazem ruído, que nos espaços pequenos dos apartamentos, provocam incómodos e embaraços, tanto na vida familiar, como nas relações entre vizinhos; aumentando, mesmo, a sensibilidade relativamente aos níveis de ruído considerados aceitáveis (até porque se teme que o ruído perturbe os vizinhos).
As pessoas que vivem nos andares mais altos tendem a sair menos à rua do que as que vivem em andares onde podem prescindir do uso dos elevadores; a demora e a pouca vontade de privar com vizinhos desconhecidos na apertada cabina do elevador e eventuais considerações ligadas a possíveis situações de insegurança no percurso (especialmente se este for longo e pouco visível/antecipável), podem ser mais do que suficientes para que não se vença a inércia natural de quem está confortavelmente no seu lar; e, mais uma vez, fortemente prejudicados estão os muito novos, porque não devem usar sozinhos os elevadores, e os muito idosos, que se deslocam com dificuldade.
A solidão nos enormes blocos de apartamentos incide, também, basicamente, sobre as pessoas que não trabalham fora de casa, a não ser que estejam instaladas perto de familiares e de pessoas amigas ou conhecidas; de outro modo, a obrigação de passar à frente de muitas portas fechadas e de atravessar longos e inóspitos espaços comuns, aliadas à visão miniatural que se tem, a partir das janelas da casa, sobre a envolvente exterior, resulta num forte efeito de isolamento e afastamento, que se faz sentir, essencialmente, sobre quem não tem de abandonar, diariamente esse meio. Mas o isolamento acaba por se generalizar, quando qualquer necessidade/vontade de comprar algo tão corrente como, por exemplo, um jornal, obriga a percursos horizontais e verticais longos e inesperados, em termos de encontros, para, finalmente, e com frequência, se ter de pegar no carro e ir longe, afinal, tantas vezes por causa de uma “ninharia”; motivo este que, em outras condições habitacionais mais humanizadas, estava quase sempre associado à sã oportunidade de um convívio natural e esporádico.
E tudo isto se liga a uma quase total negação de um sentido de habitação devidamente humanizado e expressivamente doméstico, que é aqui erradicado ao serviço de verdadeiros “armazéns habitacionais” em que o único cuidado com os utentes serão aspectos regulamentares de acessibilidade e segurança; e o resultado ficou à vista, desde há bastantes anos, nos motins nas “cités” francesas entre os arrabaldes de Lyon e de Paris, numa situação que, naturalmente, não resulta apenas desta situação – há toda uma falta de lógica em termos de localização, acessibilidades urbanas e vida urbana (só para falar das matérias de Arquitectura) –, mas que é agravada pelo desamor e mesmo pelo desprezo com que se trata muito realojamento, e não só nessas periferias, naturalmente.
d) A domesticidade nas habitações
Quando tratamos de edifícios unifamiliares e, globalmente, quando abordamos o espaço privado da habitação estamos, evidentemente, no “santuário” da expressão residencial e identitária, fortemente associada à respectiva capacidade de apropriação.
E no interior doméstico como é possível humanizar e caracterizar domesticamente uma unidade/fogo? Como é que o “alojamento” se torna “habitação”, no sentido de espaço habitado/marcado por quem o vive diariamente, e que vai marcando, desejavelmente, de forma positiva esses seus habitantes?
Com que elementos e composições de elementos (por exemplo: uma lareira evidenciada, a organização expressiva de uma grande cozinha, a evidenciação de uma escada em madeira)? Com que acabamentos e cores? Com que relações interior/exterior (por exemplo lugares/janela)? Com que ...?
As condições para um aumento da domesticidade, como fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer, veja-se o vídeo, a televisão panorâmica, os equipamentos de alta fidelidade, as consolas de jogos, os computadores pessoais, os elaborados equipamentos de telecomunicação que permitem fazer muitos trabalhos em casa, os serviços de entrega de compras e de refeições prontas ao domicílio, a TV por cabo e as antenas parabólicas ligando o lar ao mundo, os variados e aperfeiçoados equipamentos de auxílio nos trabalhos domésticos, etc.
Sendo assim talvez que a batalha deva ser tanto a de proporcionar excelentes mundos domésticos, daqueles dos quais não nos apatecerá sair, como enriquecer e tornar extremamente útil e atraente a envolvente directa e de uso público desses mundos pessoais e familiares, levando-nos a sair deles com frequência, pois logo ali podemos continuar a encontrar uma outra forma de caracterização residencial e doméstica, que nos continua a apoiar e a fazer-nos sentir “em casa”, mas que também nos propicia um convívio mais alargadao e a relação estimulante com a cidade, numa oferta que tornará o nosso jogo da glória diário, entre trabalho e casa, muito interessante.
E para tal interesse também contribuirão: a caracterização doméstica de partes do ambiente de trabalho; e a caracterização equilibradamente profissional de partes do ambiente doméstico.
Fig. 09
9. Carácter e importância específica da domesticidade
As margens da domesticidade ligam-se a aspectos marcantes de conforto ambiental e de presença de aspectos elementares da criação como o fogo, a água e uma natureza dominada, a conjugações especiais de funções e espaços domésticos, e nelas a relações marcantes entre interior e exterior, a imagens pontuadas por símbolos de privacidade e apropriação, a pormenorizações ligadas a conteúdos telúricos e simbólicos, e a uma envolvência gradual mas forte por ambientes cálidos e expressivamente confortáveis, onde a luz e o sol, o verde e os seus reflexos forram suavemente espaços interiores ou interiorizados que nos protegem e amparam nas nossas relações com o exterior público, e que tornam a nossa vida doméstica mais rica e significante.
A domesticidade liga-se, basicamente, à interioridade e ao conforto, será também, frequentemente, uma certa e bem equilibrada intimidade, muitas vezes difícil de caracterizar, mas claramente aparente.
Faz-se notar que condições para um aumento da domesticidade, como a fruição intensa e prolongada do interior das nossas casas, estão actualmente a crescer com a ampla disponibilidade de serviços ao domicílio e com o rápido crescimento do trabalho doméstico.
Ao nível público fica o desafio, que se julga importante, no sentido do desenvolvimento de ambientes de vizinhança residencializados/domésticos como factores de dinamização da apropriação pelos habitantes e da identificação com o sítio que habitamos.
10. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a domesticidade arquitectónica residencial
Em termos de reflexão geral apuram-se, para já, os seguintes aspectos.
Estamos, assim, entre a casa e o bairro, desejando uma cidade habitada – humana e vitalizada – e um sítio de trabalho humanizado, pois neste passamos quase um terço da nossa vida. E se estamos entre a casa e o bairro estamos em mundos potencialmente muito envolventes e expressivos de domesticidade. E desta forma chegamos, desde já, a uma ideia que aponta a incoerência de tudo o que aposte em escalas físicas que “esmaguem” a escala humana e de tudo aquilo que não integre um essencial conjunto de serviços de proximidade adequados ao nosso dia-a-dia.
E se formos às ruas deste mundo de proximidade, a dois passos do nosso quarto e da nossa sala, não há qualquer razão para que tudo o que aí se passa não se passe com o vagar, o cuidado e a protecção que gostamos de ter em nossas casas.
E nesta lógica de “habitar a cidade”, que se considera vital para a urgente teabilitação urbana, chega-se, naturalmente, ao potencial surgimento de novas espécies de espaços e de novos tipos de escalas de habitar, em que a casa se torna pólo de comunicação com o mundo (7), podendo a cidade começar a funcionar um pouco como a extensão do espaço doméstico, e , quem sabe, vice-versa; isto numa perspectiva potencialmente bem ligada a uma reforçada activação da funcionalidade dos espaços públicos e domésticos; aspectos que merecem uma urgente reflexão e discussão.
Em termos dos desenvolvimentos que são, desde já, possíveis nestas matérias da domesticidade urbana e residencial, sintetizam-se os seguintes temas de estudo.
O interesse em se aprofundarem os aspectos que marcam uma expressão residencial reforçada em zonas específicas do espaço público e na envolvente próxima das habitações, estamos a pensar, por um lado nas questões organizativas e “estruturais”, que têm a ver com a escala geral da intervenção, com a organicidade ou com a depuração e racionalidade das suas principais formas edificadas e “vazias”, e com a opção funcional em termos de uma expressiva predominância pedonal, embora funcionalmente bem sustentada, e, por outro lado, estamos a visar as questões de preenchimento e pormenorização, ligadas por exemplo, ao partido de verde urbano escolhido, ao “menu” de texturas e cores apurado e à própria “família” de elementos de design de equipamento (exemplo, luminárias) e de comunicação (exemplo, elementos informativos) escolhida – e, por exemplo, este “povoamento” do exterior tem grande importância na respectiva residencialização, ou, pelo contrário, constitui um erro de palmatória que põe em risco a referida expressão residencial.
O interesse que tem a identificação daquelas “famílias” de aspectos associáveis a uma expressão residencial intensificada da envolvente dos edifícios e que não tenham qualquer tipo de conotação com partidos formais específicos – por exemplo as expressões residenciais evidenciadas de um embasamento, de uma chaminé e de um vão de janela, podem ser “desenhadas” em diversas linguagens formais, sendo o resultado idêntico em termos de evidenciação da respectiva domesticidade.
E, finalmente: Será que temos verdadeira legitimidade na utilização destas “ferramentas” de expressão residencial reforçada? Uma questão que se pode ir sempre colocando, até para estarmos preparados para as situações em que tal expressão tem evidentes objectivos comerciais, mas sobre a qual há que referir, desde já, que se não se considerasse que é legítimo usar este tipo de elementos, não se teria abordado aqui a temática, que se julga ser bem distinta e, muitas vezes, complementar da atractividade, mas ligada, também a outras facetas qualitativas, com destaque apara a apropriação e a própria integração; sendo esta a última faceta qualitativa que é objecto deste estudo e que será, em seguida, abordada.
Gostaria, no entanto, de concluir esta reflexão sublinhando a efectividade e a significância em termos de “sentido de estar em casa na rua”, de “atmosfera” envolvente e de certa forma protectora – talvez porque ampliando verdadeiramente o ambiente doméstico sobre o exterior – que fica provada ao visitarmos, com um mínimo de calma e sentido de observação natural (imaginando-nos, verdadeiramente, habitantes), certas vizinhanças urbanas e residenciais, que são fortemente marcadas, cumulativamente e de forma mutuamente harmonizada, por um sentido global de ordenamento, por elementos directamente referidos à escala humana, por elementos da natureza e designadamente por árvores e arbustos e por sinais naturais de apropriação por parte dos respectivos habitantes; aqui, nestes locais, marcados pelos mais diversos “desenhos” arquitectónicos, sentimo-nos um pouco em casa numa rua que nem é a nossa, o que acaba por se constituir numa alavanca de excelente predisposição para se viver essa rua e eventualmente nela se poder conviver.
Mas há mais: há um certo sentimento de que aquelas habitações nos acompanham e protegem positivamente, que aquela escala edificada é realmente a nossa, como uma outra pele, e que aquelas janelas e portas, ali tão perto e que nos são, na prática “estranhas”, equilibram eventuais intrusões à nossa liberdade/privacidade no exterior por um agradável sentido de acompanhamento – e, na prática, tanto mais isto se sente, quanto mais aproximado a um unifamiliar densificado ou a um uni/multifamiliar for a solução, sendo muito importante a presença de acessos privados directamente ligados ao exterior público.
Mas salienta-se que, depois, quando passamos a soluções estritamente unifamiliares, ainda que, por exemplo, geminadas, esse tipo de sentido de convizinhança que abriga e integra bem a individualidade de cada habitação, desaparece para dar lugar, frequentemente, a um sentimento de alguma “crispação” entre a presença dos limites das “moradias” e o uso do exterior público que lhe é contíguo.
Notas bibliográficas:
(1) Georges Simenon, "Maigret e os Cães Ferozes", pp. 7 e 8.
(2) Marina de Almeida Ribeiro, "O Simbolismo da Casa em Júlio Dinis", p. 93.
(3) Witold Rybczinski, "Domesticity", in "Housing: Symbol, Structure, Site", Lisa Taylor (ed).
(4) Witold Rybczynski, “Casa – Pequena história de uma idéia”, trad. Betina Von Staa, 2002 (1986).
(5) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.
(6) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.68.
(7) Farè e Silvia Piardi (dir.), “Nuove specie di spazi”, 2004.
Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
A caracterização doméstica do habitar
Infohabitar, Ano VII, n.º 366, 23 e Outubro de 2011
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