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segunda-feira, novembro 18, 2013

461 - Galerias comuns e patins residenciais - Infohabitar 461



Infohabitar, Ano IX, n.º 461


Artigo XLI da Série habitar e viver melhor


Galerias comuns e patins residenciais


António Baptista Coelho


Aprofundando-se o percurso comentado por uma adequada programação do edifício habitacional e visando-se, por regra, a solução multifamiliar mais, ou menos, "coletiva" abordam-se, sinteticamente, neste artigo, (i) as galerias comuns exteriores e (ii) interiores e (iii) os patins habitacionais.

Não se pretende, de forma alguma, esgotar a abordagem destes elementos constituintes de um habitar em comum, mas sim contribuir para uma discussão renovada sobre matérias que, infelizmente, parecem ser, por vezes, pouco alteráveis e previamente definidas, como se as tipologias mais correntes fossem uma espécie de fatalidade, o que evidentemente não é verdade.

Galerias exteriores habitacionais ( acessos habitacionais )


Sobre as galerias exteriores muito se escreveu e muito se poderá e deverá escrever, e o que se pode considerar ser, provavelmente, uma última tendência, não trata nada bem este tipo de soluções de acesso às habitações, mas julga-se que esta tendência não considera as verdadeiras vantagens que as galerias comuns exteriores podem trazer a um habitar mais satisfatório, mais estimulante e mais flexível e adaptável a diversos modos e gostos de habitar.

De certa forma trata-se de poder ter “a rua”, logo ali, mesmo, junto à nossa soleira, o que pode ter aspetos muito interessantes, por exemplo, em vistas diversificadas sobre o exterior e sobre a aproximação à porta de entrada e no sentido de uma aliança intensa com a vegetação, uma condição que, ela própria, poderá caraterizar a solução como se de uma moradia se tratasse, situação esta que pode ser, ainda, acentuada caso se trate de habitações em dois níveis ("duplex").




Fig. 01: - um ótimo exemplo de galerias exteriores comuns, em Olivais Norte Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



Considerando os potenciais aspectos negativos desta solução estes concentram-se em soluções com galerias estreitas e com um elevado número de vizinhos com acesso por cada galeria, não havendo alternativa de acesso, condições estas que levarão a uma convivência demasiado próxima, demasiado intensa e “obrigatória”, e que será agravada caso aconteçam, ou seja provável que venham a acontecer, diferenças significativas de hábitos de vida diária que posam ter reflexos diretos no uso das galerias e que não sejam consensualmente aceites por todos os residentes.

Caso não seja possível ter uma ideia aproximada das características socioculturais e modos de habitar, mais correntes, dos futuros residentes e haja possibilidade de poder haver uma significativa diversidade de modos de habitar, não será, provavelmente, recomendável a aplicação desta solução em galerias comuns exteriores.

Considerando a realidade da história habitacional e designadamente a história da nossa habitação de interesse social (portuguesa) é possível identificar e visitar casos com galerias exteriores que continuam extremamente bem qualificadas várias dezenas de anos após a sua ocupação original, assim como, infelizmente, também encontramos outros casos exatamente com um sinal contrário. Julga-se, no entanto, que estas situações negativas no uso de galerias exteriores marcaram os respectivos casos também logo desde a sua utilização original - decorrendo mais de uma inadequação básica entre a solução e os modos de vida dos seus habitantes, do que de uma "deficiência estrutural" da solução.

De certa forma haverá aqui a constatação de que a solução de galeria pode ser bem ou mal aceite, e as diferenças nos tipos sociais dos respectivos habitantes não parecem ser razões únicas e suficientes para uma tal discrepância na satisfação no uso, pois conhecem-se casos que permitem esta última afirmação, por exemplo:

·         o caso de galerias comuns exteriores muito bem apropriadas por famílias de professores;

·         o caso de galerias comuns (muito alongadas), que não foram especialmente bem aceites por populações oriundas de barracas, portanto, de uma relação directa com o espaço exterior – mas atente-se que era a rua e não uma “rua” muito estreita e elevada;

·         e o caso de galerias dimensionalmente reduzidas em largura, mas relativamente longas e habitadas por grupos sociais muito carenciados, e marcadas por aquilo que parece ser uma excelente vivência que se mantém há dezenas de anos - neste caso numa solução de quarteirão socialmente diversificado e bem integrado.




Fig. 02: - um ótimo exemplo de galerias exteriores comuns, em Olivais Norte Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



Provavelmente, para além de outros aspectos entre os quais os que foram atrás referidos, certas possibilidades ligadas à especificidade de cada local, à diversidade social, à boa qualidade urbana local e relacional, à qualidade das vistas paisagísticas longínquas que são possíveis e ao interesse e qualidade dos espaços exteriores contíguos, que podem ser verdadeiros e atraentes protagonistas muito bem revelados a partir das galerias exteriores, serão, talvez, importantes fatores do seu maior êxito.

E não há que contornar a questão de as galerias comuns mais agradáveis serem aquelas mais desafogadas e, para tal, nelas se terá de gastar uma quantidade significativa de metros quadrados de construção; mas aqui também importará a pormenorização das mesmas e a sua estimulante abertura à paisagem de proximidade.

Do que se sabe, através de estudos e da observação direta, algumas reflexões, preliminares, são, no entanto, possíveis:

-     Uma refere-se à solução de galerias largas, quase convertendo-se em ruas elevadas, que produz resultados interessantes, simulando uma povoação vertical em que os apartamentos continuam a ligar-se a “ruas”, embora estas se situem muito acima do solo.

-     Outra aponta que galerias pouco longas podem ter uma apropriação que se aproxima daquela possível em longas varandas, desde que, como se apontou, as galerias não sirvam um número excessivo de vizinhos.

-     Outra refere-se à excelente “convivência” entre soluções alternativas de acesso por elevadores e patins ou por galerias, servindo estas, diretamente, entradas de serviço; uma solução que estará naturalmente mais ligada a habitações com maior dimensão, mas que poderá ser aplicada noutros casos, proporcionando-se uma boa adequação no serviço dos elevadores a um amplo número de habitações.

-     Outra tem a ver com a atraente vibração da fachada, em volumes e contrastes de claro/escuro que são proporcionadas pelas galerias exteriores comuns, em efeitos que podem ser atraentemente reforçados através de uma adequada escolha de materiais, texturas e cores. E aqui é interessante refletir que esta opção tanto pode servir um efeito final de grande purismo, racionalidade e leveza formal, como um efeito bem distinto, rústico ou mesmo vernáculo, e com conotações ligadas ao abrigo primitivo.

-     Outra tem a ver com a diferença ambiental e de caráter que diferencia, de forma tão distinta, as soluções edificadas fortemente interiorizadas, em que de imediato associamos os espaços comuns a sítios quase claustrofóbicos (e para isso contribuem alguns regulamentos), sem luz natural e muitas vezes com problemas de ventilação aparentes nos cheiros que neles se infiltram a partir das habitações, das soluções edificadas onde para lá da porta está, quase, a rua, o sol, o vento, as copas das árvores e os bandos de pássaros. São, realmente situações bem diferentes no respectivo potencial de agradabilidade e de satisfação que possibilitam aos seus habitantes.

-     Outra reflexão põe em relevo que a caracterização dos aspectos de intimidade nos circuitos comuns que levam à porta do fogo pode viabilizar uma boa solução de galerias exteriores, acentuando, por outro lado, uma estimulante aproximação a uma “imagem” de agregação de “moradias”.

-     Ainda outra reflexão aponta que os acessos em galerias exteriores podem ser os mais adequados a soluções que privilegiem a acessibilidade a uma grande diversidade de utentes, tais como crianças, idosos e pessoas carregadas ou empurrando carrinhos; isto desde que não havendo desníveis entre as galerias e as habitações – a privacidade tem de estar solucionada de outra forma. Mas nesta matéria e referindo John Noble e Barbara Adams (1), há pessoas que valorizam a privacidade e a sensação de abrigo que são características dos acessos por escada e patim.

-     Voltando a referir o estudo de John Noble e Barbara Adams (3), importa considerar que galerias de acesso comum muito elevadas podem ser ambientalmente pouco confortáveis, porque muito expostas aos excessos climáticos; uma condição que poderá, no entanto, ser levada em conta no respectivo projeto.

-      E não podemos descurar o potencial de inovação habitacional associado ao desenvolvimento de galerias exteriores comuns ou até quem sabe de uso público; matéria que terá de ficar para desenvolvimentos posteriores.

 

Patins de distribuição das habitações ( habitação acessos )


Os patins de distribuição para habitações podem ser, tal como as entradas comuns dos edifícios, extremamente contidos em termos de reduzido desafogo espacial e de acabamentos muito económicos, ou, pelo contrário, desenvolverem-se em espaços desafogados e caracterizados, por exemplo, por elementos de arte.

Há patins habitacionais mínimos em que, praticamente, não há espaço para mais nada, a não ser as portas, e que são sentidos como adequados, como íntimos e bem agradáveis; e habitualmente esta situação liga-se a patins bem cheios de luz natural e que, assim, ganham uma outra ampla dimensão, mas podem estar associados, apenas, a uma racional, sóbria e muito digna pormenorização, em que fica aparente a intenção de associar o máximo de espaço construído às próprias unidades habitacionais privativas.

Será que a função essencial destes espaços é o apoio à entrada nas habitações, devendo, essencialmente, enquadrar essa entrada em termos de dignidade e equilibrada capacidade de apropriação? Ou será possível atribuir aos patins outras finalidades?



Fig. 03: - um dos agradáveis patins comuns, em Olivais Norte Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



É, provavelmente, difícil atribuir aos patins residenciais outras funções que não as do acesso aos fogos, da equilibrada separação entre as vistas que são possíveis entre as portas privadas de cada patim e de identificação e apropriação, equilibradas, de cada porta e dos espaços mais próximos de cada porta.

E será possível exercer estas funções em tristes espaços interiores, sem luz natural? Parece que não, e, assim, acabamos de colocar fora do conjunto de espaços residenciais potencialmente geradores de satisfação um grande grupo de edifícios.

E é interessante refletir que a questão de se tratar de um patim interior, mas com boa luz natural, ou exterior, não é algo que influencia, de forma significativa, a satisfação possível; mas se for interior e não receber luz natural, então o resultado é um espaço, habitualmente, claustrofóbico do qual temos vontade de sair rapidamente, seja para os outros espaços comuns, seja para a “salvação”, que marca a abertura da porta de uma habitação, uma “salvação” que está muito ligada à entrada de luz natural, no patim, quando exista essa luz natural no interior da habitação, o que, infelizmente, nem sempre acontece.



Galerias interiores ( corredores comuns habitacionais )


Aproveitando estarmos a falar de patins interiores, passemos, agora, às galerias interiores, uma espécie de grandes patins interiores muito alongados.

E o que se disse sobre os patins interiores é reforçado para as galerias interiores, cujo “grau de potencial de satisfação” está inteiramente dependente da existência de boas condições de iluminação natural; de certa forma, podemos dizer que a única possibilidade de se viverem galerias interiores é estas serem caracterizadas por excelentes condições de luz e ventilação naturais, que, no caso das galerias que correm no interior dos edifícios, são habitualmente condições de luz e ventilação a partir da cobertura.

E vale a pena reafirmar que a existência de galerias interiores sem luz natural configura uma daquelas soluções residenciais com um maior potencial de influências negativas no uso diário do respectivo edifício. Realmente, aqui, o espaço comum criado é, quase sempre e fortemente, claustrofóbico e se a uma condição como esta associarmos habitações cujos vestíbulos também não recebam luz natural, então, o resultado é fortemente negativo.



Fig. 04: as galerias interiores comuns residenciais podem ser excelentes, tal como é aqui ilustrado com o exemplo da Cooperatiova Caselcoop no bairro de Caselas, lisboa, projeto do aqruiteto Justino de Morais (na imagem á direita).



Evidentemente que condições de espaciosidade desafogadas e um cuidadoso acabamento formal (ex., texturas, cores, sinalética, luz artificial) podem suavizar o resultado vivido de tais galerias interiores, mas se, pelo contrário, não houver tais cuidados e se as restantes condições de conforto não forem eficazes – designadamente, em termos de ventilação e de isolamento sonoro – , então, teremos uma mistura extremamente negativa de claustrofobia, proximidade física excessiva e intrusão obrigatória por parte de ruídos e cheiros originados nas habitações vizinhas. Teremos, assim, de certo modo, um ambiente fechado onde se concentrarão todas as queixas de falta de qualidade dos respectivos vizinhos; queixas estas que, provavelmente, irão também refletir a insatisfação com habitações com uma única fachada exterior, uma solução que está, habitualmente, associada a estas galerias interiores, numa negativa "rentabilização" de edifícios muito espessos.

E esta é uma daquelas exceções à regra da “grande nau, grande a tormenta”, pois, apesar de tudo, a existência de um número mais elevado de habitações implicará dimensões de galerias interiores mais folgadas e respectivas condições ambientais (luz e ventilação),  que resultarão em condições de habitabilidade eventualmente menos críticas; a outra opção será o mínimo desenvolvimento destas galerias interiores comuns, dando acesso a reduzidos números de habitações em cada nível.

O que se visou e visará, aqui, nesta série de artigos, é uma defesa das galerias e dos patins comuns como elementos muito positivos e protagonistas de uma solução residencial que verdadeiramente nos agrade. Basta de soluções, que parecem de recurso, onde as galerias e os patins são mínimos, doentiamente interiorizados e mal pormenorizados.

Afinal, nada disto faz, realmente, sentido numa solução residencial que faça “viver” galerias de acesso e patins comuns como elementos adequadamente protagonistas da solução residencial geral onde se integram; galerias e patins comuns não podem ser elementos negativos que contribuem para o encerramento dos vizinhos nas suas células habitacionais individuais, antes pelo contrário devem ser elementos que apoiem no convívio natural entre quem vive próximo e por isso merecem adequado e pormenorizado projeto.



Notas:

 (1)           John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.
 (2)           John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.


        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



      Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº461
Artigo XLI da Série habitar e viver melhor

     Galerias exteriores e interiores e patins residenciais

     Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

     e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

     Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.









[1]     John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.


[2]     John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.

segunda-feira, novembro 11, 2013

460 - Escadas comuns e elevadores residenciais - Infohabitar 460



Infohabitar, Ano IX, n.º 460


Artigo XL da Série habitar e viver melhor


Escadas comuns e elevadores residenciais


António Baptista Coelho


Aprofundando-se o percurso comentado por uma adequada programação do edifício habitacional e visando-se, por regra, a solução multifamiliar mais, ou menos, "coletiva" abordam-se, sinteticamente, neste artigo, (i) as escadas comuns, (ii)  e os elevadores habitacionais.


Não se pretende, de forma alguma, esgotar a abordagem destes elementos constituintes de um habitar em comum, mas sim contribuir para uma discussão renovada sobre matérias que, infelizmente, parecem ser, por vezes, pouco alteráveis e previamente definidas, como se as tipologias mais correntes fossem uma espécie de fatalidade.

 

Escadas comuns


Todos sabemos que as escadas podem ser elementos extremamente atraentes numa solução residencial, seja em termos de uso, seja na sua visibilidade exterior e interior. E esta afirmação é verdadeira, seja para edifícios baixos, seja no caso de edifícios com altura elevada; e o mesmo se aplica a determinadas soluções de integração em que as escadas se integram com os elevadores.

Mas, voltando à escada, todos conhecemos casos de soluções cheias de luz se converteram em verdadeiros jardins verticais – é verdade, levantando problemas de acessibilidade, mas havendo mais espaço talvez tais problemas já não se levantassem; e também conhecemos casos em que mesmo quase sem luz os habitantes tentaram converter a escada comum de um edifício residencial em algo mais do que "um instrumento funcional para vencer desníveis", condição à qual, frequentee infelizmente, se reduzem as escadas comuns.

E há um outro aspecto, além da luz natural, que pode caracterizar uma excelente escada comum, que é a sequência de vistas que é possível da escada.

Mas além de espaço de jardim vertical e de percurso de vistas sobre a envolvente, a escada pode ainda conter, nos seus patins, pequenos espaços de acolhimento do convívio informal; pode não ser frequente, pode não ter resultados muito garantidos, mas sem haver condições adequadas e estimulantes de apropriações como estas, de certeza que nada acontecerá, mas se elas existirem pode ser que aí se passe alguma coisa.

Para se reforçar estas considerações lembra-se um estudo de Ekambi-Schmidt  (1), que salienta, num conjunto de oito qualificações espontâneas, dadas por moradores, relativamente às escadas comuns habitacionais, as três primeiras seguintes qualificações, em ordem decrescente de importância: escada ampla, grande e espaçosa; escada clara e iluminada; escada não excessivamente inclinada.

O que acima se destacou na caraterização da escada comum residencial são as suas condições de desafogo espacial, luz natural e conforto no uso. E, afinal, o que se defende é que a escada habitacional seja plenamente recuperada como espaço ativo e nesta perspectiva lembra-se que Alexander considera que a escada deve ser qualificada como etapa, pois ela não é apenas um simples elemento funcional de comunicação vertical, mas também um verdadeiro espaço que integra o edifício residencial, e se não se lhe proporcionar que nela surja vida "será um espaço morto que fará deslizar entre si os diversos pisos do edifício". (2)



E, tal como aponta Charles Moore, e bem sabemos, pela experiência de ver e usar excelentes escadas, elas "têm conotações básicas de coreografia e de cerimónia, tanto quando as usamos, como quando as observamos ou observamos desde elas”, e Moore aponta mesmo que na concepção das as escadas é possível a escolha “entre um movimento vertical amplo e atraente ou tecido na substância dos compartimentos, ou, até, oculto para ser quase secreto..." (3)



Fig. 01: as excelentes escadas comuns do edifício habitacional em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)


Naturalmente que há aspetos funcionais vitais a considerar e que nas escadas comuns assumem especial importância, entre os quais se destacam, designadamente, os seguintes - numa listagem não exaustiva, sublinha-se:

·         os posicionamentos e dimensionamentos adequados em termos de apoio à acessibilidade e à evacuação de emergência no âmbito da segurança contra risco de incêndio;

·         a adequada proteção relativamente ao risco de incêndio, possibilitando-se a proteção relativamente ao incêndio e a ausência de fumos durante o tempo necessário à evacuação do edifício;

·         a distribuição de patins, a boa geometria dos degraus e a sua adequada pormenorização em termos de "espelho" e "cobertor" adequadamente dimensionados, proporcionando excelente conforto no uso;

·         degraus e patins com superfícies não derrapantes ou mesmo anti-derrapantes;

·         corrimãos com continuidade ao longo de todo o percurso e a alturas convenientes para todos os tipos de utentes;

·         grande cuidado com a proximidade e a posição em relação a vãos exteriores;

·         e condições adequadas de visibilidade de modo a proporcionar o uso em agradáveis condições de segurança contra eventuais problemas de segurança relativamente a terceiros.



Fig. 02: as excelentes escadas comuns do edifício habitacional em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



E há que salientar que uma escada com degraus e lanços verdadeiramente confortáveis e bem cheia de luz natural é um verdadeiro convite para o uso do edifício e certos autores e projetistas, como Hertzberger, avançam ainda mais neste convite e alargam patins intermédios transformando-os em pequenos e apetecíveis espaços de convívio informal.

E conclui-se esta reflexão, de certa forma preliminar; sobre as escadas comuns referindo que a sua evidente importância funcional não pode de forma alguma fazer esbater a sua vital importância formal e no que se refere à múltipla apropriação e à identidades das soluções.

Elevadores


Se o elevador é necessário ou recomendável parece ser de boa prática que a sua instalação se caraterize por um conjunto de critérios que visem a sua transformação em espaços atraentes e estimulantes e não claustrofóbicos e formalmente muito pouco integrados na intervenção.

Quando são regulamentarmente exigidos ou quando são considerados como desejáveis em termos de melhoria de condições de conforto parece ser possível um trabalho de escolha dos elevadores a instalar que respeite alguns aspectos de que se destacam os seguintes:

·       Levar em conta a demora no acesso ao exterior, que depende da velocidade, número e caraterísticas do automatismo dos elevadores, bem como da sua proximidade aos fogos, em cada nível do edifício. (4)

·      Adequação maximizada entre tipo de condomínio social servido, tipos de elevadores aplicados e cuidados de manutenção regular e de emergência; certos casos deverão exigir elevadores com excecionais características de resistência ao vandalismo e de visibilidade relativamente aos seus patins de acesso (devido a aspectos de visibilidade de segurança).

·      Considerar que um pouco mais de espaço por pessoa, no interior do elevador, será um investimento que se reflecte, diretamente, em melhores condições de satisfação no uso, fazendo muito pouco sentido, até por razões de segurança e bem-estar, certas situações de verdadeira acumulação humana num espaço fechado muito limitado; afinal, se usamos o elevador diariamente, várias vezes, não será que este equipamento não deve ser mais exigente em termos de conforto real e de uma aparência mais cuidada e associada à restante Arquitectura, não surgindo como uma espécie de elemento mecânico mínimo e descaraterizado ou, por vezes, totalmente desintegrado do respectivo conjunto de espaços e acabamentos?

·      Considerar que o átrio dos elevadores não tem de ser, obrigatoriamente, um espaço fechado, sem luz natural, sem plantas e sem vistas exteriores. Afinal, quando entramos em casa, ou quando saímos de casa, seria natural e muito agradável que pudéssemos dar uma olhadela sobre o exterior, isto enquanto esperamos pelo elevador, e, assim, teríamos algum prazer suplementar no uso dessa máquina, que, funcionalmente, não tem de estar relegada para o miolo do edifício; sabe-se que é uma questão de escolher o que se aplica longe da fachada, mas não será que há alguns equívocos sobre a importância que tem, para um habitar mais agradável, a possibilidade de se ter uma relação com o exterior mais efectiva e frequente? E, neste caso, uma relação que pode antecipar, agradavelmente, o contacto com o exterior que iremos ter no átrio de entrada.



Fig. 03: a excelente integração dos elevadores em um dos edifícios em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



Finalmente, aflora-se, aqui, apenas um pouco, a questão da previsão de elevadores, no sentido de julgar que não fará muito sentido a tendência atual de uma previsão quase generalizada destas instalações. Nesta perspectiva afirma-se que um edifício de pouca altura poderá ser muito bem servido, em termos de conforto, por uma escada com boa luz natural e com degraus construídos com uma boa relação entre o respectivo “cobertor” e “espelho”; uma relação dimensional/funcional e ergonómica que - está provado - proporcionará excelentes condições de acessibiliodade a muitas pessoas, incluindo idosos.

Vale a pena sublinhar, aqui, que uma escada bem desenhada – e basta ir ao “velho” Neufert para tirar a fórmula (5) – é um meio de subir desníveis mais adequado do que uma rampa, porque o movimento do corpo se harmoniza melhor com a subida do degrau do que com a subida do mesmo desnível em rampa.

Naturalmente que se pensa, aqui, em edifícios baixos e onde, eventualmente, possa ser previsto um elevador como recurso possível de ser usado em condições de mobilidade reduzidas; e uma outra opção é mesmo a previsão de espaço para a futura instalação de um elevador – situação esta que não se recomenda porque, posteriormente, será muito difícil conseguir um consenso financeiro entre os condóminos que suporte uma tal decisão. No entanto não devemos deixar de ter em conta o “obstáculo” que uma escada constitui em termos de acessibilidade no uso corrente e, especificamente, para pessoas condicionadas na sua mobilidade, sendo interessante ter presente a equivalência que Alexander fez: entre subir um piso e percorrer 30m ao mesmo níve; e entre subir dois pisos e percorrer 90m ao mesmo nível. (6) Mas sialienta-se que se defende também a existência de edifícios multifamiliares baixos, servidos apenas por escadas muito agradáveis.

O que se visou e visará, aqui, nesta série de artigos, é uma defesa do elevador e da escada como elementos muito positivos e protagonistas de uma solução residencial que verdadeiramente nos agrade. Basta de soluções, que parecem de recurso, onde os elevadores são mínimos e dão para átrios doentiamente interiorizados e mal pormenorizados – muito seguros, parece, mas ambientale visualmente muito negativos (parecem entradas de serviço) – e onde as escadas estão escondidas, mal pormenorizadas e remetidas a uma função de reserva em termos de uma acessibilidade de recurso ou de emergência. Afinal, nada disto faz, realmente, sentido numa solução residencial que faça “viver” elevadores e escadas comuns como elementos adequadamente protagonistas da solução residencial geral onde se integram; escadas e elevedores comuns não podem ser elementos negativos que contribuem para o encerramento dos vizinhos nas suas células habitacionais individuais, antes pelo contrário devem ser elementos que apoiem no convívio natural entre quem vive próximo e por isso merecem adequado e pormenorizado projeto.



Notas:

(1) Ekambi-Schmidt, "La Percepción del Habitat".

(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 567 e 568.

(3) Charles Moore; Gerald Allen; Donlyn Lyndon, "La Casa: Forma y Diseño", p. 108.

(4) P. Jephcott, "Homes in High Flats", p. 134.

(5) Neufert refere algumas características fundamentais para o desenho dos degraus das escadas (Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", pp. 120, 121 e 123): os degraus mais cómodos têm 0.17m de espelho por 0.29m de cobertor (dois espelhos mais um cobertor=0.63m, que corresponde ao comprimento do passo normal, permitindo-nos subir os degraus "dois a dois" quando estamos apressados); cada centímetro de aumento da altura do espelho deve implicar a diminuição da profundidade do cobertor em dois centímetros.

(6)  Considera-se que uma escada entre dois pisos equivale a cerca de 30.00m de distância num percurso ao mesmo nível, passando este valor para uma dimensão estimada de cerca de 90.00m, quando a equivalência se faz com duas escadas vencendo dois pisos de desnível - Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 372.



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº460
Artigo XL da Série habitar e viver melhor

Escadas comuns e elevadores residenciais

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.